MulheresInspiradoras
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MulheresInspiradoras

O ano vem chegando ao fim e nós da Think Olga estamos com a sensação de dever cumprido: o de reconhecer e divulgar os trabalhos de mulheres inspiradoras em todo o Brasil. É igualmente um prazer reunir mais de 200 nomes nesta Lista de Mulheres Inspiradoras que tanto nos representam e nos orgulham. Publicamos a edição de 2017 com a esperança de que a lista possa ser um suspiro merecido neste ano desafiador, em que as mulheres, mais uma vez, revisitaram traumas causados por violência de gênero enquanto seguem desprotegidas de um governo conservador que quer reduzir ainda mais seus direitos sexuais e reprodutivos.

Não nos atrevemos a premiar ou classificar o trabalho das mulheres selecionadas, tampouco a assumir a tarefa – felizmente difícil – de citar todas as mulheres que inspiram coletivamente. Mas convidamos nossas leitoras, que são a principal inspiração para nossa luta diária, a conhecerem os nomes nessa lista, traduzidos não somente pela  pesquisa da jornalista da Think Olga Karoline Gomes, como também pelas colaboradoras Nana Soares, que trouxe seu vasto conhecimento em cultura pop; Marina Colerato, que contribuiu com seu conhecimento sobre meio ambiente e veganismo e Jéssica Ipólito que, pelo segundo ano consecutivo, nos apresenta mulheres incríveis que conheceu fora do eixo RJ-SP Brasil.

Das leitoras às colaboradoras, das apoiadoras às mulheres aqui listadas, deixamos o nosso muito obrigada e votos de força e sucesso em 2018!

* Os nomes são separados por categorias e em ordem alfabética.

Ativismo & cidadania:

Adriana Galvão e Márcia Rocha – Adriana é a presidente da comissão de diversidade sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e, depois de lutar por quatro anos, conseguiu, em 2017, a liberação nacional do uso do nome social por parte de advogadas e advogados transexuais a fim de garantir que estes profissionais sejam tratados com respeito e humanidade ao exercer a profissão. Depois da conquista, Adriana atua com outras instituições que querem implementar os mesmos direitos para profissionais de outras áreas. Também em São Paulo, Márcia Rocha foi a primeira profissional trans a conquistar o direito.  

Ana Lúcia Keunecke – Advogada de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e co-fundadora da ONG Mulher sem Violência, fez um relato sobre o estupro que sofreu durante um encontro marcado pelo aplicativo Tinder, em sua própria casa. Com sua história publicada na revista Marie Claire, Ana Lúcia, corajosamente, abriu um debate sobre cultura do estupro. Como ativista pelos direitos das mulheres, Ana Lúcia denunciou o Estado Brasileiro e seus parlamentares, por descumprimento de acordos internacionais que ferem a dignidade e liberdade das mulheres brasileiras, dos quais o Brasil é signatário.

Bartira Macedo de Miranda Santos – Bartira é, desde 1° de agosto, diretora da Faculdade de Direito, da Universidade Federal de Goiás. É a primeira mulher negra e nordestina a assumir o cargo, o que ela enfatizou em seu discurso de posse, ponderando a importância simbólica e política da sua nomeação. Bartira também defende um Direito atualizado ao século XXI, com foco na preservação de direitos humanos e das minorias.

Daniela Andrade – Analista de sistemas e membro do Grupo dos Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS), Daniela foi porta-voz da luta das mulheres trans no Brasil pelo direito da cirurgia de redesignação sexual. Sua participação no programa Estação Plural da TV Brasil, onde falou sobre esta e outras questões burocráticas para mulheres trans, também foi muito significativa para a comunidade e de conteúdo informativo valioso para o público em geral.

Dona Rosa e Raquel Carvalho – Quando saía de casa para prestar queixas na Delegacia da Mulher, Dona Rosa sofreu uma tentativa de feminicídio por parte do seu ex-marido, em Salvador, na Bahia, onde mora com a filha Raquel Carvalho. Ela levou seis facadas espalhadas pelo rosto, tórax e pescoço. Depois de passar pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Geral do Estado (HGE), Dona Rosa não desistiu da denúncia e acabou se tornando um símbolo de resistência. Além do apoio da filha, Raquel Carvalho, cuja história a Think Olga contou no documentário Chega de Fiu Fiu – O filme (a ser lançado em breve), Dona Rosa reuniu todo um movimento de mulheres negras, para acompanhá-la na audiência de seu caso, que se enquadra na Lei Maria da Penha, e cobrar justiça. O processo de Dona Rosa contra o ex-marido ainda corre na justiça.

Gordas em Cena – O ciclo de debates criado pelas ativistas anti-gordofobia Danubia Kessia Muniz, Flávia Nascimento, Milly Costa e Sandra Santos provocou o debate sobre gordofobia presentesnas relações raciais, relações de gênero e em outros marcadores sociais que se cruzam e colocam as pessoas gordas em determinados locais na sociedade. Durante todo mês de outubro, ocorreram discussões sobre gordofobia em suas mais variadas instâncias: conceito e prática, legislação, corpo político, infância, violência de gênero, maternidade, afetividade, mercado de trabalho, saúde, política, mulheres LBTs e transsexualidade, mídia e acessibilidade.

Hevellyn Pedroza – Hevellyn ficou conhecida de um jeito cruel: foi uma das “atrasadas no Enem” em 2015, ocasião em que passou mal e teve até que ser levada ao hospital. Ela faria a prova para conseguir uma bolsa de estudos no curso de Direito, que havia trancado por falta de condições financeiras. Mesmo não fazendo a prova, Hevellyn conseguiu o financiamento por outras vias e, hoje, no 5° semestre do curso, já sabe que quer se especializar em vítimas de cyberbullying. Neste ano, para que os estudantes evitassem a passar pelo que ela passou, no primeiro dia do Enem, Hevellyn formou um grupo de pessoas que foram às portas dos locais de prova para ajudar e incentivar quem estivesse atrasado, impedindo o acesso dos curiosos e das câmeras de TV.

Letícia Zenevich – A advogada brasileira de 28 anos trabalha para as ONGs Women on Waves (Mulheres nas Ondas), conhecida por fazer campanhas de barco para levar aborto a países onde o procedimento é proibido, e a Women on Web (Mulheres na Rede), um local seguro para obter informações e medicamentos para mulheres que querem abortar. Atua na Holanda respondendo e-mails e dúvidas jurídicas de mulheres que procuram ambas as instituições.

Maria de Lourdes da Conceição Alves (Cacique Pequena) – Primeira cacique mulher da comunidade Jenipapo-Kanindé, da aldeia Lagoa da Encantada, no interior do Ceará, figura expressiva na luta por  garantia do direitos à terra de seu povo ao lado dos Tapeba, Tremembém e Pitaguary. A Associação das Mulheres Indígenas Jenipapo-Kanindé é pioneira no Estado do Ceará por fomentar produção audiovisual etnográfica, em especial com temática indígena. A associação é responsável pela I e II Mostra Indígena de Filmes Etnográficos do Ceará, realizadas em Dezembro de 2015 e Abril de 2017. Além dos filmes exibidos na Mostra, com curadoria compartilhada, o povo Jenipapo-Kanindé organizou a formação de cineastas indígenas, que, no segundo ano do evento, também incluiu módulos em aldeias de etnias diferentes. Com essa ação, mulheres indígenas estão formando jovens cineastas, cujos aprendizados vêm de suas terras e seus familiares, fazendo com que as comunidades indígenas do Ceará se aproximem, se articulem e promovam a criação de redes colaborativas em cinema indígena e etnográfico.

#MexeucomUmaMexeuComTodas – Essa foi a reação das mulheres à denúncia de assédio sexual que a figurinista Su Tonani fez contra o ator Zé Mayer. Após o relato no blog #AgoraÉQueSãoElas, a figurinista foi desacreditada, demitida e processada pelo ator, que por enquanto encontra-se afastado da televisão. No mesmo dia da denúncia, as funcionárias da emissora vestiram a camisa contra o assédio, em um movimento que se disseminou para reafirmar que a culpa do assédio nunca é da vítima.  

Nara Baré – Francinara Soares Baré é amazonense, natural de São Gabriel da Cachoeira, e tornou-se a primeira mulher no comando da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a maior organização do tipo no Brasil, que abrange 60% da população indígena do país. Nara ingressou no movimento indígena enquanto cursava Administração na Universidade Estadual do Amazonas, que não concluiu para se dedicar à causa.

Pajé Zeneida Lima – Mantém à plenos pulmões a ONG Caruanas do Marajó Cultura Ecológica, na Ilha do Marajó, Pará. Desde 1999, o seu trabalho tem sido aprimorar a aproximação de crianças das comunidades com a cultura ancestral da região. Envolvendo ecologia, educação e cultura, o Instituto Caruanas hoje mantém uma escola de Ensino Fundamental no município de Soure, a “E.R.C Zeneida Lima de Araújo”, criada por meio de um convênio firmado com a Secretária Estadual da Educação, que possibilitou acesso à educação gratuita e de qualidade para cerca de 260 crianças do Marajó. Por ter uma história de vida repleta de encantos místicos, neste ano Zeneida foi tema de um longa-metragem dirigido por Tizuka Yamasaki, o registro em romance da vida de uma adolescente comum até se tornar pajé.

Patrícia Torrez – Advogada e integrante do Frente das Mulheres Migrantes, coletivo de mulheres imigrantes e brasileiras que reivindica maior equidade de gênero no contexto migratório, e coordenadora do coletivo Sí, Yo Puedo, movimento independente de acolhimento e orientação vocacional e profissional para imigrantes.

Rebeca Mendes Silva Leite – Estudante de 30 anos e mãe de dois filhos, Rebeca tornou-se símbolo da luta pela descriminalização do aborto no Brasil ao escrever uma carta aberta para a ministra do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal, Rosa Weber, pedindo o direito de interromper uma gravidez indesejada de forma legal e segura. A Anis – Instituto Bioética e o PSOL protocolaram uma ação no STF, para formalizar o pedido de Rebeca, que foi indeferido pelo STF. Inspiradas pela história de Rebeca, e, a fim de protegê-la da sociedade que julga e da justiça que criminaliza, divulgamos e fortalecemos seu nome e seu rosto por meio da hashtag #PelaVidadeRebeca. Rebeca, com apoio da Anis – Instituto Bioética e da ONG Profamilia Colombia, viajou para a Colômbia para participar de um evento onde falou sobre sua experiência de litígio no Brasil. No país, Rebeca aproveitou a oportunidade para realizar o seu aborto, uma vez que estava protegida pelas hipóteses de aborto legal colombianas.

Sônia Guajajara – Líder indígena e coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e coordenadora das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, subiu ao palco do Rock in Rio 2017, a convite da cantora Alicia Keys, para falar sobre os ataques à Amazônia e sobre a demarcação de terras indígenas na região.

Internacional:

Muzoon Almellehan – A ativista síria de 19 anos foi escolhida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) como sua embaixadora global. A nomeação de Muzoon é inédita: a primeira pessoa com status oficial de refugiado a se tornar um embaixador ou embaixadora do UNICEF. Muzoon fugiu do conflito na Síria com sua família em 2013, vivendo como refugiada por três anos na Jordânia, antes de se instalar no Reino Unido. Foi durante seus 18 meses no campo de Za’atari que começou a defender o acesso das crianças à educação, particularmente das meninas.

Saffiyah Khan – A ativista britânica ficou conhecida em 2017 por uma foto em que aparece confrontando um membro de um grupo de extrema-direita, durante um protesto contra imigrantes e refugiados em Birmingham, na Inglaterra. Na imagem que viralizou, o homem está visivelmente raivoso e Saffiyah responde com um sorriso. De acordo com a imprensa inglesa, no momento do clique Saffiyah impedia que o protestante gritasse com uma mulher usando hijab, se colocando entre os dois.

Ondjango Feminista – Mulheres angolanas se reuniram e fundaram o Odjango Feminista, coletivo autônomo de ativismo e educação em prol dos direitos humanos de todas as mulheres e meninas em Angola, lutando por uma agenda feminista transformadora, com focos estratégicos no combate à violência contra a mulher e pela garantia de saúde e direitos sexuais e reprodutivos, justiça econômica e exclusão social. Nas redes sociais, com o programa Vamos Falar, elas têm desempenhado um papel fundamental na difusão de opiniões feministas sobre atualidade e políticas analisadas por uma perspectiva feminista em que as mulheres tem sua vez e voz garantidas. O programa semanal  aborda vários temas que dizem respeito à sociedade, à economia e às mulheres. Ele é transmitido ao vivo, na página do facebook da Ondjango Feminista, todas às quartas-feiras, a partir das 15h (horário de Angola).

Women’s March – Em janeiro de 2017, as mulheres estadunidenses e residentes dos Estados Unidos marcharam em protesto à posse de Donald Trump, eleito presidente do país, por conta de seus discursos preconceituosos contra grupos minorizados e após ter sido acusado de assédio por diversas mulheres. As principais demandas pautadas na Marcha e, consequentemente, cobranças ao novo presidente foram as reformas nas leis de imigração, a garantia de saúde e direitos reprodutivos, os direitos para a população LGBTQ, igualdade racial, liberdade de religião e direitos dos trabalhadores.

Arte & Entretenimento:

Annie Gonzala – Annie é artista autônoma, especializada no grafite. Em seus murais, pinta as mulheres negras em sua beleza, força e seus amores, dizendo ser sua ferramenta para combater o racismo. Enquanto se firmava como artista, Annie descobriu um glaucoma em estágio avançado. Desde então, perdeu a visão de um olho e corre o risco de perder a do outro. Negra, lésbica, mãe e artista, não desistiu. Lançou a campanha “preciso de olhos para ser artista”, para arrecadar fundos para o tratamento. Conseguiu o valor necessário para o seu tratamento e em dezembro vai operar o olho.

Carol Duarte – A atriz fez sua estreia em novelas interpretando Ivan, um menino trans, em A Força do Querer, da Rede Globo. O personagem, que descobriu-se trans e fez a transição durante a trama da novela, trouxe a conversa sobre a transexualidade para o dia a dia, abordando, junto à identidade de gênero, questões como violência, aceitação e orientação sexual. Ao longo da novela, a atriz, que é lésbica, reiterou a importância de discutir o assunto e a esperança de que a visibilização do tema acarrete em menos violência. Atualmente, o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo.

Fernanda Grigolin – É artista visual, editora e pesquisadora doutoranda em Artes Visuais, na Unicamp. Por dez anos, foi ativista de movimentos sociais no Brasil e na América Latina. Esse ano lançou o projeto Arquivo 17, que parte do seu levantamento de pesquisa e documentação sobre o universo das pessoas trabalhadoras no Brasil no início do século XX, passando pela Primeira Grande Greve Operária, ocorrida em 1917. No campo expositivo, a artista privilegiou imagens de mulheres a partir de uma temporalidade feminista porque, apesar da Greve ter sido iniciada pelas pessoas do sexo feminino, há uma ausência imagética dessas mulheres, tanto nos contextos de rua quanto de reuniões daquela época.

Helen Salomão – Helen Salomão encanta e emociona com sua capacidade de registrar detalhes, cores, texturas e movimentos por meio da fotopoesia, como ela mesma descreve. Recentemente, Helen lançou o projeto Casa Corpo Pele Parede, que conta vivências de diferentes mulheres através do corpo, experiências marcadas na pele. Atualmente, a jovem fotógrafa mora em São Paulo e acompanha o trabalho da cantora Ellen Oléria. Esse ano, ela foi responsável pela beleza fotográfica no clipe da música Baiana, do rapper Emicida, além de outros trabalhos na área.

Karlla Girotto – Artista, professora e pesquisadora nas áreas de artes visuais e subjetividade, e Mestre em Psicologia Clínica, pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade PUC/SP, tem como principais eixos de pesquisa: modos de existência, como produção artística, linguagens artísticas híbridas e processos de criação e produção de subjetividades. Coordena o grupo de pesquisa e propostas estéticas G>E que gerou o projeto Ateliê Vivo no qual é colaboradora.

Laura CardosoUma das maiores atrizes do Brasil, Laura foi a primeira homenageada em pelo projeto Ocupação, do Itaú Cultural, em São Paulo, entre fevereiro e abril de 2017. Laura também se pronunciou com a repercussão do caso José Mayer, cobrando punição por parte da Rede Globo e afirmando “sou feminista desde criancinha”.

Lellêzinha – A cantora e dançarina do grupo Dream Team do Passinho estreou como apresentadora do Multishow durante a transmissão do festival Rock in Rio. Ao lado do seu grupo, também subiu ao palco do show da cantora Alicia Keys para performar uma das músicas ao lado da cantora.  

Luisa Dorr – Luisa é a responsável pelas 46 capas da edição Firsts, da revista Time. A fotógrafa gaúcha de 28 anos foi convidada pela revista por causa de seu Instagram e fotografou a maior série de capas da publicação utilizando o Iphone, e não as convencionais câmeras fotográficas profissionais. Fotografou personalidades como Elle DeGeneres, Oprah Winfrey e Selena Gomez.

Maisa Silva – A apresentadora do SBT inspira meninas e mulheres com suas atitudes e não deixa os comentários machistas saírem vitoriosos. Em junho, um episódio chamou a atenção: foi assediada pelo também apresentador Dudu Camargo no programa de Silvio Santos – apenas por não querer ficar com ele. Nos dias que se seguiram, enquanto ele ganhou publicidade, ela foi ameaçada de ficar na “geladeira” da emissora, mas não se calou e continuou defendendo sua liberdade e direito de escolha de ficar (ou não) com quem quiser.

Preta Rara – Depois de viralizar na internet no ano passado com a campanha #EuEmpregadaDoméstica, a rapper Joyce Fernandes, que atende pelo nome de Preta Rara, estreou na apresentação da websérie Nossa Voz Ecoa, um programa de entrevistas feito para o YouTube, cuja premissa é dar voz à mulheres e negros.

Taís Araújo – A atriz brasileira tem se destacado nos últimos anos por sua política de combate ao racismo e à discriminação racial. Em 2017, a luta rendeu importantes reconhecimentos para a atriz: foi nomeada pela ONU como Defensora dos Direitos das Mulheres Negras e, junto a seu marido Lázaro Ramos, foi uma das vencedoras do prêmio Most Influential People of African Descent, em Nova York. Na mesma edição, também foram reconhecidas a cantora Beyoncé e a escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Taís também começou o trabalho como apresentadora no programa Saia Justa, da GNT, onde pauta questões pertinentes às mulheres negras.

Hub das Pretas – O projeto, que envolve diferentes organizações e coletivos de jovens negras atuantes no combate ao racismo e sexismo em quatro cidades brasileiras (Brasília, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo) lançou, em 2017, a websérie Sonho de Preta Conta. Viviane Ferreira é quem dirige a websérie, fazendo também o roteiro juntamente a Larissa Fulana de Tal, duas cineastas baianas expoentes do cenário brasileiro. A produção dessa websérie contou com muitas outras mãos femininas.

Internacional:

Brie Larson – Premiada com o Oscar de melhor atriz no ano passado, Brie seguiu o protocolo da premiação e apresentou a categoria de melhor ator no evento de 2017. Contudo, na ocasião, escolheu não aplaudir nem cumprimentar o ator vencedor, Casey Affleck, em sinal de protesto contra o fato de que a Academia premiou um homem acusado, em 2010, de violência sexual por duas mulheres da equipe do filme Eu Ainda Estou Aqui. Sem poder ir contra a influência de Affleck, as vítimas nunca conseguiram levar o caso aos tribunais e o ator nunca foi julgado.  

Elisabeth Moss – Eleita no Emmy Awards como a melhor atriz de drama de 2017, por sua atuação no papel principal da série The Handmaid’s Tale, O Conto da Aia em português, baseada no romance de Margaret Atwood.

Lena Waithe – Atriz e roteirista norte-americana. Em 2017, fez história ao se tornar a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de Melhor Roteiro de Comédia, por conta do episódio Thanksgiving, da segunda temporada da série Master of None. O episódio é baseado em suas experiências de se assumir publicamente como lésbica. Em seu discurso de aceitação do prêmio, Lena reforçou a importância da diversidade por trás das câmeras e mandou uma mensagem às pessoas LGBT: “As coisas que nos fazem diferentes são super poderes. Todos os dias, quando vocês saírem de casa, ponham suas capas imaginárias e conquistem o mundo. Ele não seria tão bonito se nós não estivéssemos nele”.

Meryl Streep – Aos 67 anos a atriz americana recebeu o prêmio Cecil B. DeMille, entregue na cerimônia do Golden Globe, por realizações de sua carreira.

Octavia SpencerA atriz negra brilhou no cinema no ano de 2017, em Estrelas Além do Tempo, no papel de Dorothy Vaughn, e em A Cabana, no papel de Deus.

Tracee Ellis Ross – Em 2017, Tracee tornou-se a primeira mulher negra em 35 anos a ser premiada com um Golden Globe de melhor atriz de comédia. Ela também recebeu o NAACP Image Award na mesma categoria. Ambos os prêmios foram atribuídos à atriz de 44 anos por seu trabalho na série Black-ish.

Yoko Ono – A exposição O Céu Ainda é Azul, Você Sabe percorreu os quatro cantos do mundo em 2017, incluindo o Brasil. Além de convidar o espectador para participar de suas peças super interativas, Yoko também usou a mostra para falar sobre violência de gênero. Também em 2017, aos 84 anos, Yoko conquistou os direitos sobre a música Imagine, cuja autoria fora atribuída somente ao seu falecido marido, John Lennon, por 46 anos. A National Music Publishers Association fez uma cerimônia em honraria a Yoko para oficializar a documentação da música.

Ciência & Tecnologia:

Débora EmmUma das idealizadoras do Mappa, site que faz consultoria personalizada de conhecimento, oferecendo ao leitor artigos, filmes, documentários, livros, palestras, músicas, reportagens e podcasts online e gratuito sobre os assuntos que gostariam de aprender.

Evelyn Mendes – A fim de promover igualdade de gênero na área da Tecnologia da Informação, a analista e desenvolvedora Evelyn Mendes trabalha para ensinar mulheres a construírem seus próprios sites e as incentiva a adentrar neste mundo. Natural de Porto Alegre, Evelyn viaja todo o Brasil palestrando sobre Java Script, PHP, SQL, Asp.Net, Ruby e outras terminologias técnicas, além de sempre levar um recorte de gênero em suas falas. Em setembro deste ano, depois de sua palestra na BrazilJS, um dos principais eventos de javascript do mundo, Evelyn passou a receber ataques machistas e transfóbicos via redes sociais e e-mail, incluindo ameaças de morte, por parte de alguns participantes. Ela agora enfrenta, publicamente, uma batalha judicial para punir seus agressores.  

Fernanda Werneck – Aos 35 anos, a cientista goiana é a mais jovem  vencedora do prêmio Para Mulheres na Ciência (uma versão nacional do International Rising Talents), por seu trabalho sobre impacto do aquecimento global na vida animal. Fernanda é doutora em Biologia Integrativa, pela Brigham Young University (EUA), mestre em Ecologia, pela UNB e ex-bolsista do Jovens Talentos, do programa do governo Ciência Sem Fronteiras. Atualmente trabalha como pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Jaqueline Venturim – Jaqueline Venturim criou, em Março, o EmpoderaMarta, iniciativa que tem como objetivo empoderar as mulheres de mais de 50 anos através da tecnologia, com cursos, tira-dúvidas e outras ações. Em agosto, a iniciativa foi uma das selecionadas para representar o Brasil no #eSkills4Girls, desafio em Berlim, na Alemanha, que uniu startups, ONGs e outros atores de fomento às mulheres na tecnologia.

Joana D’Arc Felix de Souza – PhD em química, pela renomada Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, Joana já chegou a passar fome para se formar cientista, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Hoje, ela soma 56 prêmios na carreira. Desde 2008, ela também é professora da Escola Técnica Estadual (ETEC) Prof. Carmelino Corrêa Júnior, mais conhecida como Escola Agrícola de Franca, cidade do interior de São Paulo, e molda novas gerações a seguirem sua trajetória inspiradora. Juntamente com uma equipe de alunos de Franca, Joana conseguiu desenvolver uma pele similar à humana, a partir da derme de porcos, o que pode ajudar no abastecimento de bancos de pele especializados e de hospitais. O projeto foi exposto no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro), como parte da mostra “Inovanças – Criações à Brasileira”.

Nadia Ayad – Recém-formada em Engenharia de Materiais, pelo IME (Instituto Militar de Engenharia), Nadia venceu o Desafio do Grafeno, concurso mundial promovido pela Sandvik (empresa sueca renomada pelo trabalho de Engenharia), em que propôs a utilização de grafeno – um material a base de carbono, 200 vezes mais resistente que o aço e considerado o melhor condutor térmico e elétrico do mundo – em um dispositivo de filtragem e sistema de dessalinização para fornecer água potável para residências.

Natália Oliveira – Natália Oliveira é doutora em Biologia, pela Universidade Federal de Pernambuco, e criou o biosensor, um aparelho do tamanho de um chip que pode trazer mais precisão à detecção de sangue, esperma ou outros fluidos corporais em cenas de crime. Natália se destacou por ter explicado seu doutorado em dança, em um vídeo que ganhou duas categorias em um concurso da revista Science, maior publicação científica do mundo e que desafia pesquisadores de todas as áreas a contar suas descobertas de uma maneira diferente. O vídeo de Natália ganhou pelo voto popular e pelo júri técnico, na categoria Química.

As mulheres do Nossas.org – A ONG lançou, em setembro, a Beta, um robô “feminista até o último código”, que envia, por meio de mensagem privada no Facebook, atualizações sobre ações políticas sobre direitos das mulheres. A Beta chegou para pautar questões de direitos das mulheres e feminismo na internet, incidindo nos políticos e gestores responsáveis por leis ou projetos que coloquem os direitos das mulheres em jogo. Foi uma resposta a uma tecnologia já usada pelos políticos, mas agora como arma da população civil.

Themis – A ONG lançou o aplicativo Laudelina, que funciona como um guia sobre os direitos trabalhistas para domésticas, assegurando as trabalhadoras dessa categoria tenham consciência de seus direitos. Dividido em itens como salários, benefícios e valores da rescisão contratual, o aplicativo começou a ser desenvolvido depois da participação da Themis no Desafio de Impacto Social Google 2016.

Internacional:

Jeanette Epps – Ph.D em Engenharia Aeroespacial, pela Universidade de Maryland, Jeanette será a primeira mulher negra a ser enviada para a  Estação Espacial Internacional (ISS),  pela NASA. A jornada dela começará em 2018.

Katherine Johnson – A matemática fez parte da equipe de “computadores humanos” da Nasa, na época da segregação nos Estados Unidos,. Mais de 50 anos depois, ela, Mary Jackson e Dorothy Vaughan, engenheira e mecânica respectivamente, que trabalharam com Katherine na NAA, tiveram suas histórias contadas no filme Estrelas Além do Tempo. O filme mostra a participação das três mulheres na missão de sucesso da Nasa que levou o homem americano ao espaço e, posteriormente à lua, no filme.

Mother Nature needs her daughters – O programa da Homeward Bound reuniu o maior grupo de cientistas a trabalhar em conjunto na Antártica, todas mulheres. São 76 especialistas, na faixa de 25 e 65 anos, entre cientistas, biólogas marinhas e médicas, trabalhado juntas durante todo o ano.

Peggy Whitson – Considerada a primeira mulher a comandar a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), a astronauta dos EUA a mais velha a ir ao espaço e, mais recentemente, a mulher americana a passar mais tempo fora da Terra. No início de dezembro de 2017, Peggy completou 365 dias no espaço.

Sabrina Pasterski – A cientista graduada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) com a maior pontuação possível está sendo reconhecida em seu campo de atuação como a “nova Einstein“. Para sua candidatura ao Ph.D em Harvard, Sabrina se propõe a esclarecer algumas das questões mais complexas e desafiadoras da Física: buracos negros, natureza da gravidade e o espaço-tempo.

Comunicação & audiovisual

Adélia SampaioA primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil. Em julho de 2017, o filme Amor Maldito, de 1984, que também é considerado o primeiro filme lésbico brasileiro, foi exibido novamente no Seminário Diversidades, da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Alice RiffA diretora acompanhou a rotina de quatro pessoas: o homem transexual Fernando Ribeiro e as mulheres transexuais Giu Nonato, Paula Beatriz e Linn da Quebrada. O resultado está  no documentário Meu Corpo é Político, que mostra, de um jeito sensível, a rotina de pessoas trans no Brasil. Fazem parte da narrativa desde os gestos banais dos personagens, como tomar banho, comer, esperar o ônibus, estudar, trabalhar, se divertir com os amigos até o contato dos personagens com o ambiente urbano e a transfobia encontrada no caminho.

Ananda Radhika e Jéssica Queiroz – Roteirista e diretora do Curta-metragem Peripatético, que retrata a vida de jovens moradores da periferia paulista em maio de 2006, durante ataques da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). O filme destaca a luta do movimento Mães de Maio, uma reação à violência contra inúmeros jovens negros assassinados durante o conflito e foi premiado com o melhor roteiro e prêmio do júri no Festival de Brasília (DF).

Antonia Pellegrino e Isabel Nascimento e Silva  – Antonia e Isabel são, respectivamente, roteirista e diretora do documentário #PrimaveraDasMulheres, lançado em outubro deste ano. O longa propõe-se a mostrar as diferentes vozes que compõem o feminismo no Brasil. Ou melhor, os feminismos, já que o movimento é formado por diferentes vertentes de mulheres das mais variadas origens, idades, sexualidades, raças e classes sociais. O documentário aborda diversos momentos do feminismo e tenta derrubar os mitos em torno do conceito, explicitando quais de fato são suas pautas.

Coletiva Luana Barbosa – A Coletiva (assim mesmo, no feminino) formada por nove mulheres lésbicas ou bissexuais, negras e periféricas lançou, em abril, o documentário Eu sou a próxima, que reúne relatos de agressões e mortes de mulheres lésbicas, especialmente as negras. O filme foi feito de maneira independente pela Coletiva para expor a vulnerabilidade deste grupo – inspirada pela história de Luana, que morreu por ser mulher, negra, lésbica e periférica. Compõem a Coletiva: Márcia Fábia, Jheniffer Santini, Lê Nor, Ariane Oliveira, Micheli Moreira, Liz Delon, Nanda Gomes, Re Alves e Ane Sarinara.

Estela Renner – Fundadora da Maria Farinha Filmes, dirigiu o documentário Repense o Elogio, que mostra como a palavra pode impactar a autoestima durante a infância. O filme, encomendado pela marca de cosméticos Avon, está disponível gratuitamente do YouTube.

Empoderadas – O projeto coordenada por uma equipe de audiovisual composta de mulheres negras nasceu como uma websérie, com o objetivo de ampliar a representação de mulheres negras, tanto diante quanto por trás das câmera, em todas as etapas de produção. Agora, o projeto se desenvolve para uma série educomunicativa, de formação audiovisual, e referência em questões de gênero com recorte étnico.

Joyce Prado – Além de brilhar na direção do clipe de Um Corpo no Mundo, da cantora Luedji Luna, Joyce Prado é fundadora da produtora Oxalá Produções e membro da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negrx (APAN).

Juliana Vicente – Produtora, diretora e fundadora da Preta Portê Filmes. Teve seu trabalho reconhecido em diversos festivais, como o curta Avós, no Festival de Berlim (2010), e Os Sapatos de Aristeu, no Festival de Clermont-Ferrand (2009), e Filme Para Poeta Cego (International Film Festival of Rotterdam de 2013), tendo recebido mais de 50 prêmios. Dirigiu o curta-metragem Cores e Botas e o documentário Leva. Produziu os longa-metragens Anna K., do artista José Roberto Aguilar, e Lili e as Libélulas, do roteirista e diretor René Guerra. Em 2017, passou a dirigir a nova série do Futura, Afronta!,  que narra os desafios e as inovações trazidas pela juventude negra no Brasil.

Leandra Leal – O documentário Divinas Divas, dirigido por Leandra, foi eleito melhor filme na categoria de votação popular do festival South by Southwest (SXSW), nos Estados Unidos. O filme já havia sido eleito o melhor filme na categoria voto popular no Festival do Rio e no Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, de João Pessoa, Espírito Santo.

Letícia Marques – Dirigiu o documentário Faça Você Mesma, que busca os desdobramentos do movimento punk e feminista riot grrrl e recria o histórico deste movimento com imagens de arquivo e entrevistas com diferentes mulheres que conviveram na cena punk desde a década de 90.

Nós, mulheres da Periferia – O coletivo formado por sete mulheres comunicadoras de São Paulo lançou, em 2017, o documentário Nós, Carolinas – vozes das mulheres da periferia, que conta a história de mulheres periféricas da cidade, entre 17 e 94 anos. Lançado em 8 de março, o filme ficou em exibição ao longo de todo o mês, contando as histórias das mulheres sistematicamente marginalizadas e ignoradas nos meios tradicionais de comunicação.  

Internacional:

Ellen Tejle – Ellen trabalhava coordenando salas de cinema em Estocolmo, na Suécia, onde nasceu, quando teve a ideia de aproveitar o seu dia a dia na casa para colar selos nos cartazes de filmes em exibição. Os adesivos apontavam quais filmes passavam no teste de Bechdel-Wallace, criado pela cartunista americana Alison Bechdel e que consiste em três requisitos para comprovar a representatividade (ou falta de) em personagens mulheres: ter ao menos duas mulheres com nomes, conversando entre si, sobre um assunto que não seja um homem. Cerca de quatro anos depois, o selo está em mais de dez países. Em 2017, Ellen esteve no Brasil para o Seminário Internacional Mulheres em Foco no Audiovisual e para oficializar o uso do selo por aqui.

Greta Gerwig – O filme Lady Bird, primeiro longa-metragem solo da carreira de Greta, tornou-se o filme mais bem avaliado da história do site Rotten Tomatoes, que agrega críticas de cinema. O filme atingiu o percentual de 100% de resenhas positivas e ultrapassou o recordista anterior, Toy Story 3. O roteiro acompanha Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma jovem mulher que vive um momento de amadurecimento em Sacramento, na Califórnia.

Guetty Felin – A primeira mulher a dirigir um filme no haiti levará seu Ayiti Mon Amour, um longa-metragem que retrata o luto desta nação após o terremoto de 2010, para o Oscar, como o primeiro filme a representar o país caribenho na categoria de melhor filme estrangeiro.

Loung Ung – A ativista de direitos humanos é autora do livro Primeiro Mataram meu Pai, uma autobiografia com detalhes sobre sua criação no Camboja, especialmente sobre a relação com seu pai, um oficial militar do governo anterior de Lon Nol e, principalmente sobre a fuga forçada da família quando o grupo Khmer Vermelho, governado pelo ditador Pol Pot, invadiu o país. Em 2013, participou do roteiro do filme Girl Rising, sobre nove garotas de diferentes partes do mundo que são apresentadas por nove cineastas diferentes, narrando, assim, a juventude das meninas do século 21. Em 2017, voltou ao cinema mas como protagonista. O livro que conta sua história foi adaptado para o cinema e dirigido por Angelina Jolie.

Lucrecia Martel – A cineasta foi indicada ao Oscar com seu novo filme ZAMA. Lucrecia Martel vem de um hiato de quase dez anos sem produzir filmes; contrariando as pressões para ela produzir em massa. Ela disse em entrevista que “não sou um produto. Faço as coisas quando tenho uma ideia. E leva-se muito tempo para ter uma. Não sinto que perdi minha vida nesse tempo”. Na sua mais recente produção, faz um retrato de época de colonização espanhola na América, em um tom de deslegitimação à ideia de que Brasil e Argentina possuem histórias opostas. Neste filme, Lucrecia aproxima os países e suas histórias e mostra que, quando juntos, a narrativa contada tem semelhanças que até hoje estão presentes nas sociedades.

Patty Jenkins – Diretora de cinema norte-americana. Foi a diretora de Mulher-Maravilha, que estreou em 2017, sendo o primeiro filme em 75 anos de história da super-heroína. O longa teve divulgação menor do que outros filmes da marca e enfrentou um tremendo backlash antes mesmo de chegar às telonas – tudo isso por ter uma protagonista mulher. No entanto, Mulher-Maravilha foi uma das principais estreias do ano e a maior bilheteria da história para filmes sobre a origem de super-heróis. O sucesso foi tanto que a sequência foi confirmada logo após a estreia, mais uma vez tendo Patty Jenkins como diretora.

Viola Davis –  Por sua performance no filme Um Limite Entre Nós, a atriz americana recebeu os principais prêmios de Atriz Coadjuvante da indústria: British Academy Awards (BAFTA), Sindicato dos Atores (SAG), Globo de Ouro e Oscar.

Empreendedorismo & Mercado de trabalho:

Ana Paula Fracasso e Julia Bedolo – As paulistas residentes no Rio de Janeiro são fundadoras da Mais Alma, primeiro e-commerce brasileiro dedicado a vender produtos de moda e decoração, feitos com preocupações socioambientais.

Andreia Prestes, Clarissa Cogo, Elaine Barbosa, Maria Antônia Goulart e Maura Santiago – As cariocas fundaram a Cervejaria Feminista. Além de produzir cervejas originais por mulheres e para mulheres, a marca homenageia ícones femininos de resistência.

Carol Mercedes – Uma das responsáveis por alavancar a primeira rede de restaurantes vegetarianos do Brasil, o Barão Natural, está por trás da empresa de sorvetes Da Sereia, primeira marca de sorvetes veganos do Brasil, que nasceu de maneira caseira e artesanal, mas rapidamente se profissionalizou e se espalhou pelo país em 2017. Antes de entrar no ramo da alimentação, Carol já empreendia no veganismo com a marca de roupas King 55. Ela também está por trás do Pop Vegan Food, restaurante que promove a alimentação vegana por meio de preços acessíveis e muito sabor.  

Egnalda Cortês – Mãe do youtuber PH Cortês, deixou o mundo corporativo para assessorar o filho em campanhas e trabalhos consequentes ao seus vídeos no YouTube. Hoje Egnalda administra a Côrtes Assessoria e Agenciamento, consultoria e agência de carreira de youtubers negros. A primeira neste segmento na América Latina.

Luísa Santiago – Líder da Ellen Macarthur Foundation Brasil, principal think-tank do mundo no tema da economia circular. Trabalhando com empresas, governos e academia, Luísa vem liderando os esforços para acelerar a transição do país para uma economia circular.

Luiza Helena Trajano – Fundadora e presidente da Magazine Luiza, uma das empresas brasileiras mais valiosas na bolsa de valores. Emprega mais de 10 mil mulheres e, em 2017, deu um passo importante para promover um ambiente mais igualitário e seguro para suas funcionárias: criou um disque-denúncia interno para denúncias de violência doméstica e familiar contra as funcionárias da empresa. A criação do disque-denúncia veio após o assassinato de Denise Neves dos Anjos, gerente de uma das lojas da rede, em Campinas. Em menos de três meses, foram registradas 32 queixas à Central, que presta apoio jurídico e psicológico e ajuda a conduzir o caso com a polícia.

Kesia Salgado e Mayra Alves – La Dolceta, a primeira loja de doces eróticos do país, é comandado por duas mulheres negras em Recife. Kesia Salgado é empreendedora e proprietária da Donna K Consultoria, loja de produtos eróticos. Já Mayra Alves investiu na doceria Colméia da Preta. Elas já promoviam despedidas de solteiro na cidade e decidiram juntar os dois trabalhos em um só. La Dolceta é um café, mas também é um espaço para eventos: happy hour, despedida de solteiro, chá de lingerie e a New Life Party – festa para comemorar o fim de um relacionamento abusivo. Foi pensado com muito carinho e cuidado para oferecer um ambiente aconchegante e seguro para mulheres e pessoas LGBTs.

Maitê Lourenço  – Psicóloga de formação, a paulistana Maitê Lourenço aproximou-se do empreendedorismo es percebeu que faltavam profissionais negros acessando o frutífero ecossistema das Startups. Por isso, fundou o BlackRocks Startups, que tem o objetivo de aumentar a diversidade racial no empreendedorismo brasileiro. Criado no fim de 2015, o projeto iniciou suas ações externas em 2017, impactando mais de 350 pessoas e sendo um dos finalistas do Startup Awards.

Patrícia Lima – Comandando a Revista Catarina há mais de 10 anos, é o nome por trás da Simple Organic, primeira marca de beleza natural, orgânica e vegana a assinar a beleza de desfiles na São Paulo Fashion Week e entrar sem ressalvas no mundo da moda mostrando que beleza natural e orgânica é possível, é versátil e é atraente. A Simple Organic busca promover a beleza limpa e a saúde por meio de cosméticos feitos com ingredientes naturais e orgânicos, a preços competitivos e em grande escala.

Restaurante Dona Lili – Lilian Almeida é proprietária e chefe de cozinha do restaurante Dona Lili, na Bahia. Antes de inaugurar seu próprio restaurante, Lilian trabalhou em diversas cozinhas de Salvador, também fez feiras e eventos até se estabilizar. Apaixonada pelo que faz, Dona Lili é autodidata na culinária e foi se descobrindo ao longo do tempo até entender que seu negócio mesmo é a cozinha afro-brasileira. Além disso, ela transita muito bem na culinária vegetariana e abre mais o leque de opções para diversas pessoas poderem provar o sabor da comida baiana sem precisar ter camarão no tempero.

#GooseIslandSisterhood – O projeto iniciado por mulheres cervejeiras da Goose Island, e apoiado por representantes de entidades, ativistas e cervejeiras feministas, é uma confraria feminina que se reúne para estimular o engajamento das mulheres nesse meio, além de homenagear mulheres que fizeram história criando, mensalmente, uma cerveja personalizada. A cerveja criada em parceria com a Think Olga, por exemplo, chama-se Nísia por causa de Nísia Floresta Brasileira Augusta, educadora, escritora e poetisa nascida no Rio Grande do Norte (estado que inspirou o caju na receita da cerveja). Todo o lucro da Nísia foi revertido para a ONG.

Internacional:

Chetna Sinha, Christine Lagarde, Erna Solberg, Fabiola Rometty, Ginni Rommetty, Isabelle Kocher e Sharan Burrow – Respectivamente da Índia, França, Noruega, Itália, Estados Unidos, França e Austrália, elas serão copresidentes do Fórum Econômico Mundial em sua próxima conferência anual em Davos, na Suíça. Em janeiro de 2018, o grupo composto só por mulheres conduzirá um dos principais encontros da elite mundial.

Christia’n Annice – Fundadora da She’s Got Her Own Network, um site que reúne informações de pesquisa sobre outras mulheres empreendedoras, que funciona como uma rede social. O objetivo é estimular conversas sobre independência financeira e coragem de iniciar novos negócios.

Esportes:

Anna Cristina Silva –  É professora de educação física em uma escola estadual do Grajau, distrito de São Paulo com alguns dos piores índices de desenvolvimento da cidade, e há mais de uma década treina crianças e adolescentes para campeonatos de voleibol. Sem incentivo financeiro governamental, mantém a equipe através de rifa e financiamento pessoal. É a atual campeã da capital nos Jogos Escolares do Estado e nos jogos InterCEUs, além de quinta colocada no estado. Anna também desenvolve um trabalho de continuidade, levando esses jovens às peneiras dos melhores clubes de São Paulo, contando hoje com dez jovens talentos em clubes que formam a base do voleibol profissional brasileiro.

Cristiane, Fran e Rosana – As três jogadoras da seleção brasileira de futebol decidiram não mais jogar no time em protesto à demissão da técnica Emily Lima. Cristiane, maior artilheira do futebol feminino em Olimpíadas e uma das principais jogadoras do time, foi a primeira a anunciar a decisão, seguida de Fran e Rosana. Elas argumentam que a demissão da comissão técnica foi injusta e que as atletas têm pouca voz e reconhecimento, apesar de seus esforços. Emily Lima deixou o cargo com 56% de aproveitamento, tendo sido demitida após duas derrotas consecutivas e substituída por Oswaldo Fumeiro Alvarez, conhecido como Vadão, que ocupou o cargo antes dela. Sob o comando de Emily Lima, a seleção feminina conquistou o Torneio Internacional de Manaus.

Eliane Aparecida Barbosa e Maria Alice – A pequena Maria Alice, de 10 anos, é a única garota do time infantil Vieiras Esporte Clube, de Vieira, em Minas Gerais. Ela chegou a ser uma das capitãs do time e jogou em campeonatos municipais e intermunicipais. Mas, o primeiro obstáculo de gênero surgiu por parte do SESC Minas, que não permitiu a inscrição de Maria Alice para a Copa Sesc 2017, por ela ser uma menina. Entra em cena então a mãe da jogadora mirim, Eliane Aparecida Barbosa, que lutou para garantir que a filha estivesse em mais esta competição. Por meio do abaixo-assinado online intitulado “Deixem a Maria Alice jogar futebol! #MeninasTambémJogam”, que obteve quase 20 mil assinaturas, Eliane garantiu a inscrição da filha.

Emily LimaDiante de sua demissão repentina por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a primeira mulher a comandar a Seleção Feminina de Futebol não abaixou a cabeça para o machismo institucional e falou sobre a desigualdade de gênero nesse esporte.

Etiene Medeiros – A nadadora brasileira de 26 anos fez história em 2017: tornou-se a primeira brasileira a ser campeã mundial de natação, na etapa de Hungria em julho. Com o tempo de 27s15, ela levou o ouro nos 50m – costas e também estabeleceu o novo recorde das Américas. Em 2008, a nadadora pernambucana já havia sido a primeira brasileira a ir a pódio em campeonatos mundiais, com a prata na mesma categoria, no Mundial Junior. Seis anos depois, foi a primeira a ser medalhista em mundial de piscina curta e, no ano seguinte, foi vice-campeã em piscina longa.

Ingrid Silva – A primeira bailarina negra do Brasil a chegar na Dance Theatre of Harlem, importante companhia de dança de Nova Iorque, Ingrid foi capa da Pointe Magazine, uma das revistas de balé mais famosas dos Estados Unidos.

Isabelly Morais – Aos 20 anos, a estudante de jornalismo foi a primeira mulheres da história a narrar uma partida de Série B do Campeonato Brasileiro. Isabelly estreou como locutora pela Rádio Inconfidência de Belo Horizonte e narrou a vitória do América-MG por 2 a 0 sobre o ABC, no Independência.

Karen Jonz – A tetracampeã mundial de skate voltou a competir pela primeira vez desde que se tornou mãe e garantiu o primeiro lugar no Brasileirão de Vertical. Karen também iniciou a preparação para competir nos próximos Jogos Olímpicos, de 2020, em Tokyo.

#MagicMinas – O time de basquete fundado em 2016 por mulheres a partir de um aulão promovido pela Olga Esporte Clube, o projeto de empoderamento feminino por meio dos esportes da Think Olga, tem um objetivo muito claro: facilitar o contato das mulheres com os esportes coletivos – no caso, o basquete. Elas treinam três vezes por semana em São Paulo, na Praça Rotary. No entanto, começaram a ser hostilizadas pelos homens do local, que não gostaram da ideia de dividir espaço com as mulheres. Por conta disso,  organizaram o #OccupyRotary, que levou mais de cem mulheres, inclusive a medalhista olímpica Magic Paula, às quadras da Praça, mostrando que lugar de mulher é no esporte sim!  

Maravilhosas Corpo de Baile – Coletivo de mulheres praticantes de pole dance com a premissa de encontrar uma relação de amor, leveza e liberdade com seus corpos.

Perifeminas FC – O time de futebol feminino do extremo Sul de São Paulo veio para mostrar que futebol também é coisa de mulher – e que não adianta tentarem impedir. Em 2017, as fundadoras passaram a atuar ainda mais politicamente em seus territórios, promovendo debates e rodas de conversas sobre assuntos relacionados às mulheres (como sexualidade, feminismo e sororidade), além de clubes de livro e saraus. Por meio do esporte, elas lutam juntas e combatem o preconceito.

Rugby Feminino – A seleção feminina de Rugby do Brasil sagrou-se campeã do Sul-Americano Feminino pela 13ª vez, assegurando a classificação para a Copa do Mundo de Sevens, em Hong Kong, na China, e para a etapa do Canadá Etapa da próxima Série Mundial de Sevens, ambos em 2018.

Tiffany Abreu – Quase dez meses depois de fazer história ao se tornar a primeira atleta transexual brasileira a conseguir autorização da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) para jogar profissionalmente, fechou contrato com o Vôlei Bauru. O time contará com a atacante da Superliga feminina de vôlei, em 2018.

Vanessa Joda – Há seis anos, Vanessa trocou a carreira no mundo da logística por um curso de formação em yoga. Há dois anos, comanda a Yoga Para Todos que, como o nome sugere, foca em receber pessoas consideradas fora do padrão de beleza perante a sociedade, especialmente pessoas gordas, assim como Vanessa. Em 2017, a professora de yoga firmou-se como  porta-voz desse público na mídia.

Internacional:

AEM de Lleida: O time feminino de futebol participou da Liga de Segunda, um torneio infantil catalão, com atletas entre 12 e 14 anos de idade, e foram campeãs com quatro rodadas de antecedência, tendo competido somente com times masculinos.

Aditi Ashok – Aos 19 anos, a jogadora é considerada um prodígio do golfe. Já fez história em 2016, ao se tornar a primeira mulher indiana a vencer um Ladies European Tour. Em 2017, foi novamente a primeira do seu país, desta vez ao se qualificar para a renomada LPGA Tour Championships e, consequentemente, está cotada a ser pioneira também em 2018, caso vença o campeonato.

Aly Raisman – Movida pela campanha #MeToo, a ginasta tricampeã olímpica revelou que também foi vítima de Lawrence G. Nassar, ex-médico da seleção de ginástica artística feminina dos Estados Unidos, que atualmente responde por outras 22 acusações. O depoimento de Aly reacendeu a investigação contra o médico que havia confessado o crime contra somente uma de suas pacientes, Jamie Dantzscher, em 2001.

Isha Johansen – A única mulher a presidir a associação de Futebol de Serra Leoa anunciou que vai concorrer a reeleição em 2018, mesmo que isso possa, segundo a própria, “enfurecer muitas pessoas”.  

Lieke Martens – Aos 24 anos, a jogadora holandesa foi eleita, com 21,72% dos votos dos membros da Federação Internacional de Futebol (FIFA), a melhor jogadora do mundo na temporada, vencendo a americana a campeã do ano anterior, Carli Lloyd.

Nora Tausz Ronai – Sobrevivente do holocausto, Nora foi lembrada na lista 100 Women da BBC pela façanha de conquistar seis medalhas de ouro, no  Masters World Championships, em Montreal, Canadá, aos 90 anos. Hoje, aos 93, Nora é  atleta profissional pela equipe de natação do Brasil, onde mora desde 1941.

Serena Williams – A tenista de 36 anos, maior vencedora de Grand Slams da história, anunciou em abril que estava grávida de cinco meses. Poderia ser apenas um anúncio, mas pela data da gestação ficou claro que Serena Williams já estava grávida quando foi campeã do Open Australia e levou seu 23° título de Slam para casa.

Internet & Redes Sociais:

Alexandra Gurgel – A jornalista do Rio de Janeiro ficou popular por causa dos vídeos publicados em seu canal no Youtube, Alexandrismos, onde discute feminismo e o corpo, de modo a combater a gordofobia, além de discursos de aceitação pessoal que inspiram e encorajam. Entre os assuntos importantes trazidos por Alexandra, está a questão da solidão da mulher gorda.

Clara Averbuck – A escritora e ativista feminista utilizou as redes sociais  para denunciar um estupro que aconteceu dentro de um carro a serviço da Uber, em São Paulo, por parte do motorista., serviço esse serviço que, para muitas mulheres com o privilégio de obtê-lo, é uma alternativa para não caminhar sozinha ou estar em um transporte público. Uma forma de se isolar de homens que acreditam que seus corpos também são públicos e que por isso, os pertencem. Certa de que precisava ir além da denúncia formal na delegacia ou na empresa, Clara iniciou a campanha #MeuMotoristaAbusador, convidando mulheres a compartilhar histórias de assédio que aconteceram em uma situação semelhante, de modo a alertar para o problema, torná-lo público.

Consuelo #DicaBoa – É a personagem criada por Lívia La Gatto para comentar política e gênero no Youtube de forma bem humorada. Formada em Artes Cênicas, pela Universidade de São Paulo (USP), Lívia interpreta uma argentina de sotaque bem pesado que dá dicas do tipo “como lidar com pessoas machistas” e ironiza publicações que falam sobre emagrecimento e outros assuntos normalmente direcionados às mulheres.

Louie Ponto – Louie Ponto tem um canal no YouTube que leva seu nome. Nele, comenta principalmente assuntos relacionados à vivência lésbica e aos direitos LGBT, esclarecendo conceitos como a “cura gay” e fetichização das lésbicas. Em 2017, seus vídeos de maior sucesso esclareceram os perigos de “trollar” alguém dizendo ser LGBT e da “cura gay”.

Luciene Nascimento – A jovem advogada viralizou na internet ao mostrar seu talento para poesia, em vídeos publicados em sua conta pessoal no instagram. Luciene fala, principalmente, sobre sua vivência e ancestralidade como mulher negra.

Ju Giampaoli –  Atriz, feminista e ativista LGBT, Juliana Giampaoli criou um canal no YouTube para falar sobre vivências e demandas de mulheres bissexuais, feminismo e autocuidado e hoje está perto de alcançar 10 mil seguidores na plataforma.

Mãe Stella de Oxossi – Aos 92 anos, começou um seu canal no YouTube para difundir a cultura iorubá e o candomblé, religião na qual foi iniciada há mais de 70 anos. Mãe Stella de Oxossi é a youtuber mais longeva em atividade no país.

Nath Araújo – A ilustradora ficou popular na internet por desenhar mulheres jovens com diversidade, juntamente com mensagens motivacionais e de autocuidado, tudo isso mantendo o bom humor. Ela já pintou garotas em trajes de astronauta e em versões alienígenas, mas suas séries sobre signos e brasileiras deram o que falar.

Thallita Xavier – Por meio do blog Sim, sou vegana e feminista preta, Thallita tem falado abertamente sobre veganismo, trazendo um ponto de vista importante: o de uma mulher negra. Ela adereça a importância de quebrar o elitismo em torno do conceito, quebrar mitos sobre o assunto e, principalmente, informar de modo a alcançar uma parte da população que  o movimento tipicamente não alcança.

Tia Má – Sem cenário, sem edição, sem roteiro. Tia Má fez sucesso no YouTube com vídeos sem fórmulas, apenas com seu bom humor e sua conversa certeira sobre racismo no Brasil. Em menos de um ano, a baiana passou a ser convidada fixa do programa Encontro com Fátima Bernardes, nas manhãs da Rede Globo, e assumiu os roteiros da série de comédia Vai Que Cola, do Multishow.

Xan Ravelli – Blogueira e musicoterapeuta, Xan brilhou no Youtube ao mostrar sua rotina de beleza e também ao falar sobre maternidade. Ela tornou-se uma grande representatividade negra no conteúdo da plataforma.

Internacional:

Dalia Al-faghal – Ela se autodenomina a “lésbica mais odiada do Egito”. Isso porque em julho, Dalia usou o Facebook para celebrar a aceitação de seu pai a seu namoro com uma mulher. Desde então, passou a receber ofensas e ameaças de agressão e de morte até mesmo da imprensa egípcia, onde é considerada uma das primeiras mulhees a assumir publicamente sua homossexualidade.

Feminista Jones – A escritora e feminista americana utilizou as redes sociais para fazer um experimento sobre comportamento masculino incentivado pelo machismo na sociedade. Sempre que recebia um elogio da parte de um homem, Jones simplesmente o aceitava, concordando. Ela percebeu que isso gerava um comportamento padronizado nos homens, que passaram a criticá-la e ofendê-la por ter aceitado os elogios. O experimento corajoso de Jones rendeu muitos debates antropológicos nas redes.  

#MakeMineMilkshake – Em 28 de julho, a editora Heather Antos, da Marvel Comics, postou uma foto em seu Twitter tomando milkshake junto a outras funcionárias da empresa. Esse simples fato causou espanto nos fãs mais conservadores de quadrinhos, que passaram a ameaçá-la, assediá-la e praticar bullying. Essa reação iniciou a campanha de apoio #MakeMineMilkshake, em que diversos funcionários e funcionárias da Marvel e de outras empresas da área também postaram fotos de apoio à Heather e tomando milkshake. O destaque da ação foi o apoio das mulheres da DC Comics, maior rival da Marvel. Elas mostraram que não há espaço para rivalidade no combate ao machismo em uma área que ainda hesita muito em incluir mulheres.

#MeToo (#EuTambém) A denúncia de assédio que derrubou o produtor renomado Harvey Weinstein dos lugares mais privilegiados de Hollywood, incluindo a própria empresa, foi o impulso para que outras denúncias surgirem nessa área e, posteriormente, também nos campos da música e dos esportes. Por meio da hashtag #MeToo, também utilizada no Brasil como #EuTambém, mulheres da indústria, de empregadas dos bastidores até atrizes famosas, começaram a relatar histórias pessoais. Desde então, relatos vêm se tornando públicos praticamente toda semana e têm ajudado a demonstrar que assédio e abuso sexual no ambiente de trabalho são problemas frequentes nas vidas das mulheres e precisam ser adereçados com urgência.   

Tarana Burke –  Embora inicialmente a criação da hashtag #MeToo tenha sido atribuída a atriz Alyssa Melano, que a utilizou para convidar mulheres no Twitter a compartilhar relatos de assédio e estupro, a hashtag foi iniciada há 10 anos pela ativista negra Tarana Burke, em uma outra campanha, cujo o objetivo era alcançar vítimas de assédio e violência sexual em comunidades periféricas dos Estados Unidos. Com a volta da hashtag em 2017, Tarana teve novas oportunidades de divulgar seu trabalho na mídia e falar sobre a importância do acolhimento para vítimas.

Literatura:

Calila das Mercês – A pesquisadora e jornalista baiana criou em 2017 o projeto “Escritoras Negras da Bahia”, com o intuito de visibilizar a produção das mulheres na arte e na literatura. A iniciativa agrega poetas, contistas, romancistas e artistas literárias em geral. Foi lançada em julho, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e o Dia Nacional do Escritor.

Conceição Evaristo – Oriunda da Zona Sul de Belo Horizonte, Minas Gerais, Conceição teve que conciliar estudos com trabalhos de faxina, até se tornar uma das principais expoentes da literatura brasileira, com expansão internacional, tendo seus livros traduzidos para outros idiomas. Publicou seu primeiro poema em 1990 e, desde então, publicou diversos poemas e contos, além de uma coletânea de poemas e dois romances, abrindo espaço para outras mulheres negras na literatura. Aos 71 anos, é doutora em literatura pela Universidade Federal Fluminense, militante ativa do movimento negro, vencedora do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2017, pelo conjunto de sua obra, homenageada do Itaú Cultural, em São Paulo, reverenciada na 2ª Mostra Conceição Evaristo, no Sesc Palladium e na Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH).

Cristiane Sobral – A ganhadora do Prêmio FAC 2017 Culturas Afro-Brasileiras é mestre em Teatro, pela UnB, dirige a Cia de Arte Negra Cabeça e o Sindicato dos Escritores do Distrito Federal (Sindescritores). Autora do livro de contos O Tapete Voador e das obras de poesia Não vou mais lavar os pratos e Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz, entre outras publicações.

Dayse Sacramento – Em julho deste ano, colocou de pé uma atividade fruto do seu projeto de pesquisa de doutorado em Literatura e Cultura Violências contra mulheres negras e suas insubmissões, contemplado no edital PIBIC/IFBA. O evento “Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras” é inspirado na obra da renomada escritora Conceição Evaristo. A proposta é estudar e avaliar os relatos de mulheres negras ao longo dos contos escritos por Evaristo em seu livro. Em agosto, a própria Conceição Evaristo foi convidada de honra do último dia desse grande encontro.

Daniela Rosendo – Mestre em Filosofia, foi a primeira pessoa a escrever um livro brasileiro sobre ecofeminismo. Sensível ao Cuidado: Uma Perspectiva Ética Ecofeminista analisa e explica ecofeminismo a partir dos escritos da famosa ecofeminista Karen J. Warren. Rosendo também tem diversos artigos debatendo as conexões de feminismo, veganismo e ambientalismo. No site Modefica, foi responsável por uma série de artigos elucidativos sobre ecofeminismo, chegando até a abordar ecofeminismo queer.  

Débora Prado e Marisa Sanematsu – Débora e Marisa foram as organizadoras e coordenadoras editoriais do livro Feminicídio #InvisibilidadeMata, produzido pelo Instituto Patrícia Galvão e lançado em abril de 2017. O livro está disponível para download gratuito e traz as principais definições e números do feminicídio no Brasil, além de resgatar a história de vítimas desse crime no país, como Luana Barbosa e Eloá Pimentel. A publicação explicita os agravantes racistas, LGBTfóbicos e classistas dos casos, além de dedicar-se a falar do Feminicídio de Estado.

Djamila Ribeiro –  A mestre em filosofia e feminista negra lançou o livro O que é Lugar de Fala?, que aborda, pela perspectiva do feminismo negro, a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, explicando didaticamente o que é o conceito ao mesmo tempo em que traz ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história. A autora tem arrastado multidões para os eventos de lançamento do seu livro, que até agora aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Isabela Sena e Sueli Feliziani – As pesquisadoras criaram o projeto Bibliopreta, uma plataforma online gratuita que agrega produção acadêmica sobre feminismo negro. O site reúne traduções, artigos, resenhas, dissertações, vídeos e cursos produzidos e coletados pela dupla, de autoras estrangeiras como Angela Davis, Bell Hooks e Audre Lorde, tal como as brasileiras Lélia Gonzalez, Thereza Santos e Sueli Carneiro.

Jarid Arraes – Escritora, poeta e cordelista, Jarid lançou em 2017 a coletânea Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, que resgata trajetórias de mulheres quase sempre esquecidas, apesar de fundamentais na história do Brasil, como Carolina Maria de Jesus, Tereza de Benguela e Maria Firmina dos Reis. Também neste ano, teve o seu primeiro Cordel sobre uma heroína negra, publicado originalmente em 2013, traduzido para o francês.

Ketty Valêncio – Criadora da Livraria Africanidades, focada em vender apenas obras de autoras negras, com loja física e online. A livraria possui livros sobre feminismo, poesia, religião, ciências sociais, entre outros tópicos, todos do ponto de vista da mulher negra. Ketty é pós-graduada em gênero e diversidade sexual na Unifesp e MBA-Bens Culturais: Cultura, Gestão e Economia na FGV e após sete anos trabalhando em bibliotecas, investiu no próprio negócio.

Laudelina Ferreira da Silva – Aos 77 anos, a dona de casa tem seus 12 filhos criados e o primeiro livro de poesias lançado, mesmo sem ter avançado nos estudos para além da 4ª série do ensino fundamental. Por quase três décadas, guardou suas ideias em papel até que os vizinhos na cidade de Bebedouro (SP) colaboraram para a impressão de 300 exemplares de Livro de Poesias, todos vendidos por R$ 10. A autora diz que o segredo é anotar as ideias rapidamente, para não perder a inspiração. E assim, ela já acumula versos para um segundo livro.

Pri Ferrari – Depois do sucesso do livro Coisa de Menina, cheio de ilustrações que demonstram não existir limites de gênero para os sonhos das meninas, a autora lançou o Coisa de Menino, para estender a discussão sobre papéis de gênero também para mães de garotos.  

Internacional:

Angela Davis – Do discurso em janeiro durante a Marcha das Mulheres, nos EUA, à sua visita ao Brasil em julho, a lendária filósofa americana segue inspirando mulheres ao redor do mundo. Em 2017, as palavras de Davis chegaram às brasileiras por meio das publicações de Mulheres, raça e classe e Mulheres, cultura e política.

Angie Thomas – A autora americana de 29 anos lançou The Hate U Give, traduzido no Brasil como O Ódio que Você Semeia, considerado pelo The New York Times o livro mais popular de 2017, na categoria jovem adulto. Angie surpreendeu o mercado editorial ao adicionar em uma história de ficção questões muito reais: racismo e violência policial nos Estados Unidos. Isso em uma categoria ainda dominada por histórias de fantasia, como Harry Potter.

Carol J. Adams – A americana pesquisadora e autora ecofeminista, responsável pelo famoso livro A Política Sexual da Carne e diversas outras publicações sobre ecofeminismo, continua ativa e lançou em 2017 o livro Até os Vegans Morrem: Um Guia Prático para Cuidar, Aceitar e Proteger seu Legado de Compaixão (ainda sem edição em português). Endereçando temas como body shaming, o livro é um manifesto para construir uma comunidade ativista mais compassiva, diversa e afetiva.

Chimamanda Ngozi Adichie – A autora de Sejamos todos Feministas teve mais um manifesto publicado. Em Para Educar Crianças Feministas, uma carta da autora para uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães.

Dra A Breeze Harper – Doutora em Crítica em Geografia de Alimentos, a americana é criadora do The Sistah Vegan Project e editora da antologia inovadora, Sistah Vegan: Black Female Vegans Speak on Food, Identity, Health, and Society (ainda sem edição em português), publicação responsável por reunir diversos artigos abordando a interseccionalidade do veganismo, feminismo e luta anti-racista.

Judith Butler – A filósofa pós-estruturalista estadunidense conhecida por escrever sobre gênero mostrou, para além da academia, outra área de atuação em seus estudos: a religião. Caminhos Divergentes surgiu de uma urgência pessoal da pesquisadora em retomar suas origens judias e contribuir academicamente enquanto faz isso. Durante a turnê de divulgação do livro, a passagem da autora pelo Brasil a forçou a retomar o assunto sobre gênero, em função de ataques por parte de grupos conservadores que queriam impedir a vinda de uma estudiosa sobre cultura queer, chegando a organizar protestos e queimar bonecos que representavam Judith. A filósofa respondeu aos comentários de ódio propondo novos debates sobre discursos de ódio.

Kate Schatz – A autora deu continuidade ao trabalho com Rad American Women A-Z, livro infantil de biografias de heroínas da história dos Estados Unidos. Em 2017, o título da nova publicação de Kate é Rad Women, ou Mulheres Incríveis, dessa vez contando histórias de mulheres ao redor do mundo. Na edição brasileira, publicada pela editora Astral Cultural, a fundadora da Think Olga, Juliana de Faria, contribuiu com mais quatro perfis: Maria da Penha, Debora Diniz, Sonia Bone Guajajara e Elza Soares.

Naomi Klein – A jornalista, escritora e ativista americana é um dos nomes mais conhecidos quando o assunto é ambientalismo e mudanças climáticas. Autora dos emblemáticos Sem Logo: A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido e Isso Muda Tudo: Capitalismo versus Mudanças Climáticas, lançou esse ano Não Basta Dizer Não: Resistir à Nova Política do Choque e Conquistar o Mundo do Qual Precisamos, livro escrito em tempo recorde para debater a candidatura do presidente americano Donald Trump e engajar pessoas na resistência aos tempos conservadores e populistas atuais.

Rachel Ignotofsky – Com trabalho focado em arte e ilustração, a autora lançou o livro Women in Science, ou As Cientistas, com histórias sobre 50 mulheres que fizeram história nesta área. Rachel também é autora de Women in Sports, ainda sem tradução no Brasil.

Roxane Gay – A autora americana lançou em 2017 o livro Fome, uma autobiografia sobre sua relação com o corpo, como mulher negra e gorda. Roxane deixou claro que o livro não conta uma história de superação sobre uma super dieta, mas sim uma reflexão sobre como a cobrança sobre aparência e peso tornam-se obrigações nas vidas das mulheres.   

Rupi Kaur – O livro de poesias Milk and Honey, intitulado no Brasil como Outros Jeitos de Usar a Boca, foi publicado pela primeira vez em 2014, de maneira independente. Mas em 2017, os versos duros e diretos sobre abuso parental e relacionamentos abusivos da autora indiana ganharam atenção das editoras.  Fenômeno de vendas, o livro permaneceu no topo da lista de mais vendidos do New York Times por 40 semanas seguidas.

Moda & Beleza:

Cibele de Barros – Fundadora da Tecido Social, uma empresa social que promove e busca viabilizar economicamente empreendedores solidários talentosos e criativos, que atuam nos vários segmentos da moda. Promove e viabiliza a união de grupos produtivos da economia solidária com marcas de moda que querem promover a transformação social por meio de seus processos produtivos.

Daniela Auler – Idealizadora e coordenadora do Projeto Moda Inclusiva, da Secretaria da Pessoa com Deficiência. Busca atrair a atenção da indústria da moda, principalmente de estilistas e designers, para as questões e necessidades das pessoas com deficiência. Referência mundial, o projeto conta com Concurso de Moda Inclusiva, para engajar novos designers na pauta, além de cursos de formação para moda inclusiva.

Daniele da Mata – A experiência de Daniele com maquiagem começou cedo, aos 16 anos, em um emprego de empacotadora de uma fábrica de cosméticos, onde aprendeu muito sobre as composições dos produtos e também sobre a escassez de opções para peles negras. Hoje, como maquiadora profissional, coordena a escola de maquiagem itinerante Projeto Negras do Brasil, pelo qual viaja o Brasil ensinando automaquiagem para mulheres negras.

Dariele Santos – Fundadora do Instituto Alinha, negócio social focado na melhoria das condições de trabalho e de vida de costureiras e costureiros, principalmente imigrantes. O Instituto Alinha auxilia, de forma gratuita, donos e donas de oficinas de costura a regularizarem suas oficinas e, por meio de uma plataforma online, facilita o contato dessas oficinas alinhadas com marcas que desejam produzir com trabalho justo.

Emanuela Farias – Criadora do Mulheres Sul Global, iniciativa que promove formação em corte e costura para mulheres refugiadas que vivem no Rio de Janeiro, Emanuela ganhou primeiro lugar na Feira de Negócios da Shell Iniciativa Jovem e levou também o desafio Moda Consciente, durante o ColaborAmérica 2017.

Francisca Vieira – Por trás da Natural Cotton Color, articulou o cultivo do algodão orgânico no Brasil em assentamentos na Paraíba, garantindo renda aos agricultores e responsabilidade ambiental no plantio de uma das fibras mais utilizadas na indústria da moda. Além de encabeçar a expansão do algodão orgânico brasileiro, por meio da produção das roupas da marca, Francisca trabalha com rendeiras e bordadeiras para promover o trabalho justo e os saberes artesanais.

Fernanda Simon – É responsável por encabeçar o braço brasileiro do movimento global para uma moda mais justa, limpa e responsável, o Fashion Revolution Brasil. Em 2017, Fernanda foi co-realizadora da primeira edição da Brasil Eco Fashion Week, uma semana de moda dedicada a promover sustentabilidade na moda.

Gabriela Mazepa – Arquiteta de formação, está por trás do Re-Roupa, marca e projeto que visa transformar roupas paradas em novas peças usando técnicas de upcycling. Com o Re-Roupa, Gabriela também promove a inserção social por meio da costura, principalmente em comunidades do Rio de Janeiro. Esse ano, foi convidada pela Mercedes-Benz Fashion Week Sri Lanka e a Academy of Design a encabeçar um projeto de upcycling para mulheres artesãs em Colombo.

Mayara Yamada – Youtuber, DJ e atriz, Mayara se destacou ao longo do ano também no mundo da moda. Ela posa como mulher gorda e sem depilação, uma representação ainda considerada tabu nesse universo, principalmente na moda praia.

Renata Buzzo – A estilista foi destaque na edição da Casa de Criadores com sua marca homônima, ao criar uma coleção conceitual, a She Broke, que colocava em debate a questão do relacionamento abusivo. Renata, que passou por esse momento, criou peças fortes e originais com retalhos de tecidos para mostrar como mulheres recolhem seus   pedaços para reconstruir a vida a partir deles.  

Tasha e Tracie Okereke – Conhecidas como as it girls da favela, as gêmeas impressionam pela habilidade compartilhada de montar looks super estilosos com roupas customizadas de brechó. Elas dividem suas inspirações de moda e música com seguidores do blog/movimento Expensive $hit, por onde buscam também promover “a auto-estima da mulher jovem, preta e favelada”.

Valentina Sampaio – A modelo cearense fez história como a primeira mulher transexual na capa da revista Vogue Paris.

Internacional:

Adriana Santanocito e Enrica Arena – São as co-fundadoras da startup italiana Orange Fiber, a primeira empresa do mundo a produzir tecidos a partir da celulose encontradas em cascas de laranja descartadas pela indústria de sucos, na Itália, onde são produzidas mais de 700.000 toneladas/ano do resíduo. O projeto de pesquisa começou em 2014, ganhou prêmios e financiamento. Em 2017, chegou ao mercado de moda em uma coleção cápsula com a marca de luxo Salvatore Ferragamo. Ao usar os restos das cascas de laranja, a Orange Fiber garante um tecido de baixo impacto para produção, com propriedades biodegradáveis, única necessidade de uso de solo vem das plantas produtivas dos fios e tecidos.

Ashley Graham – A modelo de moda plus size ocupou espaços ainda restritos para mulheres gordas, como as capas das revistas Sports Illustrated e Vogue Italia.

Rihanna – A cantora de Barbados teve um 2017 poderoso: começou o ano sendo eleita a Ativista do Ano, pela Universidade de Harvard. O reconhecimento vem por conta de seus projetos humanitários, como um hospital para tratamento de câncer em seu país natal e o apoio à educação de meninas nos países em desenvolvimento. No fim do ano ela seguiu dando exemplos, mas em outra linha: criou sua própria marca de maquiagem, a Fenty Beauty, que se destacou pela inclusão de diversos tons de pele. Só de base são quarenta tons contemplados. A Fenty Beauty foi eleita uma das invenções do ano pela revista Time.

Música:

Aíla – É uma das principais vozes da música paraense – e brasileira. Lésbica, suas letras não economizam em críticas ao racismo, machismo e homofobia. Em 29 de agosto, Dia da Visibilidade Lésbica, lançou o clipe de Lesbigay, uma celebração da cidadania LGBT e de todos os tipos de amor.

Ana Cañas A cantora Ana Cañas destacou-se em 2017 por gritar a violência contra as mulheres, especialmente com seu single e clipe Respeita, que aborda diversas formas de violência. No clipe, mais de 80 mulheres cantaram junto com Ana, relembrando a experiência de seu primeiro assédio. Ao longo do ano, a cantora também se apresentou em diversos protestos e ocupações por moradia e terra.

Anavitória – A dupla formada pelas cantoras Ana Clara Caetano Costa (goianiense de 23 anos) e Vitória Fernandes Falcão (araguainense de 22 anos) estourou em 2017 com a canção Trevo (Tu), em parceria com o cantor Tiago Iorc. Pela composição, elas foram premiadas com o Grammy Latino de Melhor Canção Brasileira e também foram indicadas na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro.

Anitta – Em 2017, a cantora de 24 anos, oriunda do funk carioca, estourou no cenário do pop internacional fazendo parcerias com os internacionais Major Lazer, Poor Bear, Alesso, Iggy Azalea, J Balvin e  a drag queen brasileira Pabllo Vittar. Para as apresentações de seus hits na TV nacional e internacional, Anitta atualizou seu grupo de dançarinos para receber mulheres gordas e pessoas com deficiência. Tendo administrado a própria carreira para o rumo internacional, também passou a atender outros artistas em sua produtora, a Redemoinho Produções Artísticas, firmando-se como grande empresária da música. No final do ano, foi eleita a Mulher do Ano pela Revista GQ.  

Djuena Tikuna – Djuena Tikuna é uma cantora indígena que lançou seu primeiro álbum em 2017, cantando a identidade e as resistências dos povos ameaçados. Ela fez história ao lançar seu trabalho e levar dezenas de indígenas ao palco do tradicional Teatro Amazonas, em Manaus, um espaço historicamente elitizado. Amazonense, ela canta na língua de seu povo autodenominado Magüta. Também participou da campanha “Demarcação Já”.

Elza Soares – No Dia da Consciência Negra, a cantora lançou um clipe/documentário para a canção A Carne e levantou debate sobre racismo, poder feminino e diversidade. O filme conta com a participação da judoca e campeã olímpica Rafaela Silva.  

Kell Smith – Lançado no Dia Internacional da Mulher, o hit Respeita as Mina ganhou destaque entre as mulheres pela letra que exige respeito e o fim do assédio em locais públicos. E a mistura de hip-hop e MPB de Kell impressionou para além dessa primeira música. Era uma vez, saída de seu EP homônimo, tem lugar garantido na programação das rádios brasileiras.

Liniker – Sucesso desde o ano passado à frente da banda Liniker e os Caramelows, a vocalista Liniker se abriu sobre sua transexualidade em entrevista para a Revista Glamour, em junho de 2017. Antes mesmo de se nomear mulher trans, Liniker já era considerada símbolo de representatividade negra e LGBT, além de brilhar nas composições de MPB.

Linn da Quebrada – A cantora foi comparada com Beyoncé por ter lançado, sem aviso, um álbum visual com 14 clipes. O álbum Pajubá fala sobre transexualidade. A cantora também abordou o assunto em sua participação no documentário Meu Corpo é Político de Alice Riff.

Luedji Luna – Já conhecida na internet por vídeos amadores, lançou em 2017 um álbum Um Corpo no Mundo, composto por 11 faixas, algumas inéditas e outras já conhecidas do público que acompanhava Luedji pelos vídeos do YouTube, que misturam ritmos como reggae, MPB e samba. O divisor de águas para Luedji foi o lançamento do clipe da faixa que dá nome ao álbum, filmado em São Paulo, para onde a baiana se mudou para apostar na carreira musical. O primeiro álbum de Luedji recebeu o Prêmio Afro 2017.

Mc Soffia – Com apenas 13 anos, a rapper figura na lista de mulheres mais inovadoras do mundo, a 100 Women da emissora do Reino Unido BBC. Convidada a participar do documentário Levelling the playing field, da emissora, Soffia compôs a música Esporte especialmente para a gravação. Na letra, ela explica que as meninas têm os mesmos direitos de praticar esportes que os meninos. A rapper também comentou sobre papéis de gênero no documentário Repense O Elogio da marca de cosméticos Avon.

IZA – A carioca IZA Lima é um dos grandes destaques do atual cenário de pop brasileiro. A cantora lançou suas primeiras músicas em 2016, mas foi em 2017 que mostrou ser mais do que uma promessa, lançando I Put a Spell On You e Pesadão (seu single mais recente e cujo clipe já acumula mais de 5 milhões de views no YouTube). Seu primeiro álbum deve sair ainda esse ano. Em suas canções, IZA canta sua força, independência e determinação para conseguir o que quer, afirmando o poder das mulheres negras e sem pedir desculpas por isso. Tornou-se uma inspiração ao ocupar um lugar necessário na indústria musical.

Rosa Luz Por meio de financiamento coletivo, a rapper brasiliense lançou o Rosa Maria Codinome Rosa Luz, que mistura batidas de samba, MPB e pop com letras certeiras de hip-hop sobre vivências na periferia e do ponto de vista de uma mulher trans e negra.

Xênia França – A cantora baiana lançou seu primeiro disco solo em 2017, mesclando ritmos como MPB, eletrônica e jazz. Aclamado pela crítica e pelo público, o álbum canta sobre machismo e, principalmente, racismo, fazendo várias referências às ancestralidades africanas e às diásporas. Em entrevista à Marie Claire, Xênia disse que seus ancestrais chegaram aqui amordaçados e que seu álbum é uma voz importante, não só pelo discurso, mas também como um instrumento para demonstrar força. Xênia também  é membro da banda Aláfia.

Internacional:

Ariana Grande – Em maio de 2017, o show da cantora americana em Manchester, na Inglaterra, que reuniu, majoritariamente, um público de crianças e adolescentes, foi local de um ataque terrorista que deixou 22 mortos, após explosão de homem bomba.  Um mês depois, Ariana voltou à cidade para um festival beneficente, o One Love Manchesters, com o objetivo de arrecadar dinheiro para famílias afetadas pela explosão nos arredores da Manchester Arena, onde aconteceu o atentado, e também apoiar as vítimas ainda hospitalizadas. A convite de Ariana, Coldplay, Little Mix, Robbie Williams, Liam Gallagher e outros artistas participaram do evento.  

Dua Lipa – A cantora britânica tornou-se conhecida pelo hit “New Rules”, cuja letra foi considerada empoderadora pela crítica, para o jovem público que a acompanha, especialmente as garotas. A composição, que rendeu à cantora os prêmios de revelação no NME para Artista Revelação, MTV Europe Music Award e Glamour Award, explica porque não voltar para relacionamentos abusivos.

Lady Gaga – A cantora americana passou por momentos de glória, como a apresentação no intervalo do SuperBowl, e momentos difíceis, como as crises de fibromialgia, doença crônica que a forçou a cancelar a apresentação no festival Rock in Rio. Tudo isso, além dos bastidores da criação do último álbum, Joanne, foi relatado no documentário Gaga: Five Foot Two, lançado pela Netflix, em setembro. Aberta sobre sua doença, Lady Gaga tornou-se uma voz sobre autocuidado, em uma indústria que muitas vezes exige demais física e psicologicamente das mulheres.

Lorde – Aclamada desde o início da carreira, aos 16 anos, pelo álbum Pure Heroine de 2013, Lorde voltou a lançar músicas inéditas em 2017, no também querido pela crítica Melodrama. Agora, com 21 anos, a cantora encerra o ano como a única mulher indicada ao Grammy de melhor álbum.  

Kesha – O retorno da cantora após uma longa batalha judicial contra seu ex-produtor Dr. Luke, que a abusava sexualmente e psicologicamente, foi simbólico e comemorado pelos fãs. Com a música Praying, Kesha abriu o coração sobre seus sentimentos durante os 10 anos de abuso e os três anos seguintes, na luta pelo fim de seu contrato com Luke e a gravadora Sony Music. Mesmo com o apoio da opinião pública, manifestada na hashtag #FreeKesha, a cantora acabou perdendo a ação, sendo forçada a retirar as acusações contra seu agressor. Em 2017, Dr. Luke foi demitido da Sony, o que abriu caminho para que Kesha pudesse trabalhar livremente, resultando no novo álbum, Rainbow.

SZA – A Melhor Artista Feminina de R&B e Melhor Revelação do ano, segundo o Soul Train Music Award, é uma mulher negra de 28 anos. Seu álbum Ctrl também foi eleito o melhor do ano, pela revista Time.

Política & Serviço Público:

Capitão Carla Borges – Carla Borges é uma Capitã Aviadora da Força Aérea Brasileira (FAB). Foi, em 22 de dezembro de 2016, a primeira mulher a comandar a aeronave presidencial. Integrante da primeira turma de mulheres no curso de formação de oficiais aviadores da Academia da Força Aérea (AFA) em 2003, ela acumula vários pioneirismos em sua carreira: foi a primeira mulher a integrar o Esquadrão Escorpião em Boa Vista (RR), na defesa das fronteiras, e a primeira mulher a chegar à primeira linha da aviação de caça.

Debora Ferreira – Debora Ferreira de Freitas tornou-se, em 2017, a primeira  mulher combatente das Forças Armadas brasileiras a integrar uma tropa em missão de paz, no Haiti. Ela é Segundo-Tenente Auxiliar Fuzileiro Naval e concluiu o curso de Especialização em Guerra Anfíbia em 2016, tornando-se a primeira mulher habilitada a comandar um pelotão de infantaria no Brasil.

Sâmia Bomfim – Aos 28 anos, é a vereadora mais jovem a ser eleita em São Paulo. Formada em Letras, pela USP, ela já mostrou, em seu primeiro ano de mandato, firme atuação na defesa dos direitos das mulheres, da população negra, LGBT, indígena e outros grupos minorizados. Sua primeira lei sancionada obriga os estabelecimentos públicos e privados da cidade a afixarem placas com o número do Disque-Denúncia da Violência Contra a Mulher (disque 180). Sâmia também foi combatente direta de ações que vão contra princípios básicos dos Direitos Humanos, impostas pela Prefeitura Municipal de São Paulo, como a “ração humana”.

Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffman (PT-PR), Lídice da Mata (PSB-BA), Regina Sousa (PT(PT-PI) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) – As senadoras protestaram contra a sessão que coordenava os trabalhos da reforma trabalhista. Para silenciá-las, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, chegou a interromper a transmissão da TV Senado, que, por lei, ocorre 24 horas por dia. As luzes da Casa foram apagadas para interromper a sessão. Tudo isso ocorreu enquanto elas se revezavam no microfone, na maneira que encontraram de dar voz às suas preocupações.

Érika KokayDurante uma comissão especial da Câmara dos Deputados, que votou a PEC 181/2015, a deputada foi a única, de 19, a ficar ao lado das mulheres e votou não à emenda no texto que, por uma manobra da bancada evangélica, traz a possibilidade da proibição da interrupção da vida desde sua concepção, o que tornaria crime o aborto, até mesmo em casos considerados legais hoje pela legislação brasileira, como em situação de estupro ou de risco de morte para a mãe.

Luzianne Lins e Lola Aronovich – A deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) se inspirou no caso da blogueira feminista Lola Aronovich para propor a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de ódio contra as mulheres pela internet. Lola escreve publicamente sobre feminismo há quase 20 anos e sofre constantes ataques machistas e ameaças online. A aprovação da lei marcou a campanha da ONU 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher.

Internacional:

Jacinda Ardern – Aos 37 anos, ela é a mulher mais jovem a ocupar o cargo de Primeira-Ministra na Nova Zelândia, desde 1856. Recém-eleita, Jacinda destacou-se em sua campanha por enfrentar perguntas sexistas, especialmente sobre ser solteira e sem filhos. Para um radialista, que gostaria de saber se sua comandante iria sair do cargo para licença-maternidade, ela declarou: “É totalmente inaceitável, em 2017, dizer que as mulheres precisam responder a essa pergunta no seu local de trabalho. A decisão de uma mulher sobre quando quer ter filhos não deveria pré determinar se elas recebem ou não uma oferta de trabalho”.

Katrín Jakobsdóttir  – A segunda mulher a ser eleita primeira-ministra da Islândia foi escolhida, em sua maioria, por um público jovem, entre 18 e 29 anos. Katrín é declaradamente feminista, ambientalista, social-democrata, anti-militarista e inicou seu governo com uma agenda fortemente pautada na igualdade de gêneros.  

María de Jesús Patricio Martinez “Mariachuy” – Mulher indígena e feminista, anunciou sua candidatura a presidência do México em 2018. Este ano, liderou a Assembleia de Conselho Indígena em seu país, fechando acordos entre mais de 600 comunidades indígenas.

Representatividade:

Dona Diva Guimarães –  A professora ficou conhecida após sua participação na Festa Literária de Paraty (Flip) 2017. Durante uma mesa de debate com o ator Lázaro Ramos e a jornalista Joana Gorjão Henriques, Dona Diva se levantou e falou sobre suas experiências pessoais desde a infância até atualmente, como uma mulher negra paranaense. Sua fala foi filmada e divulgada, ganhando relevância nacional.  

Karol Conká – A rapper denunciou publicamente o assédio de duas mulheres, que ela presenciou d em um hotel do Rio de Janeiro. No vídeo divulgado nas redes sociais, Karol contou que precisou socar o agressor, um estrangeiro hospedado no hotel, pois a segurança do estabelecimento não se mobilizou para proteger as vítimas.

Mirian Bottan – Após superar transtornos alimentares, Mirian passou a utilizar as redes sociais para mostrar seu corpo saudável e a verdade por trás de fotos posadas no Instagram, que, além de não revelar a beleza real das mulheres, também ajudam a intensificar padrões de beleza.  

Nara Almeida – A jovem de 24 anos compartilha com mais de 700 mil seguidores a sua rotina de tratamento contra um câncer de estômago, além de falar sobre beleza e autoestima durante esta fase de sua vida. Nara chegou a ser “elogiada” por seguidores pelo corpo magro em função da doença e rapidamente replicou os comentários explicando que aquele não era seu peso desejado, tampouco saudável, já que é uma consequência da gravidade de sua doença.

Thais Carla – Além de brilhar como bailarina gorda da cantora Anitta, Thais também foi uma voz de combate a gordofobia, depois dos ataques que sofreu na internet por ter posado nua em um ensaio.

Internacional:

Beyoncé – Afastada dos palcos em função da gestação dos seus filhos gêmeos (Rumi e Sir Carter nasceram em julho deste ano), a cantora encontrou tempo para um trabalho educacional voltado para mulheres. A Formation Scholars é um programa de bolsas de estudo que, segundo o site oficial, visa incentivar a carreira de mulheres na área de “creative arts”, como música, literatura e estudos afro-americanos. Beyoncé também esteve muito próxima do trabalho de amparo e alojamento de vítimas de desastres naturais que atingiram a América do Norte no meio do ano, tendo atuado principalmente em prol de Houston, no Texas, cidade natal da cantora, e dos países México e Porto Rico – que receberam os lucros da música Mi Gente, parceria da cantora com J Balvin e Willy William.

Selena Gomez – Depois de colaborar para um debate sobre saúde mental na adolescência, ao produzir e colocar no mundo a série 13 Reasons Why, Selena passou por um momento de reclusão para cuidar da sua própria saúde, deixando até mesmo de estar presente para a divulgação das próprias músicas. A cantora é portadora de Lupus há anos e conseguiu um transplante de rim, doado pela melhor amiga Francia Raisa. Eleita “Mulher do Ano” pela revista Billboard, não deixou passar críticas à reportagem de capa, alegando que boa parte das declarações atribuídas à ela não foram ditas de verdade ou foram modificadas pela publicação, que também a homenageou no evento “Woman in Music”.

Saúde:

Alessandra Luglio – Nutricionista e membro da Sociedade Vegetariana Brasileira, é uma das profissionais por trás do projeto de implementação da alimentação vegetariana saudável e nutritiva para crianças e jovens de escolas públicas pela Brasil.

Karla Daniela Santone – Médica mastologista e youtuber, a Dra Karla Santone vem fazendo um trabalho extensivo de conscientização sobre a relação da alimentação com produtos de origem animais e o câncer. Seu Instagram também é repleto de informações que desmistificam e informam sobre o impacto (positivos e negativos) dos alimentos na nossa saúde.

Neide RigoNutricionista e colunista do Caderno Paladar, do Estadão, é reconhecida por seu trabalho em expandir o conhecimento sobre as PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e promover contato com o alimento a partir das hortas urbanas. Foi um dos nomes responsáveis por criar o #Banquetaço, evento que serviu gratuitamente mais de 2000 refeições no centro de São Paulo. Os pratos foram feitos com frutas, legumes e vegetais de xêpas, além de Pancs. O objetivo do #Banquetaço é promover a distribuição de alimentos, conscientizar sobre o desperdício e combater a proposta da produção e distribuição da ração humana, projeto cogitado pelo prefeito João Dória.

Debora Diniz – A antropóloga da UnB segue lutando pelos direitos das mulheres, crianças e famílias afetadas pela epidemia de zika no Brasil, especialmente nos estados do Nordeste. Lançou um relatório sobre a situação em Alagoas e, por seu livro Zika: do sertão nordestino à ameaça global, ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria Ciências da Saúde. Em Março, protocolou, com apoio do PSOL, uma ação pela descriminalização do aborto no Brasil e em Maio, às vésperas da ação de João Doria na Cracolândia, também lançou o documentário Hotel Laíde, mostrando a necessidade da humanização no tratamento aos usuários de crack na região.

Rafaela Salgado Ferreira – Rafaela é uma farmacêutica mineira e uma das vencedoras do Prêmio “Para Mulheres na Ciência”, de 2017. A jovem e sua equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estudam tratamentos mais eficazes para o zika e a doença de Chagas, analisando mais de 400 substâncias e desenhando moléculas potencialmente capazes de inibir o funcionamento de proteínas essenciais no vírus e protozoário que transmitem as doenças.

União de Mães de anjos – É uma organização pernambucana formada por mais de 300 mães de filhos afetados pela epidemia de zika. Criada no fim de 2015, elas reivindicam que o Estado garanta a assistência médica e pague o Benefício de Prestação Continuada (BPC) às famílias afetadas. Em Julho, as mães se organizaram e realizaram um ato em Recife, exigindo respostas mais eficazes do governo, motivadas pelo falecimento de três crianças no mês anterior, decorrentes da assistência inadequada. São as famílias afetadas por uma epidemia que saiu dos holofotes e que agora contam apenas com elas mesmas para enfrentar as consequências do descaso do Estado.

Internacional:

Janine Clayton – Diretora de pesquisa da National Institutes of Health (NIH), em Maryland, defendeu um estudo sobre as diferenças que homens e mulheres enfrentam ao buscar tratamento de saúde. Na pesquisa, Janine demonstra que, quando tem dores entre os sintomas, as mulheres são mais negligenciadas pelos médicos.

Melanie Joy – Psicóloga social e professora de psicologia e sociologia, na Universidade de Massachusetts, é reconhecida por introduzir o conceito de “carnismo”, amplamente discutido no seu famoso livro Por que Amamos Cachorros, Comemos Porcos e Vestimos Vacas e na palestra TED Talks Além do Carnismo. Em 2017, lançou sua terceira e mais recente publicação, Beyond Beliefs: A Guide to Improving Relationships and Communication for Vegans, Vegetarians, and Meat Eaters (ainda sem edição em português).

Natalie Achong –  Assumiu, em 2017, a posição de primeira presidente negra da  Hartford County Medical Association, dos Estados Unidos.  

EM MEMÓRIA:

Danielle Jesus LafonVítima de feminicídio e violência doméstica, Danielle foi morta pelo marido, em casa, em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais Ela tinha 47 anos e foi golpeada com uma tesoura na altura do pescoço e também no crânio. O corpo só foi encontrado dois ou três dias após o crime.

Emmanuelle MunizA mulher transexual Emanuelle Muniz foi morta a pedradas após ser vítima de um sequestro, em Anápolis, a 55 km de Goiânia. O corpo da jovem de 21 anos  foi encontrado pela própria mãe, em uma estrada na zona rural da cidade.

Eva Todor – A atriz veterana faleceu aos 98 anos em decorrência de uma pneumonia. Eva surpreendeu ao deixar sua fortuna para os seus funcionários – uma empregada, um motorista e um secretário pessoal. Eva não tinha filhos.

Fátima Oliveira – A médica foi grande defensora do Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisadora da saúde da mulher, da população negra e defensora dos direitos sexuais e direitos reprodutivos. Além de sua atuação no meio da saúde, Fátima também compartilhou seu conhecimento como colunista nos sites Portal Vermelho e Portal Geledes.

Helley Abreu Batista – Uma das vítimas do incêndio criminoso em uma creche em Janaúba, no Norte de Minas Gerais. Helley trabalhava como professora no local e tentou impedir o autor do crime, Damião Soares dos Santos, de 50 anos, de atear fogo em seu próprio corpo para depois atacar as crianças. Ela teve 90% do corpo queimado e morreu no hospital, cerca de 11 horas depois da tragédia.

Isamara Filier – Vítima do crime de ódio por parte do ex-marido Sidnei Ramis de Araújo, Isamara, seu filho de oito anos e mais dez familiares foram assassinados durante uma festa de Réveillon, entre a noite de 31 de dezembro e a madrugada de 1° de janeiro. No crime, que ficou conhecido como a Chacina de Campinas, o atirador deixou uma carta expressando sua misoginia com a esposa. Isamara já havia sofrido ameaças de morte no Natal de 2012 e denunciado Sidnei no Centro de Referência e Apoio à Mulher.

Júlia Volp – Natural do Morro da Fumaça, no Sul do estado de Florianópolis, era uma mulher trans e trabalhadora sexual. Júlia esteve desaparecida por 13 dias até ter seu corpo encontrado próximo ao seu ponto de programa. A Delegacia de Homicídios da Capital reportou que o corpo tinha sinais de facadas.

Márcia CabritaA atriz e comediante faleceu aos 53 anos, após quase 7 anos lutando contra um câncer de ovário. Após o falecimento de Márcia, uma entrevista de 2011 voltou a circular, onde a atriz falou sobre o direito de se sentir mal diante da notícia da doença: “Ao contrário do que muitos fantasiam, não tirei de letra. Não sei o porquê, mas existe uma ideia estapafúrdia de que quem está com câncer tem que, pelo menos, parecer herói. Nãnãninã não!”.

Marisa de Carvalho Nóbrega – Diarista, vendedora, mulher negra e periférica. Marisa foi agredida por Policiais Militares do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), que queriam a ajuda dela para prender seu filho. Marisa chegou a ser levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e depois transferida para o Hospital Salgado Filho, onde veio a falecer. A certidão de óbito consta aneurisma como causa da morte. Marisa deixou 5 filhos.

Mayara Amaral – A jovem de 27 anos era violonista, professora de música e tinha mestrado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), cuja dissertação fala sobre mulheres compositoras de violão. Mayara foi vítima de feminicídio na cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Ela foi atraída para um motel por Luis Alberto Bastos Barbosa, onde ficou encurralada com outros dois homens. Dois a estupraram, os três a martelaram na cabeça e atearam fogo ao corpo. Mayara continuou sendo violentada pela imprensa, que contou a história do ponto de vista dos agressores e a desumanizou. O feminicídio sofrido por Mayara incentivou protestos contra violência de gênero pelo país.  

Rogéria – Aos 74 anos, a atriz faleceu depois de ser internada com uma infecção urinária e complicações decorrentes. Recentemente, Rogéria participou do lançamento da biografia Rogéria – Uma mulher e mais um pouco, escrita por Márcio Paschoal e fez parte do grupo de travestis e transexuais retratado no documentário Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal. Rogéria tornou-se tão popular por suas atuações no cinema e na TV desde os anos 40, que passou a ser conhecida como “travesti da família brasileira”.

Yasmin Costa – Estudante negra de Física, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), foi assassinada a golpes de facas por seu namorado, em um apartamento no bairro Coroa do Meio, em Aracaju, Sergipe.

Internacional:

Emmanuelle RivaA atriz que foi referência do movimento artístico do cinema francês Nouvelle Vague, nos anos 60, morreu de um câncer em janeiro de 2017. Emmanuelle ficou conhecida pelo papel de protagonista no filme Hiroshima meu amor (1959), de Alain Resnais, e voltou a brilhar em 2012, com o filme Amor, do austríaco Michael Haneke, que lhe rendeu os prêmios César e Bafta de melhor atriz, além de sua primeira indicação ao Oscar. A honraria mais recente veio em 2014, o Beaumarchais, entregue por um júri de críticos do jornal francês Le Figaro, por sua atuação na peça Savannah bay, de Marguerite Duras.

Jo Walker-Meador Considerada a matriarca na música country por ter administrado a Country Music Association por quase três décadas, Jo faleceu em agosto de 2017, aos 93 anos.

Mary Tyler MooreA estrela do programa The Dick Van Dyke Show nos anos 60, morreu em janeiro de 2017, aos 80 anos. Além do trabalho como atriz, Mary era ativista feminista e usou de sua influência para pautar, como produtora de um noticiário da TV americana, questões ainda tabus para sua época, como igualdade salarial e pílula anticoncepcional.

Ruth Escobar A atriz portuguesa brilhou em mais de 30 peças de teatro no Brasil, onde morou desde os 15 anos de idade. Ruth também teve atuações políticas memoráveis, seu ativismo político e feminista a levou ao cargo de deputada estadual em duas gestões. Em outubro de 2017, aos 82 anos, Ruth faleceu por complicações do Alzheimer.

Arte: Kaol Porfírio para Think Olga.

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Diante de uma gravidez indesejada e da necessidade de seguir trabalhando e  estudando com bolsa do ProUni para criar dois filhos, Rebeca Mendes da Silva Leite, de 30 anos, pediu à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, o direito de realizar o aborto de maneira segura e legal. O pedido foi negado sem análise do mérito pela ministra, mas a estudante não ficou sem amparo. Rebeca conseguiu a interrupção da gestação em viagem à Colômbia. Ela estava grávida de sete semanas e havia viajado ao país a convite de organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para participar de debates sobre seu caso judicial no Brasil.

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Foto: Anis – Intituto Bioética

Sabendo que estava protegida pelas hipóteses de aborto legal colombianas, Rebeca decidiu realizar o procedimento. O aborto é um procedimento autorizado pela Corte Constitucional do país vizinho desde 2006 em três circunstâncias: quando a gravidez coloca em perigo a saúde física ou mental da mulher, quando a gravidez é resultado de estupro ou incesto e em caso de malformações do feto incompatíveis com a vida fora do útero. O procedimento é feito por um médico clínico geral ou obstetra que auxilia a mulher a escolher entre a interrupção com medicamentos ou cirúrgica. Há um acompanhamento médico após o procedimento e a mulher ainda escolhe a implementação de um método contraceptivo de sua preferência.

Rebeca conta que desde que chegou na Colômbia foi tratada com acolhimento e respeito. “Aqui há a compreensão sobre o que eu estava passando e o que eu queria fazer com o meu corpo. O procedimento da interrupção ocorreu sem grandes problemas, sem nenhum empecilho. Detalharam todo o processo. Eu fui muito bem orientada. Eu fiz a interrupção da gravidez e já saí com o método contraceptivo que escolhi. Diferente do Brasil. Na Colômbia, recebi carinho e atenção de pessoas que não são da minha pátria, mas que entendem a minha luta. Eles lutam diariamente pelos direitos das mulheres. Então só tenho a agradecer a todos que estiveram envolvidos”, comenta aliviada.

A Anis – Instituto Bioética apoiou Rebeca desde a sua tomada de decisão e responde dúvidas com relação ao procedimento e a estadia da estudante na Colômbia:

O que aconteceu com Rebeca desde que teve o pedido de aborto negado?
Depois da resposta Supremo Tribunal Federal, Rebeca estava em espera pela decisão do habeas corpus impetrado diante da justiça de São Paulo. Seu objetivo era receber amparo judicial para realizar o aborto legal e seguro no país. Neste intervalo, Rebeca foi convidada por organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para ir à Colômbia falar sobre sua experiência de litígio no Brasil. Sabendo que o aborto na Colômbia é permitido nos casos de risco à saúde mental da mulher, e considerando o silêncio do STF e do TJSP sobre sua demanda, Rebeca decidiu realizar o procedimento durante a viagem.

Rebeca pretendia fazer o aborto na Colômbia desde o início?
Não. Rebeca procurou a Anis em busca de uma forma de interromper a gestação que não colocasse sua saúde em risco e que não fosse crime. Por isso decidiu expor sua história em pedidos ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Havia planos para atender a demanda de Rebeca em um país onde o aborto é legal se ela não conseguisse a autorização judicial até perto de completar 12 semanas de gestação. Mas o convite para a viagem à Colômbia veio antes desse prazo, e Rebeca decidiu realizar o procedimento assim que possível.

Onde Rebeca fez o procedimento?
Em uma clínica da organização privada e sem fins lucrativos Profamilia, que oferece diversos serviços de planejamento familiar e cuidado à saúde sexual e reprodutiva na Colômbia.

Quem pagou pelo procedimento?
A Profamilia tem uma atuação assistencial, por meio da qual oferece o procedimento gratuito a mulheres que não podem pagar.

Quem pagou pela viagem de Rebeca?
A viagem foi realizada a convite e financiada pela pela rede latino-americana CLACAI (Consorcio Latino-Americano Contra o Aborto Inseguro). Na Colômbia, Rebeca participou de reunião com o grupo La Mesa por La Vida y La Salud de Las Mujeres.

Como foi o procedimento?
Rebeca foi acolhida na clínica e, após receber explicações sobre métodos para realizar o aborto, optou pelo cirúrgico. Também foi orientada sobre diversos métodos contraceptivos e escolheu o de sua preferência. Tudo transcorreu bem, ao longo de uma manhã, e Rebeca saiu da clínica já com o implante subcutâneo.

Ter feito o procedimento fora do país coloca Rebeca em risco diante da lei brasileira?
Não. A lei brasileira só é aplicável no país. Rebeca fez o aborto amparada pelas leis colombianas e não pode ser punida por isso.

O que acontecerá com o habeas corpus impetrado em São Paulo?
Rebeca solicitará que a ação não tenha mais seguimento, porque já não há propósito.

Isso significa que Rebeca desistiu da decisão judicial antes da hora?
Talvez seja preciso recolocar a pergunta: o pedido de Rebeca era de urgência, e não foi respondido no tempo que sua situação crítica exigia. Ela foi desamparada pelo silêncio da justiça brasileira. Cada dia de espera representava uma ameaça crescente à sua saúde. Rebeca tomou a decisão que considerou mais correta diante da emergência e das condições que tinha. Mas o debate judicial que levantou no Brasil sobre o sofrimento imposto pela criminalização do aborto na vida concreta das mulheres seguirá à sua história.

Solidão – A impossibilidade de prosseguir com sua decisão de forma segura e legal, com acesso aos devidos cuidados em saúde, causava à Rebeca intenso sofrimento mental. Depois do procedimento de interrupção, ela conta que essa sensação passou. “Passou o sentimento de solidão. A decisão já foi tomada e posta em prática. Eu me sinto como a velha Rebeca que existia antes de começar tudo isso. Não tenho mais nenhum sintoma de depressão, solidão, angústia. Eu me sinto normal e não me sinto envergonhada por me sentir bem”, ressalta.

Aborto no Brasil – Uma em cada cinco mulheres até os 40 anos já fez, pelo menos, um aborto no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto 2016. Estima-se que 500 mil mulheres façam aborto a cada ano, o que significa quase uma mulher por minuto. Segundo a mesma pesquisa, cerca de metade das mulheres precisa ser internada depois de um aborto ilegal no país.

“O desfecho do caso de Rebeca demonstra o desamparo das mulheres no Brasil. Para viver um procedimento de aborto com segurança, Rebeca teve de ir a um país vizinho que reconhece que qualquer gestação indesejada é uma gestação de risco pelo sofrimento que impõe às mulheres” diz Gabriela Rondon, uma das advogadas de Rebeca Mendes.

No Brasil, o aborto é permitido somente nos casos de estupro, de anencefalia do feto ou quando a gestação representa um risco para a vida da mulher. Para todas as outras situações, valem os artigos 124 e 126 do Código Penal, datado da década de 1940, segundo os quais provocar o aborto em si mesma, com ou sem o auxílio de outra pessoa, configura crime com pena de um a três anos de prisão. Quem auxilia ou realiza o procedimento, mesmo com o consentimento da mulher, está sujeito a uma pena de um a quatro anos de prisão.

Apoio – A Academia Nacional de Medicina elaborou uma carta endereçada à presidente do STF, ministra Carmen Lúcia defendendo a descriminalização do aborto. “Quando realizado em condições adequadas, segundo os protocolos recomendados pela OMS, o aborto é um procedimento seguro e eficaz, com baixo risco de sequelas e que contribui para reduzir a morbimortalidade materna. O tema precisa ser debatido com base em evidências científicas e nas experiências bem documentadas dos países onde a interrupção voluntária da gravidez é realizada legalmente”, afirma o texto. A Academia observa ainda que, em países onde a prática foi legalizada, houve queda tanto do número de procedimentos quanto de mortes maternas.

Um manifesto “em prol do direito ao aborto seguro para todas as mulheres brasileiras e em apoio a Rebeca Mendes” também foi divulgado este fim de semana. O documento é assinado por 170 mulheres do meio intelectual e artístico do país que defendem “não podemos silenciar sobre essa realidade, que afeta milhares de mulheres. Declaro que sou uma delas. Declaro ter feito um aborto. Rebeca Mendes não é uma exceção”. Entre elas, estão nomes como a atriz Camila Pitanga, a produtora Maria de Médici, a filósofa Marcia Tiburi e a psicanalista Maria Rita Kehl.

Mensagem – Rebeca espera passar uma mensagem positiva e somar forças para ajudar outras mulheres que passam pela mesma situação que ela enfrentou. “Eu espero mostrar que existe uma outra opção para todas as mulheres que eu vejo, diariamente, nas redes sociais, passando pela mesma condição que eu, cogitando abortar clandestinamente por não ter a possibilidade de fazer isso fora do Brasil. Para elas eu digo: há organizações, há pessoas que lutam para que nós tenhamos esse direito”, conta emocionada.

“Eu espero que agora as mulheres vejam que elas têm outra opção. Eu fui a primeira e sabia que a minha resposta no judiciário poderia ser negativa. Afinal, como eles iam dar uma sentença favorável se uma mulher estava pedindo? Era como se só eu no Brasil precisasse abortar. O nosso Estado infelizmente fecha os olhos pra essas mulheres. Essas mulheres precisam aparecer, ter a coragem de dar nome e voz para a história delas e mostrar que isso não acontece só com a Rebeca, mas também com a Maria, com a Julia, com a Fernanda, com milhares de nós. Devemos mostrar que existimos e que precisamos de um respaldo da nossa sociedade”, conclui.

“Rebeca enfrentou a pressão pública ao oferecer sua história e seu rosto em uma demanda tratada de uma maneira tão injusta e estigmatizada no Brasil. É um alívio que o acolhimento de outro país tenha permitido uma solução segura e respeitosa para a sua demanda, mas a sua história nos lembra das outras 500 mil mulheres que vivem um aborto inseguro no país todos os anos. Estamos falando de uma crise permanente de saúde pública que está nas mãos do STF decidir”, conclui Sinara Gumieri, que integra a equipe de advogadas de Rebeca.

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Nesta madrugada, o Supremo Tribunal Federal conheceu a história de Rebeca Mendes Silva Leite por meio de uma ação apresentada pelo PSOL e a Anis – Instituto Bioética pedindo o direito de interromper uma gravidez de poucas semanas, indesejada. E hoje convidamos você também a conhecer a história de Rebeca, contada por ela mesma, nesta carta direcionada a Ministra Rosa Weber, pedindo a descriminalização e segurança do aborto para o seu caso.

Para além do STF, para além de Rosa Weber. Nós, mulheres, também precisamos saber a história de Rebeca. Reconhecer sua identidade, seu rosto, seus medos e anseios é protegê-la da lei que criminaliza, da sociedade que julga. É personificar a luta pela descriminalização para todas as brasileiras.

Em plena consciência de sua escolha, Rebeca lê, em vídeo, sua carta direcionada a Ministra Rosa Weber, pedindo a descriminalização e segurança do aborto para o seu caso. Se, ao longo das últimas semanas, a Anis tem trazido histórias que precisam ficar no anonimato por meio da campanha #EuVouContar, hoje é a Rebeca quem vai contar corajosamente a sua, personificar os medos e as dores de muitas de nós. Leia a transcrição: 

Meu nome é Rebeca tenho 30 anos, sou mãe de dois meninos. Thomas de 9 anos e Felipe de 6 anos.  Antes de me julgar, Ministra Rosa Weber, peço que me escute, pois não é fácil, mas tentarei descrever o motivo do meu atual sofrimento.

Na terça-feira, dia 14/11, eu descobri que estou grávida. Minha menstruação, até então, estava atrasada apenas 10 dias. O que isso significa pra mim naquele momento? Bom, senti um grande abismo se abrindo e me sugando cada vez mais para baixo. Desde então, eu já não sei o que significa dormir, comer, estudar, enfim, tudo o que faço tranquilamente e quando não estou fazendo “nada”, eu estou chorando. Fico imaginando as possibilidades, e a longo prazo se eu estivesse vivendo outra realidade, o mínimo diferente que fosse, eu não estaria escolhendo fazer um aborto. O que tentarei fazer aqui é um relato verdadeiro do que está acontecendo neste momento e mais ainda, tentarei ser o mais racional possível.

Como já disse, sou mãe de dois meninos lindos e mesmo o pai pagando a pensão alimentícia para os meninos e morando muito perto de nós, ainda assim, me considero uma mãe que também faz o papel de pai. O lema dessa pessoa que se considera pai dos mais filhos é: “eu já pago pensão”. Isso é o que eu escuto basicamente, em qualquer situação, desde chegar da faculdade às 23 horas e perceber que um deles está com febre alta e ligar e pedir que nos leve até o hospital, pois ele tem carro e eu não, e a resposta que eu tenho é: “Eu não pago pensão? Chama o Uber e leva você”. Dentre outros absurdos que não vem ao caso.

Mas o que isso tem a ver com a atual gestação? Infelizmente, o pai dos meus dois filhos é responsável também por essa gestação. Quando eu conto esse detalhe, geralmente as pessoas riem da situação. Mas não sabem como é ter um relacionamento saudável e sem remorsos, sendo uma mãe solteira. Mesmo assim, estamos separados há 3 anos, e essa foi a única aproximação amorosa que tivemos. Mas ainda assim não é esse o motivo que me leva a decisão de interromper essa gestação.

Já adianto aqui, são dois motivos que me levam a essa decisão. O principal deles é que em fevereiro para ser mais exata, no dia 11/02/2018 eu serei uma mulher desempregada. Tenho um contrato de trabalho temporário no IBGE, e nessa data ele se encerra sem a possibilidade de renovação. Serei então uma mãe de dois filhos desempregada e grávida. Se já é difícil para uma mulher com filhos pequenos trabalhar em nosso país, é impossível uma mulher grávida conseguir um trabalho para qualquer atividade que seja. Seremos três pessoas passando necessidades, não conseguindo pagar meu aluguel sem ter dinheiro para comprar comida e com toda essa dificuldade ainda terei um bebê a caminho. Esse é um cenário que a longo prazo não tenho perspectiva de melhora.

O outro motivo que tenho é que estou cursando o quinto semestre do curso de Direito, curso este onde eu possuo uma bolsa integral pelo PROUNI e é o passaporte da minha família para uma vida melhor. Continuar com essa gestação significa também interromper por prazo indeterminado a conclusão desse sonho. Não sou uma mulher irresponsável, estava trocando de uso de um contraceptivo por outro. Como não possuo convênio médico, todo procedimento é feito pelo SUS, onde todo e qualquer procedimento é moroso.

Moro na cidade de São Paulo e, pra ser sincera, eu poderia ter ido até a Praça da Sé com R$ 700,00 reais e comprar o tal do “Citotec” e ter tomado na minha casa e acabado com tudo isso. Diante dessa possibilidade pesquisei o funcionamento e as consequências deste ato. Me entenda, eu nunca estive nessa posição e os relatos que vi foram mais que suficientes para descartar essa possibilidade. O medo do procedimento não funcionar e acarretar má-formação ou o remédio causar uma hemorragia causando a minha morte e, ser levada para um hospital e chegando lá ser levada para delegacia. Não quero ser presa e muito menos morrer. Não parece ser justo comigo. Não estou grávida de 4 ou 5 meses, estou grávida de dias apenas.

Arte: Kaol Porfírio.

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No começo de outubro, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama estava no país para uma palestra organizada por um jornal brasileiro e, nessa semana de visitação a São Paulo, fui convidada a encontrá-lo em um jantar privado oferecido a seis convidados.

O pequeno grupo era formado por pessoas que pudessem trazer pautas próximas aos novos planos de Obama. Após a presidência, ele pretende mentorar e conectar jovens líderes ao redor do mundo por meio de uma fundação que leva seu nome.

Na manhã do mesmo dia, durante o evento, ele já havia adiantado publicamente um pouco do porque essa abordagem é importante:  “claro que o governo é importante em áreas como educação e esforços para reduzir a pobreza, mas nada vai mudar se, na comunidade local, pessoas não se encontrarem, construírem confiança e aprenderem a trabalhar juntas. Isso vai ser refletido em como será a política ao longo do tempo”.

Fui convidada, como fundadora da Think Olga, para falar sobre questões de gênero. Não é um tema estranho ao ex-presidente – tanto ele, quanto a ex-primeira dama Michelle Obama, durante o mandato, foram cabeça de várias ações pelos direitos das mulheres – mas era importante saber como o tema se encaixaria nas ações da nova fundação.

O meu plano era defender que a pauta das mulheres deveria estar no foco de qualquer iniciativa que queira de fato fazer a diferença no mundo. Se quiser fortalecer a sociedade para a mudança social, a Fundação Obama precisa apoiar, em especial, as mulheres ao redor do mundo. Sejam elas líderes em questões de gênero ou líderes em outras áreas.

A mensagem foi bem recebida. Logo no início do jantar, Obama começa uma rodada de apresentações e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, afirma: “Eu fiz a minha lição de casa. Você é da ONG Think Olga, certo?”

“Sim, muito prazer!”

Aproveitei o momento para contar sobre o cenário brasileiro – do levante popular conhecido como a Primavera das Mulheres, mas também tomado por uma onda retrógrada que tenta fortemente manter o status quo. Falei sobre nossas campanhas e principalmente sobre nossa vontade em criar uma consciência sobre problemas e opressões ainda invisíveis e normalizados pela sociedade. Obama concordou e elogiou: “O trabalho de mudança de uma cultura começa com a conscientização”.

E foi algo muito próximo do como agimos em prol dos direitos das mulheres. Quando falamos que somos uma ONG, o imaginário das pessoas nos levam para aquela imagem de assistência. Porém não fazemos atendimento de vítimas, não mentoramos pequenos grupos escolares. Somos comunicadoras e nossa missão é o empoderamento feminino por meio da informação. Ou seja, acreditamos na criação de conteúdos gratuitos que possam quebrar barreiras do offline e atingir pessoas no Brasil inteiro, que permita a elas reconhecer uma opressão, entender melhor o problema e agir para mudar seus microuniversos como novas multiplicadoras de informação, usando nossos produtos como ferramenta.

Obama parecia concordar com a proposta: “As pessoas precisam ter consciência das desigualdades e violências que existem para que deem passos rumo à mudança”. E mostrou se preocupar com questões parecidas: qual a melhor maneira de usar as mídias disponíveis hoje para educar? Como lidar com violências e perseguições que acontecem nelas? E como criar, em cada contato, alguém que possa espalhar a mudança adiante?

O ex-presidente dos EUA, com a experiência de quem determinou os rumos do mundo durante oito anos, nos explicou sua estratégia e ambição com a fundação. “A nossa programação internacional estará focada em criar um espaço para que todos estes jovens líderes de todo o mundo se unam e comecem a resolver problemas, tanto localmente, quanto nacionalmente e internacionalmente.”

Nós, da Think Olga, buscamos um impacto local, mas somos igualmente ambiciosas. Nosso foco está na criação de conteúdo profundo, rico e gratuito sobre temas de tamanha importância para as mulheres. Essa foi uma oportunidade incrível para explicar o que fazemos: uma nova proposta de educação. Queremos criar debates em cima de temas, esclarecer pontos, direcionar conversas, etc. Não à toa, nossos materiais já foram usados em eventos de RH, escolas, universidades, grupos feministas, etc.

Buscamos ser um canal pelo qual pessoas que acreditam na igualdade de gênero possam se conectar a um número grande de pessoas e ensiná-las a espalhar o conhecimento sobre feminismo a um número maior ainda. Nossa luta pela equidade de gênero está, também, em dar ferramentas para que cada vez mais pessoas possam compreender e entrar nessa jornada de transformação. É preciso não só entender, mas também valorizar esses novos formatos educativos e que desafiam o sistema tradicional.

E, em outubro, foi a vez do Obama conhecer essa rede. Estamos em um momento em que forças conservadoras e sexistas ganharam espaço e ameaçam destruir diversas conquistas recentes das mulheres. Independentemente de opiniões e apontamentos sobre os rumos dos mandatos, é importante ter, nesse momento, aliados capazes de reforçar a equidade de gênero como uma pauta urgente para todo o planeta.

Agradecemos a parceria e apoio do Consulado dos EUA em São Paulo.

Clique aqui e apoie o nosso trabalho.

Juliana de Faria é fundadora da Think Olga.

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Após o baixo desempenho durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, esperava-se do próximo técnico da Seleção Brasileira de Futebol feminino o resgate da energia do time, além de renovações para seguir crescendo em campo contra outras grandes seleções. Esta foi a missão de Emily Lima nos 10 meses de comando do time, com resultados interessantes: em 13 jogos, ela somou sete vitórias, um empate e cinco derrotas e inovou, por exemplo, ao apostar em jogadoras novatas ao lado das experientes Marta e Cristiane. Emily só estava começando a mostrar seu trabalho quando foi demitida pela CBF. “Disseram que estavam buscando resultados e que ela não os apresentou. Mas ela não poderia apresentar sem ter participado de jogos oficiais, só amistosos. Ao contrário do Vadão (antecessor de Emily), que não teve resultados e agora está sendo trazido de volta para a Seleção”, explica a jornalista esportiva Luciane Castro, colunista do Portal Vermelho.

Quando se é uma mulher em um alto posto de comando, as expectativas vão além dos resultados. Inicialmente, a contratação de Emily para uma função tão importante em um ambiente sempre dominado por homens pode ter simbolizado um avanço. Mas, olhando com profundidade, o caminho percorrido por Emily e muitas outras mulheres que chegam a cargos altos em suas profissões é frágil. Além do teto de vidro – que somente dá a impressão que o céu é o limite, quando na verdade ainda existem barreiras mantidas pelo machismo institucional – há também uma fundação muito frágil para aquelas que conseguem chegar ao topo apesar das adversidades. Há um chão de vidro.

Uma pesquisa de 2005, feita pelos professores Michelle Ryan e Alexander Haslam, da Universidade Exeter, na Inglaterra aponta que, normalmente, as mulheres são chamadas para cargos de lideranças em momentos de crise nas empresas, como, no caso da CBF, por causa das críticas à valorização do esporte masculino em detrimento ao esporte feminino. A presença de Emily ajudou a CBF a mascarar problemas internos, como o abismo salarial entre homens e mulheres que trabalham para a CBF, usando a imagem da técnica para “vender” um progresso por parte da administração.

Os pesquisadores explicam que o chão de vidro existe porque as mulheres recebem cobranças diferentes que os homens. As missões dadas a elas, normalmente são hercúleas ou condenadas ao fracasso aos olhos dos administradores. Como uma armadilha preparada para tirá-la do comando. Para Lu Castro, a contratação de Emily não só tinha a intenção de sabotá-la, como também servir de justificativa para se trazer um homem para o comando do time novamente.

Não é impossível caminhar sobre esse chão de vidro e resistir à queda. Mas são condições desiguais e injustas, que nem deveriam existir. Como paralelo, esta matéria da BBC News identifica o problema como “escada quebrada”, que só dá a impressão de subida. Uma situação que acontece nas altas esferas de poder e em praticamente todas áreas.

Este é o caso da executiva Marissa Mayer. Hoje é difícil imaginar que sua passagem como CEO do Yahoo seria tão turbulenta. A principal missão dada em sua chegada, em 2012, era de recuperar o posto da marca como pioneira da internet e superar o Google. Ao longo de sua gestão, Mayer recebeu críticas profissionais, por ter um estilo diferente de gerenciamento, mas o julgamento não se restringiu a isso. Ela foi criticada pela maternidade de gêmeos ao longo do processo, algo impensável em uma cultura como a norte-americana, sobretudo no ambiente machista do Vale do Silício. Cinco anos depois, o baixo crescimento foi argumento para a venda da empresa para a gigante Verizon. Inicialmente, Mayer não pretendia pedir demissão, mas com tamanha culpabilização e excessiva cobrança a fez desistir do cargo. Para o The Wall Street Journal, em uma reportagem especial sobre o conceito do chão de vidro, a administradora não teria caído tão facilmente se fosse um homem. Na verdade, teria tido uma chance no novo modelo da empresa.

O mesmo poderia ser aplicado então para Ellen Pao, durante sua gestão do site Reddit. Para uma mulher, estar neste ambiente pode ser um chão de vidro com um profundo penhasco logo abaixo, pois a empresa é composta por uma maioria masculina (74% dos funcionários são homens) e isso se reflete em seus usuários, que fazem dos fóruns do site espaços para demonstrações de misoginia, racismo, LGBTfobia e outros discursos de ódio, sem a menor restrição por parte do site.

Especialistas questionam o trabalho de Pao, o que justificaria sua demissão, não fossem todas questões de gênero envolvidas. As ofensas machistas internas e do público chegaram a gerar petições online, assinadas por homens, para a remoção da empresária, como lembra o The Daily Dot. Mas este não foi um problema recente. Seu cargo foi diminuído desde a sua chegada, sendo colocada como a única “CEO interina” da empresa. Por que não apenas CEO?

O The Daily Dot também destacou que a crise no Reddit durante a administração de Pao foi propositalmente levada a público de uma maneira que nunca aconteceu com homens CEOs, como se, sabendo da tendência violenta do público, a empresa quisesse usar a pressão para dispensa-la.

Se ter mulheres em altos cargos de liderança é um passo importante para levar mais outras mulheres a crescer no mercado de trabalho, principalmente em espaços dominados por homens, o chão de vidro é preocupante por representar mais um obstáculo que enfrentamos na jornada um retrocesso nesta luta.

Perder mulheres CEO nesta armadilha é perder espaços de poder. É desestimular as mulheres que as seguem. Para os homens líderes, a estratégia do chão de vidro é mais uma maneira de justificar seu domínio. Por isso, é preciso identificar essa armadilha antes de cair nela e assim não ceder a um mundo corporativo e masculino, que insiste em tirar as mulheres do jogo.

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Embora verifiquemos alguns avanços em matéria de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, como no julgamento pelo Supremo Tribunal Federal nos autos do Habeas Corpus nº 124.306, em que o Ministro Luís Roberto Barroso, acompanhado dos Ministros Rosa Weber e Edson Fachin, teceu inúmeras considerações a respeito da descriminalização do aborto no caso analisado, referida decisão, moderna e atual do Judiciário brasileiro veio acompanhada de um movimento e de crescente retrocesso por parte do Legislativo. Este anacronismo encontra-se materializado pela PEC 181/2011.

A PEC 181/2011 que inicialmente dizia respeito à ampliação de direitos trabalhistas, com o aumento do tempo da licença-maternidade para mulheres cujos filhos nasceram prematuros, por exemplo, e que aparentava ser um benefício para as mulheres, logo se transformou num pesadelo. Lamentavelmente, o Legislativo modificou o texto original em dezembro, o que levou a instalação de uma Comissão Especial para discutir o aborto.

Nesta Comissão passou-se a debater, então, formas de restringir ainda mais o acesso aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, proibindo o aborto em todas as circunstâncias até mesmo quando já autorizados pela legislação e jurisprudência brasileira, como no caso de estupro, gravidez de risco para gestante e anencefalia. Isto porque o parecer do Relator da Comissão Especial que discute a PEC, apresentou uma alteração aos artigos 1º e 5º da CF estendendo até o momento da concepção a inviolabilidade à vida, o que significa equiparar o embrião ao recém-nascido.

Como sabemos, além do novo caso julgado pelo Supremo Tribunal Federal, a legislação brasileira vigente permite expressamente o aborto em duas situações específicas: quando a vítima sofreu um estupro ou há risco de morte da mulher[1]. Nestas duas hipóteses, a lei permite a prática do aborto legal, que deve ser prestado pelo sistema público e privado de saúde, de forma segura e integral, a todas as gestantes. A partir do precedente no STF de 2012, por 8 votos a 2, foi permitida a interrupção da gestação nos casos de anencefalia. Neste julgamento, os Ministros decidiram que os médicos que realizam a cirurgia e as gestantes que decidam interromper a gravidez não praticam crime. Assim deliberou o STF:[2]

O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, julgou procedente a ação para declarar a inconstitucionalidade da interpretação segundo a qual a interrupção da gravidez de feto anencéfalo é conduta tipificada nos artigos 124, 126, 128, incisos I e II, todos do Código Penal, contra os votos dos Senhores Ministros Gilmar Mendes e Celso de Mello que, julgando-a procedente, acrescentavam condições de diagnóstico de anencefalia especificadas pelo Ministro Celso de Mello; e contra os votos dos Senhores Ministros Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso (Presidente), que a julgavam improcedente. Ausentes, justificadamente, os Senhores Ministros Joaquim Barbosa e Dias Toffoli. Plenário, 12.04.2012.

O tema do aborto deve ser tratado sob a ótica da moderna jurisprudência pátria, que deve seguir as evidências científicas, a melhor tendência mundial de proteção à saúde, inclusive respeitando-se os tratados internacionais firmados pelo Brasil e a Constituição Federal. A Pesquisa Nacional do Aborto, realizada em 2010, pelo instituto Anis, concluiu que no Brasil pelo menos uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já se submeteu à prática do aborto.[3] Por esta razão, não há como não concluirmos que o aborto é uma questão diretamente relacionada à saúde das mulheres brasileiras.

Ademais, conforme se observa na tendência mundial dos direitos sexuais e reprodutivos, há uma incongruência no argumento de que a criminalização possa diminuir o número de abortos, especialmente porque as pesquisas demonstram que, de um lado, nos países em que o aborto não é criminalizado, como no nosso vizinho Uruguai, por exemplo, caso seja praticado até o primeiro trimestre, houve uma queda expressiva no número de abortos, por outro lado, nos países que continuam proibindo o aborto, as taxas continuam muito elevadas.

Com efeito, desde o início da década de 1990, no âmbito da legislação nacional, foram editados muitos instrumentos legislativos visando garantir o atendimento na rede pública de saúde, aos casos de aborto legal. Isto foi possível em razão da intensa mobilização de diversos grupos de mulheres, em união com a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).[4] Cumpre destacar que o Ministério da Saúde editou duas normas técnicas a respeito deste tema: “Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes” e a norma técnica: “Atenção humanizada ao abortamento”.[5] Estes instrumentos locais estão em consonância com o marco internacional de proteção às mulheres. A Convenção CEDAW em seu artigo 2º dispõe o seguinte: “Os Estados-parte condenam a discriminação contra a mulher em todas as suas formas, concordam em seguir, por todos os meios apropriados e sem dilações, uma política destinada a eliminar a discriminação contra a mulher, e com tal objetivo se comprometem a: f) Adotar todas as medidas adequadas, inclusive de caráter legislativo, para modificar ou derrogar leis, regulamentos, usos e práticas que constituam discriminação contra a mulher, além de g) Derrogar todas as disposições penais nacionais que constituam discriminação contra a mulher.” A legislação que criminaliza a mulher é visivelmente uma legislação discriminatória.

O Comitê CEDAW que monitora o cumprimento das obrigações da Convenção CEDAW (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres) realizou a seguinte recomendação ao Estado Brasileiro:

“Agilizar a revisão da legislação que criminaliza o aborto, a fim de eliminar as disposições punitivas impostas às mulheres, como já recomendado pelo Comitê 9 (CEDAW/C/BRA/CO/6, parágrafo 3.); e colaborar com todos os intervenientes na discussão e análise do impacto do Estatuto do Nascituro, que restringe ainda mais os já estreitos motivos existentes que as mulheres façam abortos legais, antes da aprovação pelo Congresso Nacional do Estatuto do Nascituro”[6]

Portanto, com a referida manobra do Congresso Nacional pátrio, constituído majoritariamente por aqueles que não engravidam, não está observando a obrigação do Estado Brasileiro em cumprir com as disposições da Convenção CEDAW. O compromisso do Estado Brasileiro deve ser com o respeito à vida, a vida de milhares de meninas e mulheres que estão morrendo em razão de falta de acesso à saúde.

Como ocorre com uma grande parte da legislação pátria, o fato de existir uma legislação específica, bem como um tratado internacional ratificado pelo Estado do Brasil e uma decisão do STF, não garante necessariamente que esse direito das gestantes seja efetivado pelas instituições de saúde.

Com efeito, os serviços de aborto legal no Brasil vêm enfrentando obstáculos crescentes, em virtude das pressões exercidas por extratos conservadores da sociedade brasileira e determinados setores religiosos, em que pese à laicidade do Estado brasileiro. Antes existiam aproximadamente 65 serviços[7] que atendiam às gestantes que necessitavam realizar o procedimento de aborto legal, atualmente os números diminuíram sensivelmente para aproximadamente 30 serviços, muito embora não seja possível obter a informação exata acerca do número de serviços, por falta de registros formais.[8] A transparência a respeito do número de serviços, a sua distribuição regional (ou da inexistência destes serviços em determinadas regiões do Brasil) e o número de atendimentos em caso de aborto legal, também não se encontram sistematizados de forma eficiente, técnica e ampla, o que por si só já caracteriza uma omissão estatal no dever de prestar a assistência integral à saúde.

É preciso ter coragem para dar a visibilidade e a dimensão necessárias ao problema. Conforme Pesquisa Nacional sobre o aborto, uma em cada cinco mulheres brasileiras entre 18 e 29 anos já realizou aborto no Brasil.[9] A questão precisa ser tratada sob a ótica do direito à saúde, os avanços existentes não podem ser acompanhados de tantos retrocessos, em especial com violação das obrigações já assumidas pelo Estado Brasileiro, inclusive de diminuição da mortalidade materna, que não ocorrerá se não houver uma atenção à saúde das brasileiras, em especial às gestantes.

[1] Artigo 128, incisos I e II, do Código Penal.
[2] http://s.conjur.com.br/dl/acordao-interrupcao-gravidez-anencefalo.pdf
[3]DINIZ, Debora e MEDEIROS, Marcelo, Aborto no Brasil uma pesquisa domiciliar com técnica de urna, http://www.scielo.br/pdf/csc/v15s1/002.pdf, 2/06/2017.
[4] SANTIN, Myrian, Sexualidade e Reprodução: da natureza aos direitos: a incidência da Igreja Cem viratólica na Tramitação do PL 20/91, aborto legal, e PL 1151/95, união civil de pessoas do mesmo sexo. Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2005.
[5] BRASIL, Ministério da Saúde, Norma Técnica, Brasília 2005.
[6] Observações Finais do Comitê CEDAW,  http://www.spm.gov.br/assuntos/conselho/atas-das-reunioes/recomendacoes-vii-relatorio-cedaw-brasil, em 16/9/2017.
[7] http://oglobo.globo.com/brasil/brasil-tem-apenas-65-servicos-para-aborto-legal-10696828
[8] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/07/1796717-procuradoria-apura-omissao-do-estado-nos-servicos-de-aborto-legal-no-brasil.shtml
[9] DINIZ, Debora, MEDEIROS, Marcelo, Aborto no Brasil: uma Pesquisa Domiciliar com Técnica de Urna, ANIS, Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.

Fabiana Dal’Ma é promotora de Justiça do MP/SP, mestre em Direitos Humanos pela UNSW (Austrália), vice- Presidente da ABMCJ-SP, diretora da APMP e membro do MPD.

Arte: Milagros Vitale

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Ao encerrar sua fase de estrela teen da Disney, a cantora Miley Cyrus se desprendeu completamente da imagem pura e infantil para cantar sobre sexo e outros temas que ela considerava adultos. “Coming of age”: é assim que a mídia internacional chama a fase de amadurecimento de um artista que começou sua carreira ainda criança, como Miley. Em questão de processos, Miley fez o esperado dessa fase, que vem acompanhada de uma ação de marketing pesada, com novo álbum e novo visual. Mas a mídia e a opinião pública não aceitaram a versão adulta da estrela de Hannah Montana e, em meio a opiniões machistas sobre a artista, uma questão de preconceito e apagamento racial surgia, demandando atenção.

Muito frequentemente, esta nova era para os artistas brancos vem cheia de elementos apropriados da cultura negra que, em vez de traduzirem e homenagearem de fato a cultura em questão, vestem artistas brancos de estereótipos já atribuídos socialmente a pessoas negras, como a hipersexualização de corpos e a idealização da marginalidade. Logo, na leitura de Miley Cyrus, isso significou twerks e uso de drogas, tudo com o hip-hop como trilha sonora; já para o cantor Justin Bieber, significou aderir a dreads no cabelo, a um estilo mais próximo do rap americano de se vestir e até de fazer música, além de, é claro, firmar parcerias com rappers negros. Esta fase foi diretamente atrelada a atos irresponsáveis do, agora adulto, astro, incluindo uma prisão por dirigir bêbado.

Esta mudança de persona não é algo novo e, muitas vezes, pode acontecer de maneira sutil, como o amadurecimento de Justin Timberlake, que depois de sair de uma boy band formada por garotos jovens e brancos, com músicas dançantes sobre amor, trabalhou com o rapper e produtor negro Timbaland e passou a utilizar batidas de funk americano, jazz e até blues para falar sobre sexo. Quem percebeu essa tendência foi a cantora independente estadunidense Richey Collazo, que mostrou no Twitter exemplos também de com Britney Spears, Christina Aguilera e outros artistas fizeram o mesmo em suas fases de amadurecimento.

Em tempos de um governo que não apoia minorias nos Estados Unidos, Miley volta a renovar sua imagem pessoal e musical, dizendo, em matéria de capa da Billboard, que a música negra a impulsionou para o que ela agora julga ser uma imagem vulgar e que sua “redenção” será voltar a suas raízes, cantando pop e country. Tudo isso usando maquiagem e roupas leves e claras, quase uma personificação daquela ideia de mulher bela, recatada e do lar.

Este não é um questionamento sobre a liberdade sexual de Miley, mas sim de como ela e outros artistas brancos escolhem expressá-la, pois, em nome de sua própria liberdade, acabam colocando ainda mais amarras para pessoas negras, especialmente mulheres.

Mesmo recebendo slut shaming por seus rebolados e danças originárias da cultura negra, Miley foi mais presente e aceita no show business do que quando mulheres negras praticam a mesma arte. E elas quase sempre acabam sendo hipersexualizadas por isso. Um exemplo disso foi sua participação no VMA como uma cantora adulta. Depois da performance no VMA de 2013, ela foi convidada a apresentar a mesma premiação em 2015, enquanto a rapper Nicki Minaj usava as redes sociais para criticar a falta de indicações de artistas negros.

Hoje, Miley renega esta cultura, culpando-a por afastá-la do que agora acredita ser digno e respeitável. Assim, a cantora endossa a posição de marginalização e depreciação de mulheres negras, reafirmando que ser branca é mais culto, puro e recatado, ou seja, mais digno de respeito do público, já que é isso que ela busca atualmente.

Sendo a música e a cultura pop parte da formação cultural e de opinião do público de massa, é preciso se atentar para o racismo presente na indústria musical. A conversa sobre apropriação cultural não é uma proibição para pessoas brancas consumirem ou reproduzirem a cultura negra, mas sim um pedido de respeito a partir do entendimento de que o racismo existe e, por causa disso, existem batalhas para que esta cultura possa ser consumida sem criminalização. Mas, principalmente, para que artistas brancos reconheçam seus privilégios e não esvaziem a música negra em prol de seus interesses pessoais e comerciais.

Trazendo a situação para o contexto da música brasileira, a cantora Mallu Magalhães demonstrou, recentemente, o que é não reconhecer privilégios como artista branca performando música negra. O clipe da canção “Você Não Presta” foi considerado racista por movimentos e ativistas. Embora não tenha sido usada como um marco para a entrada da vida adulta dessa cantora (que ficou famosa aos 15 anos), a música é a primeira da divulgação do novo álbum de Mallu após a gravidez. Porém, quando a cantora dedicou, em rede nacional, uma música “pra quem é preconceituoso e fala que branco não pode tocar samba”, claramente se referindo às críticas que recebeu, demonstrou tudo menos amadurecimento e respeito à discussão sobre racismo na qual se viu inserida.

Para que Mallu entenda sobre a questão racial por trás da música que canta, é preciso sair do modo de defensiva, de proteger seu direito de cantá-la como se estivesse sendo tirado. É preciso ouvir. Como fez a sambista Beth Carvalho. Em entrevista para a Folha de São Paulo, ela fala sobre aprender e não repetir erros. “‘O Teu Cabelo Não Nega’ é racista. Martinho me chamou a atenção para isso. Eu já havia gravado quando entendi. Hoje, não teria gravado. Se Lamartine Babo errou, porque errar de novo?”

Para não errar de novo ou nem mesmo chegar a cometer o erro, é preciso atentar para a importância da empatia e interseccionalidade com as mulheres que saem prejudicadas por tais estereótipos. Como bem disse Audre Lorde: “eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”.

Para melhor entendimento e identificação deste processo de amadurecimento com apropriação cultural traduzimos os tweets de Richey Collazo:

1

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7

Texto original: 
Twitter: @richey_collazo 

Tradução: 
Think Olga
Ilustração e edição: 
Pri Ferrari
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A escritora americana Kate Schatz nem sabe dizer quando se tornou feminista. Para ela, o feminismo faz parte de sua experiência e vivência desde que se entende por gente – e não faz nenhum segredo disso. Foi natural, então, que pensasse em uma forma de compartilhar histórias de mulheres fantásticas – em geral, apagadas ou ignoradas pela história – em seu ofício. “Mulheres Incríveis” é a segunda obra de não-ficção de Kate, com recorte global; inclusive, na edição brasileira, publicada pela editora Astral Cultural, a fundadora da Think Olga, Juliana de Faria, contribuiu com mais quatro perfis: Maria da Penha, Debora Diniz, Sonia Bone Guajajara e Elza Soares. Entrevistamos a autora para conhecer sua relação com o feminismo e a importância de tornar a vida dessas mulheres conhecida em todo o país.

O que é ser uma mulher incrível (rad woman, no original)?

A palavra “rad” tem alguns significados diferentes; é uma gíria que traz diferentes maneiras de se dizer “muito legal” em inglês. No livro, nós usamos de uma forma meio engraçada, uma brincadeira com o fato de que as mulheres no livro são muito incríveis. Mas “rad” também é um diminutivo de “Radical”, o que pode significar algo poderoso ou que nunca foi feito antes. Então quando falamos dessas mulheres, nos referimos a pessoas que são muito legais, mas também fora do comum, que fazem coisas grandes e inesperadas.

Como surgiu a ideia do livro?

A ideia começou no meu primeiro livro, que se chama “Rad American Woman A-Z”, e a inspiração surgiu com a chegada da minha filha. Eu estava pensando muito em como é criar uma filha nesse mundo e as histórias que eu gostaria que ela aprendesse. E por aqui temos muitos livros alfabetizantes, que ensinam as crianças o ABC e eu pensei: ‘E se eu fizesse um livro como este, mas ao invés de animais ou frutas, eu usasse nomes de mulheres fascinantes da história?’. Então foi mesmo uma combinação de coisas as quais eu tenho paixão: feminismo, história, leitura para jovens… Quando apareceu na minha cabeça, eu pensei: ‘uau! esta é uma ótima ideia!’.

Você é uma escritora de ficção e esta foi a primeira vez escrevendo para jovens e sobre história! Como foi a experiência?

Quando eu tive a ideia, fiquei muito animada. Mas ao mesmo tempo, era um território novo, muito diferente. Eu nunca havia escrito para crianças e nunca havia escrito algo que não era ficcional. Então foi um ótimo desafio que eu fiquei feliz de aceitar. Mas no fim das contas, não sei se houve tanta diferença. Mesmo que estas histórias sejam verdadeiras, que não sejam ficção, ainda é tudo sobre contar histórias. Então, as mesmas ferramentas que eu uso como escritora de ficção, também uso quando estou escrevendo histórias sobre estas mulheres da vida real. A minha verdadeira intenção é tentar manter um público interessado e engajado com as histórias que estão sendo contadas por meio dessas mulheres.

E sua filha? Ela gostou dos livros?

Ah, ela ama os livros! Ela tem oito anos agora e é uma grande fã e muito orgulhosa. Quando o primeiro livro saiu, ela estava perto dos seis anos de idade e ainda não conseguia ler, então ela olhava e reconhecia o livro, mas não havia lido sem ajuda, ainda. E quando ela aprendeu a ler, houve um momento em que ela leu o livro em voz alta para mim e esse foi um momento muito emocionante.

Em algumas entrevistas, você mencionou que se divertiu muito durante a pesquisa para o livro. Gostaríamos de saber: como foi o seu processo de desenvolvimento e escrita?

A pesquisa para conteúdo histórico é difícil, mas incrivelmente divertida ao mesmo tempo. Para o Mulheres Incríveis, meu processo de pesquisa foi diferenciado pois, no primeiro livro, eu já tinha um conhecimento vasto sobre mulheres americanas na história, mas com esse eu não tinha tantos nomes específicos e eu não queria deixar muitas brechas. Então eu contatei pessoas de todo o mundo, amigos meus e amigos de amigos meus e perguntei a eles: que  mulheres, em suas respectivas culturas, eles gostariam de ver neste livro? Isso foi uma parte bem grande da minha pesquisa, para ter uma representação autêntica de pessoas em todo o mundo se identificassem. E foi isso, todo mundo deu ideias… e enquanto eu me aprofundava nas pesquisas, lendo muito e assistindo a todos os documentários e vídeos possíveis, acabei aprendendo muito sobre essas mulheres incríveis. Cerca de 40 histórias entraram no livro, mas eu pesquisei mais de 200 nomes antes de decidir quem incluir. Eu passava meu tempo lendo e vendo histórias sobre pessoas legais! *rindo*

Isso parece bem divertido, mesmo!

E agora, pessoas me mandam histórias o tempo todo por e-mail, Facebook, mandam links de mulheres e garotas fantásticas… As pessoas também vêm falar comigo em eventos, algo como “ei, você já viu essa ou essa pessoa?”. Eu sempre anoto essas ideias. Acabou se tornando uma parte bem importante do projeto.

Você tem alguma história favorita que gostaria de compartilhar com a gente?

Bem… eu acabei ficando muito ligada a todas as histórias. Sempre faço visitas a escolas, para conversar com os jovens, e acabo lendo sempre as mesmas histórias que fazem sucesso entre eles, são mais fáceis de ler em voz alta… e a história da Marta, essa fantástica jogadora de futebol brasileira, é sempre um sucesso… É engraçado, futebol é muito popular entre crianças aqui nos Estados Unidos, especialmente jovens meninas. Mas não é tão popular entre adultos. Há muitas meninas que jogam quando são pequenas, mas não têm oportunidade de jogar de forma profissional quando crescem. É tão incrível a reação delas quando ouvem falar da Marta, ficam muito empolgadas. Também gosto muito da história de Sophie Scholl, a jovem estudante alemã que foi uma das primeiras pessoas a falar publicamente contra Hitler. É uma história poderosa e muito triste sobre como é importante se posicionar em relação ao seu governo, o que com certeza é muito relevante para a gente até hoje.

A edição brasileira tem mais quatro mulheres incríveis, cujos perfis foram escritos por Juliana de Faria, fundadora da Olga. Você conhecia a história delas?

Fiquei tão feliz quando a editora brasileira sugeriu a inclusão de mais mulheres, fiquei tão feliz. Eu não era familiarizada com a história dessas mulheres, então fiquei tão emocionada em ler sobre suas vidas. Foi realmente uma ideia muito boa adicionar mais mulheres, foi perfeito. Fiquei bem animada em conhecer mais sobre elas. Quando soube da inclusão desses nomes, perguntei para alguns amigos brasileiros se conheciam essas mulheres, e todos ficaram tão empolgados quanto eu.

Muito bom! Bem, o tema agora é feminismo. A Olga é uma ONG focada em empoderar mulheres por meio da informação aqui no Brasil. Quando você soube que era feminista?

Eu não tenho uma memória específica sobre isso, embora quisesse muito ter. Minha mãe encontrou um pôster que fiz quando tinha 12 anos para um projeto de escola, basicamente fazer um pôster que me representasse. E o meu tinha diversas fotos, colagens e montagens, e no meio delas a palavra “feminista” escrita bem grande. Eu era bastante ativa politicamente quando era mais nova, mas isso me surpreendeu! Eu não lembro muito bem disso… lembro de recortar essa palavra para colocar no pôster, mas não lembrava que tinha colado nem que tinha feito isso aos 12 anos! Então, tenho o feminismo em mim há bastante tempo, claramente *rindo*. Desde pequena, era interessada em gênero e política. E sempre tive um conceito muito sólido sobre o que é ser mulher, e sempre pensava nisso, nas coisas que eu achava que não eram certas. Sou feminista desde sempre, acho!

O mundo mudou bastante nas últimas décadas em relação ao feminismo, mas queria saber o que é o feminismo hoje, na sua opinião.

Para mim, feminismo é muito simples. É acreditar na igualdade dos gêneros, mas também, o que eu sempre digo, é saber que ainda não temos essa igualdade. Vivemos em um sistema patriarcal, que desvaloriza de forma consistente as conquistas da mulher. Então, o feminismo está presente na forma que eu me posiciono no mundo, nos trabalhos que faço, em como educo meus filhos… E é algo que eu torno bastante público sobre mim, eu falo bastante sobre o tema, tenho uma camiseta, porque acho importante ter pessoas pensando e falando sobre isso. De certa forma, acho que muita gente ainda acredita que feminismo é um palavrão, e eu quero torná-la uma palavra legal. Todo mundo que acredita na igualdade de direitos deveria se considerar feminista. É uma grande parte da minha vida, em todos os sentidos.

Você poderia contar um pouco mais sobre seu projeto Solidarity Sundays?

Sim, claro! Solidarity Sundays é uma rede americana de ativismo fundada por uma amiga minha. Uma vez por mês, a gente reúne mulheres que cumprem ações políticas para descobrir novas formas de ativismo. É similar ao feminismo; muitas pessoas se identificam com as ideias, têm posicionamento, mas não se sentem ativistas de uma causa, não sabem como fazer a diferença. É uma forma de ajudar pessoas a encontrarem a melhor maneira de lutar, ao seu modo. Muitas pessoas usam a internet, por exemplo, como espaço para o ativismo. Isso é bom, mas também acho que as pessoas devem se encontrar em espaços offline. É por isso que começamos o Solidarity Sundays, que se encontra sempre em um domingo do mês. Há um ano, temos um grupo que se encontra na minha casa e se organiza para agir em diferentes causas, como a luta pelo meio ambiente, pela legalização do aborto. Logo depois da eleição [presidencial nos Estados Unidos], nosso grupo cresceu muito! *rindo* Tínhamos um grupo já grande no Facebook, com cerca de 700 pessoas, e depois das eleições esse número saltou para 1900! E temos cerca de 300 grupos ao redor do país, e em alguns outros países também, como Canadá, Áustria… Sempre são grupos de pessoas que se reúnem na casa de alguém. Escrevemos um kit de ações que podemos tomar, em diferentes cidades. Ligamos para representantes do governo, organizamos festas beneficentes para angariar fundos para organizações, participamos de marcas… mas muito das nossas ações focam, hoje, na política americana, como saúde, políticas anti-imigrantes, somos muito reativas a tudo que Donald Trump vem propondo. Estamos trabalhando bastante por aqui, é muito frustrante, às vezes. Sabemos que o resto do mundo olha pra gente e pergunta o que está acontecendo. *rindo*

Acreditamos muito no empoderamento feminino por meio da informação, ou seja, em mulheres contando suas histórias ou passando o microfone para que outras também compartilhem suas vivências, que é o que você está fazendo também. Como podemos empoderar ainda mais mulheres nessa missão?

Acho que há uma grande quantidade de formas de fazer isso e é extremamente importante. Artistas, por exemplo, tem um grande papel nisso, assim como vocês, jornalistas. Geralmente, fazendo com que todas as mulheres saibam que suas histórias são importantes e válidas. Artistas têm esse poder, seja no cinema, escrevendo roteiros para a televisão ou criando artes visuais, é essencial contar essas histórias. Jornalistas também tem essa responsabilidade de amplificar vozes. E também acredito que é essencial começar o mais cedo possível! Fazendo com que jovens meninas sintam que suas opiniões são válidas, que são interessantes e suas histórias devem ser contadas também, inclusive nas salas de aula. Elas precisam se sentir preparadas para fazer perguntas e respondê-las também. Encorajar essa cultura do compartilhamento, de trocar experiências, é realmente importante. Se isso não acontece, você acaba tendo mulheres adultas que não sentem que suas opiniões e histórias são válidas, e isso é ainda mais duro, né? Outro aspecto que pode ser importante é criar espaços seguros para mulheres conversarem e dividirem vivências, seja no espaço digital ou offline.

Nossa última pergunta é, claro, sobre recomendação de livros de outras mulheres incríveis?  

Oh meu Deus, eu consigo recomendar um milhão de livros! *rindo* Isso é muito difícil! Acho que vale dizer que há muitos livros que são similares ao Mulheres Incríveis, que contam histórias fantásticas sobre mulheres na história ou empoderam meninas… há uma escritora americana que gosto muito, que é Rebecca Solnit, que para mim é uma das pessoas mais brilhantes escrevendo sobre política hoje. Caramba, são muitas opções! *rindo* Acho que não vou conseguir pensar em mais agora, estou olhando para a minha estante agora e é muito difícil escolher uma só *rindo*.

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Quando começamos a conversa sobre assédio de rua com a Chega de Fiu Fiu, em 2013, o tratamento dado pela imprensa às questões de gênero eram bastante diferentes, em especial no meio online. Uma busca do Google pela expressão “assédio sexual” levava a reportagens que mencionavam esse tipo de violência no ambiente de trabalho, mas pouco se falava sobre o contexto machista que permite que homens, em todas as partes do mundo, se dirijam a mulheres no espaço público de maneira ofensiva e opressora, como se tivessem o direito de opinar ou escrutinar nossos corpos. Nesses quatro anos de campanha, vimos não apenas o tema do assédio ocupar espaço na imprensa e nas redes sociais; como também o feminismo abraçar e encontrar diferentes vozes nas redes, que aprofundaram o debate e mostraram como é urgente ressignificar o retrato da mulher na sociedade, nos meios  de comunicação, nas relações interpessoais.

Hoje, vemos parte da imprensa aderindo a pautas sobre gênero ou às práticas dos nossos Minimanuais de Jornalismo Humanizado. Percebemos que o feminismo é uma pauta que surge com maior naturalidade nos espaços de conversa. Mas como mensurar os avanços e as transformações que a luta feminista provocou dos últimos quatro anos?

É impossível precisar quantas mulheres estão envolvidas no feminismo ou são contempladas e tocadas por suas pautas. Mas podemos contabilizar histórias que não foram esquecidas, nem silenciadas. Histórias como a de Cláudia Silva Ferreira, que sofreu violência duas vezes: primeiro, quando foi arrastada pelo carro da Polícia Militar em 2014. A segunda, quando foi retratada de forma desumanizada pela imprensa, seu nome esquecido, seus sonhos ignorados, sua identidade negada. Se tivessemos aceitado  o tratamento da imprensa à época, Cláudia poderia ter morrido anonimamente, em um dos tantos atos de violência sem sentido que atingem principalmente as mulheres negras e periféricas.

Mas status social também não é garantia de proteção às mulheres. Lembremos de Nigella Lawson, agredida em público pelo marido; Amber Heard, que foi agredida pelo então parceiro, Johnny Depp, e não apenas teve sua história duvidada e questionada, como perdeu papéis no cinema por ter denunciado sua história de abuso; a cantora Rihanna, que sofreu violência doméstica pelas mãos de Chris Brown pouco antes da cerimônia do Grammy de 2009, viu o ex-namorado comemorar no Twitter que estava livre de punições.

Sabemos que nossa luta faz avanços quando essas histórias não são esquecidas, quando a vítima não é silenciada, quando a mulher é levada a sério em seu testemunho. Como diz Virginia Woolf: “Uma feminista é qualquer mulher que diz a verdade sobre sua vida”. Mas é preciso coragem tremenda para dizer essa verdade.

Nos últimos quatro anos, colecionamos vozes que corajosamente contaram suas histórias. Queremos continuar esse trabalho, pois sabemos que as mudanças são lentas, graduais e não-lineares; basta prestar atenção nos direitos que estão sendo cerceados e manipulados nos últimos dois anos, alguns deles que considerávamos já conquistados, como a reforma trabalhista que pode permitir que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres, a dificuldade de denunciar violência mesmo com a Lei da Maria da Penha, a resistência à legalização do aborto. É preciso reforçar, todos os dias, que o silenciamento dessas vozes representa a perda de dignidade e até mesmo a morte de muitas mulheres.

Queremos que os próximos anos sejam de ainda mais conquistas e pluralidade de vivências. Queremos ver a mulher que opta pelo aborto livre dos caminhos escusos da ilegalidade. Queremos mais empatia. E direitos verdadeiramente assegurados.

Nos ajude a continuar lutando. Participe da nossa campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria e mantenha a luta da Think Olga acesa. Precisamos de vocês! #Olga4Anos

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Há alguns meses, enfrentei uma depressão ao lidar com traumas e questões profundas da minha história. Quem já passou por isso sabe o quanto custa para uma pessoa deprimida ser obrigada a se relacionar. Mas ao que parece, para as mulheres, nos trancarmos no quarto, nos escondermos sob o travesseiro, não querer ser gentil, social e cordata o tempo todo não é uma opção bem aceita. Se somos o esteio emocional da família, como podemos falhar?

Minha família, assim como muitas outras, tem sempre uma mulher responsável pelo bem estar de todo mundo. É nela que recaem as responsabilidades de cuidar de idosos e crianças, de reunir a família em eventos especiais, de socorrer um irmão ou uma sobrinha, de ouvir queixas e desabafos de quem quer que esteja precisando. Ela cuida de todos, menos de si mesma. E isso consome tempo, energia e espaço mental e afetivo.

Eu, durante minha fase depressiva, não tinha forças para estar disponível, não conseguia ouvir os problemas alheios. Simplesmente não conseguia. Mas como isso é possível? Como eu não estaria ali para os que eu amo? Uma culpa enorme, uma sensação de débito emocional tomou conta de mim. E essa culpa – assim como o pressuposto que sempre devo estar disponível – tem uma grande relação com o machismo que está profundamente enraizado em nossa sociedade.

Em 1969, o psicólogo John Bowlby criou um conceito inovador para a comunidade psicanalítica: a “teoria do apego“, que descreve a relação entre mãe e filho, a interdependência de ambos e as expectativas e consequências dessa relação. Apesar de trazer algumas ideias polêmicas para a época, o termo vingou – e aos poucos, estimulou a conversa sobre a ideia de disponibilidade emocional em todas as relações afetivas, não apenas na maternidade.

Mas afinal, o que é estar emocionalmente disponível para o outro? É aí que mora o problema: ao que tudo indica, para a parcela masculina do mundo, significa apenas estar presente (ou não) em um relacionamento. Para a mulher, a disponibilidade emocional é obrigatória em todos os campos de sua vida. Desde a infância, somos estimuladas a sempre acolher, cuidar e ouvir. Somos a parte da população que “sabe abrir o coração”, que “tem talento para falar de sentimentos”. Em um estudo profundo sobre disponibilidade emocional, publicado em 2005 por Rebecca J. Erickson, todas essas tarefas estão atreladas não ao sexo, mas ao conceito de gênero feminino que se estende séculos a fio. Não somos “melhores” em emoções: somos educadas para acreditar que sim. A pior parte nisso tudo? Essas construções culturais e sociais são exploradas por outros.

Na trilha do estudo de Bowlby, a pesquisadora Arlie Russel Hochschild publicou, em 1983, o livro The Managed Heart, que mostra como esses sentimentos “femininos” são comercializados e prometidos por empresas. Um exemplo de Hochschild são as companhias aéreas, que estampam o sorriso das aeromoças em todas as suas campanhas. A simpatia e a solicitude da comissária de bordo são tão garantidas quanto o lanchinho durante o vôo.

Mas estamos falando sobre emoções humanas, que são complexas e, geralmente, exigem muito de nós. Segundo pesquisas, trabalhos que lidam com muita dedicação emocional – Hochschild identificou mais de 40 tipos – são mais exaustivos a longo prazo, mas isso raramente é notado pelos empregadores. No estudo Gênero, Emoções e Produção Cultural: Uma Análise da Autoajuda Brasileira, a mestre em Antropologia Social Talita Castro menciona Hochschild para explicar porque isso recai principalmente sobre as mulheres: “quanto maior o status social da pessoa, mais suas emoções são levadas em conta; em contraposição, quanto mais subordinada, mais ela é institucionalmente chamada a atuar sobre seus estados emocionais”.

Vale dizer que a expectativa da mulher profissional como boa ouvinte e sempre disponível emocionalmente se repete em todas as camadas da sociedade: espera-se que nós sejamos professoras mais gentis, líderes mais maleáveis – caso contrário, somos chamadas de “endurecidas” e acusadas de perder nossa feminilidade para alcançar o topo. Na política, a expectativa é que candidatas sejam mais bem humoradas e afáveis (além, é claro, de inteligentes e capazes) do que os homens. A lista de tarefas invisíveis da mulher parece interminável.  

Nos relacionamentos conjugais, essa exigência se repete: quem nunca passou a noite escutando o marido ou namorado reclamar do trabalho? Ou tentou contornar e conciliar brigas dele com a família? Administrou seus rompantes de raiva? Esta desigualdade também pode ocorrer em casais homoafetivos, é verdade, mas a disparidade de expectativas impostas a homens e mulheres nesse aspecto não pode ser ignorada. Segundo Hochschild, “[…] as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom.” Ou seja, além de acolher, também nos cabe fazer a relação funcionar até os mínimos detalhes. Em um longo artigo do The Guardian sobre trabalho emocional e disponibilidade, a autora Rose Hackman menciona uma lista de afazeres exclusivos da mulher em um relacionamento heterossexual, que vai do planejamento do melhor momento para ter filhos até ser a referência de coisas perdidas pela casa.

Este desequilíbrio profundo também tem a ver como os homens são educados. São encorajados, desde cedo, a esconder seus sentimentos e muitas vezes represam angústia, raiva, dor e sofrimento para proteger sua “masculinidade”. Estudos já relacionaram esta incapacidade de lidar com emoções com violência, comportamentos obsessivos e compulsões, como por exemplo a objetificação feminina por meio da pornografia. Mas na vida familiar, a disponibilidade emocional do homem é mais do que um pressuposto para um relacionamento saudável: o estudo “Mais do que o provedor”, realizado na Universidade de Michigan, estabeleceu a relação entre a disponibilidade emocional paterna e o desenvolvimento de habilidades como a fala e a coordenação motora de bebês. Ou seja, essa tarefa é grande e importante demais para ser exclusiva da mãe, embora recaia ainda sobre nós.

A manipulação de emoções de forma desequilibrada – seja para se encaixar em um estereótipo ou perpetuá-lo – é prejudicial a todos, mas a uma parcela mais do que outra. Se queremos realmente entender o quanto essas cobranças fazem mal, é essencial fazer um recorte racial aqui: as mulheres negras são as maiores vítimas desse sistema.

Em nossa sociedade racista, onde a população negra é invisibilizada, explorada e solitária, é muito conveniente perpetuar o mito da “mulher negra forte”, como diz Meri Danquah: “Supõe-se que as mulheres negras sejam fortes – amparadoras, nutridoras, que curam outras pessoas […]. Supõe-se que a dureza emocional que é construída na estrutura de nossas vidas esteja ligada ao fato de eu ser ao mesmo tempo negra e mulher”.

No subtexto sinistro dessas expressões, está a convicção de que a mulher negra deve ter ainda mais disponibilidade emocional, uma vez que, oprimida de todas as formas possíveis, não deve fraquejar ou abalar-se, sem direito à tristeza ou ao recolhimento. Tamara Beauboeuf-Lafontant faz uma avaliação precisa dos malefícios da perpetuação desse estereótipo: “o conceito de força associado à mulher negra esconde aquilo que acredito que seja sua verdadeira função: defender e manter uma ordem social estratificada ao ocultar as experiências de sofrimento, os atos desesperados e a raiva da mulher negra”. Negar-se a ser a “mulher negra forte”, permitir-se sentir e fraquejar, é um ato de resistência.

No texto “Nós negros não morremos só de tiros: tenho depressão” de Stephanie Ribeiro para a Afronta, ela resiste. “Ser forte não é bom para mim enquanto mulher negra. Pois ser forte é negar minha humanidade. Essa cobrança da mulher negra que não sente e lida bem com tudo é resquício da ideia que somos mais objeto do que gente. Existem dores na minha alma que me fazem querer chorar e ficar só. E sobre isso, é bem mais complexo falar, mas preciso me permitir apenas ‘Sentir’”.  

Doar-se – e ainda mais de forma obrigatória, diária, como forma de opressão e não de expressão afetiva – é exaustivo. Não é à toa que estamos esgotadas, como essa tirinha da quadrinista francesa Emma exemplifica muito bem. A exigência de trabalho emocional tão grande – seja no emprego, na vida familiar ou até mesmo nas amizades – nos sufoca, quando deveríamos ser dedicadas, de forma espontânea, apenas àqueles que queremos bem. A disponibilidade emocional deve ser tudo, menos tóxica.

A acadêmica portuguesa Sofia Pracana, da Universidade de Lisboa, tem uma definição bonita do termo: “estar emocionalmente disponível é a capacidade de me ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada. É abraçar, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida”. A recíproca precisa ser verdadeira: a disponibilidade emocional só deve funcionar como uma via de mão dupla.

O feminismo assume, há décadas, a tarefa de quebrar estereótipos sobre a mulher. Há quem diga que a próxima grande revolução feminista terá como objetivo nos desvincular, de uma vez por todas, da obrigatoriedade de estar sempre disponível. Não entenda mal: somos fazedoras de laços e isso, para muitas, é prazeroso. Mas não podemos cair na armadilha de aceitar que isso é nossa obrigação – e apenas nossa. Todos perdem com isso.

Precisamos, urgentemente, ter um tempo de recolhimento. Precisamos ter o direito de, às vezes, simplesmente não estar ali.

Maíra Liguori é diretora da ONG Think Olga e criadora do projeto Olga Esporte Clube. 

Arte: Chloe Cushman para o The Guardian

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