A Língua Portuguesa não é sexista. Seu mau uso, sim. Como ato-reflexo da sociedade, a linguagem é um dos espaços mais sutis, constantes e estáveis de legitimação de padrões e práticas de desigualdade e opressão. O sexismo é uma delas, que discrimina com base no sexo e perpetua o Patriarcado, sistema secular que centra no homem o papel de protagonista da ordem social, reduzindo e invisibilizando a identidade feminina e de grupos que sofrem camadas ainda mais cruéis de exclusão, por sua condição de classe e raça.

É um processo de retroalimentação: o sujeito masculino domina os espaços da vida cotidiana – escola, religião, artes, política, família, urbanidade, mídia – e essa hegemonia se instala na linguagem que, ao ser usada como se natural fosse, reproduz, mantém e cimenta a desigualdade. Neste sentido, falar é fazer. Especialmente quando a linguagem sexista e discriminatória é usada pelos meios de comunicação, esses importantes e eficientes agentes de socialização de valores, crenças e padrões sociais. A força do ato tem um peso ainda mais simbólico.

Os exemplos multiplicam-se mas vale destacar, por sua condição pedagógica, a reportagem exibida no Jornal Nacional do último dia 2 de janeiro. A matéria trata do pagamento de 17 salários ao corpo docente da cidade de Costa Rica, no Mato Grosso do Sul. Em apenas 30 dias, as professoras e os professores da rede municipal de ensino receberam quase seis salários, num ‘milagre’ conquistado graças à economia de recursos gerada pela redução drástica das faltas das educadoras e educadores, que evitou gastos com a contratação de profissionais temporários.

Para além da ótima notícia, merece destaque a distorção (quase imperceptível, tamanha a sua naturalização) do sistema gramatical de gênero utilizado. Na reportagem, o masculino ‘professor’ não se refere ao docente-homem (dentro do padrão heteronormativo), mas a toda a categoria. O masculino faz as vezes de genérico universal, como se o homem (em qualquer situação, profissão, condição) fosse ele próprio a medida da humanidade.

A Língua Portuguesa, no entanto, estabelece regras bem definidas para tratamento de gênero – masculino, feminino, comum de dois gêneros, sobrecomum, epiceno, etc, significando que o uso do masculino como tratamento único é um ato linguístico significativo e nunca, nunca neutro. A matéria começa com a seguinte narração: “a fila no caixa eletrônico só tem professores. Uma a uma as notas vão saindo para melhorar a vida deles. Solange até trocou de carro”. A imagem correspondente ao trecho denuncia a própria fala: uma fila de mulheres professoras (nenhum homem nela), e uma professora citada como personagem. Nem assim elas foram inseridas no contexto linguístico. A identidade feminina das professoras foi suprimida, engolida pelo ‘presumível genérico’ masculino.

Se a fala fosse expressa no rádio, e portanto sem imagem, o imaginário provavelmente nos levaria a ‘visualizar’ uma fila de homens e mulheres, já que o formato gramatical sexista é aceito, incontestado e de uso corrente. Quanto mais profunda e bem sucedida se dá a marca discriminatória, mais imperceptível e naturalizada ela se apresenta. Uma marca imensa, mas que de tão introjetada parece nem existir. Por isso se faz tão urgente combater qualquer tipo de exclusão linguística. Uma democracia que respeite plenamente a diversidade e não invisibilize grupo algum depende do enfrentamento dessas questões, em busca de modelos de linguagem mais democráticos, inclusivos e críticos – para uma sociedade que possa refletir/ser reflexo dessas condições.

A reportagem de 2 minutos e 33 segundos menciona oito vezes a palavra professor no masculino e mais duas vezes se refere ao corpo docente como “eles”. O prefeito também usa o masculino, assim como a própria secretária de Educação. Só vemos uso feminino da profissão na legenda da fala da última entrevistada. Verdadeiramente não me surpreenderia que o repórter nem tenha se apercebido da falta de identificação língua-pessoa, por força do hábito, da base ideológica, e da vontade cega de simplificar. Mas o jornalismo é produtor de sentidos e como um importante intérprete da realidade (de um tipo de realidade), não pode se furtar a refletir sobre seu papel na autonomia dos indivíduos e sobre o direto à presença/representação na língua.

Como diz o excelente Manual Para o Uso Não Sexista da Linguagem, organizado pela Secretaria de Política para as Mulheres do Rio Grande do Sul a partir do texto da Red de Educación Popular Entre Mujeres de Latinoamérica y Caribe, “a linguagem cria consciência, cultura, ideologia e modifica o pensamento das pessoas. Podemos, portanto, ao mudar a forma de falar e escrever, modificar a mentalidade das pessoas, suas condutas e como consequência a própria sociedade”. Não há incorreção ou repetição no ato de nomear o masculino como masculino e feminino como feminino. Também não há duplicidade, uma vez que duplicar é fazer uma cópia igual a outra e esse não é o caso. “É simplesmente um ato de justiça, de direitos, de liberdade. É necessário nomear as mulheres, torná-las visíveis como protagonistas de suas vidas”.

Se faz imprescindível, por fim, tirar o tema da zona de conforto do status quo – ‘uso gramatical padrão’, para mostrá-lo como reflexo direto da naturalização e da legitimação do domínio masculino. Há que se mudar os formatos e buscar novas experiências linguísticas inclusivas, seja por meio das regras existentes, seja a partir da criação de novas regras, fazendo a ciranda mutável da língua se transformar em favor de uma vivência mais inclusiva e múltipla.

Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.

Arte: Pep Montserrat.

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Mulheres nas finanças

Mulheres nas finanças

Quando me deparei com os achados de uma pesquisa sobre alfabetização financeira no mundo, fiquei pasma! Ao longo de toda a minha carreira como executiva e, agora, como consultora, trabalhei com finanças. Há cinco anos, decidi criar a Precisão, empresa de consultoria, com o objetivo de contribuir com pessoas que estão à procura de um maior equilíbrio na sua vida financeira. Tem sido uma experiência e tanto! E, por mais que eu perceba as minhas dificuldade e dos meus clientes em lidar com o tema, não pude deixar de me surpreender com as estatísticas, especialmente relacionadas às mulheres adultas brasileiras.

Em função disso, e quase que imediatamente, pensei em dar visibilidade ao estudo, pois acredito que antes de mudar uma realidade, precisamos ter consciência dela.

Primeiramente, quero falar um pouco da pesquisa¹, que alcançou cerca de 150 mil pessoas², distribuídas em 140 países, dentre eles, o Brasil. No decorrer de 2014, cada pessoa entrevistada respondia a quatro perguntas. Para aquelas e aqueles que quiserem medir o seu grau de alfabetização financeira, trago as respostas corretas ao final desse texto:

1. Suponha que você tenha algum dinheiro. É mais seguro aplicá-lo em único negócio ou investimento ou colocá-lo em múltiplos negócios ou investimentos?
A. Um negócio ou investimento
B. Múltiplos negócios ou investimentos
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

2. Suponha que nos próximos 10 anos os preços das coisas que você compra dobrem. Se a sua renda também dobrar, você será capaz de comprar menos, o mesmo ou mais do que você compra hoje?
A. Menos
B. O mesmo
C. Mais
D. Eu não sei

3. Suponha que você precise tomar um empréstimo de R$ 100,00. Qual é o menor valor a devolver: R$ 105,00 ou R$ 100,00 + 3%?
A. R$ 105,00
B. R$ 100,00 + 3%
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

4. Suponha que você invista dinheiro no banco por dois anos e o banco concorde em depositar 15% por ano na sua conta. O banco irá depositar mais dinheiro no segundo ano em relação ao primeiro ano, ou ele irá depositar o mesmo montante nos dois anos?
A. Mais
B. O mesmo
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

Mas o que significa ser alfabetizado financeiramente?

Para os organizadores da pesquisa, “alfabetização financeira é a capacidade que uma pessoa tem de entender como o dinheiro trabalha no mundo: como alguém consegue ganhar dinheiro, como essa pessoa gerencia seus recursos, investe ou faz doações para ajudar o próximo”. Confesso que, num primeiro momento, o conceito de alfabetização financeira me incomodou. Mas, após alguma reflexão, passei a considerá-lo justo, desde que, fique claro que por ter gabaritado a pesquisa, uma pessoa pode, mesmo assim, não dispor de todos os elementos necessários para tomar a decisão mais acertada do ponto de vista financeiro.

Assim, não é meu intuito tratar aqui da alfabetização financeira de forma geral, mas sim abordar alguns aspectos relacionados à realidade brasileira, especialmente no que tange às mulheres. Por isso, trago os principais resultados da pesquisa para o Brasil!

Aqui, o índice de alfabetização financeira é baixo, em torno de 35%, quando consideramos mulheres e homens em conjunto. Isso quer dizer que, de 100 pessoas, somente 35 podem ser consideradas alfabetizadas financeiramente. Entretanto, esse mesmo índice cai para 29%, ao contemplar apenas mulheres, o que indica que estamos mais propensas a sofrer de lacunas quanto ao conhecimento sobre conceitos financeiros básicos. Você deve ter notado que o índice de alfabetização financeira das mulheres está abaixo da média brasileira. Essa conclusão é a mesma coisa que dizer que 41% dos homens adultos, no Brasil, são alfabetizados financeiramente. Acredite! A diferença entre os índices de mulheres e homens pode ser chamada de lacuna de gênero.

Essa lacuna é mais do que o dobro da existente em nível mundial. E pode estar relacionada a diversos aspectos, mas prefiro deixar isso para especialistas. A despeito disso, eu gostaria de chamar atenção para a importância de as mulheres começarem a se dedicar à organização da sua vida financeira. E isso pode ser justificado por vários motivos. De forma resumida, e pensando apenas na situação brasileira, devo ressaltar ao menos três razões: mulheres vivem, em média, 7,2 anos a mais do que os homens³, mulheres representam somente 42,8% da população ocupada (4), apesar de serem a maioria na população com idade para trabalhar e mulheres ganham menos do que homens, independentemente do nível de instrução (5).

Particularmente, os pontos relacionados acima me preocupam muito. Eu explico o porquê. Antes de mais nada, e a fim de evitar distorções, eu acho muito bom ter a expectativa de passar mais tempo nesse mundo. Apesar de todos os desafios que precisamos enfrentar.

Contudo, do ponto de vista estritamente financeiro, viver mais requer uma necessidade maior de poupança, especialmente se quisermos manter nosso padrão de vida quando estivermos fora do mercado de trabalho.

Inevitavelmente, esse dia chegará. É possível ter uma velhice tranquila, acredite! Basta fazer um planejamento adequado. Como? Coloque a organização da sua vida financeira como uma prioridade. Eduque-se sobre o tema! E caso precise de ajuda, procure especialistas no assunto. Não fique refém das orientações dos gerentes do banco em que você possui conta corrente, pois estes, e sem querer generalizar, tendem a propor operações que são mais rentáveis para a instituição em que trabalham. Além disso, muitas vezes, os próprios gerentes carecem de informações precisas sobre os complexos produtos financeiros. Afinal, são tantos! Se tiver dúvidas sobre o negócio proposto, peça simulações, converse com pessoas próximas, consulte especialistas e conteste sempre que algo não fizer sentido. Investimentos com altos retornos jamais são livres de risco. Lembre-se dessa máxima!

Como já mencionei, nós, mulheres, somos a minoria no mercado de trabalho, apesar de sermos a maior parcela da população e passarmos mais tempo estudando. Essa situação está presente em todos os níveis empresariais. E piora na medida em que nos aproximamos das camadas de liderança. Estudo recente (6) indica que as mulheres representam 45% dos profissionais que entram nas empresas americanas. Entretanto, no nível executivo, em que as decisões estratégicas são tomadas, esse percentual cai para 17%. Fica evidente que a ascensão profissional das mulheres é bem mais difícil do que a dos homens.

O Brasil, infelizmente, está entre os dez países que possuem a pior proporção de mulheres ocupando posições na alta administração das empresas (7): apenas 15%. O impacto disso em nossa vida financeira é um pouco óbvio. Como as promoções nas carreiras são mais escassas para as mulheres, a tendência é que tenhamos poucos saltos na renda, o que restringe nossa capacidade de poupança. Nesse cenário, a disciplina torna-se primordial. Pois é, ainda preciso acrescentar que vivemos em um país desigual em termos de remuneração. As mulheres, mesmo executando tarefas idênticas às dos homens, recebem menos. Considerando as que têm ensino superior, recebemos em torno de 60% da remuneração paga aos homens (8).

Então, vamos traduzir isso em números para dar uma ideia do buraco. Imagine um homem com nível superior que trabalhe em uma empresa qualquer, recebendo R$ 3 mil por mês. Uma mulher formada, e realizando as mesmas tarefas, ganharia R$ 1.800. Se a diferença salarial fosse integralmente investida por cinco anos, a uma taxa de 8% ao ano (cerca de 30% acima do rendimento anual previsto na caderneta de poupança), o homem teria acumulado uma quantia superior a R$ 90 mil. Não me parece uma situação justa. E você? O que acha? Penso que as estatísticas apresentadas irão trazer um sentimento de indignação. Eu também passei por ele.

Revivi algumas situações desagradáveis. Inclusive, algumas delas só se revelaram agora, pois na época em que ocorreram, eu sequer tinha consciência da discriminação. Entretanto, acima de tudo, eu espero que as mulheres que esbarrarem com esse artigo coloquem o planejamento financeiro pessoal como uma prioridade em suas vidas. E, além disso, jamais se esqueçam de permanecer lutando por um mundo menos desigual!

Respostas: 1. B | 2. B | 3. B | 4.A

Todas as questões foram desenvolvidas com a finalidade de examinar conceitos financeiros básicos – aritmética, diversificação de risco, inflação e juros compostos. E, para ser considerada alfabetizada financeiramente, era necessário responder corretamente pelo menos três questões.

1. A pesquisa, conduzida pela Standard & Poor’s Ratings Services, contou com a contribuição das seguintes instituições: Gallup World Poll, Banco Mundial, McGraw Hill Financial Inc. e The George Washington University School of Business.
2. Selecionada aleatoriamente, a amostra da população compreendeu qualquer indivíduo com idade igual ou acima de 15 anos, desconsiderando soldados e prisioneiros.
3. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Tábua completa de mortalidade para o Brasil – 2015.
4. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – março de 2016.
5. OECD. Gender equality – julho de 2016.
6. Leanin.org e Mckinsey & Co. Women in the workplace – 2015.
7. GRANT THORNTON. Women in Business: the path to leadership. Grant Thornton International Business Report – 2015.
8. OECD. Gender equality – julho de 2016.

Renata Fontes é mestre em Administração de Empresas pela Universidade de Brasília, especialista em Estratégia Empresarial e economista. Fundou a Precisão | Consultoria Financeira em 2011.

Arte: Barry Falls.

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"Lute por seus direitos", diz ilustração da artista Debi Hasky

"Lute por seus direitos", diz ilustração da artista Debi Hasky
“Lute por seus direitos”, diz ilustração da artista Debi Hasky

Certa noite, Fernanda* chegou em casa e foi assediada no elevador do próprio prédio onde mora. “Gostosa, quanto é o programa?”, falou no seu ouvido um homem desconhecido se aproximando muito além do que ela gostaria. Ela reagiu com raiva e xingou o homem, que fugiu. Só que a portaria exige que todas as pessoas que entram no prédio deixem seus dados em um caderno. Fernanda, que é formada em Direito, recolheu os dados e foi até a delegacia mais próxima, a três quadras de onde mora. No caminho, passou por mais um assédio: três homens que cruzaram seu caminho tentaram se aproximar dela falando de sua aparência. Ao chegar na delegacia, um policial lhe atendeu de má vontade e registrou errado seu boletim de ocorrência, classificando o crime de injúria, como se ela tivesse se ofendido por ser confundida com uma prostituta, o que não foi o caso.

Fernanda buscou a ajuda das advogadas Ana Paula Braga e Marina Ruzzi, do escritório Braga & Ruzzi – Advocacia para mulheres, que retificaram o boletim para “importunação ofensiva ao pudor” (a tipificação mais próxima para o assédio de rua) e elas conseguiram uma audiência de conciliação entre a vítima e o agressor, parte de um programa de justiça restaurativa para casos de delito com pequeno potencial ofensivo, da cidade de São Paulo.

A audiência contou com a presença do agressor e seus advogados, da vítima e suas advogadas e de escrivão e delegado, que sugeriu resolver a questão com um pedido de desculpas. Fernanda não aceitou e explicou o motivo. “Ela estava preocupada que ele entendesse que ela havia ficado brava por ser confundida com uma prostituta como se isso diminuísse a prostituta, e não era essa a questão”, explica Ana Paula. A questão, obviamente, era sobre os homens se acharem no direito de invadir o espaço pessoal e dizer o que quiserem a respeito da aparência de uma mulher sem a menor abertura para isso. “Eu quero que você aprenda a respeitar a mulher e pare com esse tipo de atitude porque isso amedronta, intimida, constrange, isso não é cantada”, disse Fernanda, segundo suas advogadas.

Marina e Ana Paula sugeriram resolver o ocorrido com uma doação para uma ONG voltada para as mulheres, e a Think Olga foi escolhida por causa da campanha Chega de Fiu Fiu

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“Fernanda ficou muito feliz com a ideia porque ela mesma. tomou consciência do que é o assédio por causa da campanha Chega de Fiu Fiu. Justamente por causa da campanha ela decidiu levar a queixa adiante, porque sabia que o assédio não é algo natural”, conta Marina.

O agressor aceitou a proposta e assinou um termo se comprometendo a não cometer assédio mais uma vez, caso contrário, será aberto um processo contra ele. “Se ele fosse condenado, o dinheiro iria para o estado, para o fundo penitenciário. E, dessa forma, ele é revertido para a própria causa, o que é muito melhor”, diz Ana Paula. E nós da Think Olga ficamos muito felizes com o reconhecimento!

Se você foi vítima de assédio de rua, as advogadas sugerem fazer um boletim de ocorrência, mesmo que você não tenha os dados do agressor, já que o BO pode ser útil para fins de estatística, para que instituições acessem esse número e façam campanhas a respeito. “Por mais que não tenhamos os dados do agressor, quanto mais criarmos essa cultura de denúncia, mais isso será encarado como é, um crime”, diz Ana Paula. “E até para o homem parar de achar que é dono do nosso corpo, porque muitos acham que podem chegar e invadir nossa intimidade, nosso corpo e tudo bem”, completa Marina.

Caso você tenha os dados, o ideal é fazer uma denúncia. A pedido da Think Olga, a Braga & Ruzzi – Advocacia para mulheres fez um dossiê sobre o assédio de rua no Direito brasileiro. Confira:

As “cantadas” na lei brasileira

Nós não temos ainda no Brasil um crime que corresponda às “cantadas” de rua. A figura penal que mais se aproxima não chega a ser crime, mas contravenção penal (que é um delito de menor potencial ofensivo, com penas muito baixas) de importunação ofensiva ao pudor.

Art. 61 da Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei n. 3688/1941):
Importunar alguem, em lugar público ou acessível ao público, de modo ofensivo ao pudor
Pena: multa “de duzentos mil réis a dois contos de réis”.

Dependendo do modo como se der essa “cantada”, pode ainda configurar ato obsceno. Por exemplo, se o agressor mostrar as partes íntimas ou simular masturbação, sexo oral e outros.

Já essa atitude é considerada como crime, e está prevista no Código Penal:

Art. 233 – Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:
Pena: detenção de três meses a um ano ou multa.

Entre as condutas possíveis, a mais grave é a do crime de estupro, que pode se configurar caso venha a ocorrer toque de partes íntimas ou seios da mulher ou beijo à força.

Art. 213 do Código Penal: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso:
Pena: reclusão, de seis a dez anos.

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O que fazer em um caso de assédio?

Uma mulher que foi assediada sexualmente pode registrar boletim de ocorrência em qualquer delegacia de polícia (preferencialmente uma delegacia da mulher). Embora não seja obrigatório estar acompanhada de advogada, aconselhamos fortemente, pois sabemos que o ambiente de delegacia tende a ser altamente revitimizador. Principalmente nesse tipo de caso, que, infelizmente, ainda é visto como algo de pouca importância pela sociedade e que ainda é confundido com “cantada” ou elogio.

O delegado é obrigado a registrar o boletim de ocorrência e, se não o fizer, cabe denúncia à Corregedoria de Polícia – confira o Pergunte a Ela sobre o que fazer caso a autoridade policial se recuse a registrar a ocorrência.

Na hora do registro, é importante estar atenta ao crime que está sendo anotado. É comum que, pela falta de preparo para lidar com este tipo de crime, a conduta seja registrada como “injúria” (que é o ato de ofender alguém). O problema disso é que a injúria é um crime de ação penal privada, ou seja, caberia à mulher contratar uma advogada e mover sozinha uma ação contra o agressor. Já os tipos descritos acima (importunação ofensiva ao pudor, ato obsceno e estupro) são de ação pública, ou seja, é o Estado quem investiga e processa o autor do crime. Apenas para o caso de estupro é preciso que a mulher deixe expressa a sua vontade de processar o agressor. Para os demais, basta o boletim de ocorrência para que isso ocorra.

Os dois grandes problemas na verdade são:

1) Nesse tipo de crime é difícil saber quem é o autor. Raramente a mulher consegue pegar os dados da pessoa que a assediou, o que dificulta que realmente ocorra alguma investigação e processo penal. De toda forma, achamos válido o registro da ocorrência até para fins de estatística, o que pode pautar políticas públicas e até mesmo edição de leis mais firmes sobre o assunto. Além de que esse tipo de atitude tem um peso político na própria instituição da polícia que, ao se deparar com aumento de demanda dessa espécie, se tornará cada vez mais preparado para lidar com ela.

2) Quando a mulher consegue os dados do agressor, é difícil que tenha provas, o que pode impedir alguma condenação, visto que será a palavra dela contra a dele. Contudo, havendo audiência, é possível buscar algum acordo que traga para esta mulher algum tipo de reparação, seja uma indenização, seja uma doação revertida para alguma instituição, seja um pedido formal de desculpas e o reconhecimento da violência sofrida, com a assinatura de um termo comprometendo aquele agressor a nunca mais cometer este tipo de assédio, caso contrário, será reaberto o processo contra ele.

* Fernanda é um nome fictício usado para proteger a identidade da vítima.

Ilustração: Debi Hasky.

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Foi uma jornada e tanto. Em parceria com a ONU Mulheres e a Benfeitoria, chegamos ao fim de uma trajetória que nos aproximou de mulheres cujo potencial de mudar o mundo impressionou não apenas a nós, mas também aos 2462 apoiadores do canal Mulheres de Impacto. Foram R$ 235.377,00 arrecadados para os oito projetos financiados – R$ 253.227,00 se contarmos com as quatro iniciativas que não atingiram a meta, mas que continuam merecedoras todo apoio e admiração.

Desde o início, o objetivo do Mulheres de Impacto era o de criar meios para que mulheres inovadoras tirassem seus sonhos do papel. Foram 161 inscrições vindas de todo o Brasil – o que tornou o processo de decisão muito difícil, mas também prazeroso: tivemos que analisar quais ideias eram mais apropriadas dentro da proposta, enquanto nos encantávamos com a criatividade, o talento e as soluções trazidas por essas líderes das mais diferentes regiões e origens.

Apenas 12 foram selecionadas e o próximo passo foi o de preparar essas mulheres para a missão de uma campanha de financiamento coletivo. Trabalhamos individualmente com cada uma delas para que encontrássemos a melhor forma de formatar os seus projetos para angariar os fundos necessários para eles decolarem.

E esse foi apenas o começo para essas poderosas empreendedoras. Com o valor arrecadado, elas poderão dar continuidade ou o pontapé inicial em seus projetos transformadores. Para as fundadoras da AfrôBOX, os R$ 6.500,00 arrecadados da meta inicial vão garantir o investimento necessário nas caixas e envios do protótipo já testado, uma reserva de capital para o início das operações e a cobertura de  encargos financeiros e recompensas. Já o aplicativo Mete a Colher será 100% desenvolvido com os R$ 47.195,00 arrecadados.

“Fazer parte do Mulheres de Impacto é um maravilhoso desafio: acreditar em mim, empreender, buscar mudanças para a vida das mulheres, dar voz à um projeto feito coletivamente, saber que o Desabafa faz sentido”, explica Cris Lustosa, criadora do projeto que pretende mudar as cidades a partir de intervenções urbanas que incentivem as mulheres a falar sobre o assédio que sofrem cotidianamente. A iniciativa bateu a meta e arrecadou R$ 8.275,00, mas, para Cris, a alegria de participar ultrapassou os números: “Aprender que existem possibilidades de mudanças e que não estou sozinha, está sendo a maior das recompensas. Celebro cada momento em que me senti acompanhada nesse processo, e foram muitos, senão todos.”

A todos os benfeitores que investiram no Canal e nesse grupo maravilhoso de mulheres, o nosso muito obrigada. A recompensa para quem contribuiu, além daquela selecionada no momento do apoio, é saber que o valor recolhido durante a campanha vai transformar não somente a vida dessas líderes, mas também das incontáveis mulheres que serão impactadas pelo seu trabalho. Os oito projetos financiados serão implementados até o primeiro trimestre de 2017. Clique aqui para conhecer melhor e acompanhar cada um deles.


Arte: La Fille Bertha

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Não há dúvidas de que o aborto, quinto maior causador de mortes maternas no Brasil, é um problema grave de saúde pública. Há diferentes estimativas sobre quantas mulheres abortam no país — segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são um milhão de brasileiras por ano, enquanto dados oficiais do governo apontam 205.855 internações decorrentes de abortos no país, a maioria delas por interrupção induzida. De acordo com a ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, o número de abortos induzidos é de quatro a cinco vezes maior que o de internações, já que nem todas as mulheres recorrem a hospitais e o fazem na ilegalidade, muitas vezes colocando sua vida em risco.

O Código Penal brasileiro prevê prisão de um a três anos para quem interrompe a gravidez propositalmente, com três exceções: quando não há meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo. Mesmo quando legal, não é simples ter acesso ao procedimento e, legal ou não, mulheres continuam abortando em situações precárias que muitas vezes levam à morte. Como mudar essa realidade? “Há vários caminhos para alterar esse regime perverso de enquadramento do aborto, mas o mais simples deles é afastar as religiões das leis: nenhuma mulher será forçada a fazer um aborto contra sua vontade, mas um estado laico deve garantir as formas de proteção à saúde que estão a sua disposição. Descriminalizar é proteger a saúde; descriminalizar é permitir que cada mulher, na intimidade de suas escolhas, tome suas decisões”, afirma a antropóloga Débora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética Anis.

Por isso, a luta pela legalização do aborto também é uma luta feminista. Queremos ter o direito de decisão sobre nossos próprios corpos independentemente de dogmas religiosos ou morais, queremos ter o direito a um tratamento de saúde. Mas como nós, mulheres da sociedade civil, podemos colaborar com essa luta? Apontamos três maneiras iniciais de fazer algo a respeito:

1) Às ruas!

No final do ano passado, dezenas de milhares de mulheres foram às ruas protestar contra o projeto de lei 5.069/2013, de autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta a interrupção da gravidez mesmo em casos de estupro. O PL estabelece que os casos de estupro sejam obrigatoriamente notificados às autoridades e que as mulheres passem por um exame de corpo de delito. Protestar é importante porque mostramos que somos muitas, estamos unidas, e não vamos aceitar retrocessos.

2) Precisamos falar sobre aborto

Por ser um assunto tão tabu para a moral hegemônica, o aborto não é discutido abertamente como deveria. Muitas têm medo de serem julgadas ou até denunciadas ao falar sobre, mas uma em cada cinco mulheres já abortaram no Brasil. Ou seja, todo mundo conhece alguém que já abortou, mulheres comuns que se sentiram criminosas por não poder tomar uma decisão amparada pelo Estado. Falar sobre é importante para derrubar o mito de que aborto é algo que só “certas” mulheres fazem. “Vamos contar essas histórias de duas maneiras: rompendo a fantasia de que a mulher que aborto é uma outra distante da mulher comum, ela é a mulher comum, mas mostrando o como o aborto é um evento perturbador para as mulheres comuns pela ilegalidade. Precisamos falar mais do aborto como evento comum e retirá-lo dessa classificação ‘tabu’ imposta pelos homens para aumentar o pânico e controle. Aborto é um evento ordinário à vida reprodutiva das mulheres. Vergonhosa é sua criminalização”, afirma Debora.

3) Resistência

É inegável a manobra política e religiosa para transformar o aborto em uma questão moral. A começar pela pergunta “você é contra ou a favor do aborto?”: ninguém deve ser contra ou a favor de deixar pessoas tomarem decisões privadas sobre suas vidas seguindo sua religião ou não. A questão é: uma mulher que aborta deveria ser presa? Ou ainda: por que uma proteção à saúde da mulher é crime? “Temos que resistir, enfaticamente, às tentativas de transformar aborto em questão de opinião, pró ou contra, ou plebiscito. Nosso desafio é enquadrar o aborto em outros termos: queremos falar de mulheres, não de quando a vida humana tem início; queremos falar de tortura psicológica contra as mulheres, e não se a adoção deveria ser um dever; queremos falar de patriarcado, e não de religiões”, diz Débora. Você pode considerar errado uma mulher abortar e mesmo assim ser a favor da descriminalização do aborto para salvar vidas. O debate sobre o tema não exige respostas prontas e opinião formada sobre o início da vida ou sobre o aborto em si, já que a decisão pelo aborto é individual e íntima sem fórmulas sobre certo ou errado. Fato é que um estado democrático e laico deveria prover cuidados de saúde das mulheres e isso envolve disponibilizar o acesso ao aborto seguro a todas.

Quanto às enquetes do Senado, Débora acredita que é importante reagir e votar, mas que não é um agendamento feminista porque não é uma multidão que deveria decidir a vida privada de alguém. O que devemos fazer é enquadrar a discussão da nossa maneira e não transformar essas perguntas em enquetes, mas fazer delas agendas políticas para o feminismo. Vamos?


Arte: Victoria Pacimeo

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Há muita nebulosidade em torno do tema aborto. Muitas pessoas nem sequer o reconhecem pelo nome: chamam de “desmenstruar” ou “tirar”. Ao mesmo tempo, é um assunto urgente relacionado à saúde da mulher e que provoca fortes reações entre os brasileiros — a enquete do Senado sobre a legalização do aborto é a terceira mais popular enquete do site. Aproveitando que estamos na semana do dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto (28 de setembro), a Anis – Instituto de Bioética, em parceria com a Think Olga, preparou um compilado com as perguntas mais comuns e importantes a respeito do assunto. Saiba mais:

O que é o aborto?

Aborto não é um termo simples de definir, porque ao mesmo tempo é um conceito médico, penal e também moral. Do ponto de vista médico, significa a interrupção de uma gestação. Por vezes, é um procedimento médico de tamanha importância que pode ser a única maneira de salvar a vida de uma mulher em risco — isso explica por que é uma necessidade de saúde e um cuidado médico.

Do ponto de vista legal, o aborto está definido no Código Penal, no título de crimes contra a pessoa e capítulo de crimes contra a vida. Ou seja, é em regra um crime, a não ser nas três situações em que não é penalizado: se for a única maneira de salvar a vida da mulher, se a gestação for resultante de um estupro ou se o feto for diagnosticado com anencefalia. Do ponto de vista moral, é uma questão que causa intensa controvérsia, por ser definido por alguns códigos religiosos como um pecado ou uma grave ofensa a princípios de fé. Assim, não há uma resposta única para definir o que é aborto, depende de qual perspectiva você venha a assumir.

A partir de que momento podemos falar em gestação?

Não há um consenso sobre quando se pode falar em início de uma gestação. Em termos estritamente biológicos, a gestação para alguns tem início na fecundação, para outros tem início na nidação, quando esse conjunto de células se acomoda na parede do útero para se desenvolver. O que isso significa? Que a biologia tem diferentes estágios para dizer quando começa a gestação, e as várias respostas a essa pergunta não resolvem a discussão sobre proteção de direitos.

Qual é a diferença entre embrião e feto?

É uma diferença sobre estágios de desenvolvimento. A discussão sobre essa diferença foi um debate muito importante em um momento no Brasil em que se discutia sobre o uso de tecnologias reprodutivas, como fertilização in vitro, e pesquisas com células tronco. Embrião foi definido como o conjunto de células que se forma após a concepção, estágio que dura algumas semanas, após o qual passa a ser denominado feto, até o fim da gestação. Mas, novamente, não podemos confundir a definição biológica sobre fases de desenvolvimento celular e o debate sobre garantias de direitos, porque a biologia, com essas classificações, não responde às nossas maiores inquietações morais e legais sobre aborto.

A vida começa na concepção?

Essa não é uma discussão que a ciência responda. É verdade que na concepção há a individualização do desenvolvimento celular de um possível futuro organismo, mas esse fenômeno depende de uma atividade vital anterior, com o encontro de células que também estão vivas, como o óvulo e o espermatozóide. Ou seja, a biologia não nos fornece um marco que possa responder à controvérsia moral sobre o aborto.

Se formos buscar a resposta nas leis brasileiras, concluiremos que não, já que a Constituição Federal fala em proteger a vida, mas não fala que a vida começa na concepção. Tanto é assim que já existem hipóteses legais para realização de um aborto, que não são consideradas inconstitucionais. Mas é importante lembrar sempre que essa é uma resposta normativa para garantia de direitos: as pessoas são livres para acreditar que o desenvolvimento celular de uma futura pessoa possa começar na concepção, mas isso não nos permite conclusões sobre garantias jurídicas ou mesmo sobre a proibição do aborto.

Aborto é infanticídio?

Não. Há sentidos sociais e penais distintos para cada uma dessas práticas. Aborto é a interrupção de uma gestação, infanticídio é o homicídio de uma criança. No Código Penal hoje vigente no país, há diferenças ainda mais específicas: infanticídio não é o homicídio de qualquer criança nem por qualquer pessoa, é o crime cometido por uma mulher contra o próprio filho, durante o parto ou logo após. Já o aborto é criminalizado se for cometido pela própria grávida ou por outra pessoa, com ou sem o seu consentimento.

Quais são os tipos de aborto?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica dois métodos seguros: o aborto com medicamentos e o aborto por procedimento médico, realizado em unidades de saúde com equipamentos específicos. No Brasil, podemos dizer que há ainda um terceiro tipo, que é o aborto inseguro: aquele realizado pelas mulheres na ilegalidade, com medicamentos desconhecidos e de qualidade duvidosa, em clínicas ilegais ou ainda sozinhas com agulhas de crochê e outros meios precários e perigosos à sua vida.

O aborto é um procedimento seguro?

Sim, se realizado em condições legais e conforme as regras de cuidado em saúde. É um procedimento tão seguro que a Organização Mundial da Saúde reconhece que o aborto por medicamentos, nas primeiras semanas de gestação, pode ser realizado pela própria mulher, em casa, sem a presença de médicos ou enfermeiros. Quando realizado em uma unidade de saúde, recomenda-se repouso de apenas 30 minutos, após o qual a mulher pode voltar às suas atividades normais, caso se sinta bem para isso.

Como é o procedimento do aborto?

Depende da situação da mulher. Uma mulher que realize a interrupção da gestação no início, esteja bem de saúde, informada e esclarecida, pode fazer o aborto com medicamentos e sozinha, por via oral ou introduzindo na vagina doses repetidas do medicamento indicado. Caso suas condições de saúde não permitam, o mesmo procedimento pode ser realizado em uma unidade de saúde, com acompanhamento médico. Já no aborto por procedimento médico, se faz a retirada do conteúdo uterino com um pequeno aparelho de aspiração a vácuo, manejado por um médico.

Quais são os riscos do aborto?

De acordo com a OMS, para os procedimentos recomendados, complicações são extremamente raras e o risco de morte é insignificante. O principal risco do aborto é a ilegalidade: são as mulheres expostas aos métodos inseguros da clandestinidade que sofrem os maiores riscos.

Abortar dói?

Se realizado em condições seguras e conforme as recomendações da OMS, as dores que uma mulher pode enfrentar são semelhantes às dores da cólica menstrual, e podem ser amenizadas com o uso de analgésicos. Ou seja, não são dores muito diferentes daquelas que as mulheres já estão acostumadas em seu cotidiano. Mas é claro que a dor é dependente do acesso das mulheres à informação e aos métodos legais. Os métodos inseguros e clandestinos podem ser dolorosos e ameaçar a saúde.

Quantos abortos acontecem por ano no Brasil? É comum?

Sim, o aborto é um evento comum na vida reprodutiva das mulheres. Precisamos lembrar quem são aquelas que abortam: mulheres comuns, em geral casadas, que já têm filhos e declaram seguir uma fé cristã, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, desenvolvida pela Anis – Instituto de Bioética. E são milhares: 1 em cada 5 mulheres até os 40 anos no Brasil. Podem ser a irmã, a avó, a vizinha, a professora, a manicure ou a médica. E este é ainda um número subestimado, porque, em um contexto de criminalização, as mulheres ainda têm muitos motivos para mentir e omitir sua experiência de aborto em uma pesquisa. A certeza é de que é, sem dúvida, um fato comum.

O que acontece com a mulher após o aborto?

Se ela não for denunciada, nada. Ela pode talvez viver a vida amedrontada, porque a lei penal a ameaça com prisão de 1 a 3 anos caso seja descoberta. Mas nos países em que o aborto é legalizado, as mulheres simplesmente seguem com as suas vidas e suas decisões.

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Em que casos é permitido abortar?

Em três casos: caso seja a única maneira de salvar a vida da mulher, caso a mulher tenha engravidado em decorrência de um estupro ou caso a mulher esteja grávida de um feto com anencefalia.

É simples conseguir um aborto nos casos permitidos por lei?

O Censo do Aborto Legal, realizado pela Anis – Instituto de Bioética, mostrou que, em todo o país, existem apenas 37 serviços que realizam o aborto em caso de gravidez decorrente de estupro; 30 declararam realizar o aborto em caso de anencefalia e 27 declararam fazê-lo em caso de risco de morte para a mulher. Em 7 estados do país, não há nenhum serviço em atividade e em apenas 4 estados há serviços fora das capitais. Mesmo nas localidades onde há o serviço, as mulheres ainda enfrentam intensas barreiras morais e religiosas para serem atendidas. Por isso, não, não é simples conseguir um aborto nem mesmo nos casos permitidos em lei.

Uma mulher comete um crime ao dizer que fez um aborto?

Uma mulher não deve dizer que fez um aborto em público, porque ela corre o risco de ser denunciada. Dizer que cometeu um aborto é confessar um crime, o que pode gerar investigação policial e penal. O conselho é sempre que não se diga, a não ser que se faça uma ampla discussão e debate sobre o tema, em que várias mulheres decidam contar suas histórias como forma de resistência política.

O que significa legalizar o aborto?

Significa que as mulheres não vão para a cadeia por terem feito um aborto. Nenhuma mulher será obrigada a fazer um aborto caso o procedimento seja legalizado, mas aquelas que o fizerem não serão presas.

Por que o assunto é tão tabu?

Porque diz respeito ao controle da reprodução, ou seja, falar em aborto é falar sobre o controle das famílias, um tema que é central para muitas religiões, e por isso gera tanta controvérsia moral. Mas é importante lembrar que o aborto nem sempre foi condenado pela Igreja Católica, por exemplo. Da mesma maneira que o tema se transformou em tabu em um momento histórico, podemos também nos esforçar para colocá-lo em um outro tipo de debate: trazendo as mulheres e suas necessidades de saúde para o centro da discussão, e debatendo abertamente sobre direitos.

Por que o feminismo considera o aborto um direito da mulher?

Porque todo o processo que diz respeito à gravidez e ao parto ocorre nos corpos das mulheres. Assim, não há como não escutá-las sem fazer disso uma grave violação de direitos. Colocar a questão nesses termos é assumir que o debate sobre o aborto não é só uma demanda feminista, é uma demanda de quem quer que reconheça que as pessoas afetadas pelas leis devem fazer parte de sua formulação. Apenas uma mulher pode dizer sobre o que é tomar uma decisão tão íntima e crucial em sua vida, como a de gestar ou não um futuro filho. Não há outro caminho em uma democracia laica a não ser o de ouvir as mulheres nesse tema.

Por que as mulheres abortam?

As mulheres abortam porque em determinadas circunstâncias chegam à conclusão de que aquele não é o momento para uma gravidez e para um filho. Quando abortam, as mulheres sabem o que estão fazendo, elas tomam uma decisão baseada em suas necessidades e experiências. E nós sabemos quem são elas: são mulheres que já são mães e sabem o que é preciso para cuidar de uma criança, que são casadas e têm uma família, que acreditam em uma fé para decisões importantes da vida. As razões que essas mulheres enfrentam para decidir por um aborto são singulares e íntimas e só devem ser enfrentadas por elas mesmas.

Por que as mulheres ainda engravidam sem querer apesar da disposição de contraceptivos e camisinha?

Primeiro, porque os métodos falham. Segundo, porque se acredita que cabe apenas às mulheres e não aos homens planejar a reprodução, o que impede que o aprendizado sobre a prevenção seja conjunto e compartilhado. Terceiro, porque nem todas as mulheres têm acesso à informação e acesso aos métodos de contracepção. Quarto, porque quanto ao uso de métodos como a camisinha, as mulheres precisam negociar seu uso com os homens, o que é negado por muitos. Quinto, porque o uso de vários métodos exige uma disciplina a longo prazo que é muito difícil de ser mantida, especialmente se não falarmos sobre educação sexual nas escolas, com amplo acesso à informação e ao debate sobre sexualidade.

Por que não ter o filho e dar para adoção em vez de abortar?

Porque se a gravidez é obrigatória, se impõe que essa mulher experimente a barriga crescer, o corpo modificar e dar a luz, se constituindo socialmente como uma mulher que é mãe e que será questionada sobre a criança nascida. Não é possível conceber a mulher apenas como um repositório de gravidez: não é simples passar pela gestação de um futuro bebê que não se vai maternar, e essa pode ser uma experiência de intenso sofrimento às mulheres. Esse é mais um motivo pelo qual é preciso ouvir as mulheres se queremos falar sobre decisões reprodutivas.

Se o aborto for legalizado, as mulheres vão ser obrigadas a abortar?

Não. Pela legislação atual, as mulheres são obrigadas a manter uma gestação em quase qualquer circunstância, mas, se o aborto for legalizado, não haverá uma obrigação oposta. A única coisa que haverá é a possibilidade de escolher prosseguir ou não com a gestação, conforme o que se considere melhor para sua vida e saúde.

É verdade que, onde o aborto foi legalizado, a prática se tornou menos comum, ou seja, o número de abortos realizados caiu?

Sim, e por uma questão muito simples. Uma vez que o aborto é legalizado, as mulheres passam a ser atendidas na rede oficial de saúde e passam a poder ser melhor informadas sobre contraceptivos e planejamento familiar, que são procedimentos incluídos no procedimento de cuidado ao aborto. É no atendimento a essas mulheres que é possível conhecer melhor quais são as falhas da política de saúde para melhor corrigi-las, e assim atuar com mais eficácia na prevenção às gestações indesejadas, ao mesmo tempo em que não se deixa de garantir o aborto como um direito.

O que uma conversa sobre “ideologia de gênero” tem a ver com aborto?

Quem acredita que falar sobre sexualidade e gênero nas escolas é “ideologia” rejeita que se ensine adequadamente sobre reprodução, planejamento familiar, métodos contraceptivos, formas de combate à violência e prevenção a doenças ou gestações indesejadas. Falar sobre tudo isso é um dos caminhos para fazer com que o aborto seja um procedimento cada vez menos necessário, uma vez que se possa fazer uma forte aposta em acesso à informação e prevenção. Curiosamente, a conclusão lógica é que todos que defendem políticas eficazes para redução do número de abortos deveriam ser ferrenhos partidários da educação sexual nas escolas — o que é exatamente o contrário do debate que temos visto.

Arte: Camila Carlow

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Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô
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A Afrô no canal Mulheres de Impacto
A Afrô no canal Mulheres de Impacto

Em uma sociedade em que a beleza da mulher negra é continuamente ignorada ou rejeitada, reconstruir a autoestima e aprender a se achar linda pode ser um desafio. A melhor forma que Élida Aquino, Bárbara Vieira e Graucianna Santos — as mulheres por trás da Afrô — encontraram foi em comunidade, trabalhando a autoestima em grupo e apoiando uma à outra. Por isso elas criaram a Afrô, uma startup com base no Rio de Janeiro que oferece um clube de assinaturas a mulheres negras e mulheres não negras com cabelo crespo ou cacheado. A cada edição, as assinantes recebem em suas casas produtos de beleza personalizados de acordo com o cadastro na plataforma da Afrô. A startup está em campanha de financiamento coletivo no canal Mulheres de Impacto, da Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres até dia primeiro de outubro.

A ideia começou quando Élida Aquino cursou empreendedorismo na Universidade da Correria, uma iniciativa da Casa Dharma. Élida sabia que queria criar um negócio de estética voltado a mulheres negras, só não sabia como. Depois de trocar ideia com amigas que moram nos Estados Unidos e têm uma oferta mais ampla e direcionada de produtos de beleza para mulheres negras, teve a ideia de criar o Afrô. Funciona assim: a assinante cadastra seus dados na plataforma e a cada edição recebe uma caixa do clube de assinaturas, a Afrôbox, contendo de cinco a oito produtos, entre amostras, miniaturas e tamanhos reais. Os produtos serão selecionados de acordo com o perfil cadastrado, que traz dados como cor favorita, tipo de cabelo, tom de pele, etc. Assim, as assinantes poderão experimentar e evitar comprar um produto errado. “A Afrô, junto com curadores, seleciona marca, produto, verifica o perfil da assinante e coloca muito provavelmente o que ela vai curtir e testar dentro da casa dela. Além disso, a gente consegue colocá-la em contato com a marca pra ela dizer no pós-venda o que gostou e não gostou, um feedback que volta para a marca. Ela também pode pegar o que mais gostou e comprar com mais facilidade. Fazemos o contato entre quem não é interpelada pelo mercado e o mercado que está em constante desenvolvimento”, diz Élida, fundadora do Afrô.

Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô
Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô

A Afrô vem para preencher um gap no mercado de beleza: quando há produtos voltados para a mulher negra, a comunicação com essas mulheres é falha, e quando há comunicação, como em blogs ou páginas, não é oferecido o serviço de venda, seleção e/ou entrega de produtos. “Meninas com cabelos muito crespos, numa classificação comum do cabelo natural, ainda sentem dificuldade em se ver no rótulo porque esteticamente o mercado rejeita esse tipo de cabelo muito crespo que é socialmente reconhecido como duro, difícil, ruim. Sinto que as grandes marcas ainda têm dificuldade de quebrar com esse estereótipo. Da mesma forma as meninas com pigmentação muito escura, falando de maquiagem, não se veem no rótulo. Muitas raras vezes elas estão estampadas nas peças publicitárias ou nas ações de marketing das marcas”, afirma Élida.

Segundo uma pesquisa da revista Galileu do ano passado, em média, as marcas de beleza oferecem três vezes mais opções de maquiagem para pele branca do que para pele negra. E quando oferecem, muitas vezes não sabem como atingir o público, não sabem conversar com as mulheres negras. Foi o que aconteceu com uma amiga de Élida, que só usava uma base de uma marca específica que saiu de linha por falta de procura, segundo a própria marca. Mas a marca em questão não divulgava o produto para mulheres negras, mostrando despreparo e descaso do mercado em relação a essas mulheres. “A personalização, se preocupar minimamente em entregar o que interessa, o que é útil é o que a Afrô traz no DNA. Não estamos aqui pelo dinheiro, sabemos que há um potencial gigantesco e estamos prontas para assumir essa demanda, mas não estamos aqui para enriquecer, e sim servir porque é um dever, esse cuidado é quase inédito com as mulheres cujo grupo nós fazemos parte. Não queremos só entregar produtos, queremos também entregar carinho”, diz Élida. O Afrô continua em campanha de crowdfunding até outubro e você pode apoiar o projeto financeiramente ou compartilhando com seus amigos. Se você é uma mulher negra ou com cabelo afro e gostaria de compartilhar seus desejos ou frustrações em relação a produtos de beleza, a Afrô está de braços abertos e convida você a entrar em contato através da página ou site.

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Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro
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Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro
Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro

Certa vez, no metrô do Rio de Janeiro, a cientista social Cris Lustrosa foi abordada por uma mulher que acabara de sofrer um assédio no vagão. A mulher disse que precisava falar sobre aquilo, mas que ninguém queria ouvir. Cris ouviu. Depois do desabafo, o assediador continuava encarando a mulher e elas o enfrentaram juntas. A tensão virou alívio: desabafar fez toda a diferença. Depois disso, Cris teve a ideia de criar o Desabafa!, um projeto colaborativo com o objetivo de colar adesivos no espaço público em combate à cultura do estupro. O Desabafa! está em campanha de financiamento coletivo pelo canal Mulheres de Impacto, uma parceria entre Think Olga, Benfeitoria e ONU Mulheres até dia 2 de outubro.

A primeira ação do Desabafa! será fazer adesivos com a colaboração de todas as mulheres que quiserem participar com frases expondo o que elas acham que deveria ser dito sobre assédio de rua. “A ideia é escancarar o assédio mesmo, tentar falar sobre isso e combater a normalização do abuso. Às vezes escancaramos o assédio e depois volta a parecer algo banal, não podemos deixar isso acontecer. Se não falarmos, nada muda”, diz Cris Lustosa, criadora do projeto.

Dica: o projeto oferece uma série de recompensas legais para quem contribuir financeiramente
Dica: o projeto oferece uma série de recompensas legais para quem contribuir financeiramente

Serão três tipos de adesivos: marcador de estupro (mostrando onde uma mulher foi estuprada para deixar claro a todos que isso acontece o tempo inteiro), assédio (com o que deveria ser dito para quem assedia ou olha de forma inadequada para mulheres em espaços públicos) e sororidade (propondo a união de mulheres na luta contra o assédio). Os adesivos serão colados por mulheres em locais públicos e distribuídos em eventos feministas. “É importante falar para sabermos que não estamos sozinhas e também falar além de nós. Quando penso em adesivos, penso que estamos falando para o mundo, para homens e também para mulheres que às vezes não percebem que estão passando por isso, não atinaram que está errado. É um desabafo mesmo, dizendo que não queremos mais isso, não está legal”, afirma Cris.

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O Desabafa! Já alcançou mais de 60% de sua meta até agora, mas precisa alcançar os 100% caso contrário o dinheiro será desenvolvido e o projeto não será concretizado. Você pode contribuir financeiramente com a campanha, compartilhando a ideia com seus amigos ou ainda preenchendo este formulário. Confira o vídeo abaixo sobre o projeto:

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Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente
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O objetivo principal da Mãe Solo é desromantizar a maternidade
O objetivo principal da Mãe Solo é desromantizar a maternidade

“Ser mãe é padecer no paraíso”, “mãe dá conta de tudo”, “mãe guerreira”… Os mitos sobre a maternidade estão por todos os cantos reforçando a ideia de que é normal abrir mão de absolutamente tudo para ter um filho. Sem o apoio total da pessoa com quem a mãe gerou a criança isso pode ser solitário demais. Para ajudar outras mulheres — casadas ou não — que vivem a solidão de criar um filho ou uma filha, a designer Thaiz Leão criou a Mãe Solo, uma página no Facebook que questiona a romantização da maternidade com muito bom humor e em tirinhas. A Mãe Solo é um dos projetos do canal Mulheres de Impacto, uma parceria entre Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres, e está atualmente em campanha de financiamento coletivo para espalhar o conteúdo produzido por Thaiz a várias partes do país.

A Mãe Solo começou quando Thaiz resolveu usar sua experiência como desginer e ilustradora e sua paixão por HQ para desabafar sobre os desafios da maternidade. Postou uma tirinha despretenciosa em seu Facebook e acabou arrecadando várias curtidas e pedidos de “quero mais”. A fim de centralizar o conteúdo em um lugar só, criou uma página no Facebook que dois anos mais tarde virou uma comunidade de mais de 57 mil pessoas. “Era tanta hipocrisia que eu via em relação à maternidade, tanta ironia em relação aos comerciais, àquela ideia que a gente tem de criança bem comportadinha e que o amor de um filho paga tudo que no final da noite eu ficava pensando ‘não é possível’. Há muita imagem errada que a gente compra na vida e a da maternidade eu já estava vacinada”, conta Thaiz.

Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente
Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente

Em suas tirinhas, Thaiz questiona a romantização da maternidade e estimula reflexões sobre os papéis de mãe, pai e família. “Eu primo por construir um conteúdo independente, sempre crítico, sempre renovando essa visão problematizadora de fantasias que criam para a gente sobre a existência tanto em relação a padrão de beleza para mulher quanto padrão de comportamento de criança”, conta. Alguns de seus diferenciais é que ela faz isso com muito bom humor e através da arte, com suas ilustrações próprias. Mesmo com desenhos fofos e uma política de empatia que promove o diálogo e se dispõe a criar conexões entre as pessoas, a Mãe Solo também briga quando precisa e sabe falar sério. “A minha política é de quebra. Quero que todo mundo entenda que cada um vive sua individualidade e deve ser respeitado dentro dela, a convivência só é possível quando existir empatia em relação uns aos outros”, diz Thaiz.

Thaiz precisa se dividir em cinco turnos diários para conseguir pagar as contas, cuidar do filho e tocar o projeto, mas diz que os comentários de outras mães agradecendo pelo conteúdo e dizendo que aquilo lhes deu força são o que a mantém trabalhando. Para ela, o importante é questionar a romantização da maternidade e fazer as pessoas pensarem a respeito da sobrecarga de mães que sozinhas ou acompanhadas precisam dar conta não só de sobreviver e criar um filho mas corresponder a padrões impossíveis da sociedade. “Existir como mãe do jeito que nos cobram existir hoje é muito difícil, é um papel inalcançável. Chega de falar que mãe é multitarefa, que mãe dá conta de tudo, eu só vejo mulher ficando louca nessa pressão. Toda supermãe é uma mulher sobrecarregada que poderia estar investindo a energia que tem enquanto ser humano em muitas coisas”, diz Thaiz.

A Mãe Solo acabou de atingir a primeira meta do crowdfunding, garantindo a impressão de 2 mil exemplares do livro Chora Lombar e a construção do portal do projeto. Mesmo assim a arrecadação continua até dia 16 de setembro rumo às próximas metas. Se a segunda meta for batida, a ideia é comprar equipamento para mais produção de conteúdo e fazer uma tiragem especial de mil livros extras para doação em maternidades, casas de parto públicas e em ONGs. Se você gostou do projeto, pode ajudá-lo financeiramente ou compartilhando a ideia com seus amigos.

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Meninas treinam durante atividades da Longarina
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Participantes das aulas de surf da Longarina
Participantes das aulas de surf da Longarina

Duas paulistanas que amavam o mar, mas não tinham amigas para acompanhá-las no surf. Uma descia para Baleia, a outra para Maresias. Os vizinhos surfavam e elas também queriam aprender, mas nenhuma amiga tinha o mesmo interesse. Cristiane Brosso acabou se mudando para a Austrália e lá aprendeu a surfar sozinha. Também sozinha, apesar da companhia do ex-namorado, Vanessa Bertelli comprou uma prancha e aprendeu na raça a surfar enquanto o ex pegava suas ondas lá longe. Anos mais tarde, as duas se encontraram e montaram a Longarina, uma organização que empodera mulheres através do surfe, para que outras meninas não passem pelo mesmo e possam aprender a pegar ondas juntas. Agora, elas querem montar um espaço para receber meninas do Brasil inteiro e dar aulas de surf, além de realizar atividades em grupo como yoga, aulas de alimentação saudável e troca de experiências sobre ser mulher. Para isso, a Casa Longarina está em campanha de financiamento coletivo através do canal Mulheres de Impacto, uma parceria da Benfeitoria com a Think Olga e a ONU Mulheres, até a semana que vem.

Longarina oferece conteúdo e atividades para meninas interessadas no surf
Longarina oferece conteúdo e atividades para meninas interessadas no surf

O Longarina começou há pouco mais de três anos como um canal de disseminação de conteúdo sobre o surf direcionado para mulheres. Hoje, conta com um alcance de 1,5 milhões de leitoras nas redes sociais e 40 mil acessos por mês no site, além de ter atingido 500 mulheres presencialmente com aulas de surfe. “O Longarina é um macro projeto que surgiu da necessidade de comunicar para outras meninas o que a gente não encontrava dentro do universo dos esportes de prancha. Percebemos que só escrever não era suficiente, então começamos atividades porque era preciso ensinar o caminho das pedras. Fizemos eventos e reuniões com as meninas para levá-las a prática do surf e foi o que deu mais liga”, conta Vanessa, uma das criadoras do projeto.

Meninas treinam durante atividades da Longarina
Meninas treinam durante atividades da Longarina

Além do conteúdo, hoje a Longarina organiza a logística para levar meninas até Maresias, onde ganham aulas de surf. Há dois tipos de atividade: bate e volta, quando as meninas regressam no mesmo dia, ou acampamento, quando elas permanecem durante o final de semana e recebem aulas também de yoga, exercício funcional, alimentação saudável e cultura surf. Com a casa, será possível oferecer uma estrutura com aulas, equipamentos, alimentação saudável, orientação física, cobertura audiovisual, cultura surf , projetos socioambientais e oficinas de life coach focadas no bem estar e empoderamento da mulher, inclusive o das meninas estudantes da rede pública local de Maresias. “Ainda hoje sentimos uma certa resistência masculina no mar e por esse motivo nos unimos cada vez mais para quebrar isso. Muitas atletas acabam não sendo patrocinadas por não terem a imagem de modelo. Muitas meninas nos escrevem com medo de mostrar o próprio corpo na aula, mas sempre incentivamos e dizemos que a grandiosidade do surfe é muito maior, na hora você nem pensa no seu corpo, você só quer saber de pegar onda”, afirma Vanessa.

A Casa Longarina está na fase final de crowdfunding e, se você se interessou pelo projeto, pode apoiá-lo financeiramente ou compartilhando a ideia com seus amigos. Confira abaixo alguns vídeos do projeto:

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