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O Dia do Índio, que acontece todos os anos em 19 de abril, não é uma data comemorativa. Assim como o Dia da Mulher, é um símbolo de luta por mudanças, melhorias e pela manutenção de direitos conquistados. As mulheres indígenas tendem a ser as maiores prejudicadas nas questões de defasagem de ensino, preconceito e assédio. É extremamente importante que essas pautas se tornem de interesse público e potencializem as vozes indígenas, reconhecendo sua presença no tempo atual.

Para encorajar o debate com recorte de gênero, conversamos com Braulina Aurora Baniwa, estudante de Ciências Sociais na UnB e membro da Diretoria do Coletivo de Estudantes Indígenas – AAIUnB, sobre as pautas das mulheres indígenas, a importância do território e como alertar a sociedade sobre as necessidades modernas das tribos:

Quais os maiores desafios de ser mulher indígena?

Primeiramente, os desafios são inúmeros e podem depender da diversidade de povos, culturas e realidades em que cada mulher indígena vive. Mas vou destacar minha percepção como mulher indígena do povo Baniwa, que vive em dois mundos: a sociedade que não me enxerga como sou, como uma indígena capaz, que tem potencial além do tema “povos indígenas”. No âmbito tradicional, é de ter espaço reconhecido nos debates políticos, como colaboradora nas discussões.

Qual é a pauta mais importante para as mulheres indígenas hoje? Quais são as principais lutas de vocês?

No cenário nacional para povos indígenas, lutamos pela garantia de direitos conquistados, evitando os retrocessos. Uma das principais reivindicações de mulheres indígenas é o território, pois é a partir dele que discutimos ou reivindicamos as políticas públicas para nós. Como estudantes indígenas, também temos lutado pela garantia de uma educação de qualidade e pelo enfrentamento da violência nas universidades, onde observamos que há necessidade de políticas especificas para mulheres e estudantes em geral, pois não há uma política no sistema das universidades que atendam nossas especificidades.

 

A sociedade pode ajudar nessa luta? Quais são os mecanismos que podemos usar para vencer o preconceito?

Por meio de uma educação sem discriminação e racismos em todos níveis de formação. Destacaria a formação no ensino superior, onde se formam profissionais que vão lidar com a diversidade que existe no nosso pais. Que leis vigentes no país seja de fato efetivas, como da lei 11.645 LBD, que está ligada diretamente no processo educacional; estatuto da igualdade racial (que abrange os povos indígenas) e campanhas informativas para conscientização.

E como a educação pode ser mais inclusiva em relação às tradições indígenas?

Demonstrando nós, indígenas, como somos na contemporaneidade, e não na visão de 1500 na invasão do Brasil. A educação deve ser uma educação de reconhecimento, e não de discriminação, “do achismo” ou do passado “os índios faziam, os índios caçavam”. E apontar a diversidade de povos e culturas que temos! Isso é uma das riquezas do país, as mais de 270 línguas indígenas, os mais de 300 povos indígenas (isso sem contar os povos isolados, que ainda não se sabe tronco linguistico e fatores culturais). Fortalecer essa diversidade é contribuir com o Brasil mais indígena e mais humano, reconhecendo os povos originários.

Arte: Anita Ekman para a coleção Mundo Indígena, da Editora Hedra
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Arte: Chloe Early
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Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres
Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres

Ninguém nasce machista, homofóbico, racista ou transfóbico. Aprendemos a adotar comportamentos considerados comuns para a sociedade onde vivemos. Parte desse aprendizado vem da escola, durante a socialização entre as crianças. Segundo a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com mais de 18,5 mil alunos, mães, pais, diretores professores e funcionários, 99,3% dos entrevistados demonstram algum preconceito étnico-racial, socioeconômico, de gênero, geração, orientação sexual, deficiência ou territorial. O estudo indicou que 99,9% dos entrevistados têm vontade de manter distância de algum grupo social, principalmente os deficientes mentais e homossexuais, ambos com taxas de 98,8% de rejeição.

Seja para combater discriminação na escola ou para ensinar as crianças sobre questões básicas relacionadas a equidade, a educação de gênero em sala de aula é fundamental. Tanto é que a UNESCO recentemente se pronunciou a favor do aprofundamento do debate sobre sexualidade e gênero para uma educação mais inclusiva e de qualidade no Brasil. Enquanto isso, projetos de lei que proíbem debates sobre questões de gênero despontam em várias partes do Brasil, inclusive um que prevê a prisão de professores que abordarem o assunto em sala de aula. No Reino Unido, porém, acontece o oposto: o debate sobre gênero em sala de aula só aumenta, inclusive com apoio financeiro do governo. Uma das instituições por trás desse avanço é a Educate & Celebrate, especialista em transformar escolas, organizações e funcionários LGBT+ friendly, isto é, em humanizar pessoas e ambientes educacionais a fim de combater discriminações ligadas a gênero, orientação sexual e identidade de gênero. Conversamos com a CEO da iniciativa, Elly Barnes, sobre o trabalho desenvolvido e sobre como trazer esse debate para a sala de aula. Confira a conversa:

Como começou a organização Educate & Celebrate?

Eu comecei essa organização há 11 anos porque eu era coordenadora de uma escola e tinha que dirigir 240 crianças de 11 anos que eram meus bebês. Eu queria garantir que a linguagem transfóbica, bifóbica, sexista, racista e homofóbica que todos eles estavam usando fosse erradicada porque eu não aguentava mais ouvi-la. E eu queria desesperadamente que as crianças que estavam sob meus cuidados tratassem todos justa e igualmente. Se não falarmos a respeito, nada vai mudar. Havia um silêncio absoluto, uma completa invisibilidade especificamente sobre sexismo, homofobia e transfobia, não era tão ruim quanto a racismo mas havia alguns temas que não eram trabalhados de maneira alguma no plano escolar.

Comecei simplesmente fazendo um seminário com meus alunos explicando as palavras lésbica, gay, bissexual, trans e então intersexual, travesti, gênero fluido, assexual, pansexual e trouxe essa linguagem para o estado consciente dos meus alunos para que eles soubessem o que elas significam. Eu queria que eles usassem esses termos com confiança. Na época, em 2005, não havia leis específicas sobre o assunto, então causou uma certa agitação. A diretora ficou chocada. Eu perguntei o que ela achava que aconteceria se tivéssemos essa conversa, ela disse que “tornaria” todos os alunos gays e que ensinaria a ter sexo gay. Eu respondi bem, quando celebramos o mês da consciência negra, viramos todos negros? Não. Os pais negros reclamam quando celebramos o dia da visibilidade deficiente? Não.

Como funciona essa pedagogia na prática?

Queremos garantir que estamos falando com todas as pessoas o tempo todo e garantir a interseccionalidade. Se eu estivesse falando sobre música, que era a aula que eu dava, e estávamos no mês da consciência negra, eu escolheria pessoas como Stevie Wonder e Ray Charles porque eles são negros, músicos e têm alguma deficiência. Trazemos a interseccionalidade. Se eu for falar sobre a Joan Armatrading, deixo claro que ela é uma compositora negra e lésbica. Há uma pedagogia por trás, chamamos de “usualising” (“normalizando”, em português). Isso é sobre quebrar a heteronormatividade, isso de as pessoas assumirem que eu sou casada a um homem, queremos encorajar a interseccionalidade usando a pedagogia da normalização e o resultado final que eu quero é justiça social. Eu queria que todos subissem no ônibus do arco-íris, entrassem nessa jornada comigo e nos uníssemos.

E qual é a reação de pais e alunos?

Felizmente, não tivemos muita adversidade por parte dos pais ou dos alunos, desde lá até agora a maior adversidade que encontramos foi por parte dos próprios professores. Eles não se sentem confortáveis falando sobre sexismo, homofobia e transfobia porque eles não foram educados da mesma forma que nossos alunos estão sendo educados hoje. Temos que fazer com que as gerações antigas se atualizem e acompanhem a geração atual para que estejamos todos falando a mesma língua porque essa divisão torna algumas situações impossíveis. Temos que quebrar essas barreiras negativas. Passei muito tempo falando com a equipe e muitos continuam achando que as crianças vão enlouquecer e isso simplesmente não é o caso. Isso é apenas homofobia e transfobia internalizados. Não é o que realmente acontece. Então é isso o que fazemos, damos aulas por exemplo de matemática, com exercícios com diagramas falando do número de pessoas que participaram da parada gay em Brighton para chegar ao resultado de quantas pessoas devem ir à de São Francisco. Apenas adaptamos parte do conteúdo escolar com linguagem LGBT+. Funcionou muito bem. Falamos sobre linguagem LGBT+, colocamos o conteúdo em contexto LGBT+ em todas nossas aulas. Pegamos o programa escolar todo e pensamos: só vamos falar de homens brancos heterossexuais e cristãos? Erradicamos isso e mudamos o programa escolar. Depois disso, aumentamos a visibilidade dentro do contexto. Quando você entra na escola, há um cartaz dizendo “aqui tratamos todos com justiça, sem importar sua idade, deficiência, identidade de gênero, orientação sexual, cor e gênero”. Todos têm que assinar esse termo dentro das regras da escola. As escolas e os pais precisam entrar em consenso em relação a isso antes de os pais enviarem seus filhos para lá. Tudo tem que ser acordado, então mudamos toda a papelada e as regulações das escolas. E então envolvemos a comunidade, todo mês fazemos uma apresentação de arte e as crianças fazem suas próprias músicas, textos, falam sobre as campanhas que estão fazendo ou sobre o que gostam na escola.

Há muitas crianças em transição na escola agora, porque como há mais visibilidade temos mais crianças trans. Isso facilitou muito porque as escolas precisam lidar com isso agora, antes havia um comportamento meio “por que precisamos falar sobre isso se não temos crianças trans?”. Como demos maior visibilidade, as crianças se sentem mais confortáveis para fazer a transição e isso estimula as escolas a agirem. Então fizemos workshops de identidade de gênero com as crianças e com a equipe para garantir que todos entenderam que amanhã Charlie vai vir a escola e continua sendo Charlie, mas o pronome adequado agora é “ele”. Então todos sabem que no dia seguinte será assim. As crianças respondem muito bem a isso e fazem vários cartazes pela escola dizendo “bem-vindo de volta, Charlie!”. É uma questão de consciência. Temos que trabalhar nisso assim que as crianças entram no sistema educacional para quebrar o estigma. Para as crianças, isso não é um problema. Estamos começando a mudar o sistema educacional britânico, mas não estamos perto de onde queremos chegar ainda. Há 22 mil escolas neste país e já trabalhamos com algumas milhares de escolas ao longo dos anos, mas é só a ponta do iceberg. Tentamos prover serviços que as escolas possam acessar facilmente, como treinamento de equipes, workshops e consultoria. Treinamos os professores, atualizamos os regulamentos, questionamos o programa escolar, aumentamos a visiblidade no ambiente e envolvemos pais e alunos na comunidade com vários eventos, esse é o nosso programa. E se todos fizéssemos isso, poderíamos ter aquele mundo com justiça social que sonhamos onde podemos ser nós mesmos sem medo de discriminação.

Muitas vezes no senso comum as pessoas afirmam que esses são assuntos “privados” que devem ser discutidos em casa, não na escola ou no ambiente público, enfim. Como você lida com esse tabu?

O tabu é um problema muito grande. Quando falamos sobre esses assuntos com os professores, eles falam sempre que “não falamos sobre esses assuntos porque é tabu”. Não é engraçado? E se usássemos isso para falar sobre qualquer assunto, por exemplo “não falamos sobre pessoas com deficiência porque é tabu”, “não falamos sobre culturas diferentes porque é tabu”. Não usamos essa linguagem com nenhuma outra desigualdade, usamos? Temos que fazer as pessoas entenderem que isso é sobre equidades, não sexo. Por algum motivo, toda vez que falamos sobre identidade de gênero ou orientação sexual, as pessoas acham que é sobre sexo. Mas não tem nada a ver com sexo. Por quê? Não é relacionado a sexo, é sobre quem você é. Há essa barreira que temos que quebrar e assim que quebramos os portões estão abertos, é sobre dar permissão às pessoas para falar sobre, porque quando você abre a conversa elas se abrem também, dizendo “nossa é verdade, meu tio sempre se transvestia nos finais de semana, sempre me perguntei como chamava isso”. As pessoas começam a falar com você sobre suas experiências e não fazemos isso o bastante. É um método que funciona porque você remove isso da questão de sexualidade e apresenta como uma questão de equidade, assim como racismo, sexismo.

Você acha que isso está relacionado ao nível de violência cometido contra pessoas gays e trans?

É o medo, não é? As pessoas estão assustadas, os níveis de violência relacionados a sexualidade são absolutamente terríveis. Esses são comportamentos aprendidos, porque não nascemos racistas, sexistas, homofóbicos ou transfóbicos. Apredemos isso. Então temos que destruir esses comportamentos desde pequenos. Se você nasceu em uma comunidade onde a homofobia é comum, você sofre uma lavagem cerebral e passa a acreditar nisso, não é? É isso o que precisamos mudar, temos que mudar as leis e é também sobre se infiltrar no sistema educacional para garantir que isso está incluso no programa escolar. A razão para esse ódio é medo. Trabalhei com professores turcos e eles me disseram que não há nada a fazer porque simplesmente não há leis para proteger pessoas LGBT+. E o único trabalho que pessoas trans podem fazer é prostituição porque eles simplesmente não são reconhecidos pela lei como seres humanos. Temos que começar mudando as leis e a educação. A homossexualidade foi legalizada em 1967, mas não podíamos falar sobre isso nas escolas, tem sido uma jornada de lutas. Em 2003 foi abolida a lei que proibia falar sobre isso em sala de aula. Então só tivemos permissão para fazer esse trabalho a partir daí.


Que lei era essa?

Em 1998, Margaret Thatcher criou algo chamado Sessão 28. Havia um livro nas bibliotecas chamado “Jenny vive com Eric e Artie”, a história de uma criança que tinha dois pais. Ela tirou isso das bibliotecas dizendo que era sobre uma “família de mentira” e que não queria isso nas escolas. Os livros foram banidos das escolas e os professores não podiam falar sobre isso, semelhante ao que está acontecendo na Rússia agora. Há um banimento total em relação a isso, eles chamam de “propaganda”. Não sei exatamente de onde vem isso, mas certamente é fruto de ignorância e medo. Infelizmente sofremos uma lavagem cerebral nessa cultura, então temos que começar do início.

Fale um pouco do impacto da organização no Reino Unido.

Acabamos de lançar um relatório sobre nosso trabalho e havia muitas coisas interessantes. Um dos dados apontados é que quanto mais você fala sobre esses assuntos, mais caem os níveis de homofobia e transfobia, simples assim. Quanto mais você envolver as crianças, melhor, e é isso o que fazemos nas nossas redes de apoio. Você está empoderando pessoas jovens a fazerem ações positivas, e assim eles descobrem que são capazes porque eles não sabem que podem, muitas vezes eles me dizem “eu acredito nisso, mas não sei o que fazer a respeito, não sei como fazer”. Vemos na pesquisa que damos voz aos jovens, ouvimos o que estão dizendo e garantimos que outras pessoas também escutem sua voz. Centenas de professores saíram do armário depois de trabalhar conosco, não apenas em termos de orientação sexual mas também de identidade de gênero. Isso é muito encorajador, ver professores trans iniciarem a transição enquanto trabalhamos nas escolas porque eles se sentem seguros. Porque nós tornamos o ambiente seguro para eles ao trabalhar lá, isso é absolutamente incrível. No momento temos 100 escolas premiadas como melhor desempenho, o que significa que alcançaram o nível de excelência em termos de orientação sexual e identidade de gênero e elas continuarão a trabalhar com isso e espalhar conhecimento para suas escolas parceiras e consórcios. Isso só vai se espalhar e ficar cada vez maior. Temos um contrato com o conselho municipal de Londres e trabalhamos pela cidade inteira, também estamos expandindo esses contratos para outras cidades, como Lancaster e Bristol, porque as escolas precisam disso e querem isso. Porque abre conversas e dá às pessoas permissão para falar sobre isso. Como são assuntos delicados, você precisa apoiar as pessoas, não é como prestar um serviço, você precisa estar lá e é o que fazemos. Somos bem práticos, e apoiamos as pessoas.

Arte: Chloe Early.

 

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Arte Amber Lynn Seegmiller

Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?
Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?

“Inconformado com o fim do relacionamento”, “crise de ciúmes”, “crime passional”… A forma como a imprensa cobre casos de violência doméstica diz muito sobre como os jornalistas entendem o que é agressão contra a mulher e sobre a sociedade que assiste a esse noticiário. Para Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?, a espetacularização da violência e a abordagem da mídia televisiva nos casos de violência contra a mulher têm tudo a ver com a posição em quinto lugar do Brasil no ranking de países que mais matam mulheres no mundo. O documentário traz uma análise crítica de especialistas em assuntos como violência contra a mulher, polícia e mídia sobre a forma como o sequestro em cárcere privado e posterior homicídio da jovem Eloá Cristina Pimentel pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves foi abordado pela imprensa brasileira em outubro de 2008. Depois de rodar em 16 festivais e ganhar cinco prêmios, o documentário está disponível online, no site Porta Curtas. Em entrevista à Think Olga, Lívia falou sobre como a televisão banaliza a violência e afeta a forma como a sociedade entende questões relacionadas a gênero, muitas vezes invisibilizando mulheres e justificando e até mesmo romantizando comportamentos machistas e agressivos dos homens.

De onde veio a ideia de fazer o documentário?

Na época do crime a cobertura foi intensa mas eu não vi em nenhum veículo a imprensa falando sobre a violência contra a mulher – apesar de estarmos diante de um caso clássico de violência contra a mulher – e isso me motivou muito a fazer o documentário. Aquilo ficou na minha cabeça um tempo até que eu li um texto da Analba Teixeira, uma militante do Nordeste que milita no SOS Corpo, e o texto falava tudo que eu pensava naquele momento. Continuei com essa ideia e quando vi os vídeos no YouTube com a hashtag Eloá e #eloaelindemberg pensei em colocar mulheres que pensam a violência e o audiovisual para analisar isso e refletir. A ideia era meio inviável porque eu não tinha dinheiro para fazer o filme até que fui contemplada pelo edital Carmen Santos de Cinema, uma iniciativa bem única da Secretaria do Audivisual, do Minc e da Secretaria Pública de Mulheres de contemplar apenas mulheres.

No documentário você mistura o áudio da narração de programas televisivos com abutres sobrevoando o céu. Fale um pouco mais sobre a linguagem visual do documentário e o que você quis dizer com essas mensagens.

Eu e meu companheiro Giovani sempre pensávamos nessa relação entre o jornalista e o abutre, de um jornalismo feito sempre de uma forma muito semelhante do abutre, que se aproxima quando uma tragédia está prestes a acontecer, que é o que o jornalismo das seis da tarde faz com muita frequência, principalmente com as classes menos privilegiadas. Além disso tinha a questão dos helicópteros sobrevoando, o que eu achava surreal porque era um conjunto habitacional, tudo estava acontecendo dentro mas eles insistiam em colocar o helicóptero girando ali, e isso se associou totalmente aos abutres. Além do paralelo com os abutres há também o estúdio preto justamente sem informação nenhuma para contrastar com essa linguagem da TV que tem legenda, publicidade em cima, é amarelo… O estúdio preto, um lugar de reflexão onde elas pudessem entrar e refletir o máximo sobre o que foi aquele circo, a forma que se noticio, enfim.

Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário
Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário

Na sua visão, qual é a mensagem que a TV passou ao falar em crime passional? Como você interpreta isso?

No filme eu tentei trabalhar três eixos: a sociedade, a polícia e a imprensa, que acabou sendo o mais forte. Primeiro no caso de sequestro eles geralmente são sigilosos então a imprensa não deveria nem ter noticiado antes que o caso acabasse, mas noticiou. Além disso tem a interferência. E a terceira camada é a romantização, construir um romance em cima do crime, construir os personagens Lindemberg e Eloá, ele bem mais complexo que ela, ele joga futebol, ele trabalha, faz várias coisas mas sobre ela não temos muita informação. Sempre se apoiando sobre a dor do Lindemberg, sobre o ciúme, sobre o que ele quer, uma construção de uma forma muito clássica, como uma novela. E como aquilo foi se estendendo, a mídia foi trazendo mais e mais informações até que aquilo precisava de um desfecho dramático, tanto que teve, ela foi morta em uma intervenção às seis da tarde. Até uma entrevistada fala “é uma coincidência né, a polícia ter entrado na hora em que todos os programas policialescos estão com a câmera ligada para lá”. A imprensa perdeu uma oportunidade muito grande de fazer uma discussão sobre violência contra mulher, sobre o que significa você começar a namorar muito cedo um cara e entrar em um relacionamento abusivo.

Você vê alguma mudança na forma de noticiar esses crimes de 2008 para hoje?

Vejo poucas mudanças. No caso da Eloá houve um grande debate sobre o papel da mídia, a Rede TV foi alvo de uma ação civil mas o foco era na exposição de duas menores de idade na TV. Não se falava sobre como a TV tratou Eloá como algoz em vez de vítima e hoje continuamos vendo isso, por exemplo no estupro coletivo no Rio. Falavam em “suposto estupro” mesmo quando eles já haviam cometido o crime mas muitas pessoas caíram em cima do G1 no Twitter, a própria população já está pressionando nas redes sobre coisas que a mídia não pode falar. Vejo que esse tipo de abordagem sensacionalista de espetacularizar continua acontecendo muito com as camadas mais pobres. Acho que estamos avançando a passos lentos na discussão sobre a mulher mas ainda há uma exploração da miséria muito forte na mídia.

Você acha que o discurso da mídia sobre a violência contra a mulher acaba reforçando essa violência – ou até influenciando?

Eu pesquisei muito para fazer esse documentário, vi muitas reportagens sobre violência doméstica e na maioria das vezes se fala sempre sobre ciúmes, o padrasto que matou a enteada por ciúmes, o ex-namorado, o marido enciumado, é muito parecido, o que me leva a crer que a forma como a mulher é retratada na mídia brasileira influencia sim a posição do Brasil como o quinto país que mais mata mulher no mundo. É muito determinante não só a forma como retrata a violência mas a presença das mulheres nos programas de auditório, nas telenovelas, com cenas de violência. Eu penso que a gente deveria desconstruir isso, por exemplo uma manchete que diz que uma mulher foi estuprada por 30 homens, eu acho que isso está errado, porque ela está como agente da frase gramaticalmente falando, deveria ser “33 homens estupraram uma mulher”, foram eles os responsáveis pela ação, não foi ela quem pediu para ser estuprada. Acho que deveríamos fazer essa discussão bem profundamente, ver como vamos reportar esses crimes e como a sociedade vai receber essa informação.

Assista ao trailer do documentário:

Assista o documentário completo no Porta Curtas.

Arte: Amber Lynn Seegmiller

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Uma das grandes frustrações de boa parte das mulheres é lidar com tanto machismo nos meios de comunicação. Filmes, séries, livros, jornais e tantos outros produtos midiáticos colaboram na reprodução de discursos degradantes para as mulheres – e, infelizmente, em grande parte pela falta de mulheres em posições de poder na indústria do entretenimento, os maus exemplos ainda são maioria.

Para mudar essa realidade, algumas mulheres colocam mão na massa e se tornam, elas mesmas, produtoras de conteúdo de qualidade para o gênero feminino. Erika Lust estava na faculdade de ciências políticas quando assistiu a um filme pornô pela segunda vez na vida, com seu namorado, e não gostou do que viu – mulheres com corpos irreais, subjugadas a fantasias masculinas em roteiros estapafúrdios. Tudo muito fake e, na sua opinião, nem um pouco excitante. Foi quando ela decidiu trocar sua carreira de cientista política para se tornar diretora de filmes pornôs feministas.

Erika lançou seu primeiro filme, The Good Girl, em 2004, como parte de uma antologia de cinco curtas que ganharam diversos prêmios internacionais. Com o sucesso de sua empreitada, ela pôde fundar a Lust Films, uma produtora pornô dedicada a produzir filmes de alta qualidade. Atualmente, ela se dedica ao projeto XConfessions, no qual coleta fantasias enviadas anonimamente para o site do projeto e as transforma em pequenos filmes eróticos. Ela já lançou livros sobre o tema e acredita que o cinema pornô também é um espaço de empoderamento feminino, já que esses filmes representam, para ela, a educação sexual contemporânea.

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A que você credita o fato da pornografia feminista ser tão pouco conhecida e frequentemente tratada como uma novidade? Como tornar esse gênero mais popular? E como você acha que essa popularidade ajuda a mudar o momento social que estamos vivendo atualmente?

Eu diria que o erotismo feminista é um gênero que está crescendo em uma indústria dominada por homens. Hoje em dia a internet permite que projetos indie ganhem popularidade de maneiras que inimigináveis no passado. Ao mudarmos a imagem da pornografia, recuperando a sexualidade feminina como expressão artística, a maneira como as pessoas percebem as formas femininas na mídia também muda, criando assim uma imagem mais honesta e moderna das mulheres. Há vários grupos trabalhando pelo direito das mulheres de se expressar da maneira como elas quiserem.

 

Recentemente o Reino Unido baniu uma série de atividades sexuais em filmes pornográficos por serem considerados perigosos. Não apenas a censura do banimento é problemática, mas também o fato de que a maior parte dos atos proibidos eram mais prazerosos para a mulher do que para o homem. Por outro lado, a competitividade da indústria pornográfica tem desafiado os limites ao exibir cenas cada vez mais extremas, como gang bangs (tipo de orgia na qual uma mulher é o foco de vários homens) com centenas de participantes e prolapso retal (quando as paredes internas do reto entram em colapso e escorregam para fora do ânus após práticas extremas de sexo anal). Nesse cenário, onde fica o limite entre censura, liberdade e fantasia em filmes adultos?

A censura faz sentido se você está exibindo material muito forte e sensível. Eu acredito que a censura é muito útil quando o que vemos é violência, discriminação, maus tratos, machismo, abuso, ofensas contra a humanidade exibidas de maneira lúdica com propósitos comerciais. Eu não acho que o sexo e a sexualidade humana se enquadrem em nenhuma dessas categorias. Se o ato sexual hoje em dia é considerado pior que intensa violência gráfica e explícita, então tem algo de errado com o sistema de educação sexual, a mídia e o mundo.

 

Na sua palestra “It’s time for porn to change” (Tá na hora do pornô mudar) no TED, você fala sobre como a pornografia é a atual educação sexual e que “o sexo pode ser sujo, mas os valores devem ser limpos”. Como você acredita que a pornografia pode ajudar a construir esses valores sob uma luz positiva? Isso tem alguma coisa a ver com a sua decisão de não filmar cenas de anal?

Eu acredito firmemente que a pornografia pode ser uma ferramenta educacional. Hoje em dia o acesso à internet e à imagens explícitas são a primeira e principal fonte de informação dos adolescentes sobre sexo, antes mesmo que eles o tenham praticado. Não podemos evitar isso, está acontecendo. E proibindo, envergonhando e marginalizando a ideia de imagens explícitas sobre sexo só piora tudo. Nós temos que mudar a qualidade da pornografia, os valores por trás dela, para que os jovens não aprendam ideias de objetificação, derespeito e violência dela. O sexo dos filmes pornô tradicionais está longe da realidade, mas as crianças começam a acreditar que é assim que se faz sexo: que as mulheres atingem o orgasmo em qualquer posição que você quiser, estão sempre prontas para fazer sexo anal e absolutamente encantadas pela ideia do cara ejacular na cara delas.

A verdade é que mulheres gostam de sexo tanto quanto homens. Sexo é sobre experimentação, diversão e sacanagem! Isso não precisa mudar, o que precisamos é compatibilizar a sacanagem exibida nos filmes com respeito próprio, poder de decisão, consciência, intimidade e valores.

 

Como é para você, rotineiramente, reinventar um novo olhar sobre esse gênero? Você sente que deve estar sempre atenta para não cair de novo na abordagem tradicional, hábitos a evitar, ou isso é natural para você? Uma mulher dirigindo ou produzindo um filme pornô é suficiente para quebrar o paradigma? Por quê?

Os filmes adultos que faço têm uma pegada mais cinematográfica, e pelo aumento da qualidade da produção, o produto final se torna mais que um filme pornô padrão, ele se torna arte. Eu faço erotismo indie. Para quebrar os paradigmas da indústria pornô precisamos de mais mulheres escrevendo, dirigindo e produzindo. Precisamos incrementar os valores que defendem o empoderamento feminino e tomar de volta o controle do que queremos que seja feito com nossas fantasias e desejos.

 

Ativistas anti-pornografia como Shelley Lubben, da Pink Foundation, criticam as condições de trabalho dos atores, especialmente as atrizes. Em uma indústria tão machista, pouco regulada e por vezes despreocupada com questões de saúde, quais são as preocupações da Lust Filmes com a saúde e bem estar dos seus atores?

Aqui na Lust Films colocamos a segurança em primeiro lugar, trabalhamos com profissionais. Nós providenciamos que todos os nossos atores e atrizes façam um check up médico completo. Trabalhos com escalas que funcionam para ambos, e garantimos que todas as condições estejam favoráveis para quem está filmando pela primeira vez e para que os mais experientes se sintam confortáveis e também se divirtam.

 

Como você acredita que assistir pornografia, sozinho ou acompanhado, pode ser empoderador? Você tem algum exemplo de como esse empoderamento foi alcançado por meio desse tipo de intimidade?

Eu acho que filmes pornô podem ser aproveitados tanto juntos quanto separados, já que ajuda na criatividade e renova o desejo sexual. Se feita corretamente,  a pornografia pode ser uma declaração sobre prazer e sexualidade femininas. Pode melhorar o desejo sexual entre os casais e mostrar para as mulheres que é OK gostar de sexo, saber do que gosta e pedir por isso. Assim como a se darem conta de que elas são donas dos seus corpos e, sendo assim, de sua sexualidade. E que tudo bem sentir, gostar e fazer seja lá o que você queira sem ser julgada.

 

No projeto XConfessions, usuários escrevem e enviam suas fantasias anonimamente para você escolher duas por mês e transformá-las em belos curtas eróticos. Com três filmes produzidos e muito mais por vir, que coisas novas e surpreendentes você aprendeu com esse processo de criatividade coletiva?

O XConfessions é completamente coletivo, é um projeto novo de crowdsourcind que colhe os benefícios da originalidade das perversões do público e sua imaginação selvagem. Estamos vendo o prazer real e o que excita pessoas como eu e você serem transportados para as telas em lindos e pequenos curta-metragens. Para mim, é o melhor tipo de erotismo que há! A beleza dele é que realmente mostra o quão fascinante e incrivelmente diversa é a sexualidade humana!

 


Com Nina Neves

Arte: Mundobrel

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O que acontece quando duas formas de arte se encontram para um inspirado diálogo? O livro Não conheço ninguém que não seja artista, lançado pela Confeitaria, explora essa possibilidade por meio dos trabalhos da fotógrafa Camila Svenson e da escritora Ana Guadalupe. A obra reúne uma coletânea de 20 poemas e 20 fotografias que conversam entre si. O processo criativo foi dividido em duas etapas: com tema livre, Ana escreveu dez poemas, para os quais Camila se inspirou para fazer dez retratos que os ilustrassem; e depois Camila produziu dez retratos, para os quais Ana escreveu dez poemas. O resultado é um conjunto que relaciona palavra e imagem, alternando o ponto de partida: ora a poesia, ora a fotografia.

A Ana estudou letras na Universidade Estadual de Maringá e hoje mora em São Paulo. Seus poemas já foram publicados no Brasil, Espanha, Chile, México e Estados Unidos, em antologias como “Amor; Pequenas Estórias”, “Otra Línea de Fuego”, “101 Poetas Paranaenses” e “Cityscapes”. Em 2011, publicou o livro “Relógio de Pulso”, pela 7Letras.  Fabiane Secches, editora da Confeitaria, conversou com a Ana sobre o projeto, poesia e o mercado literário no Brasil.

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Como começou a sua relação com a poesia?Mexia em livros de poesia que meus pais tinham em casa quando era criança. Depois, na adolescência, tive uma amiga que escrevia e também me influenciou — mas só percebi essa influência recentemente. Comecei a escrever poemas muito ruins aos 13, 14 anos e fui emprestando livros etc. Durante a faculdade de letras, fiz um estágio de dois anos na Biblioteca Municipal de Maringá e foi nessa época que comecei a ler e escrever mais.Como costuma ser o seu processo criativo? Foi diferente para você no livro novo?

Raramente sinto um “chamado da inspiração” ou uma vontade muito forte de escrever, como se tivesse alguma mensagem pra “colocar pra fora” (invejo), mas às vezes penso numa frase e tento desenvolver a ideia depois. Ou me obrigo a fechar o navegador e escrever alguma coisa. Acho que a internet distrai demais. No “Não conheço ninguém que não seja artista”, foi totalmente diferente: tínhamos prazos, a ideia central do diálogo entre fotos e poemas e minha vontade de escrever sobre temas novos. Esse compromisso e as fotos da Camila Svenson, que são muito boas, ajudaram muito.

Que outras mulheres na literatura encorajam ou encorajaram você a seguir esse caminho?

Como inspiração, muitas encorajam. O que mais gosto de ler é poesia contemporânea e, dentro dela, me inspiro/divirto muito com mulheres. Na “vida real”, a Alice Sant’anna é uma das poetas contemporâneas que admiro muito e que me encorajou bastante.Como você vê o cenário literário no Brasil para as mulheres? E na poesia, que é ainda mais nichado?Vejo que são muitas mulheres talentosas, publicando coisas ótimas, e espero que tenham cada vez mais espaço, mas isso é óbvio. Acho que as dificuldades e preconceitos também ajudaram a formar escritoras mais assertivas, e são elas que vejo levantando questões importantes, usando as redes sociais pra falar de feminismo, literatura, sexo, humor e todas as coisas. Na poesia, acho que as mulheres estão ganhando um destaque bem importante, mas ainda existem coleções de editoras com muito mais homens que mulheres, por exemplo. Acho que também tem um obstáculo estranho na ideia de que poesia é um gênero “feminino”, feito de versinhos de amor e carência, e talvez na ilusão de que o homem escreva poesia de um jeito diferente. Não sei se já fizeram um estudo mostrando textos anônimos pra um grupo de pessoas e trocando os gêneros antes da leitura. Sinto que um poema escrito por uma mulher tem mais chances de ganhar comentários como “fofo”, “doce” (a não ser que fuja disso com todas as forças, pra combater mesmo) e alguém sempre vai inventar uma capa ou layout cor de rosa, enquanto o mesmíssimo poema vinculado ao nome de um homem pode ser considerado uma “porrada na alma”, “cortante”, “poderoso”.

Você também é ótima no Twitter. Acha que a limitação dos 140 caracteres ajuda a exercitar a sua habilidade com poesia? Você sente que a plataforma contribui como “aquecimento” ou inspiração para os seus poemas, que passam por temas tão atuais?

Obrigada! Gosto do muito do Twitter e fico feliz que o mecanismo nunca tenha mudado. Acho que escrever em 140 caracteres ajuda, sim, no exercício de anotar umas coisas sem se prolongar e sem cansar quem está lendo. E de se abrir a devaneios desconexos em público, o que é bem absurdo quando a gente para pra pensar. Nesse livro, cheguei a usar alguns tweets como “ponto de partida”.

O tema de seus poemas costuma variar entre o que é atemporal — no livro novo você fala de amor, saudade, esquecimento e morte — e o que é contemporâneo — redes sociais, seguro fiança, reality show. Sempre foi assim pra você?

Sim. Acho esses temas atemporais perigosos, mas os mais contemporâneos também. Tenho medo de escrever demais sobre a internet e a tecnologia e “errar a mão” nisso. Tenho tentado usar qualquer tema que apareça, ~experimentar novas emoções~.

Neste livro você trabalhou principalmente com outras mulheres. Como foi essa experiência pra você?

Foi muito legal principalmente porque nunca fiz nada em equipe e porque o resultado é diferente do que eu imaginaria e do que acho que as pessoas esperam. As fotos da Camila, a edição da Fabi, nossas opiniões e os temas novos que apareceram quando eu estava escrevendo.


Fabiane Secches é editora e diretora criativa da Confeitaria.

Arte: Chris Silas Neal

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O Brasil é o país com o maior número de domésticas do mundo. Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial de Trabalho, são 6,7 milhões de mulheres na função, representando 17% das trabalhadoras do país. É para ouvir a voz dessas mulheres, que o coletivo Nós, Madalenas lança hoje o documentário Mucamas, com sessão gratuita na Casa de Lua. Com duração de quinze minutos, o filme joga luz sobre mulheres que dedicam suas vidas à vida de outras famílias. O que torna o projeto ainda mais especial é que as entrevistadas são mães de cinco integrantes do coletivo.

Ambientado na maior cidade do país, São Paulo serve de pano de fundo para relatos intimistas que revelam a necessidade de repensarmos o papel dessas profissionais no mundo em que vivemos. Conversamos com a Ione Gonçalves, estudante de Artes Visuais e editora do documentário, que nos contou mais o coletivo e o projeto do documentário.

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Como o coletivo Nós,Madalenas começou e qual é a proposta dele?

O coletivo começou com a ideia de desenvolver um longa-metragem para um primeiro edital, não foi esse que ganhamos, foi antes disso. Mas desde o começo com a mesma essência, de defender o “papel” da mulher na sociedade. E levamos esse propósito como objetivo principal pro filme “Mucamas” também, por meio dessa questão do trabalho doméstico.

 

O Nós,Madalenas é formado por mulheres e em formato de coletivo, ou seja, sem hierarquia, como foi produzir nesse ambiente criativo?

Para respeitar todas as opiniões da equipe e para que todas tivessem um peso igual na tomada de decisão, percebemos que o “coletivo” era o melhor caminho para estruturar nossa relação de trabalho, ou seja, uma relação sem hierarquia.

Chega a ser confuso explicar nosso processo de criação dentro dessa relação horizontal e intensa, mas foi a forma mais gostosa que o projeto pode se realizar. Tivemos a oportunidade de acolher o projeto de coração cheio, todas nós nos sentimos essenciais e carregamos o mesmo sentimento de realização e doação.

 

Como surgiu a ideia do documentário ‘Mucamas”?

O documentário surgiu da forma mais espontânea possível. Tínhamos um prazo para viabilizar nossa inscrição em um edital e precisávamos de uma ideia para desenvolver o filme. Estávamos todas aflitas, pois nosso primeiro roteiro não se encaixava nas premissas do edital que íamos nos inscrever. Foi a epifania da última hora mesmo. Acho que a gente trabalha bem sob pressão.

 

O que motivou o coletivo a fazer um filme sobre o trabalho doméstico? E o que te motivou a querer abordar o assunto?

A questão do trabalho doméstico surgiu naturalmente. Sempre soubemos que tínhamos muito em comum, mas a questão que surgiu nessa última hora foi uma surpresa! A profissão das nossas mães era a mesma. Carregamos o mesmo sentimento pela profissão e quando notamos — depois de uma pesquisa sobre produções de cinema com esse tema do trabalho doméstico — o quão precioso era contar essas histórias do nosso ponto de vista, fechamos a essência do filme e foi isso que mais motivou o coletivo a desenvolver o doc.

O que me motivou a fazer o filme foi ter a oportunidade de contar a história das nossas mães com um olhar mais humano. Isso faz parte da minha realidade e foi o que mais me deu vontade de fazer esse projeto acontecer.

 

Você já teve algum tipo de conflito com a profissão da sua mãe, quando ela era empregada doméstica?

Eu nunca tive nenhum tipo de conflito direto com a profissão da minha mãe. Se isso acontecesse, jamais seria pela profissão em si, mas sim como ela é considerada

 

Como foi a reação da sua mãe quando você a convidou para contar sua história e trajetória profissional para um filme?

Minha mãe ficou encabulada quando soube da realização do documentário. Me entregou a seguinte fala “Tanta coisa legal pra vocês falarem. Por que a minha história? Isso é tão normal…”. Ela ficou tímida

 

Ela já viu o assistiu ao filme? O que ela achou?

Ela ainda não assistiu o documentário completo, confesso estar guardando surpresa. Quando iniciei a montagem, decidi mostrar os 5 primeiros minutos pra ela. A história ‘tão normal’ dita por ela transparece tanta potência! Ela ficou bem emocionada.

 

Você acha que participar do filme teve algum impacto na vida nela? E na relação de vocês duas?

Essa minha participação de contar a história dela nos acrescentou acima de tudo o reconhecimento. Minha mãe nunca me deixou pensar na possibilidade de ser doméstica, até então eu não sabia dos detalhes sofridos que ela passou. Há uma relação mais humana e um olhar mais respeitoso depois dessa experiência.

 

O que você sentiu trabalhando nas filmagens onde sua mãe estava sendo entrevistada para o filme?

Durante as gravações eu sentia estar contando a história da mulher mais guerreira que conheci. Nossa principal ideia com o filme é humanizar o olhar das pessoas com a profissão, trazer esse debate à tona por meio de histórias de mulheres fortes. E me enche o coração ver que que até a minha mãe se permitiu esse olhar, esse ressiginificado. Achei incrível!

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Muitos filmes que tiveram o trabalho doméstico como tema foram produzidos por equipes de classes sociais diferentes das personagens. Você acha que o fato das filhas das entrevistadas estarem envolvidas no processo criativo e na equipe de filmagem influenciou no resultado do filme? de que forma?

Pra mim o que o documentário tem de mais precioso é o fato das filhas contarem a história das próprias mães. Acho que esse é o diferencial, nós sabemos como a profissão é encarada desde sempre, está na nossa história. O filme possui cinco histórias fortes e que carregam semelhanças entre si apesar dos caminhos de cada uma serem bem diferentes.

 

Você tem ou já teve uma empregada doméstica em casa? Caso não, você teria uma empregada?

Nunca tivemos empregada doméstica em casa e se um dia for necessário não vejo problemas. Mas se for necessário MESMO!

 

O documentário tem uma pergunta muito simples e também muito forte, que gerou respostas emocionantes e que, agora, gostaríamos de saber a sua resposta: pra você o que é ser mulher?

É viver várias vezes numa vida só. Ao mesmo tempo carregamos as maiores vitórias.

 


Natália Fava é publicitária e faz parte do coletivo feminino de audiovisual “Nós, Madalenas”, que produziu o documentário “Mucamas”.

Arte:

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Por muito tempo, fazer algo “como uma garota” foi considerado pejorativo. Infelizmente, para algumas pessoas, isso ainda é visto como sinônimo de fraqueza, vulnerabilidade ou falta de técnica. Nada disso tem qualquer fundamento na realidade e o uso dessa expressão de forma depreciativa está com os dias contados. Após uma linda campanha da Always que valoriza o que é feito como uma garota (#LikeAGirl), a ilustradora, desenvolvedora de jogos e gamer Kaol Porfírio, do Rio Grande do Sul, criou uma série de ilustrações chamada Fight Like a Girl, ou Lute Como Uma Garota. Nela, estão representadas guerreiras famosas da ficção, para provar que as mulheres também podem ser lutadoras impiedosas e inspiradoras.

Em sua página do Facebook, Kaol já desenhou Sarah Connor, Xena, Mulan e Beatrix Kiddo. Ela nos concedeu uma entrevista na qual fala sobre a série e sua experiência como mulher no mundo dos games, cuja famosa misoginia é desafiada diariamente por garotas no mundo inteiro que lutam por seu direito e sua voz em uma indústria que é em boa parte financiada por elas. A convite do Think Olga, Kaol fez uma edição especial do Fight Like a Girl só com feministas famosas. Confira abaixo as ilustras e a nossa conversa com a artista.

Pussy Riot

Como você avalia a participação feminina na indústria dos games na atualidade?

A participação feminina na industria de jogos é muito baixa. Normalmente em cursos de jogos ou de especializando na área as mulheres fazem parte de 5% dos alunos, e acredito que não deva passar dos 20% em empresas. A industria de jogos ainda é bastante nova, eu tenho esperança a presença de mulheres na industria de jogos aumente. Um movimento chamado #1ReasonWhy reuniu vários desabafos de desenvolvedoras de jogos e com eles dá para ter uma grande ideia quao hostil é a área e quanto amor você precisa ter para trabalhar na mesma.

 

Há muitas críticas sobre a forma sexualizada como as personagens de games são retratadas. Qual sua visão sobre essas críticas? São fundamentadas?

A sexualização excessiva e a objetificação de personagens femininas nos jogos não tem nada de diferente de qualquer industria de enterimento focada no publico masculino, muita vezes com a desculpa de ser apenas “fantasia” ou “liberdade do design”. Mas o que realmente acontece é a mulher sendo retratada como um objeto apenas para agradar o publico masculino, ignorando totalmente as jogadoras, que pelos últimos números do ESA, são 48% do publico. Sem falar que na maioria das vezes, as personagens não possuem nenhum valor pra trama, estão ali para “enfeite”. A mulher é, na maioria das vezes, mal representada nos jogos.

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O que as mulheres podem fazer para poder conquistar mais espaço na indústria dos games, que ainda é entendida como uma indústria masculina?

Vejo muitas mulheres se destacando na industria, isso dá força e encoraja. Na ultima Global Game Jam (evento onde desenvolvedores se reúnem para produzir jogos em 48 horas) o vídeo de abertura do evento contou com um trecho onde a desenvolvedora brasileira Amora Bettany, da Miniboss, trouxe um discuso de desconstrução bastante claro, e acredito que isso tenha atingido muitas pessoas, e quem sabe, feito elas saírem das suas “caixinhas”. Mulheres como ela, mostram que é possivel mudar o ambiente e conquistar seu espaço, sendo um exemplo para as próximas.

 

Você já sofreu algum tipo de preconceito no seu trabalho como game developer? Em caso positivo, por favor nos conte. Em caso negativo, já testemunhou alguma outra mulher sofrer preconceito?

Em um evento de jogos é comum de acontecer das pessoas me ignorarem, acreditando que estou ali apenas para “acompanhar meu namorado”. E essa reclamação não é só minha, veio de uma amiga, em um evento, que se sentiu ignorada em conversas. Eu tento sempre estar com pessoas que me conhecem e que confio, e como game developer, aqui no sul, temos uma associação de devs – adjogosrs -bastante unida, o que me deixa bastante tranquila na área. Já como gamer, a coisa muda. Somos tratadas extremamente mal em jogos online. Escondo sempre minha foto de perfil, minha voz e evito chat. Já fui chamada de muita coisas, simplesmente pelo fato de ser mulher.  Além claro, de cantadas e mais cantadas. É cansativo e humilhante.

 

Gloria Steinem e Dorothy Pitman Hughes

 

Por que você decidiu fazer a série FIGHT LIKE A GIRL? E por que você acha que ela fez tanto sucesso?

Iniciei a “Fight Like a Girl” com o proposito de desabafo, e acredito que muitas mulheres se identificaram com a série pelo mesmo motivo. Meu desejo é homenagear mulheres fortes que podemos nos orgulhar, que mesmo fictícias, inspiram a vida de muitas pessoas. Não havia nenhuma intensão de sucesso. Na verdade eu nunca imaginei que iria ter o feedback que estou tendo com a série. É gratificante e inesperado. Iniciei e publiquei. Em uma semana ganhei mil curtidas e muitos comentários, tanto de elogios quanto de pedidos. Foi então que notei o quanto mulheres se identificaram e precisavam lembram que sim, existem mulheres que lutam!

 

Quais são as próximas personagens a serem retratadas na série? Há pedidos das leitoras? Quem elas querem que apareça?

Existem muitos pedidos, muito emocionantes. Um dos mais pedidos foi da Korra, da série Avatar. Eu não imaginava que uma personagem de uma série pudesse ter ajudado tantas mulheres de tantas formas diferentes. Noto que a maioria são personagens já antigas, como por exemplo a protagonista de Kill Bill e a Xena. A lista ainda está grande e por isso não sei até quando a série vai.

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O blog Não Sou Exposição é um dos nossos favoritos aqui da OLGA. A nutricionista Paola Altheia escreve sobre corpo, saúde e autoestima de maneira didática e bem-humorada, desconstruindo os mitos do emagrecimento e padrões de beleza. Aqui, ela fala sobre o apogeu do culto ao corpo que vivemos atualmente, apontando os resultados nocivos que acarreta. A entrevista definitiva que vai te convencer a parar de torturar seu corpo com dietas malucas e #projetos insustentáveis.

 

Como você enxerga o momento atual relativo ao cuidado do corpo, alimentação e nutrição?  

Eu identifico como preocupante. Porque o discurso vigente sobre corpo, comer e comida é simplista e dicotômico. A pluralidade dos hábitos alimentares, a afetividade e a preferência dos indivíduos deixa de ser respeitada. Muito se fala em “bom ou ruim”, “saudável ou nocivo”, “certo ou errado” , “pode ou não pode” e esquecemos que a comida é manifestação social, cultural, identitária e por tudo isso, livre de qualquer tipo de julgamento moral. Evidentemente, todos sabemos que atualmente existe uma alta prevalência de consumo de alimentos industrializados com alta densidade energética combinada com sedentarismo, que nos levou a índices alarmantes de sobrepeso e obesidade. Mas da mesma maneira que o excesso de peso pode favorecer doenças crônicas que configuram um problema de saúde pública, vejo a preocupação com o emagrecimento e estilo de vida saudável (dentro de definições rígidas e muitas vezes errôneas) como um problema de saúde coletiva igualmente alarmante. “Comer certo” é uma emergência coletiva que está nos afogando. Está na TV, nas revistas, nos anúncios, nas redes sociais, nas rodas de conversa, na literatura, em todas as formas de discurso midiático. A comunidade médica e científica está tão desesperada e sem rumo para contornar as doenças decorrentes da má alimentação, que está, literalmente, praticando terrorismo para que as pessoas façam a manutenção da saúde de modo satisfatório. Esse terrorismo, como o próprio nome indica, resulta em terror. Terror de comer. Terror de engordar. Terror de alimentos. Terror de celebrações. Terror de sentir fome. Terror de faltar a academia. Terror de gordura corporal. Terror de ter um corpo.

 

Existe um culto excessivo ao corpo? As mulheres estão mais suscetíveis a esse culto?

Sim. Absolutamente. Existe, é prevalente e é uma prática de devoção típica do século XXI. Já mencionei em outras ocasiões que estamos vivendo o apogeu da era do culto ao corpo. É interessante notar que o enaltecimento de virtudes morais foi gradualmente dando lugar à manutenção de atributos físicos. Se gerações anteriores apresentavam preocupação com a salvação da alma, atualmente precisamos agir em favor da salvação do corpo (mais especificamente, salvação da gordura e da velhice). Jejum, orações e penitência dão lugar à dieta, exercícios e antioxidantes. Na Idade Média temos relatos de mulheres que aspiravam à santidade praticando jejum severo para se aproximarem de Deus e atualmente, para se ter o corpo ideal, valem todos os sacrifícios. As mulheres são mais suscetíveis ao discurso porque desde a mais tenra idade nos é ensinado que o valor pessoal de um indivíduo do sexo feminino reside na aparência. Ser feminina é ser delicada, esguia, “princesa”. A moeda de valor do homem na sociedade é poder, dinheiro, influência, intelectualidade. Mas uma mulher que não dispõe de beleza (beleza esta, que se encaixa em critérios exclusivistas e específicos)… não dispõe de ferramenta nenhuma para ter um lugar na sociedade. O discurso midiático nos ensina que ser mulher é fazer a manutenção da própria beleza e ainda competir com as demais pelo prêmio da atenção masculina.

Entre mulheres, é típico observar conversas triviais e postagens nas redes sociais sobre dietas, “projetos” para preparar o corpo para o verão/vestido de noiva/eventos (como se o corpo precisasse de preparação para isso). Também é bem prevalente a postura de se justificar por “gordices” que eventualmente tenham sido cometidas, ou seja, sair da dieta. Mulheres têm que fazer dieta. Porque nos foi ensinado que ser mulher é ser bonita, portanto, magra. Esse diet talk, que é uma conversa incessante sobre o tema, junto com mútuo policiamento, está na boca de muitas mulheres brasileiras e do mundo, e é um franco reflexo do machismo. O que muitas dessas garotas falham em perceber é que o controle do corpo da mulher tem uma importância comportamental, cultural, política. É crucial nos colocar rédeas. Não estamos aprisionadas por espartilhos ou confinadas dentro de casa para a missão de ter filhos & cuidar da família, porém somos reféns da nossa mente e do nosso próprio corpo. Por esta razão, eu classifico a autoaceitação, a autoestima e o rompimento de padrões como fator de empoderamento e revolução. Paremos para pensar por um momento: o asco sentido pelo próprio corpo é impedimento para quantas conquistas? Desde ir à praia, praticar esportes até o rendimento acadêmico e confiança nas próprias habilidades. Temos uma crença de que a mulher É a sua aparência, que é muito difícil de desmistificar.

Quando eu questiono toda a cultura das dietas, projetos, intervenções estéticas, muitos me chamam de “radical”. E talvez eu seja mesmo. Mas me recuso a acreditar que, enquanto mulher, eu nasci para ser uma boneca de porcelana. Eu posso mais e eu SOU mais.

No entanto, entre os homens também vêm crescendo  os transtornos de imagem corporal e de comportamento alimentar. O bodybuilding é uma modalidade que popularizou muito e apresentou um crescimento vertiginoso nos últimos anos e representa as qualidades centrais do culto ao corpo. Os homens recebem a pressão para que sejam fortes, destemidos, valentes, viris e fantasiam que tais qualidades podem se tornar visíveis através de um corpo opulento, volumoso (“monstro”, “grande” e nomenclaturas do estilo). Ser “monstro” é espantar todos os presentes no recinto. É impor respeito pelo medo e por ter uma aparência ameaçadora.  Esses valores se relacionam intimamente com a cultura machista, dentro da qual não somente as mulheres são vítimas. É cobrado dos homens um comportamento estereotipado e idealizado, que causa danos emocionais e de desenvolvimento psicoafetivo. A febre da musculação faz vítimas diariamente, pelo uso indiscriminado de substâncias perigosas como medicamentos e hormônios. Vale tudo pelo corpo perfeito.

 

“Dieta detox”, “acúçar é veneno”. Por que esse terrorismo nutricional existe e como ele reflete na nutrição das pessoas?

Pra começo de conversa, veneno é arsênico, cicuta, chumbinho. Açúcar é um carboidrato e é uma substância que o nosso corpo reconhece e metaboliza perfeitamente sem que ninguém morra em decorrência disso.

“Aaah mas e a obesidade e o diabetes?” Ok.

Apenas consideremos que uma dieta com alta ingestão de açúcar refinado, pobre em grãos e fibras pode, sim, favorecer o aparecimento de doenças crônicas. Mas é preciso entender que o problema não está no alimento propriamente dito, mas sim no uso que se faz dele. O que vai definir se o açúcar faz mal é a frequência e a quantidade do seu consumo.

Em relação às “dietas detox”, acho importante ressaltar que a metabolização de substâncias no nosso organismo é realizada por órgãos e sistemas complexos como fígado, intestinos, pulmões, rins. O corpo tem plena habilidade de eliminar as toxinas e produtos metabólicos, sem que haja a necessidade de consumir “superalimentos” ou sucos verdes que potencializem ou mesmo provoquem tal efeito. É muito positivo consumir mais frutas e hortaliças, porque aumenta a quantidade de fibras, minerais e vitaminas na alimentação. Sucos de vegetais e frutas? São ótimos! Mas não provocarão milagres antienvelhecimento nem nenhuma outra promessa mirabolante do estilo. Também é legal lembrar que nem todas as pessoas têm condições financeiras para adquirir produtos orgânicos (cultivados livres de agrotóxicos), por isso, o suco de hortaliças pode ter efeitos deletérios à saúde pelo consumo exacerbado, e aí sim, podemos começar a discutir sobre veneno.

O terrorismo nutricional é a classificação maniqueísta da alimentação: é bom ou ruim. Engorda ou emagrece. Está certo ou está errado. E se você escolher errado, todo o seu sistema de qualificação moral estará em jogo. Estamos, verdadeiramente, dividindo pessoas tomando como critério o seu padrão alimentar. Fast Food é pecado. Pão francês é escândalo. O sistema de policiamento, altamente representado, inclusive, por profissionais da saúde leva ao stress, à culpa, aos transtornos alimentares, ansiedade, medo de comer e ojeriza pelo próprio corpo. Nas palavras da nutricionista Sophie Deram, amiga e mentora que eu admiro muito, precisamos “escutar o nosso corpo”. O corpo tem coisas para dizer. Sobre volume e qualidade da alimentação que necessitamos e também sobre atividade física. Ter consciência corporal e estabelecer um diálogo com nosso próprio organismo é fundamental para termos entendimento dessas necessidades, para que assim possamos administrá-lo. Muito se fala que devemos “controlar” nossa alimentação de fora para dentro, mas nosso padrão alimentar é regulado por comandos genéticos, mentais e metabólicos que vêm de dentro. Sou adepta do chamado mindful eating, que rompe com as normas dietéticas e o foco nas calorias e propõe uma nova relação com o alimento: íntima e particular.

Não me restam dúvidas de que o terrorismo alimentar não funciona, pois abordagens negativas não funcionam para nada na vida. Ninguém terá qualidade de vida e saúde plena se as diretrizes para que isso seja feito forem ditadas por ameaças, escárnio e medo. É senso comum pensar que o indivíduo primeiro emagrece e depois fica bem. Mas o que ocorre, na realidade, é o contrário. Primeiro diversas questões de desequilíbrio mental e afetivos deverão ser resolvidas… e a pessoa emagrecerá por consequência. Pessoas que se amam, se compreendem, se perdoam, se acolhem e se cuidam tratam bem do seu organismo, evitando excessos e desgastes.

Eu diria que o terrorismo nutricional acontece por termos uma sociedade altamente voltada à técnica e ao cientificismo e uma necessidade de polarizar as coisas como “adequadas ou inadequadas” e “certas ou erradas”. A sociedade ocidental, de modo geral, tem muita pouca tolerância ao discurso da moderação, o chamado “caminho do meio”. Também não gostamos de considerar aspectos psicológicos e sentimentos. Já vi nutricionistas dizendo “me recuso a me desfazer da velha máxima ‘redução calórica + exercício físico’”. A “máxima” é realmente interessante e aparentemente eficaz.Só faltou lembrar que estamos lidando com pessoas e por questões de subjetividade e diferenças de personalidade, a mudança de hábitos não é algo assim tão simples de acontecer.

 

O que é comer bem? Existe tal coisa?

Existe. Só que depende. Acho que meu ponto pode ser ilustrado por um episódio que vivi na cozinha do hospital das clínicas, onde estou fazendo estágio. Eu fico na área de produção de refeições aguardando os pedidos de dietas para os pacientes que estão internados. Somos nós quem separamos as comidinhas para: diabetes, hipertensão, insuficiência renal etc. Estávamos montando marmitas quando nos deparamos com um bilhete que dizia “hipoglicêmica”. Então a nutricionista indagou:

– Ei. Mas é DIETA hipoglicêmica ou PACIENTE hipoglicêmica?

Se fosse “dieta”, tínhamos que mandar comida com pouco açúcar. Se fosse “paciente”, tinha que ser com muito açúcar. Então alimentação é um ato que se relaciona com diversos outros fatores: quem come? Por que come? O que come? Quanto come?

Comer bem é o que é bom… Para mim! Pode ser um prato de 1 quilo de macarrão para um maratonista, ou uma água de coco para quem descansa à beira da praia. É um prato de almoço, uma porção de carpaccio ou um brigadeiro na festa de criança. Comer bem é quando um paciente que ficou se alimentando por sonda durante dias consegue enfim mastigar a primeira refeição sólida. “Comer bem” é uma história, um sentimento, uma necessidade, uma conquista.

Não existe uma receita para definir o que é “o bom” ou “o certo”. Muitas variáveis precisam ser analisadas e este é o erro de massificar a nutrição como se a regra X fosse boa para todas as pessoas.

 

Muitas revistas femininas têm seções inteiras dedicadas à dietas. O que você acha desse tipo de conteúdo?

Acho macabro. As seções sobre dieta nas revistas femininas passam a seguinte mensagem: ser mulher é estar de dieta. É controlar a alimentação e a silhueta. Porque é isso que mulheres fazem. Porque é isso que mulheres devem fazer. Acho inadequado pois a alimentação deve ser avaliada e orientada por profissionais habilitados e de forma individual. Ou seja, aquela dieta da revista é absolutamente genérica e dificilmente se adequa às necessidades de cada leitora. Quantos tipos de pessoas lêem a revista? Altas, baixas, gordas, magras, grandes, pequenas, ativas, sedentárias? Em que parte do país moram? Cada uma dessas pessoas deve ter o seu plano alimentar individualizado!

Em relação ao “dever” de fazer dieta… mito. Essa é a maior mentira que nos foi contada e não passa de mais uma ferramenta de opressão. Para colocar a mulher no seu “devido lugar”, que é o de passividade, submissão. É muito oportuno para a indústria das revistas femininas que suas leitoras estejam entorpecidas de fome. Deste modo, muitas ideias podem ser sugeridas e muitos valores podem ser passados com muito mais facilidade. Você, mulher, não precisa fazer dieta. O corpo sabe o que faz. Temos comandos de fome e saciedade eficazes, o único problema é que perdemos a consciência corporal necessária para identificá-los. Um corpo estressado por dietas fica desarmônico e a restrição alimentar tem consequências como episódios de compulsão alimentar e ganho de peso.

 

O que, em nossa sociedade, estimula a gordofobia? E quais as consequências dessa prática na vida das pessoas? 

A sociedade contemporânea é muito voltada para o corpo. Temos a aparência dos corpos como valor central a ser conservado, cultivado. Porque relacionamos qualidades morais com aspecto físico. Somos coletivamente movidos pela crença de que a gordura corporal é sinal de falta de obstinação, oportunismo, fanfarronice. A lipofobia é o pavor da gordura nos alimentos, no próprio corpo e no corpo dos outros. A gordofobia é o repúdio às pessoas gordas. A gordofobia é estimulada: pelo ideal estético atlético, pelo crescimento dos conceitos errôneos da “geração saúde” (que de saúde não tem nada), pela glamourização da magreza, pelas indústrias do emagrecimento/beleza/entretenimento e pelos discursos da área da saúde.

As consequências são as mais nefastas imagináveis: baixa autoestima, depressão, transtornos alimentares, marginalização da pessoa gorda, injustiça social, desemprego, piora na qualidade de vida, sedentarismo, maus hábitos alimentares. As pessoas têm uma tendência a pensar que se “assustarmos” o gordo, aplicarmos a tal da “terapia de choque”, a pessoa de alguma maneira irá reagir e modificar os hábitos de vida. Por esta razão, vemos profissionais de saúde (e os amigos, os familiares e a vizinha…) ridicularizando, cobrando, depreciando e menosprezando as pessoas com excesso de peso.

É imaginar que se pisotearmos a pessoa o bastante, um dia ela irá erguer-se. É senso comum, mas trata-se de uma besteira. Ninguém vai melhorar seus hábitos e passar a se cuidar porque foi xingado, humilhado, maltratado.

Não é difícil de entender porque a pessoa gorda se sente desmotivada para praticar exercícios físicos, uma vez que foi dito para ela sem parar que o corpo dela é inadequado, indesejável e feio, que só as pessoas magras são capazes e bonitas e ela é uma perdedora. Quem entraria numa academia de ginástica para fazer exercício, sendo que este ambiente é um templo de adoração à massa magra e às pessoas atléticas e definidas?

 

Qual o limite da vaidade? Como descobrir que ela virou obsessão e o que fazer a respeito?

A vaidade não tem limites. E pode, inclusive, matar. Quando “perdemos a linha” com a nossa vaidade (que todos temos, é claro) nossa qualidade de vida pode ficar seriamente comprometida.

Gostaria de deixar claro que o NSE não se posiciona contra práticas de embelezamento. Todo mundo gosta de se enfeitar, se embonecar, se admirar e admirar os outros. A humanidade sempre celebrou as formas físicas e celebrou o corpo e isso é natural. Os Egípcios gostavam de pintar o rosto e essa prática data de A.C. O que é diferente hoje é o papel central que a beleza ocupa nas nossas vidas. Ser belo é tudo. É missão, meta, obsessão. Vivemos uma mitologia fundamentada na crença de que ser magra, jovem e bonita vai abrir as portas para um pleno estado de felicidade.

Como toda obsessão, a beleza também é perigosa. A preocupação com a alimentação e o peso corporal possivelmente se tornou um exagero quando a pessoa já não se sente capaz de ter uma vida social com os entes queridos e amigos sem se sentir desconfortável. A mãe chama para almoçar e a pessoa mente que já comeu. Os amigos vão à pizzaria e a pessoa leva um potinho de salada. É sentir que não é permitido sair da linha. Nem um pouquinho. É negar um pedaço de bolo numa festa de aniversário da empresa.

Também é importante notar a hipervigilância corporal. Se a pessoa passa longos períodos na frente do espelho buscando “defeitos” e descobrindo imperfeições “novas” que supostamente não estavam ali. Se pesa todos os dias. Se sente desconfortável nas roupas, prefere peças de roupa mais larguinhas que escondam sua “bunda grande”, suas “pernas grossas” ou seus “braços gordos”. Ou, ao contrário, abusa de roupas justas, coladas, que evidenciem os músculos que parecem nunca ser definidos ou grandes o suficiente.

Também quando dados objetivos (peso, IMC e composição corporal) comprovam que não há excesso de peso (na maioria dos casos, o peso corporal já se encontra abaixo de limites seguros) e mesmo assim a pessoa não acredita ou não consegue ficar satisfeita.

E, claro, quando o que você enxerga não é compatível com o que o mundo inteiro diz. Ou seja, se a pessoa afirma categoricamente que está gorda e todos ao redor negam.

É preciso estar atento para um problema de saúde sério que se chama transtorno dismórfico corporal. As pessoas com este problema apresentam fator de risco para complicações decorrentes de restrições alimentares, abuso de exercícios físicos e cirurgias plásticas de repetição. A pessoa se enxerga sempre feia, irremediavelmente feia. Olha no espelho e sente desespero. Chora, sofre. Não consegue assimilar a própria imagem e sente que sua presença “ofende” os olhos dos demais.

Se sinais assim forem percebidos, é importante buscar tratamento. Psicoterapia, e se for necessário, psiquiatra e medicação. No caso dos transtornos alimentares os nutricionistas também podem ajudar.

 

Se você pudesse fazer uma consultoria para algumas revistas femininas e blogueiras fitness sobre como falar de nutrição de forma saudável, que palavras você cortaria do vocabulário e por quê?

Eu creio que cortaria eufemismos estranhos para a palavra “emagrecer”: afine, enxugue, seque, esculpa, modele, detone… porque é besteirol não científico e são palavras que despersonificam. Esse tipo de nomenclatura faz o corpo humano parecer uma substância maleável, controlável e moldável de acordo com a nossa vontade, o que simplesmente não é verdadeiro. Existem fortes determinantes genéticos para termos o corpo que temos e tal fato não pode ser modificado pela “força de vontade” e nem uma “dieta TOP”. Em bom português, é enganação. As palavras são convidativas e desviam o foco do significado de “emagrecer”, que é uma tarefa árdua, difícil e que acontece a longo prazo.

Também eliminaria com muito prazer a palavra “Projeto” (projeto verão, projeto biquíni, projeto casamento etc.) porque é reducionista. Atrelar a sua rotina alimentar a um projeto não é uma forma de promover a alimentação saudável porque o objetivo é sempre uma coisa pontual e efêmera como ir à praia ou uma festa… A pessoa que se entrega a “projetos” não está verdadeiramente buscando uma vida saudável, está fazendo um “sacrifício” em nome de uma compensação. E ter uma vida saudável não deveria ser sinônimo de privação, luta, sacrifício. Sempre digo: ser saudável, é agradável.

O próximo da lista é “No Pain, No Gain” (“sem dor, sem ganhos), sem dúvidas. Eu fico absolutamente abismada ao observar como a área da saúde está contaminada com uma filosofia de flerte com a dor oriunda do fisiculturismo. Dor é mau sinal. Dor quer dizer que algo não está bem. Dor é um alerta do organismo saudável. Não é verdade que tudo o que a gente faz tem que doer, tem que sangrar, tem que ser uma tortura. Existem pessoas que não consideram uma atividade física realizada se não tiver passado por um calvário. Evidentemente, isso não é saudável. É importante fazer atividade física dentro dos limites de cada corpo. Não existe nada de proveitoso em treinar até morrer. É normal faltar academia de vez em quando e também é normal não conseguir ter pleno rendimento todas as vezes. Algumas vezes a gente aguenta mais, outras menos. Tem dias que preferimos ficar em casa dormindo. E isso é normal e também é uma forma de cultivar a saúde.

Também baniria: “MAGRA” como elogio e sinônimo de coisa boa. “Tá magra, amiga” ou “agora eu vou ficar magra”. Magreza é uma característica física. Não é a oitava maravilha do mundo e não necessariamente significa que a pessoa tem saúde. Uma pessoa pode emagrecer e melhorar muito seu estado geral ou isso pode acontecer por problemas emocionais, luto, desordens metabólicas e até câncer. Ser magra não é sinônimo de saúde. Nem de superioridade. E não é um elogio. Sempre importante lembrar: nem toda pessoa gorda é doente. Nem toda pessoa magra é saudável.

Último e mais importante: “Vergonha na cara”. Esse comentário é absurdo e terrível. Atualmente temos um aumento da prevalência de doenças crônicas como diabetes, cardiopatias e hipertensão e isso acontece por inúmeros fatores, só que um surto mundial de falta de vergonha na cara não é um deles. Dizer que uma pessoa tem problemas de saúde porque “quer” ou porque “não tem vergonha na cara” é uma demonstração de ignorância e preconceito. As pessoas têm dimensão emocional, afetiva, financeira, social, física e os determinantes da saúde humana são muito complexos. Ter boa saúde e ter bons hábitos envolve muito mais do que “uma escolha” e, sejamos francos, dizer que as pessoas não têm vergonha não motiva ninguém.

 

Como podemos criar uma relação de paz com a comida e aceitação com nosso próprio corpo? Você tem histórias para dividir sobre pacientes, leitores ou conhecidos que conseguiram atingir isso?

Confiando no organismo, deixando o corpo em paz, controlando a ansiedade e não tendo pressa. Como comentei anteriormente, é comum imaginarmos que primeiro a pessoa emagrece e depois começa a se sentir bem. Mas a na realidade acontece o contrário: primeiro a pessoa fica bem. Se aceita. Se acolhe. Se harmoniza. E o emagrecimento vem por consequência. Perceber os sinais de fome e saciedade nos leva ao respeito pelo nosso corpo e quando respeitamos o nosso corpo, não comemos sem necessidade. Há muitas histórias de pessoas que mudaram suas vidas quando decidiram trilhar o caminho da aceitação. É paradoxal, mas tudo muda quando desistimos de tentar mudar tudo. Há diversos depoimentos no meu Blog sobre transformações maravilhosas e recebo mensagens e e-mails quase que diários me falando sobre como o amor próprio transformou vidas. A Keila é um caso muito especial pois é uma amiga próxima. Também tem a Raquel Rocha, que por causa do NSE tem, hoje, o próprio Blog. A Aline Xavier também. A Lu Medeiros também veio com a gente e hoje tem uma Fanpage linda chamada Ei Mulher, Melhore. Acho muito especial a história da Karol, que foi a porta de entrada para outras pessoas também enviarem depoimentos. Pra ser sincera? Estamos criando uma revolução de amor que só tem crescido!! São inúmeras histórias, incontáveis vidas modificadas. Perdi as contas. Tem um mundo de gente do outro lado da telinha!

 

Suas mídias sociais têm um approach bem humorado ao falar sobre esses temas. Elas, inclusive, tiram sarro de propagandas enganosas, denunciando os abusos de maneira leve e cômica. Por que você decidiu por essa estratégia?

Porque os abusos são engraçados. Eu sempre acho engraçado. Dentro da velha máxima “seria cômico se não fosse trágico”, acredito que a melhor maneira de enfrentar uma realidade é rir dela. E eu rio. Rio alto. Sempre que vejo capas de revistas na fila do mercado e leio os apelos e sugestões eu dou gargalhadas, porque não é possível que estejam realmente querendo me dobrar com tanta bobagem. Isso é um relato que ouço de amigas também. Quando você está imersa no discurso, tudo aquilo parece ser muito importante, mas a partir do momento que a mística se desfaz e você começa a enxergar a coisa toda com outros olhos – olhos de quem tem senso crítico e não quer ser explorada – tudo acaba se tornando muito engraçado. Não sei. Tive uma intuição de que o humor era o caminho a tomar. Dizem que eu sou engraçada, então uso um mecanismo de linguagem que domino.

 

Sei que você sofre com muita violência online. Por que você acha que as pessoas têm esse comportamento ao falarmos de saúde?

A animosidade online é grande. Com todo grande empreendimento vêm os desafios e todo bônus tem seu ônus. Tenho fãs, parceiros e amigos. E também bullys, haters e inimigos. Pra ser honesta, tem alguns nutricionistas chateados comigo. Quando você enche a sua clínica promovendo o Projeto Verão e aparece uma sirigaitinha na internet dizendo que as pessoas não precisam emagrecer para ir à praia, é pra ficar muito p* mesmo! Hahaha…

Acho que as pessoas se alteram quando falamos de saúde porque existe muita crença em discursos simplistas e extremos. Além de muita gordofobia, há muito pouco questionamento e uma impressionante tendência em repetir a máxima (falida) da Dieta + atividade física + força de vontade. Ora, todo mundo conhece essa fórmula. Todo mundo sabe disso. Se a questão fosse assim tão simples, não teríamos um tremendo problema de crescimento da obesidade no mundo!

Me lembro também de uma ocasião em que discorri sobre fisiculturismo infantil e precisei trocar meu endereço de email no começo deste ano. A comunidade bodybuilder queria minha cabeça. Também pudera. Existem certos grupos que têm conduta sectária e o nicho da musculação certamente é um deles. Também dizem por aí que eu tenho “A Fanpage que ataca nutricionistas”… Porque eu denuncio as bobagens que certos nutricionistas andam falando por aí. Mas eu juro que eu sou boazinha e nunca avancei em nenhum nutricionista. Sou da paz.

Eu sei que estou sozinha num barco à remo tentando vencer a correnteza (e correnteza braba!). Quando alguém levanta a voz e desafia o status quo, essa pessoa precisa saber que não vai ficar por isso mesmo. Vai ter muuuuuuuuuito mimimi. Cada vez que eu me sinto derrotada, abatida, eu paro e me faço a seguinte pergunta: “- Você vai recuar por causa disso?”… Até agora a minha resposta tem sido NÃO.


 

Arte: Ashley Blanton

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ana-tijoux

“Tu no me vas a humillar, tu no me vas a gritar
Tu no me vas someter tu no me vas a golpear
Tu no me vas denigrar, tu no me vas obligar
Tu no me vas a silenciar tu no me vas a callar”
– Ana Tijoux (Anti Patriarca)

Com o objetivo de conhecer um pouco melhor três vozes femininas que derrubam fronteiras no rap / hip-hop, gêneros musicais ainda essencialmente dominados pelos homens, fomos até São Carlos, no interior paulista, durante o Festival Multimídia Colaborativo Contato, acompanhar de perto o trabalho, a histórias e os percalços destas três corajosas e inspiradoras artistas: Ana Tijoux, Miss Bolívia e Karol Conká.

Antes de falar sobre as entrevistas, é preciso abrir um parênteses aqui sobre representatividade e até a importância da iniciativa do “Entreviste uma Mulher”. Quando descobri que era a única jornalista mulher do grupo, não sabia se ficava chateada ou feliz (afinal, pelo menos eu estava lá para representar). Mas conversando com meus colegas, acabei ficando um pouco chocada ao saber que nenhum deles iriam entrevistar a Ana Tijoux ou a Miss Bolívia, apesar de serem as únicas atrações internacionais do festival. Fiz uma certa campanha, e a Tijoux acabou sendo entrevistada por outro veículo, mas mesmo assim, foi um baque muito grande dar de cara com essa realidade.

Aqui, faremos diferente e todo espaço será dado a elas:

ANA TIJOUX

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Chilena de raízes indígenas e criada na França durante o exílio dos pais por conta da ditadura de Pinochet, Ana começou como MC do grupo Makiza. Lançou em 2007 seu primeiro disco solo, e desde então se destaca no cenário mundial com sua mistura de hip-hop e pop latino. Seu hit1977 entrou na trilha da amada série Breaking Bad. Em 2014 lançou “Vengo”, seu quinto álbum, já sem utilização de nenhum sample (prática clássica do hip-hop), segurando suas rimas apenas com a excelente banda. Suas letras são pautadas pelo feminismo, pos colonialismo, violência, e seu constante ativismo em questões sociais.

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“Liberarse de todo el pudor,

Tomar de las riendas,
No rendirse al opresor.
Caminar erguido, sin temor,
Respirar y sacar la voz.”
-Ana Tijoux (Sacar La Voz)

MISS BOLIVIA

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Apesar de usar o codinome Bolívia (por ter morado memoráveis 6 meses no país), Maria Paz é na verdade Argentina, morou por dois anos na cozinha de um casarão abandonado de um amigo em La Boca. A cantora já lançou dois álbuns desde 2008, que misturam rap, cumbia, funk, dance-hall. Nesse período já levou seu som para turnês internacionais onde acrescenta artes visuais e dança em apresentações performáticas e eletrizantes.
Psicóloga há 10 anos, e professora de Universidade, a artista trabalha em um estudo sobre os benefícios físicos e sociais da legalização da maconha. Porém deixou de lecionar há dois anos já que não era mais levada à sério na sala de aula e pela própria Universidade ao adotar o visual de dreads e se tornar uma cantora cada vez mais famosa.

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“Voy con musica vos con lucha ma
suena de mujer a mujer, toma mi mano
quiero sanar tus heridas
quiero transformarlo en memoria y vida”
– Miss Bolívia (Rap Para Las Madres)

KAROL CONKÁ

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A curitibana Karol Conká aparece como um dos destaques do Festival, em excelente momento da sua carreira. Logo após voltar de uma longa turnê internacional, Karol que conseguiu visibilidade pelo MySpace, concorreu `a artista revelação no extinto VMB, lançou seu primeiro EP em 2011 e seu primeiro disco, Batuk Freak, que mescla elementos do rap tradicional com sons típicos brasileiros em 2013. Suas letras falam de empoderamento, feminismo, autoestima de uma forma leve, dançante e divertida.

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“Se quer medir forças sei que me garanto,
Sem conversa froxa, sem olhar de canto,
Fecha a boca, ouça, eu não tô brincando,
Sua estratégia fraca já vo chega te derrubando.”
– Karol Conká (Me Garanto)

NO PALCO

Apesar de beberem das mesmas fontes, a apresentação das três artistas são absolutamente diferentes entre si. Enquanto Ana forma uma unidade em total sintonia entre ela e sua banda, fazendo com que a gente realmente entenda o conceito de igualdade de gênero, Karol é a rainha absoluta de seu palco, dominando-o de ponta a ponta, deixando para os seus músicos o papel de coadjuvantes. Já Miss Bolívia, que costuma viajar com sua crew de vários músicos, estava contando apenas com 3 no palco, e mesmo assim utilizou sua voz, corpo, dança e energia para transformar sua apresentação em uma festa `a céu aberto para delírio do público.

COMEÇO DE CARREIRA

Em comum, o começo da carreira das três foi marcado justamente pela mesma questão: mulheres seguindo um caminho fora dos padrões sociais, desconstruindo estereótipos.

Ana, apesar de admitir se envolver tardiamente com o feminismo, sempre procurou fugir dos temas machistas e violentos do gênero. Karol, que segundo sua mãe faz hoje no palco a mesma coisa que fazia quando criança na frente das bonecas, ficava ofendidíssima quando a elogiavam dizendo que ela “rimava como um cara”. E Bolívia, apesar de ter começado “tardiamente”, aos 30 anos tocando bateria, costumava ouvir todo tipo de desencorajamento por parte dos caras que simplesmente não acreditavam em seu trabalho.
SER MULHER NO MEIO RAPPER

Críticas e perguntas indiscretas não faltam nesse quesito. Ana Tijoux conta que sempre teve que lidar com jornalistas mulheres perguntando “Mas por que o rap?” — o que considera uma pergunta em si machista. Miss Bolívia diz que apesar de ter que constantemente provar seu valor no começo de carreira (já não bastasse o desafio de convencer a si mesma), constata que depois que enfrentou essa barra, conseguiu conquistar respeito e que hoje os caras de sua equipe se tornaram grandes parceiros. Já a Karol costumava chegar botando tanta banca e tanta marra que os caras se intimidavam com tamanha atitude, e a garota sempre saía por cima. Ela aproveita sua posição de destaque no meio para ser a voz das mulheres, escrevendo pensando nelas, e credita parte do boom de seu sucesso ao conteúdo de suas letras de autoestima e superação, enquanto rebola de mini shorts, sem se importar com celulite e mandando a galera mexer a pélvis de cima do palco.
“Vai com calma, rapaz, mais respeito
Dá dez passos pra trás, fica ai mesmo
É bom ter disciplina se quiser sair ileso”
– Karol Conká (Gandaia)

“Deixa ela, deixa!
Ser livre, seguir sem se importar
Se quiser ir pra qualquer lugar que vá
Não tem asas mas pode voar
Ela só quer viver, ela só quer viver!
Andar de sandália pela Jamaica”
– Karol Conká (Sandália)

CONTATO COM O FEMINISMO

Ana Tijoux chega a quase se desculpar pelo seu envolvimento “tardio” com o feminismo. Segundo ela, foi por ignorância mesmo: antes até se referia às militantes como feminazis, como muitas de nós. Foi quando leu e refletiu mais sobre o tema, com a ajuda de autoras como Simone de Beauvoir, que a ficha caiu e ela se encontrou, sendo hoje uma das grandes ativistas da causa.

O contato de Karol com as questões de gênero se deram de uma forma inusitada: aos 10 anos, sua melhor amiga era uma travesti de 35 anos. Desde cedo, ela brincava de ser travesti e, queria porque queria ser uma delas quando crescesse. Esse foi um dos seus primeiros contatos com as questões de gênero e com o preconceito e incompreensão que as minorias sofrem. Em suas letras e durante seus shows, Karol abusa da performance, botando para fora toda sua maravilhosidade e influência da sua amizade de infância, conquistando em cheio o público gay.

Já Miss Bolívia tem atitude digna de uma riot grrrl em seus shows, afinal, ela mostra o corpo, rebola, dança e grita “Free Marijuana!” para um público que dificilmente sabe respeitar uma mulher. Ela conta que uma vez durante uma apresentação, em um momento de silêncio, um cara gritou “ABRA SUAS PERNAS”. Ela abriu e respondeu “Ok, abertas porque eu quis e o que você vai poder fazer agora? Nada. Então fica aí na sua”. O público foi a delírio e aparentemente nunca mais ninguém fez uma gracinha dessas.

“Dicen que soy caprichosa,
que soy jodida y que soy celosa
dicen de mí tanta cosa, y todo están de acuerdo,
que tengo lengua peligrosa”
– Miss Bolívia (Caprichosa)

VIOLÊNCIA NA INTERNET

A internet pode ser um lugar bem hostil, especialmente se você é mulher, com o agravante de fazer sucesso. Ana diz que não liga a mínima e apenas dá risada. Bolívia, que no começo se importava, mas hoje em dia superou. Os xingamentos de “vagabunda” são frequentes, mas por uma questão de manter o karma limpo, ela simplesmente não responde. Já Karol teve que ouvir acusações machistas e cruéis de que “estava estragando o rap”, seguidas de “quem é você para mandar as meninas rebolarem” e até “essa neguinha é feia” quando lançou seu primeiro disco. Do alto de sua segurança, Conká apenas vê essas pessoas como seres que infelizmente estão aprisionados em um padrão ignorante. Mas nós sabemos como é difícil ser mulher todos os dias, imagine em um ambiente predominantemente masculino e tão hostil com elas.

MATERNIDADE

Se mulheres que se dedicam à sua profissão e seguem seus sonhos normalmente são julgadas e cobradas em relação aos filhos, o que dirá sobre rappers que vivem em turnês? Ana é enfática ao falar como lida com as pressões e julgamentos: “Minha casa é o meu templo e como eu crio meu filho está absolutamente fora de questão”.

Karol se abre e conta que depois que teve seu filho, aos 19 anos, precisou lutar contra uma forte depressão que durou 2 anos. Por causa do pensamento machista geral e dos comentários clássicos de “engravidou, tá fodida”, ela, que sempre sonhou ser cantora, achou que era o fim de uma carreira que mal tinha começado. Um dia, olhou para o filho dormindo no berço e se questionou “por que eu tô fodida? Quem disse que eu tô fodida?” e decidiu provar para todos que eles estavam errados.

Enquanto isso, Miss Bolívia, 39 anos, optou por não ter filhos biológicos: argumenta que seu corpo é seu instrumento de trabalho e que precisa de pelo menos de 6h de tempo para si mesma, então não se sente pronta para lidar com um bebê completamente dependente dela. Pensa em adotar uma criança já maiorzinha: “as pessoas gastam rios de dinheiro tentando engravidar, sendo que as crianças já estão aí no mundo, esperando por um lar”.
DICA PARA AS GAROTAS QUE ESTAO SEGUINDO OUTROS CAMINHOS

A melhor parte de ter passado por dificuldades é poder abrir caminho e passar sua experiência para quem está começando agora.

O conselho de Ana é que você, antes de tudo, deve saber o que quer fazer, com quem quer fazer, como quer fazer e então traçar o caminho que vai seguir. Ter isso bem claro em sua mente e disciplina para seguir em frente é o que ela tem de mais valioso para dividir com as garotas que querem seguir caminhos não convencionais.

Karol fala para as garotas fazerem o que ela fez consigo mesma: “olhe-se no espelho, se aceite como é e lembre que todo mundo um dia irá morrer. Ficar pensando no que os outros irão achar ou tentar agradar pessoas que não sabem nem o que querem só vai fazer com que você perca um tempo imenso de sua vida, que não tem volta. Então pense em você em primeiro, segundo e terceiro lugar e se respeite. Só assim é possível respeitar o próximo.”


Débora Cassolatto é redatora, curadora musical e DJ há mais de 10 anos nas casas rockers do baixo Augusta. Criadora do tumblr parceiro da MTV Brasil Ouvindo Antes de Morrer onde ouve, posta e compartilha impressões sobre todas as músicas do livro “1001 songs you must hear before you die”, entre outros conteúdos sobre música. Também fundou o blog Música de Menina, espaço que subverte a questão de gênero e música.

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