editathon olga2

editathon olga2

A internet não gosta das mulheres. É verdade e já explicamos um dos porquês aqui. Então que tal lutar para tentar, aos poucos, muda esse cenário? Convido a todas (os) a participar do EDIT-A-THON DAS MINAS, dia 26 de Abril, e aumentar o conteúdo sobre o universo feminino na Wikipedia brasileira. Inscreva-se gratuitamente no Cinese.

O que é um edit-a-thon? 

É uma maratona de 8 horas de edição das páginas da Wikipedia em português. Interessadas (e interessados também) aprenderão a usar a ferramenta de publicação e, durante o dia inteiro, irão acessar os perfis de grandes mulheres e gerar novo conteúdo e informações.

Por que fazer um edit-a-thon?

A Wikipedia, ferramenta aberta de democratização do conhecimento, permite que qualquer pessoa crie tópicos, edite artigos e ajude a espalhar informações corretas pela web. Mas apesar de ser uma ferramenta pública e extremamente popular, estima-se que apenas 13% dos editores da enciclopédia online sejam mulheres. O resultado disso é que muitos tópicos do universo feminino são esquecidos.

Exemplos:
– A da Lovelace, mãe da programação, tem uma página em português muito menor do que a em inglês. E a em inglês é muito menor também do que a do Alan Turing, um dos pioneiros da ciência da computação.

– Vamos para tempos modernos. A página da Lena Dunham, atriz que trouxe toda uma nova e importante discussão sobre padrões de beleza na TV, tem cinco linhas. CINCO. Nós já escrevemos mais sobre a atriz aqui neste blog do que o disponível na Wiki.

– A página da Gabriela Leite é minúscula também, se comparada a todo o trabalho que ela fez em vida. Não é lamentável?

editathon olga

A nossa proposta é criar grupos temáticos (arte, cinema, esporte, ciência, mulheres com deficiência, política, história, etc) para que todas as (os) participantes possam se identificar com as edições.

Dá trabalho? Dá. Mas é uma chance de gerar mudanças para valer! 

Parece insignificante? Bem, não é mesmo! A Wiki é o primeiro resultado que aparece no Google quando fazemos uma pesquisa. É uma das portas de entrada para o conhecimento sobre algo/alguém.

Mais boas notícias: o edit-a-thon será feito em um co-working space cujos proprietários não nos cobrarão nada (no fim do evento, é possível doar algo, 1 real mesmo, se achar válido. Mas não é obrigatório, claro!). É possível que teremos a companhia de uma pessoa da Wikipedia para nos orientar sobre a edição.

Traga seu notebook, sugestões e boa vontade e venha espalhar conhecimento com a gente!


Os flyers foram feitos com carinho pela Fernanda Carolina Abarca.

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carnaval 2

Caia na farra, mas não caia na ideia de que se pode tudo no Carnaval.  Ainda mais quando esse “tudo” inclui diversas formas de violência contra a mulher. Na internet, já surgiram diversos alertas e campanhas contra o assédio sexual durante a festa – entre elas, uma da revista masculina VIP, para onde tive a oportunidade de escrever um texto sobre a Chega de Fiu Fiu. Veja abaixo:

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Revista VIP – Não seja escroto neste carnaval

Campanha voltada para o público masculino. Boa iniciativa. E não sejam escrotos neste carnaval, nem nunca!

“No carnaval, pode tudo” é uma frase que deveria dar arrepios em qualquer um. A festa, por vezes, mascara a violência sexual que muitas mulheres sofrem durante a celebração do feriado. Puxões, encoxadas, beijos forçados, mão boba, um tapinha que “não dói”… Quem nunca ouviu falar dessas histórias?

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Página do Facebook Acontece Comigo – No Carnaval, a fantasia é minha. O corpo é meu.

O espaço divulga vídeos sobre violência contra a mulher e depoimento de vítimas de assédio como o acima.

Como resultado dessa cultura machista e opressora, o carnaval para as mulheres acaba sendo, muitas vezes, justamente o contrário da liberdade. Vítimas de diversas violações e atrocidades, se sentem acuadas. O cenário carnavalesco se transforma em espetáculo de opressão.

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Governo da Paraíba – Não mascare a violência contra as mulheres

Feliz de finalmente ver o poder público se engajando neste debate.

No Carnaval não pode tudo. Por isso lançamos a campanha “Não mascare a violência contra as mulheres”. Se você presenciar ou sofrer esse tipo de violência, denuncie. 

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Um dia ainda viro cartunista – Carnaval: alegria, orgia e bacanal COM CONSETIMENTO, por favor.

Página da cartunista Didi Helene, que divulgou ilustração em apoio à campanha do Acontece Comigo.

“Você quer?”, “Posso?” e “Sim, eu quero”, não custa nada. 
#ficaadica sempre (não só pro carnaval!).

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Marcha das Vadias (Recife) – Quero brincar como quiser! 

A página do movimento está publicando diversas imagens contestando a violência sexual.

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olga assedio

olga assedio

O país já está há semanas debatendo o assédio sexual em locais públicos. No entanto, ontem, a Mídia Ninja reportou que, durante as manifestações dos professores no Rio de Janeiro, Anne Melo foi detida por ter respondido ao assédio de um oficial do Batalhão de Choque da Polícia Militar do RJ. Ele a chamou de “gostosa”. Ela não gostou, retrucou e foi levada para o camburão por cinco PMs. Veja o vídeo.

Não estamos apenas falando de assédio sexual, mas também de abuso de autoridade. Onde está Ane Melo? O que aconteceu com ela depois da detenção, longe dos olhos dos outros manifestantes? 

O que deveria ser inaceitável, no entanto, acontece com mais frequência do que imaginamos. Abaixo, alguns relatos de assédio envolvendo policiais retirados da seção depoimentos da campanha Chega de Fiu Fiu

  • “Descendo uma rua da Liberdade, em SP, um policial deu bom dia pra mim. Respondi educadamente bom dia, e ele fala ‘bom dia, coisa linda’. Falei que ele não tinha direito de falar comigo daquele jeito, ele disse que era autoridade, eu xinguei ele de abusado, ele disse que eu estava desacatando a autoridade. Eu disse que ele tava me desacatando, xinguei de escroto e sai andando.” JULIA
  • “Às vezes alguns policiais olham e/ou mandam uma cantada. Contei uma vez de um policial para um ex namorado e ele muito ciumento ficou bravo comigo e ainda disse que eu gostava.” DANI
  • “Uma vez eu saí com uma amiga, ela tinha uns 18 e eu ainda 16, dois policiais acharam que éramos namoradas e começaram a desfiar comentários como ‘depois é estuprada e não sabe porque, tem que aprender mesmo’. Se respondêssemos seria desacato, e quem ouviu nada pôde fazer também. Era sair de perto e tentar esquecer, e sabe se lá quantas meninas ouviram coisas assim antes ou depois de nós e ‘fugiram” também.” ANA
  • No ano passado, estava procurando uma casa de sucos que ficava próxima ao Parque Trianon, na Alameda Santos, mas que por alguma razão não conseguia encontrar. Era noite e depois de ir e voltar algumas vezes, passando pela quadra do Parque escura e vazia, vi um PM e me dirigi a ele para perguntar se ele conhecia a casa de sucos ou sabia em qual quadra ficava a Peixoto Gomide (não conseguia encontrar a placa e sempre fico confusa com os totens da Paulista: é essa ou é a próxima?). Eu estava com um pouco de receio de ficar andando por ali porque sempre escuto histórias de como o Trianon é perigoso para as mulheres à noite. Vi no PM a falsa segurança que precisava para parar alguém e pedir informação. Me lembro de ter dito algo como “Com licença, o senhor por favor poderia me ajudar porque estou um pouco perdida?”. E ele “Mas o que uma moça linda como você faz andando sozinha por aqui?”, com um sorriso de canto de boca horroroso. Eu, que sempre contesto as cantadas que recebo, confesso que fiquei paralisada. Era um policial, armado, estava escuro e eu estava ali do lado de um monte de moitas do Parque Trianon. Insisti, séria, que estava procurando a Peixoto Gomide e ele insistiu no “meu doce, minha linda”. Fiquei ainda mais apavorada, mas uma senhora passou por nós e aproveitei para lhe perguntar, já que o PM só me dirigia perguntas pessoais “Está indo encontrar seu namorado? Ele te deixa andar assim sozinha?”. Ela me deu a direção e fui andando com ela, tremendo de nervoso. Estava brava por não ter reagido, brava porque sabia que o PM estava usando de sua autoridade para me dar cantadas sem que eu pudesse reagir e arrasada por ter confiado que um agente público fosse instruído a ter uma conduta minimamente decente para com os cidadãos. Mas só sei que meu medo de denunciar sem ter prova alguma – que não o meu testemunho – foi maior (que força tinha eu, sozinha?), assim como meu medo de reagir e ser presa por desacato também foi maior. Escolhi a cautela, porque tive medo das inúmeras violências que poderia sofrer. Mas é preciso cobrar da SSP uma postura clara sobre o assunto. B.C.
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Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

olga onde ja recebeu cantada

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

olga voce acha que ouvir cantada é algo legal

Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?
Sim 81%
Não 19%

olga voce deixou de fazer algo com medo de assedio

Você já trocou de roupa pensando no lugar que você ia por medo de assédio?
Sim 90%
Não 10%

olga voce ja trocou de roupa por medo de assedio

Você responde aos assédios que ouve na rua?
Sim 27%
Não 73%

olga voce responde ao assedio

Se sim, como?

SeSim

Se não, por quê?

SeNao (1)

Quais cantadas você já ouviu em espaços públicos?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Linda  84%
Gostosa  83%
Delícia  78%
Fiu fiu  73%
Princesa  71%
Nossa senhora  64%
Ô lá em casa  62%
Boneca 47%
Vem cá, vem  44%
Te pegava toda  36%
Te chupava toda  36%
Outros  4%

olga voce ja ouviu alguma dessas cantadas

Se você já recebeu cantadas indiscretas no trabalho, de quem foi?  (era possível selecionar mais de uma opção)
De um superior  13%
De um colega  21%
De um cliente  14%
De um funcionário  9%

olga cantada no trabalho

Que tipo de cantada você já ouviu no ambiente de trabalho?

trabalho

Você já foi assediada na balada?
Sim 86%
Não 14%

olga voce ja foi assediada na balada

Já tentaram te agarrar na balada?
Sim 82%
Não 18%

olga ja tentaram te agarrar na balada

Se sim, como?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Pelo braço 68%
Pelo cabelo 22%
Pela cintura 57%
Outros 4%

olga corpo agarrar na balada

Já passaram a mão em você?
Sim 85%
Não 15%

olga ja passaram a mao em voce

Se sim, onde?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Peitos 17%
Bunda 73%
Cintura 46%
No meio das pernas 14%
Outros 4%

olga ja passaram a mao onde

Você já foi xingada porque disse não às cantadas de alguém?
Sim 68%
Não 32%

olga voce ja foi xingada porque disse nao as cantadas

Se sim, do quê?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Metida 45%
Baranga 16%
Gorda 13%
Feia 23%
Mal-comida 25%
Outros 17%

olga xingamentos

Por favor, conte um episódio de cantada que ficou marcado na sua lembrança (alguns exemplos):

  • Um dia saí de casa para buscar fotos que eu havia mandado revelar. Era um dia frio e eu estava bastante agasalhada, nada estava amostra. E mesmo assim, por onde eu passava homens me observavam com olhares maliciosos, comentários baixos de desmerecimento e um deles até chegou a dizer “Ai, se essa buceta estivesse na minha cama”.
  • Em um bota fora da faculdade um menino tentou me agarrar fazendo uma chave de pescoço, enquanto dizia que eu era linda.
  • Em uma balada um menino passou a mão em minha bunda, por baixo da saia.
  • Eu tinha uns 11 anos. Era carnaval, as ruas cheias. Eu era uma criança. Lembro que estava de shorts não muito curto e uma camiseta. Um homem passou a mão em mim e acariciou meu cabelo dizendo: “Fooooofa” mostrando a língua depois.
  • Já estava perto de dobrar a esquina (da rua onde moro), à noite. Um cara vinha na direção contrária a minha. Quando chegou perto de mim, falou baixo: “Quer chupar meu pau?”. Pensei logo q seria estuprada, pq a esquina da minha rua é bem deserta e tal.
  • Eu estava voltando para casa, a pé. A rua estava praticamente vazia no ponto onde me encontrava e ao meu lado, uma motocicleta reduziu a velocidade. O motoqueiro ficou dizendo frases como “sobe aqui e eu te mostro como se trepa”, “meto em você todinha, delícia”. Fiquei constrangida e assustada, decidi ignorar o motoqueiro e ele foi embora sem que eu o olhasse. Tive medo de ser estuprada.
  • Eu tinha dez anos, estava andando de bicicleta e um cara, que veio andando de bicicleta, passou do meu lado e apalpou a minha bunda. Fui para casa chorando, corri falar com os meus pais chorando muito. Eu tinha me sentido invadida, mas não tinha entendido direito o que havia acontecido.
  • Andando na rua as 19 da noite em frente ao shopping Patio Savassi, eu, com 16 anos, ignorei um grupo de homens que me assediaram com palavras e levei um tapa com muita força na bunda. Chorei de dor e humilhação.
  • Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, o cara veio se chegando pro meu lado no ponto de ônibus, com o pau pra fora, batendo uma punheta pra mim, me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou, nem vi para onde ia, só pra fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Depois que contei, ela perguntou: “E o que você fez pra provocar o homem, ele não colocou o pau pra fora à toa”. Depois disso, nunca mais contei nenhum episódio de assédio, abuso ou qualquer outra coisa pessoal que aconteceu comigo.
  • Um cara de bicicleta invadiu a calçada na qual eu caminhava tranquilamente, à noite, e passou a mão nos meus seios.
  • Estava num show de rock e alguém enfiou o dedo na minha bunda. Eu tinha 15 anos. Parece até engraçado falar assim, mas foi traumático e doentio.
  • Andava a pé até a academia quando tinha 15 anos. Como, com o tempo, comecei a ficar muito incomodada com as cantadas, olhares, motoqueiros buzinando, acabei decidindo que ia colocar uma calça moletom e camiseta por cima da roupa de academia. Com isso, as cantadas imediatamente pararam, mas eu passava muito calor com 2 roupas, andando na rua em dias de sol.
  • Uma vez um sujeito masturbou-se ao meu lado no ônibus. Fiquei tão em choque que só tive a reação de sair do local desesperada. Não consegui gritar, nem fazer um escândalo.
  •  Era nova, mais ou menos 16 anos, estava passando por uma rua sozinha e me deparei com um grupo de homens torcedores de algum time que não me lembro (estava num bairro próximo a um estágio em Belo Horizonte, num dia de jogo). Eles começaram a me “cantar”, de repente estão passando a mão em mim, pelo menos uns quatro homens me empurrando. E eu desesperada saí andando rápido, tentando me soltar. Foi desesperador… Senti um medo real de me estuprarem coletivamente.
  •  Estava andando despreocupada, com fones de ouvido. Eram 17 horas e a rua estava bem movimentada, inclusive com vário pedestres fazendo caminhada. Um homem de moto diminui a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas, de uma forma totalmente brutal. Fiquei assustada e o xinguei. Demorei uma semana para esquecer a sensação daquela mão no meio das minhas pernas.
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gostosa
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gostosa

A campanha CHEGA DE FIU FIU se propõe a combater o assédio sexual em espaços públicos. O primeiro passo foi apontar o problema, pois ele ainda é vastamente ignorado. Por isso, criamos o espaço de DEPOIMENTOS, onde mulheres (e homens!) relatam suas experiências, medos e traumas.

Agora, por iniciativa de Karin Hueck, colocamos no ar uma pesquisa que pretende dar nome, tamanho e cara a esse comportamento. Nunca vimos dados, estudos ou informações sobre intimidação sexual. Nos ajude a mudar esse cenário! Clique AQUI.

ATUALIZAÇÃO, 13/08: a pesquisa foi encerrada. Recebemos quase 8 mil respostas. Em breve, divulgaremos o resultado. Obrigada pela participação!

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olga malala 02
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olga malala 02

Em 2010, quando fazia uma espécie de pós-graduação na Universidade de Nova York, escrevi um trabalho sobre um projeto da Unesco que alfabetizava meninas e mulheres do Paquistão por meio do telefone celular.

Por serem mulheres, elas não tiveram a chance de ir à escola. Não sabiam ler ou escrever. A iniciativa funcionava assim: elas tinham aula com uma professora algumas vezes por mês em uma sala de aula, mas os exercícios eram enviados por mensagens de texto e as garotas precisavam responder também por mensagem para serem avaliadas. Uma ideia interessante, para estimular e facilitar o aprendizado.

Com a ajuda da Unesco, várias das alunas responderam ao questionário preparado por mim. Eu queria somente saber a opinião delas sobre o projeto. As respostas me surpreenderam: uma contava que o marido não aceitava que ela finalmente estava sendo alfabetizada e aquilo foi motivo de briga entre o casal. Outra dizia que vivia mais tranquila, porque finalmente conseguia ler as manchetes dos jornais e os anúncios da televisão. Para uma outra paquistanesa, que era mãe, a alegria estava em finalmente poder ajudar os filhos com os deveres da escola.

Dois anos depois, ficamos sabendo da existência da pequena Malala Yousafzai, de 16 anos. Ela corria risco de morte, após levar um tiro na cabeça, ação do grupo Talebã. O motivo: Malala frequentava a escola e tinha uma opinião sobre a condição dela e de tantas meninas paquistanesas.

Quantas vezes, na infância ou adolescência, reclamamos por ter de fazer a tabuada, estudar para uma prova, fazer lição de casa? Malala quase foi assassinada por buscar esse conhecimento que para muitos de nós parece ser óbvio.

Mas Malala foi forte, sobreviveu. Talvez por conhecer um pouquinho sobre a condição das estudantes do Paquistão, tomei um carinho especial por Malala.

olga malala

Há duas semanas, a vi de perto. Acompanhei sua chegada nas Nações Unidas e a foto oficial com o Secretário-Geral, Ban Ki-moon. Era 12 de julho. Malala fazia 16 anos e era sua primeira aparição pública desde o ataque. Me pareceu humilde e um pouco tímida. Seguiu para a sala do Conselho de Tutela. A reunião era mais que especial: a entrada estava autorizada apenas para centenas de adolescentes do mundo todo, escolhidos para acompanhar de pertinho o discurso da jovem.

Corri para ver ao vivo, da nossa TV interna. Malala começou o discurso quase que pedindo desculpas por não saber muito bem o que as pessoas esperavam da fala dela… E, de repente, aquela menina começou a ganhar força. Sua eloquência, a precisão com que discursava e o tom de suas palavras me arrepiaram.

Malala relembrou o ataque que quase a matou. Disse que naquele momento, morreram nela o medo e a fraqueza, enquanto nasceram a força, a coragem, o poder. Ela explicou que perdoou os talebãs que a atacaram e que deseja que todas as crianças do mundo tenham acesso à escola, inclusive os filhos dos talebãs. Malala lamentou que os extremistas temam o poder dos livros e do ensino, segundo ela, exatamente porque eles não sabem ler ou escrever.

Durante todo o discurso de Malala, de quase 18 minutos, só conseguia pensar em uma coisa: o mundo precisava conhecer Malala Yousafzai. Infelizmente, ficamos sabendo de sua existência após uma ação terrorista. Mas torcemos, rezamos, e Malala sobreviveu.

E ali, na ONU, discursando em público pela primeira vez, Malala mostrou ser mesmo especial. A garota falava como uma mulher e provou já saber lutar pelos seus direitos.

Malala ensinou muita coisa ao mundo naqueles 18 minutos. Ensinou sobre condições de educação no Paquistão, sobre terrorismo, sobre fé, sobre perdão, sobre empoderamento feminino, sobre educação igualitária. Ela é única e por isso, renova a esperança em um futuro melhor para tantas Malalas, espalhadas por esse mundo.

“Numa noite de outubro, em 2012, o Talebã atirou no lado esquerdo da minha testa. Eles atiraram nas minhas amigas também. Eles acharam que a bala iria nos silenciar. Mas eles falharam. E do silêncio deles surgiu milhares de vozes. Os terroristas acreditaram que eles mudariam meus objetivos e brecariam minhas ambições, mas nada mudou em minha vida, com exceção disso: a fraqueza, o medo e a falta de esperança morreram. Força, poder e coragem nasceram.” Veja o discurso completo aqui:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=QRh_30C8l6Y&w=560&h=315]

No dia seguinte ao discurso de Malala, na ONU, o Talebã divulgou uma carta aberta à jovem, explicando o motivo que levou ao atentado: ” Não vou argumentar se foi correto ou não, se você merecia ser morta ou não. Você disse, em seu discurso, que a caneta é mais poderosa do que a espada. E eles te atacaram pela sua ‘espada’ e não por seus livros e a escola”.


Leda Letra é jornalista da Rádio ONU. Seu depoimento é pessoal e não representa a opinião das Nações Unidas.

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CHEGA DE FIU FIU é uma campanha contra o assédio sexual.

No texto “Não me chame de gostosa”, a apresentadora da Mix Tv Marina Santa Helena falou à OLGA sobre assédio sexual, problema vivenciado por 90% das mulheres. O tema é bastante delicado, mas assim que Marina teve a coragem de trazê-lo à tona, outras mulheres dividiram suas histórias. Muitas são agredidas fisicamente, choram, sentem medo de andar nas ruas, convivem com traumas por anos.

Homens também deram seus testemunhos. O leitor Clayton, por exemplo, contou o seguinte episódio: “Outro dia parei o carro e buzinei para minha esposa. Ela não reconheceu o carro e saiu andando rápido, desesperada. A rua estava escura e ela achou que seria atacada. Precisei sair correndo atrás dela para explicar que estava tudo bem. Quando ela percebeu que não estava em perigo, me abraçou e quase desmaiou. Estava sem fôlego.”

No entanto, os relatos tristes não sensibilizaram todos. Algumas pessoas, ofendidas, tiveram reações injustas e cruéis. “Mal-amada”, “mal-comida”, “ande de burca”, “nem é tão gostosa assim para tanto chororô”, “bando de frescas”, “chamo de gostosa mesmo, não tô nem aí para vocês” foram algumas dos comentários que o post da Marina recebeu. Teve aqueles que afirmaram que “o mundo está muito chato, não se pode nem mais dar cantadas”. Hm, e o “mundo chato” das mulheres que se acostumam desde cedo a caminhar olhando para o chão? Um deles ousou dizer que queremos “amordaçar os homens”. Realmente, pessoal, não é disso que se tratam nossas exigências.

Quando transformamos em coisa rotineira o fato da mulher não ter espaços privados – nem mesmo serem donas do seu próprio corpo -, incentivamos a violência. E isso NÃO é normal. Vamos reforçar nossa luta contra o assédio, afinal, temos o direito andar na rua sem medo de sermos intimidadas. Para isso, manteremos o debate sobre assédio sexual vivo e frequente na campanha CHEGA DE FIU FIU. Lá na página, vamos publicar material contra a intimidação. Abaixo, um preview do que está por vir.

Divulgue, espalhe, crie oportunidades de debates… Retome sua voz! Se quiser contribuir com sua história, escreva para olga@thinkolga.com.

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olga startup

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O empreendedorismo ainda é um setor majoritariamente masculino em todo o mundo. No Brasil, entretanto, a situação ao menos parece melhorar. Uma pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) em 2012 mostrou que as mulheres são metade dos empreendedores em começo de atividade no Brasil (49,6%). Elas não apenas têm disposição para empreender, mas também sabem o que estão fazendo: no setor de franquias, as mulheres costumam faturam, em média, até 32% a mais do que as lojas gerenciadas por homens, segundo a consultoria Rizzo Franchise, especializada nesse tipo de negócio. Mas ainda há uma grande diferença entre o empreendedorismo masculino e feminino: a inovação. Por serem minoria em áreas tecnológicas, elas ainda tem dificuldades em pesquisas e desenvolver novos produtos. 

Entrentanto, existe muita gente trabalhando para mudar esse cenário – e vamos mostrar aqui algumas delas. Veja quem são as brasileiras que estão ajudando a consolidar o setor de startups e inovação no país:

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A empreendedora: Bel Pesce, 25 anos

Ela é a nossa Mark Zuckerberg – sem os escândalos, os processos jurídicos e o PRISM. Bel Pesce, aos 25 anos, tem um currículo de invejar velhos de guerra. Formou-se no MIT, onde fez quatro cursos de graduação:   engenharia elétrica, administração, matemática e economia. Mas só a forma como foi aceita na universidade já é uma história de filme em si. “Descobri sobre o MIT alguns dias antes do prazo para entregar todos os documentos.  O processo de aplicação é extenso e complicado. Já havia passada a data para me inscrever na prova de múltipla escolha SAT e também para ser entrevistada por um ex-aluno do MIT”, conta em seu site. “Mas aprendi cedo que ter perseverança e dar o melhor de si pode fazer milagres. Fiz duas coisas um tanto malucas. Primeiro, descobri o endereço de um ex-aluno do MIT em São Paulo e fui bater na sua porta. Segundo, apareci nas provas do SAT e implorei por um exame, mas infelizmente as provas vinham contadas dos Estados Unidos. Pedi para esperar e ver se havia alguém que faltasse. Em uma cena dramática, fiquei ali à porta, vendo as pessoas entrarem e sentarem em frente aos seus exames. Mas um assento continuou sempre vago e acabei fazendo esse exame.”

Sua experiência profissional conta com empresas de peso como a Microsoft, Deutsch Bank e Google. Em 2011, foi para o Vale do Silício, na Califórnia, onde, aos 22 anos, foi diretora de produtos da Ooyala e comandou uma equipe de 25 engenheiros (sim, todos homens). Bel lançou por conta própria o aplicativo Lemon Wallet, que faz cópias digitais de tudo que você carrega na carteira. Mais de 2,5 milhões de pessoas já baixaram o programa. Seu primeiro livro A Menina do Vale, onde ela conta sua trajetória, viralizou pela internet com 1,5 milhões de downloads em três meses. Recentemente, inaugurou a FazINOVA, escola onde dá aulas descomplicadas sobre empreendedorismo.

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A investidora: Camila Farani

A advogada e empresária Camila, de 31 anos, passou para o outro lado da mesa do pitch por gostar de desafios. “Eu queria fugir da renda fixa, a bolsa está sem graça e acabei entrando no mundo dos profissionais que investem em pequenos negócios”, disse entrevista à revista Exame. Como investidora-anjo (pessoa física que compra participação em empresas), investiu 300 mil em cinco empresas de pequeno porte em áreas como hotelaria e nutrição cujo segredo era evoluir a inovação tecnológica. Em seu blog Startups e Empreendedorismo, no site da PAC-PME (Programa de Aceleração do Crescimento para Pequenas e Médias Empresas), Camila dá dicas para quem quer se aventurar nessa área.

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A advogada: Luiza Rezende, 25 anos

A paulistana Luiza Rezende formou-se em Direito pela USP, mas não quis deixar de lado seu interesse pelo empreendedorismo, tecnologia e inovação. Juntou as duas áreas e, hoje, oferece consultoria jurídica para quem quer embarcar no mundo das startups. “Tive uma atitude bem geração Y e fiz do meu trabalho o meu prazer”, conta a advogada, que fala fluentemente seis línguas. Em seu site, o Elemento Jurídico, ela esclarece dúvidas como “o que define uma startup?” e “como funciona a lei dos direitos autorais?” e debate temas tais quais “a importância dos termos de uso do seu aplicativo”.

“O universo empreendedor está começando a entrar em ebulição no Brasil”, afirma. Uma das causas apontadas por Luiza é o Startup Brasil, projeto do governo federal que apoia novas empresas no setor de ciência e tech. “Foi o primeiro passo para uma nova cultura empreendedora: deu popularidade ao termo startup, confiança aos empreendedores e aos investidores.” Sob sua ótica, a advogada aponta o mercado de nicho como o foco dos novos empreendedores: “Vejo muitas lojas virtuais de mercados específicos e redes sociais para profissionais sendo criados.”

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olga aborto

olga aborto

A luta pelo direito ao aborto é uma prova de resistência. Às vezes, literalmente, como foi o caso da senadora norte-americana Wendy Davis, que fez um discurso de 12 horas a favor do aborto.

No estado do Texas, um projeto de lei que restringe o aborto corre pelo legislativo. A proposta é proibir interrupções da gravidez após 20 semanas. Além disso, exige que médicos que façam o procedimento tenham admissão preferencial em hospitais e que clínicas de aborto ofereçam o mesmo padrão de salas cirúrgicas. A justificativa é a de aumentar a segurança da mulher. Mas, na realidade, com menos doutores e a necessidade de fazer reformas cujo valor bate os 2 milhões de dólares, a consequência mais provável do projeto de lei é o fechamento da maioria das clínicas no estado. “Sim, teremos menos abortos e isso é bom”, disse Bryan Hughes, da Câmera de Representantes.

Se o projeto de lei fosse para votação, a maioria conservadora republicana seria a favor. O governador Rick Perry também havia confirmado que, se chegasse à sua mesa, o assinaria. E o Texas teria a lei mais dura em relação ao aborto em todo os Estados Unidos. Mas a senadora Wendy Davis estava disposta a não deixar isso acontecer.

Na terça-feira, dia 25, ela anunciou no Twitter: “a liderança pode não querer escutar as mulheres, mas eles vão ter que me escutar. Pretendo obstruir a legislação.” A tática política era o seguinte: falar sobre o tema por 13 horas seguidas (das 11h18 às 23h59), de forma a evitar a votação e impedir que o projeto de lei chegasse às mão do governador naquele dia. Se isso acontecesse, o prazo da proposta estouraria. Ela precisaria ser refeita e só poderia ser apresentada de novo daqui a dois anos.

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Mas, para a obstrução ser válida, Wendy não poderia parar de falar, fazer pausas, ir ao banheiro, comer, beber água, sentar e nem mesmo se apoiar. E lá foi ela, de tênis rosa, para o senado estadual. “É mais e mais difícil para uma mulher no Texas fazer o que? Exercer seu direito protegido pela constituição de ter um aborto e tomar a decisão mais difícil da sua vida.”

A senadora recebeu apoio nas mídias sociais. No Twitter, a hashtag #StandWithWendy virou trend. O presidente Barack Obama também tuitou: “algo especial está acontecendo em Austin (Texas) esta noite”.  Cerca de 160 mil pessoas assistiram ao live stream da seção. Wendy aguentou por quase 12 horas. A bancada republicana ainda tentou iniciar a votação, mas foi impedida graças ao público presente que aplaudia e gritava em apoio à senadora. 

A New York Magazine, que a chamou de heroína, fez um pequeno perfil da senadora, relembrando como Wendy “é incrível desde sempre”. Em 2011, ela usou da mesma técnica para obstruir um projeto de lei que tiraria quatro bilhões de dólares das escolas públicas.

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olga turquia

olga protesto

Como uma mulher que parece que está a caminho da universidade é atacada covardemente pela polícia como se fosse criminosa? A ação ocorreu no primeiro dia do Occupy Gezi, movimento popular que pretende evitar a destruição do parque Gezi, em Istambul, capital da Turquia, e a construção de um shopping center no local. Registrada em foto, a cena percorreu a internet, dando à “dama de vermelho” o status de ícone da resistência turca. “Para mim, a luta é sobre liberdade de expressão e sobre o poder do povo”, disse a mulher, chamada Ceyda Sungur. “Agora nós temos, pela primeira vez, confiança para mudar tudo.”

De acordo com a fundação Women in the World, não é à toa que o símbolo dos protestos em Istambul seja uma mulher: uma pesquisa feita pela empresa turca Konda  mostrou que as mulheres são maioria nas ruas, somando 51%. “As manifestações, que já duram um mês, são, em diversas maneiras, um fenômeno feminino, um movimento em que elas têm mais a perder – e estão dispostas a enfrentar o governo para se fazerem ouvidas.”

olga turquia

Parece pouco ou até mesmo um número equilibrado? Não quando falamos da Turquia, um país onde o sexismo ainda prevalece. Apenas 14% das cadeiras do parlamento são ocupadas por mulheres, o aborto ainda é proibido e o primeiro ministro Tayyip Erdogan faz comentários sobre a forma “certa” de uma mulher se vestir e como cada uma delas “deve ter, no mínimo, três filhos”. Uma comparação com outro país muçulmano mostra que a adesão ao movimento é uma conquista a ser celebrada: as manifestações no Egito, em 2011, contaram apenas com 15% de participação feminina.

A resistência popular à pressão policial não foi feita apenas por estudantes. O governo turco pediu que as mães tirassem seus filhos do parque Gezi, onde protestavam. “Conforme as horas passavam e o céu escurecia, as mães de fato vieram, mas não para levar seus filhos. Na verdade, elas fizeram um escudo humano na entrada do Gezi e disseram que lá ficariam para apoiar seus filhos e filhas“, descreveu a CNN.

A manifestante Sezen Yalçin conta ao Women in the World explica que o parque Gezi é perigoso à noite e, por isso, a luta para salvá-lo é ainda mais simbólico para as mulheres. “É duas vezes mais importante para a gente  retornar a esses lugares. Deveríamos ter o direito de reivindicar locais públicos”, disse. “No protesto, vimos pessoas que não fazem parte do movimento feminista também criticando Tayyip Erdogan. Esse tipo de inquietação agora faz parte do discurso de outros grupos também.”

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