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Historicamente, o bordado é uma atividade fortemente associada ao universo feminino. Os motivos, cuidadosamente desenhados com linha, agulha e dedicação, costumam retratar cenas puramente ornamentais cuja função é apenas decorativa, como flores e animais. De modo geral, a prática já não é uma habilidade exigida das mulheres como outrora, tampouco conserva-se intacta a tradição de transmitir a técnica de mãe para filha. Um coletivo de bordadeiras paulistas, porém, resolveu resgatar o bordado de uma forma diferente, trazendo como tema imagens e conceitos que fazem parte do universo erótico das mulheres.

As amigas Vanessa Israel, Renata Dania, Lais de Souza, Amanda Zacarkim, Camila Lopes e Marina Dini, criadoras do coletivo Clube do Bordado, estão fazendo sucesso ao representar de maneira despudorada o corpo feminino, sexo oral, masturbação e palavrões em suas delicadas criações. “É muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica, que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher ‘pra casar’ deveria saber bordar, cozinhar, etc”, explica Vanessa. Um trabalho que subverte a noção de que bordar é uma atividade engessada e obsoleta, dando a ela uma nova roupagem e um verniz artístico. As criações podem ser conferidas no site do Clube e adquiridas sob encomenda.

O que é o Clube do Bordado e por que ele foi criado?

Marina: O clube foi criado a partir do desejo de aprender a bordar e ter uma atividade nova dentro das nossas rotinas. A Rê e Lalá, que moram juntas, pediram para a Camila algumas aulas em casa e acabaram convidando as outras meninas que ficaram interessadas. Semanalmente nos encontramos na casa das meninas para bordar, bater papo e trocar ideias. Hoje o clube está virando negócio já que vimos um interesse muito grande das pessoas em adquirir nossas criações.

Amanda: O Clube do Bordado é uma boa desculpa para se reunir. Digo isso porque, antes de começarmos os projetos temáticos, só a ideia de ter um Clube já servia para facilitar o encontro em meio ao caos da cidade, acompanhado de conversas, comidinhas e updates da vida. O Clube juntou amigas e amigas de amigas com a ideia de aprender algo feito à mão, e a facilidade de ter alguém ao seu lado que pudesse ensinar a melhor forma de executar tal ponto, dar pitaco sobre um desenho escolhido, essas coisas. Cada encontro foi se tornado um evento, porque as anfitriãs, Renata e Laís, são prendadas e adoram receber bem, então a soma de todos esses fatores fez com que os encontros semanais fossem tomando forma e ganhando ideias de coleções, temas, negócio… Até que todas nos tornássemos ‘donas’ desse filhote coletivo.

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Por meio de uma ferramenta muito inocente, vocês exploram a sexualidade feminina de uma maneira muito elegante. Por que a temática?

Laís: A Vanessa fez um bordado softporn e a gente amou! E um amigo nosso falou que ia ter uma feira/festival de arte pornô e sugeriu da gente tentar se inscrever. A gente curtiu a ideia de “formalizar” o clube. E a gente notou que é muito legal falar de um tema tão íntimo abertamente. Por incrível que pareça, sexualidade feminina ainda é um tabu. Trazer ela a tona, para ser pensada, discutida, é muito importante. Descobrimos que, fazer isso se apropriando de uma técnica tão tradicional e tida como “atividade para mulheres”, foi um jeito de subverter todos os significados. Tanto do bordado quanto da sexualidade. Eu convidei alguns dos meus amigos (homens) para bordar, e as respostas eram sempre em tom de deboche, como se fosse algo muito engraçado um homem bordando. Seguindo por essa linha vem a sexualidade feminina e uma tonelada de tabus. E por que não aproveitar para expor tudo isso? Fazer as pessoas questionarem o que elas entendem por um grupo de 6 mulheres que se encontra semanalmente para bordar. A gente gosta de brincar com esses elementos tidos como contraditórios, mas que fazem muito sentido juntos: tecidos delicados e floridos, cores suaves, estampas de bolinhas, tudo bordado com palavrões, insinuações se sexo oral, masturbação, perversões, etc. Acredito que o mais legal é mostrar que tudo isso pode vir junto, ou separado. Além do que o sexo, e tudo que envolve o tema, sempre foi um dos assuntos recorrentes dos nossos encontros, então era natural colocá-lo na nossa produção.

Vanessa: Partindo de um olhar mais superficial, sou apaixonada pelo contraste da técnica delicada e até inocente com nossas temáticas nada discretas. Porém, além disso é muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher “pra casar” deveria saber bordar, cozinhar, etc. Desde que começamos a expor os trabalhos do clube, temos recebido alguns depoimentos de senhoras que odiavam ser obrigadas a aprender a bordar dizendo que se tivessem tido a ideia de bordar o que bordamos, com certeza a atividade teria sido bastante prazerosa. (umas fofas!)

Como é o processo de criação de vocês?

Marina: No começo do clube não trabalhávamos com temas. Quando surgiu o tema do Popporn, cada uma de nós pesquisou ou criou imagens a partir de ideias particulares. Eu pelo menos pensei em algo que eu gosto e a partir daí sair em busca de referências e imagens. Agora já temos uma lista de coleções que queremos produzir e a próxima é a Cinéfilos. Fizemos uma pesquisa no Facebook para saber quais filmes as pessoas gostariam de ver bordados. A partir dessa lista fizemos uma seleção e acrescentamos vários outros que nós gostaríamos de bordar. Cada uma ficou responsável por alguns deles e a partir daí temos toda a liberdade de criar. Estamos coletando nossas cenas, imagens e frases favoritas e vamos desenvolver os bordados com a identidade única dos filmes e de cada bordadeira.

É preciso coragem para expor um assunto visto como tabu, como a sexualidade da mulher, de forma tão clara. Como tem sido tratar dessa questão de forma tão pública e tão artística?

Renata: O feedback tem sido ótimo! Até hoje os comentários são muito positivos e sempre recebemos mensagens de apoio e incentivo. De uma forma delicada e singela, temos representado através do bordado ilustrações e ideias com as quais muitas pessoas tem se identificado. É muito legal ver que hoje o bordado despertou nossa curiosidade e escolhemos representar nossas ilustrações através dessa técnica.

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Entrevistamos a Cris Bertoluci, para a Olga, no ano passado. Ela disse que o tricotar era uma forma de conquistar a liberdade. Vocês acreditam que o bordado também tem um quê de libertador? 

Marina: Acho que sim, bordar é libertador assim como todas as expressões artísticas. Um bom exemplo disso são os homens interessados em bordar com a gente. No passado isso dificilmente aconteceria, um homem jamais se diria interessado em uma atividade destinada unicamente à mulheres. A partir do momento que você tem um bastidor e uma agulha nas mãos o bordado pertence apenas à você e é muito libertador poder decidir o que quer fazer com aquilo.

Vanessa: Sim! Acredito que o bordado seja um ótimo caminho não só para a liberdade como as meninas já explicaram, mas também para o auto conhecimento, pois além de bordarmos juntas semanalmente, parte de cada projeto é executado de modo solitário, em que apesar de termos o foco e a atenção voltados para as mãos e a feitura da ilustração, a atividade permite a livre fruição do pensamento, possibilitando o exercício da paciência para desfazer e refazer cada ponto que foi para o caminho errado e também a compreensão do tempo das coisas, já que é um processo impossível de ser acelerado.

Vocês acreditam que o trabalho de vocês seja empoderador para mulheres?

Vanessa: Com certeza. Tentamos expor assuntos como masturbação feminina, tipos diferentes de corpos e diferentes sexualidades, com o intuito de fortalecer a auto estima das mulheres. O retorno tem sido tão positivo que já fizemos um encontro aberto para conhecer melhor as meninas que gostam do nosso trabalho e pretendemos fazer outros!

Laís: Muito! Impressionante o quanto. Quando eu comecei a bordar eu já senti a força que tinha colocar para fora algo que só existia na minha cabeça. Eu sinto esse empoderamento primeiro comigo. O bordado me deu força, para eu acreditar em mim mesma, na minha criatividade, na minha capacidade de me comunicar e impor e expor os meus pensamentos. E tudo isso fica refletido no bordado que eu faço. Teve uma amiga que veio me contar que amou a idéia, que ela queria aprender a bordar também e me contou até algumas intimidades da vida dela. Foi um diálogo que se abriu. E só com muito diálogo que a gente consegue mudar os nossos pensamentos. Nossa forma de ver o mundo e de se relacionar. Que o bordado seja uma forma de abrir muitos diálogos, questionamentos, reflexões. Para que, no futuro, a sexualidade deixe de ser um tabu.


Edição: Luíse Bello

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A OLGA quer saber: como o feminismo mudou a sua vida?

 

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“Nós ensinamos as garotas a se encolher, a tentar ser menores do que são. Nós dizemos para as garotas: ‘Você pode ter ambições, mas não demais. Você pode ser bem-sucedida, mas não demais. Do contrário, vocês vão assustar os homens.’ Porque eu sou uma mulher, é esperado que eu sonhe em me casar. É esperado que eu faça escolhas em minha vida sempre tendo em mente que o casamento é o mais importante. O casamento pode até ser uma fonte de alegria e amor e apoio mútuo, mas por que nos ensinam a desejar o casamento e não ensinam aos garotos a mesma coisa? Nós educamos nossas garotas para competir umas com as outras — não para trabalhos ou conquistas profissionais, o que acho que poderia até ser uma coisa boa — mas competir pela atenção dos homens. Nós ensinamos as garotas que elas não podem ser seres sexuais da mesma maneira que os garotos são. Feminista — a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.” —
Chimamanda Ngozi Adichie. 

 

 

 

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“Eu nunca tive um orgasmo”. Quando eu tinha 18 anos, uma amiga me contou isso. Na época, uma Gabriela fã de carteirinha da Sue Johanson ficou em choque. “Como assim nunca teve um orgasmo? Tu nunca te masturbou??” – ênfase no sotaque gaúcho carregadíssimo de Santa Maria.

A resposta dela fez todo sentido: “não, nunca me toquei”. Ela dizia que até alguns anos atrás achava “nojento”, que era uma “guria de respeito” e que quando teve vontade mesmo, o bloqueio já era muito grande. Que conselho eu podia dar à minha amiga na época? “Assista a um filme pornô”? Nem eu assistia, a pornografia nunca me deu um pingo de tesão, com humilhações, depilações exageradas, fantasias que nunca foram as minhas e uma boa dose de violência. Tenho certeza de que há várias meninas como ela por aí, com nojo e vergonha da própria vagina e sem qualquer consciência do próprio corpo, muito menos do que lhes dá prazer. E isso tem tudo a ver com opressão a mulheres e pornografia mainstream.

Muitas feministas são antipornografia. Como dizia a feminista Robin Morgan: “a pornografia é a teoria; o estupro é a prática.” Há bons argumentos nessa linha feminista, como o fato de que é uma indústria que existe somente para fazer dinheiro, que mastiga e cospe as mulheres e mostra violência, assédio e ofensas como algo  aceitável e parte da sexualidade masculina. Dizem que a pornografia promove padrões de beleza misóginos e que afeta a todos porque influencia a forma como homens veem mulheres. “A pornografia mainstream heterossexual dita uma ideia estreita e limitada do que é a sexualidade humana. Na pornografia, a sexualidade masculina pressupõe crueldade, coerção e degradação e a feminina como submissa ou aparentemente apreciadora de um tratamento cruel, coercitivo e degradante. A pornografia anula as necessidades sexuais das mulheres e dificulta a descoberta de seus próprios corpos e sua sexualidade”, diz um blog americano de feministas antipornografia.

Vamos falar sobre alguns fatos da indústria pornográfica que fazem com que muitas feministas se oponham à pornografia. É um negócio bilionário, centralizado na Califórnia, onde fica 90% da produção mundial, dirigido e produzido por homens e voltado ao prazer masculino através da dominação. Sabe-se que 80% das sobreviventes do tráfico de pessoas relatam que seus algozes usaram a pornografia para mostrar a elas como deveriam se comportar em seu estado de escravos sexuais. Muitas vezes, essas vítimas também são fotografadas e filmadas para a indústria pornô, a fim de multiplicar o ganho de seus sequestradores. Além disso, muitas atrizes pornôs relataram situações análogas ao tráfico humano e/ou à escravidão sexual. Uma delas é Linda Lovelace, famosa pela sua atuação em Garganta Profunda e eternizada como símbolo da revolução sexual dos anos 1970. Só que era tudo uma mentira: na verdade, Linda era torturada, espancada e obrigada sob ameaça de morte a fazer filmes pornográficos por seu marido abusivo Chuck Traynor. Depois de conseguir fugir dele, Linda virou uma ativista antipornografia e relatou os abusos a que foi submetida em uma série de entrevistas até morrer em um acidente de carro em 2002. Um filme sobre sua história foi lançado no ano passado, inclusive. Assista ao trailer:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=O0Dyx3SE2Yo?rel=0&w=560&h=315]

 

Como é um mercado, a competição impera na indústria pornô, e o conteúdo “evolui” para práticas cada vez mais “ousadas”. O gang bang de três caras com uma mulher de repente vira o “extreme gang bang”, com 10, 20, 150 caras. O sexo anal vira rosebud (só dê um Google se tiver estômago). Surgem canais especializados em surras e outras práticas cada vez mais extremas, “extreme isso”, “extreme aquilo”. E assim por diante, com atos cada vez mais violentos e mais destruidores de corpos femininos. Quando eu falo destruidores, não me refiro somente a DSTs e HIV, que já configuram um cenário aterrador, mas a ferimentos graves nos órgãos genitais. No St. James Infirmary, uma clínica criada por trabalhadores da indústria do sexo para trabalhadores da indústria do sexo (inclusive prostitutas e garotos de programa) em São Francisco (Califórnia), reconstituição de vaginas e ânus são procedimentos comuns. Isso sem contar as “ciladas” que estão sempre bombando nos sites pornôs, como a que um cara finge que vai contratar uma funcionária como forma de persuasão para receber sexo oral ou outros serviços. Claro que essas emboscadas não são reais e sim hermeticamente produzidas pela indústria pornô, mas a mensagem de enganar mulheres só pela diversão é transmitida com sucesso.

Nos Estados Unidos, há algumas organizações de proteção a atrizes pornôs. Uma delas é a Pink Cross Foundation, uma instituição de caridade criada por Shelley Lubben, ex-atriz pornô que deixou o ramo após ser infectada pelo vírus da herpes e perder metade do útero. Shelley é uma voz importante no movimento antipornografia americano e sua organização realiza e divulga uma série de pesquisas sobre a vida das atrizes pornôs. Alguns dados apresentados pela organização: a expectativa média de vida de uma estrela pornô é de 36 anos; 208 atores morreram de aids, overdose, suicídio, homicídio ou outras doenças somente em 2014 e 66% desses trabalhadores têm herpes, uma doença sem cura. Entre as lutas, está a aprovação, em 2012, de uma lei que exige o uso de camisinha durante as gravações em Los Angeles. Um ano após a lei, a produção caiu 90% na cidade, e continua diminuindo este ano. Em 2014, uma lei semelhante chegou a ser aprovada no estado da Califórnia, mas ainda enfrenta uma longa batalha no senado para ser mantida. Veja este vídeo produzido por alunos da Universidade de São Paulo sobre o lado obscuro do mundo pornô, com falas de Shelley:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hIok-mr12P0?rel=0&w=560&h=315]

 

Mais de 11 milhões de adolescentes assistem a filmes pornôs na internet, e sabemos que educação sexual não é um procedimento padrão em muitos lares e não passa de uma conversa sobre o uso de camisinha em muitas escolas. Segundo a britânica Sociedade Nacional de Prevenção à Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), a pornografia tem um efeito sombrio sobre as crianças e está ligada à proliferação de casos de estupros entre adolescentes. Muitos concordam com essa ideia. Para fazer o documentário “Amor e Sexo na Era da Pornografia”, a pesquisadora Maree Crabbe entrevistou dezenas de jovens sobre suas práticas sexuais e percebeu que muitos deles estavam sendo educados pela pornografia, normalizando comportamentos agressivos. Meninas relataram a Maree que muitas vezes não se sentiam confortáveis com os pedidos de seus parceiros, mas acabavam cedendo pela pressão ou vontade de agradar. Alguém aí lembra daquela cena de Girls em que Adam pede para Hanna rastejar pelo quarto e ejacula em suas costas? Bem por aí. A pornografia pode tornar as mulheres cada vez mais presas a fantasias pornográficas que não são as suas.

Cansada de lidar com esse tipo de postura ao transar com novinhos educados pela pornografia, a empresária americana Cindy Gallop resolveu fazer algo a respeito. “Como uma mulher mais velha, madura, experiente e confiante, eu não tive dificuldade de perceber que uma certa quantidade de reeducação, reabilitação e reorientação era necessária”, disse Cindy em uma TED em 2009 ao lançar a iniciativa Make Love Not Porn (“Faça amor, não faça pornô”, em tradução livre). Basicamente, é um site educativo que mostra as diferenças entre o sexo real e o dos “filmes adultos” através de desenhos e vídeos.

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Traduzindo…”Mundo pornô: homens adoram gozar na cara das mulheres e as mulheres adoram que eles gozem na cara delas. Mundo real: algumas mulheres gostam disso, outras não. Alguns caras gostam disso, outros não. Depende inteiramente da sua escolha.”

Eu adoro como o pesquisador da Universidade de Tel Aviv Ran Gavrieli explica por que parou de consumir pornô em uma TED. Ele fala da necessidade de uma desintoxicação não apenas de nossos corpos através da alimentação, mas de nossa mente. Ran conta ter percebido como ele passou a fantasiar com situações que nunca lhe agradaram de verdade como consequência dos pornôs que via, e como ele observou que a cultura pop utiliza cada vez mais referência pornográficas (cita Lady Gaga e Miley Cyrus), influenciando adolescentes a tirar fotos e vídeos nuas para seduzir seus paqueras e muitas vezes acabam expostas por eles, com vazamentos que terminam em bullying, humilhações incessantes, perseguição, depressão e às vezes até suicídio.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=gRJ_QfP2mhU?rel=0&w=560&h=315]

 

Apesar de tudo isso, eu não sou uma feminista antipornografia. Eu concordo com o que Wendy McElroy diz no livro XXX: A Woman’s Right to Pornography: “censura ou qualquer repressão sexual inevitavelmente se volta contra as mulheres, especialmente aquelas que querem questionar seus papeis tradicionais. A liberdade de expressão sexual, incluindo a pornografia, cria uma atmosfera de interrogação e exploração. Isso promove a sexualidade das mulheres e sua liberdade”.

Como em todas as áreas dominadas por homens, eu acredito que as mulheres devem tomar seu espaço na pornografia. Por exemplo fazendo pornô feminino, de mulher para mulher, como Erika Lust. A sueca formada em ciências políticas e feminismo na Universidade de Lund, uma das mais prestigiadas da Suécia, criou uma produtora de filmes eróticos vencedores de vários prêmios em festivais, inclusive o Feminist Porn Awards, que é praticamente um movimento em prol do pornô feminista. “É triste dizer isso, mas o sexo ainda é uma questão política”, disse Lust em uma entrevista à Tpm em 2012.

Sim, sexo é político. Michel Foucault já dizia em sua obra História da Sexualidade I que as sexualidades são socialmente construídas. “É pelo sexo, com efeito, ponto imaginário fixado pelo dispositivo da sexualidade, que cada um deve passar para ter acesso à sua própria inteligibilidade (…) à totalidade de seu corpo(…) à sua identidade”. Foucault vê a proliferação de sexualidades como uma extensão de poder. E quando as mulheres fazem pornografia para mulheres, elas tomam o poder para si. Quando uma atriz pornô reflete sobre o próprio trabalho e determina o que quer fazer e como quer fazer, a exemplo de Stoya, Sasha Grey e Mônica Mattos, ela está tomando poder para si mesma (mas vale lembrar que para cada Stoya há centenas de escravas sexuais).

Quando uma mulher se masturba e aprende a ter prazer sozinha, ela também está tomando poder sobre si mesma. Na história, a legitimação da masturbação feminina representou o uso do corpo como luta política, como as moças do Femen usam os seios. Isso ainda não mudou. É preciso se conhecer muito bem para saber o que dá prazer ou não, e para isso é preciso se tocar muito. Também é preciso saber o que gosta ou não para barrar aquele cara educado pelo pornô de tentar fazer coisas que você não quer. Para se impor sexualmente. Para se impor como mulher. E gozar muito. Porque siririca é o poder.

 

* E para quem quiser saber mais sobre pornô para mulheres, recomendo o blog da minha querida amiga Nina Neves, que fez um TCC a respeito.

* Fica para outra hora a discussão sobre como a pornografia mainstream também limita a nossa sexualidade.

IMAGEM: ART BY BlackHeart (Facebook e Instagram)

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entreviste uma mulher
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entreviste uma mulher

Seja de direita ou de esquerda, você hoje encontra milhares de colunistas, fontes e colaboradores em jornais, revistas, TV e internet para ajudar você a entender o mundo e formar a própria opinião. 
Existem vários grupos de minorias, no entanto, que têm relativamente poucos representantes. Um deles são as mulheres. Em 2013, a Universidade de Nevada pesquisou 352 matérias de primeira página do jornal The New York Times e viu que, dentre os entrevistados, 65% eram homens e apenas 19% eram mulheres (17% se referiam a fontes institucionais). No Brasil, a Superinteressante abordou o tema em 2010 e revelou que apenas 25% das fontes eram mulheres.

 

No jornalismo, essa ausência de fala feminina traz muitos problemas para a sociedade e para a democracia. O debate em assuntos de interesse especial às mulheres — como o aborto, por exemplo — ficam empobrecidos ou enviesados. Basta ver a reação recente à questão do assédio sexual em locais públicos: homens no spotlight da mídia se davam ao direito de opinar também sobre a dor que as mulheres sofriam, porque estão acostumados a ser os únicos a opinar sobre tudo. É necessário que a mídia busque a diversidade, incluindo as mais diferentes perspectivas e pontos de vista, para criar reportagens e análises mais ricas e complexas. E isso não será atingido se as opiniões de metade da população não forem levadas em conta.

 

Há vários motivos para essa baixa presença feminina nas notícias. Faltam mulheres em algumas áreas (como as engenharias, por exemplo). Há também um gap de gênero em posições de liderança:  sejam colunistas, blogueirosCEOs e diretores de empresas, ainda há um enorme território a ser conquistado pelas mulheres. Mas, apesar desses desequilíbrios de gênero existirem, sim, não precisamos perpetuá-los.

 

Queremos ajudar a mudar esse cenário. E, para isso, estamos lançando o projeto Entreviste Uma Mulher, que se propõe a encontrar essas mulheres e conectá-las aos jornalistas.

 

Publicamos aqui um documento com os contatos de mulheres inspiradoras, com trabalhos relevantes em suas áreas, que podem ser fontes em matérias, auxiliar em pesquisas, participar de debates e palestras. Atenção: não estamos dizendo que homens não devem ser entrevistados, nem que só as mulheres têm a palavra final sobre os assuntos a serem discutidos. O que propomos aqui aos responsáveis pelos veículos de comunicação é que prezem pela a diversidade ao elaborar suas pautas.

 

Quer procurar uma fonte?
Editores, repórteres, produtores de TV e promotores de eventos podem procurar um profissional que se encaixa em sua pauta — disponibilizamos uma mini biografia e suas áreas de conhecimento — e entrar em contato diretamente com as participantes. O documento está organizado em ordem alfabética. Então sugerimos que realize a procura (ctrl + F) por uma palavra-chave.Aceitar ou não o convite fica a cargo delas, claro.

 

Quer ser uma fonte?

Qualquer mulher pode fazer parte do projeto.

Confira abaixo o passo-a-passo dos dados que precisam ser fornecidos, separadamente, antes do seu perfil ir ao ar:
Mini Bio
Ela deve ser curta, objetiva e informativa. Escreva em terceira pessoa e de maneira formal Pedimos que não ultrapasse 4 linhas.
Áreas de expertise
Elenque os assuntos que você poderia abordar numa entrevista em formato de palavra-chave. Use termos amplos, assim como específicos. Como não separamos os perfis por área, é provável que seja por essas palavras que os jornalistas e comunicadores chegarão até você. Vale a pena caprichar!
Exemplo: “história da arte, modernismo, pintura, aquarela, curadoria de museu”
Contato
Publicamos site, portfólio, emails e telefones. Não se esqueça de nos enviar o DDD ou DDI.
Cidade
Nomeie a(s) cidade(s) onde você pode ser encontrado, caso o jornalista deseje realizar uma entrevista pessoalmente.
Exemplos do seu trabalho
Essa é apenas uma forma de nos assegurarmos de que você existe de verdade e evitar perfis fakes 🙂 Pode ser um portfólio, o site da sua empresa, textos acadêmicos…/

 

 

*
 Imagem: Leah Goren
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Who run the world? Girls!

Grandes mulheres, independente do estilo, ajudaram a moldar o mundo da  música. São protagonistas de suas histórias. Algumas, declaradamente feministas, fizeram letras que são um presente para questionarmos imposições e padrões determinados pela sociedade.

De Rihanna a Ella Fitzgerald. De Björk a Dolly Parton. De Beyoné a Joan Jett. De The Runaways a Amy Winehouse. Mulheres incríveis fazem parte da playlist internacional. Para ser mais justa, procurei escolher uma música de cada e deixar a lista bastante plural. Preparem-se para ouvir uma salada que contém r&b, heavy metal, pop, punk rock, country… Tem para todos os gostos!

 

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Você também pode ouvir pelo Rdio ou Grooveshark

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35%

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Nossa paper doll explica: nenhuma vestimenta pode legitimar uma violência sexual.

Leia mais:

– Folha de S. Paulo: Para 65%, mulher que mostra o corpo merece ser atacada

– Leonardo Sakamoto: Organizadora do “Eu não mereço ser estuprada” recebe ameaças de estupro


 

ARTE

Karina Pütz tem no sangue a arte do desenho. O avô pintava durante a 2ª Guerra e passou para o filho o gosto pelas artes, pela beleza das cores e do criar. Mesmo tendo tudo isso a seu favor passou muito tempo escondida. Hoje finalmente busca espaço para deixar escoar todas as cores, formas e emoções guardadas lá dentro.

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Campus Party
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É Semana de Campus Party e vou levar a OLGA para duas mesas de debates.

30/01
15h15 | A viagem dos jornoempreendedores
Organizada pela Orbitalab, a mesa vai juntar “jovens jornalistas que se aventuram pelo caminho independente, fora das grandes redações, para perseguir projetos relevantes”. Obrigada pelo “relevante”, pessoal. E, bem, pelo “jovem” também . O debate é aberto. Quem chegar, assiste.

31/01
20h30 | O impacto da discussão feminista online
Organizada pela Revista Galileu, terá também participação de Clara Averbuck (♥) e Guilherme Valadares (do PapodeHomem). A mediação será feita pela repórter Luciana Galastri, que admiro de montão.

Campus Party


Quem vem?

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Dez dias atrás, escrevemos que o assédio sexual em vias públicas era uma não-questão, um monstro invisível. Não poderíamos mais dizer o mesmo hoje. O assunto virou tema de debate em todo o país – em jornais, na internet, em programas de rádio e televisão. A violência verbal e física que as mulheres sofrem nas ruas passou de algo “natural” ou que “faz parte” para um problema a ser combatido por toda a sociedade.

Em 9 de setembro, divulgamos uma pesquisa com 7762 participantes, na qual 99,6% afirmou já terem sido  assediadas. Não era um estudo acadêmico, elaborado nos moldes tradicionais das universidades brasileiras. Mas havia sim uma metodologia consistente, que permitia tirar conclusões sobre como é feito o assédio no Brasil e que impacto ele tem sobre suas vítimas. Com um número tão grande de respostas, virou um retrato detalhado – e até assustador – da extensão do problema entre as mulheres brasileiras. Mais de 83% das mulheres afirmaram não gostar desse assédio. A maioria sentia medo de se defender, e muitas eram ofendidas ainda mais ao tentar fazê-lo.

A pesquisa tinha a pretensão de ser apenas uma luz sobre um problema – uma primeira exploração em um território ignorado. Acabou virando o estopim de algo muito maior. Nas cinco primeiras horas no ar, os resultados foram compartilhados por mais de 10 mil pessoas. Nesse mesmo dia, tivemos mais de 140 mil visualizações no Think Olga. Nos dias seguintes, centenas de milhares de pessoas compartilharam os resultados, ampliaram o debate, trouxeram novos depoimentos, agregaram informações e teorias, fizeram pontes com outros temas. Mais do que isso, abraçaram essa causa esquecida, mas tão importante. O resultado é que agora a campanha “Chega de Fiu Fiu” é apenas uma pequena parte de um movimento muito amplo direcionado a trazer dignidade à qualquer mulher que caminhe pelas ruas – não importa onde esteja ou a roupa que use.

Recebemos relatos surpreendentes. De mulheres que sofrem abusos terríveis, que passam por constrangimentos todos os dias, e não sabem o que fazer a respeito. Algumas contavam sua história pela primeira vez. Muitas culpavam a si mesmas pelo que aconteceu. Outras pediam ajuda para tentar fazer justiça. Havia também aquelas que ajudavam as demais com mensagens de coragem: “não desista, não abaixe a cabeça, você não é a culpada”.

Muitos homens também contaram a sua história. Alguns sequer sabiam que esse era um problema. Afirmavam já ter assediado mulheres, mas sem terem se dado conta do mal que causavam. Demonstravam-se arrependidos. Outros relatavam também terem sofrido assédio – tanto na rua quanto no trabalho. Nesse caso, não sentiam o medo da violência, mas mostravam-se também incomodados com o desrespeito.

E, claro, como acontece em qualquer tentativa de mudar a situação, nós e as pessoas que lutávamos contra o assédio fomos bastante atacadas. Recebemos ofensas e ameaças de violência. Inventaram interesses ocultos nos números que apenas coletamos e divulgamos na íntegra. Para alguns, estávamos tentando acabar com qualquer tipo de proximidade entre homens e mulheres. Mas existe um limite bastante claro entre um flerte saudável e uma agressão verbal e é muito bom que estejamos finalmente discutindo essa diferença.

A campanha Chega de Fiu Fiu não acaba aqui. Temos outras ações programadas, e agora com a certeza de que não estamos sozinhas nesse caminho. Agradeço às quase 8 mil mulheres que responderam nosso questionário e às muitas outras que, corajosamente, se engajaram no assunto e criaram sua própria luta na busca por mudanças e respeito. E aos homens que também estão se dispondo a inventar uma sociedade em que todos possam interagir de maneira respeitosa.

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Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

olga onde ja recebeu cantada

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

olga voce acha que ouvir cantada é algo legal

Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?
Sim 81%
Não 19%

olga voce deixou de fazer algo com medo de assedio

Você já trocou de roupa pensando no lugar que você ia por medo de assédio?
Sim 90%
Não 10%

olga voce ja trocou de roupa por medo de assedio

Você responde aos assédios que ouve na rua?
Sim 27%
Não 73%

olga voce responde ao assedio

Se sim, como?

SeSim

Se não, por quê?

SeNao (1)

Quais cantadas você já ouviu em espaços públicos?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Linda  84%
Gostosa  83%
Delícia  78%
Fiu fiu  73%
Princesa  71%
Nossa senhora  64%
Ô lá em casa  62%
Boneca 47%
Vem cá, vem  44%
Te pegava toda  36%
Te chupava toda  36%
Outros  4%

olga voce ja ouviu alguma dessas cantadas

Se você já recebeu cantadas indiscretas no trabalho, de quem foi?  (era possível selecionar mais de uma opção)
De um superior  13%
De um colega  21%
De um cliente  14%
De um funcionário  9%

olga cantada no trabalho

Que tipo de cantada você já ouviu no ambiente de trabalho?

trabalho

Você já foi assediada na balada?
Sim 86%
Não 14%

olga voce ja foi assediada na balada

Já tentaram te agarrar na balada?
Sim 82%
Não 18%

olga ja tentaram te agarrar na balada

Se sim, como?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Pelo braço 68%
Pelo cabelo 22%
Pela cintura 57%
Outros 4%

olga corpo agarrar na balada

Já passaram a mão em você?
Sim 85%
Não 15%

olga ja passaram a mao em voce

Se sim, onde?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Peitos 17%
Bunda 73%
Cintura 46%
No meio das pernas 14%
Outros 4%

olga ja passaram a mao onde

Você já foi xingada porque disse não às cantadas de alguém?
Sim 68%
Não 32%

olga voce ja foi xingada porque disse nao as cantadas

Se sim, do quê?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Metida 45%
Baranga 16%
Gorda 13%
Feia 23%
Mal-comida 25%
Outros 17%

olga xingamentos

Por favor, conte um episódio de cantada que ficou marcado na sua lembrança (alguns exemplos):

  • Um dia saí de casa para buscar fotos que eu havia mandado revelar. Era um dia frio e eu estava bastante agasalhada, nada estava amostra. E mesmo assim, por onde eu passava homens me observavam com olhares maliciosos, comentários baixos de desmerecimento e um deles até chegou a dizer “Ai, se essa buceta estivesse na minha cama”.
  • Em um bota fora da faculdade um menino tentou me agarrar fazendo uma chave de pescoço, enquanto dizia que eu era linda.
  • Em uma balada um menino passou a mão em minha bunda, por baixo da saia.
  • Eu tinha uns 11 anos. Era carnaval, as ruas cheias. Eu era uma criança. Lembro que estava de shorts não muito curto e uma camiseta. Um homem passou a mão em mim e acariciou meu cabelo dizendo: “Fooooofa” mostrando a língua depois.
  • Já estava perto de dobrar a esquina (da rua onde moro), à noite. Um cara vinha na direção contrária a minha. Quando chegou perto de mim, falou baixo: “Quer chupar meu pau?”. Pensei logo q seria estuprada, pq a esquina da minha rua é bem deserta e tal.
  • Eu estava voltando para casa, a pé. A rua estava praticamente vazia no ponto onde me encontrava e ao meu lado, uma motocicleta reduziu a velocidade. O motoqueiro ficou dizendo frases como “sobe aqui e eu te mostro como se trepa”, “meto em você todinha, delícia”. Fiquei constrangida e assustada, decidi ignorar o motoqueiro e ele foi embora sem que eu o olhasse. Tive medo de ser estuprada.
  • Eu tinha dez anos, estava andando de bicicleta e um cara, que veio andando de bicicleta, passou do meu lado e apalpou a minha bunda. Fui para casa chorando, corri falar com os meus pais chorando muito. Eu tinha me sentido invadida, mas não tinha entendido direito o que havia acontecido.
  • Andando na rua as 19 da noite em frente ao shopping Patio Savassi, eu, com 16 anos, ignorei um grupo de homens que me assediaram com palavras e levei um tapa com muita força na bunda. Chorei de dor e humilhação.
  • Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, o cara veio se chegando pro meu lado no ponto de ônibus, com o pau pra fora, batendo uma punheta pra mim, me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou, nem vi para onde ia, só pra fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Depois que contei, ela perguntou: “E o que você fez pra provocar o homem, ele não colocou o pau pra fora à toa”. Depois disso, nunca mais contei nenhum episódio de assédio, abuso ou qualquer outra coisa pessoal que aconteceu comigo.
  • Um cara de bicicleta invadiu a calçada na qual eu caminhava tranquilamente, à noite, e passou a mão nos meus seios.
  • Estava num show de rock e alguém enfiou o dedo na minha bunda. Eu tinha 15 anos. Parece até engraçado falar assim, mas foi traumático e doentio.
  • Andava a pé até a academia quando tinha 15 anos. Como, com o tempo, comecei a ficar muito incomodada com as cantadas, olhares, motoqueiros buzinando, acabei decidindo que ia colocar uma calça moletom e camiseta por cima da roupa de academia. Com isso, as cantadas imediatamente pararam, mas eu passava muito calor com 2 roupas, andando na rua em dias de sol.
  • Uma vez um sujeito masturbou-se ao meu lado no ônibus. Fiquei tão em choque que só tive a reação de sair do local desesperada. Não consegui gritar, nem fazer um escândalo.
  •  Era nova, mais ou menos 16 anos, estava passando por uma rua sozinha e me deparei com um grupo de homens torcedores de algum time que não me lembro (estava num bairro próximo a um estágio em Belo Horizonte, num dia de jogo). Eles começaram a me “cantar”, de repente estão passando a mão em mim, pelo menos uns quatro homens me empurrando. E eu desesperada saí andando rápido, tentando me soltar. Foi desesperador… Senti um medo real de me estuprarem coletivamente.
  •  Estava andando despreocupada, com fones de ouvido. Eram 17 horas e a rua estava bem movimentada, inclusive com vário pedestres fazendo caminhada. Um homem de moto diminui a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas, de uma forma totalmente brutal. Fiquei assustada e o xinguei. Demorei uma semana para esquecer a sensação daquela mão no meio das minhas pernas.
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olga game of thrones

olga game of thrones

A série Game of Thrones, derivada da sequência de livros Crônicas de Gelo e Fogo escritos por George R. R. Martin, tem apenas três temporadas e já figura entre as produções mais bem-sucedidas da história da TV norte-americana. Os livros carregavam milhares de fãs por onde passavam e, depois da estreia da série em 2011, a comunidade de admiradores tomou forma e teve uma adesão massiva das mulheres – algumas ainda viam o tema “medieval-fantasia” com certo preconceito.

Ao transferir as histórias de Westeros das páginas para as telas, os criadores David Benioff e D. B. Weiss tomaram uma decisão que mudaria os rumos da narrativa: dar mais destaque às personagens femininas. Quem acompanha provavelmente percebeu que a série teve uma mudança gradativa, desde uma primeira temporada recheada de nudez feminina e batalhas até a terceira, com mais foco nos diálogos e nos dramas pessoais dos personagens.  E foi assim que a série da HBO colocou no centro das atenções uma cavaleira, uma rainha, uma menina fugitiva e uma herdeira com sangue de dragão.

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BRIENNE DE TARTH

Brienne se tornou cavaleira da Guarda do Rei por opção. Ela se comporta exatamente como um soldado é treinado a se comportar, no entanto, não é considerada como “um dos soldados” entre os outros cavaleiros. Os homens a desprezam e fazem piadas, e as mulheres não sabem muito o que pensar, abominando-a por abrir mão de sua feminilidade e não aderir às função de donzela que o gênero exige nessa sociedade. Brienne vive entre os dois mundos sem acesso total a nenhum, o que define a sua personalidade e sua postura diante dos fatos. Apesar dessa aparente falta de gênero, ela tem plena consciência de sua identidade feminina e sabe que ter um título real e andar armada não a protege de sofrer abusos, sexual ou moral.

É uma personagem profunda e complexa. O interessante de seu arco até o momento na série de TV é que, apesar de todos os riscos e conflitos previstos, Brienne escolheu ser um cavaleiro, optou por desafiar as normas e escolheu a quem se aliar. Ela não foi forçada e nem manipulada a chegar até ali. Tudo que ela faz é por sua escolha própria.

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Cersei Lannister

Uma personagem central do argumento de Game of Thrones, mesmo sem nunca se sentar em referido trono, é Cersei Lannister. Pertencente à rica e poderosa família Lannister, ela foi casada com o rei dos sete reinos. Consequentemente, seu filho também se tornou o rei. Cersei tem uma vida de privilégios, porém ela já deixou claro que nunca conseguiu aquilo que ela mais deseja: o controle sobre sua própria vida algo que, segundo ela mesma, “só poderia conseguir sendo homem”. Sua vida é guiada pelo poder (se há alguém que completamente concentrado neste jogo dos tronos é Cersei). Ela também é uma das únicas que quebra os tabus da sexualidade feminina reprimida em Westeros, admitindo seu poder de sedução e seu gosto pelo sexo. Costuma, inclusive, fazer uso da sua sexualidade para ajudá-la a ganhar ou manter seu poder sobre as peças do jogo.

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DaEnerys Targarien

Um texto sobre as mulheres de Game of Thrones não estaria completo sem mencionar essa garota. Daenerys Targarien é o rosto mais famoso da série e representa muito bem a força que as personagens femininas ganharam entre as páginas e a TV. Também chamada de Khaleesi, “rainha” na língua Dothraki, ela é um exemplo de como alguém pode ser forte sem ser fisicamente capaz de entrar em uma batalha. Sua jornada começa sob o domínio de seu irmão, que a vende para o rei dos Dothraki em troca de um exército. Porém, ao se tornar esposa de um líder bárbaro, ela aprende que pode adquirir poder para si mesma, e se adapta à cultura Dothraki em busca de seu objetivo. Com o passar dos capítulos, apesar de sofrer cada vez mais provações e tragédias, Khaleesi se torna mais forte e determinada a tomar o trono dos Sete Reinos. Nesse caminho, ela aprende que herdou a genética de dragões de sua família e se torna “mãe” de três dragões.

Daenerys tem um “quê” de justiceira, mas ela não é retratada como uma salvadora pura e inocente. Há uma certa sujeira realista deixada no rastro de suas conquistas e conflitos graves em suas decisões. Ela confia em seus dragões para incendiar o que for preciso pelo caminho, mas simplesmente porque uma espada é pesada demais. E isso não tira o crédito de todo o trauma que ela não só sobreviveu, como superou de cabeça erguida. Khaleesi é durona, e permanece obstinada sem perder sua compaixão ou sua feminilidade.

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Arya Stark

Arya Stark, filha caçula do rei do norte, surge na série como uma das crianças de Winterfell. Uma menina impetuosa de 9 anos, Arya rejeita tudo o que sua irmã Sansa adora: bordado, dança e histórias românticas. Em vez disso, ela luta com espadas de madeira com seu irmão mais novo, Bran e, mais tarde, aprende a lutar com uma espada de verdade dada a ela por seu meio-irmão, Jon Snow. A menina já rejeita as construções sociais de feminilidade e papéis de gênero, apesar de sua pouca idade. Assim como Daenerys, Arya é marcada por tragédias e passa a descartar seu privilégio social como um membro da nobreza, escapando da capital Porto Real disfarçada de menino camponês. Ela parece instantaneamente confortável em sua nova identidade e, apesar de se concentrar na vingança contra aqueles que destruíram sua família, ela sempre demonstra um desejo de encontrar um lugar onde seja aceita como é.

Estes foram quatro exemplos, mas Ygritte, Ros, Osha, Melisandre, Sansa, Margeary, Catelyn, Talisa e Shae têm tanta importância quanto elas. Não são esteriótipos, nem arquétipos. Se despejarmos nossas esperanças feministas em qualquer uma delas, até mesmo em Daenerys Targaryen, provavelmente vamos acabar nos decepcionando. Contudo, quando comentamos sobre querer ver “personagens femininas fortes”, é disso que estamos falando. Não um exército de super-heroínas, ou mulheres maravilhosas sem vida amorosa complicada ou falhas morais, mas uma variedade de seres humanos complexos, problemáticos e talvez não muito confiáveis.


Letícia Souki é jornalista, pós-graduada em processos criativos e fã de ficção científica e seres fantásticos.


Este é mais um post da série sobre a revolução dos personagens femininos na TV. Veja as matérias anteriores:
– A Revolução Feminina Será Televisionada
– Séries de TV: Um Grande Momento Para Ser Mulher
– Mulheres Mais Velhas Na TV, a Conquista

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