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“Tu no me vas a humillar, tu no me vas a gritar
Tu no me vas someter tu no me vas a golpear
Tu no me vas denigrar, tu no me vas obligar
Tu no me vas a silenciar tu no me vas a callar”
– Ana Tijoux (Anti Patriarca)

Com o objetivo de conhecer um pouco melhor três vozes femininas que derrubam fronteiras no rap / hip-hop, gêneros musicais ainda essencialmente dominados pelos homens, fomos até São Carlos, no interior paulista, durante o Festival Multimídia Colaborativo Contato, acompanhar de perto o trabalho, a histórias e os percalços destas três corajosas e inspiradoras artistas: Ana Tijoux, Miss Bolívia e Karol Conká.

Antes de falar sobre as entrevistas, é preciso abrir um parênteses aqui sobre representatividade e até a importância da iniciativa do “Entreviste uma Mulher”. Quando descobri que era a única jornalista mulher do grupo, não sabia se ficava chateada ou feliz (afinal, pelo menos eu estava lá para representar). Mas conversando com meus colegas, acabei ficando um pouco chocada ao saber que nenhum deles iriam entrevistar a Ana Tijoux ou a Miss Bolívia, apesar de serem as únicas atrações internacionais do festival. Fiz uma certa campanha, e a Tijoux acabou sendo entrevistada por outro veículo, mas mesmo assim, foi um baque muito grande dar de cara com essa realidade.

Aqui, faremos diferente e todo espaço será dado a elas:

ANA TIJOUX

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Chilena de raízes indígenas e criada na França durante o exílio dos pais por conta da ditadura de Pinochet, Ana começou como MC do grupo Makiza. Lançou em 2007 seu primeiro disco solo, e desde então se destaca no cenário mundial com sua mistura de hip-hop e pop latino. Seu hit1977 entrou na trilha da amada série Breaking Bad. Em 2014 lançou “Vengo”, seu quinto álbum, já sem utilização de nenhum sample (prática clássica do hip-hop), segurando suas rimas apenas com a excelente banda. Suas letras são pautadas pelo feminismo, pos colonialismo, violência, e seu constante ativismo em questões sociais.

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“Liberarse de todo el pudor,

Tomar de las riendas,
No rendirse al opresor.
Caminar erguido, sin temor,
Respirar y sacar la voz.”
-Ana Tijoux (Sacar La Voz)

MISS BOLIVIA

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Apesar de usar o codinome Bolívia (por ter morado memoráveis 6 meses no país), Maria Paz é na verdade Argentina, morou por dois anos na cozinha de um casarão abandonado de um amigo em La Boca. A cantora já lançou dois álbuns desde 2008, que misturam rap, cumbia, funk, dance-hall. Nesse período já levou seu som para turnês internacionais onde acrescenta artes visuais e dança em apresentações performáticas e eletrizantes.
Psicóloga há 10 anos, e professora de Universidade, a artista trabalha em um estudo sobre os benefícios físicos e sociais da legalização da maconha. Porém deixou de lecionar há dois anos já que não era mais levada à sério na sala de aula e pela própria Universidade ao adotar o visual de dreads e se tornar uma cantora cada vez mais famosa.

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“Voy con musica vos con lucha ma
suena de mujer a mujer, toma mi mano
quiero sanar tus heridas
quiero transformarlo en memoria y vida”
– Miss Bolívia (Rap Para Las Madres)

KAROL CONKÁ

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A curitibana Karol Conká aparece como um dos destaques do Festival, em excelente momento da sua carreira. Logo após voltar de uma longa turnê internacional, Karol que conseguiu visibilidade pelo MySpace, concorreu `a artista revelação no extinto VMB, lançou seu primeiro EP em 2011 e seu primeiro disco, Batuk Freak, que mescla elementos do rap tradicional com sons típicos brasileiros em 2013. Suas letras falam de empoderamento, feminismo, autoestima de uma forma leve, dançante e divertida.

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“Se quer medir forças sei que me garanto,
Sem conversa froxa, sem olhar de canto,
Fecha a boca, ouça, eu não tô brincando,
Sua estratégia fraca já vo chega te derrubando.”
– Karol Conká (Me Garanto)

NO PALCO

Apesar de beberem das mesmas fontes, a apresentação das três artistas são absolutamente diferentes entre si. Enquanto Ana forma uma unidade em total sintonia entre ela e sua banda, fazendo com que a gente realmente entenda o conceito de igualdade de gênero, Karol é a rainha absoluta de seu palco, dominando-o de ponta a ponta, deixando para os seus músicos o papel de coadjuvantes. Já Miss Bolívia, que costuma viajar com sua crew de vários músicos, estava contando apenas com 3 no palco, e mesmo assim utilizou sua voz, corpo, dança e energia para transformar sua apresentação em uma festa `a céu aberto para delírio do público.

COMEÇO DE CARREIRA

Em comum, o começo da carreira das três foi marcado justamente pela mesma questão: mulheres seguindo um caminho fora dos padrões sociais, desconstruindo estereótipos.

Ana, apesar de admitir se envolver tardiamente com o feminismo, sempre procurou fugir dos temas machistas e violentos do gênero. Karol, que segundo sua mãe faz hoje no palco a mesma coisa que fazia quando criança na frente das bonecas, ficava ofendidíssima quando a elogiavam dizendo que ela “rimava como um cara”. E Bolívia, apesar de ter começado “tardiamente”, aos 30 anos tocando bateria, costumava ouvir todo tipo de desencorajamento por parte dos caras que simplesmente não acreditavam em seu trabalho.
SER MULHER NO MEIO RAPPER

Críticas e perguntas indiscretas não faltam nesse quesito. Ana Tijoux conta que sempre teve que lidar com jornalistas mulheres perguntando “Mas por que o rap?” — o que considera uma pergunta em si machista. Miss Bolívia diz que apesar de ter que constantemente provar seu valor no começo de carreira (já não bastasse o desafio de convencer a si mesma), constata que depois que enfrentou essa barra, conseguiu conquistar respeito e que hoje os caras de sua equipe se tornaram grandes parceiros. Já a Karol costumava chegar botando tanta banca e tanta marra que os caras se intimidavam com tamanha atitude, e a garota sempre saía por cima. Ela aproveita sua posição de destaque no meio para ser a voz das mulheres, escrevendo pensando nelas, e credita parte do boom de seu sucesso ao conteúdo de suas letras de autoestima e superação, enquanto rebola de mini shorts, sem se importar com celulite e mandando a galera mexer a pélvis de cima do palco.
“Vai com calma, rapaz, mais respeito
Dá dez passos pra trás, fica ai mesmo
É bom ter disciplina se quiser sair ileso”
– Karol Conká (Gandaia)

“Deixa ela, deixa!
Ser livre, seguir sem se importar
Se quiser ir pra qualquer lugar que vá
Não tem asas mas pode voar
Ela só quer viver, ela só quer viver!
Andar de sandália pela Jamaica”
– Karol Conká (Sandália)

CONTATO COM O FEMINISMO

Ana Tijoux chega a quase se desculpar pelo seu envolvimento “tardio” com o feminismo. Segundo ela, foi por ignorância mesmo: antes até se referia às militantes como feminazis, como muitas de nós. Foi quando leu e refletiu mais sobre o tema, com a ajuda de autoras como Simone de Beauvoir, que a ficha caiu e ela se encontrou, sendo hoje uma das grandes ativistas da causa.

O contato de Karol com as questões de gênero se deram de uma forma inusitada: aos 10 anos, sua melhor amiga era uma travesti de 35 anos. Desde cedo, ela brincava de ser travesti e, queria porque queria ser uma delas quando crescesse. Esse foi um dos seus primeiros contatos com as questões de gênero e com o preconceito e incompreensão que as minorias sofrem. Em suas letras e durante seus shows, Karol abusa da performance, botando para fora toda sua maravilhosidade e influência da sua amizade de infância, conquistando em cheio o público gay.

Já Miss Bolívia tem atitude digna de uma riot grrrl em seus shows, afinal, ela mostra o corpo, rebola, dança e grita “Free Marijuana!” para um público que dificilmente sabe respeitar uma mulher. Ela conta que uma vez durante uma apresentação, em um momento de silêncio, um cara gritou “ABRA SUAS PERNAS”. Ela abriu e respondeu “Ok, abertas porque eu quis e o que você vai poder fazer agora? Nada. Então fica aí na sua”. O público foi a delírio e aparentemente nunca mais ninguém fez uma gracinha dessas.

“Dicen que soy caprichosa,
que soy jodida y que soy celosa
dicen de mí tanta cosa, y todo están de acuerdo,
que tengo lengua peligrosa”
– Miss Bolívia (Caprichosa)

VIOLÊNCIA NA INTERNET

A internet pode ser um lugar bem hostil, especialmente se você é mulher, com o agravante de fazer sucesso. Ana diz que não liga a mínima e apenas dá risada. Bolívia, que no começo se importava, mas hoje em dia superou. Os xingamentos de “vagabunda” são frequentes, mas por uma questão de manter o karma limpo, ela simplesmente não responde. Já Karol teve que ouvir acusações machistas e cruéis de que “estava estragando o rap”, seguidas de “quem é você para mandar as meninas rebolarem” e até “essa neguinha é feia” quando lançou seu primeiro disco. Do alto de sua segurança, Conká apenas vê essas pessoas como seres que infelizmente estão aprisionados em um padrão ignorante. Mas nós sabemos como é difícil ser mulher todos os dias, imagine em um ambiente predominantemente masculino e tão hostil com elas.

MATERNIDADE

Se mulheres que se dedicam à sua profissão e seguem seus sonhos normalmente são julgadas e cobradas em relação aos filhos, o que dirá sobre rappers que vivem em turnês? Ana é enfática ao falar como lida com as pressões e julgamentos: “Minha casa é o meu templo e como eu crio meu filho está absolutamente fora de questão”.

Karol se abre e conta que depois que teve seu filho, aos 19 anos, precisou lutar contra uma forte depressão que durou 2 anos. Por causa do pensamento machista geral e dos comentários clássicos de “engravidou, tá fodida”, ela, que sempre sonhou ser cantora, achou que era o fim de uma carreira que mal tinha começado. Um dia, olhou para o filho dormindo no berço e se questionou “por que eu tô fodida? Quem disse que eu tô fodida?” e decidiu provar para todos que eles estavam errados.

Enquanto isso, Miss Bolívia, 39 anos, optou por não ter filhos biológicos: argumenta que seu corpo é seu instrumento de trabalho e que precisa de pelo menos de 6h de tempo para si mesma, então não se sente pronta para lidar com um bebê completamente dependente dela. Pensa em adotar uma criança já maiorzinha: “as pessoas gastam rios de dinheiro tentando engravidar, sendo que as crianças já estão aí no mundo, esperando por um lar”.
DICA PARA AS GAROTAS QUE ESTAO SEGUINDO OUTROS CAMINHOS

A melhor parte de ter passado por dificuldades é poder abrir caminho e passar sua experiência para quem está começando agora.

O conselho de Ana é que você, antes de tudo, deve saber o que quer fazer, com quem quer fazer, como quer fazer e então traçar o caminho que vai seguir. Ter isso bem claro em sua mente e disciplina para seguir em frente é o que ela tem de mais valioso para dividir com as garotas que querem seguir caminhos não convencionais.

Karol fala para as garotas fazerem o que ela fez consigo mesma: “olhe-se no espelho, se aceite como é e lembre que todo mundo um dia irá morrer. Ficar pensando no que os outros irão achar ou tentar agradar pessoas que não sabem nem o que querem só vai fazer com que você perca um tempo imenso de sua vida, que não tem volta. Então pense em você em primeiro, segundo e terceiro lugar e se respeite. Só assim é possível respeitar o próximo.”


Débora Cassolatto é redatora, curadora musical e DJ há mais de 10 anos nas casas rockers do baixo Augusta. Criadora do tumblr parceiro da MTV Brasil Ouvindo Antes de Morrer onde ouve, posta e compartilha impressões sobre todas as músicas do livro “1001 songs you must hear before you die”, entre outros conteúdos sobre música. Também fundou o blog Música de Menina, espaço que subverte a questão de gênero e música.

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olga cidades mulheres bike

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Eu me lembro de assistir um stand up do humorista Donald Glover no qual ele dizia que, ao se mudar para uma cidade que ele considerava mais perigosa nos Estados Unidos, as mulheres que ele levava para casa sempre pediam para que ele as conduzisse até o carro ou táxi na hora de ir embora. Ele começou a se sentir incomodado com a tarefa, até que se deu conta de que ela era motivada pelo medo de suas amigas andarem sozinhas pelas ruas, mesmo que fosse por uma pequena parte da calçada.

A epifania de Donald gerou algumas piadas para seu show de comédia, mas a sensação de insegurança das mulheres ao circular pelas cidades não tem a menor graça. Esse é apenas um dos muitos paliativos encontrados pelo sexo feminino para exercer um direito que devia lhes pertencer, mas que é violado pela constante impressão de que, a qualquer esquina menos iluminada, ela pode sofrer algum tipo de violência.

Existem outras diferenças na maneira como a mulher vivencia a cidade. Em um mundo majoritariamente androcêntrico, é de se imaginar que o desenvolvimento urbano tenha ignorado as necessidades das mulheres em particular. À elas é reservado o passaporte de turista em cidades construídas para os homens e urbanizadas de acordo com o deslocamento deles pelas ruas e avenidas. Tornar as cidades mais amigáveis para as mulheres envolve a compreensão da sua rotina e da sua relação com o espaço urbano. Esse entendimento envolve, em boa parte, as conquistas femininas que transformaram a realidade das mulheres nos últimos anos.

Como, por exemplo, a conquista de espaço no mundo do trabalho. Para começar, essa mudança não implicou em uma divisão dos afazeres do lar, pelos quais elas tradicionalmente se encarregavam. Assumir cargos em empresas e sair de casa para trabalhar foi, por muito tempo, considerado uma espécie de capricho pelo qual a mulher devia pagar o preço. Elas até podiam ter empregos, contanto que não faltassem com seus compromissos de esposa, mãe e do lar – uma condição de milhares de mulheres no mundo inteiro até os dias atuais.

As poucas décadas de história vividas até o presente ainda não foram suficientes para reparar séculos de exclusão social feminina, embora a quantidade de conquistas obtidas desde então seja inegável. Ainda não há um equilíbrio satisfatório entre trabalho e responsabilidades de casa para a maioria das trabalhadoras. A rotina da mulher, trabalhe ela ou não, ainda é essencialmente distinta do homem – e isso afeta diretamente a relação delas com a cidade.

Perceber as distinções de gênero na arquitetura e no urbanismo demanda certa sensibilidade às gritantes sutilezas que cerceiam o direito de ir e vir feminino. A ActionAid realiza um importante trabalho de conscientização nesse sentido. Em agosto, a ONG lançou no Brasil a Campanha Cidades Seguras para as Mulheres, cujo objetivo é conseguir o comprometimento de gestores públicos com a melhoria da oferta dos serviços nas cidades para torná-las mais seguras para as mulheres. A organização procura identificar, através de metodologias participativas, quais as relações e dificuldades que elas enfrentam nos espaços públicos.

O movimento acompanha uma tendência internacional de replanejamento urbano sob a perspectiva de gênero (ou gender mainstreaming, uma estratégia globalmente aceita para a equidade entre os sexos corroborada pela Organização das Nações Unidas).  A cidade de Viena, capital da Áustria, é uma das pioneiras a considerar o fator de gênero em suas políticas públicas. Em 1991, a planejadora urbana Eva Kalil e um grupo de colegas lançaram uma exposição fotográfica chamada “Quem Domina o Espaço Público – A Rotina das Mulheres na Cidade”, que mostrava o dia a dia de um grupo de mulheres vienenses pelas ruas da capital e mais de quatro mil pessoas conferiram a exposição. O evento também chamou atenção da mídia e das autoridades, que perceberam a importância do tema e deram abertura para a criação de projetos urbanísticos que considerassem o viés do gênero. O primeiro a ser criado foi um complexo de apartamentos batizado de Frauen-Werk-Stadt ou Mulher-Trabalho-Cidade.

Para o projeto, foi realizada uma pesquisa que revelou que as mulheres dedicavam mais tempo a cuidar da casa e das crianças que os homens. Por isso, o conjunto contava com diversos pátios nos quais pais e filhos podiam brincar sem se afastar do lar, bem como uma gama de serviços úteis como farmácia, creche, consultório médico e transporte público – mais utilizado por elas do que pelos homens, como apontou outro projeto, anos depois.

Em 1999, a prefeitura de Viena realizou  mais uma pesquisa, dessa vez com os habitantes da cidade para descobrir com que frequência e porque eles utilizam transporte público. Os homens preenchiam o questionário em dois minutos, mas as mulheres simplesmente não paravam de escrever. O levantamento mostrou que eles utilizavam carro ou transporte público duas vezes ao dia – uma para ir e outra para voltar do trabalho. Já as mulheres descreveram um padrão muito mais variado de circulação pela cidade, incluindo em suas rotinas levar filhos ao médico, buscá-los na escola, fazer compras com a mãe e ir ao salão de beleza, por exemplo. Elas utilizavam muito mais o transporte público e andavam bem mais a pé que os homens, além de dividirem mais o tempo dedicado ao trabalho e à família, cuidando de crianças e de pais idosos.

Os planejadores urbanos da cidade, então, decidiram criar um plano que melhorasse a mobilidade dos pedestres e o acesso ao transporte público, além de tornarem a circulação à noite mais segura. A prioridade para elas é a segurança e a facilidade de movimentação. As calçadas foram alargadas e as escadas da cidade ganharam rampas que permitem a passagem de carrinhos de bebê, andadores e cadeiras de roda.

Viena também conta com parquinhos que incentivam a permanência de meninas, já que elas normalmente acabavam sendo expulsas pelos meninos que dominavam o território com suas brincadeiras. O exemplo da capital austríaca é uma inspiração para outros projetos, como os da cidade de Seul, na Coréia do Sul, hoje conhecida como a cidade mais amigável para as mulheres; de Berlim, cujos planejadores urbanos há mais de dez anos se debruçam sobre pesquisas, na aplicação e no envolvimento da população em mudanças que respeitam as diferenças entre os sexos na cidade; e de Camberra, na Austrália, que também realizou um estudo profundo sobre o uso do transporte público pelas mulheres.

No Brasil, o foco das ações da campanha lançada pela ActionAid estão focadas na segurança das mulheres em todo o território nacional. Para fortalecer o diálogo com diferentes áreas do governo e discutir questões relacionadas ao Cidades Seguras Para As Mulheres, a ONG entregou em secretarias municipais e estaduais, prefeituras e governos Estaduais uma carta política que aborda todos os pontos da campanha. Também já foram organizados lanternaços em três Estados (Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo) – uma ação que chama atenção da comunidade para locais públicos com falhas na iluminação e pressiona o poder público tomar providências. Ana Paula Ferreira, coordenadora da equipe de Direitos das Mulheres da ActionAid no Brasil, conversou com o Think Olga sobre a importância do projeto.

 

Por que hoje as cidades não são seguras para as mulheres?

Todas as mulheres sentem-se inseguras na cidade e vivem construindo uma série de estratégias, como não usar determinadas roupas, não sair sozinhas, não andar na rua em determinados horários e por aí vai. Isso se deve ao fato de que as cidades, historicamente, foram concebidas e construídas segundo uma perspectiva que não incluía as mulheres como sujeitas beneficiárias do espaço público. Ou seja, como durante muitos anos a gestão pública, o crescimento das cidades, e principalmente, o viver social foram processos eminentemente masculinos, a presença das mulheres nas cidades se tornou um fator estranho que se traduzia em uma violência sistemática na medida em que o espaço público não era pensado para as mulheres. Ruas escuras, demora no transporte público, assédio dentro e fora dos coletivos e falta de preparo dos policiais para lidar com questões ligadas à violência de gênero são exemplos de problemas dessa violência e que fazem aumentar a vulnerabilidade das mulheres nas cidades brasileiras hoje.

E tudo isso piora quando se trata de mulheres que vivem nas periferias das cidades. Na pesquisa que realizamos com 306 moradoras de áreas de periferia de Rio, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Norte, 53,3% das entrevistaram disseram que a má qualidade dos serviços públicos aumenta casos de estupro, assalto ou assédio. Enfim, as mulheres são impossibilitadas de viver plenamente suas cidades, pelo medo, por experiências de insegurança propriamente dita, pela falta de oportunidades, serviços públicos ineficientes e principalmente, pelas desigualdades de gênero presentes na nossa cultura.

 

Como funciona o trabalho do Cidades Seguras para as Mulheres?

A Campanha Cidades Seguras para as Mulheres foi lançada no início de agosto deste ano durante o Encontro Nacional do Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU), na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, com a presença de representantes de movimentos feministas. Um de nossos objetivos é conseguir o comprometimento dos gestores públicos com a melhoria da oferta dos serviços nas cidades, para torná-las mais seguras para as mulheres. O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, esteve presente no lançamento da nossa Campanha e recebeu nossa carta política, com as demandas listadas acima, e a pesquisa que realizamos para embasar a campanha. Os números são uma pequena amostra da relação entre a falta de qualidade dos serviços públicos e a sensação de vulnerabilidade das mulheres de periferia e a real incidência de violência entre elas.

A construção da campanha começou em 2011, com a realização de um projeto piloto financiado pela ActionAid internacional. Procuramos identificar, através de metodologias participativas, quais as relações e dificuldades que as mulheres enfrentavam nos espaços públicos. Desse trabalho, foi gerado um relatório internacional com mais quatro países (Quênia, Nepal, Etiópia, Camboja) demonstrando que a violência de gênero nos espaços públicos era uma realidade, mas também um aspecto muitas vezes invisível, assim como a própria existência das mulheres nas cidades.

Com a expansão desse trabalho, hoje atuamos diretamente em seis comunidades de quatro estados brasileiros em parceria com seis organizações parceiras: Maré (RJ – Redes da Maré); Heliópolis (SP – UNAS); Passarinho (PE – Casa da Mulher do Nordeste); Mossoró e Upanema (RN – Centro Feminista 8 de Março); Ibura (PE – ETAPAS); Cabo de Santo Agostinho (PE – Centro das Mulheres do Cabo). Nesses lugares, realizamos oficinas participativas em que as próprias mulheres das comunidades apontam suas demandas e constroem coletivamente o seu entendimento sobre Cidades Seguras para as Mulheres.

Com as informações e demandas levantadas nesse processo, estamos realizando diversas atividades: um abaixo-assinado junto a movimentos sociais em todo o país que queremos apresentar aos candidatos aos governos dos estados, junto com a carta política; articulação com o Fórum Nacional Reforma Urbana e Movimentos Locais para levar à reunião da UN Habitat, em 2016, a demanda para que o direito à cidade seja reconhecido como um direito humano. A ActionAid gostaria que o debate por cidades seguras ocupasse um papel central neste diálogo. Em novembro, levaremos a plataforma de cidades seguras para o seminário internacional de direito à cidade, em São Paulo.

Realizamos também lanternaços na comunidade de Passarinho, em Recife, e na cidade de Upanema, no Rio Grande do Norte. Descobrimos que, motivadas pelo medo da escuridão, muitas mulheres andavam com lanternas nas bolsas. Convidamos então as moradoras para percorrer pontos críticos desses locais com as lanternas nas mãos, para denunciar o problema da falta de iluminação. Em Upanema, no dia seguinte à ação, uma das participantes nos comunicou que a empresa de energia estava consertando os postes de sua rua. Estamos com um lanternaço agendado para 08 de setembro em Heliópolis (SP). Temos ainda uma plataforma digital da campanha, onde as pessoas podem ler textos e assistir a vídeos que retratam como o medo da violência nas cidades impacta as vidas das mulheres. Além disso, estamos com uma ação voltada para as redes sociais, em que as pessoas podem postar mensagens de apoio e engajamento com a campanha com a #cidadesegurasporque. Todo o conteúdo aparece no tumblr www.cidadessegurasporque.tumblr.com

Quais são os principais aspectos das cidades que podem ter melhorias significativas para a população feminina?

A precariedade e até a inexistência dos serviços públicos básicos aumentam ainda mais a vulnerabilidade das mulheres à violência, na medida em que limitam o exercício do Direito à Cidade. É preciso ter em mente que um planejamento urbano sensível a gênero com serviços públicos de qualidade e direito à cidade é pilar fundamental para trazer mudanças significativas nas vidas das mulheres.

Na realização da campanha, construímos uma carta política em parceria com as mulheres que entrevistamos. O documento traz as demandas delas para a melhoria da oferta desses serviços. Em iluminação, governo e concessionárias devem garantir a universalização da implantação e manutenção, fazendo o serviço chegar a todas as ruas, becos, praças, praias, ciclovias, parques, comunidades, pontos de espera por transporte público, e quaisquer acessos a unidades de utilidade pública, como estabelecimentos de ensino e de saúde.

Em transporte, é urgente melhorar a qualidade e a quantidade da frota dos meios de transporte público, priorizando a oferta para as áreas de periferia e comunidades, pois, de acordo com pesquisa que realizamos, a demora no transporte público aumenta sua vulnerabilidade (a maioria das mulheres que entrevistamos relata um tempo de espera de pelo menos 50 minutos pelos ônibus); a retirada ou substituição das propagandas de “outbus” que impedem a visibilidade de dentro dos veículos e favorecem a prática de violência; e a capacitação de motoristas e cobradoras/es para lidarem com casos de assédio dentro dos coletivos.

Em policiamento, destacamos a demanda por capacitação de policiais para o atendimento humanizado aos casos de violência contra a mulher e coibição de casos de assédio sexual, bem como a estruturação dos aparelhos de contenção de violência contra a mulher; e o debate sobre a possibilidade de leis específicas de combate à violência contra a mulher em espaços públicos.

Em relação ao tema da moradia, questão central nas cidades brasileiras, a perspectiva das mulheres – uma vez que na maioria das vezes são elas que ficam responsáveis pelo trabalho relacionado ao cuidado – deve ser levada em consideração; é preciso garantir acesso à moradia digna e, principalmente, que as mulheres tenham segurança na propriedade dos seus lares. Por exemplo, é preciso que os programas de financiamento habitacional atendam às necessidades das mulheres pobres.

Em educação, alguns dos pontos levantados foram a implementação de estratégias para promover uma educação não sexista, não racista, não homofóbica, inclusiva e contextualizada a partir de diálogos do governo com conselhos, fóruns de educação, organizações da sociedade civil e grêmios estudantis. Outra demanda recorrente que tem impacto direto no acesso das mulheres ao mercado de trabalho e à formação acadêmica é a melhoria na qualidade e na quantidade de creches – reivindicação história do movimento de mulheres, principalmente nas áreas de periferia.

 

Como você definiria uma cidade segura para as mulheres?

A mulher pode usufruir do seu direito à cidade quando ela vive livre do medo e da violência, e livre das violações de direitos que surgem nos espaços onde mulheres vivem e trabalham. O medo das mulheres limita o uso do espaço urbano cada vez mais. Em determinados lugares, elas se transformam em prisioneiras em suas próprias casas. Uma cidade segura para as mulheres é principalmente aquela em que a sua cidadania está garantida através do acesso a serviços, com liberdade e ir e vir quantas vezes forem necessárias; é aquela onde elas podem andar sozinhas, não se preocupar com horários, nem com seu modo de se vestir. Uma cidade segura para as mulheres é aquela em que a vontade das mulheres é respeitada, ou seja, é a cidade em que elas têm autonomia para ser quem querem.

 

Existe algo que as mulheres possam fazer para fomentar essa mudança?

Precisamos nos unir em torno desse tema. Convidamos as mulheres a se engajarem nesta campanha e em outras iniciativas que tratem do assunto. É importante dar visibilidade e desnaturalizar o comportamento machista que gera violência e assédio contra as mulheres. Precisamos tratar do tema de cidades seguras para as mulheres deixando clara sua relação com os temas de direito à cidade e de planejamento urbano. As moradoras de São Paulo estão convidadas a participar do lanternaço em Heliópolis. E as mulheres de outros estados que participam ou não da campanha podem acompanhar nossos canais digitais para se engajar e ficar a par das discussões sobre o tema e também conhecer outras organizações e/ou iniciativas que tratem deste assunto. E, claro, todas elas podem e devem denunciar a violência contra a mulher. É preciso que trabalhemos na construção de uma rede de sujeitas engajadas através da solidariedade das mulheres para rejeitar a violência e também lutar coletivamente por uma nova realidade nas cidades.


 

Arte: Raid71

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Diana Assennato é uma das fundadoras do Arco,  startup que inovou a experiência de e-commerce ao desenvolver um sistema de compras pelo Instagram. Jornalista e mestre em mídias digitais pela Goldsmiths University of London, ela conta que, durante a criação da empresa, viu na prática o preconceito de gênero que ainda existe nesta área. “Eu só fui acreditar que essa era uma verdade do mundo tech quando comecei a frequentar eventos e perceber que o universo é esmagadoramente masculino e muitas vezes misógino.”  Por isso, criou ao lado de Natasha Madov a Ada, um portal de tecnologia que incentivar a participação feminina na área (o nome é uma homenagem à Ada Lovelace, mãe da programação). “Ainda vai demorar muito para a proporção de mulheres e homens se equalizar na indústria da tecnologia, mas o que eu tenho feito é ser um pouco menos humilde e um pouco mais assertiva.” A seguir, nosso papo com Diana:

Como você acha que o Arco pode impactar no formato de compras na internet? 

Basta olhar um pouquinho só para frente (e para trás) para entender que o futuro do e-commerce DEVE contemplar o poder do mobile e a tração das redes. Não acho exagero afirmar que as redes sociais são um contexto e uma condição da internet e não uma tendência situacional. Nesse sentido, qualquer produto ou serviço que queira ser à prova de futuro deve olhar para esse contexto antes de qualquer coisa. Cada vez é mais difícil atrair tráfego para os nossos sites, mas ao mesmo tempo estamos cada vez mais inseridos em todo tipo de mídias sociais. Desde o inevitável Facebook até as que atendem nichos muito específicos; é lá onde passamos grande parte do nosso tempo, exatamente por elas condensarem vários estratos da nossa vida on e offline. O Arco nasceu e tem crescido com isso em mente, criar pontes mais transparentes para que ofertas e demandas conversem livremente sem a força opressora da publicidade. A nossa ideia não é transformar a sua timeline em um shopping, aliás, é justo o contrário: queremos que cada um escolha quando e como usar a nossa ferramenta na sua rede social preferida. Não sabemos se o Arco pode mudar o formato do e-commerce no Brasil, mas com certeza está apontando em uma direção para a qual muitas empresas deveriam estar olhando.

O projeto encontrou algum tipo de resistência? E o que tem sido feito para contorná-la?

Trabalhar com inovação já cria uma resistência extremamente desafiadora. Como prever o que desperta o desejo nas pessoas? Como provar que o seu negócio tem futuro se não tem ninguém fazendo o que você faz? O que deve ser considerado sucesso quando o seu modelo de negócio é único? Eu tenho certeza que me faço muito mais perguntas do que conseguirei responder nesta vida, mas esse é o meu grande motor. Ao mesmo tempo, a inovação abre espaços, cria caminhos muito inesperados e funciona como um pretexto incrível para testar, experimentar e também falhar sem medo e sem culpa.

Sobre a questão da desigualdade de gêneros, eu só fui acreditar que essa era uma verdade do mundo tech quando comecei a frequentar eventos e perceber que o universo é esmagadoramente masculino e muitas vezes misógino. Fiquei triste, queria que fosse diferente para poder contar para as pessoas que basta a gente dar as caras, mas não é bem assim. Quando você vai a um evento, workshop, palestra e diz que trabalha com internet, logo te perguntam qual é o seu blog. “É de moda?”, como se a nossa expertise se resumisse à curadoria de looks do dia ou tutoriais de maquiagem.

Posso dizer sem culpa que desde que criamos o Arco eu passei por duas experiências extremamente desagradáveis nesse sentido, por isso mesmo hoje eu estou escolada. Não adianta chorar ou espernear: ainda vai demorar muito para a proporção de mulheres e homens se equalizar no universo da tecnologia, mas o que eu tenho feito é ser um pouco menos humilde e um pouco mais assertiva. Eu tenho essa característica de “play it down”, mas quando se está lá no meio da selva a gente precisa ter, sim, um aperto de mão firme e olhar certeiro. O importante é convencer as pessoas de que você sabe exatamente do que está falando (por incrível que pareça às vezes esse benefício nos é tirado por sermos mulheres).

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Como você avalia a participação feminina nas compras online?

Massiva! Já representamos 50,2% das compras feitas online com um ticket médio bem elevado. É engraçado porque, semanticamente, a mulher não se sente partícipe do mundo da tecnologia ou da internet, mas é ela que escolhe o seu smartphone, ela é fiel às marcas e a empresas digitais e é responsável pela compra de 85% dos gadgets que entram em uma casa. Além disso, eu vejo que o perfil da internauta brasileira é surpreendentemente aberto a novas ideias, experimentos e tentativas. O aspecto social também influi muito para a geração de leads nas vendas: se uma mulher gosta do que você vende, ela não só vai recomendar o seu produto para uma amiga, mas também vai mandar o link já com cupom de desconto. A mulher é viral por natureza!

Quais são as principais mudanças necessárias no cenário tecnológico atual? E como você quer contribuir para elas?

Hoje eu defendo apenas uma grande mudança: precisamos incluir a reflexão humanizada sobre o uso da tecnologia no desenvolvimento da própria tecnologia. Chega de reflexão de mercado. E isso não pode acontecer de cima para baixo, mas ao contrário. É o nosso uso e a nossa experiência de uso que deve ajudar a criar os caminhos do futuro, e não o que grandes empresas querem nos fazer comprar como um item de sobrevivência básico. É claro que muitas vezes nós não temos acesso a tudo que está sendo desenvolvido, mas prestar atenção na direção desses avanços, tentar conectar alguns pontos, discutir entre amigos e ouvir opiniões é extremamente importante para que a tecnologia e a internet sejam uma esfera prazerosa nas nossas vidas, e não opressora. As mudanças e inovações continuarão acontecendo porque (ainda bem) esse universo é infinito, exponencial, lindo e poderosíssimo, mas se conseguirmos cobrir esse bolo com uma grossa camada de reflexão humanista podemos criar um novo fluxo de desenvolvimento tecnológico, menos mercadológico e mais antropológico e social.

Sabemos que mulheres e tecnologia têm tudo a ver, mas qual é o caminho para retomarmos esse espaço?

Ter pessoas falando conosco. Na minha opinião a retomada do espaço só vai acontecer quando nos sentirmos parte dele, e para isso precisamos de pessoas falando com a gente, na nossa linguagem. Grandes jornais reduzem a editoria de tecnologia a meio caderno uma vez por semana ou a manchetes de compras e vendas milionárias de empresas. Para as revistas femininas o assunto sequer entra na pauta. Só que alguém tem que avisar esse povo que hoje, em alguns países, a mulher já gasta mais por ano em artigos tecnológicos do que em maquiagem. A mídia especializada é técnica demais: siglas, abreviações e números que não fazem o menor sentido e acabam nos afastando… Além disso: exemplos! Queremos ver exemplos de mulheres que usam, fazem, curtem, quebram, jogam, pensam e vivem a tecnologia de forma natural. Onde estão essas pessoas? Ah, sim, aqui mesmo! Só não nas capas de revistas nem nos altos escalões de grandes empresas de tech.

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O que é o Ada e o que o projeto tem a oferecer?

O Ada nasceu para ser o principal site acessado por mulheres que querem tirar as suas dúvidas, entender melhor ou simplesmente aprofundar seus conhecimentos sobre tecnologia, internet, comportamento digital e vida online. De uma forma ou de outra (e independente da gente gostar ou não), esses assuntos permeiam todas as esferas da nossa vida, seja através dos nossos smartphones ou da nossa dificuldade velada em entender a real diferença entre o Google Drive e o Dropbox. O ritmo das mudanças tecnológicas é rápido demais pra gente presumir que todo mundo está atualizado com tudo, por isso queremos oferecer um lugar para conversar sobre tudo isso com calma, sem pressa e com espaço para reflexão.

Que conselho você daria para uma menina que deseja trabalhar com tecnologia?

1) Leia, leia, leia! Leia os velhos, leia os novos, leia o Gizmodo, leia as entrelinhas do seu feed. Tente entender o cenário maior, e não apenas a ferramenta. Lembre-se que fogo também é tecnologia.

2) Não tenha medo de cursos técnicos, mas, principalmente, faça com que matérias “de humanas” acompanhem o seu trajeto. Estude antropologia, história, psicologia. É inacreditável como as mulheres conseguem subjetivar assuntos mecânicos e abrir diálogos novos e surpreendentes.

3) Comece logo. O mercado está gritando por profissionais qualificados, paga bem e a possibilidade de crescimento é incomparável com outras áreas.

 


[IMAGENS]

1) McTurgeon

2) The Reconstructionists

3) Women Rock Science 

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olga amor fabi

olga fabi secches

Fabi Secches e Flávia Stefani entraram na nossa lista de mulheres inspiradoras de 2013 pelo trabalho à frente da Confeitaria — coletivo literário que já soma mais de 300 textos publicados. Em fevereiro, a dupla fará o lançamento do primeiro livro do grupo, o Amor | Pequenas Estórias. Ao todo, são 40 histórias de amor (“o mais antigo e o mais atual dos temas”, como diz Fabi) com até 800 caracteres. A publicação contou com a participação de mais de 60 pessoas, entre autores, ilustradores e equipe técnica*. Conversamos com Fabi sobre a experiência em comandar tais projetos e o espaço das mulheres no mercado literário.


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O que você descobriu sobre amor ao editar o livro?

Tem uma frase da Emily Dickinson de que eu sempre gostei muito, e que escolhemos para colocar na introdução do livro: “Que o amor é tudo é tudo que sabemos do amor”. Acho que comecei e terminei o livro com essa mesma sensação. E talvez parte do encanto do amor seja exatamente esse. De outro lado, a criação do livro em si foi um processo de amor. A generosidade de todos que participaram: autores, ilustradores, equipe técnica, amigos e parceiros. Foi uma experiência e tanto. Na maior parte do tempo, trabalhei ao lado do Thiago Thomé, que é o editor de arte da Confeitaria (e também do livro) — e com quem divido a casa, as minhas (nossas) gatas e a vida. Foram dias difíceis e felizes, cheios de muito trabalho e de desafios, mas sempre superados com amor. Nesse sentido, termino o livro ainda mais inspirada do que quando comecei.

O que podemos aprender sobre as mulheres ao falar de amor?

Eu tenho muito cuidado em fazer qualquer generalização, porque é fácil a gente reforçar estereótipos. Mas acredito sim que mulheres e homens sejam diferentes, e que há (ou pode haver) beleza nessas diferenças. Inclusive ao falar de amor. Geralmente, as mulheres são mais habilidosas com o tema. Vivenciam com mais entrega, de maneira mais inteira. Culturalmente e historicamente, a mulher transita por esse território com mais familiaridade. Mas existem exceções, claro. No livro, temos textos femininos mais ácidos e textos masculinos mais românticos. Acho que o maior aprendizado, para mim, é que a vivência do amor é tão individual que não pode ser determinada pelo gênero.

Por que criar a Confeitaria?

A Confeitaria nasceu de muitas conversas, quando a Flávia e eu sonhávamos em escrever juntas. A gente queria ter um espaço para fazer isso com liberdade, sem preocupação com formatos ou números. Eram poucos os lugares na internet onde podíamos encontrar textos mais autorais e reflexivos. Reunimos um grupo de amigos — alguns já reconhecidos pelo talento com as palavras, outros tesouros escondidos — e começamos. Foi tudo acontecendo de maneira muito natural para a gente. Com o tempo, o coletivo cresceu e hoje somos em mais de 40 autores.

Qual a linha condutora da Confeitaria?

O mais importante para a gente é que seja um espaço onde as pessoas possam escrever e ler textos autorais, com implicação e alma. Nem o formato, nem o tema importam. Publicamos ficção, não-ficção e agora também começaremos a trazer entrevistas com pessoas que admiramos. Queremos continuar nos transformando para trazer conteúdo sempre relevante. O timing da internet está muito ligado à quantidade e à agilidade. Nós preferimos ir um pouco mais devagar e pedir ao leitor que pare um pouquinho e aproveite a leitura, da mesma forma que a gente aproveita cada colherada de uma boa sobremesa.

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O que você aprendeu sobre você mesma, como mulher, liderando projetos como a Confeitaria e o livro Amor | Pequenas Estórias?

Vou começar relembrando aquela frase incrível da Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher. Torna-se mulher”. A Confeitaria está caminhando para o seu segundo ano de vida e posso dizer que esse foi o período em que mais aprendi sobre mim mesma, especificamente, como mulher. Ter a oportunidade de ler e me aproximar de mulheres fortes e questionadoras como a Flávia, a Clara Averbuck, a Aline Valek, a Juliana Cunha, a Natacha Cortêz, entre tantas outras autoras maravilhosas que temos a alegria de publicar, fez com que eu me interessasse ainda mais sobre o feminismo e todas as questões tão relevantes que o cercam, e me inserir nesse contexto definitivamente.

Você acha que o mercado literário recebe bem as mulheres, sejam elas escritoras, quanto leitoras?

Acho que ainda existe preconceito de gênero também na literatura, seções de “literatura feminina”, como se essa classificação fizesse sentido. De todo modo, percebo uma evolução, conquistada a duras penas, mas também muito consistente. Historicamente, grandes mulheres fizeram parte de momentos divisores da literatura, como Virginia Woolf. Hoje, nomes como Cheryl Strayed, Elizabeth Gilbert, Gillian Flynn e J. K. Rowling estão nas listas dos livros mais vendidos e premiados. Temos Alice Munro, vencedora do prêmio Nobel de literatura no ano passado, aos 82 anos. Temos Malala Yousafzai, que roubou a cena literária recentemente com “Eu sou Malala”, de apenas 16 anos. Temos Fernanda Torres lançando o ótimo romance “Fim” e se relevando uma grande escritora. E muitos outros movimentos interessantes no cenário da literatura nacional. Quero acreditar que estamos caminhando para um novo momento, muito mais justo com as mulheres, e que embora a distância a percorrer ainda seja longa, já demos os primeiros passos.

Na sua opinião, a internet é receptiva com as autoras? 

Sim. Claro que ainda existem ambientes muito hostis. Acho que a internet é um reflexo do mundo e, infelizmente, vivemos em um mundo machista. Mas, de certa forma, as mulheres conquistaram espaços importantes, que têm modificado, pouco a pouco, essa realidade. Como é o caso do blog “Feminismo Pra Quê?”, na Carta Capital, da Clara Averbuck e da Nádia Lapa. Temos vozes expressivas e respeitadas como Roxane Gay, Aline Valek, Gizelli Souza. A lista é grande e já começo fazendo injustiças, ao mencionar apenas algumas. Sei que ainda existe muita ignorância, preconceito e violência, mas com campanhas esclarecedoras (e transformadoras) como o Chega de Fiu Fiu, do Olga, e outras forças somadas, acredito em um futuro melhor para todas nós.


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Amor | Pequenas Estórias

Ficha técnica:
Coordenação editorial: Fabiane Secches
Edição de arte/projeto gráfico: Thiago Thomé
Capa: Arthur Daraujo + Thiago Thomé
Revisão: Thiago Blumenthal
96 páginas.
Impressão off set e colorida.

* Tive a honra de fazer parte deste grupo. A convite de Fabi, dividi a minha história de amor, com toda a dificuldade de uma tímida incorrigível. O texto será acompanhado de uma ilustração da minha fiel escudeira Gabriela Shigihara.  

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olga violencia

olga violencia
Conheci a Marta Trzcinska, uma advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres, na XII Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, da CEPAL. Em uma palestra, ela falou sobre as práticas de assédio e discriminação online contra as mulheres. Fiquei feliz de saber que alguém estava acompanhando mais de perto esse problema, pensando nos efeitos que ele causa às mulheres e em soluções de curto e longo prazo.

Claro que a violência online é apenas um desdobramento da violência cotidiana que sofremos nas ruas, no trabalho ou em nossas casas. E assim como as outras, ela não tem sido levada muito a sério, a não ser em casos que ganham grande repercussão nacional, como as fotos vazadas da atriz Carolina Dieckmann e da filha do Renato Gaúcho. O cyber-bullying ou o online harassment são práticas disseminadas na rede, mas ele é praticado de formas diferentes dependendo do sexo das pessoas.

Durante a campanha Chega de Fiu Fiu, a Juliana recebeu uma série de ameaças de estupro e teve sua aparência física colocada em debate. Um acontecimento lamentável que me chamou a atenção para a reprodução da prática que busca desqualificar argumentos e ideias pelo sexo da pessoa. A Marilena Chauí, lá na década de 1980, disse que a desigualdade, em suas diferentes formas, cria o problema do silêncio incompetente, que é o medo das pessoas manifestar suas opiniões em debates públicos por achar que não entendem ou não podem entender do assunto pela posição desigual que ocupam na sociedade.

A violência e agressão contra as mulheres em espaços de debate pode levar ao silenciamento de suas vozes. Quando a violência online é dirigida aos atributos físicos ou sexuais das mulheres, deixa explícita a mensagem de que o espaço público não é nosso lugar. Mas nós insistimos em dizer que sim, ele é de todas nós, e a ocupá-lo. Foi sobre esses e outros temas que conversei com a Marta..

Existe diferença no assédio virtual quando as vítimas são mulheres?
Todo mundo pode sofrer com assédio online, mas há uma diferença muito grande no tipo de assédio praticado dependendo do sexo da vítima. Quando homens se manifestam em debates, fóruns ou outros espaços online, eles geralmente recebem comentários sobre serem idiotas ou não terem competência ou qualificação para falar sobre aquele assunto. As ofensas às mulheres, por outro lado, é sexualizado. São comentários sobre a aparência, o tamanho dos seus seios e ameaças de estupro ou de serem molestadas. Em 2013, um canal de TV sueco produziu um documentário sobre violência online contra mulheres. Escritoras, jornalistas e apresentadoras de talk show contaram sobre suas experiências de assédio e das ameaças que receberam por expressar suas opiniões em público. O canal de TV postou uma parte do programa no Youtube. O vídeo recebeu tantas mensagens de ódio que o canal de TV teve que bloquear os comentários. Quando um jornal escreveu um artigo sobre o que havia acontecido com o vídeo do Youtube, esse artigo também recebeu o mesmo tipo de mensagem violenta. Não havia espaço em que essa história fosse divulgada no qual esse padrão não se repetisse. Parecia impossível quebrar o ciclo de ódio.

Que ações poderiam ser construídas para evitar práticas como essas?
O maior desafio, e o mais importante, é o de conscientizar a população sobre o assunto. Para conseguir fazer isso, o fundamental é que tanto os governos quanto a mídia assumam suas responsabilidades. Nos últimos anos, a mídia da Noruega tem se comprometido a monitorar comentários com conteúdo discriminatório. Os maiores jornais do país recentemente modificaram seus sistemas para que todos os que querem participar de debates online se registrem antes com nome completo, para que possam ser identificados. O assédio sexual online não está sendo levado suficientemente a sério pela polícia e pela justiça. Se essas instituições se dedicassem a essas práticas, passariam o sinal sério de que esse comportamento não deve ser tolerado por ninguém. Também é importante aumentar o debate sobre esses tipos de crime e sobre a igualdade de gênero já nas escolas, desde cedo.

No fim de 2013, duas jovens brasileiras cometeram suicídio após terem suas fotos e vídeos íntimos divulgados na rede. Nossa legislação sobre esse tipo de crime é muito recente e a polícia sempre diz que é difícil encontrar os culpados.
É muito triste saber disso. Pela minha experiência legal, a polícia tem, ou deveria ter, todo o conhecimento técnico para encontrar as pessoas que publicam fotos e vídeos íntimos não-autorizados. Acredito que, infelizmente, seja mais uma questão de quantos recursos eles querem usar – ou são investidos pelo-Estado – para investigar esses tipos de casos.

Qual é a consequência dessa violência online para as práticas democráticas?
O problema é que a violência nunca é apenas uma questão física. Ela também envolve os direitos humanos e a liberdade de expressão. As mulheres estão sendo aterrorizadas pelos homens para deslegitimar seus argumentos e opiniões. Opiniões importantes e necessárias estão sendo silenciadas pelo assédio e discriminação online. O resultado é um déficit democrático.

Quais são os principais problemas de gênero que você ainda identifica – tanto global quanto localmente?
A igualdade de gênero é um problema imenso para todas as sociedades e países ao redor do mundo. As mulheres, em geral, têm menor acesso à educação, ao trabalho, a um sistema de saúde decente, ao aborto livre, etc. Felizmente, a maioria dos países europeus avançaram bastante em muitas dessas desigualdades. Mas a violência contra as mulheres continua sendo o maior obstáculo para a igualdade de gênero, não importa quão rico ou pobre seja o país. É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime.


A entrevista foi realizada por Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e especialista em discussões sobre trabalho e gênero.

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“Quando eu tirei a roupa toda, ele simplesmente olhou, fez uma expressão de sobrancelha, deu as costas e foi embora… Fiquei lá, olhando ele indo, puxando as roupas pro corpo, com os olhos já cheios de lágrimas.”

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De repente, a artista Negahamburguer começou a receber confissões de anônimas tão dolorosas quanto a escrita acima. Uma atrás da outra, elas pingavam em seu e-mail, sempre com as mesmas aflições relacionadas ao corpo e auto-estima. Mas por que mulheres de todo o país – de todas as idades e de todos os formatos – sentiram-se à vontade para escrever suas vivências mais tristes para uma desconhecida pela internet? É que Negahamburguer, que também atende por Evelyn Queiróz, de 27 anos, vem ilustrando um mundo onde a diversidade é vista com carinho.

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Em seus desenhos, protagonizam personagens que assumem suas formas: gorda, magra, alta, baixa, com dobrinhas, curvas e pelos. Todas têm duas coisas em comum: 1) São, sobretudo, mulheres reais. 2) Exercitam uma aceitação alegre e verdadeira do próprio corpo. “Sou muito feliz com a minha leveza”, “gordas também são amadas”, “meu tamanho é lindo, meu peso, ideal”, “é muito egoísmo da minha parte esconder tanta beleza natural” são algumas das frases que acompanham os desenhos.

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Conforme os depoimentos foram aumentando, Negahamburguer decidiu transformar a dor e a coragem em um projeto, o Beleza Real. Por meio de intervenções urbanas (grafites e stickers), a artista espalha pela cidade as histórias dessas pessoas que “por culpa do padrão de beleza que é imposto já sofreram algum tipo de preconceito por qualquer condição linda que a nossa sociedade insiste em falar que não é bom ou bonito”. Mulheres reais para valer e não só para publicitário ver. O projeto foi parar no Catarse e conta com a ajuda de crowdfunding para virar livro. Qualquer pessoa pode colaborar em troca de brindes como a própria publicação, camisetas, adesivos e cadernos.

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A seguir, um bate-papo com Negahamburguer:

CHEGA DE PADRÃO

“Acho que a dificuldade enfrentadas pelas mulheres quando o assunto é o corpo e a auto-estima está em achar que é preciso se encaixar em uma lista de detalhes para se sentir bem e bonita. Com isso, se perde a ideia do como é lindo sermos diferentes, já que é assim que somos.”

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FALTA CUIDADO COM O OUTRO

“De vez em quando aparece um perfil fake causando ou alguém que não entendeu nada da proposta dos meus desenhos. Estou aprendendo a lidar com essa situação, com pessoas que não consegue enxergar o próximo. Fico triste por elas serem assim.”

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BELEZA REAL

“O projeto começou quando passei a receber histórias de pessoas que se identificavam com o trabalho. Vi que essas vivências poderiam ser base para algum projeto legal. Choro toda vez que leio um depoimento. A gente acha que já passou por constrangimentos, mas quando você conhece a experiência do próximo, percebe que não é só com você, e que muita gente passa por muita coisa pior no cotidiano.”

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A PARANOIA É LUCRATIVA (PARA ALGUNS)

“Não há diversidade nas publicações femininas e nas campanhas publicitárias porque não convêm. O que a publicidade mais quer é que a mulher se enxergue como insuficiente para poder vender porcarias que prometem fazer com que elas sejam mais felizes.”

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AMOR PRÓPRIO

“Sempre tive uma relação tranquila com meu corpo, nunca me cobrei. Até pensava uma coisinha aqui e outra ali quando era mais nova, mas nunca tomei alguma atitude pra mudá-lo. Gosto muito dele.”

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olga scifi
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olga scifi

É de se imaginar que pela riqueza de universos dentro da ficção científica, pela capacidade única de inventar futuros e cenários para a raça humana, mesmo que baseados no nosso mundo, que a mulher já estaria em um nível diferente quando o assunto são os personagens. Existem aquelas que são exemplares, que quebraram estereótipos, mas em algumas questões o assunto precisa evoluir.

O gênero tido como libertário para as mulheres por causa de Ellen Ripley, talvez a mais importante de todas as mulheres da ficção científica, também tem seu viés sexista e machista em muitos enredos. Em alguns, as mulheres são meros bibelôs sexualizados que servem de enfeite para os personagens homens, usando roupas decotadas e tendo papéis acessórios nos enredos. Como bem disse a Feminista Cansada (o mesmo vale para o corpo dos homens):

“Não tenho problemas com o corpo feminino sendo sexualizado, contanto que esta não seja a ÚNICA função do corpo feminino.”

Muitas personagens mulheres estão surgindo hoje em dia em posição de destaque, mas ainda assim vejo que em alguns casos as tais superestimadas fraquezas femininas aparecem, enquanto que com os personagens masculinos eles dificilmente são postos em questão. O homem é em geral branco, definitivamente heterossexual e um lutador incansável e indestrutível. Nos mesmos enredos, as mulheres são coadjuvantes, namorada de alguém, uma médica, uma refugiada, que precisa de proteção. Estas fraquezas sempre são levadas ao máximo quando é uma mulher e são poucos os enredos que abordam isso como se deve. O ser humano tem fraquezas, concordo, mas não é só a mulher. A personagem Kiera Cameron, da série de ficção científica Continuum é um bom exemplo.

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Ela é forte, lutadora, uma policial valente, que não pensa duas vezes antes de se pôr em perigo, tendo viajado ao passado na tentativa de prender vários terroristas da sua época. Seria a personagem com menos estereótipos da televisão atualmente se não fosse pela saudade do filho e do marido e as cenas de choro na madrugada. Sei que pode parecer polêmico afirmar isso, mas quem disse que é uma obrigação que toda mulher se case e tenha filhos? Você já viu cenas em que os personagens homens caem no choro de saudades da esposa e dos filhos? Difícil lembrar, não é? São várias cenas dela se maquiando, se perfumando, enquanto seu papel como policial às vezes é deixado de lado. Eu sou vaidosa, adoro maquiagem e perfumes, mas não vejo como apenas isso pode me definir como mulher.

Starbuck, ou Kara “Starbuck” Thrace de Battlestar Galactica é talvez um daqueles personagens odiados e amados da ficção científica. Aliás, a série toda quebrou muitos estereótipos em seus personagens marcantes, inclusive mostrando de maneira muito explícita as fraquezas e os demônios pessoais de todos os personagens. Quem não lembra das cenas do coronel Tigh enchendo a cara por causa da esposa? Starbuck é piloto de Viper, bebe e joga constantemente, sexualmente ativa com muitos parceiros e que não tem papas na língua. Desrespeita oficiais, se mete em brigas de bar e não consegue se amarrar a ninguém. Mesmo as personagens menos intensas, como Laura Roslin, a presidente das colônias, tem força, ela sabe se impôr e às vezes é mais polêmica do que o próprio Bill Adama, como quando sugere que a Almirante Caine seja morta

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Star Trek inovou nos anos 60 ao colocar uma personagem negra e mulher no elenco fixo de sua série clássica. Uma negra, um oriental, um russo, um alienígena, tudo isso faria da ponte da Enterprise um lugar que demonstrasse a união e a igualdade da raça humana num futuro utópico. Não fosse o fato que o capitão é homem, branco, heterossexual garanhão, indestrutível, o cowboy intergaláctico, a expressão máxima do clichê. Com a Nova Geração a coisa melhorou um pouco, já temos Deanna Troi e a Doutora Beverly Crusher, mas o comando ainda fica com os homens, novamente, brancos e heteros. Em Deep Space 9, uma evolução. O comando é dado a um negro (mas hetero, pai solteiro), com várias mulheres fortes ao redor. Mas é somente com Star Trek Voyager que o comando é entregue à uma mulher, Kathryn Janeway. Curiosamente, os fãs fundamentalistas de Star Trek odeiam a Voyager. Janeway é dura, toma decisões polêmicas, se envolve em missões suicidas para salvar os seus, não recusa uma batalha e ainda assim consegue criar um ambiente próximo ao lar dentro da Voyager. Acho que enfim foi uma personagem digna de quebrar estereótipos dentro do clube do Bolinha que é Star Trek.

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O sexismo não fica restrito às séries de TV e aos cinemas. Uma postagem do io9 chamada Women Who Pretended to Be Men to Publish Scifi Books (Mulheres que se passam por homens para publicar livros de ficção científica) mostra o quanto o mercado ainda tem preconceito com a produção cultural feita por mulheres. E um caso curioso, mesmo que pertença à ficção especulativa: um livro escrito por Joanne Rowling não pegaria bem, e o editor sugeriu que a autora usasse apenas as iniciais de seu nome no livro. Como Joanne não tem um nome do meio, ela emprestou o nome da mãe, Kathleen, e ficou eternizada como JK Rowling, a criadora do universo Harry Potter. Quando eu conheci os livros do menino bruxo, achava que era um homem escrevendo, justamente pelas iniciais.

A impressão que passa é que mulher só pode escrever livros de auto-ajuda, culinária ou algo parecido com 50 Tons de Cinza. Não vou criticar o gosto literário de ninguém, mas este é um tipo de livro que não me atrai. Stephanie Meyer, criadora da Saga Crepúsculo, também reforça o estereótipo de que mulheres só escrevem romances colegiais. Eu li Crepúsculo apenas para saber se era tão bom como diziam. E não é. Muita gente sabe que eu escrevo e adoro escrever e quando falo que escrevo sobre ficção científica, muitas disparam: “Nossa, que coisa mais de menino, inusitado né?”. Tá, senta lá

Se mulheres precisam se passar por homens para publicar ficção científica ou especulativa, é sinal de que nem tudo são flores na FC se você for mulher. Se for homem, super sexy hot girls do espaço estarão disponíveis para wallpapers em seu computador. Tente fazer o mesmo se for mulher, procurando por homens para a mesma finalidade. O mercado é sustentado em sua grande maioria por homens, mas não quer dizer que não estejamos aí, consumindo esse material.

Seria ótimo ver mais produção feminina na ficção científica. Gostaria de ver alguma editora nacional trazendo Octavia Butler, uma das maiores escritoras de ficção científica, praticamente uma desconhecida aqui. Gostaria de ver o pessoal lendo A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin, gostaria de ver uma ficção científica menos sexista, que pare de mostrar homens guerreiros, indestrutíveis e mulheres frágeis e desprotegidas. Este é um gênero que busca o futuro, e não quero um futuro de estereótipos que nos marquem tão negativamente.


Lady Sybylla é paulistana de coração, geógrafa e professora de profissão. Leitora compulsiva de ficção científica e fantasia, ela é a autora do blog Momentum Saga, onde este post foi originalmente publicado, em dezembro de 2012.  

De lá para cá, Sybylla transformou sua frustração com o universo machista e estereotipado do scifi em ação. Ao lado da escritora Aline Valek  e outros 8 autores, criou a primeira coletânea de ficção científica brasileira, a Universo Desconstruído. “Sempre criticamos como a mulher é retratada no scifi. No entanto, a crítica pela crítica é uma atitude vazia”, diz Aline. “Agora queremos provar ser possível produzir algo que discuta os gêneros de forma mais igualitária.” A antologia pode ser baixada gratuitamente aqui em formato kobo, kindle ou pdf. Quem preferir a versão em papel, pode adquirir via Clube dos Autores (392 páginas, neste momento em promoção, por R$ 29,37).

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A seguir, um bate-papo com Sybylla e Aline sobre a Universo Desconstruído.

A proposta da Universo Desconstruído

Aline: “A ideia é quebrar o barraco mesmo. Fazer bagunça. Criticar obras machistas que desumanizam as mulheres e deixam o scifi sempre com essa cara de ‘mais do mesmo’. Queremos provar que dá para fazer algo que feminista e que não castre os homens. Queremos quebrar todo tipo de estereótipo, seja de mulher, de homem, de gay, de trans… Ninguém tem a representatividade que merece.”

Reação à coletânia

Aline: “Muita gente encarou a coletânea com preconceito. Existe esse medo de ‘estragarmos’ a ficção científica que eles conhecer. Choveu crítica de quem nem ao menos leu os contos. E teve uma crítica também às personagens negra e trans. Disseram que isso ‘estragou’ a obra. Gosto literário é uma coisa, preconceito é outra.”

Sybylla: “Como mulheres, temos que provar que gostamos de scifi. Estamos sempre sendo testadas pelo nosso conhecimento, como se nunca fôssemos fãs verdadeiras. No meu blog, onde falo sobre ficção científica, já cansei de receber comentários como ‘para uma mulher, você até que escreve bem’. E tem o outro lado também, de feministas criticando a obra. No Twitter, uma menina escreveu que a coletânea deslegitimava o movimento. Isso acontece porque ela acredita que scifi é coisa de criança. É uma pena como essa produção de nicho não seja levada a sério. Ou seja, é uma pessoa que não só subestima o gênero como não entende o que é o feminismo.”

Ficção científica e o feminismo

Aline: “Acho que a coletânea e o scifi colocam o feminismo em uma embalagem mais atraente e transformam o movimento em algo mais acessível. Fiquei sabendo de uma menina que deu a coletânea para a irmã mais nova e meio machistinha. E a tal da irmã devorou os contos. O formato de scifi a encantou e assim conseguimos expor os problemas do machismo em um formato palatável para ela. Ficamos muito felizes com essa história.”

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Em francês “petit mort” é a expressão utilizada para orgasmo. Ainda que o biquinho da pronúncia francesa deixe tudo mais charmoso, há um quê sombrio ao denominar o auge do prazer sexual “pequena morte”. Pois, é.

Dividindo seu tempo entre Buenos Aires e Nova York a premiada ilustradora argentina Fernanda Cohen, 33, é a autora de Guía Ilustrada del Orgasmo Femenino (Ed. Livros del Zorzal, ainda sem tradução para o português). A ideia do livro, publicado em 2012, foi impulsionada durante um cruzeiro sem grandes emoções com seu ex-marido, mas principalmente por sua percepção em relação às enormes questões, culpas e tabus existentes em relação a sexualidade humana, e principalmente, no que toca ao prazer feminino.

Fernanda Cohen criou “Melba” uma menina-mulher que usa vestido vermelho, cinta-liga e penteado volumoso. Ela encena de um jeito delicado e didático as nuances do prazer feminino ao longo das 110 páginas da publicação. Aliás, a versão francesa do livro foi chamada de Le petit Guide Malicieux du Plasir Féminin (Guia Malicioso do Prazer Feminino). “O Guia da Pequena Morte” ia ficar pesado, né?

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Por e-mail, desde Buenos Aires, ela respondeu a entrevista a seguir:

Foi seu primeiro trabalho com um tema ligado a sexualidade feminina?
Grande parte do meu trabalho tem uma carga de sensualidade. É inerente ao meu estilo. A série autoral El água me moja (“A água me molha”) é onde tal característica ficou mais evidente.

E como surgiu a ideia do livro?
Em parte, surgiu com o despertar natural da minha sexualidade aos meus 20 e poucos anos, e o tédio em um cruzeiro com o meu ex-marido, em 2009, contribuiu. Assim nasceram as primeiras vinte páginas, as quais com a ajuda de Daniel Divinsky (o editor do célebre quadrinho da Mafalda) se extenderam para 110 páginas, ganharam o prólogo do sexólogo Juan Carlos Kusnetzoff e chegaram ao público graças editor Leopoldo Kulesz da Libros del Zorzal.

E por que optou pela abordagem do orgasmo feminino com esse viés mais didático?
Porque é um tema universal e atemporal. A sexualidade humana é algo muito íntimo e intangível. É uma temática que sempre seguirá sendo delicada. Em sua vertente médica é levada a sério demais, e em geral é tratada como brincadeira, vulgarizada. Me intrigava tratar o tema de maneira séria, contudo, com abordagem leve e elegante, na qual algo tão intagível como o orgasmo pudesse ser visto pelo ângulo mais didático possível.

Você fez uma pesquisa científica sobre o orgasmo feminino para escrever o livro?
Trabalhei as minhas próprias noções do tema, que foram validadas pelo prólogo do Dr. Kusnetzoff para que o livro tivesse a informação 100% confiável. Comecei elencando os diferentes tipos de fantasias sexuais que nós mulheres costumamos ter e depois os coloquei em ordem cronológica para que o orgasmo feminino pudesse ser entendido do princípio ao fim.

Como criou a roupa e o penteado da protagonista do livro?
A Melba nasceu espontaneamente nesse cruzeiro que falei antes. Foi institivo, mas se paro para analisá-la creio que quis expressar algo inofensivo: uma menina, mas que por sua vez tivesse a malícia, expressa pela cinta-liga.

Você viveu em Buenos Aires e em Nova York. Consegue comparar a postura das mulheres e dos homens frente ao tema “orgasmo” nas duas sociedades?
Viva onde viva, eu sempre serei uma mulher argentina. Minha percepção diz que a mulher latino-americana, falando de modo geral, está menos estruturada com a sua sexualidade do que a estadounidense. Por outro lado, há uma obsessão pela mulher latina, a qual se vê nos filmes estrelados pela Salma Hayek, por exemplo. E o homem norte-americano, pela minha experiência, é mais tímido que o o argentino.

Como os leitores receberam o trabalho?
Há pouco tempo recebi um e-mail de um suiço que leu a edição francesa do livro e me agradeceu por fazê-lo entender mais a respeito da sexualidade feminina. Ele disse que se perguntou por que ninguém havia contado para ele antes. Assim poderia ter tido outro comportamento com as mulheres. Achei divertido.


Falando no fetiche pela mulher latina, é importante lembrar que os casos feminicídios no continente são persistentes e alarmantes, e o estímulo da tara clichê pela mulher supostamente “caliente” não ajuda em nada.


Laura Artigas é jornalista, roteirista e autora do blog moda pra ler.

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“Ela é mulher, mas é uma excelente programadora.” Que atire o primeiro código aquela que nunca ouviu isso no ambiente de trabalho. Disfarçada de elogio e frequentemente proferida na área de tecnologia, a frase é um retrato do preconceito que ainda assombra o setor e resulta até mesmo em disparidade salarial. No mesmo cargo de gestão, mulheres podem ganhar até 23% menos do que homens. A boa notícia é que o contra-ataque feminino vem ganhando forças.

No exterior, Sheryl Sandberg, vice-presidente de operações do Facebook, denunciou a discriminação sofrida pelas mulheres no mercado de trabalho, principalmente no de inovação, em seu livro Faça Acontecer. Em terras nacionais, contamos com a luta da Mulheres na Tecnologia (/MNT), ONG que visa o aumento da participação e o reconhecimento do potencial feminino na TI.

O grupo – criado há quase 5 anos por Andressa Martins, Narrira Lemos e Luciana Silva – organizou recentemente uma pesquisa online em que questionava sobre a existência de preconceito de gênero no setor. Mais de 70% dos participantes responderam que sim. “Não são raras as situações constrangedoras que uma profissional vive por estar num ambiente que supostamente não seria o dela”, afirmam Danielle Oliveira e Márcia Santos, conselheiras da /MNT. “Ouvir que programação é difícil para as mulheres é bastante comum no nosso dia-a-dia.” 

Abaixo, uma entrevista com a /MNT sobre as mudanças no atual cenário do mercado de trabalho e as ações que vão provar que tecnologia é coisa de mulher sim!


1 ) Em termos de gênero, qual é o atual cenário da área de tecnologia no Brasil? 

Podemos afirmar que o as mulheres geralmente representam entre 10 a 30% de profissionais na indústria de Tecnologia da Informação no mundo. Os números variam muito de país para país, de um modo geral há menos mulheres donas de suas próprias empresas ou startups do que as trabalham em empresas públicas ou privadas, e esta proporção é menor ainda em cargos de gestão técnica.

Nos Estados Unidos, incluindo os cargos administrativos, elas são 32% dos profissionais de TI. No Canadá, elas representam cerca de 23 a 28%  e, na França, são 20%. No Brasil, as mulheres correspondem a aproximadamente 19%, segundo o PNAD/2009. Diversas pesquisas apontam que há preconceito de gênero, e em uma pesquisa realizada em julho de 2012 em um evento da SBC foi afirmado que “a resistência – quando a menina diz que quer fazer computação ou alguma área tecnológica- começa em casa, com os pais e familiares; depois as adolescentes acabam esquecendo e não se identificam mais com a área.”

2 ) Ada Lovelace, Grace Hooper e as programadoras do Eniac são algumas mulheres ícones da área de tecnologia e programação. Quando foi que as mulheres perderam espaço para os homens nesse setor?

A professora da Unicamp, Claudia Medeiros – premiada pelo Instituto Anita Borg em reconhecimento a sua atuação em favor da inserção da mulher na computação no Brasil – citou em uma entrevista que havia duas hipóteses para este desinteresse feminino: uma econômica e outra social.

Justificou que o aspecto econômico deriva de um aumento da competição na área. “Antes, as mulheres buscavam profissões associadas porque não havia tanto interesse. À medida que o setor evoluiu e começou a oferecer salários melhores, os homens pressionaram o mercado de trabalho e a competição foi acirrada”, disse. A hipótese social considera o fato de a computação ser vista como uma profissão que privilegia o trabalho em isolamento, na qual se passa o dia todo diante de uma tela. A mulher teria preferência por atividades que incluam contatos humanos. “Sabemos que isso é uma mistificação, pois a computação exige cada vez mais interação social e tem importância em todas as áreas”, afirmou.

Acreditamos na hipótese econômica, onde, assim como em outros profissões de ciência e tecnologia, a mulher começou a perder espaço a partir do momento em que esta passou a ser uma área de atuação reconhecida e respeitada. Na medicina, por exemplo, até o século XIV as mulheres tinham um conhecimento tácito dos processos de curas. Com a advento da ciência moderna, a medicina se tornou uma profissão masculina e as mulheres foram proibidas pela sociedade e a igreja de exercê-la sendo consideradas bruxas as mulheres que ainda o faziam.

3 ) Vocês são otimistas com as mudanças, em termos de gênero, na área de computação, inovação e tecnologia? Como enxergam o futuro das mulheres na TI?

Estatisticamente, o percentual de mulheres em relação aos homens que se ingressam nos cursos de tecnologia vem reduzindo. Este é um fator preocupante, mas também incentivador de uma resposta da sociedade. Novos grupos, blogs e organizações sem fins lucrativos surgem focados na discussão desta temática. Grandes empresas de tecnologia, como Thoughtworks, Google, IBM, Microsoft e HP, começaram a se preocupar em ter mulheres no seu quadro de funcionários e já possuem programas específicos de retenção de talentos femininos e incentivo a entrada de novas mulheres.

Diante a compreensão das empresas sobre a importância de termos a diversidade de talentos e o cuidado em manter um clima apropriado, somos otimistas com o futuro das mulheres na área, mesmo entendendo que ainda a muito para se trilhar.

4 ) Como incentivar mais mulheres a participarem dessa área?

Temos um caminho longo a percorrer, várias ações ainda precisam ser tomadas no sentido não só de incentivar a participação de mais mulheres na área mas também de empoderar as mulheres que já estão na área. Podemos citar três linhas de atuação do grupo:

Conscientização da sociedade é a primeira forma de mudança desta cultura. Em março deste ano, organizamos o 1º Encontro Nacional de Mulheres na Tecnologia que contou com a presença de 100 mulheres que participaram de mais de 20 atividades. Para o ano de 2014, já estamos organizando o 2º Encontro Nacional que acontecerá nos dias 27 e 28 de março.

Aumentar a autoconfiança das mulheres na tecnologia. Temos a ideia de criar um espaço virtual e permanente de troca de informações, profissionalização, empregabilidade e sociabilização nas áreas de inovação e tecnologia.

Estamos elaborando um projeto piloto com objetivo de apresentar a jovens de ensino médio noções básicas de programação e robótica estimulando a curiosidade e interesse na área de tecnologia da informação. No âmbito da recolocação profissional, estamos iniciando em Goiânia um projeto piloto de capacitação e apropriação de tecnologia.

5 ) Qual seria o impacto que a industria da tecnologia sofreria se existisse mais mão de obra feminina?

O maior número de mulheres atuando nas empresas resultaria num ambiente com maior diversidade. Este tipo de ambiente tende a ser mais estimulante e produtivo, favorecendo a elaboração de novos projetos e soluções. Isso contribui para a obtenção de um clima positivo que, pelo combate à intolerância, estimula a cooperação e a sinergia entre os profissionais da organização em torno de seus objetivos comuns. De forma que cria-se um ambiente que reforça os vínculos dos funcionários com o trabalho e sua identificação com a empresa, ajudando a gerar ideias novas e a aumentar rendimentos.

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olga vovo

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Durante a luta feminina pela autonomia das últimas décadas, o tricô ficou em segundo plano. A técnica – assim como outras práticas manuais – representava a época de nossas avós e bisavós, quando o papel da mulher se restringia ao ambiente doméstico. Mas será que não perdemos uma habilidade divertida, importante e até libertadora? Cristiane Eloisa Bertoluci, 29 anos, é professora de tricô. E explica o que um novelo de lã e duas agulhas podem fazer pelas feministas.

Por que você acha que a prática do tricô foi deixada de lado?

Houve um movimento de conquista do mercado de trabalho e de independência financeira feminina cujo resultado foi o abandono (total ou parcial) dos trabalhos domésticos. Nos focamos no fator negativo de ser “dona de casa” e esquecemos de enxergar a liberdade existente nas nossas artes manuais. Outro fator foi a evolução da indústria, principalmente na área têxtil. Ficou muito mais barato comprar uma peça do que tecer algo.

Você disse que aprender a tricotar é uma forma de conquistar liberdade. Como isso acontece?

É uma das principais frases da estilista francesa Alice Lemoine: ao tricotar uma peça, a nossa vontade vai da escolha das cores, da agulha, da textura, do tamanho, de tudo! Não dependemos do que o mercado nos oferece. Tricotar é uma maneira de expressar todas nossas preferências.

Como o conhecimento de tricô muda a visão das mulheres em relação à moda?

Acho que criamos uma consciência de tempo e de qualidade. Quando uma aluna começa a tricotar, ela pensa muito no preço de tudo que ela esta fazendo. Por exemplo: na Novelaria, onde dou aula em SP, os fios são nobres, os tingimentos são artesanais… São tão diferentes de tudo que já vimos no mercado. Então criamos um desejo por algo de qualidade. Noto que as alunas dão muito valor ao toque, principalmente porque estamos em constante contato com o fio que tricotamos. Elas procuram entender melhor quais fios criam bolinha, quais são adequados para cada caso e o porquê. Essa consciência se dá também em acabamentos: todas sofrem com as costuras, os detalhes… Até mesmo escolher um botão especial para a peça que elas demoraram 3 dias tricotando! Já tive muitas alunas que disseram: “fui numa loja e vi um tricô lindo, mas a costura estava péssima. Como pode? Um preço tão alto por um acabamento ruim?”.

Você é adepta do craftivismo (craft + ativismo, prática que incentiva o tricô e o crochê como forma de questionar o consumismo, questões sociais e do meio ambiente), como criar peças de tricô em árvores, organizar “tricotadas” em espaços públicos... Você poderia contar um pouco sobre essas experiências?

Acho que estamos tentando levar as técnicas manuais para outro entendimento – rever as tradições e trazê-las para o contexto atual. Acho que, por meio de instalações e intervenções, conseguimos transmitir muitas mensagens: a de cuidado com a nossa cidade, a vontade de estar no espaço urbano, a vontade de ter essas técnicas de volta. Estar na rua – tanto colocando um tricô na árvore quanto tricotando em um espaço público – é visto como algo novo, quando, na verdade, já deveria fazer parte do nosso conhecimento e cotidiano.


No texto abaixo, Cris tricota algumas ideias sobre como é a experiência de ensinar mães e filhas a se sentarem juntas para aprender uma arte que as duas gerações acabaram ignorando.

“Ao chegar na loja de lãs, a cliente se encanta com a parede colorida, com fios das mais diversas composições e macios como um gato persa. Ela, que nasceu nos anos 1980, não sabe nem segurar uma agulha. Determinada, inicia seu primeiro cachecol, sentindo-se com oito mãos esquerdas. Aos poucos, entende como as duas mão se sincronizam e fazem o tecimento. Perguntava-se incansavelmente: por que eu não aprendi a tricotar antes?

Ao chegar na loja de informática, a cliente foi em busca do que as amigas tanto falam: um iPad. Ela morre de medo de computadores, porém todos diziam ser “muito fácil de usar”. A vendedora mostra, num toque de mágica, como pesquisar o mundo dentro daquele aparelho. Descobriu jogos viciantes, criou uma fazendinha e, no mesmo dia, conquistou um amigo. As duas clientes vão para casa, sentindo a liberdade nas próprias mãos. A cliente da loja de lãs mostra para a sua mãe: “olha, meu primeiro tricô em lã merino. Sabe o que é merino, mãe?”. A mãe responde: “não sei filha, mas com esse iPad posso pesquisar em menos de 6 segundos a resposta”.

Como professora de tricô, vejo essa cena se repetir diariamente. Convivo com pessoas que nunca aprenderam nenhuma técnica manual, assim como mulheres que acabaram de aprenderam que tudo é possível virtualmente. São avós, mães e filhas que se distanciaram em conhecimentos duplamente necessários hoje: o manual e o virtual.

Nossas mães foram as feministas que invadiram o mercado de trabalho, investiram na carreira e nos estudos e nos desejaram o mesmo. Elas não só abandonaram os conhecimento domésticos e as técnicas manuais, como tampouco tiveram tempo ou paciência para nos ensinar. Esqueceram de ver a liberdade que existe dentro de tudo isso.

Nós somos a geração que não teme um botão. Entendemos as atualizações de todos os programas que utilizamos no dia-a-dia, nossa organização vem de aplicativos, nossas conversas são virtuais. Criamos um mundo que muitos pais nunca entenderam bem. Afinal, não tivemos tempo, nem paciência para ensiná-los.

Aquela paciência que ambas as gerações não tiveram para passar seus conhecimentos parece ressurgir em momentos gostosos e esquecidos, como um chá da tarde ou assistir um programa de TV a duas. O distanciamento antes existente parece ter criado essa necessidade de convivência, uma vez que as gerações se encontram. O sociólogo tcheco Vilém Flusser cita, em seu livro de 1972, O Mundo Codificado, que a tecnologia pode nos afastar da natureza, mas é ela que vai nos aproximar dela novamente. E é nesses momentos que começamos a sentir nossos primeiros instintos de convivência familiar aflorando.”

Indicação de leitura de tricô: “Bordados”, um quadrinho de Marjane Satrapi.

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