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Neste Dia da Visibilidade Lésbica, mulheres de diferentes vivências respondem à Olga a mesma pergunta: quais as principais pautas do movimento lésbico hoje? A cantora JosyAra demonstrou bem a pluralidade embutida na letra “L” da causa LGBT: “eu, enquanto mulher negra, vinda do sertão da Bahia, acredito na importância do posicionamento crítico acerca do modo que as coisas estão e não posso responder à pergunta de forma individual, universalizando o sentido do ‘ser mulher lésbica'”. Contudo, ainda que cada uma das entrevistadas tenha trazido diferentes pontos de vista, há um um ponto em comum em toda resposta: o sentimento de unidade existe na luta.

# Reconhecer a existência e diferentes demandas das mulheres lésbicas

Josyara

A luta aparece em cada pedido urgente por saúde humanizada e adaptada para as necessidades da mulher lésbica, ou por políticas públicas que provenham segurança e punição em casos de violência. Não é à toa que o dia pede por visibilidade, ou seja, por reconhecimento social, político e cultural de tantas mulheres. Como disse Renata Alves, da Coletiva Luana Barbosa, dedicada ao movimento lésbico: “nossa luta é de nós e por nós. Muitas vezes, não queremos falar com o opressor. Queremos que nossas iguais se vejam em nós e se sintam fortalecidas o suficiente para continuarem resistindo”.

Ao longo deste dia, publicamos em nossas redes sociais, de hora em hora, uma demanda do movimento em relação à data de hoje, trazidas por nossas entrevistadas. Mais do que uma luta por direitos, é um coletivo de vozes diversas – que não irão se calar. Não pretendemos, de forma alguma, encerrar o tema nas demandas publicadas ou elencá-las como mais importantes, e sim jogar luz e estimular a conversa sobre temas tão essenciais. #VisibilidadeLesbica

# Entender a luta das mulheres lésbicas com recorte de raça

joana

A mulher lésbica é ostensivamente objetificada e fetichizada pela indústria cultural, e isso é um enorme obstáculo na luta por direitos e visibilidade do movimento. Uma pesquisa recente do Pornhub, uma das maiores plataformas de conteúdo pornográfico do mundo, apontou que 60% do público masculino do site tem como principal fantasia o relacionamento entre duas mulheres. E as maiores vítimas dessa objetificação são as mulheres negras – que são duplamente oprimidas por uma sociedade que nega sua existência.

Em entrevista para a Think Olga, a cantora JosyAra apontou: “Além de enfrentar a lesbofobia do dia a dia, nós, mulheres negras, temos que lutar contra a objetificação sexual que vem da escravidão, além de outras reverberações do racismo que enfrentamos ainda hoje. E isso vai além das barreiras sociais; atinge desde a mulher da periferia à de classes mais altas”. A redatora Joana Mendes complementa com questão da pressão estética: “existe a padronização da beleza e eu estou fora dos padrões. Isso também se reflete na maneira que muitas mulheres se relacionam”.

A cantora Karla da Silva, também mulher negra e lésbica, concorda, levantando o fator da mulher em situação de vulnerabilidade social. “A maioria das lésbicas negras vivem nas periferias, são marginalizadas perante a sociedade, são escrachadas e oprimidas nos subúrbios e favelas sem acesso ao conhecimento de seus direitos. Quantas já morreram e viraram apenas estatística?”.

Infelizmente, muitas delas sequer são visibilizadas a este ponto: existem poucos dados e estudos focados em violência contra a mulher LBT. Quando há o recorte de raça, há ainda menos fontes sobre o assunto.

Ambas as artistas enxergam a música como um instrumento de resistência e força e criar laços. “A cena da música – assim como toda profissão – é um espaço ainda majoritariamente masculino. O machismo está presente em cada relação e, hoje, isso só é tão visível pra mim graças ao contato com outras mulheres que também vivem esse tipo de coisa na sua carreira”, contou Josyara. “Nada nunca nos foi concedido de bandeja, mas sim conquistado”.

# Fim da invisibilização da violência contra mulheres lésbicas

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Invisibilidade mata. É isso que aponta o Dossiê sobre Violência Contra Mulheres Lésbicas, Bis e Trans do Instituto Patrícia Galvão. Mulheres LBT estão mais suscetíveis à misoginia e violência de gênero. Segundo a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), entre 2012 e 2014, 9% das vítimas de estupro que ligaram no Disque 100, programa do governo federal para recolher denúncias que ferem os direitos humanos. Muitas delas denunciavam “estupros corretivos”.

Contudo, são poucos os dados sobre agressões e mortes de mulheres lésbicas. Parte disso vem do medo de denunciar – muitas vezes, essas violências acontecem dentro do ambiente familiar. Somada a isso, está a intolerância e o machismo da nossa sociedade, que nega o direito à identidade das mulheres lésbicas.

Mas há também uma falha da parte da imprensa em noticiar os raros casos que vêm a público. Em nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado LGBT, há diversos exemplos de como a imprensa, muitas vezes, desumaniza a vítima, reduzindo-a ao crime cometido contra ela. Além disso, ao chamar de “homofobia” casos de lesbofobia ou dar mais voz ao agressor do que à vítima, a comunicação comete outro tipo de violência: a indiferença em relação à vítima, seus familiares e amigos.

Segundo Renata Alves, da Coletiva Luana Barbosa: “nós não somos gays e nem mulheres heterossexuais. Morremos por motivos específicos: a combinação de misoginia e lesbofobia”. Sem informações precisas sobre o tamanho da violência, é muito mais difícil combatê-la. É por isso que é tão essencial incluir esses temas em pauta.

Muitas produções culturais já estão enveredando este caminho. Em pesquisa levantada pela Glaad, uma organização americana voltada para os direitos LGBT, 4.8% dos personagens presentes em seriados americanos de grande audiência são parte desse grupo. Contudo, Sarah Kate Ellis, diretora da organização, levanta um ponto importante: 25 personagens femininas queer foram mortas nas histórias, com o pretexto de que serviriam como um artifício de narrativa. Para Ellis, isso passa uma mensagem tóxica sobre a participação da mulher lésbica nessas histórias. A luta está apenas começando.

# Debater maternidade lésbica nas escolas

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Nos últimos anos, as redes sociais possibilitam que muitas mães compartilhassem suas experiências e quebrassem os “mitos” relacionados à experiência da maternidade. Não foi diferente para as mães lésbicas, que formaram grupos de apoio para falar sobre suas angústias e desafios específicos. Mas ainda estão longe de serem acolhidas nos espaços de convívio.

Elizandra Delon, da Coletiva Luana Barbosa, diz que a verdadeira maternidade lésbica é muito distante da versão idealizada e romântica que costuma ganhar manchetes e posts nas redes sociais. “Quando se é lésbica e tem um filho fruto de uma relação heteronormativa, sua lesbianidade é colocada a prova a todo momento”, dividiu ela. “Se não há um trabalho efetivo na escola, há rejeição e invisibilidade por parte dos professores, coleguinhas… e a mãe solo lésbica é quem sofre a pressão maior”.

Embora muitas pesquisas apontam que crianças com duas mães tendem a ter um desempenho melhor na escola e serem menos agressivas, não é o suficiente para combater o machismo estrutural que minimiza a maternidade da mulher lésbica. Em um artigo para o HuffPost Brasil, Natacha Orestes diz que a exclusão do tema da maternidade nos espaços de debate é uma violência contra as mães lésbicas. “A maternidade lésbica representa um local social e uma história de potência política que não pode simplesmente ser ignorada”. Como toda luta, a aceitação da maternidade lésbica também é um ato político.

# Cuidados específicos para saúde da mulher lésbica

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Desinformação e constrangimento. Por esses dois motivos, a saúde da mulher lésbica não recebe tratamento adequado no Brasil e no mundo. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Pittsburgh, 93,3% das mulheres lésbicas acima de 40 anos ainda não haviam feito exames de mamografia. Segundo o estudo, o medo de passar por situações constrangedoras afasta mulheres lésbicas das mesas de exames – enquanto mulheres heterossexuais ou bissexuais, por usarem pílulas anticoncepcionais, são mais comumente submetidas a esses exames.

Além disso, o mesmo estudo apontou que mulheres homossexuais têm tendência a fumar e beber com mais frequência. O uso de psicotrópicos também desponta como uma opção de fuga para questões de autoestima entre as mulheres lésbicas.

Em 2015, o governo federal brasileiro lançou um projeto voltado para a saúde de mulheres lésbicas e bissexuais. A pesquisa traz informações essenciais – aponta, por exemplo, que “questões de gênero e sexualidade não costumam ser pautadas durante a formação profissional em saúde”. Também desmistifica ideias equivocadas, como a de que mulheres lésbicas não correm riscos de ter câncer de mama ou de colo de útero.

Mas iniciativas isoladas não são suficientes para transformar uma mentalidade; ainda faltam mais pesquisas voltadas essencialmente para este público, com acompanhamento humanizado e mudança estrutural já no ambiente de ensino da medicina. Boa parte das entrevistadas da Think Olga para este Dia da Visibilidade Lésbica pediu por mais saúde, fisiológica e mental.

# Falar sobre sexo lésbico e proteção
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Em um estudo publicado em 2008 pela organização Stonewall, voltada para direitos LGBT, aproximadamente 50% das mulheres lésbicas inglesas que passaram por exames ginecológicos haviam contraído algum tipo de DST. Em resposta a esta pesquisa, o sistema de saúde britânico criou um manual online de cuidados básicos para a saúde sexual da mulher lésbica. Enquanto isso, em 2013, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais, que deveria ser gradualmente integrada às políticas do SUS.
Embora algumas ações de conscientização tenham surgido desde então, a realidade ainda é hostil à saúde da mulher lésbica. Como pontuou Josyara em entrevista à Olga, ainda que existam ações para a saúde da mulher LBT, muitas vezes são esquecidas em campanhas de conscientização nacional. A pior parte, é claro, é que embora essas medidas já existam, a implementação delas está longe de ser ideal.
Em um artigo preparado para o CONAGES (Colóquio Nacional Representações de Gênero e Sexualidades), as autoras Sandra Aparecida de Almeida, Josefa Eliziana Bandeira Crispim, Ivoneide Lucena Pereira e Jordana de Almeida Nogueira fizeram um levantamento de artigos publicados sobre a saúde da mulher lésbica entre 2010 e 2014. Entre suas constatações, estão o despreparo da equipe médica, que não sabe como lidar com a declaração da mulher como lésbica; a intimidação sentida pela própria paciente, que prefere não abrir sua sexualidade; a falta de informação direcionada à mulher lésbica em relação a DSTs às quais ela é suscetível; e também ao fato de que a grande parte das iniciativas relacionadas à saúde da mulher no Brasil tem fundo reprodutivo. As autoras apontam, então, “a necessidade de mudanças desde a formação acadêmica até o cotidiano desses profissionais de saúde, sensibilizando-os para a diversidade sexual, e eliminando a discriminação e o preconceito institucional”. 
# Representatividade em pesquisas e estudos 
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Basta procurar pesquisas relacionadas ao lesbianismo no Google para notar um padrão: abundam reportagens com títulos caça-clique como “toda mulher é lésbica ou bissexual” ou “lésbicas tem mais orgasmos”, mas há pouca informação real sobre bem estar, saúde e garantia de direitos da mulher lésbica. Institutos como o Patrícia Galvão, por exemplo, reúnem informações essenciais sobre violência entre mulheres LBT e prestam serviços importantes. Mas ainda estamos muito longe de compreender o cenário completo, em especial sobre a violência, principalmente com camadas extras de dificuldade: o silêncio e a baixa produção de pesquisas focadas nesse tema.

Durante a produção do documentário “Eu Sou a Próxima” da Coletiva Luana Barbosa, que registrou casos de mulheres vítimas da lesbofobia e os transportou para as telas, ficou claro para as organizadoras que a falta de informação deixa marcas profundas. “A invisibilidade é tanta que [as vítimas de lesbofobia] não são nem a estatística”, diz Renata Alves. Em geral, os levantamentos sobre violência de gênero agrupam estatísticas muito diversas em um único guarda-chuva muito abrangente: o movimento LGBT. É urgente que se criem mais núcleos de pesquisa focados na mulher lésbica.

Para a cantora Marcia Castro, que mencionou a urgência por políticas públicas específicas para mulheres lésbicas como uma de suas demandas para o dia de hoje, a arte pode contribuir para levar atenção a essas pautas. “Nós, artistas trazemos luz às questões, mas para implementar ações, se faz necessária a elaboração de um plano, com objetivo e diretrizes”.

# Criação de políticas públicas para mulheres lésbicas
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Quando a Lei Maria da Penha foi consolidada, em 2006, passou a contemplar não apenas denúncias de violências cometidas em relacionamentos heterossexuais, mas também homoafetivos. Contudo, onze anos após sua aplicação, a lei parece distante da realidade das mulheres lésbicas. Na Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal, nem 1% dos casos de violência doméstica reportados vieram desse grupo. Este é um forte indicativo que políticas públicas específicas para o movimento lésbico são necessárias.
Maria Berenice Dias, advogada e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, disse ao Dossiê do Instituto Patrícia Galvão sobre Violência Contra a Mulher: “A Lei Maria da Penha não deixa lacunas, ela é muito expressa neste sentido, mas há todo um preconceito muito severo associado a uma omissão legislativa muito grande”. O risco de exposição, somado à LGBTfobia estrutural de muitos órgãos reguladores, afasta as mulheres lésbicas desta ferramenta.
Mas para haver políticas específicas, é preciso informação suficiente – algo que está em falta. Muitas vezes, violências cometidas contra mulheres lésbicas são classificadas como “homofobia” ou “feminicídio” – e embora a segunda opção seja correta, não entrega todo o contexto necessário para compreender as motivações daquele crime específico. Para a Coletiva Luana Barbosa – que leva esse nome em homenagem a uma vítima de lesbofobia, espancada por seis policiais em 2016 – “isso só atrapalha no momento de fazer esse recorte e conseguirmos dados estatísticos”. Imprensa, academia e sociedade devem agir conjuntamente, produzindo informação e pesquisa apuradas, para criar uma base de dados real sobre a mulher lésbica no Brasil, e não apenas pesquisas pontuais.
Consolidar políticas públicas específicas para as demandas das mulheres lésbicas não é apenas atender melhor a uma parcela da população que não se sente representada; é também legitimar a luta, reconhecê-las como parte importante da sociedade, que não deve tolerar mais violência. Como disse a cantora Aíla, que lança hoje seu clipe “Lesbigay”, em entrevista para a Olga: “Precisamos assumir quem somos e todas as violências que sofremos; não calar, expor”.
# Fim da fetichização do lesbianismo
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Mulheres lésbicas são objetificadas e fetichizadas em todos os espaços sociais, da indústria cultural à pornográfica. Para Joana Mendes, redatora, a fetichização é problemática porque abre caminho para pensamentos ainda mais perigosos. “Mulher lésbica, muitas vezes, é vista como alguém que tá numa fase, que ainda não arranjou um cara legal, que foi maltrada. Não é alguém que tem o desejo por outra mulher, e sim que teve um relacionamento ruim com os homens”. Em muitas ocasiões, a comunicação endossa isso, ao colocar mulheres hétero em posições sensuais umas com as outras; quantos programas de comédia não reforçam a ideia de que mulheres jovens “experimentam” sua sexualidade, como se fosse uma escolha?
Esses dois estereótipos nocivos – a sexualidade como escolha e a narrativa autocentrada, que vê o homem como principal componente da sexualidade da mulher – não estão apenas causando uma violência de gênero; os homens passam a se sentir donos do corpo da mulher. Não à toa, quando não atendem às expectativas de feminilidade e afetividade dos homens, mulheres lésbicas correm riscos de serem violentadas e agredidas.
Não é à toa que quando entrevistamos a publicitária Vanessa Goldmacher sobre suas demandas para o Dia da Visibilidade Lésbica, ela foi categórica: segurança. “Me sinto insegura e vejo como ameaça todo homem hétero, principalmente desconhecidos”. Em tempos de grande retrocesso em relação a direitos já conquistados para a mulher, o medo é bastante compreensível: se as políticas que combatem a violência contra a mulher já não são efetivas o suficiente, pode-se esperar ainda menos efetividade de punição em violências de nicho – embora essa também seja uma demanda urgente do movimento.
Mas Vanessa acredita na validade do dia de hoje: “as estatísticas mostram quanto a luta pela visibilidade e proteção das mulheres no Brasil precisa ganhar força”. Pelo fim da fetichização da mulher lésbica, votamos sim.
# Identificação com a luta
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Em todas as perguntas que Olga fez às entrevistadas deste especial, apenas uma demonstrava centelhas de esperança. “Por que o Dia da Visibilidade Lésbica é essencial em tempos de intolerância?” se desdobrou em confiança na luta que é conduzida diariamente por tantas mulheres.
A cantora Josyara não vê opção: uma vez que nasceu mulher e lésbica, sabia o que estava por vir. “A opressão mais dolorosa é o silenciamento de quem somos. É não poder existir sem estar sujeita a violências de todo tipo quando saímos na rua de mãos dadas com quem amamos”. A também cantora Karla da Silva divide uma opinião similar, incluindo sua profissão como espaço para militância: “Estamos aí, queremos nosso espaço, somos fortes, somos resistência e não aprendemos a desistir fácil. Da nossa forma, com a nossa arte, temos que ir contribuindo pelas mudanças”.
Para Joana Mendes, o Dia da Visibilidade Lésbica também tem tudo a ver com o eu, e não apenas com o sentimento de coletividade. “Você pode aprender um pouco sobre cuidado com seu corpo, com sua mente. Ver a resistência de mulheres de diferentes lugares da cidade e como isso reflete em você”.
 
A militância pode ser exaustiva, mas também recompensadora. E essa parece ser uma das maiores motivações para continuar na batalha. As representantes da Coletiva Luana Barbosa são otimistas: “esse está sendo o primeiro ano em que estamos vendo muitos eventos da visibilidade, em sua maioria puxados por nós mesmas, mulheres lésbicas”. Como cada mulher disse à Olga, à sua maneira, a luta não pode tardar. “Não podemos esperar isso vir de outros.”
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A escritora americana Kate Schatz nem sabe dizer quando se tornou feminista. Para ela, o feminismo faz parte de sua experiência e vivência desde que se entende por gente – e não faz nenhum segredo disso. Foi natural, então, que pensasse em uma forma de compartilhar histórias de mulheres fantásticas – em geral, apagadas ou ignoradas pela história – em seu ofício. “Mulheres Incríveis” é a segunda obra de não-ficção de Kate, com recorte global; inclusive, na edição brasileira, publicada pela editora Astral Cultural, a fundadora da Think Olga, Juliana de Faria, contribuiu com mais quatro perfis: Maria da Penha, Debora Diniz, Sonia Bone Guajajara e Elza Soares. Entrevistamos a autora para conhecer sua relação com o feminismo e a importância de tornar a vida dessas mulheres conhecida em todo o país.

O que é ser uma mulher incrível (rad woman, no original)?

A palavra “rad” tem alguns significados diferentes; é uma gíria que traz diferentes maneiras de se dizer “muito legal” em inglês. No livro, nós usamos de uma forma meio engraçada, uma brincadeira com o fato de que as mulheres no livro são muito incríveis. Mas “rad” também é um diminutivo de “Radical”, o que pode significar algo poderoso ou que nunca foi feito antes. Então quando falamos dessas mulheres, nos referimos a pessoas que são muito legais, mas também fora do comum, que fazem coisas grandes e inesperadas.

Como surgiu a ideia do livro?

A ideia começou no meu primeiro livro, que se chama “Rad American Woman A-Z”, e a inspiração surgiu com a chegada da minha filha. Eu estava pensando muito em como é criar uma filha nesse mundo e as histórias que eu gostaria que ela aprendesse. E por aqui temos muitos livros alfabetizantes, que ensinam as crianças o ABC e eu pensei: ‘E se eu fizesse um livro como este, mas ao invés de animais ou frutas, eu usasse nomes de mulheres fascinantes da história?’. Então foi mesmo uma combinação de coisas as quais eu tenho paixão: feminismo, história, leitura para jovens… Quando apareceu na minha cabeça, eu pensei: ‘uau! esta é uma ótima ideia!’.

Você é uma escritora de ficção e esta foi a primeira vez escrevendo para jovens e sobre história! Como foi a experiência?

Quando eu tive a ideia, fiquei muito animada. Mas ao mesmo tempo, era um território novo, muito diferente. Eu nunca havia escrito para crianças e nunca havia escrito algo que não era ficcional. Então foi um ótimo desafio que eu fiquei feliz de aceitar. Mas no fim das contas, não sei se houve tanta diferença. Mesmo que estas histórias sejam verdadeiras, que não sejam ficção, ainda é tudo sobre contar histórias. Então, as mesmas ferramentas que eu uso como escritora de ficção, também uso quando estou escrevendo histórias sobre estas mulheres da vida real. A minha verdadeira intenção é tentar manter um público interessado e engajado com as histórias que estão sendo contadas por meio dessas mulheres.

E sua filha? Ela gostou dos livros?

Ah, ela ama os livros! Ela tem oito anos agora e é uma grande fã e muito orgulhosa. Quando o primeiro livro saiu, ela estava perto dos seis anos de idade e ainda não conseguia ler, então ela olhava e reconhecia o livro, mas não havia lido sem ajuda, ainda. E quando ela aprendeu a ler, houve um momento em que ela leu o livro em voz alta para mim e esse foi um momento muito emocionante.

Em algumas entrevistas, você mencionou que se divertiu muito durante a pesquisa para o livro. Gostaríamos de saber: como foi o seu processo de desenvolvimento e escrita?

A pesquisa para conteúdo histórico é difícil, mas incrivelmente divertida ao mesmo tempo. Para o Mulheres Incríveis, meu processo de pesquisa foi diferenciado pois, no primeiro livro, eu já tinha um conhecimento vasto sobre mulheres americanas na história, mas com esse eu não tinha tantos nomes específicos e eu não queria deixar muitas brechas. Então eu contatei pessoas de todo o mundo, amigos meus e amigos de amigos meus e perguntei a eles: que  mulheres, em suas respectivas culturas, eles gostariam de ver neste livro? Isso foi uma parte bem grande da minha pesquisa, para ter uma representação autêntica de pessoas em todo o mundo se identificassem. E foi isso, todo mundo deu ideias… e enquanto eu me aprofundava nas pesquisas, lendo muito e assistindo a todos os documentários e vídeos possíveis, acabei aprendendo muito sobre essas mulheres incríveis. Cerca de 40 histórias entraram no livro, mas eu pesquisei mais de 200 nomes antes de decidir quem incluir. Eu passava meu tempo lendo e vendo histórias sobre pessoas legais! *rindo*

Isso parece bem divertido, mesmo!

E agora, pessoas me mandam histórias o tempo todo por e-mail, Facebook, mandam links de mulheres e garotas fantásticas… As pessoas também vêm falar comigo em eventos, algo como “ei, você já viu essa ou essa pessoa?”. Eu sempre anoto essas ideias. Acabou se tornando uma parte bem importante do projeto.

Você tem alguma história favorita que gostaria de compartilhar com a gente?

Bem… eu acabei ficando muito ligada a todas as histórias. Sempre faço visitas a escolas, para conversar com os jovens, e acabo lendo sempre as mesmas histórias que fazem sucesso entre eles, são mais fáceis de ler em voz alta… e a história da Marta, essa fantástica jogadora de futebol brasileira, é sempre um sucesso… É engraçado, futebol é muito popular entre crianças aqui nos Estados Unidos, especialmente jovens meninas. Mas não é tão popular entre adultos. Há muitas meninas que jogam quando são pequenas, mas não têm oportunidade de jogar de forma profissional quando crescem. É tão incrível a reação delas quando ouvem falar da Marta, ficam muito empolgadas. Também gosto muito da história de Sophie Scholl, a jovem estudante alemã que foi uma das primeiras pessoas a falar publicamente contra Hitler. É uma história poderosa e muito triste sobre como é importante se posicionar em relação ao seu governo, o que com certeza é muito relevante para a gente até hoje.

A edição brasileira tem mais quatro mulheres incríveis, cujos perfis foram escritos por Juliana de Faria, fundadora da Olga. Você conhecia a história delas?

Fiquei tão feliz quando a editora brasileira sugeriu a inclusão de mais mulheres, fiquei tão feliz. Eu não era familiarizada com a história dessas mulheres, então fiquei tão emocionada em ler sobre suas vidas. Foi realmente uma ideia muito boa adicionar mais mulheres, foi perfeito. Fiquei bem animada em conhecer mais sobre elas. Quando soube da inclusão desses nomes, perguntei para alguns amigos brasileiros se conheciam essas mulheres, e todos ficaram tão empolgados quanto eu.

Muito bom! Bem, o tema agora é feminismo. A Olga é uma ONG focada em empoderar mulheres por meio da informação aqui no Brasil. Quando você soube que era feminista?

Eu não tenho uma memória específica sobre isso, embora quisesse muito ter. Minha mãe encontrou um pôster que fiz quando tinha 12 anos para um projeto de escola, basicamente fazer um pôster que me representasse. E o meu tinha diversas fotos, colagens e montagens, e no meio delas a palavra “feminista” escrita bem grande. Eu era bastante ativa politicamente quando era mais nova, mas isso me surpreendeu! Eu não lembro muito bem disso… lembro de recortar essa palavra para colocar no pôster, mas não lembrava que tinha colado nem que tinha feito isso aos 12 anos! Então, tenho o feminismo em mim há bastante tempo, claramente *rindo*. Desde pequena, era interessada em gênero e política. E sempre tive um conceito muito sólido sobre o que é ser mulher, e sempre pensava nisso, nas coisas que eu achava que não eram certas. Sou feminista desde sempre, acho!

O mundo mudou bastante nas últimas décadas em relação ao feminismo, mas queria saber o que é o feminismo hoje, na sua opinião.

Para mim, feminismo é muito simples. É acreditar na igualdade dos gêneros, mas também, o que eu sempre digo, é saber que ainda não temos essa igualdade. Vivemos em um sistema patriarcal, que desvaloriza de forma consistente as conquistas da mulher. Então, o feminismo está presente na forma que eu me posiciono no mundo, nos trabalhos que faço, em como educo meus filhos… E é algo que eu torno bastante público sobre mim, eu falo bastante sobre o tema, tenho uma camiseta, porque acho importante ter pessoas pensando e falando sobre isso. De certa forma, acho que muita gente ainda acredita que feminismo é um palavrão, e eu quero torná-la uma palavra legal. Todo mundo que acredita na igualdade de direitos deveria se considerar feminista. É uma grande parte da minha vida, em todos os sentidos.

Você poderia contar um pouco mais sobre seu projeto Solidarity Sundays?

Sim, claro! Solidarity Sundays é uma rede americana de ativismo fundada por uma amiga minha. Uma vez por mês, a gente reúne mulheres que cumprem ações políticas para descobrir novas formas de ativismo. É similar ao feminismo; muitas pessoas se identificam com as ideias, têm posicionamento, mas não se sentem ativistas de uma causa, não sabem como fazer a diferença. É uma forma de ajudar pessoas a encontrarem a melhor maneira de lutar, ao seu modo. Muitas pessoas usam a internet, por exemplo, como espaço para o ativismo. Isso é bom, mas também acho que as pessoas devem se encontrar em espaços offline. É por isso que começamos o Solidarity Sundays, que se encontra sempre em um domingo do mês. Há um ano, temos um grupo que se encontra na minha casa e se organiza para agir em diferentes causas, como a luta pelo meio ambiente, pela legalização do aborto. Logo depois da eleição [presidencial nos Estados Unidos], nosso grupo cresceu muito! *rindo* Tínhamos um grupo já grande no Facebook, com cerca de 700 pessoas, e depois das eleições esse número saltou para 1900! E temos cerca de 300 grupos ao redor do país, e em alguns outros países também, como Canadá, Áustria… Sempre são grupos de pessoas que se reúnem na casa de alguém. Escrevemos um kit de ações que podemos tomar, em diferentes cidades. Ligamos para representantes do governo, organizamos festas beneficentes para angariar fundos para organizações, participamos de marcas… mas muito das nossas ações focam, hoje, na política americana, como saúde, políticas anti-imigrantes, somos muito reativas a tudo que Donald Trump vem propondo. Estamos trabalhando bastante por aqui, é muito frustrante, às vezes. Sabemos que o resto do mundo olha pra gente e pergunta o que está acontecendo. *rindo*

Acreditamos muito no empoderamento feminino por meio da informação, ou seja, em mulheres contando suas histórias ou passando o microfone para que outras também compartilhem suas vivências, que é o que você está fazendo também. Como podemos empoderar ainda mais mulheres nessa missão?

Acho que há uma grande quantidade de formas de fazer isso e é extremamente importante. Artistas, por exemplo, tem um grande papel nisso, assim como vocês, jornalistas. Geralmente, fazendo com que todas as mulheres saibam que suas histórias são importantes e válidas. Artistas têm esse poder, seja no cinema, escrevendo roteiros para a televisão ou criando artes visuais, é essencial contar essas histórias. Jornalistas também tem essa responsabilidade de amplificar vozes. E também acredito que é essencial começar o mais cedo possível! Fazendo com que jovens meninas sintam que suas opiniões são válidas, que são interessantes e suas histórias devem ser contadas também, inclusive nas salas de aula. Elas precisam se sentir preparadas para fazer perguntas e respondê-las também. Encorajar essa cultura do compartilhamento, de trocar experiências, é realmente importante. Se isso não acontece, você acaba tendo mulheres adultas que não sentem que suas opiniões e histórias são válidas, e isso é ainda mais duro, né? Outro aspecto que pode ser importante é criar espaços seguros para mulheres conversarem e dividirem vivências, seja no espaço digital ou offline.

Nossa última pergunta é, claro, sobre recomendação de livros de outras mulheres incríveis?  

Oh meu Deus, eu consigo recomendar um milhão de livros! *rindo* Isso é muito difícil! Acho que vale dizer que há muitos livros que são similares ao Mulheres Incríveis, que contam histórias fantásticas sobre mulheres na história ou empoderam meninas… há uma escritora americana que gosto muito, que é Rebecca Solnit, que para mim é uma das pessoas mais brilhantes escrevendo sobre política hoje. Caramba, são muitas opções! *rindo* Acho que não vou conseguir pensar em mais agora, estou olhando para a minha estante agora e é muito difícil escolher uma só *rindo*.

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O Dia do Índio, que acontece todos os anos em 19 de abril, não é uma data comemorativa. Assim como o Dia da Mulher, é um símbolo de luta por mudanças, melhorias e pela manutenção de direitos conquistados. As mulheres indígenas tendem a ser as maiores prejudicadas nas questões de defasagem de ensino, preconceito e assédio. É extremamente importante que essas pautas se tornem de interesse público e potencializem as vozes indígenas, reconhecendo sua presença no tempo atual.

Para encorajar o debate com recorte de gênero, conversamos com Braulina Aurora Baniwa, estudante de Ciências Sociais na UnB e membro da Diretoria do Coletivo de Estudantes Indígenas – AAIUnB, sobre as pautas das mulheres indígenas, a importância do território e como alertar a sociedade sobre as necessidades modernas das tribos:

Quais os maiores desafios de ser mulher indígena?

Primeiramente, os desafios são inúmeros e podem depender da diversidade de povos, culturas e realidades em que cada mulher indígena vive. Mas vou destacar minha percepção como mulher indígena do povo Baniwa, que vive em dois mundos: a sociedade que não me enxerga como sou, como uma indígena capaz, que tem potencial além do tema “povos indígenas”. No âmbito tradicional, é de ter espaço reconhecido nos debates políticos, como colaboradora nas discussões.

Qual é a pauta mais importante para as mulheres indígenas hoje? Quais são as principais lutas de vocês?

No cenário nacional para povos indígenas, lutamos pela garantia de direitos conquistados, evitando os retrocessos. Uma das principais reivindicações de mulheres indígenas é o território, pois é a partir dele que discutimos ou reivindicamos as políticas públicas para nós. Como estudantes indígenas, também temos lutado pela garantia de uma educação de qualidade e pelo enfrentamento da violência nas universidades, onde observamos que há necessidade de políticas especificas para mulheres e estudantes em geral, pois não há uma política no sistema das universidades que atendam nossas especificidades.

 

A sociedade pode ajudar nessa luta? Quais são os mecanismos que podemos usar para vencer o preconceito?

Por meio de uma educação sem discriminação e racismos em todos níveis de formação. Destacaria a formação no ensino superior, onde se formam profissionais que vão lidar com a diversidade que existe no nosso pais. Que leis vigentes no país seja de fato efetivas, como da lei 11.645 LBD, que está ligada diretamente no processo educacional; estatuto da igualdade racial (que abrange os povos indígenas) e campanhas informativas para conscientização.

E como a educação pode ser mais inclusiva em relação às tradições indígenas?

Demonstrando nós, indígenas, como somos na contemporaneidade, e não na visão de 1500 na invasão do Brasil. A educação deve ser uma educação de reconhecimento, e não de discriminação, “do achismo” ou do passado “os índios faziam, os índios caçavam”. E apontar a diversidade de povos e culturas que temos! Isso é uma das riquezas do país, as mais de 270 línguas indígenas, os mais de 300 povos indígenas (isso sem contar os povos isolados, que ainda não se sabe tronco linguistico e fatores culturais). Fortalecer essa diversidade é contribuir com o Brasil mais indígena e mais humano, reconhecendo os povos originários.

Arte: Anita Ekman para a coleção Mundo Indígena, da Editora Hedra
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Arte: Chloe Early
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Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres
Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres

Ninguém nasce machista, homofóbico, racista ou transfóbico. Aprendemos a adotar comportamentos considerados comuns para a sociedade onde vivemos. Parte desse aprendizado vem da escola, durante a socialização entre as crianças. Segundo a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com mais de 18,5 mil alunos, mães, pais, diretores professores e funcionários, 99,3% dos entrevistados demonstram algum preconceito étnico-racial, socioeconômico, de gênero, geração, orientação sexual, deficiência ou territorial. O estudo indicou que 99,9% dos entrevistados têm vontade de manter distância de algum grupo social, principalmente os deficientes mentais e homossexuais, ambos com taxas de 98,8% de rejeição.

Seja para combater discriminação na escola ou para ensinar as crianças sobre questões básicas relacionadas a equidade, a educação de gênero em sala de aula é fundamental. Tanto é que a UNESCO recentemente se pronunciou a favor do aprofundamento do debate sobre sexualidade e gênero para uma educação mais inclusiva e de qualidade no Brasil. Enquanto isso, projetos de lei que proíbem debates sobre questões de gênero despontam em várias partes do Brasil, inclusive um que prevê a prisão de professores que abordarem o assunto em sala de aula. No Reino Unido, porém, acontece o oposto: o debate sobre gênero em sala de aula só aumenta, inclusive com apoio financeiro do governo. Uma das instituições por trás desse avanço é a Educate & Celebrate, especialista em transformar escolas, organizações e funcionários LGBT+ friendly, isto é, em humanizar pessoas e ambientes educacionais a fim de combater discriminações ligadas a gênero, orientação sexual e identidade de gênero. Conversamos com a CEO da iniciativa, Elly Barnes, sobre o trabalho desenvolvido e sobre como trazer esse debate para a sala de aula. Confira a conversa:

Como começou a organização Educate & Celebrate?

Eu comecei essa organização há 11 anos porque eu era coordenadora de uma escola e tinha que dirigir 240 crianças de 11 anos que eram meus bebês. Eu queria garantir que a linguagem transfóbica, bifóbica, sexista, racista e homofóbica que todos eles estavam usando fosse erradicada porque eu não aguentava mais ouvi-la. E eu queria desesperadamente que as crianças que estavam sob meus cuidados tratassem todos justa e igualmente. Se não falarmos a respeito, nada vai mudar. Havia um silêncio absoluto, uma completa invisibilidade especificamente sobre sexismo, homofobia e transfobia, não era tão ruim quanto a racismo mas havia alguns temas que não eram trabalhados de maneira alguma no plano escolar.

Comecei simplesmente fazendo um seminário com meus alunos explicando as palavras lésbica, gay, bissexual, trans e então intersexual, travesti, gênero fluido, assexual, pansexual e trouxe essa linguagem para o estado consciente dos meus alunos para que eles soubessem o que elas significam. Eu queria que eles usassem esses termos com confiança. Na época, em 2005, não havia leis específicas sobre o assunto, então causou uma certa agitação. A diretora ficou chocada. Eu perguntei o que ela achava que aconteceria se tivéssemos essa conversa, ela disse que “tornaria” todos os alunos gays e que ensinaria a ter sexo gay. Eu respondi bem, quando celebramos o mês da consciência negra, viramos todos negros? Não. Os pais negros reclamam quando celebramos o dia da visibilidade deficiente? Não.

Como funciona essa pedagogia na prática?

Queremos garantir que estamos falando com todas as pessoas o tempo todo e garantir a interseccionalidade. Se eu estivesse falando sobre música, que era a aula que eu dava, e estávamos no mês da consciência negra, eu escolheria pessoas como Stevie Wonder e Ray Charles porque eles são negros, músicos e têm alguma deficiência. Trazemos a interseccionalidade. Se eu for falar sobre a Joan Armatrading, deixo claro que ela é uma compositora negra e lésbica. Há uma pedagogia por trás, chamamos de “usualising” (“normalizando”, em português). Isso é sobre quebrar a heteronormatividade, isso de as pessoas assumirem que eu sou casada a um homem, queremos encorajar a interseccionalidade usando a pedagogia da normalização e o resultado final que eu quero é justiça social. Eu queria que todos subissem no ônibus do arco-íris, entrassem nessa jornada comigo e nos uníssemos.

E qual é a reação de pais e alunos?

Felizmente, não tivemos muita adversidade por parte dos pais ou dos alunos, desde lá até agora a maior adversidade que encontramos foi por parte dos próprios professores. Eles não se sentem confortáveis falando sobre sexismo, homofobia e transfobia porque eles não foram educados da mesma forma que nossos alunos estão sendo educados hoje. Temos que fazer com que as gerações antigas se atualizem e acompanhem a geração atual para que estejamos todos falando a mesma língua porque essa divisão torna algumas situações impossíveis. Temos que quebrar essas barreiras negativas. Passei muito tempo falando com a equipe e muitos continuam achando que as crianças vão enlouquecer e isso simplesmente não é o caso. Isso é apenas homofobia e transfobia internalizados. Não é o que realmente acontece. Então é isso o que fazemos, damos aulas por exemplo de matemática, com exercícios com diagramas falando do número de pessoas que participaram da parada gay em Brighton para chegar ao resultado de quantas pessoas devem ir à de São Francisco. Apenas adaptamos parte do conteúdo escolar com linguagem LGBT+. Funcionou muito bem. Falamos sobre linguagem LGBT+, colocamos o conteúdo em contexto LGBT+ em todas nossas aulas. Pegamos o programa escolar todo e pensamos: só vamos falar de homens brancos heterossexuais e cristãos? Erradicamos isso e mudamos o programa escolar. Depois disso, aumentamos a visibilidade dentro do contexto. Quando você entra na escola, há um cartaz dizendo “aqui tratamos todos com justiça, sem importar sua idade, deficiência, identidade de gênero, orientação sexual, cor e gênero”. Todos têm que assinar esse termo dentro das regras da escola. As escolas e os pais precisam entrar em consenso em relação a isso antes de os pais enviarem seus filhos para lá. Tudo tem que ser acordado, então mudamos toda a papelada e as regulações das escolas. E então envolvemos a comunidade, todo mês fazemos uma apresentação de arte e as crianças fazem suas próprias músicas, textos, falam sobre as campanhas que estão fazendo ou sobre o que gostam na escola.

Há muitas crianças em transição na escola agora, porque como há mais visibilidade temos mais crianças trans. Isso facilitou muito porque as escolas precisam lidar com isso agora, antes havia um comportamento meio “por que precisamos falar sobre isso se não temos crianças trans?”. Como demos maior visibilidade, as crianças se sentem mais confortáveis para fazer a transição e isso estimula as escolas a agirem. Então fizemos workshops de identidade de gênero com as crianças e com a equipe para garantir que todos entenderam que amanhã Charlie vai vir a escola e continua sendo Charlie, mas o pronome adequado agora é “ele”. Então todos sabem que no dia seguinte será assim. As crianças respondem muito bem a isso e fazem vários cartazes pela escola dizendo “bem-vindo de volta, Charlie!”. É uma questão de consciência. Temos que trabalhar nisso assim que as crianças entram no sistema educacional para quebrar o estigma. Para as crianças, isso não é um problema. Estamos começando a mudar o sistema educacional britânico, mas não estamos perto de onde queremos chegar ainda. Há 22 mil escolas neste país e já trabalhamos com algumas milhares de escolas ao longo dos anos, mas é só a ponta do iceberg. Tentamos prover serviços que as escolas possam acessar facilmente, como treinamento de equipes, workshops e consultoria. Treinamos os professores, atualizamos os regulamentos, questionamos o programa escolar, aumentamos a visiblidade no ambiente e envolvemos pais e alunos na comunidade com vários eventos, esse é o nosso programa. E se todos fizéssemos isso, poderíamos ter aquele mundo com justiça social que sonhamos onde podemos ser nós mesmos sem medo de discriminação.

Muitas vezes no senso comum as pessoas afirmam que esses são assuntos “privados” que devem ser discutidos em casa, não na escola ou no ambiente público, enfim. Como você lida com esse tabu?

O tabu é um problema muito grande. Quando falamos sobre esses assuntos com os professores, eles falam sempre que “não falamos sobre esses assuntos porque é tabu”. Não é engraçado? E se usássemos isso para falar sobre qualquer assunto, por exemplo “não falamos sobre pessoas com deficiência porque é tabu”, “não falamos sobre culturas diferentes porque é tabu”. Não usamos essa linguagem com nenhuma outra desigualdade, usamos? Temos que fazer as pessoas entenderem que isso é sobre equidades, não sexo. Por algum motivo, toda vez que falamos sobre identidade de gênero ou orientação sexual, as pessoas acham que é sobre sexo. Mas não tem nada a ver com sexo. Por quê? Não é relacionado a sexo, é sobre quem você é. Há essa barreira que temos que quebrar e assim que quebramos os portões estão abertos, é sobre dar permissão às pessoas para falar sobre, porque quando você abre a conversa elas se abrem também, dizendo “nossa é verdade, meu tio sempre se transvestia nos finais de semana, sempre me perguntei como chamava isso”. As pessoas começam a falar com você sobre suas experiências e não fazemos isso o bastante. É um método que funciona porque você remove isso da questão de sexualidade e apresenta como uma questão de equidade, assim como racismo, sexismo.

Você acha que isso está relacionado ao nível de violência cometido contra pessoas gays e trans?

É o medo, não é? As pessoas estão assustadas, os níveis de violência relacionados a sexualidade são absolutamente terríveis. Esses são comportamentos aprendidos, porque não nascemos racistas, sexistas, homofóbicos ou transfóbicos. Apredemos isso. Então temos que destruir esses comportamentos desde pequenos. Se você nasceu em uma comunidade onde a homofobia é comum, você sofre uma lavagem cerebral e passa a acreditar nisso, não é? É isso o que precisamos mudar, temos que mudar as leis e é também sobre se infiltrar no sistema educacional para garantir que isso está incluso no programa escolar. A razão para esse ódio é medo. Trabalhei com professores turcos e eles me disseram que não há nada a fazer porque simplesmente não há leis para proteger pessoas LGBT+. E o único trabalho que pessoas trans podem fazer é prostituição porque eles simplesmente não são reconhecidos pela lei como seres humanos. Temos que começar mudando as leis e a educação. A homossexualidade foi legalizada em 1967, mas não podíamos falar sobre isso nas escolas, tem sido uma jornada de lutas. Em 2003 foi abolida a lei que proibia falar sobre isso em sala de aula. Então só tivemos permissão para fazer esse trabalho a partir daí.


Que lei era essa?

Em 1998, Margaret Thatcher criou algo chamado Sessão 28. Havia um livro nas bibliotecas chamado “Jenny vive com Eric e Artie”, a história de uma criança que tinha dois pais. Ela tirou isso das bibliotecas dizendo que era sobre uma “família de mentira” e que não queria isso nas escolas. Os livros foram banidos das escolas e os professores não podiam falar sobre isso, semelhante ao que está acontecendo na Rússia agora. Há um banimento total em relação a isso, eles chamam de “propaganda”. Não sei exatamente de onde vem isso, mas certamente é fruto de ignorância e medo. Infelizmente sofremos uma lavagem cerebral nessa cultura, então temos que começar do início.

Fale um pouco do impacto da organização no Reino Unido.

Acabamos de lançar um relatório sobre nosso trabalho e havia muitas coisas interessantes. Um dos dados apontados é que quanto mais você fala sobre esses assuntos, mais caem os níveis de homofobia e transfobia, simples assim. Quanto mais você envolver as crianças, melhor, e é isso o que fazemos nas nossas redes de apoio. Você está empoderando pessoas jovens a fazerem ações positivas, e assim eles descobrem que são capazes porque eles não sabem que podem, muitas vezes eles me dizem “eu acredito nisso, mas não sei o que fazer a respeito, não sei como fazer”. Vemos na pesquisa que damos voz aos jovens, ouvimos o que estão dizendo e garantimos que outras pessoas também escutem sua voz. Centenas de professores saíram do armário depois de trabalhar conosco, não apenas em termos de orientação sexual mas também de identidade de gênero. Isso é muito encorajador, ver professores trans iniciarem a transição enquanto trabalhamos nas escolas porque eles se sentem seguros. Porque nós tornamos o ambiente seguro para eles ao trabalhar lá, isso é absolutamente incrível. No momento temos 100 escolas premiadas como melhor desempenho, o que significa que alcançaram o nível de excelência em termos de orientação sexual e identidade de gênero e elas continuarão a trabalhar com isso e espalhar conhecimento para suas escolas parceiras e consórcios. Isso só vai se espalhar e ficar cada vez maior. Temos um contrato com o conselho municipal de Londres e trabalhamos pela cidade inteira, também estamos expandindo esses contratos para outras cidades, como Lancaster e Bristol, porque as escolas precisam disso e querem isso. Porque abre conversas e dá às pessoas permissão para falar sobre isso. Como são assuntos delicados, você precisa apoiar as pessoas, não é como prestar um serviço, você precisa estar lá e é o que fazemos. Somos bem práticos, e apoiamos as pessoas.

Arte: Chloe Early.

 

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Arte Amber Lynn Seegmiller

Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?
Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?

“Inconformado com o fim do relacionamento”, “crise de ciúmes”, “crime passional”… A forma como a imprensa cobre casos de violência doméstica diz muito sobre como os jornalistas entendem o que é agressão contra a mulher e sobre a sociedade que assiste a esse noticiário. Para Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?, a espetacularização da violência e a abordagem da mídia televisiva nos casos de violência contra a mulher têm tudo a ver com a posição em quinto lugar do Brasil no ranking de países que mais matam mulheres no mundo. O documentário traz uma análise crítica de especialistas em assuntos como violência contra a mulher, polícia e mídia sobre a forma como o sequestro em cárcere privado e posterior homicídio da jovem Eloá Cristina Pimentel pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves foi abordado pela imprensa brasileira em outubro de 2008. Depois de rodar em 16 festivais e ganhar cinco prêmios, o documentário está disponível online, no site Porta Curtas. Em entrevista à Think Olga, Lívia falou sobre como a televisão banaliza a violência e afeta a forma como a sociedade entende questões relacionadas a gênero, muitas vezes invisibilizando mulheres e justificando e até mesmo romantizando comportamentos machistas e agressivos dos homens.

De onde veio a ideia de fazer o documentário?

Na época do crime a cobertura foi intensa mas eu não vi em nenhum veículo a imprensa falando sobre a violência contra a mulher – apesar de estarmos diante de um caso clássico de violência contra a mulher – e isso me motivou muito a fazer o documentário. Aquilo ficou na minha cabeça um tempo até que eu li um texto da Analba Teixeira, uma militante do Nordeste que milita no SOS Corpo, e o texto falava tudo que eu pensava naquele momento. Continuei com essa ideia e quando vi os vídeos no YouTube com a hashtag Eloá e #eloaelindemberg pensei em colocar mulheres que pensam a violência e o audiovisual para analisar isso e refletir. A ideia era meio inviável porque eu não tinha dinheiro para fazer o filme até que fui contemplada pelo edital Carmen Santos de Cinema, uma iniciativa bem única da Secretaria do Audivisual, do Minc e da Secretaria Pública de Mulheres de contemplar apenas mulheres.

No documentário você mistura o áudio da narração de programas televisivos com abutres sobrevoando o céu. Fale um pouco mais sobre a linguagem visual do documentário e o que você quis dizer com essas mensagens.

Eu e meu companheiro Giovani sempre pensávamos nessa relação entre o jornalista e o abutre, de um jornalismo feito sempre de uma forma muito semelhante do abutre, que se aproxima quando uma tragédia está prestes a acontecer, que é o que o jornalismo das seis da tarde faz com muita frequência, principalmente com as classes menos privilegiadas. Além disso tinha a questão dos helicópteros sobrevoando, o que eu achava surreal porque era um conjunto habitacional, tudo estava acontecendo dentro mas eles insistiam em colocar o helicóptero girando ali, e isso se associou totalmente aos abutres. Além do paralelo com os abutres há também o estúdio preto justamente sem informação nenhuma para contrastar com essa linguagem da TV que tem legenda, publicidade em cima, é amarelo… O estúdio preto, um lugar de reflexão onde elas pudessem entrar e refletir o máximo sobre o que foi aquele circo, a forma que se noticio, enfim.

Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário
Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário

Na sua visão, qual é a mensagem que a TV passou ao falar em crime passional? Como você interpreta isso?

No filme eu tentei trabalhar três eixos: a sociedade, a polícia e a imprensa, que acabou sendo o mais forte. Primeiro no caso de sequestro eles geralmente são sigilosos então a imprensa não deveria nem ter noticiado antes que o caso acabasse, mas noticiou. Além disso tem a interferência. E a terceira camada é a romantização, construir um romance em cima do crime, construir os personagens Lindemberg e Eloá, ele bem mais complexo que ela, ele joga futebol, ele trabalha, faz várias coisas mas sobre ela não temos muita informação. Sempre se apoiando sobre a dor do Lindemberg, sobre o ciúme, sobre o que ele quer, uma construção de uma forma muito clássica, como uma novela. E como aquilo foi se estendendo, a mídia foi trazendo mais e mais informações até que aquilo precisava de um desfecho dramático, tanto que teve, ela foi morta em uma intervenção às seis da tarde. Até uma entrevistada fala “é uma coincidência né, a polícia ter entrado na hora em que todos os programas policialescos estão com a câmera ligada para lá”. A imprensa perdeu uma oportunidade muito grande de fazer uma discussão sobre violência contra mulher, sobre o que significa você começar a namorar muito cedo um cara e entrar em um relacionamento abusivo.

Você vê alguma mudança na forma de noticiar esses crimes de 2008 para hoje?

Vejo poucas mudanças. No caso da Eloá houve um grande debate sobre o papel da mídia, a Rede TV foi alvo de uma ação civil mas o foco era na exposição de duas menores de idade na TV. Não se falava sobre como a TV tratou Eloá como algoz em vez de vítima e hoje continuamos vendo isso, por exemplo no estupro coletivo no Rio. Falavam em “suposto estupro” mesmo quando eles já haviam cometido o crime mas muitas pessoas caíram em cima do G1 no Twitter, a própria população já está pressionando nas redes sobre coisas que a mídia não pode falar. Vejo que esse tipo de abordagem sensacionalista de espetacularizar continua acontecendo muito com as camadas mais pobres. Acho que estamos avançando a passos lentos na discussão sobre a mulher mas ainda há uma exploração da miséria muito forte na mídia.

Você acha que o discurso da mídia sobre a violência contra a mulher acaba reforçando essa violência – ou até influenciando?

Eu pesquisei muito para fazer esse documentário, vi muitas reportagens sobre violência doméstica e na maioria das vezes se fala sempre sobre ciúmes, o padrasto que matou a enteada por ciúmes, o ex-namorado, o marido enciumado, é muito parecido, o que me leva a crer que a forma como a mulher é retratada na mídia brasileira influencia sim a posição do Brasil como o quinto país que mais mata mulher no mundo. É muito determinante não só a forma como retrata a violência mas a presença das mulheres nos programas de auditório, nas telenovelas, com cenas de violência. Eu penso que a gente deveria desconstruir isso, por exemplo uma manchete que diz que uma mulher foi estuprada por 30 homens, eu acho que isso está errado, porque ela está como agente da frase gramaticalmente falando, deveria ser “33 homens estupraram uma mulher”, foram eles os responsáveis pela ação, não foi ela quem pediu para ser estuprada. Acho que deveríamos fazer essa discussão bem profundamente, ver como vamos reportar esses crimes e como a sociedade vai receber essa informação.

Assista ao trailer do documentário:

Assista o documentário completo no Porta Curtas.

Arte: Amber Lynn Seegmiller

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Uma das grandes frustrações de boa parte das mulheres é lidar com tanto machismo nos meios de comunicação. Filmes, séries, livros, jornais e tantos outros produtos midiáticos colaboram na reprodução de discursos degradantes para as mulheres – e, infelizmente, em grande parte pela falta de mulheres em posições de poder na indústria do entretenimento, os maus exemplos ainda são maioria.

Para mudar essa realidade, algumas mulheres colocam mão na massa e se tornam, elas mesmas, produtoras de conteúdo de qualidade para o gênero feminino. Erika Lust estava na faculdade de ciências políticas quando assistiu a um filme pornô pela segunda vez na vida, com seu namorado, e não gostou do que viu – mulheres com corpos irreais, subjugadas a fantasias masculinas em roteiros estapafúrdios. Tudo muito fake e, na sua opinião, nem um pouco excitante. Foi quando ela decidiu trocar sua carreira de cientista política para se tornar diretora de filmes pornôs feministas.

Erika lançou seu primeiro filme, The Good Girl, em 2004, como parte de uma antologia de cinco curtas que ganharam diversos prêmios internacionais. Com o sucesso de sua empreitada, ela pôde fundar a Lust Films, uma produtora pornô dedicada a produzir filmes de alta qualidade. Atualmente, ela se dedica ao projeto XConfessions, no qual coleta fantasias enviadas anonimamente para o site do projeto e as transforma em pequenos filmes eróticos. Ela já lançou livros sobre o tema e acredita que o cinema pornô também é um espaço de empoderamento feminino, já que esses filmes representam, para ela, a educação sexual contemporânea.

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A que você credita o fato da pornografia feminista ser tão pouco conhecida e frequentemente tratada como uma novidade? Como tornar esse gênero mais popular? E como você acha que essa popularidade ajuda a mudar o momento social que estamos vivendo atualmente?

Eu diria que o erotismo feminista é um gênero que está crescendo em uma indústria dominada por homens. Hoje em dia a internet permite que projetos indie ganhem popularidade de maneiras que inimigináveis no passado. Ao mudarmos a imagem da pornografia, recuperando a sexualidade feminina como expressão artística, a maneira como as pessoas percebem as formas femininas na mídia também muda, criando assim uma imagem mais honesta e moderna das mulheres. Há vários grupos trabalhando pelo direito das mulheres de se expressar da maneira como elas quiserem.

 

Recentemente o Reino Unido baniu uma série de atividades sexuais em filmes pornográficos por serem considerados perigosos. Não apenas a censura do banimento é problemática, mas também o fato de que a maior parte dos atos proibidos eram mais prazerosos para a mulher do que para o homem. Por outro lado, a competitividade da indústria pornográfica tem desafiado os limites ao exibir cenas cada vez mais extremas, como gang bangs (tipo de orgia na qual uma mulher é o foco de vários homens) com centenas de participantes e prolapso retal (quando as paredes internas do reto entram em colapso e escorregam para fora do ânus após práticas extremas de sexo anal). Nesse cenário, onde fica o limite entre censura, liberdade e fantasia em filmes adultos?

A censura faz sentido se você está exibindo material muito forte e sensível. Eu acredito que a censura é muito útil quando o que vemos é violência, discriminação, maus tratos, machismo, abuso, ofensas contra a humanidade exibidas de maneira lúdica com propósitos comerciais. Eu não acho que o sexo e a sexualidade humana se enquadrem em nenhuma dessas categorias. Se o ato sexual hoje em dia é considerado pior que intensa violência gráfica e explícita, então tem algo de errado com o sistema de educação sexual, a mídia e o mundo.

 

Na sua palestra “It’s time for porn to change” (Tá na hora do pornô mudar) no TED, você fala sobre como a pornografia é a atual educação sexual e que “o sexo pode ser sujo, mas os valores devem ser limpos”. Como você acredita que a pornografia pode ajudar a construir esses valores sob uma luz positiva? Isso tem alguma coisa a ver com a sua decisão de não filmar cenas de anal?

Eu acredito firmemente que a pornografia pode ser uma ferramenta educacional. Hoje em dia o acesso à internet e à imagens explícitas são a primeira e principal fonte de informação dos adolescentes sobre sexo, antes mesmo que eles o tenham praticado. Não podemos evitar isso, está acontecendo. E proibindo, envergonhando e marginalizando a ideia de imagens explícitas sobre sexo só piora tudo. Nós temos que mudar a qualidade da pornografia, os valores por trás dela, para que os jovens não aprendam ideias de objetificação, derespeito e violência dela. O sexo dos filmes pornô tradicionais está longe da realidade, mas as crianças começam a acreditar que é assim que se faz sexo: que as mulheres atingem o orgasmo em qualquer posição que você quiser, estão sempre prontas para fazer sexo anal e absolutamente encantadas pela ideia do cara ejacular na cara delas.

A verdade é que mulheres gostam de sexo tanto quanto homens. Sexo é sobre experimentação, diversão e sacanagem! Isso não precisa mudar, o que precisamos é compatibilizar a sacanagem exibida nos filmes com respeito próprio, poder de decisão, consciência, intimidade e valores.

 

Como é para você, rotineiramente, reinventar um novo olhar sobre esse gênero? Você sente que deve estar sempre atenta para não cair de novo na abordagem tradicional, hábitos a evitar, ou isso é natural para você? Uma mulher dirigindo ou produzindo um filme pornô é suficiente para quebrar o paradigma? Por quê?

Os filmes adultos que faço têm uma pegada mais cinematográfica, e pelo aumento da qualidade da produção, o produto final se torna mais que um filme pornô padrão, ele se torna arte. Eu faço erotismo indie. Para quebrar os paradigmas da indústria pornô precisamos de mais mulheres escrevendo, dirigindo e produzindo. Precisamos incrementar os valores que defendem o empoderamento feminino e tomar de volta o controle do que queremos que seja feito com nossas fantasias e desejos.

 

Ativistas anti-pornografia como Shelley Lubben, da Pink Foundation, criticam as condições de trabalho dos atores, especialmente as atrizes. Em uma indústria tão machista, pouco regulada e por vezes despreocupada com questões de saúde, quais são as preocupações da Lust Filmes com a saúde e bem estar dos seus atores?

Aqui na Lust Films colocamos a segurança em primeiro lugar, trabalhamos com profissionais. Nós providenciamos que todos os nossos atores e atrizes façam um check up médico completo. Trabalhos com escalas que funcionam para ambos, e garantimos que todas as condições estejam favoráveis para quem está filmando pela primeira vez e para que os mais experientes se sintam confortáveis e também se divirtam.

 

Como você acredita que assistir pornografia, sozinho ou acompanhado, pode ser empoderador? Você tem algum exemplo de como esse empoderamento foi alcançado por meio desse tipo de intimidade?

Eu acho que filmes pornô podem ser aproveitados tanto juntos quanto separados, já que ajuda na criatividade e renova o desejo sexual. Se feita corretamente,  a pornografia pode ser uma declaração sobre prazer e sexualidade femininas. Pode melhorar o desejo sexual entre os casais e mostrar para as mulheres que é OK gostar de sexo, saber do que gosta e pedir por isso. Assim como a se darem conta de que elas são donas dos seus corpos e, sendo assim, de sua sexualidade. E que tudo bem sentir, gostar e fazer seja lá o que você queira sem ser julgada.

 

No projeto XConfessions, usuários escrevem e enviam suas fantasias anonimamente para você escolher duas por mês e transformá-las em belos curtas eróticos. Com três filmes produzidos e muito mais por vir, que coisas novas e surpreendentes você aprendeu com esse processo de criatividade coletiva?

O XConfessions é completamente coletivo, é um projeto novo de crowdsourcind que colhe os benefícios da originalidade das perversões do público e sua imaginação selvagem. Estamos vendo o prazer real e o que excita pessoas como eu e você serem transportados para as telas em lindos e pequenos curta-metragens. Para mim, é o melhor tipo de erotismo que há! A beleza dele é que realmente mostra o quão fascinante e incrivelmente diversa é a sexualidade humana!

 


Com Nina Neves

Arte: Mundobrel

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O que acontece quando duas formas de arte se encontram para um inspirado diálogo? O livro Não conheço ninguém que não seja artista, lançado pela Confeitaria, explora essa possibilidade por meio dos trabalhos da fotógrafa Camila Svenson e da escritora Ana Guadalupe. A obra reúne uma coletânea de 20 poemas e 20 fotografias que conversam entre si. O processo criativo foi dividido em duas etapas: com tema livre, Ana escreveu dez poemas, para os quais Camila se inspirou para fazer dez retratos que os ilustrassem; e depois Camila produziu dez retratos, para os quais Ana escreveu dez poemas. O resultado é um conjunto que relaciona palavra e imagem, alternando o ponto de partida: ora a poesia, ora a fotografia.

A Ana estudou letras na Universidade Estadual de Maringá e hoje mora em São Paulo. Seus poemas já foram publicados no Brasil, Espanha, Chile, México e Estados Unidos, em antologias como “Amor; Pequenas Estórias”, “Otra Línea de Fuego”, “101 Poetas Paranaenses” e “Cityscapes”. Em 2011, publicou o livro “Relógio de Pulso”, pela 7Letras.  Fabiane Secches, editora da Confeitaria, conversou com a Ana sobre o projeto, poesia e o mercado literário no Brasil.

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Como começou a sua relação com a poesia?Mexia em livros de poesia que meus pais tinham em casa quando era criança. Depois, na adolescência, tive uma amiga que escrevia e também me influenciou — mas só percebi essa influência recentemente. Comecei a escrever poemas muito ruins aos 13, 14 anos e fui emprestando livros etc. Durante a faculdade de letras, fiz um estágio de dois anos na Biblioteca Municipal de Maringá e foi nessa época que comecei a ler e escrever mais.Como costuma ser o seu processo criativo? Foi diferente para você no livro novo?

Raramente sinto um “chamado da inspiração” ou uma vontade muito forte de escrever, como se tivesse alguma mensagem pra “colocar pra fora” (invejo), mas às vezes penso numa frase e tento desenvolver a ideia depois. Ou me obrigo a fechar o navegador e escrever alguma coisa. Acho que a internet distrai demais. No “Não conheço ninguém que não seja artista”, foi totalmente diferente: tínhamos prazos, a ideia central do diálogo entre fotos e poemas e minha vontade de escrever sobre temas novos. Esse compromisso e as fotos da Camila Svenson, que são muito boas, ajudaram muito.

Que outras mulheres na literatura encorajam ou encorajaram você a seguir esse caminho?

Como inspiração, muitas encorajam. O que mais gosto de ler é poesia contemporânea e, dentro dela, me inspiro/divirto muito com mulheres. Na “vida real”, a Alice Sant’anna é uma das poetas contemporâneas que admiro muito e que me encorajou bastante.Como você vê o cenário literário no Brasil para as mulheres? E na poesia, que é ainda mais nichado?Vejo que são muitas mulheres talentosas, publicando coisas ótimas, e espero que tenham cada vez mais espaço, mas isso é óbvio. Acho que as dificuldades e preconceitos também ajudaram a formar escritoras mais assertivas, e são elas que vejo levantando questões importantes, usando as redes sociais pra falar de feminismo, literatura, sexo, humor e todas as coisas. Na poesia, acho que as mulheres estão ganhando um destaque bem importante, mas ainda existem coleções de editoras com muito mais homens que mulheres, por exemplo. Acho que também tem um obstáculo estranho na ideia de que poesia é um gênero “feminino”, feito de versinhos de amor e carência, e talvez na ilusão de que o homem escreva poesia de um jeito diferente. Não sei se já fizeram um estudo mostrando textos anônimos pra um grupo de pessoas e trocando os gêneros antes da leitura. Sinto que um poema escrito por uma mulher tem mais chances de ganhar comentários como “fofo”, “doce” (a não ser que fuja disso com todas as forças, pra combater mesmo) e alguém sempre vai inventar uma capa ou layout cor de rosa, enquanto o mesmíssimo poema vinculado ao nome de um homem pode ser considerado uma “porrada na alma”, “cortante”, “poderoso”.

Você também é ótima no Twitter. Acha que a limitação dos 140 caracteres ajuda a exercitar a sua habilidade com poesia? Você sente que a plataforma contribui como “aquecimento” ou inspiração para os seus poemas, que passam por temas tão atuais?

Obrigada! Gosto do muito do Twitter e fico feliz que o mecanismo nunca tenha mudado. Acho que escrever em 140 caracteres ajuda, sim, no exercício de anotar umas coisas sem se prolongar e sem cansar quem está lendo. E de se abrir a devaneios desconexos em público, o que é bem absurdo quando a gente para pra pensar. Nesse livro, cheguei a usar alguns tweets como “ponto de partida”.

O tema de seus poemas costuma variar entre o que é atemporal — no livro novo você fala de amor, saudade, esquecimento e morte — e o que é contemporâneo — redes sociais, seguro fiança, reality show. Sempre foi assim pra você?

Sim. Acho esses temas atemporais perigosos, mas os mais contemporâneos também. Tenho medo de escrever demais sobre a internet e a tecnologia e “errar a mão” nisso. Tenho tentado usar qualquer tema que apareça, ~experimentar novas emoções~.

Neste livro você trabalhou principalmente com outras mulheres. Como foi essa experiência pra você?

Foi muito legal principalmente porque nunca fiz nada em equipe e porque o resultado é diferente do que eu imaginaria e do que acho que as pessoas esperam. As fotos da Camila, a edição da Fabi, nossas opiniões e os temas novos que apareceram quando eu estava escrevendo.


Fabiane Secches é editora e diretora criativa da Confeitaria.

Arte: Chris Silas Neal

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O Brasil é o país com o maior número de domésticas do mundo. Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial de Trabalho, são 6,7 milhões de mulheres na função, representando 17% das trabalhadoras do país. É para ouvir a voz dessas mulheres, que o coletivo Nós, Madalenas lança hoje o documentário Mucamas, com sessão gratuita na Casa de Lua. Com duração de quinze minutos, o filme joga luz sobre mulheres que dedicam suas vidas à vida de outras famílias. O que torna o projeto ainda mais especial é que as entrevistadas são mães de cinco integrantes do coletivo.

Ambientado na maior cidade do país, São Paulo serve de pano de fundo para relatos intimistas que revelam a necessidade de repensarmos o papel dessas profissionais no mundo em que vivemos. Conversamos com a Ione Gonçalves, estudante de Artes Visuais e editora do documentário, que nos contou mais o coletivo e o projeto do documentário.

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Como o coletivo Nós,Madalenas começou e qual é a proposta dele?

O coletivo começou com a ideia de desenvolver um longa-metragem para um primeiro edital, não foi esse que ganhamos, foi antes disso. Mas desde o começo com a mesma essência, de defender o “papel” da mulher na sociedade. E levamos esse propósito como objetivo principal pro filme “Mucamas” também, por meio dessa questão do trabalho doméstico.

 

O Nós,Madalenas é formado por mulheres e em formato de coletivo, ou seja, sem hierarquia, como foi produzir nesse ambiente criativo?

Para respeitar todas as opiniões da equipe e para que todas tivessem um peso igual na tomada de decisão, percebemos que o “coletivo” era o melhor caminho para estruturar nossa relação de trabalho, ou seja, uma relação sem hierarquia.

Chega a ser confuso explicar nosso processo de criação dentro dessa relação horizontal e intensa, mas foi a forma mais gostosa que o projeto pode se realizar. Tivemos a oportunidade de acolher o projeto de coração cheio, todas nós nos sentimos essenciais e carregamos o mesmo sentimento de realização e doação.

 

Como surgiu a ideia do documentário ‘Mucamas”?

O documentário surgiu da forma mais espontânea possível. Tínhamos um prazo para viabilizar nossa inscrição em um edital e precisávamos de uma ideia para desenvolver o filme. Estávamos todas aflitas, pois nosso primeiro roteiro não se encaixava nas premissas do edital que íamos nos inscrever. Foi a epifania da última hora mesmo. Acho que a gente trabalha bem sob pressão.

 

O que motivou o coletivo a fazer um filme sobre o trabalho doméstico? E o que te motivou a querer abordar o assunto?

A questão do trabalho doméstico surgiu naturalmente. Sempre soubemos que tínhamos muito em comum, mas a questão que surgiu nessa última hora foi uma surpresa! A profissão das nossas mães era a mesma. Carregamos o mesmo sentimento pela profissão e quando notamos — depois de uma pesquisa sobre produções de cinema com esse tema do trabalho doméstico — o quão precioso era contar essas histórias do nosso ponto de vista, fechamos a essência do filme e foi isso que mais motivou o coletivo a desenvolver o doc.

O que me motivou a fazer o filme foi ter a oportunidade de contar a história das nossas mães com um olhar mais humano. Isso faz parte da minha realidade e foi o que mais me deu vontade de fazer esse projeto acontecer.

 

Você já teve algum tipo de conflito com a profissão da sua mãe, quando ela era empregada doméstica?

Eu nunca tive nenhum tipo de conflito direto com a profissão da minha mãe. Se isso acontecesse, jamais seria pela profissão em si, mas sim como ela é considerada

 

Como foi a reação da sua mãe quando você a convidou para contar sua história e trajetória profissional para um filme?

Minha mãe ficou encabulada quando soube da realização do documentário. Me entregou a seguinte fala “Tanta coisa legal pra vocês falarem. Por que a minha história? Isso é tão normal…”. Ela ficou tímida

 

Ela já viu o assistiu ao filme? O que ela achou?

Ela ainda não assistiu o documentário completo, confesso estar guardando surpresa. Quando iniciei a montagem, decidi mostrar os 5 primeiros minutos pra ela. A história ‘tão normal’ dita por ela transparece tanta potência! Ela ficou bem emocionada.

 

Você acha que participar do filme teve algum impacto na vida nela? E na relação de vocês duas?

Essa minha participação de contar a história dela nos acrescentou acima de tudo o reconhecimento. Minha mãe nunca me deixou pensar na possibilidade de ser doméstica, até então eu não sabia dos detalhes sofridos que ela passou. Há uma relação mais humana e um olhar mais respeitoso depois dessa experiência.

 

O que você sentiu trabalhando nas filmagens onde sua mãe estava sendo entrevistada para o filme?

Durante as gravações eu sentia estar contando a história da mulher mais guerreira que conheci. Nossa principal ideia com o filme é humanizar o olhar das pessoas com a profissão, trazer esse debate à tona por meio de histórias de mulheres fortes. E me enche o coração ver que que até a minha mãe se permitiu esse olhar, esse ressiginificado. Achei incrível!

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Muitos filmes que tiveram o trabalho doméstico como tema foram produzidos por equipes de classes sociais diferentes das personagens. Você acha que o fato das filhas das entrevistadas estarem envolvidas no processo criativo e na equipe de filmagem influenciou no resultado do filme? de que forma?

Pra mim o que o documentário tem de mais precioso é o fato das filhas contarem a história das próprias mães. Acho que esse é o diferencial, nós sabemos como a profissão é encarada desde sempre, está na nossa história. O filme possui cinco histórias fortes e que carregam semelhanças entre si apesar dos caminhos de cada uma serem bem diferentes.

 

Você tem ou já teve uma empregada doméstica em casa? Caso não, você teria uma empregada?

Nunca tivemos empregada doméstica em casa e se um dia for necessário não vejo problemas. Mas se for necessário MESMO!

 

O documentário tem uma pergunta muito simples e também muito forte, que gerou respostas emocionantes e que, agora, gostaríamos de saber a sua resposta: pra você o que é ser mulher?

É viver várias vezes numa vida só. Ao mesmo tempo carregamos as maiores vitórias.

 


Natália Fava é publicitária e faz parte do coletivo feminino de audiovisual “Nós, Madalenas”, que produziu o documentário “Mucamas”.

Arte:

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Por muito tempo, fazer algo “como uma garota” foi considerado pejorativo. Infelizmente, para algumas pessoas, isso ainda é visto como sinônimo de fraqueza, vulnerabilidade ou falta de técnica. Nada disso tem qualquer fundamento na realidade e o uso dessa expressão de forma depreciativa está com os dias contados. Após uma linda campanha da Always que valoriza o que é feito como uma garota (#LikeAGirl), a ilustradora, desenvolvedora de jogos e gamer Kaol Porfírio, do Rio Grande do Sul, criou uma série de ilustrações chamada Fight Like a Girl, ou Lute Como Uma Garota. Nela, estão representadas guerreiras famosas da ficção, para provar que as mulheres também podem ser lutadoras impiedosas e inspiradoras.

Em sua página do Facebook, Kaol já desenhou Sarah Connor, Xena, Mulan e Beatrix Kiddo. Ela nos concedeu uma entrevista na qual fala sobre a série e sua experiência como mulher no mundo dos games, cuja famosa misoginia é desafiada diariamente por garotas no mundo inteiro que lutam por seu direito e sua voz em uma indústria que é em boa parte financiada por elas. A convite do Think Olga, Kaol fez uma edição especial do Fight Like a Girl só com feministas famosas. Confira abaixo as ilustras e a nossa conversa com a artista.

Pussy Riot

Como você avalia a participação feminina na indústria dos games na atualidade?

A participação feminina na industria de jogos é muito baixa. Normalmente em cursos de jogos ou de especializando na área as mulheres fazem parte de 5% dos alunos, e acredito que não deva passar dos 20% em empresas. A industria de jogos ainda é bastante nova, eu tenho esperança a presença de mulheres na industria de jogos aumente. Um movimento chamado #1ReasonWhy reuniu vários desabafos de desenvolvedoras de jogos e com eles dá para ter uma grande ideia quao hostil é a área e quanto amor você precisa ter para trabalhar na mesma.

 

Há muitas críticas sobre a forma sexualizada como as personagens de games são retratadas. Qual sua visão sobre essas críticas? São fundamentadas?

A sexualização excessiva e a objetificação de personagens femininas nos jogos não tem nada de diferente de qualquer industria de enterimento focada no publico masculino, muita vezes com a desculpa de ser apenas “fantasia” ou “liberdade do design”. Mas o que realmente acontece é a mulher sendo retratada como um objeto apenas para agradar o publico masculino, ignorando totalmente as jogadoras, que pelos últimos números do ESA, são 48% do publico. Sem falar que na maioria das vezes, as personagens não possuem nenhum valor pra trama, estão ali para “enfeite”. A mulher é, na maioria das vezes, mal representada nos jogos.

Rosa

O que as mulheres podem fazer para poder conquistar mais espaço na indústria dos games, que ainda é entendida como uma indústria masculina?

Vejo muitas mulheres se destacando na industria, isso dá força e encoraja. Na ultima Global Game Jam (evento onde desenvolvedores se reúnem para produzir jogos em 48 horas) o vídeo de abertura do evento contou com um trecho onde a desenvolvedora brasileira Amora Bettany, da Miniboss, trouxe um discuso de desconstrução bastante claro, e acredito que isso tenha atingido muitas pessoas, e quem sabe, feito elas saírem das suas “caixinhas”. Mulheres como ela, mostram que é possivel mudar o ambiente e conquistar seu espaço, sendo um exemplo para as próximas.

 

Você já sofreu algum tipo de preconceito no seu trabalho como game developer? Em caso positivo, por favor nos conte. Em caso negativo, já testemunhou alguma outra mulher sofrer preconceito?

Em um evento de jogos é comum de acontecer das pessoas me ignorarem, acreditando que estou ali apenas para “acompanhar meu namorado”. E essa reclamação não é só minha, veio de uma amiga, em um evento, que se sentiu ignorada em conversas. Eu tento sempre estar com pessoas que me conhecem e que confio, e como game developer, aqui no sul, temos uma associação de devs – adjogosrs -bastante unida, o que me deixa bastante tranquila na área. Já como gamer, a coisa muda. Somos tratadas extremamente mal em jogos online. Escondo sempre minha foto de perfil, minha voz e evito chat. Já fui chamada de muita coisas, simplesmente pelo fato de ser mulher.  Além claro, de cantadas e mais cantadas. É cansativo e humilhante.

 

Gloria Steinem e Dorothy Pitman Hughes

 

Por que você decidiu fazer a série FIGHT LIKE A GIRL? E por que você acha que ela fez tanto sucesso?

Iniciei a “Fight Like a Girl” com o proposito de desabafo, e acredito que muitas mulheres se identificaram com a série pelo mesmo motivo. Meu desejo é homenagear mulheres fortes que podemos nos orgulhar, que mesmo fictícias, inspiram a vida de muitas pessoas. Não havia nenhuma intensão de sucesso. Na verdade eu nunca imaginei que iria ter o feedback que estou tendo com a série. É gratificante e inesperado. Iniciei e publiquei. Em uma semana ganhei mil curtidas e muitos comentários, tanto de elogios quanto de pedidos. Foi então que notei o quanto mulheres se identificaram e precisavam lembram que sim, existem mulheres que lutam!

 

Quais são as próximas personagens a serem retratadas na série? Há pedidos das leitoras? Quem elas querem que apareça?

Existem muitos pedidos, muito emocionantes. Um dos mais pedidos foi da Korra, da série Avatar. Eu não imaginava que uma personagem de uma série pudesse ter ajudado tantas mulheres de tantas formas diferentes. Noto que a maioria são personagens já antigas, como por exemplo a protagonista de Kill Bill e a Xena. A lista ainda está grande e por isso não sei até quando a série vai.

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