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Após o baixo desempenho durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, esperava-se do próximo técnico da Seleção Brasileira de Futebol feminino o resgate da energia do time, além de renovações para seguir crescendo em campo contra outras grandes seleções. Esta foi a missão de Emily Lima nos 10 meses de comando do time, com resultados interessantes: em 13 jogos, ela somou sete vitórias, um empate e cinco derrotas e inovou, por exemplo, ao apostar em jogadoras novatas ao lado das experientes Marta e Cristiane. Emily só estava começando a mostrar seu trabalho quando foi demitida pela CBF. “Disseram que estavam buscando resultados e que ela não os apresentou. Mas ela não poderia apresentar sem ter participado de jogos oficiais, só amistosos. Ao contrário do Vadão (antecessor de Emily), que não teve resultados e agora está sendo trazido de volta para a Seleção”, explica a jornalista esportiva Luciane Castro, colunista do Portal Vermelho.

Quando se é uma mulher em um alto posto de comando, as expectativas vão além dos resultados. Inicialmente, a contratação de Emily para uma função tão importante em um ambiente sempre dominado por homens pode ter simbolizado um avanço. Mas, olhando com profundidade, o caminho percorrido por Emily e muitas outras mulheres que chegam a cargos altos em suas profissões é frágil. Além do teto de vidro – que somente dá a impressão que o céu é o limite, quando na verdade ainda existem barreiras mantidas pelo machismo institucional – há também uma fundação muito frágil para aquelas que conseguem chegar ao topo apesar das adversidades. Há um chão de vidro.

Uma pesquisa de 2005, feita pelos professores Michelle Ryan e Alexander Haslam, da Universidade Exeter, na Inglaterra aponta que, normalmente, as mulheres são chamadas para cargos de lideranças em momentos de crise nas empresas, como, no caso da CBF, por causa das críticas à valorização do esporte masculino em detrimento ao esporte feminino. A presença de Emily ajudou a CBF a mascarar problemas internos, como o abismo salarial entre homens e mulheres que trabalham para a CBF, usando a imagem da técnica para “vender” um progresso por parte da administração.

Os pesquisadores explicam que o chão de vidro existe porque as mulheres recebem cobranças diferentes que os homens. As missões dadas a elas, normalmente são hercúleas ou condenadas ao fracasso aos olhos dos administradores. Como uma armadilha preparada para tirá-la do comando. Para Lu Castro, a contratação de Emily não só tinha a intenção de sabotá-la, como também servir de justificativa para se trazer um homem para o comando do time novamente.

Não é impossível caminhar sobre esse chão de vidro e resistir à queda. Mas são condições desiguais e injustas, que nem deveriam existir. Como paralelo, esta matéria da BBC News identifica o problema como “escada quebrada”, que só dá a impressão de subida. Uma situação que acontece nas altas esferas de poder e em praticamente todas áreas.

Este é o caso da executiva Marissa Mayer. Hoje é difícil imaginar que sua passagem como CEO do Yahoo seria tão turbulenta. A principal missão dada em sua chegada, em 2012, era de recuperar o posto da marca como pioneira da internet e superar o Google. Ao longo de sua gestão, Mayer recebeu críticas profissionais, por ter um estilo diferente de gerenciamento, mas o julgamento não se restringiu a isso. Ela foi criticada pela maternidade de gêmeos ao longo do processo, algo impensável em uma cultura como a norte-americana, sobretudo no ambiente machista do Vale do Silício. Cinco anos depois, o baixo crescimento foi argumento para a venda da empresa para a gigante Verizon. Inicialmente, Mayer não pretendia pedir demissão, mas com tamanha culpabilização e excessiva cobrança a fez desistir do cargo. Para o The Wall Street Journal, em uma reportagem especial sobre o conceito do chão de vidro, a administradora não teria caído tão facilmente se fosse um homem. Na verdade, teria tido uma chance no novo modelo da empresa.

O mesmo poderia ser aplicado então para Ellen Pao, durante sua gestão do site Reddit. Para uma mulher, estar neste ambiente pode ser um chão de vidro com um profundo penhasco logo abaixo, pois a empresa é composta por uma maioria masculina (74% dos funcionários são homens) e isso se reflete em seus usuários, que fazem dos fóruns do site espaços para demonstrações de misoginia, racismo, LGBTfobia e outros discursos de ódio, sem a menor restrição por parte do site.

Especialistas questionam o trabalho de Pao, o que justificaria sua demissão, não fossem todas questões de gênero envolvidas. As ofensas machistas internas e do público chegaram a gerar petições online, assinadas por homens, para a remoção da empresária, como lembra o The Daily Dot. Mas este não foi um problema recente. Seu cargo foi diminuído desde a sua chegada, sendo colocada como a única “CEO interina” da empresa. Por que não apenas CEO?

O The Daily Dot também destacou que a crise no Reddit durante a administração de Pao foi propositalmente levada a público de uma maneira que nunca aconteceu com homens CEOs, como se, sabendo da tendência violenta do público, a empresa quisesse usar a pressão para dispensa-la.

Se ter mulheres em altos cargos de liderança é um passo importante para levar mais outras mulheres a crescer no mercado de trabalho, principalmente em espaços dominados por homens, o chão de vidro é preocupante por representar mais um obstáculo que enfrentamos na jornada um retrocesso nesta luta.

Perder mulheres CEO nesta armadilha é perder espaços de poder. É desestimular as mulheres que as seguem. Para os homens líderes, a estratégia do chão de vidro é mais uma maneira de justificar seu domínio. Por isso, é preciso identificar essa armadilha antes de cair nela e assim não ceder a um mundo corporativo e masculino, que insiste em tirar as mulheres do jogo.

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