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Quando começamos a conversa sobre assédio de rua com a Chega de Fiu Fiu, em 2013, o tratamento dado pela imprensa às questões de gênero eram bastante diferentes, em especial no meio online. Uma busca do Google pela expressão “assédio sexual” levava a reportagens que mencionavam esse tipo de violência no ambiente de trabalho, mas pouco se falava sobre o contexto machista que permite que homens, em todas as partes do mundo, se dirijam a mulheres no espaço público de maneira ofensiva e opressora, como se tivessem o direito de opinar ou escrutinar nossos corpos. Nesses quatro anos de campanha, vimos não apenas o tema do assédio ocupar espaço na imprensa e nas redes sociais; como também o feminismo abraçar e encontrar diferentes vozes nas redes, que aprofundaram o debate e mostraram como é urgente ressignificar o retrato da mulher na sociedade, nos meios  de comunicação, nas relações interpessoais.

Hoje, vemos parte da imprensa aderindo a pautas sobre gênero ou às práticas dos nossos Minimanuais de Jornalismo Humanizado. Percebemos que o feminismo é uma pauta que surge com maior naturalidade nos espaços de conversa. Mas como mensurar os avanços e as transformações que a luta feminista provocou dos últimos quatro anos?

É impossível precisar quantas mulheres estão envolvidas no feminismo ou são contempladas e tocadas por suas pautas. Mas podemos contabilizar histórias que não foram esquecidas, nem silenciadas. Histórias como a de Cláudia Silva Ferreira, que sofreu violência duas vezes: primeiro, quando foi arrastada pelo carro da Polícia Militar em 2014. A segunda, quando foi retratada de forma desumanizada pela imprensa, seu nome esquecido, seus sonhos ignorados, sua identidade negada. Se tivessemos aceitado  o tratamento da imprensa à época, Cláudia poderia ter morrido anonimamente, em um dos tantos atos de violência sem sentido que atingem principalmente as mulheres negras e periféricas.

Mas status social também não é garantia de proteção às mulheres. Lembremos de Nigella Lawson, agredida em público pelo marido; Amber Heard, que foi agredida pelo então parceiro, Johnny Depp, e não apenas teve sua história duvidada e questionada, como perdeu papéis no cinema por ter denunciado sua história de abuso; a cantora Rihanna, que sofreu violência doméstica pelas mãos de Chris Brown pouco antes da cerimônia do Grammy de 2009, viu o ex-namorado comemorar no Twitter que estava livre de punições.

Sabemos que nossa luta faz avanços quando essas histórias não são esquecidas, quando a vítima não é silenciada, quando a mulher é levada a sério em seu testemunho. Como diz Virginia Woolf: “Uma feminista é qualquer mulher que diz a verdade sobre sua vida”. Mas é preciso coragem tremenda para dizer essa verdade.

Nos últimos quatro anos, colecionamos vozes que corajosamente contaram suas histórias. Queremos continuar esse trabalho, pois sabemos que as mudanças são lentas, graduais e não-lineares; basta prestar atenção nos direitos que estão sendo cerceados e manipulados nos últimos dois anos, alguns deles que considerávamos já conquistados, como a reforma trabalhista que pode permitir que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres, a dificuldade de denunciar violência mesmo com a Lei da Maria da Penha, a resistência à legalização do aborto. É preciso reforçar, todos os dias, que o silenciamento dessas vozes representa a perda de dignidade e até mesmo a morte de muitas mulheres.

Queremos que os próximos anos sejam de ainda mais conquistas e pluralidade de vivências. Queremos ver a mulher que opta pelo aborto livre dos caminhos escusos da ilegalidade. Queremos mais empatia. E direitos verdadeiramente assegurados.

Nos ajude a continuar lutando. Participe da nossa campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria e mantenha a luta da Think Olga acesa. Precisamos de vocês! #Olga4Anos

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Há alguns meses, enfrentei uma depressão ao lidar com traumas e questões profundas da minha história. Quem já passou por isso sabe o quanto custa para uma pessoa deprimida ser obrigada a se relacionar. Mas ao que parece, para as mulheres, nos trancarmos no quarto, nos escondermos sob o travesseiro, não querer ser gentil, social e cordata o tempo todo não é uma opção bem aceita. Se somos o esteio emocional da família, como podemos falhar?

Minha família, assim como muitas outras, tem sempre uma mulher responsável pelo bem estar de todo mundo. É nela que recaem as responsabilidades de cuidar de idosos e crianças, de reunir a família em eventos especiais, de socorrer um irmão ou uma sobrinha, de ouvir queixas e desabafos de quem quer que esteja precisando. Ela cuida de todos, menos de si mesma. E isso consome tempo, energia e espaço mental e afetivo.

Eu, durante minha fase depressiva, não tinha forças para estar disponível, não conseguia ouvir os problemas alheios. Simplesmente não conseguia. Mas como isso é possível? Como eu não estaria ali para os que eu amo? Uma culpa enorme, uma sensação de débito emocional tomou conta de mim. E essa culpa – assim como o pressuposto que sempre devo estar disponível – tem uma grande relação com o machismo que está profundamente enraizado em nossa sociedade.

Em 1969, o psicólogo John Bowlby criou um conceito inovador para a comunidade psicanalítica: a “teoria do apego“, que descreve a relação entre mãe e filho, a interdependência de ambos e as expectativas e consequências dessa relação. Apesar de trazer algumas ideias polêmicas para a época, o termo vingou – e aos poucos, estimulou a conversa sobre a ideia de disponibilidade emocional em todas as relações afetivas, não apenas na maternidade.

Mas afinal, o que é estar emocionalmente disponível para o outro? É aí que mora o problema: ao que tudo indica, para a parcela masculina do mundo, significa apenas estar presente (ou não) em um relacionamento. Para a mulher, a disponibilidade emocional é obrigatória em todos os campos de sua vida. Desde a infância, somos estimuladas a sempre acolher, cuidar e ouvir. Somos a parte da população que “sabe abrir o coração”, que “tem talento para falar de sentimentos”. Em um estudo profundo sobre disponibilidade emocional, publicado em 2005 por Rebecca J. Erickson, todas essas tarefas estão atreladas não ao sexo, mas ao conceito de gênero feminino que se estende séculos a fio. Não somos “melhores” em emoções: somos educadas para acreditar que sim. A pior parte nisso tudo? Essas construções culturais e sociais são exploradas por outros.

Na trilha do estudo de Bowlby, a pesquisadora Arlie Russel Hochschild publicou, em 1983, o livro The Managed Heart, que mostra como esses sentimentos “femininos” são comercializados e prometidos por empresas. Um exemplo de Hochschild são as companhias aéreas, que estampam o sorriso das aeromoças em todas as suas campanhas. A simpatia e a solicitude da comissária de bordo são tão garantidas quanto o lanchinho durante o vôo.

Mas estamos falando sobre emoções humanas, que são complexas e, geralmente, exigem muito de nós. Segundo pesquisas, trabalhos que lidam com muita dedicação emocional – Hochschild identificou mais de 40 tipos – são mais exaustivos a longo prazo, mas isso raramente é notado pelos empregadores. No estudo Gênero, Emoções e Produção Cultural: Uma Análise da Autoajuda Brasileira, a mestre em Antropologia Social Talita Castro menciona Hochschild para explicar porque isso recai principalmente sobre as mulheres: “quanto maior o status social da pessoa, mais suas emoções são levadas em conta; em contraposição, quanto mais subordinada, mais ela é institucionalmente chamada a atuar sobre seus estados emocionais”.

Vale dizer que a expectativa da mulher profissional como boa ouvinte e sempre disponível emocionalmente se repete em todas as camadas da sociedade: espera-se que nós sejamos professoras mais gentis, líderes mais maleáveis – caso contrário, somos chamadas de “endurecidas” e acusadas de perder nossa feminilidade para alcançar o topo. Na política, a expectativa é que candidatas sejam mais bem humoradas e afáveis (além, é claro, de inteligentes e capazes) do que os homens. A lista de tarefas invisíveis da mulher parece interminável.  

Nos relacionamentos conjugais, essa exigência se repete: quem nunca passou a noite escutando o marido ou namorado reclamar do trabalho? Ou tentou contornar e conciliar brigas dele com a família? Administrou seus rompantes de raiva? Esta desigualdade também pode ocorrer em casais homoafetivos, é verdade, mas a disparidade de expectativas impostas a homens e mulheres nesse aspecto não pode ser ignorada. Segundo Hochschild, “[…] as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom.” Ou seja, além de acolher, também nos cabe fazer a relação funcionar até os mínimos detalhes. Em um longo artigo do The Guardian sobre trabalho emocional e disponibilidade, a autora Rose Hackman menciona uma lista de afazeres exclusivos da mulher em um relacionamento heterossexual, que vai do planejamento do melhor momento para ter filhos até ser a referência de coisas perdidas pela casa.

Este desequilíbrio profundo também tem a ver como os homens são educados. São encorajados, desde cedo, a esconder seus sentimentos e muitas vezes represam angústia, raiva, dor e sofrimento para proteger sua “masculinidade”. Estudos já relacionaram esta incapacidade de lidar com emoções com violência, comportamentos obsessivos e compulsões, como por exemplo a objetificação feminina por meio da pornografia. Mas na vida familiar, a disponibilidade emocional do homem é mais do que um pressuposto para um relacionamento saudável: o estudo “Mais do que o provedor”, realizado na Universidade de Michigan, estabeleceu a relação entre a disponibilidade emocional paterna e o desenvolvimento de habilidades como a fala e a coordenação motora de bebês. Ou seja, essa tarefa é grande e importante demais para ser exclusiva da mãe, embora recaia ainda sobre nós.

A manipulação de emoções de forma desequilibrada – seja para se encaixar em um estereótipo ou perpetuá-lo – é prejudicial a todos, mas a uma parcela mais do que outra. Se queremos realmente entender o quanto essas cobranças fazem mal, é essencial fazer um recorte racial aqui: as mulheres negras são as maiores vítimas desse sistema.

Em nossa sociedade racista, onde a população negra é invisibilizada, explorada e solitária, é muito conveniente perpetuar o mito da “mulher negra forte”, como diz Meri Danquah: “Supõe-se que as mulheres negras sejam fortes – amparadoras, nutridoras, que curam outras pessoas […]. Supõe-se que a dureza emocional que é construída na estrutura de nossas vidas esteja ligada ao fato de eu ser ao mesmo tempo negra e mulher”.

No subtexto sinistro dessas expressões, está a convicção de que a mulher negra deve ter ainda mais disponibilidade emocional, uma vez que, oprimida de todas as formas possíveis, não deve fraquejar ou abalar-se, sem direito à tristeza ou ao recolhimento. Tamara Beauboeuf-Lafontant faz uma avaliação precisa dos malefícios da perpetuação desse estereótipo: “o conceito de força associado à mulher negra esconde aquilo que acredito que seja sua verdadeira função: defender e manter uma ordem social estratificada ao ocultar as experiências de sofrimento, os atos desesperados e a raiva da mulher negra”. Negar-se a ser a “mulher negra forte”, permitir-se sentir e fraquejar, é um ato de resistência.

No texto “Nós negros não morremos só de tiros: tenho depressão” de Stephanie Ribeiro para a Afronta, ela resiste. “Ser forte não é bom para mim enquanto mulher negra. Pois ser forte é negar minha humanidade. Essa cobrança da mulher negra que não sente e lida bem com tudo é resquício da ideia que somos mais objeto do que gente. Existem dores na minha alma que me fazem querer chorar e ficar só. E sobre isso, é bem mais complexo falar, mas preciso me permitir apenas ‘Sentir’”.  

Doar-se – e ainda mais de forma obrigatória, diária, como forma de opressão e não de expressão afetiva – é exaustivo. Não é à toa que estamos esgotadas, como essa tirinha da quadrinista francesa Emma exemplifica muito bem. A exigência de trabalho emocional tão grande – seja no emprego, na vida familiar ou até mesmo nas amizades – nos sufoca, quando deveríamos ser dedicadas, de forma espontânea, apenas àqueles que queremos bem. A disponibilidade emocional deve ser tudo, menos tóxica.

A acadêmica portuguesa Sofia Pracana, da Universidade de Lisboa, tem uma definição bonita do termo: “estar emocionalmente disponível é a capacidade de me ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada. É abraçar, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida”. A recíproca precisa ser verdadeira: a disponibilidade emocional só deve funcionar como uma via de mão dupla.

O feminismo assume, há décadas, a tarefa de quebrar estereótipos sobre a mulher. Há quem diga que a próxima grande revolução feminista terá como objetivo nos desvincular, de uma vez por todas, da obrigatoriedade de estar sempre disponível. Não entenda mal: somos fazedoras de laços e isso, para muitas, é prazeroso. Mas não podemos cair na armadilha de aceitar que isso é nossa obrigação – e apenas nossa. Todos perdem com isso.

Precisamos, urgentemente, ter um tempo de recolhimento. Precisamos ter o direito de, às vezes, simplesmente não estar ali.

Maíra Liguori é diretora da ONG Think Olga e criadora do projeto Olga Esporte Clube. 

Arte: Chloe Cushman para o The Guardian

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Quando falamos sobre a presença feminina no esporte como um ato revolucionário, seja aqui na Think Olga ou na Olga Esporte Clube, estamos jogando luz nos inúmeros obstáculos que a mulher encara até ocupar seu lugar na quadra. Muitas vezes, são desafios que digerimos de forma mais solitária: vergonha do corpo, insegurança com as próprias habilidades, falta de hábito. Mas e quando a prática esportiva é impedida pela violência externalizada, em grupo?

Na última semana, jogadoras de basquete amador foram hostilizadas, assediadas e ameaçadas pelo simples fato de quererem dividir o espaço público: uma quadra na Praça Rotary, no centro de São Paulo. Essas agressões não são novas: há meses, o grupo procura por um local de onde não fossem expulsas por outros times masculinos ou que tenha infraestrutura adequada. O conflito na praça, contudo, ganhou maiores proporções, uma vez que os jogadores pareciam ter entrado em um acordo com as basqueteiras – para ignorarem na semana seguinte, reagindo agressivamente à chegada delas. Um grupo de homens adultos impedindo que mulheres usassem a quadra por apenas um dia por semana não é uma agressão aleatória: é mais uma das numerosas provas que a presença das mulheres é sistematicamente negada nos esportes. Como apontou Joana Mendes, uma das integrantes do time, “a gente tem várias demandas que não são atendidas. Coisas muito básicas, como tênis feminino para jogar basquete. As marcas falam que não tem procura ”.

Em resposta à ofensa, o time das basqueteiras organizou um encontrão entre grupos de esportes femininos para que ocupassem o campo na noite da última segunda-feira. O evento #OccupyRotary reuniu dezenas de mulheres que só queriam jogar. O encontro chegou aos ouvidos, inclusive, de Magic Paula, uma das maiores jogadoras de basquete do Brasil. Somente com a persistência de Paula e daquele grande grupo de mulheres, os agressores, mesmo com uma desvantagem considerável em número, foram embora, não sem hostilidade e resistência.

No fim da noite, a sensação era de conquista e vitória – o que engajou ainda mais os times em quadra, rendendo disputas incríveis. Mas como garantir a segurança das esportistas em dias comuns, sem um grupo grande e pronto para fazer barulho? Em nossa pesquisa na Olga Esporte Clube, descobrimos de 57% das entrevistadas não fazem exercícios em lugares públicos por medo da violência (http://bit.ly/pesquisa-OEC).

Se, para as mulheres, praticar esporte em espaços públicos é um risco, esta é uma questão  governamental. Daniela Castro, Secretária Adjunta da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, esteve no #OccupyRotary e entende que a organização entre os grupos para o uso do espaço é um exercício de cidadania. Isso não quer dizer que seja fácil, mas existem algumas ferramentas disponíveis. Espaços abertos de lazer geralmente possuem canais de contato, desde a Secretaria até coordenadores individuais de parques e clubes. Daniela orienta que se busque essas fontes no minuto que a agressão ocorrer, mas também reforça a importância de chegar a um acordo de forma pacífica. E, é claro, também incentiva o “chamamento coletivo”: a ideia de que é possível, sim, pressionar e fincar pé com grupos de mulheres.

Não vamos voltar atrás. Afinal, como disse Roberta Magalhães, do Rachão Basquete Feminino, na noite de #OccupyRotary: “Se a gente quisesse ocupar a quadra o dia inteiro, a gente também poderia. A gente tá acostumada a receber o mínimo do mínimo do mínimo… Chega. Não concordamos mais com isso”.

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Por mais absurdo que possa parecer, tem se tornado cada vez mais comum ter homens ocupando espaço de mulheres em premiações segmentadas. A nomeação de Bono Vox, vocalista da banda U2, no topo da lista de Mulheres do Ano 2016 da revista Glamour americana é um grande exemplo disso.

Mas homens já não ganham muitos prêmios? A revista disse não concordar: “Essa mentalidade começou a ficar defasada. Existem tantos homens fazendo coisas maravilhosas pelas mulheres hoje em dia”.

Para nós, ao invés de justificar, esta declaração só gerou mais questionamentos:

– Se hoje homens estão colaborando para a igualdade de gêneros, será que não devemos agradecer às mulheres que iniciaram e mantém essa luta?
– Será que, nessa posição de privilégio, Bono Vox e os “outros homens” não estão fazendo mais do que sua obrigação, ao colaborar com (e não protagonizar) as lutas das mulheres?
– Chegamos no mesmo patamar de oportunidades que os homens, a ponto de não mais precisarmos de premiações segmentadas?

Sabemos as respostas para todas essas perguntas e é por isso que, em 2013, iniciamos a lista de Mulheres Inspiradoras da Think Olga, onde não buscamos premiar, tampouco classificar as nomeadas, mas sim usar nosso espaço para exaltar trabalhos protagonizados e desenvolvidos por mulheres, como forma de combater a falta de reconhecimento.

E, acompanhando tantas mulheres inspiradoras em suas jornadas, podemos dizer que, ainda hoje, cada nova conquista merece méritos. Entre estes feitos, está o de tornar o feminismo e a luta por direitos iguais tão populares a ponto de engajar também os homens na causa.

Se os homens têm encontrado maneiras de ocupar listas segmentadas, pode-se imaginar a discrepância em prêmios mistos. Em uma das maiores honrarias da humanidade, o Prêmio Nobel, 97% dos vencedores na categoria de ciências são homens, uma área onde a participação feminina vem crescendo, mas ainda não o suficiente para mudar este quadro de representatividade.

Já na categoria Literatura, somente 14 mulheres foram agraciadas com o prêmio  em 116 anos. No ano passado, a academia escolheu Bob Dylan, o primeiro músico nomeado para Literatura em 103 anos, e foi questionada quanto às voltas dadas para premiar homens quando há tantas mulheres na mesma área buscando visibilidade. No fim das contas, uma mulher, a cantora e compositora Patti Smith, foi quem recebeu a honraria em nome de Bob Dylan, que não estava presente na cerimônia de entrega.  

Um refresco de diversidade aparece  na categoria Paz, a que mais cresce em nomeações femininas. E, em 2017, temos a chance de ter uma representante brasileira entre os indicados e, melhor ainda, pautar a importância da luta feminista, com Maria da Penha e seu trabalho em prol dos direitos e proteção das mulheres vítimas de violência: http://bit.ly/2qk4QMR.

Contudo, quando se traz um recorte social para a questão do reconhecimento, nota-se que ainda estamos longe da equiparação. Enquanto, para Bono Vox, ser o primeiro homem do ano da Revista Glamour foi um ato tido como histórico, Viola Davis de fato fez história ao tornar-se a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz em série dramática na história da premiação em 2015, demonstrando que mesmo em uma categoria segmentada, as oportunidades não são as mesmas, como ela disse em seu discurso: “A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”  

Quando o assunto é música, as oportunidades que são dadas na maior premiação do mundo, o Grammy, não passam de categorização e limitação de artistas negras a estereótipos. No ano passado, Beyoncé levou “Melhor Álbum Urbano” pelo trabalho musical e audiovisual sobre identidade e ancestralidade negra que é “Lemonade”. Já a maior categoria da noite, “Álbum do Ano”, ficou para a britânica Adele que disse, em seu discurso, ter sido injusto não competir com Beyoncé, dedicando o prêmio a ela.

E até em listas menos prestigiadas, como a “O que é sexy” da marca de lingerie Victoria’s Secret, não pensa em mulheres negras. Em 2017, a marca falhou na oportunidade de redefinir padrões de beleza, nomeando somente Vanessa Hudgens, Priyanka Chopra e Jamie Chung como não-brancas.

Por isso, iniciativas como o Troféu Raça Negra ou ainda a lista de #25WebNegras do site Blogueiras Negras, que destaca mulheres negras que usam a internet para terem suas vozes ouvidas em diversas áreas, ainda são tão necessárias.  

A Victoria’s Secret ainda demonstrou como não falar de “diversidade de gênero” ao nomear, nesta lista só de mulheres, um homem cisgênero, James Corden, como apresentador de TV mais sexy. Não há mulheres ou homens transgêneros em nenhuma outra categoria. E, em resposta às críticas, a marca se manteve confiante ao dizer: “Isto é o que significa sexy para nós”.

Já na atualização que a MTV americana deu para a antiga premiação MTV Movie Awards, transformando-a em “MTV Movie & TV Awards” contou com mais inovação do que somente a inclusão de entretenimento de televisão e streaming para os nomeados. Nesta nova versão, as categorias de atuação não são separadas por gênero (https://glo.bo/2pQdAqM) e de primeira, duas garotas levaram o prêmio em formato de balde de pipoca para casa: Emma Watson, pela performance em A Bela e a Fera, desbancou os favoritos James McAvoy e Hugh Jackman na categoria “Atuação em Filmes”. E Millie Bobby Brown, a Eleven da série Stranger Things, de apenas 13 anos, venceu na categoria “Atuação em uma série de televisão”, atores consagrados em Game of Thrones e The Walking Dead.

Já vivemos em uma sociedade fomentada pelo trabalho de mulheres tanto quanto os trabalhos  de homens. Contudo, nem todos podem enxergar isso com clareza, já que o que as revistas e premiações destacam nem sempre representam de fato a pluralidade de nossa sociedade. Por isso, para que possamos um dia ver mais mulheres nomeadas, precisamos passar por listas segmentadas que lhes dêem destaque e não que colaborem para o apagamento de seus nomes.

Nos sentimos honradas por estarmos entre as finalistas do Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico, pois sabemos que estamos ao lado de mulheres inspiradoras de nossa área e em um ambiente que as reconhece.

A verdade é que a sociedade e os mercados devem muito às mulheres, por isso não vemos porque deixar de celebrar suas conquistas mesmo em um, ainda utópico, mundo igualitário. Afinal, esse mundo igualitário só será possível por conta delas.

Arte: Eleanor Shakespeare.

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Em um debate sobre representatividade negra e racismo na mídia, uma pessoa na plateia questionou às presentes: “Como fazer uma comunicação justa e inclusiva para mulheres negras?”

Embora eu estivesse mediando a conversa, sussurrei para minha colega que ela cuidasse do assunto, pois era delicado para mim. Como jornalista, descobri a resposta para esta pergunta já na faculdade e acreditei que poderia colocá-la em prática no mercado de trabalho. Mas logo me deparei com uma realidade de oportunidades negadas pelo racismo institucional, responsável por moldar e disseminar estereótipos de pessoas negras e não suas histórias. Precisei enfrentar muitas barreiras até me encontrar no jornalismo independente.

Logo, a pergunta me trouxe, imediatamente, lembranças e sentimentos, entre eles de raiva e impotência. Minha primeira reação foi me proteger. Porém, nem sempre um assunto que consideramos um gatilho faz somente enfraquecer. Naquele momento, me veio exatamente o contrário e, pela primeira vez em muito tempo, tive coragem de enfrentar colegas de profissão e responder: “Chame mulheres negras para falar. Abra espaço para elas escreverem, contarem suas histórias, falarem sobre si mesmas”.

Parece uma solução tão simples, mas na prática, é dizer, na cara de editoras e jornalistas, que eles são racistas em suas produções de conteúdo, que, muitas vezes, pautam questões raciais em função de uma cobrança da militâncias mas não o fazem de maneira correta. Isso acontece pois não ouvem tais cobranças, já que continuam sem dar oportunidades para que pessoas negras façam parte das redações.

Como a personagem Samantha White, da série Cara Gente Branca (Dear White People), disponível na Netflix, sempre diz e repete para seus colegas brancos: o medo, a revolta e a resistência negra ainda existem por causa dos efeitos da escravidão.

Como já apontei, esta série é para e sobre pessoas negras e as diversas questões e vivências em torno delas. Porém, Cara Gente Branca continua fazendo jus ao título, quando coloca uma mulher negra, Sam White, para falar sobre racismo estrutural diretamente para pessoas brancas. Para isso, ela usa um veículo de comunicação independente em seu campus universitário e enfrenta as confrontações com relação ao suposto “racismo reverso”. Basicamente, ela faz o que precisei reunir coragem para fazer somente uma vez, naquela mesa de debate, só que em alto e bom som em um programa de rádio periódico.

No fim das contas, a série acaba sendo sobre a importância de se reconhecer privilégios, até mesmo para pessoas brancas que se dizem “acordadas” para a existência do racismo. Uma mensagem importante é a de que amar uma pessoa negra ou se juntar à militância não livra alguém de ser racista.

Claro que ninguém quer ter este título, receber esta acusação. Não só no contexto americano que a série traz. No Brasil, 90% dos brasileiros admitem que existe preconceito de cor, mas 96% dos entrevistados se identificaram como não racistas, segundo uma pesquisa histórica do Datafolha, de 1995.

No dia da Abolição da Escravatura no país, não é estranho perceber que esta resistência a admitir a profundidade do racismo no Brasil ainda existe? Mesmo  que a conversa sobre racismo esteja sendo expandida, ainda encontramos estereótipos nocivos, a ponto de ser necessária a criação de uma parte do nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado dedicada a apontar práticas ruins e fornecer maneiras  honestas de como contar as histórias de pessoas negras e ainda a criação do projeto Entreviste um Negro, pela jornalista Helaine Martins. 

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Se ser racista é tão pesado e negativo, o que estamos fazendo para mudar isso? Melhor: o que as pessoas brancas estão fazendo para mudar isso?

Ainda paira sobre a sociedade, principalmente no Brasil, uma ideia de que preconceito de raça só acontece quando é vociferando, gritado ou caracterizado por agressões físicas, como em tempos de escravidão, apagando o fato de que somente a abolição não foi suficiente para igualar as raças.

Logo, é muito fácil se agarrar nisso para relativizar agressões que parecem pequenas, mas que são dolorosas. Em outras palavras, ainda vivemos em um mundo em que as pessoas brancas julgam o que é racismo e se mascaram para não parecerem racistas.

A Cara Gente Branca a qual a série se refere é um grupo que precisa parar de ver um apontamento de racismo como algo pessoal e aprender a ouvir quem aponta. E agora eu também me refiro a esta Cara Gente Branca, mais especificamente meus colegas de profissão, pois minha coragem não pode ficar naquela situação isolada da mesa de debates e espero ser ouvida.

A mídia e a comunicação são grandes responsáveis por propagar ideais que geram violência e segregação. Logo, está em nossas mãos, como comunicólogos, não deixar que os esforços de pessoas negras para superar gatilhos e falar sobre suas angústias sejam em vão. Retribuam com respeito e espaço de fala.

Ficar na defensiva ou buscar uma redenção por ter sido chamado de racista não resolve um problema tão grande. Mas assumir o erro e aprender com ele, sim.

Karoline Gomes é produtora de conteúdo e assistente de comunidades da ONG Think Olga.

Arte: Akilah Richards

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O Dia do Índio, que acontece todos os anos em 19 de abril, não é uma data comemorativa. Assim como o Dia da Mulher, é um símbolo de luta por mudanças, melhorias e pela manutenção de direitos conquistados. As mulheres indígenas tendem a ser as maiores prejudicadas nas questões de defasagem de ensino, preconceito e assédio. É extremamente importante que essas pautas se tornem de interesse público e potencializem as vozes indígenas, reconhecendo sua presença no tempo atual.

Para encorajar o debate com recorte de gênero, conversamos com Braulina Aurora Baniwa, estudante de Ciências Sociais na UnB e membro da Diretoria do Coletivo de Estudantes Indígenas – AAIUnB, sobre as pautas das mulheres indígenas, a importância do território e como alertar a sociedade sobre as necessidades modernas das tribos:

Quais os maiores desafios de ser mulher indígena?

Primeiramente, os desafios são inúmeros e podem depender da diversidade de povos, culturas e realidades em que cada mulher indígena vive. Mas vou destacar minha percepção como mulher indígena do povo Baniwa, que vive em dois mundos: a sociedade que não me enxerga como sou, como uma indígena capaz, que tem potencial além do tema “povos indígenas”. No âmbito tradicional, é de ter espaço reconhecido nos debates políticos, como colaboradora nas discussões.

Qual é a pauta mais importante para as mulheres indígenas hoje? Quais são as principais lutas de vocês?

No cenário nacional para povos indígenas, lutamos pela garantia de direitos conquistados, evitando os retrocessos. Uma das principais reivindicações de mulheres indígenas é o território, pois é a partir dele que discutimos ou reivindicamos as políticas públicas para nós. Como estudantes indígenas, também temos lutado pela garantia de uma educação de qualidade e pelo enfrentamento da violência nas universidades, onde observamos que há necessidade de políticas especificas para mulheres e estudantes em geral, pois não há uma política no sistema das universidades que atendam nossas especificidades.

 

A sociedade pode ajudar nessa luta? Quais são os mecanismos que podemos usar para vencer o preconceito?

Por meio de uma educação sem discriminação e racismos em todos níveis de formação. Destacaria a formação no ensino superior, onde se formam profissionais que vão lidar com a diversidade que existe no nosso pais. Que leis vigentes no país seja de fato efetivas, como da lei 11.645 LBD, que está ligada diretamente no processo educacional; estatuto da igualdade racial (que abrange os povos indígenas) e campanhas informativas para conscientização.

E como a educação pode ser mais inclusiva em relação às tradições indígenas?

Demonstrando nós, indígenas, como somos na contemporaneidade, e não na visão de 1500 na invasão do Brasil. A educação deve ser uma educação de reconhecimento, e não de discriminação, “do achismo” ou do passado “os índios faziam, os índios caçavam”. E apontar a diversidade de povos e culturas que temos! Isso é uma das riquezas do país, as mais de 270 línguas indígenas, os mais de 300 povos indígenas (isso sem contar os povos isolados, que ainda não se sabe tronco linguistico e fatores culturais). Fortalecer essa diversidade é contribuir com o Brasil mais indígena e mais humano, reconhecendo os povos originários.

Arte: Anita Ekman para a coleção Mundo Indígena, da Editora Hedra
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Pare um instante o que você estiver fazendo e me ajude a listar 15 escritoras mulheres que você conhece: J.K. Rowling… Clarice Lispector… Ruth Rocha… Chimamanda Ngozi… Nora Roberts… Agatha Christie… Martha Medeiros… Ih, acabou! Acho que temos um problema.

E é dos grandes. Isso porque, em um estudo recente feito na Universidade de Brasília, pela pesquisadora Regina Dalcastagnè, apenas 27,3% dos escritores são mulheres (foram lidos 258 livros, publicados entre 1990 e 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco). Tá bom pra você?

Aqui no Brasil, os primeiros grandes nomes femininos da literatura (digo, os primeiros a realmente entrarem nas casas brasileiras pelo tão sonhado “boca a boca”) só surgiram na década de 30, com escritoras como Zélia Gathai, Cecília Meireles e a já mencionada Clarice Lispector. Tudo isso praticamente na semana passada…

Em plena Belle Époque (1890-1920), nas terras brasileiras, de 15 mil mulheres pesquisadas pelo antigo IBGE, menos de 20% sabia ler e escrever. Daí a gente pensa: “Poxa, são mais de 100 anos, tá tudo mudado, agora é só reclamação à toa”. Hoje, se pegarmos o número geral, segundo relatório da Unesco de 2014, há 774 milhões analfabetos no mundo. Deste número exorbitante, 64% são mulheres.

Isso dá mais do que 495 milhões de pessoas, do gênero feminino, que não sabem ler ou escrever. Isso sem contar que, as poucas que sabem ler e se destinam à escrita, são instantaneamente condenadas ao termo “literatura de mulherzinha”, uma vez que antigamente o foco principal da mulher era destinar-se aos atributos domésticos: ser esposa, mãe e dona de seu próprio lar. Por conta disso, os poucos livros destinados às mulheres tinham o papel de ratificar seus bons costumes em casa, passando sempre pelo aval dos familiares da moça de família. Logo, os temas não podiam contemplar coisas que fugissem do universo doméstico, da moda e da educação. O que fez a gente trazer consigo até hoje a questão de “literatura feminina”, mesmo nunca tendo existido uma “literatura masculina” propriamente dita.

 

Não precisamos ir muito longe, o primeiro livro de ficção científica da história, “Frankenstein” foi publicado de maneira anônima, para que ninguém soubesse que por trás do monstro que ia mudar a história da literatura estava a escritora Mary Shelley (mesmo a autora pertencendo a um grupo de grandes nomes da literatura, como Lord Byron e seu marido Percy Shelley). J.K. Rowling, outro exemplo, a aclamada escritora de Harry Potter e outros livros incríveis, foi aconselhada a colocar abreviações no lugar de seu nome completo, assim seria mais difícil dizer que um livro sobre um bruxinho (sem tantos romances e floreios) tinha sido escrito por alguém que usava saias. Pra finalizar a lista, o prêmio Nobel de Literatura, que existe desde 1901, só foi destinado a 12 mulheres ao longo de sua história; em terras nacionais, a Academia Brasileira de Letras tem 40 membros, destes só 5 são mulheres.

 


Pensar na falta de acesso (ou nas dificuldades em seguir) do mundo dos livros por questões de gênero, pode parecer tópico antigo, mas infelizmente ainda está muito presente nos dias de hoje. Cabe a nós, portanto, incentivar a produção e a leitura feita por mulheres neste mundo afora. Eu tenho certeza que será uma experiência inenarrável, sendo nós mulheres ou não.

Tatiany Leite é jornalista e apaixonada por internet e literatura. Já tendo apresentado colunas em diversos projetos (Cabine Literária; Torrada Torrada; Saraiva Conteúdo e ReVisão), hoje faz parte dos canais Vá Ler um Livro (que está com conteúdo exclusivo sobre mulheres na literatura para o mês de março) e Blablálogia. Além disso, já teve seus textos publicados na Revista TPM, Trip, Revista Capricho, Revista da Cultura e muitos outros veículos.

Arte: Jen Keenan

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Se hoje nós, mulheres negras, resistimos a estereótipos raciais que limitam nossas vivências e sexualizam nossos corpos para nos fazemos ouvidas e contar nossas próprias histórias, é porque outras, antes de nós, lutaram por esses mesmos sonhos. Isso não significa que estamos paradas no tempo nesta busca por progresso e pelo respeito que é nosso por direito, pelo contrário.

Agora falamos sobre reconhecer-se negra após anos de embranquecimento e negação de identidade e ancestralidade. Ocupamos lugares que nos eram negados e, consequentemente, quebramos estereótipos. Celebramos datas importantes como este Dia Internacional contra a Descriminalização Racial falando sobre inspirações do passado para inspirar as próximas gerações. E é um pouco de tudo isso que a jornalista Tatiane de Assis traz para esta colaboração para a Think Olga.

Karoline Gomes, assistente de conteúdo da Think Olga.

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“A inteligência causou medo”. Arte de Brittany Williams

Em tempos de valorização midiática de elementos da cultura negra,  a ancestralidade africana torna-se, muitas vezes, mais um item a ser adquirido em uma prateleira do supermercado ou de uma loja no shopping. No entanto, reconhecer-se como uma mulher negra é um processo complexo, que envolve desde o estudo do processo de rapto e escravização da população africana até o embate diário com o preconceito racial em suas diferentes roupagens.

A fim de contribuir com esse debate, conversamos com cinco mulheres negras: as atrizes Taís Araújo e Flávia dos Prazeres,  a docente Luciene Dias, a escritora Mel Duarte e a artista Angélica Dass. Elas elegeram livros que as ajudaram em seu processo de empoderamento e comentaram o impacto que os títulos provocaram em suas vidas.

Os depoimentos que você confere abaixo são mais do que um compilado; também podem funcionar como um guia para quem descobre a História, a luta e a força que guarda em sua pele.

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Foto original: Keila Jimenez / Divulgação.

Taís Araújo – Atriz
Livro: Um defeito de cor
Autora: Ana Maria Gonçalves

“Lázaro leu. Eu não consegui esperar ele terminar para pegar o livro emprestado. Comprei outro e fui ler também. Mudou a minha vida. Mudou meu ponto de vista sobre a história dos africanos que foram escravizados no Brasil. Traz uma heroína, a Luíza Main, que é uma mulher que lutou na revolta dos Malês. Ela é uma referência para todas nós. É romanceado, mas é de um poder transformador incalculável. Briguei com ele (o livro) muitas vezes. Fechei, abri, fechei, abri”.

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Foto original: Jornal UFG Online

Luciene  Dias – docente da Universidade Federal de Goiás, doutora em Antropologia Social pela UnB
Livro: Ensinando a Transgredir
Autora: Bell Hooks

“Não é um livro muito recente, mas foi recém-traduzido para o português. Quando isso aconteceu, as pessoas o buscaram muito. Soube pelas redes sociais e tive muita vontade de ter um. Comentei com várias pessoas que queria comprar e um amigo me deu de presente. Li o livro de folêgo. Foi bem rápido. É um título que tem muito a ver comigo, que fala de mulheres negras que transgridem e são desafiadas a fazerem diferente do que aprenderam. Fala muito de educação, mas educação enquanto processo, como prática de liberdade. Ela é freiriana. Inclusive em um dos capítulos do livro, ela simula uma entrevista com o Paulo Freire. Tem a educação como prática de liberdade, como um caminho para romper o patriarcalismo e conduzir a vida de forma transgressora. Mas essa transgressão não tem nada a ver com enfrentamento. É uma coisa mais suave, muito circular, muito feminina. Tem a ver com a ruptura de um processo de dominação para que você consiga alcançar um universo melhor. É um livro muito importante, me ajudou na sala de aula e em casa.”

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Foto original: Reprodução / Instagram

Angélica Dass – artista
Livro: Negros no Estúdio do Fotógrafo
Autora: Sandra Sofia Machado Koutsoukos

“Acho muito interessante quando ela fala da imagem da mulher negra no início da história do Brasil. Principalmente, por mostrar que boa parte das mulheres que tinham a possibilidade de ter um retrato eram amas de leites. Elas eram como propriedade, as famílias as usavam para dizer que eram abastadas.

Isso, para mim, fala muito do lugar de onde a gente vem, dessa representação da mulher negra que persiste. O século passou, mas a impressão é que a gente continua no mesmo lugar. No fundo, acho que olhar para esse passado faz com que a gente entenda o presente.  É uma forma de perceber que é muito importante continuar brigando.”

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Foto original: Reprodução / Instagram

Flávia dos Prazeres – atriz e bailarina
Livro: A Cor Púrpura
Autora: Alice Walker

“Tive a sorte de encontrar o livro na casa de um amigo que estava de mudança. A capa me chamou atenção por ter o perfil de uma mulher negra lendo, concentrada, e, ao fundo, o nascer do Sol. Era uma imagem positiva, a admirei por um bom tempo. Me remetia a falta de representatividade negra. Na verdade, há possibilidade de representação, me via ali. Na época, tinha 19 anos, havia acabado de me reconhecer enquanto mulher negra, tinha começado a usar o meu cabelo crespo, começava a me achar bonita. Era um processo complicado, sempre que era elogiada, diziam tudo menos que era bonita. Ouvia sempre: “Você é negra, mas tem traços finos”, “Ela é exótica”. No começo, recebi muitos insultos nas ruas por usar o cabelo natural. Há uma década atrás, isso não era bem recebido. A leitura me ajudou a ser forte como a personagem. Ela sofreu, mas persistiu. Me empoderei. Seus capítulos eram como que sessões de terapia. Sentia que tirava um peso enorme das minhas costas porque ao sofrer situações de racismo, me sentia culpada e triste. Vi que a solidão que sentia não era só minha. Pude entender e chorar as minhas dores junto com a personagem, o que foi libertador. A solidão da mulher negra nunca foi abordada dentro de casa, da escola, ou com amigos, nunca foi um assunto nos meios onde eu frequentava. Tampouco, tinha condições financeiras para frequentar um psicólogo e entender questões tão íntimas. O livro me ajudou a não perder a fé, o amor pela vida mesmo diante do racismo. Contribuiu para que eu olhasse pra mim, para que eu entendesse que é normal ter insegurança, ter medo de não ser aceita em uma sociedade onde a mulher negra não tem voz. Ao lê-lo, tive certeza que a culpa nunca foi minha. Que eu era linda, sim! Inteligente, sim! E que nada nem ninguém iria me impedir de enxergar isso. Parei de ver tantos defeitos da minha personalidade, comecei a dar mais a minha opinião, a participar e a ocupar mais espaços.”

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Foto original: Reprodução instagram @fotografiajessy / @projeto.fluidos.

Mel Duarte – poeta, slammer e produtora cultural
Livro: Pretextos de mulheres negra
Organização: Carmem Faustino e Elizandra Souza

“Esse livro é uma coletânea de literatura marginal negra feminina com 22 autoras. Fazer parte desse processo, pra mim, foi muito enriquecedor. As meninas fizeram tudo com muito capricho e zelo, o que normalmente não acontece em coletâneas. As fotos das autoras foram tiradas durante um encontro em um parque, onde tivemos chance de conversar, falar um pouco de nós e vivenciar um dia diferente. Antes de fazer parte da publicação, não tinha poemas voltados apenas para a mulher negra, ainda estava num processo de entender o quê e como gostaria de falar sobre mim, sobre nós. Depois de lê-lo e ver tantas biografias incríveis assim como os poemas dessas mulheres, entendi o meu tom e compreendi a necessidade de ter poemas com esse recorte. Esse é daqueles livros que vale a pena presentear meninas que ainda estão passando por esse processo de entendimento da sua ancestralidade, aceitando o próprio corpo e cabelo. Perdi a conta de quantos dei de presente para amigas e familiares e de quantos retornos positivos tive a respeito do mesmo, por mulheres de diferentes idades e realidades. Pra mim, é um título importante porque é um marco da nossa geração e pela beleza que tem. A parte visual – linda – é feita pela artista Renata Felinto.”

Tatiane de Assis é repórter com experiência nas áreas de artes visuais e bem-viver contemporâneo. Já colaborou com a revista Vida Simples e o site do Guia do Estudante. Atualmente, é reporte do site O Beijo, portal de cultura urbana associado ao IG.

Arte: Brittany Williams.

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No último dia 7 de março, o PSOL, em parceria com Anis – Instituto de Bioética, levou ao Supremo uma Ação de  Descumprimento  de  Preceito Fundamental (ADPF). A ação pede que se torne legal o aborto de fetos de até 12 semanas, descriminalizando o ato. Segundo a ação protocolada, os artigos 124 e 126, que criminalizam o aborto, vão contra a Constituição de 1988, que prevê o direito à dignidade, à autonomia e à cidadania da mulher. O aborto, enquanto crime, força a mulher a seguir por caminhos perigosos e solitários. Para esclarecer alguns pontos importantes da ação e qualificar o debate, elaboramos um F.A.Q. com principais possíveis dúvidas sobre o tema, que esperamos servir como um ponto de partida para discussões mais aprofundadas.

Para a produção do F.A.Q., contamos com a ajuda essencial de Debora Diniz, que é professora, antropóloga e pesquisadora da ANIS. Para ela, o tema é mais do que fagulha para debate; é uma luta que já completa doze anos de existência. “Já abrimos muitas portas para os direitos das mulheres – e já conseguimos reduzir estigmas mais complexos do que isso, como nossa sexualidade”.

A tramitação da ação pode levar meses ou anos – segundo Debora, o Supremo tem seu próprio tempo e tudo dependerá do ministro que for sorteado para lidar com o tema. É justamente por isso que é importante trazer a discussão, sempre que possível, para o debate público – entender o quanto a descriminalização do aborto é essencial é também entender porque os direitos da mulher serão, sem dúvida, transformados também.

Quando o aborto se tornou crime?

Na Constituição de 1940, o aborto era considerado “crime contra a vida”. Na Constituição de 88, o texto não foi alterado, e hoje contempla o aborto legal apenas em casos de estupro, risco de vida contra a mulher e feto anencéfalo (que não desenvolveu cérebro).

Mas por que é tão importante descriminalizá-lo?

Porque diz respeito a todas as mulheres. Por ano, mais de meio milhão de mulheres brasileiras recorrem a métodos ilegais, humilhantes e arriscados de abortar. Descriminalizar o aborto é a melhor de entender a mulher, compreender o que a levou a tomar essa decisão. Quando legal, a mulher é tirada da “rota crítica”.

O que é “rota crítica”?

É o caminho que a mulher faz até o procedimento abortivo em caso de criminalização. Quando  a mulher se dirige a uma clínica que faz esse tipo de procedimento ilegal, não recebe nenhum tipo de suporte médico ou psicológico. Com a legalização do aborto, a rota crítica deixa de existir e o procedimento passa a ser observado pelo Ministério da Saúde.

Os casos de aborto vão aumentar?

Na verdade, todos os países que implantaram a legalização do aborto tiveram diminuição de casos, em parte por conta do acesso a médicos que podem orientá-la abertamente.

O que significa ação protocolada?

A ação é um caso judicial proposto por um determinado partido para o STF. No caso da descriminalização do aborto, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) enviou ao Supremo uma Ação de  Descumprimento  de  Preceito Fundamental  (ADPF), ou seja, apontou que os artigos 124 e 126, que criminalizam o aborto, são incompatíveis com a Constituição Federal, uma vez que tiram o direito à dignidade, à autonomia e à cidadania da mulher.

Por que 12 semanas?

Porque é o período mais seguro para a mulher recorrer ao procedimento. Mais de 90% dos abortos, hoje, já ocorrem nesse primeiro trimestre. Além disso, porque é o tempo médio proposto em países que já legalizaram o aborto, como Alemanha, França e Japão.

O aborto vai passar a ser considerado um método contraceptivo?

Não. A ação não leva à banalização do aborto. Os países que já descriminalizaram o procedimento possuem dados confiáveis de declínio permanente de procedimentos abortivos.

Após protocolar, quais os próximos passos?

O projeto vai para a Corte do Supremo, que tem seu próprio tempo. Pode levar dez anos para que uma decisão seja tomada, tudo depende do ministro sorteado para lidar com a ação. Uma boa base de comparação foi a ADFP 54, sobre anencefalia, que levou cerca de nove anos para ser aprovada, ou a ADPF 132, que permite a união civil de pessoas do mesmo sexo, que correu pelo Supremo durante seis anos.

O que a sociedade civil pode fazer para pressionar?

A primeira coisa é que todas nós, mulheres, entendamos que o assunto tem a ver com todas nós. Ainda que você nunca faça um aborto, é essencial entender que, a partir da legalização dele, a vida de muitas mulheres pode ser salva. É muito difícil obter documentação sobre mulheres que apelam à ilegalidade: com os caminhos claros, é possível apoiá-las e orientá-las para a melhor solução possível.

Arte: Masha D’yans

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A animada canção Can’t Stop The Feeling, entoada por um dançante Justin Timberlake, abriu a cerimônia do Oscar 2017. O cantor concorria à estatueta de Melhor Canção Original pela música, que fazia parte da trilha sonora do filme Trolls. As estrelas de Hollywood sacudiram o esqueleto a cada batida, mas uma icônica cantora negra definitivamente ficou de fora: Janet Jackson, cuja carreira nunca mais foi igual depois que esse mesmo Justin arrancou uma parte de seu top durante o Super Bowl de 2004, expondo um dos seus mamilos.

O mundo era outro e um fato assim teria hoje uma interpretação completamente diferente. Mas, há 13 anos, Janet levou todo o ônus pela exposição de seu mamilo por milésimos de segundos, enquanto Justin, com o pedaço de pano na mão, foi entendido como um mero e inocente coadjuvante na situação. Ele rapidamente pediu desculpas por seu envolvimento e a opinião pública o recebeu de braços abertos; sua recém lançada carreira solo saiu imaculada da situação. Tanto que, vejam, lá estava ele animadamente envolvido na maior premiação de seu país, livre para fazer o que bem entendesse ao vivo na tevê aberta.

Já Janet, que naquele momento era uma estrela bem maior que ele e, inclusive, emprestou seu brilho em seu álbum solo de estreia, foi banida de rádios e da premiação dos Grammys daquele ano – na qual Justin abocanhou dois prêmios e nem se deu o trabalho de boicotar em solidariedade à sua, até então, amiga Janet. Ele afastou-se dela e da situação em prol da sua carreira – e, no mundo em que vivemos, isso obviamente gerou excelentes resultados. Para uma mulher que pavimentou o caminho para cantoras como Beyoncé e Rihanna, uma das maiores e mais consolidadas artistas pop e R&B, 9/16 de um segundo da exposição involuntária do seu mamilo são suficientes para marcar negativamente a sua carreira para sempre. Mas, para um cantor branco e jovem, basta pedir desculpas por arrancar a vestimenta dessa mulher diante de 90 milhões de pessoas e seu sucesso continua garantido.

 

Justin Timberlake holding Janet Jackson's costume after he pulled it off at the 2004 NFL Superbowl MTV Halftime program at Reliant Stadium, in Houston, Texas on February 1, 2004. (AP Photo/David Drapkin)
Justin Timberlake segura o pedaço da roupa que arrancou durante a performance no Superbowl – mas foi Janet quem pagou o preço (AP Photo/David Drapkin via ESPN)

 

Winona Ryder e Britney Spears são outros bons exemplos de como desvios são capazes de manchar a carreira de uma mulher e marcá-la para sempre. Nenhuma das duas cometeu infrações graves como estupro ou assassinato, mas até hoje têm seus momentos ruins constantemente revisitados quando falamos sobre suas carreiras. Winona foi presa por furtar itens em uma loja – cumpriu seu tempo, mas jamais retomou seu posto de queridinha de Hollywood. Sua presença em Stranger Things é considerada um grande retorno (sendo que homens que fizeram coisas piores às vezes nem vão embora). Britney teve um surto psicótico em 2007, foi achincalhada pela imprensa e eventualmente retomou sua carreira, ainda sendo considerada importante para a música pop, mas as piadas e as lembranças do ano mais difícil da sua vida se fazem presentes até hoje.

Virtualmente, é como se nenhum ato de violência contra uma mulher fosse capaz de abalar a carreira artística de um homem dessa mesma maneira, especialmente se ele for branco. Na mesma cerimônia aberta por Justin, o Oscar de melhor ator foi para Casey Affleck, acusado de abusar sexualmente de mais de uma mulher. O caso foi resolvido fora do judiciário, mas é como se nada tivesse acontecido. Ele acabou de ganhar a maior honraria que alguém na sua profissão poderia receber. Mel Gibson, que quebrou os dentes da ex-esposa com socos, não chegou a ser laureado, mas também estava concorrendo por seu milionário e aclamado filme Hacksaw Ridge. A Academia, porém, não foi tão generosa com Nate Parker, roteirista e diretor do aclamado filme Birth of a Nation, que conta a história de uma rebelião de escravos. Nate também foi acusado de estupro e pressionado pela opinião pública por ocasião do filme que, apesar de ser um favorito, desapareceu da corrida do Oscar. Ou seja: em algum grau, Hollywood é capaz de reagir a esse tipo de polêmica – e a cor da pele do acusado tem grande influência nisso.

No Brasil, o ex-jogador de futebol Bruno Fernandes de Souza foi literalmente condenado pelo assassinato brutal de Elisa Samúdio – antes da lei, mas de um caso clássico de feminicídio – com requintes de crueldade. Não paira sobre ele nenhuma sombra de dúvida, não houve acordo entre as partes. De acordo com a justiça, Bruno é um homem que encomendou a morte da mãe do seu filho. Mas, quando, a ele foi  concedido o direito de responder em liberdade a um pedido de habeas corpus, a imprensa jogou-se aos seus pés para falar sobre sua carreira daqui para a frente. Em recente entrevista ao portal R7, Bruno ainda pede desculpas ao presidente de um dos clubes onde jogou, em um gesto de “broderagem” quase surreal.

Não há nada de errado com o fato de ele reconstruir sua vida, mas existe algo de doentio quando essa oportunidade é tão facilmente concedida a homens que machucaram e sacrificaram mulheres com quem se envolveram.  Tudo bem um homem ser a representação de um perigo às mulheres – contanto que não seja um perigo à sociedade que as exclui. A rigidez moral do senso comum que tanto castiga uma mulher considerada “vagabunda” desaparece diante de um assassino de mulheres. A ele, uma segunda chance, um recomeço. A ela, a ideia de que merece tudo de mau que lhe acontecer e muito mais.

(Vale incluir aqui uma nota de insatisfação com o uso da alcunha “goleiro Bruno” para se referir a ele. Ele tem nome, sobrenome e já perdeu seu status de goleiro. Assim como no caso do estuprador Brock Turner, referido na imprensa americana como nadador e estudante, o uso desse artifício ajuda a suavizar a imagem desses homens diante dos atos cruéis que cometeram. É mais um benefício ao qual agressores de mulheres costumam ter livre acesso.)

Os exemplos são inúmeros, mas a resistência vem crescendo. A atriz Constance Wu usou seu Twitter para criticar a nomeação de Casey ao prêmio que ele acabou vencendo, mesmo ciente de que isso poderia prejudicá-la profissionalmente. “Fui aconselhada a não falar sobre isso pelo bem da minha carreira. F*da-se minha carreira então, sou uma mulher e um ser humano primeiro. É nisso que meu trabalho se constitui”, disse ela em uma das mensagens. Outra a demonstrar seu desagrado foi a também atriz Brie Larson, que já interpretou sobreviventes de violência sexual e é uma ativista dessa causa. Ela foi responsável por entregar tanto o Oscar quanto o Globo de Ouro de Casey e, em ambas situações, não o aplaudiu ou sorriu diante do resultado – uma forma discreta de protestar em uma situação profissional absolutamente constrangedora.

O fato é que o nome desses homens e o absurdo de suas inabaláveis carreiras têm sido cada vez mais divulgados, questionados e criticados por mulheres. Ao ouvirmos e acreditarmos umas nas outras, estamos construindo e mantendo de pé narrativas que, no mínimo, disputam versões que antes seriam consideradas absolutas. Uma mudança no olhar e na abordagem desses crimes é urgente, pois a violência contra a mulher é epidêmica. Ocupar o lugar de vítima não é um ataque infantil à índole do acusado, mas o direito de quem viveu uma situação malquista. Se isso vai acarretar consequências negativas para esses homens, que tivessem eles mesmos se poupado de estar nessa situação ao não cometer a violência. Pode até ser que Casey, Bruno, Justin, Woody, Frank, Victor & companhia nunca se responsabilizem pessoalmente pelos atos que cometeram contra as mulheres que prejudicaram com suas atitudes, mas agora já não poderão mais esconder as feridas purulentas que seu envolvimento neles deixa em suas carreiras. Nossos gritos não vão deixar que cicatrize. Biel que o diga.

Arte: Magdalene Carson

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