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A campanha CHEGA DE FIU FIU se propõe a combater o assédio sexual em espaços públicos. O primeiro passo foi apontar o problema, pois ele ainda é vastamente ignorado. Por isso, criamos o espaço de DEPOIMENTOS, onde mulheres (e homens!) relatam suas experiências, medos e traumas.

Agora, por iniciativa de Karin Hueck, colocamos no ar uma pesquisa que pretende dar nome, tamanho e cara a esse comportamento. Nunca vimos dados, estudos ou informações sobre intimidação sexual. Nos ajude a mudar esse cenário! Clique AQUI.

ATUALIZAÇÃO, 13/08: a pesquisa foi encerrada. Recebemos quase 8 mil respostas. Em breve, divulgaremos o resultado. Obrigada pela participação!

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olga mulheres series

olga mulheres series

Este é um post da série sobre a revolução dos personagens femininos na TV. Veja as matérias anteriores:  Séries de TV: Um Grande Momento para Ser Mulher e A Revolução Feminina Será Televisionada.


Tradicionalmente as mulheres são retratadas no mundo da ficção a partir dos mesmos estereótipos (três, para ser exato). Mas, na vida real, somos muitas e muito diferentes, e aos poucos estamos encontrando personagens femininas mais variadas, complexas e profundas. Enquanto o cinema ainda trata de ignorar metade da população mundial e seus perfis – em 2011 a porcentagem de mulheres latinas e asiáticas em filmes de grande bilheteria era quase a mesma de animais e extraterrestres -, a TV vem inovando na criação de papéis para as atrizes e dando espaço para novos perfis. Um deles é a mulher mais velha.

Em Hollywood, a vida começa aos… Bem, o quanto antes. A indústria cinematográfica norte-americana vem progressivamente diminuindo a idade de suas protagonistas. Aos 20 anos, Jennifer Lawrence desbancou Angelina Jolie para o papel da viúva (!) Tiffany, em O Lado Bom da Vida. Já em Garotas Malvadas, Amy Poehler, aos 33 anos, fez o papel de mãe de Rachel McAdams, na época, com 26. Nas telonas, as quarentonas estão fadadas a interpretar mães boazinhas ou madrastas neuróticas das starlets do momento

Só que, na TV, o cenário é diferente. Ela permite que as atrizes fujam dos clichês e recebam também papéis de mulheres poderosas e independentes, que administram empresas ou famílias – e sem a necessidade de disfarçar a idade.

olga connie britton

Connie Britton, 46 anos, por exemplo, alcançou a fama depois dos 40 anos e tudo isso graças aos seriados de sucesso em que participou: Friday Night LightsAmerican Horror Story. Atualmente, em Nashville, interpreta a cantora de música country Rayna James. Sua personagem tem embates com a jovem e prepotente colega de gravadora e a nova sensação das rádios, Juliet. Mas Rayna é mais experiente, ponderada e até mesmo mais querida. Quando vê que pode perder espaço para a concorrência de sangue novo, já arquiteta a ideia de criar um selo próprio – uma coisa mais mulher de negócio e menos rostinho bonito. Entre todas as reviravoltas profissionais, encontra tempo para ser uma mãe presente e engatar novos romances depois da separação.

Em 2007, o NY Times publicou In The Prime Of Their Time, matéria sobre as protagonistas maduras de seriados. O foco era o de que, em vez de encarnarem a tia solteirona nas telinhas, as atrizes de 40 anos para cima estavam ganhando papéis com sex appeal. Entre seus exemplos, estão Kyra Sedgwick (47 anos, The Closer), Holly Hunter (55 anos, Saving Grace), Lily Taylor (47 anos, State of Mind) e Courteney Cox (49 anos, Cougar Town). “A dinâmica mulher mais velha e homem mais novo, que um dia pareceu tão bizarra e patética a ponto de Tennessee Williams escrever tragédias a partir disso, ganhou um novo brilho.”

De lá para cá, a TV trouxe ainda mais profundidade às tais personagens, se distanciando do clichê das cougars, ganhando também nuances dramáticas e se aproximando da mulher real, que equilibra família, amor, vida social e trabalho – este último, sempre se apresentando com muita importância para a vida das personagens.

olga julianna margulies

Um grande exemplo é Alicia Florrick, a protagonista de The Good Wife, interpretada por Julianna Margulies, 47 anos. Quando a série estreou, esperávamos ver a “boa esposa” ficar ao lado do marido político durante um episódio de traição que vem a público. Não foi (completamente) o caso. A personagem Alícia foi construída com várias nuances. “Ela pode ser a nossa heroína, mas sua libertação e sua corrupção trabalham em sintonia. Na primeira temporada, ela usa conexões do marido para tirar a promoção de um colega. Na terceira temporada, ela ajudou forjar um documento o e dormiu com o chefe dela”, disse Emily Nussbaum, na New Yorker. Além disso, Alicia está sempre dizendo não ser uma boa mãe para seus dois filhos adolescentes.  Se é verdade ou não, não sabemos, mas quantas mulheres que não deixam seus lares pela manhã para trabalhar não pensam o mesmo?

olga gillian anderson

Entre as novidades da TV neste ano, está The Fall, drama policial estrelado por Gillian Anderson (44 anos, ex-Arquivo X). Sua personagem é a Stella Gibson, descrita pelo Guardian como “durona, mas com uma suavidade subjacente. Uma mulher que torna os homens fracos, mas também uma feminista que valoriza a companhia feminina”. A protagonista traz alguns dos melhores diálogos feministas que já vi na TV. Stella e um colega policial discutem sobre os crimes de um serial killer e quais informações divulgarão à imprensa:

Stella Gibson: “Não vamos nos referir às vítimas como ‘inocentes'”
Jim: “Mas elas eram inocentes”
Stella: “Mas e se a próxima vítima for uma prostituta? Ou uma mulher voltando para a casa, bêbada, de minissaia? Elas serão, de alguma forma, menos inocentes? Serão culpadas pelo ataque? A mídia adora dividir as mulheres entre virgens e sedutoras, anjos e vadias. Não vamos encorajá-la.”

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olga malala 02
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olga malala 02

Em 2010, quando fazia uma espécie de pós-graduação na Universidade de Nova York, escrevi um trabalho sobre um projeto da Unesco que alfabetizava meninas e mulheres do Paquistão por meio do telefone celular.

Por serem mulheres, elas não tiveram a chance de ir à escola. Não sabiam ler ou escrever. A iniciativa funcionava assim: elas tinham aula com uma professora algumas vezes por mês em uma sala de aula, mas os exercícios eram enviados por mensagens de texto e as garotas precisavam responder também por mensagem para serem avaliadas. Uma ideia interessante, para estimular e facilitar o aprendizado.

Com a ajuda da Unesco, várias das alunas responderam ao questionário preparado por mim. Eu queria somente saber a opinião delas sobre o projeto. As respostas me surpreenderam: uma contava que o marido não aceitava que ela finalmente estava sendo alfabetizada e aquilo foi motivo de briga entre o casal. Outra dizia que vivia mais tranquila, porque finalmente conseguia ler as manchetes dos jornais e os anúncios da televisão. Para uma outra paquistanesa, que era mãe, a alegria estava em finalmente poder ajudar os filhos com os deveres da escola.

Dois anos depois, ficamos sabendo da existência da pequena Malala Yousafzai, de 16 anos. Ela corria risco de morte, após levar um tiro na cabeça, ação do grupo Talebã. O motivo: Malala frequentava a escola e tinha uma opinião sobre a condição dela e de tantas meninas paquistanesas.

Quantas vezes, na infância ou adolescência, reclamamos por ter de fazer a tabuada, estudar para uma prova, fazer lição de casa? Malala quase foi assassinada por buscar esse conhecimento que para muitos de nós parece ser óbvio.

Mas Malala foi forte, sobreviveu. Talvez por conhecer um pouquinho sobre a condição das estudantes do Paquistão, tomei um carinho especial por Malala.

olga malala

Há duas semanas, a vi de perto. Acompanhei sua chegada nas Nações Unidas e a foto oficial com o Secretário-Geral, Ban Ki-moon. Era 12 de julho. Malala fazia 16 anos e era sua primeira aparição pública desde o ataque. Me pareceu humilde e um pouco tímida. Seguiu para a sala do Conselho de Tutela. A reunião era mais que especial: a entrada estava autorizada apenas para centenas de adolescentes do mundo todo, escolhidos para acompanhar de pertinho o discurso da jovem.

Corri para ver ao vivo, da nossa TV interna. Malala começou o discurso quase que pedindo desculpas por não saber muito bem o que as pessoas esperavam da fala dela… E, de repente, aquela menina começou a ganhar força. Sua eloquência, a precisão com que discursava e o tom de suas palavras me arrepiaram.

Malala relembrou o ataque que quase a matou. Disse que naquele momento, morreram nela o medo e a fraqueza, enquanto nasceram a força, a coragem, o poder. Ela explicou que perdoou os talebãs que a atacaram e que deseja que todas as crianças do mundo tenham acesso à escola, inclusive os filhos dos talebãs. Malala lamentou que os extremistas temam o poder dos livros e do ensino, segundo ela, exatamente porque eles não sabem ler ou escrever.

Durante todo o discurso de Malala, de quase 18 minutos, só conseguia pensar em uma coisa: o mundo precisava conhecer Malala Yousafzai. Infelizmente, ficamos sabendo de sua existência após uma ação terrorista. Mas torcemos, rezamos, e Malala sobreviveu.

E ali, na ONU, discursando em público pela primeira vez, Malala mostrou ser mesmo especial. A garota falava como uma mulher e provou já saber lutar pelos seus direitos.

Malala ensinou muita coisa ao mundo naqueles 18 minutos. Ensinou sobre condições de educação no Paquistão, sobre terrorismo, sobre fé, sobre perdão, sobre empoderamento feminino, sobre educação igualitária. Ela é única e por isso, renova a esperança em um futuro melhor para tantas Malalas, espalhadas por esse mundo.

“Numa noite de outubro, em 2012, o Talebã atirou no lado esquerdo da minha testa. Eles atiraram nas minhas amigas também. Eles acharam que a bala iria nos silenciar. Mas eles falharam. E do silêncio deles surgiu milhares de vozes. Os terroristas acreditaram que eles mudariam meus objetivos e brecariam minhas ambições, mas nada mudou em minha vida, com exceção disso: a fraqueza, o medo e a falta de esperança morreram. Força, poder e coragem nasceram.” Veja o discurso completo aqui:

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No dia seguinte ao discurso de Malala, na ONU, o Talebã divulgou uma carta aberta à jovem, explicando o motivo que levou ao atentado: ” Não vou argumentar se foi correto ou não, se você merecia ser morta ou não. Você disse, em seu discurso, que a caneta é mais poderosa do que a espada. E eles te atacaram pela sua ‘espada’ e não por seus livros e a escola”.


Leda Letra é jornalista da Rádio ONU. Seu depoimento é pessoal e não representa a opinião das Nações Unidas.

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