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No começo de outubro, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama estava no país para uma palestra organizada por um jornal brasileiro e, nessa semana de visitação a São Paulo, fui convidada a encontrá-lo em um jantar privado oferecido a seis convidados.

O pequeno grupo era formado por pessoas que pudessem trazer pautas próximas aos novos planos de Obama. Após a presidência, ele pretende mentorar e conectar jovens líderes ao redor do mundo por meio de uma fundação que leva seu nome.

Na manhã do mesmo dia, durante o evento, ele já havia adiantado publicamente um pouco do porque essa abordagem é importante:  “claro que o governo é importante em áreas como educação e esforços para reduzir a pobreza, mas nada vai mudar se, na comunidade local, pessoas não se encontrarem, construírem confiança e aprenderem a trabalhar juntas. Isso vai ser refletido em como será a política ao longo do tempo”.

Fui convidada, como fundadora da Think Olga, para falar sobre questões de gênero. Não é um tema estranho ao ex-presidente – tanto ele, quanto a ex-primeira dama Michelle Obama, durante o mandato, foram cabeça de várias ações pelos direitos das mulheres – mas era importante saber como o tema se encaixaria nas ações da nova fundação.

O meu plano era defender que a pauta das mulheres deveria estar no foco de qualquer iniciativa que queira de fato fazer a diferença no mundo. Se quiser fortalecer a sociedade para a mudança social, a Fundação Obama precisa apoiar, em especial, as mulheres ao redor do mundo. Sejam elas líderes em questões de gênero ou líderes em outras áreas.

A mensagem foi bem recebida. Logo no início do jantar, Obama começa uma rodada de apresentações e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, afirma: “Eu fiz a minha lição de casa. Você é da ONG Think Olga, certo?”

“Sim, muito prazer!”

Aproveitei o momento para contar sobre o cenário brasileiro – do levante popular conhecido como a Primavera das Mulheres, mas também tomado por uma onda retrógrada que tenta fortemente manter o status quo. Falei sobre nossas campanhas e principalmente sobre nossa vontade em criar uma consciência sobre problemas e opressões ainda invisíveis e normalizados pela sociedade. Obama concordou e elogiou: “O trabalho de mudança de uma cultura começa com a conscientização”.

E foi algo muito próximo do como agimos em prol dos direitos das mulheres. Quando falamos que somos uma ONG, o imaginário das pessoas nos levam para aquela imagem de assistência. Porém não fazemos atendimento de vítimas, não mentoramos pequenos grupos escolares. Somos comunicadoras e nossa missão é o empoderamento feminino por meio da informação. Ou seja, acreditamos na criação de conteúdos gratuitos que possam quebrar barreiras do offline e atingir pessoas no Brasil inteiro, que permita a elas reconhecer uma opressão, entender melhor o problema e agir para mudar seus microuniversos como novas multiplicadoras de informação, usando nossos produtos como ferramenta.

Obama parecia concordar com a proposta: “As pessoas precisam ter consciência das desigualdades e violências que existem para que deem passos rumo à mudança”. E mostrou se preocupar com questões parecidas: qual a melhor maneira de usar as mídias disponíveis hoje para educar? Como lidar com violências e perseguições que acontecem nelas? E como criar, em cada contato, alguém que possa espalhar a mudança adiante?

O ex-presidente dos EUA, com a experiência de quem determinou os rumos do mundo durante oito anos, nos explicou sua estratégia e ambição com a fundação. “A nossa programação internacional estará focada em criar um espaço para que todos estes jovens líderes de todo o mundo se unam e comecem a resolver problemas, tanto localmente, quanto nacionalmente e internacionalmente.”

Nós, da Think Olga, buscamos um impacto local, mas somos igualmente ambiciosas. Nosso foco está na criação de conteúdo profundo, rico e gratuito sobre temas de tamanha importância para as mulheres. Essa foi uma oportunidade incrível para explicar o que fazemos: uma nova proposta de educação. Queremos criar debates em cima de temas, esclarecer pontos, direcionar conversas, etc. Não à toa, nossos materiais já foram usados em eventos de RH, escolas, universidades, grupos feministas, etc.

Buscamos ser um canal pelo qual pessoas que acreditam na igualdade de gênero possam se conectar a um número grande de pessoas e ensiná-las a espalhar o conhecimento sobre feminismo a um número maior ainda. Nossa luta pela equidade de gênero está, também, em dar ferramentas para que cada vez mais pessoas possam compreender e entrar nessa jornada de transformação. É preciso não só entender, mas também valorizar esses novos formatos educativos e que desafiam o sistema tradicional.

E, em outubro, foi a vez do Obama conhecer essa rede. Estamos em um momento em que forças conservadoras e sexistas ganharam espaço e ameaçam destruir diversas conquistas recentes das mulheres. Independentemente de opiniões e apontamentos sobre os rumos dos mandatos, é importante ter, nesse momento, aliados capazes de reforçar a equidade de gênero como uma pauta urgente para todo o planeta.

Agradecemos a parceria e apoio do Consulado dos EUA em São Paulo.

Clique aqui e apoie o nosso trabalho.

Juliana de Faria é fundadora da Think Olga.

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Após o baixo desempenho durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, esperava-se do próximo técnico da Seleção Brasileira de Futebol feminino o resgate da energia do time, além de renovações para seguir crescendo em campo contra outras grandes seleções. Esta foi a missão de Emily Lima nos 10 meses de comando do time, com resultados interessantes: em 13 jogos, ela somou sete vitórias, um empate e cinco derrotas e inovou, por exemplo, ao apostar em jogadoras novatas ao lado das experientes Marta e Cristiane. Emily só estava começando a mostrar seu trabalho quando foi demitida pela CBF. “Disseram que estavam buscando resultados e que ela não os apresentou. Mas ela não poderia apresentar sem ter participado de jogos oficiais, só amistosos. Ao contrário do Vadão (antecessor de Emily), que não teve resultados e agora está sendo trazido de volta para a Seleção”, explica a jornalista esportiva Luciane Castro, colunista do Portal Vermelho.

Quando se é uma mulher em um alto posto de comando, as expectativas vão além dos resultados. Inicialmente, a contratação de Emily para uma função tão importante em um ambiente sempre dominado por homens pode ter simbolizado um avanço. Mas, olhando com profundidade, o caminho percorrido por Emily e muitas outras mulheres que chegam a cargos altos em suas profissões é frágil. Além do teto de vidro – que somente dá a impressão que o céu é o limite, quando na verdade ainda existem barreiras mantidas pelo machismo institucional – há também uma fundação muito frágil para aquelas que conseguem chegar ao topo apesar das adversidades. Há um chão de vidro.

Uma pesquisa de 2005, feita pelos professores Michelle Ryan e Alexander Haslam, da Universidade Exeter, na Inglaterra aponta que, normalmente, as mulheres são chamadas para cargos de lideranças em momentos de crise nas empresas, como, no caso da CBF, por causa das críticas à valorização do esporte masculino em detrimento ao esporte feminino. A presença de Emily ajudou a CBF a mascarar problemas internos, como o abismo salarial entre homens e mulheres que trabalham para a CBF, usando a imagem da técnica para “vender” um progresso por parte da administração.

Os pesquisadores explicam que o chão de vidro existe porque as mulheres recebem cobranças diferentes que os homens. As missões dadas a elas, normalmente são hercúleas ou condenadas ao fracasso aos olhos dos administradores. Como uma armadilha preparada para tirá-la do comando. Para Lu Castro, a contratação de Emily não só tinha a intenção de sabotá-la, como também servir de justificativa para se trazer um homem para o comando do time novamente.

Não é impossível caminhar sobre esse chão de vidro e resistir à queda. Mas são condições desiguais e injustas, que nem deveriam existir. Como paralelo, esta matéria da BBC News identifica o problema como “escada quebrada”, que só dá a impressão de subida. Uma situação que acontece nas altas esferas de poder e em praticamente todas áreas.

Este é o caso da executiva Marissa Mayer. Hoje é difícil imaginar que sua passagem como CEO do Yahoo seria tão turbulenta. A principal missão dada em sua chegada, em 2012, era de recuperar o posto da marca como pioneira da internet e superar o Google. Ao longo de sua gestão, Mayer recebeu críticas profissionais, por ter um estilo diferente de gerenciamento, mas o julgamento não se restringiu a isso. Ela foi criticada pela maternidade de gêmeos ao longo do processo, algo impensável em uma cultura como a norte-americana, sobretudo no ambiente machista do Vale do Silício. Cinco anos depois, o baixo crescimento foi argumento para a venda da empresa para a gigante Verizon. Inicialmente, Mayer não pretendia pedir demissão, mas com tamanha culpabilização e excessiva cobrança a fez desistir do cargo. Para o The Wall Street Journal, em uma reportagem especial sobre o conceito do chão de vidro, a administradora não teria caído tão facilmente se fosse um homem. Na verdade, teria tido uma chance no novo modelo da empresa.

O mesmo poderia ser aplicado então para Ellen Pao, durante sua gestão do site Reddit. Para uma mulher, estar neste ambiente pode ser um chão de vidro com um profundo penhasco logo abaixo, pois a empresa é composta por uma maioria masculina (74% dos funcionários são homens) e isso se reflete em seus usuários, que fazem dos fóruns do site espaços para demonstrações de misoginia, racismo, LGBTfobia e outros discursos de ódio, sem a menor restrição por parte do site.

Especialistas questionam o trabalho de Pao, o que justificaria sua demissão, não fossem todas questões de gênero envolvidas. As ofensas machistas internas e do público chegaram a gerar petições online, assinadas por homens, para a remoção da empresária, como lembra o The Daily Dot. Mas este não foi um problema recente. Seu cargo foi diminuído desde a sua chegada, sendo colocada como a única “CEO interina” da empresa. Por que não apenas CEO?

O The Daily Dot também destacou que a crise no Reddit durante a administração de Pao foi propositalmente levada a público de uma maneira que nunca aconteceu com homens CEOs, como se, sabendo da tendência violenta do público, a empresa quisesse usar a pressão para dispensa-la.

Se ter mulheres em altos cargos de liderança é um passo importante para levar mais outras mulheres a crescer no mercado de trabalho, principalmente em espaços dominados por homens, o chão de vidro é preocupante por representar mais um obstáculo que enfrentamos na jornada um retrocesso nesta luta.

Perder mulheres CEO nesta armadilha é perder espaços de poder. É desestimular as mulheres que as seguem. Para os homens líderes, a estratégia do chão de vidro é mais uma maneira de justificar seu domínio. Por isso, é preciso identificar essa armadilha antes de cair nela e assim não ceder a um mundo corporativo e masculino, que insiste em tirar as mulheres do jogo.

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Embora verifiquemos alguns avanços em matéria de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, como no julgamento pelo Supremo Tribunal Federal nos autos do Habeas Corpus nº 124.306, em que o Ministro Luís Roberto Barroso, acompanhado dos Ministros Rosa Weber e Edson Fachin, teceu inúmeras considerações a respeito da descriminalização do aborto no caso analisado, referida decisão, moderna e atual do Judiciário brasileiro veio acompanhada de um movimento e de crescente retrocesso por parte do Legislativo. Este anacronismo encontra-se materializado pela PEC 181/2011.

A PEC 181/2011 que inicialmente dizia respeito à ampliação de direitos trabalhistas, com o aumento do tempo da licença-maternidade para mulheres cujos filhos nasceram prematuros, por exemplo, e que aparentava ser um benefício para as mulheres, logo se transformou num pesadelo. Lamentavelmente, o Legislativo modificou o texto original em dezembro, o que levou a instalação de uma Comissão Especial para discutir o aborto.

Nesta Comissão passou-se a debater, então, formas de restringir ainda mais o acesso aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, proibindo o aborto em todas as circunstâncias até mesmo quando já autorizados pela legislação e jurisprudência brasileira, como no caso de estupro, gravidez de risco para gestante e anencefalia. Isto porque o parecer do Relator da Comissão Especial que discute a PEC, apresentou uma alteração aos artigos 1º e 5º da CF estendendo até o momento da concepção a inviolabilidade à vida, o que significa equiparar o embrião ao recém-nascido.

Como sabemos, além do novo caso julgado pelo Supremo Tribunal Federal, a legislação brasileira vigente permite expressamente o aborto em duas situações específicas: quando a vítima sofreu um estupro ou há risco de morte da mulher[1]. Nestas duas hipóteses, a lei permite a prática do aborto legal, que deve ser prestado pelo sistema público e privado de saúde, de forma segura e integral, a todas as gestantes. A partir do precedente no STF de 2012, por 8 votos a 2, foi permitida a interrupção da gestação nos casos de anencefalia. Neste julgamento, os Ministros decidiram que os médicos que realizam a cirurgia e as gestantes que decidam interromper a gravidez não praticam crime. Assim deliberou o STF:[2]

O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, julgou procedente a ação para declarar a inconstitucionalidade da interpretação segundo a qual a interrupção da gravidez de feto anencéfalo é conduta tipificada nos artigos 124, 126, 128, incisos I e II, todos do Código Penal, contra os votos dos Senhores Ministros Gilmar Mendes e Celso de Mello que, julgando-a procedente, acrescentavam condições de diagnóstico de anencefalia especificadas pelo Ministro Celso de Mello; e contra os votos dos Senhores Ministros Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso (Presidente), que a julgavam improcedente. Ausentes, justificadamente, os Senhores Ministros Joaquim Barbosa e Dias Toffoli. Plenário, 12.04.2012.

O tema do aborto deve ser tratado sob a ótica da moderna jurisprudência pátria, que deve seguir as evidências científicas, a melhor tendência mundial de proteção à saúde, inclusive respeitando-se os tratados internacionais firmados pelo Brasil e a Constituição Federal. A Pesquisa Nacional do Aborto, realizada em 2010, pelo instituto Anis, concluiu que no Brasil pelo menos uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já se submeteu à prática do aborto.[3] Por esta razão, não há como não concluirmos que o aborto é uma questão diretamente relacionada à saúde das mulheres brasileiras.

Ademais, conforme se observa na tendência mundial dos direitos sexuais e reprodutivos, há uma incongruência no argumento de que a criminalização possa diminuir o número de abortos, especialmente porque as pesquisas demonstram que, de um lado, nos países em que o aborto não é criminalizado, como no nosso vizinho Uruguai, por exemplo, caso seja praticado até o primeiro trimestre, houve uma queda expressiva no número de abortos, por outro lado, nos países que continuam proibindo o aborto, as taxas continuam muito elevadas.

Com efeito, desde o início da década de 1990, no âmbito da legislação nacional, foram editados muitos instrumentos legislativos visando garantir o atendimento na rede pública de saúde, aos casos de aborto legal. Isto foi possível em razão da intensa mobilização de diversos grupos de mulheres, em união com a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).[4] Cumpre destacar que o Ministério da Saúde editou duas normas técnicas a respeito deste tema: “Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes” e a norma técnica: “Atenção humanizada ao abortamento”.[5] Estes instrumentos locais estão em consonância com o marco internacional de proteção às mulheres. A Convenção CEDAW em seu artigo 2º dispõe o seguinte: “Os Estados-parte condenam a discriminação contra a mulher em todas as suas formas, concordam em seguir, por todos os meios apropriados e sem dilações, uma política destinada a eliminar a discriminação contra a mulher, e com tal objetivo se comprometem a: f) Adotar todas as medidas adequadas, inclusive de caráter legislativo, para modificar ou derrogar leis, regulamentos, usos e práticas que constituam discriminação contra a mulher, além de g) Derrogar todas as disposições penais nacionais que constituam discriminação contra a mulher.” A legislação que criminaliza a mulher é visivelmente uma legislação discriminatória.

O Comitê CEDAW que monitora o cumprimento das obrigações da Convenção CEDAW (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres) realizou a seguinte recomendação ao Estado Brasileiro:

“Agilizar a revisão da legislação que criminaliza o aborto, a fim de eliminar as disposições punitivas impostas às mulheres, como já recomendado pelo Comitê 9 (CEDAW/C/BRA/CO/6, parágrafo 3.); e colaborar com todos os intervenientes na discussão e análise do impacto do Estatuto do Nascituro, que restringe ainda mais os já estreitos motivos existentes que as mulheres façam abortos legais, antes da aprovação pelo Congresso Nacional do Estatuto do Nascituro”[6]

Portanto, com a referida manobra do Congresso Nacional pátrio, constituído majoritariamente por aqueles que não engravidam, não está observando a obrigação do Estado Brasileiro em cumprir com as disposições da Convenção CEDAW. O compromisso do Estado Brasileiro deve ser com o respeito à vida, a vida de milhares de meninas e mulheres que estão morrendo em razão de falta de acesso à saúde.

Como ocorre com uma grande parte da legislação pátria, o fato de existir uma legislação específica, bem como um tratado internacional ratificado pelo Estado do Brasil e uma decisão do STF, não garante necessariamente que esse direito das gestantes seja efetivado pelas instituições de saúde.

Com efeito, os serviços de aborto legal no Brasil vêm enfrentando obstáculos crescentes, em virtude das pressões exercidas por extratos conservadores da sociedade brasileira e determinados setores religiosos, em que pese à laicidade do Estado brasileiro. Antes existiam aproximadamente 65 serviços[7] que atendiam às gestantes que necessitavam realizar o procedimento de aborto legal, atualmente os números diminuíram sensivelmente para aproximadamente 30 serviços, muito embora não seja possível obter a informação exata acerca do número de serviços, por falta de registros formais.[8] A transparência a respeito do número de serviços, a sua distribuição regional (ou da inexistência destes serviços em determinadas regiões do Brasil) e o número de atendimentos em caso de aborto legal, também não se encontram sistematizados de forma eficiente, técnica e ampla, o que por si só já caracteriza uma omissão estatal no dever de prestar a assistência integral à saúde.

É preciso ter coragem para dar a visibilidade e a dimensão necessárias ao problema. Conforme Pesquisa Nacional sobre o aborto, uma em cada cinco mulheres brasileiras entre 18 e 29 anos já realizou aborto no Brasil.[9] A questão precisa ser tratada sob a ótica do direito à saúde, os avanços existentes não podem ser acompanhados de tantos retrocessos, em especial com violação das obrigações já assumidas pelo Estado Brasileiro, inclusive de diminuição da mortalidade materna, que não ocorrerá se não houver uma atenção à saúde das brasileiras, em especial às gestantes.

[1] Artigo 128, incisos I e II, do Código Penal.
[2] http://s.conjur.com.br/dl/acordao-interrupcao-gravidez-anencefalo.pdf
[3]DINIZ, Debora e MEDEIROS, Marcelo, Aborto no Brasil uma pesquisa domiciliar com técnica de urna, http://www.scielo.br/pdf/csc/v15s1/002.pdf, 2/06/2017.
[4] SANTIN, Myrian, Sexualidade e Reprodução: da natureza aos direitos: a incidência da Igreja Cem viratólica na Tramitação do PL 20/91, aborto legal, e PL 1151/95, união civil de pessoas do mesmo sexo. Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2005.
[5] BRASIL, Ministério da Saúde, Norma Técnica, Brasília 2005.
[6] Observações Finais do Comitê CEDAW,  http://www.spm.gov.br/assuntos/conselho/atas-das-reunioes/recomendacoes-vii-relatorio-cedaw-brasil, em 16/9/2017.
[7] http://oglobo.globo.com/brasil/brasil-tem-apenas-65-servicos-para-aborto-legal-10696828
[8] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/07/1796717-procuradoria-apura-omissao-do-estado-nos-servicos-de-aborto-legal-no-brasil.shtml
[9] DINIZ, Debora, MEDEIROS, Marcelo, Aborto no Brasil: uma Pesquisa Domiciliar com Técnica de Urna, ANIS, Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.

Fabiana Dal’Ma é promotora de Justiça do MP/SP, mestre em Direitos Humanos pela UNSW (Austrália), vice- Presidente da ABMCJ-SP, diretora da APMP e membro do MPD.

Arte: Milagros Vitale

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Ao encerrar sua fase de estrela teen da Disney, a cantora Miley Cyrus se desprendeu completamente da imagem pura e infantil para cantar sobre sexo e outros temas que ela considerava adultos. “Coming of age”: é assim que a mídia internacional chama a fase de amadurecimento de um artista que começou sua carreira ainda criança, como Miley. Em questão de processos, Miley fez o esperado dessa fase, que vem acompanhada de uma ação de marketing pesada, com novo álbum e novo visual. Mas a mídia e a opinião pública não aceitaram a versão adulta da estrela de Hannah Montana e, em meio a opiniões machistas sobre a artista, uma questão de preconceito e apagamento racial surgia, demandando atenção.

Muito frequentemente, esta nova era para os artistas brancos vem cheia de elementos apropriados da cultura negra que, em vez de traduzirem e homenagearem de fato a cultura em questão, vestem artistas brancos de estereótipos já atribuídos socialmente a pessoas negras, como a hipersexualização de corpos e a idealização da marginalidade. Logo, na leitura de Miley Cyrus, isso significou twerks e uso de drogas, tudo com o hip-hop como trilha sonora; já para o cantor Justin Bieber, significou aderir a dreads no cabelo, a um estilo mais próximo do rap americano de se vestir e até de fazer música, além de, é claro, firmar parcerias com rappers negros. Esta fase foi diretamente atrelada a atos irresponsáveis do, agora adulto, astro, incluindo uma prisão por dirigir bêbado.

Esta mudança de persona não é algo novo e, muitas vezes, pode acontecer de maneira sutil, como o amadurecimento de Justin Timberlake, que depois de sair de uma boy band formada por garotos jovens e brancos, com músicas dançantes sobre amor, trabalhou com o rapper e produtor negro Timbaland e passou a utilizar batidas de funk americano, jazz e até blues para falar sobre sexo. Quem percebeu essa tendência foi a cantora independente estadunidense Richey Collazo, que mostrou no Twitter exemplos também de com Britney Spears, Christina Aguilera e outros artistas fizeram o mesmo em suas fases de amadurecimento.

Em tempos de um governo que não apoia minorias nos Estados Unidos, Miley volta a renovar sua imagem pessoal e musical, dizendo, em matéria de capa da Billboard, que a música negra a impulsionou para o que ela agora julga ser uma imagem vulgar e que sua “redenção” será voltar a suas raízes, cantando pop e country. Tudo isso usando maquiagem e roupas leves e claras, quase uma personificação daquela ideia de mulher bela, recatada e do lar.

Este não é um questionamento sobre a liberdade sexual de Miley, mas sim de como ela e outros artistas brancos escolhem expressá-la, pois, em nome de sua própria liberdade, acabam colocando ainda mais amarras para pessoas negras, especialmente mulheres.

Mesmo recebendo slut shaming por seus rebolados e danças originárias da cultura negra, Miley foi mais presente e aceita no show business do que quando mulheres negras praticam a mesma arte. E elas quase sempre acabam sendo hipersexualizadas por isso. Um exemplo disso foi sua participação no VMA como uma cantora adulta. Depois da performance no VMA de 2013, ela foi convidada a apresentar a mesma premiação em 2015, enquanto a rapper Nicki Minaj usava as redes sociais para criticar a falta de indicações de artistas negros.

Hoje, Miley renega esta cultura, culpando-a por afastá-la do que agora acredita ser digno e respeitável. Assim, a cantora endossa a posição de marginalização e depreciação de mulheres negras, reafirmando que ser branca é mais culto, puro e recatado, ou seja, mais digno de respeito do público, já que é isso que ela busca atualmente.

Sendo a música e a cultura pop parte da formação cultural e de opinião do público de massa, é preciso se atentar para o racismo presente na indústria musical. A conversa sobre apropriação cultural não é uma proibição para pessoas brancas consumirem ou reproduzirem a cultura negra, mas sim um pedido de respeito a partir do entendimento de que o racismo existe e, por causa disso, existem batalhas para que esta cultura possa ser consumida sem criminalização. Mas, principalmente, para que artistas brancos reconheçam seus privilégios e não esvaziem a música negra em prol de seus interesses pessoais e comerciais.

Trazendo a situação para o contexto da música brasileira, a cantora Mallu Magalhães demonstrou, recentemente, o que é não reconhecer privilégios como artista branca performando música negra. O clipe da canção “Você Não Presta” foi considerado racista por movimentos e ativistas. Embora não tenha sido usada como um marco para a entrada da vida adulta dessa cantora (que ficou famosa aos 15 anos), a música é a primeira da divulgação do novo álbum de Mallu após a gravidez. Porém, quando a cantora dedicou, em rede nacional, uma música “pra quem é preconceituoso e fala que branco não pode tocar samba”, claramente se referindo às críticas que recebeu, demonstrou tudo menos amadurecimento e respeito à discussão sobre racismo na qual se viu inserida.

Para que Mallu entenda sobre a questão racial por trás da música que canta, é preciso sair do modo de defensiva, de proteger seu direito de cantá-la como se estivesse sendo tirado. É preciso ouvir. Como fez a sambista Beth Carvalho. Em entrevista para a Folha de São Paulo, ela fala sobre aprender e não repetir erros. “‘O Teu Cabelo Não Nega’ é racista. Martinho me chamou a atenção para isso. Eu já havia gravado quando entendi. Hoje, não teria gravado. Se Lamartine Babo errou, porque errar de novo?”

Para não errar de novo ou nem mesmo chegar a cometer o erro, é preciso atentar para a importância da empatia e interseccionalidade com as mulheres que saem prejudicadas por tais estereótipos. Como bem disse Audre Lorde: “eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”.

Para melhor entendimento e identificação deste processo de amadurecimento com apropriação cultural traduzimos os tweets de Richey Collazo:

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Texto original: 
Twitter: @richey_collazo 

Tradução: 
Think Olga
Ilustração e edição: 
Pri Ferrari
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A escritora americana Kate Schatz nem sabe dizer quando se tornou feminista. Para ela, o feminismo faz parte de sua experiência e vivência desde que se entende por gente – e não faz nenhum segredo disso. Foi natural, então, que pensasse em uma forma de compartilhar histórias de mulheres fantásticas – em geral, apagadas ou ignoradas pela história – em seu ofício. “Mulheres Incríveis” é a segunda obra de não-ficção de Kate, com recorte global; inclusive, na edição brasileira, publicada pela editora Astral Cultural, a fundadora da Think Olga, Juliana de Faria, contribuiu com mais quatro perfis: Maria da Penha, Debora Diniz, Sonia Bone Guajajara e Elza Soares. Entrevistamos a autora para conhecer sua relação com o feminismo e a importância de tornar a vida dessas mulheres conhecida em todo o país.

O que é ser uma mulher incrível (rad woman, no original)?

A palavra “rad” tem alguns significados diferentes; é uma gíria que traz diferentes maneiras de se dizer “muito legal” em inglês. No livro, nós usamos de uma forma meio engraçada, uma brincadeira com o fato de que as mulheres no livro são muito incríveis. Mas “rad” também é um diminutivo de “Radical”, o que pode significar algo poderoso ou que nunca foi feito antes. Então quando falamos dessas mulheres, nos referimos a pessoas que são muito legais, mas também fora do comum, que fazem coisas grandes e inesperadas.

Como surgiu a ideia do livro?

A ideia começou no meu primeiro livro, que se chama “Rad American Woman A-Z”, e a inspiração surgiu com a chegada da minha filha. Eu estava pensando muito em como é criar uma filha nesse mundo e as histórias que eu gostaria que ela aprendesse. E por aqui temos muitos livros alfabetizantes, que ensinam as crianças o ABC e eu pensei: ‘E se eu fizesse um livro como este, mas ao invés de animais ou frutas, eu usasse nomes de mulheres fascinantes da história?’. Então foi mesmo uma combinação de coisas as quais eu tenho paixão: feminismo, história, leitura para jovens… Quando apareceu na minha cabeça, eu pensei: ‘uau! esta é uma ótima ideia!’.

Você é uma escritora de ficção e esta foi a primeira vez escrevendo para jovens e sobre história! Como foi a experiência?

Quando eu tive a ideia, fiquei muito animada. Mas ao mesmo tempo, era um território novo, muito diferente. Eu nunca havia escrito para crianças e nunca havia escrito algo que não era ficcional. Então foi um ótimo desafio que eu fiquei feliz de aceitar. Mas no fim das contas, não sei se houve tanta diferença. Mesmo que estas histórias sejam verdadeiras, que não sejam ficção, ainda é tudo sobre contar histórias. Então, as mesmas ferramentas que eu uso como escritora de ficção, também uso quando estou escrevendo histórias sobre estas mulheres da vida real. A minha verdadeira intenção é tentar manter um público interessado e engajado com as histórias que estão sendo contadas por meio dessas mulheres.

E sua filha? Ela gostou dos livros?

Ah, ela ama os livros! Ela tem oito anos agora e é uma grande fã e muito orgulhosa. Quando o primeiro livro saiu, ela estava perto dos seis anos de idade e ainda não conseguia ler, então ela olhava e reconhecia o livro, mas não havia lido sem ajuda, ainda. E quando ela aprendeu a ler, houve um momento em que ela leu o livro em voz alta para mim e esse foi um momento muito emocionante.

Em algumas entrevistas, você mencionou que se divertiu muito durante a pesquisa para o livro. Gostaríamos de saber: como foi o seu processo de desenvolvimento e escrita?

A pesquisa para conteúdo histórico é difícil, mas incrivelmente divertida ao mesmo tempo. Para o Mulheres Incríveis, meu processo de pesquisa foi diferenciado pois, no primeiro livro, eu já tinha um conhecimento vasto sobre mulheres americanas na história, mas com esse eu não tinha tantos nomes específicos e eu não queria deixar muitas brechas. Então eu contatei pessoas de todo o mundo, amigos meus e amigos de amigos meus e perguntei a eles: que  mulheres, em suas respectivas culturas, eles gostariam de ver neste livro? Isso foi uma parte bem grande da minha pesquisa, para ter uma representação autêntica de pessoas em todo o mundo se identificassem. E foi isso, todo mundo deu ideias… e enquanto eu me aprofundava nas pesquisas, lendo muito e assistindo a todos os documentários e vídeos possíveis, acabei aprendendo muito sobre essas mulheres incríveis. Cerca de 40 histórias entraram no livro, mas eu pesquisei mais de 200 nomes antes de decidir quem incluir. Eu passava meu tempo lendo e vendo histórias sobre pessoas legais! *rindo*

Isso parece bem divertido, mesmo!

E agora, pessoas me mandam histórias o tempo todo por e-mail, Facebook, mandam links de mulheres e garotas fantásticas… As pessoas também vêm falar comigo em eventos, algo como “ei, você já viu essa ou essa pessoa?”. Eu sempre anoto essas ideias. Acabou se tornando uma parte bem importante do projeto.

Você tem alguma história favorita que gostaria de compartilhar com a gente?

Bem… eu acabei ficando muito ligada a todas as histórias. Sempre faço visitas a escolas, para conversar com os jovens, e acabo lendo sempre as mesmas histórias que fazem sucesso entre eles, são mais fáceis de ler em voz alta… e a história da Marta, essa fantástica jogadora de futebol brasileira, é sempre um sucesso… É engraçado, futebol é muito popular entre crianças aqui nos Estados Unidos, especialmente jovens meninas. Mas não é tão popular entre adultos. Há muitas meninas que jogam quando são pequenas, mas não têm oportunidade de jogar de forma profissional quando crescem. É tão incrível a reação delas quando ouvem falar da Marta, ficam muito empolgadas. Também gosto muito da história de Sophie Scholl, a jovem estudante alemã que foi uma das primeiras pessoas a falar publicamente contra Hitler. É uma história poderosa e muito triste sobre como é importante se posicionar em relação ao seu governo, o que com certeza é muito relevante para a gente até hoje.

A edição brasileira tem mais quatro mulheres incríveis, cujos perfis foram escritos por Juliana de Faria, fundadora da Olga. Você conhecia a história delas?

Fiquei tão feliz quando a editora brasileira sugeriu a inclusão de mais mulheres, fiquei tão feliz. Eu não era familiarizada com a história dessas mulheres, então fiquei tão emocionada em ler sobre suas vidas. Foi realmente uma ideia muito boa adicionar mais mulheres, foi perfeito. Fiquei bem animada em conhecer mais sobre elas. Quando soube da inclusão desses nomes, perguntei para alguns amigos brasileiros se conheciam essas mulheres, e todos ficaram tão empolgados quanto eu.

Muito bom! Bem, o tema agora é feminismo. A Olga é uma ONG focada em empoderar mulheres por meio da informação aqui no Brasil. Quando você soube que era feminista?

Eu não tenho uma memória específica sobre isso, embora quisesse muito ter. Minha mãe encontrou um pôster que fiz quando tinha 12 anos para um projeto de escola, basicamente fazer um pôster que me representasse. E o meu tinha diversas fotos, colagens e montagens, e no meio delas a palavra “feminista” escrita bem grande. Eu era bastante ativa politicamente quando era mais nova, mas isso me surpreendeu! Eu não lembro muito bem disso… lembro de recortar essa palavra para colocar no pôster, mas não lembrava que tinha colado nem que tinha feito isso aos 12 anos! Então, tenho o feminismo em mim há bastante tempo, claramente *rindo*. Desde pequena, era interessada em gênero e política. E sempre tive um conceito muito sólido sobre o que é ser mulher, e sempre pensava nisso, nas coisas que eu achava que não eram certas. Sou feminista desde sempre, acho!

O mundo mudou bastante nas últimas décadas em relação ao feminismo, mas queria saber o que é o feminismo hoje, na sua opinião.

Para mim, feminismo é muito simples. É acreditar na igualdade dos gêneros, mas também, o que eu sempre digo, é saber que ainda não temos essa igualdade. Vivemos em um sistema patriarcal, que desvaloriza de forma consistente as conquistas da mulher. Então, o feminismo está presente na forma que eu me posiciono no mundo, nos trabalhos que faço, em como educo meus filhos… E é algo que eu torno bastante público sobre mim, eu falo bastante sobre o tema, tenho uma camiseta, porque acho importante ter pessoas pensando e falando sobre isso. De certa forma, acho que muita gente ainda acredita que feminismo é um palavrão, e eu quero torná-la uma palavra legal. Todo mundo que acredita na igualdade de direitos deveria se considerar feminista. É uma grande parte da minha vida, em todos os sentidos.

Você poderia contar um pouco mais sobre seu projeto Solidarity Sundays?

Sim, claro! Solidarity Sundays é uma rede americana de ativismo fundada por uma amiga minha. Uma vez por mês, a gente reúne mulheres que cumprem ações políticas para descobrir novas formas de ativismo. É similar ao feminismo; muitas pessoas se identificam com as ideias, têm posicionamento, mas não se sentem ativistas de uma causa, não sabem como fazer a diferença. É uma forma de ajudar pessoas a encontrarem a melhor maneira de lutar, ao seu modo. Muitas pessoas usam a internet, por exemplo, como espaço para o ativismo. Isso é bom, mas também acho que as pessoas devem se encontrar em espaços offline. É por isso que começamos o Solidarity Sundays, que se encontra sempre em um domingo do mês. Há um ano, temos um grupo que se encontra na minha casa e se organiza para agir em diferentes causas, como a luta pelo meio ambiente, pela legalização do aborto. Logo depois da eleição [presidencial nos Estados Unidos], nosso grupo cresceu muito! *rindo* Tínhamos um grupo já grande no Facebook, com cerca de 700 pessoas, e depois das eleições esse número saltou para 1900! E temos cerca de 300 grupos ao redor do país, e em alguns outros países também, como Canadá, Áustria… Sempre são grupos de pessoas que se reúnem na casa de alguém. Escrevemos um kit de ações que podemos tomar, em diferentes cidades. Ligamos para representantes do governo, organizamos festas beneficentes para angariar fundos para organizações, participamos de marcas… mas muito das nossas ações focam, hoje, na política americana, como saúde, políticas anti-imigrantes, somos muito reativas a tudo que Donald Trump vem propondo. Estamos trabalhando bastante por aqui, é muito frustrante, às vezes. Sabemos que o resto do mundo olha pra gente e pergunta o que está acontecendo. *rindo*

Acreditamos muito no empoderamento feminino por meio da informação, ou seja, em mulheres contando suas histórias ou passando o microfone para que outras também compartilhem suas vivências, que é o que você está fazendo também. Como podemos empoderar ainda mais mulheres nessa missão?

Acho que há uma grande quantidade de formas de fazer isso e é extremamente importante. Artistas, por exemplo, tem um grande papel nisso, assim como vocês, jornalistas. Geralmente, fazendo com que todas as mulheres saibam que suas histórias são importantes e válidas. Artistas têm esse poder, seja no cinema, escrevendo roteiros para a televisão ou criando artes visuais, é essencial contar essas histórias. Jornalistas também tem essa responsabilidade de amplificar vozes. E também acredito que é essencial começar o mais cedo possível! Fazendo com que jovens meninas sintam que suas opiniões são válidas, que são interessantes e suas histórias devem ser contadas também, inclusive nas salas de aula. Elas precisam se sentir preparadas para fazer perguntas e respondê-las também. Encorajar essa cultura do compartilhamento, de trocar experiências, é realmente importante. Se isso não acontece, você acaba tendo mulheres adultas que não sentem que suas opiniões e histórias são válidas, e isso é ainda mais duro, né? Outro aspecto que pode ser importante é criar espaços seguros para mulheres conversarem e dividirem vivências, seja no espaço digital ou offline.

Nossa última pergunta é, claro, sobre recomendação de livros de outras mulheres incríveis?  

Oh meu Deus, eu consigo recomendar um milhão de livros! *rindo* Isso é muito difícil! Acho que vale dizer que há muitos livros que são similares ao Mulheres Incríveis, que contam histórias fantásticas sobre mulheres na história ou empoderam meninas… há uma escritora americana que gosto muito, que é Rebecca Solnit, que para mim é uma das pessoas mais brilhantes escrevendo sobre política hoje. Caramba, são muitas opções! *rindo* Acho que não vou conseguir pensar em mais agora, estou olhando para a minha estante agora e é muito difícil escolher uma só *rindo*.

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Quando começamos a conversa sobre assédio de rua com a Chega de Fiu Fiu, em 2013, o tratamento dado pela imprensa às questões de gênero eram bastante diferentes, em especial no meio online. Uma busca do Google pela expressão “assédio sexual” levava a reportagens que mencionavam esse tipo de violência no ambiente de trabalho, mas pouco se falava sobre o contexto machista que permite que homens, em todas as partes do mundo, se dirijam a mulheres no espaço público de maneira ofensiva e opressora, como se tivessem o direito de opinar ou escrutinar nossos corpos. Nesses quatro anos de campanha, vimos não apenas o tema do assédio ocupar espaço na imprensa e nas redes sociais; como também o feminismo abraçar e encontrar diferentes vozes nas redes, que aprofundaram o debate e mostraram como é urgente ressignificar o retrato da mulher na sociedade, nos meios  de comunicação, nas relações interpessoais.

Hoje, vemos parte da imprensa aderindo a pautas sobre gênero ou às práticas dos nossos Minimanuais de Jornalismo Humanizado. Percebemos que o feminismo é uma pauta que surge com maior naturalidade nos espaços de conversa. Mas como mensurar os avanços e as transformações que a luta feminista provocou dos últimos quatro anos?

É impossível precisar quantas mulheres estão envolvidas no feminismo ou são contempladas e tocadas por suas pautas. Mas podemos contabilizar histórias que não foram esquecidas, nem silenciadas. Histórias como a de Cláudia Silva Ferreira, que sofreu violência duas vezes: primeiro, quando foi arrastada pelo carro da Polícia Militar em 2014. A segunda, quando foi retratada de forma desumanizada pela imprensa, seu nome esquecido, seus sonhos ignorados, sua identidade negada. Se tivessemos aceitado  o tratamento da imprensa à época, Cláudia poderia ter morrido anonimamente, em um dos tantos atos de violência sem sentido que atingem principalmente as mulheres negras e periféricas.

Mas status social também não é garantia de proteção às mulheres. Lembremos de Nigella Lawson, agredida em público pelo marido; Amber Heard, que foi agredida pelo então parceiro, Johnny Depp, e não apenas teve sua história duvidada e questionada, como perdeu papéis no cinema por ter denunciado sua história de abuso; a cantora Rihanna, que sofreu violência doméstica pelas mãos de Chris Brown pouco antes da cerimônia do Grammy de 2009, viu o ex-namorado comemorar no Twitter que estava livre de punições.

Sabemos que nossa luta faz avanços quando essas histórias não são esquecidas, quando a vítima não é silenciada, quando a mulher é levada a sério em seu testemunho. Como diz Virginia Woolf: “Uma feminista é qualquer mulher que diz a verdade sobre sua vida”. Mas é preciso coragem tremenda para dizer essa verdade.

Nos últimos quatro anos, colecionamos vozes que corajosamente contaram suas histórias. Queremos continuar esse trabalho, pois sabemos que as mudanças são lentas, graduais e não-lineares; basta prestar atenção nos direitos que estão sendo cerceados e manipulados nos últimos dois anos, alguns deles que considerávamos já conquistados, como a reforma trabalhista que pode permitir que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres, a dificuldade de denunciar violência mesmo com a Lei da Maria da Penha, a resistência à legalização do aborto. É preciso reforçar, todos os dias, que o silenciamento dessas vozes representa a perda de dignidade e até mesmo a morte de muitas mulheres.

Queremos que os próximos anos sejam de ainda mais conquistas e pluralidade de vivências. Queremos ver a mulher que opta pelo aborto livre dos caminhos escusos da ilegalidade. Queremos mais empatia. E direitos verdadeiramente assegurados.

Nos ajude a continuar lutando. Participe da nossa campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria e mantenha a luta da Think Olga acesa. Precisamos de vocês! #Olga4Anos

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Há alguns meses, enfrentei uma depressão ao lidar com traumas e questões profundas da minha história. Quem já passou por isso sabe o quanto custa para uma pessoa deprimida ser obrigada a se relacionar. Mas ao que parece, para as mulheres, nos trancarmos no quarto, nos escondermos sob o travesseiro, não querer ser gentil, social e cordata o tempo todo não é uma opção bem aceita. Se somos o esteio emocional da família, como podemos falhar?

Minha família, assim como muitas outras, tem sempre uma mulher responsável pelo bem estar de todo mundo. É nela que recaem as responsabilidades de cuidar de idosos e crianças, de reunir a família em eventos especiais, de socorrer um irmão ou uma sobrinha, de ouvir queixas e desabafos de quem quer que esteja precisando. Ela cuida de todos, menos de si mesma. E isso consome tempo, energia e espaço mental e afetivo.

Eu, durante minha fase depressiva, não tinha forças para estar disponível, não conseguia ouvir os problemas alheios. Simplesmente não conseguia. Mas como isso é possível? Como eu não estaria ali para os que eu amo? Uma culpa enorme, uma sensação de débito emocional tomou conta de mim. E essa culpa – assim como o pressuposto que sempre devo estar disponível – tem uma grande relação com o machismo que está profundamente enraizado em nossa sociedade.

Em 1969, o psicólogo John Bowlby criou um conceito inovador para a comunidade psicanalítica: a “teoria do apego“, que descreve a relação entre mãe e filho, a interdependência de ambos e as expectativas e consequências dessa relação. Apesar de trazer algumas ideias polêmicas para a época, o termo vingou – e aos poucos, estimulou a conversa sobre a ideia de disponibilidade emocional em todas as relações afetivas, não apenas na maternidade.

Mas afinal, o que é estar emocionalmente disponível para o outro? É aí que mora o problema: ao que tudo indica, para a parcela masculina do mundo, significa apenas estar presente (ou não) em um relacionamento. Para a mulher, a disponibilidade emocional é obrigatória em todos os campos de sua vida. Desde a infância, somos estimuladas a sempre acolher, cuidar e ouvir. Somos a parte da população que “sabe abrir o coração”, que “tem talento para falar de sentimentos”. Em um estudo profundo sobre disponibilidade emocional, publicado em 2005 por Rebecca J. Erickson, todas essas tarefas estão atreladas não ao sexo, mas ao conceito de gênero feminino que se estende séculos a fio. Não somos “melhores” em emoções: somos educadas para acreditar que sim. A pior parte nisso tudo? Essas construções culturais e sociais são exploradas por outros.

Na trilha do estudo de Bowlby, a pesquisadora Arlie Russel Hochschild publicou, em 1983, o livro The Managed Heart, que mostra como esses sentimentos “femininos” são comercializados e prometidos por empresas. Um exemplo de Hochschild são as companhias aéreas, que estampam o sorriso das aeromoças em todas as suas campanhas. A simpatia e a solicitude da comissária de bordo são tão garantidas quanto o lanchinho durante o vôo.

Mas estamos falando sobre emoções humanas, que são complexas e, geralmente, exigem muito de nós. Segundo pesquisas, trabalhos que lidam com muita dedicação emocional – Hochschild identificou mais de 40 tipos – são mais exaustivos a longo prazo, mas isso raramente é notado pelos empregadores. No estudo Gênero, Emoções e Produção Cultural: Uma Análise da Autoajuda Brasileira, a mestre em Antropologia Social Talita Castro menciona Hochschild para explicar porque isso recai principalmente sobre as mulheres: “quanto maior o status social da pessoa, mais suas emoções são levadas em conta; em contraposição, quanto mais subordinada, mais ela é institucionalmente chamada a atuar sobre seus estados emocionais”.

Vale dizer que a expectativa da mulher profissional como boa ouvinte e sempre disponível emocionalmente se repete em todas as camadas da sociedade: espera-se que nós sejamos professoras mais gentis, líderes mais maleáveis – caso contrário, somos chamadas de “endurecidas” e acusadas de perder nossa feminilidade para alcançar o topo. Na política, a expectativa é que candidatas sejam mais bem humoradas e afáveis (além, é claro, de inteligentes e capazes) do que os homens. A lista de tarefas invisíveis da mulher parece interminável.  

Nos relacionamentos conjugais, essa exigência se repete: quem nunca passou a noite escutando o marido ou namorado reclamar do trabalho? Ou tentou contornar e conciliar brigas dele com a família? Administrou seus rompantes de raiva? Esta desigualdade também pode ocorrer em casais homoafetivos, é verdade, mas a disparidade de expectativas impostas a homens e mulheres nesse aspecto não pode ser ignorada. Segundo Hochschild, “[…] as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom.” Ou seja, além de acolher, também nos cabe fazer a relação funcionar até os mínimos detalhes. Em um longo artigo do The Guardian sobre trabalho emocional e disponibilidade, a autora Rose Hackman menciona uma lista de afazeres exclusivos da mulher em um relacionamento heterossexual, que vai do planejamento do melhor momento para ter filhos até ser a referência de coisas perdidas pela casa.

Este desequilíbrio profundo também tem a ver como os homens são educados. São encorajados, desde cedo, a esconder seus sentimentos e muitas vezes represam angústia, raiva, dor e sofrimento para proteger sua “masculinidade”. Estudos já relacionaram esta incapacidade de lidar com emoções com violência, comportamentos obsessivos e compulsões, como por exemplo a objetificação feminina por meio da pornografia. Mas na vida familiar, a disponibilidade emocional do homem é mais do que um pressuposto para um relacionamento saudável: o estudo “Mais do que o provedor”, realizado na Universidade de Michigan, estabeleceu a relação entre a disponibilidade emocional paterna e o desenvolvimento de habilidades como a fala e a coordenação motora de bebês. Ou seja, essa tarefa é grande e importante demais para ser exclusiva da mãe, embora recaia ainda sobre nós.

A manipulação de emoções de forma desequilibrada – seja para se encaixar em um estereótipo ou perpetuá-lo – é prejudicial a todos, mas a uma parcela mais do que outra. Se queremos realmente entender o quanto essas cobranças fazem mal, é essencial fazer um recorte racial aqui: as mulheres negras são as maiores vítimas desse sistema.

Em nossa sociedade racista, onde a população negra é invisibilizada, explorada e solitária, é muito conveniente perpetuar o mito da “mulher negra forte”, como diz Meri Danquah: “Supõe-se que as mulheres negras sejam fortes – amparadoras, nutridoras, que curam outras pessoas […]. Supõe-se que a dureza emocional que é construída na estrutura de nossas vidas esteja ligada ao fato de eu ser ao mesmo tempo negra e mulher”.

No subtexto sinistro dessas expressões, está a convicção de que a mulher negra deve ter ainda mais disponibilidade emocional, uma vez que, oprimida de todas as formas possíveis, não deve fraquejar ou abalar-se, sem direito à tristeza ou ao recolhimento. Tamara Beauboeuf-Lafontant faz uma avaliação precisa dos malefícios da perpetuação desse estereótipo: “o conceito de força associado à mulher negra esconde aquilo que acredito que seja sua verdadeira função: defender e manter uma ordem social estratificada ao ocultar as experiências de sofrimento, os atos desesperados e a raiva da mulher negra”. Negar-se a ser a “mulher negra forte”, permitir-se sentir e fraquejar, é um ato de resistência.

No texto “Nós negros não morremos só de tiros: tenho depressão” de Stephanie Ribeiro para a Afronta, ela resiste. “Ser forte não é bom para mim enquanto mulher negra. Pois ser forte é negar minha humanidade. Essa cobrança da mulher negra que não sente e lida bem com tudo é resquício da ideia que somos mais objeto do que gente. Existem dores na minha alma que me fazem querer chorar e ficar só. E sobre isso, é bem mais complexo falar, mas preciso me permitir apenas ‘Sentir’”.  

Doar-se – e ainda mais de forma obrigatória, diária, como forma de opressão e não de expressão afetiva – é exaustivo. Não é à toa que estamos esgotadas, como essa tirinha da quadrinista francesa Emma exemplifica muito bem. A exigência de trabalho emocional tão grande – seja no emprego, na vida familiar ou até mesmo nas amizades – nos sufoca, quando deveríamos ser dedicadas, de forma espontânea, apenas àqueles que queremos bem. A disponibilidade emocional deve ser tudo, menos tóxica.

A acadêmica portuguesa Sofia Pracana, da Universidade de Lisboa, tem uma definição bonita do termo: “estar emocionalmente disponível é a capacidade de me ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada. É abraçar, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida”. A recíproca precisa ser verdadeira: a disponibilidade emocional só deve funcionar como uma via de mão dupla.

O feminismo assume, há décadas, a tarefa de quebrar estereótipos sobre a mulher. Há quem diga que a próxima grande revolução feminista terá como objetivo nos desvincular, de uma vez por todas, da obrigatoriedade de estar sempre disponível. Não entenda mal: somos fazedoras de laços e isso, para muitas, é prazeroso. Mas não podemos cair na armadilha de aceitar que isso é nossa obrigação – e apenas nossa. Todos perdem com isso.

Precisamos, urgentemente, ter um tempo de recolhimento. Precisamos ter o direito de, às vezes, simplesmente não estar ali.

Maíra Liguori é diretora da ONG Think Olga e criadora do projeto Olga Esporte Clube. 

Arte: Chloe Cushman para o The Guardian

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Quando falamos sobre a presença feminina no esporte como um ato revolucionário, seja aqui na Think Olga ou na Olga Esporte Clube, estamos jogando luz nos inúmeros obstáculos que a mulher encara até ocupar seu lugar na quadra. Muitas vezes, são desafios que digerimos de forma mais solitária: vergonha do corpo, insegurança com as próprias habilidades, falta de hábito. Mas e quando a prática esportiva é impedida pela violência externalizada, em grupo?

Na última semana, jogadoras de basquete amador foram hostilizadas, assediadas e ameaçadas pelo simples fato de quererem dividir o espaço público: uma quadra na Praça Rotary, no centro de São Paulo. Essas agressões não são novas: há meses, o grupo procura por um local de onde não fossem expulsas por outros times masculinos ou que tenha infraestrutura adequada. O conflito na praça, contudo, ganhou maiores proporções, uma vez que os jogadores pareciam ter entrado em um acordo com as basqueteiras – para ignorarem na semana seguinte, reagindo agressivamente à chegada delas. Um grupo de homens adultos impedindo que mulheres usassem a quadra por apenas um dia por semana não é uma agressão aleatória: é mais uma das numerosas provas que a presença das mulheres é sistematicamente negada nos esportes. Como apontou Joana Mendes, uma das integrantes do time, “a gente tem várias demandas que não são atendidas. Coisas muito básicas, como tênis feminino para jogar basquete. As marcas falam que não tem procura ”.

Em resposta à ofensa, o time das basqueteiras organizou um encontrão entre grupos de esportes femininos para que ocupassem o campo na noite da última segunda-feira. O evento #OccupyRotary reuniu dezenas de mulheres que só queriam jogar. O encontro chegou aos ouvidos, inclusive, de Magic Paula, uma das maiores jogadoras de basquete do Brasil. Somente com a persistência de Paula e daquele grande grupo de mulheres, os agressores, mesmo com uma desvantagem considerável em número, foram embora, não sem hostilidade e resistência.

No fim da noite, a sensação era de conquista e vitória – o que engajou ainda mais os times em quadra, rendendo disputas incríveis. Mas como garantir a segurança das esportistas em dias comuns, sem um grupo grande e pronto para fazer barulho? Em nossa pesquisa na Olga Esporte Clube, descobrimos de 57% das entrevistadas não fazem exercícios em lugares públicos por medo da violência (http://bit.ly/pesquisa-OEC).

Se, para as mulheres, praticar esporte em espaços públicos é um risco, esta é uma questão  governamental. Daniela Castro, Secretária Adjunta da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, esteve no #OccupyRotary e entende que a organização entre os grupos para o uso do espaço é um exercício de cidadania. Isso não quer dizer que seja fácil, mas existem algumas ferramentas disponíveis. Espaços abertos de lazer geralmente possuem canais de contato, desde a Secretaria até coordenadores individuais de parques e clubes. Daniela orienta que se busque essas fontes no minuto que a agressão ocorrer, mas também reforça a importância de chegar a um acordo de forma pacífica. E, é claro, também incentiva o “chamamento coletivo”: a ideia de que é possível, sim, pressionar e fincar pé com grupos de mulheres.

Não vamos voltar atrás. Afinal, como disse Roberta Magalhães, do Rachão Basquete Feminino, na noite de #OccupyRotary: “Se a gente quisesse ocupar a quadra o dia inteiro, a gente também poderia. A gente tá acostumada a receber o mínimo do mínimo do mínimo… Chega. Não concordamos mais com isso”.

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Por mais absurdo que possa parecer, tem se tornado cada vez mais comum ter homens ocupando espaço de mulheres em premiações segmentadas. A nomeação de Bono Vox, vocalista da banda U2, no topo da lista de Mulheres do Ano 2016 da revista Glamour americana é um grande exemplo disso.

Mas homens já não ganham muitos prêmios? A revista disse não concordar: “Essa mentalidade começou a ficar defasada. Existem tantos homens fazendo coisas maravilhosas pelas mulheres hoje em dia”.

Para nós, ao invés de justificar, esta declaração só gerou mais questionamentos:

– Se hoje homens estão colaborando para a igualdade de gêneros, será que não devemos agradecer às mulheres que iniciaram e mantém essa luta?
– Será que, nessa posição de privilégio, Bono Vox e os “outros homens” não estão fazendo mais do que sua obrigação, ao colaborar com (e não protagonizar) as lutas das mulheres?
– Chegamos no mesmo patamar de oportunidades que os homens, a ponto de não mais precisarmos de premiações segmentadas?

Sabemos as respostas para todas essas perguntas e é por isso que, em 2013, iniciamos a lista de Mulheres Inspiradoras da Think Olga, onde não buscamos premiar, tampouco classificar as nomeadas, mas sim usar nosso espaço para exaltar trabalhos protagonizados e desenvolvidos por mulheres, como forma de combater a falta de reconhecimento.

E, acompanhando tantas mulheres inspiradoras em suas jornadas, podemos dizer que, ainda hoje, cada nova conquista merece méritos. Entre estes feitos, está o de tornar o feminismo e a luta por direitos iguais tão populares a ponto de engajar também os homens na causa.

Se os homens têm encontrado maneiras de ocupar listas segmentadas, pode-se imaginar a discrepância em prêmios mistos. Em uma das maiores honrarias da humanidade, o Prêmio Nobel, 97% dos vencedores na categoria de ciências são homens, uma área onde a participação feminina vem crescendo, mas ainda não o suficiente para mudar este quadro de representatividade.

Já na categoria Literatura, somente 14 mulheres foram agraciadas com o prêmio  em 116 anos. No ano passado, a academia escolheu Bob Dylan, o primeiro músico nomeado para Literatura em 103 anos, e foi questionada quanto às voltas dadas para premiar homens quando há tantas mulheres na mesma área buscando visibilidade. No fim das contas, uma mulher, a cantora e compositora Patti Smith, foi quem recebeu a honraria em nome de Bob Dylan, que não estava presente na cerimônia de entrega.  

Um refresco de diversidade aparece  na categoria Paz, a que mais cresce em nomeações femininas. E, em 2017, temos a chance de ter uma representante brasileira entre os indicados e, melhor ainda, pautar a importância da luta feminista, com Maria da Penha e seu trabalho em prol dos direitos e proteção das mulheres vítimas de violência: http://bit.ly/2qk4QMR.

Contudo, quando se traz um recorte social para a questão do reconhecimento, nota-se que ainda estamos longe da equiparação. Enquanto, para Bono Vox, ser o primeiro homem do ano da Revista Glamour foi um ato tido como histórico, Viola Davis de fato fez história ao tornar-se a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz em série dramática na história da premiação em 2015, demonstrando que mesmo em uma categoria segmentada, as oportunidades não são as mesmas, como ela disse em seu discurso: “A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”  

Quando o assunto é música, as oportunidades que são dadas na maior premiação do mundo, o Grammy, não passam de categorização e limitação de artistas negras a estereótipos. No ano passado, Beyoncé levou “Melhor Álbum Urbano” pelo trabalho musical e audiovisual sobre identidade e ancestralidade negra que é “Lemonade”. Já a maior categoria da noite, “Álbum do Ano”, ficou para a britânica Adele que disse, em seu discurso, ter sido injusto não competir com Beyoncé, dedicando o prêmio a ela.

E até em listas menos prestigiadas, como a “O que é sexy” da marca de lingerie Victoria’s Secret, não pensa em mulheres negras. Em 2017, a marca falhou na oportunidade de redefinir padrões de beleza, nomeando somente Vanessa Hudgens, Priyanka Chopra e Jamie Chung como não-brancas.

Por isso, iniciativas como o Troféu Raça Negra ou ainda a lista de #25WebNegras do site Blogueiras Negras, que destaca mulheres negras que usam a internet para terem suas vozes ouvidas em diversas áreas, ainda são tão necessárias.  

A Victoria’s Secret ainda demonstrou como não falar de “diversidade de gênero” ao nomear, nesta lista só de mulheres, um homem cisgênero, James Corden, como apresentador de TV mais sexy. Não há mulheres ou homens transgêneros em nenhuma outra categoria. E, em resposta às críticas, a marca se manteve confiante ao dizer: “Isto é o que significa sexy para nós”.

Já na atualização que a MTV americana deu para a antiga premiação MTV Movie Awards, transformando-a em “MTV Movie & TV Awards” contou com mais inovação do que somente a inclusão de entretenimento de televisão e streaming para os nomeados. Nesta nova versão, as categorias de atuação não são separadas por gênero (https://glo.bo/2pQdAqM) e de primeira, duas garotas levaram o prêmio em formato de balde de pipoca para casa: Emma Watson, pela performance em A Bela e a Fera, desbancou os favoritos James McAvoy e Hugh Jackman na categoria “Atuação em Filmes”. E Millie Bobby Brown, a Eleven da série Stranger Things, de apenas 13 anos, venceu na categoria “Atuação em uma série de televisão”, atores consagrados em Game of Thrones e The Walking Dead.

Já vivemos em uma sociedade fomentada pelo trabalho de mulheres tanto quanto os trabalhos  de homens. Contudo, nem todos podem enxergar isso com clareza, já que o que as revistas e premiações destacam nem sempre representam de fato a pluralidade de nossa sociedade. Por isso, para que possamos um dia ver mais mulheres nomeadas, precisamos passar por listas segmentadas que lhes dêem destaque e não que colaborem para o apagamento de seus nomes.

Nos sentimos honradas por estarmos entre as finalistas do Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico, pois sabemos que estamos ao lado de mulheres inspiradoras de nossa área e em um ambiente que as reconhece.

A verdade é que a sociedade e os mercados devem muito às mulheres, por isso não vemos porque deixar de celebrar suas conquistas mesmo em um, ainda utópico, mundo igualitário. Afinal, esse mundo igualitário só será possível por conta delas.

Arte: Eleanor Shakespeare.

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Em um debate sobre representatividade negra e racismo na mídia, uma pessoa na plateia questionou às presentes: “Como fazer uma comunicação justa e inclusiva para mulheres negras?”

Embora eu estivesse mediando a conversa, sussurrei para minha colega que ela cuidasse do assunto, pois era delicado para mim. Como jornalista, descobri a resposta para esta pergunta já na faculdade e acreditei que poderia colocá-la em prática no mercado de trabalho. Mas logo me deparei com uma realidade de oportunidades negadas pelo racismo institucional, responsável por moldar e disseminar estereótipos de pessoas negras e não suas histórias. Precisei enfrentar muitas barreiras até me encontrar no jornalismo independente.

Logo, a pergunta me trouxe, imediatamente, lembranças e sentimentos, entre eles de raiva e impotência. Minha primeira reação foi me proteger. Porém, nem sempre um assunto que consideramos um gatilho faz somente enfraquecer. Naquele momento, me veio exatamente o contrário e, pela primeira vez em muito tempo, tive coragem de enfrentar colegas de profissão e responder: “Chame mulheres negras para falar. Abra espaço para elas escreverem, contarem suas histórias, falarem sobre si mesmas”.

Parece uma solução tão simples, mas na prática, é dizer, na cara de editoras e jornalistas, que eles são racistas em suas produções de conteúdo, que, muitas vezes, pautam questões raciais em função de uma cobrança da militâncias mas não o fazem de maneira correta. Isso acontece pois não ouvem tais cobranças, já que continuam sem dar oportunidades para que pessoas negras façam parte das redações.

Como a personagem Samantha White, da série Cara Gente Branca (Dear White People), disponível na Netflix, sempre diz e repete para seus colegas brancos: o medo, a revolta e a resistência negra ainda existem por causa dos efeitos da escravidão.

Como já apontei, esta série é para e sobre pessoas negras e as diversas questões e vivências em torno delas. Porém, Cara Gente Branca continua fazendo jus ao título, quando coloca uma mulher negra, Sam White, para falar sobre racismo estrutural diretamente para pessoas brancas. Para isso, ela usa um veículo de comunicação independente em seu campus universitário e enfrenta as confrontações com relação ao suposto “racismo reverso”. Basicamente, ela faz o que precisei reunir coragem para fazer somente uma vez, naquela mesa de debate, só que em alto e bom som em um programa de rádio periódico.

No fim das contas, a série acaba sendo sobre a importância de se reconhecer privilégios, até mesmo para pessoas brancas que se dizem “acordadas” para a existência do racismo. Uma mensagem importante é a de que amar uma pessoa negra ou se juntar à militância não livra alguém de ser racista.

Claro que ninguém quer ter este título, receber esta acusação. Não só no contexto americano que a série traz. No Brasil, 90% dos brasileiros admitem que existe preconceito de cor, mas 96% dos entrevistados se identificaram como não racistas, segundo uma pesquisa histórica do Datafolha, de 1995.

No dia da Abolição da Escravatura no país, não é estranho perceber que esta resistência a admitir a profundidade do racismo no Brasil ainda existe? Mesmo  que a conversa sobre racismo esteja sendo expandida, ainda encontramos estereótipos nocivos, a ponto de ser necessária a criação de uma parte do nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado dedicada a apontar práticas ruins e fornecer maneiras  honestas de como contar as histórias de pessoas negras e ainda a criação do projeto Entreviste um Negro, pela jornalista Helaine Martins. 

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Se ser racista é tão pesado e negativo, o que estamos fazendo para mudar isso? Melhor: o que as pessoas brancas estão fazendo para mudar isso?

Ainda paira sobre a sociedade, principalmente no Brasil, uma ideia de que preconceito de raça só acontece quando é vociferando, gritado ou caracterizado por agressões físicas, como em tempos de escravidão, apagando o fato de que somente a abolição não foi suficiente para igualar as raças.

Logo, é muito fácil se agarrar nisso para relativizar agressões que parecem pequenas, mas que são dolorosas. Em outras palavras, ainda vivemos em um mundo em que as pessoas brancas julgam o que é racismo e se mascaram para não parecerem racistas.

A Cara Gente Branca a qual a série se refere é um grupo que precisa parar de ver um apontamento de racismo como algo pessoal e aprender a ouvir quem aponta. E agora eu também me refiro a esta Cara Gente Branca, mais especificamente meus colegas de profissão, pois minha coragem não pode ficar naquela situação isolada da mesa de debates e espero ser ouvida.

A mídia e a comunicação são grandes responsáveis por propagar ideais que geram violência e segregação. Logo, está em nossas mãos, como comunicólogos, não deixar que os esforços de pessoas negras para superar gatilhos e falar sobre suas angústias sejam em vão. Retribuam com respeito e espaço de fala.

Ficar na defensiva ou buscar uma redenção por ter sido chamado de racista não resolve um problema tão grande. Mas assumir o erro e aprender com ele, sim.

Karoline Gomes é produtora de conteúdo e assistente de comunidades da ONG Think Olga.

Arte: Akilah Richards

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