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Diante de uma gravidez indesejada e da necessidade de seguir trabalhando e  estudando com bolsa do ProUni para criar dois filhos, Rebeca Mendes da Silva Leite, de 30 anos, pediu à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, o direito de realizar o aborto de maneira segura e legal. O pedido foi negado sem análise do mérito pela ministra, mas a estudante não ficou sem amparo. Rebeca conseguiu a interrupção da gestação em viagem à Colômbia. Ela estava grávida de sete semanas e havia viajado ao país a convite de organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para participar de debates sobre seu caso judicial no Brasil.

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Foto: Anis – Intituto Bioética

Sabendo que estava protegida pelas hipóteses de aborto legal colombianas, Rebeca decidiu realizar o procedimento. O aborto é um procedimento autorizado pela Corte Constitucional do país vizinho desde 2006 em três circunstâncias: quando a gravidez coloca em perigo a saúde física ou mental da mulher, quando a gravidez é resultado de estupro ou incesto e em caso de malformações do feto incompatíveis com a vida fora do útero. O procedimento é feito por um médico clínico geral ou obstetra que auxilia a mulher a escolher entre a interrupção com medicamentos ou cirúrgica. Há um acompanhamento médico após o procedimento e a mulher ainda escolhe a implementação de um método contraceptivo de sua preferência.

Rebeca conta que desde que chegou na Colômbia foi tratada com acolhimento e respeito. “Aqui há a compreensão sobre o que eu estava passando e o que eu queria fazer com o meu corpo. O procedimento da interrupção ocorreu sem grandes problemas, sem nenhum empecilho. Detalharam todo o processo. Eu fui muito bem orientada. Eu fiz a interrupção da gravidez e já saí com o método contraceptivo que escolhi. Diferente do Brasil. Na Colômbia, recebi carinho e atenção de pessoas que não são da minha pátria, mas que entendem a minha luta. Eles lutam diariamente pelos direitos das mulheres. Então só tenho a agradecer a todos que estiveram envolvidos”, comenta aliviada.

A Anis – Instituto Bioética apoiou Rebeca desde a sua tomada de decisão e responde dúvidas com relação ao procedimento e a estadia da estudante na Colômbia:

O que aconteceu com Rebeca desde que teve o pedido de aborto negado?
Depois da resposta Supremo Tribunal Federal, Rebeca estava em espera pela decisão do habeas corpus impetrado diante da justiça de São Paulo. Seu objetivo era receber amparo judicial para realizar o aborto legal e seguro no país. Neste intervalo, Rebeca foi convidada por organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para ir à Colômbia falar sobre sua experiência de litígio no Brasil. Sabendo que o aborto na Colômbia é permitido nos casos de risco à saúde mental da mulher, e considerando o silêncio do STF e do TJSP sobre sua demanda, Rebeca decidiu realizar o procedimento durante a viagem.

Rebeca pretendia fazer o aborto na Colômbia desde o início?
Não. Rebeca procurou a Anis em busca de uma forma de interromper a gestação que não colocasse sua saúde em risco e que não fosse crime. Por isso decidiu expor sua história em pedidos ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Havia planos para atender a demanda de Rebeca em um país onde o aborto é legal se ela não conseguisse a autorização judicial até perto de completar 12 semanas de gestação. Mas o convite para a viagem à Colômbia veio antes desse prazo, e Rebeca decidiu realizar o procedimento assim que possível.

Onde Rebeca fez o procedimento?
Em uma clínica da organização privada e sem fins lucrativos Profamilia, que oferece diversos serviços de planejamento familiar e cuidado à saúde sexual e reprodutiva na Colômbia.

Quem pagou pelo procedimento?
A Profamilia tem uma atuação assistencial, por meio da qual oferece o procedimento gratuito a mulheres que não podem pagar.

Quem pagou pela viagem de Rebeca?
A viagem foi realizada a convite e financiada pela pela rede latino-americana CLACAI (Consorcio Latino-Americano Contra o Aborto Inseguro). Na Colômbia, Rebeca participou de reunião com o grupo La Mesa por La Vida y La Salud de Las Mujeres.

Como foi o procedimento?
Rebeca foi acolhida na clínica e, após receber explicações sobre métodos para realizar o aborto, optou pelo cirúrgico. Também foi orientada sobre diversos métodos contraceptivos e escolheu o de sua preferência. Tudo transcorreu bem, ao longo de uma manhã, e Rebeca saiu da clínica já com o implante subcutâneo.

Ter feito o procedimento fora do país coloca Rebeca em risco diante da lei brasileira?
Não. A lei brasileira só é aplicável no país. Rebeca fez o aborto amparada pelas leis colombianas e não pode ser punida por isso.

O que acontecerá com o habeas corpus impetrado em São Paulo?
Rebeca solicitará que a ação não tenha mais seguimento, porque já não há propósito.

Isso significa que Rebeca desistiu da decisão judicial antes da hora?
Talvez seja preciso recolocar a pergunta: o pedido de Rebeca era de urgência, e não foi respondido no tempo que sua situação crítica exigia. Ela foi desamparada pelo silêncio da justiça brasileira. Cada dia de espera representava uma ameaça crescente à sua saúde. Rebeca tomou a decisão que considerou mais correta diante da emergência e das condições que tinha. Mas o debate judicial que levantou no Brasil sobre o sofrimento imposto pela criminalização do aborto na vida concreta das mulheres seguirá à sua história.

Solidão – A impossibilidade de prosseguir com sua decisão de forma segura e legal, com acesso aos devidos cuidados em saúde, causava à Rebeca intenso sofrimento mental. Depois do procedimento de interrupção, ela conta que essa sensação passou. “Passou o sentimento de solidão. A decisão já foi tomada e posta em prática. Eu me sinto como a velha Rebeca que existia antes de começar tudo isso. Não tenho mais nenhum sintoma de depressão, solidão, angústia. Eu me sinto normal e não me sinto envergonhada por me sentir bem”, ressalta.

Aborto no Brasil – Uma em cada cinco mulheres até os 40 anos já fez, pelo menos, um aborto no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto 2016. Estima-se que 500 mil mulheres façam aborto a cada ano, o que significa quase uma mulher por minuto. Segundo a mesma pesquisa, cerca de metade das mulheres precisa ser internada depois de um aborto ilegal no país.

“O desfecho do caso de Rebeca demonstra o desamparo das mulheres no Brasil. Para viver um procedimento de aborto com segurança, Rebeca teve de ir a um país vizinho que reconhece que qualquer gestação indesejada é uma gestação de risco pelo sofrimento que impõe às mulheres” diz Gabriela Rondon, uma das advogadas de Rebeca Mendes.

No Brasil, o aborto é permitido somente nos casos de estupro, de anencefalia do feto ou quando a gestação representa um risco para a vida da mulher. Para todas as outras situações, valem os artigos 124 e 126 do Código Penal, datado da década de 1940, segundo os quais provocar o aborto em si mesma, com ou sem o auxílio de outra pessoa, configura crime com pena de um a três anos de prisão. Quem auxilia ou realiza o procedimento, mesmo com o consentimento da mulher, está sujeito a uma pena de um a quatro anos de prisão.

Apoio – A Academia Nacional de Medicina elaborou uma carta endereçada à presidente do STF, ministra Carmen Lúcia defendendo a descriminalização do aborto. “Quando realizado em condições adequadas, segundo os protocolos recomendados pela OMS, o aborto é um procedimento seguro e eficaz, com baixo risco de sequelas e que contribui para reduzir a morbimortalidade materna. O tema precisa ser debatido com base em evidências científicas e nas experiências bem documentadas dos países onde a interrupção voluntária da gravidez é realizada legalmente”, afirma o texto. A Academia observa ainda que, em países onde a prática foi legalizada, houve queda tanto do número de procedimentos quanto de mortes maternas.

Um manifesto “em prol do direito ao aborto seguro para todas as mulheres brasileiras e em apoio a Rebeca Mendes” também foi divulgado este fim de semana. O documento é assinado por 170 mulheres do meio intelectual e artístico do país que defendem “não podemos silenciar sobre essa realidade, que afeta milhares de mulheres. Declaro que sou uma delas. Declaro ter feito um aborto. Rebeca Mendes não é uma exceção”. Entre elas, estão nomes como a atriz Camila Pitanga, a produtora Maria de Médici, a filósofa Marcia Tiburi e a psicanalista Maria Rita Kehl.

Mensagem – Rebeca espera passar uma mensagem positiva e somar forças para ajudar outras mulheres que passam pela mesma situação que ela enfrentou. “Eu espero mostrar que existe uma outra opção para todas as mulheres que eu vejo, diariamente, nas redes sociais, passando pela mesma condição que eu, cogitando abortar clandestinamente por não ter a possibilidade de fazer isso fora do Brasil. Para elas eu digo: há organizações, há pessoas que lutam para que nós tenhamos esse direito”, conta emocionada.

“Eu espero que agora as mulheres vejam que elas têm outra opção. Eu fui a primeira e sabia que a minha resposta no judiciário poderia ser negativa. Afinal, como eles iam dar uma sentença favorável se uma mulher estava pedindo? Era como se só eu no Brasil precisasse abortar. O nosso Estado infelizmente fecha os olhos pra essas mulheres. Essas mulheres precisam aparecer, ter a coragem de dar nome e voz para a história delas e mostrar que isso não acontece só com a Rebeca, mas também com a Maria, com a Julia, com a Fernanda, com milhares de nós. Devemos mostrar que existimos e que precisamos de um respaldo da nossa sociedade”, conclui.

“Rebeca enfrentou a pressão pública ao oferecer sua história e seu rosto em uma demanda tratada de uma maneira tão injusta e estigmatizada no Brasil. É um alívio que o acolhimento de outro país tenha permitido uma solução segura e respeitosa para a sua demanda, mas a sua história nos lembra das outras 500 mil mulheres que vivem um aborto inseguro no país todos os anos. Estamos falando de uma crise permanente de saúde pública que está nas mãos do STF decidir”, conclui Sinara Gumieri, que integra a equipe de advogadas de Rebeca.

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O Supremo Tribunal Federal conheceu a história de Rebeca Mendes Silva Leite por meio de uma liminar, feita pela Anis – Instituto Bioética e o PSOL, que pedia o direito do aborto legal e seguro. As mulheres tiveram Rebeca, por sua coragem, como a personificação da luta pela descriminalização do aborto no Brasil.

Nesta quarta-feira (29), o STF informou que o pedido de Rebeca não foi concedido pela Ministra Rosa Weber, à quem a estudante havia direcionado uma carta ao fazer o pedido.

Mas esta decisão não encerra a luta pela descriminalização no Brasil. O STF ainda tem uma ação para avaliar. Rebeca também não pode ficar sem amparo.

Para saber mais, leia o FAQ (perguntas frequentes) que a Anis preparou sobre Rebeca, a decisão do STF e os próximos passos a serem tomados:  

1. Quem é Rebeca Mendes?

Rebeca é uma mulher de 30 anos, com dois filhos. Engravidou involuntariamente em uma fase de troca de métodos de planejamento familiar. É trabalhadora com contrato temporário, estudante de direito. Ela está com atraso menstrual de três semanas e tempo gestacional de sete semanas.

2. O que foi pedido ao Supremo Tribunal Federal?

Foi feita uma petição à Ministra Rosa Weber para que o caso de Rebeca fosse considerado para a concessão de liminar já solicitada, no dia 7 de março, na ADPF 442. A ADPF 442 pede a descriminalização do aborto no Brasil até 12 semanas de gravidez.

3. Foi feita uma nova ação no STF para o pedido de Rebeca?

Não. O que foi apresentado foi uma petição a uma ação já em curso, a ADPF 442. Não houve uma nova ação para Rebeca

4. O que o STF decidiu?

O pedido de liminar foi indeferido, ou seja, negado. O indeferimento foi sobre o instrumento processual e não sobre o conteúdo do pedido. Ou seja, não houve decisão sobre o caso de Rebeca.

5. Isso significa que Ministra Rosa Weber não analisou o caso de Rebeca?

Sim, a decisão não foi sobre Rebeca, mas sobre o pedido de urgência de uma liminar para todas as mulheres no país. A ministra afirmou duas coisas: 1. Não caberia um pedido individual numa ação abstrata como a ADPF 442; 2. O trâmite da APDF 442 tem sido rápido, ou seja, ela tem considerado a urgência da demanda.

6. Por que Rebeca foi ao STF e não a justiça comum em São Paulo, onde vive?

Porque o tempo da gestação pedia urgência e há uma ação em curso no STF (ADPF 442) que pede uma liminar para descriminalizar o aborto no Brasil. A liminar de Rebeca foi apresentada como uma evidência a esta ação, além dos dados populacionais de 330 mil mulheres que já fizeram aborto desde que a ADPF 442 foi apresentada.

7. Como está Rebeca?

Ela se sente desamparada – pela justiça e pela pressão fanática para que não faça o aborto. Já lhe foi oferecida casa, trabalho e renda para que desista da decisão.

8. Por que Rebeca não fez o aborto ilegalmente?

Porque não quer correr risco de vida. Porque não quer ser criminosa. Rebeca é mãe de dois filhos e quer cuidar deles. Deseja terminar sua faculdade de direito.

9. De onde surgiu Rebeca?

Rebeca procurou a Anis pela campanha Eu vou contar e pediu ajuda. Desde o início, esclareceu que sua vontade era interromper a gestação e não correr risco de vida. Rebeca não quer cometer um crime por isso procurou a justiça.

10. Quais os próximos passos?

Todos os passos foram decididos por Rebeca. Ela ainda está pensando no que fazer. A pressão fanática é intensa, violando sua intimidade. Rebeca precisa de tranquilidade para decidir o que for melhor para sua vida.

Atualização:

Após a negativa do STF, Rebeca conseguiu realizar o aborto na Colômbia. Entenda:

O que aconteceu com Rebeca desde que teve o pedido de aborto negado?

Depois da resposta Supremo Tribunal Federal, Rebeca estava em espera pela decisão do habeas corpus impetrado diante da justiça de São Paulo. Seu objetivo era receber amparo judicial para realizar o aborto legal e seguro no país. Neste intervalo, Rebeca foi convidada por organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para ir à Colômbia falar sobre sua experiência de litígio no Brasil. Sabendo que o aborto na Colômbia é permitido nos casos de risco à saúde mental da mulher, e considerando o silêncio do STF e do TJSP sobre sua demanda, Rebeca decidiu realizar o procedimento durante a viagem.

Rebeca pretendia fazer o aborto na Colômbia desde o início?
Não. Rebeca procurou a Anis em busca de uma forma de interromper a gestação que não colocasse sua saúde em risco e que não fosse crime. Por isso decidiu expor sua história em pedidos ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Havia planos para atender a demanda de Rebeca em um país onde o aborto é legal se ela não conseguisse a autorização judicial até perto de completar 12 semanas de gestação. Mas o convite para a viagem à Colômbia veio antes desse prazo, e Rebeca decidiu realizar o procedimento assim que possível.

Onde Rebeca fez o procedimento?
Em uma clínica da organização privada e sem fins lucrativos Profamilia, que oferece diversos serviços de planejamento familiar e cuidado à saúde sexual e reprodutiva na Colômbia.

Quem pagou pelo procedimento?
A Profamilia tem uma atuação assistencial, por meio da qual oferece o procedimento gratuito a mulheres que não podem pagar.

Quem pagou pela viagem de Rebeca?
A viagem foi realizada a convite e financiada pela pela rede latino-americana CLACAI (Consorcio Latino-Americano Contra o Aborto Inseguro). Na Colômbia, Rebeca participou de reunião com o grupo La Mesa por La Vida y La Salud de Las Mujeres.

Como foi o procedimento?
Rebeca foi acolhida na clínica e, após receber explicações sobre métodos para realizar o aborto, optou pelo cirúrgico. Também foi orientada sobre diversos métodos contraceptivos e escolheu o de sua preferência. Tudo transcorreu bem, ao longo de uma manhã, e Rebeca saiu da clínica já com o implante subcutâneo.

Ter feito o procedimento fora do país coloca Rebeca em risco diante da lei brasileira?
Não. A lei brasileira só é aplicável no país. Rebeca fez o aborto amparada pelas leis colombianas e não pode ser punida por isso.

O que acontecerá com o habeas corpus impetrado em São Paulo?
Rebeca solicitará que a ação não tenha mais seguimento, porque já não há propósito.

Isso significa que Rebeca desistiu da decisão judicial antes da hora?
Talvez seja preciso recolocar a pergunta: o pedido de Rebeca era de urgência, e não foi respondido no tempo que sua situação crítica exigia. Ela foi desamparada pelo silêncio da justiça brasileira. Cada dia de espera representava uma ameaça crescente à sua saúde. Rebeca tomou a decisão que considerou mais correta diante da emergência e das condições que tinha. Mas o debate judicial que levantou no Brasil sobre o sofrimento imposto pela criminalização do aborto na vida concreta das mulheres seguirá à sua história.

Leia mais sobre aborto no nosso FAQ Definitivo sobre o assunto.

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Nesta madrugada, o Supremo Tribunal Federal conheceu a história de Rebeca Mendes Silva Leite por meio de uma ação apresentada pelo PSOL e a Anis – Instituto Bioética pedindo o direito de interromper uma gravidez de poucas semanas, indesejada. E hoje convidamos você também a conhecer a história de Rebeca, contada por ela mesma, nesta carta direcionada a Ministra Rosa Weber, pedindo a descriminalização e segurança do aborto para o seu caso.

Para além do STF, para além de Rosa Weber. Nós, mulheres, também precisamos saber a história de Rebeca. Reconhecer sua identidade, seu rosto, seus medos e anseios é protegê-la da lei que criminaliza, da sociedade que julga. É personificar a luta pela descriminalização para todas as brasileiras.

Em plena consciência de sua escolha, Rebeca lê, em vídeo, sua carta direcionada a Ministra Rosa Weber, pedindo a descriminalização e segurança do aborto para o seu caso. Se, ao longo das últimas semanas, a Anis tem trazido histórias que precisam ficar no anonimato por meio da campanha #EuVouContar, hoje é a Rebeca quem vai contar corajosamente a sua, personificar os medos e as dores de muitas de nós. Leia a transcrição: 

Meu nome é Rebeca tenho 30 anos, sou mãe de dois meninos. Thomas de 9 anos e Felipe de 6 anos.  Antes de me julgar, Ministra Rosa Weber, peço que me escute, pois não é fácil, mas tentarei descrever o motivo do meu atual sofrimento.

Na terça-feira, dia 14/11, eu descobri que estou grávida. Minha menstruação, até então, estava atrasada apenas 10 dias. O que isso significa pra mim naquele momento? Bom, senti um grande abismo se abrindo e me sugando cada vez mais para baixo. Desde então, eu já não sei o que significa dormir, comer, estudar, enfim, tudo o que faço tranquilamente e quando não estou fazendo “nada”, eu estou chorando. Fico imaginando as possibilidades, e a longo prazo se eu estivesse vivendo outra realidade, o mínimo diferente que fosse, eu não estaria escolhendo fazer um aborto. O que tentarei fazer aqui é um relato verdadeiro do que está acontecendo neste momento e mais ainda, tentarei ser o mais racional possível.

Como já disse, sou mãe de dois meninos lindos e mesmo o pai pagando a pensão alimentícia para os meninos e morando muito perto de nós, ainda assim, me considero uma mãe que também faz o papel de pai. O lema dessa pessoa que se considera pai dos mais filhos é: “eu já pago pensão”. Isso é o que eu escuto basicamente, em qualquer situação, desde chegar da faculdade às 23 horas e perceber que um deles está com febre alta e ligar e pedir que nos leve até o hospital, pois ele tem carro e eu não, e a resposta que eu tenho é: “Eu não pago pensão? Chama o Uber e leva você”. Dentre outros absurdos que não vem ao caso.

Mas o que isso tem a ver com a atual gestação? Infelizmente, o pai dos meus dois filhos é responsável também por essa gestação. Quando eu conto esse detalhe, geralmente as pessoas riem da situação. Mas não sabem como é ter um relacionamento saudável e sem remorsos, sendo uma mãe solteira. Mesmo assim, estamos separados há 3 anos, e essa foi a única aproximação amorosa que tivemos. Mas ainda assim não é esse o motivo que me leva a decisão de interromper essa gestação.

Já adianto aqui, são dois motivos que me levam a essa decisão. O principal deles é que em fevereiro para ser mais exata, no dia 11/02/2018 eu serei uma mulher desempregada. Tenho um contrato de trabalho temporário no IBGE, e nessa data ele se encerra sem a possibilidade de renovação. Serei então uma mãe de dois filhos desempregada e grávida. Se já é difícil para uma mulher com filhos pequenos trabalhar em nosso país, é impossível uma mulher grávida conseguir um trabalho para qualquer atividade que seja. Seremos três pessoas passando necessidades, não conseguindo pagar meu aluguel sem ter dinheiro para comprar comida e com toda essa dificuldade ainda terei um bebê a caminho. Esse é um cenário que a longo prazo não tenho perspectiva de melhora.

O outro motivo que tenho é que estou cursando o quinto semestre do curso de Direito, curso este onde eu possuo uma bolsa integral pelo PROUNI e é o passaporte da minha família para uma vida melhor. Continuar com essa gestação significa também interromper por prazo indeterminado a conclusão desse sonho. Não sou uma mulher irresponsável, estava trocando de uso de um contraceptivo por outro. Como não possuo convênio médico, todo procedimento é feito pelo SUS, onde todo e qualquer procedimento é moroso.

Moro na cidade de São Paulo e, pra ser sincera, eu poderia ter ido até a Praça da Sé com R$ 700,00 reais e comprar o tal do “Citotec” e ter tomado na minha casa e acabado com tudo isso. Diante dessa possibilidade pesquisei o funcionamento e as consequências deste ato. Me entenda, eu nunca estive nessa posição e os relatos que vi foram mais que suficientes para descartar essa possibilidade. O medo do procedimento não funcionar e acarretar má-formação ou o remédio causar uma hemorragia causando a minha morte e, ser levada para um hospital e chegando lá ser levada para delegacia. Não quero ser presa e muito menos morrer. Não parece ser justo comigo. Não estou grávida de 4 ou 5 meses, estou grávida de dias apenas.

Arte: Kaol Porfírio.

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Foi uma jornada e tanto. Em parceria com a ONU Mulheres e a Benfeitoria, chegamos ao fim de uma trajetória que nos aproximou de mulheres cujo potencial de mudar o mundo impressionou não apenas a nós, mas também aos 2462 apoiadores do canal Mulheres de Impacto. Foram R$ 235.377,00 arrecadados para os oito projetos financiados – R$ 253.227,00 se contarmos com as quatro iniciativas que não atingiram a meta, mas que continuam merecedoras todo apoio e admiração.

Desde o início, o objetivo do Mulheres de Impacto era o de criar meios para que mulheres inovadoras tirassem seus sonhos do papel. Foram 161 inscrições vindas de todo o Brasil – o que tornou o processo de decisão muito difícil, mas também prazeroso: tivemos que analisar quais ideias eram mais apropriadas dentro da proposta, enquanto nos encantávamos com a criatividade, o talento e as soluções trazidas por essas líderes das mais diferentes regiões e origens.

Apenas 12 foram selecionadas e o próximo passo foi o de preparar essas mulheres para a missão de uma campanha de financiamento coletivo. Trabalhamos individualmente com cada uma delas para que encontrássemos a melhor forma de formatar os seus projetos para angariar os fundos necessários para eles decolarem.

E esse foi apenas o começo para essas poderosas empreendedoras. Com o valor arrecadado, elas poderão dar continuidade ou o pontapé inicial em seus projetos transformadores. Para as fundadoras da AfrôBOX, os R$ 6.500,00 arrecadados da meta inicial vão garantir o investimento necessário nas caixas e envios do protótipo já testado, uma reserva de capital para o início das operações e a cobertura de  encargos financeiros e recompensas. Já o aplicativo Mete a Colher será 100% desenvolvido com os R$ 47.195,00 arrecadados.

“Fazer parte do Mulheres de Impacto é um maravilhoso desafio: acreditar em mim, empreender, buscar mudanças para a vida das mulheres, dar voz à um projeto feito coletivamente, saber que o Desabafa faz sentido”, explica Cris Lustosa, criadora do projeto que pretende mudar as cidades a partir de intervenções urbanas que incentivem as mulheres a falar sobre o assédio que sofrem cotidianamente. A iniciativa bateu a meta e arrecadou R$ 8.275,00, mas, para Cris, a alegria de participar ultrapassou os números: “Aprender que existem possibilidades de mudanças e que não estou sozinha, está sendo a maior das recompensas. Celebro cada momento em que me senti acompanhada nesse processo, e foram muitos, senão todos.”

A todos os benfeitores que investiram no Canal e nesse grupo maravilhoso de mulheres, o nosso muito obrigada. A recompensa para quem contribuiu, além daquela selecionada no momento do apoio, é saber que o valor recolhido durante a campanha vai transformar não somente a vida dessas líderes, mas também das incontáveis mulheres que serão impactadas pelo seu trabalho. Os oito projetos financiados serão implementados até o primeiro trimestre de 2017. Clique aqui para conhecer melhor e acompanhar cada um deles.


Arte: La Fille Bertha

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Arte: Chloe Early
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Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres
Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres

Ninguém nasce machista, homofóbico, racista ou transfóbico. Aprendemos a adotar comportamentos considerados comuns para a sociedade onde vivemos. Parte desse aprendizado vem da escola, durante a socialização entre as crianças. Segundo a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com mais de 18,5 mil alunos, mães, pais, diretores professores e funcionários, 99,3% dos entrevistados demonstram algum preconceito étnico-racial, socioeconômico, de gênero, geração, orientação sexual, deficiência ou territorial. O estudo indicou que 99,9% dos entrevistados têm vontade de manter distância de algum grupo social, principalmente os deficientes mentais e homossexuais, ambos com taxas de 98,8% de rejeição.

Seja para combater discriminação na escola ou para ensinar as crianças sobre questões básicas relacionadas a equidade, a educação de gênero em sala de aula é fundamental. Tanto é que a UNESCO recentemente se pronunciou a favor do aprofundamento do debate sobre sexualidade e gênero para uma educação mais inclusiva e de qualidade no Brasil. Enquanto isso, projetos de lei que proíbem debates sobre questões de gênero despontam em várias partes do Brasil, inclusive um que prevê a prisão de professores que abordarem o assunto em sala de aula. No Reino Unido, porém, acontece o oposto: o debate sobre gênero em sala de aula só aumenta, inclusive com apoio financeiro do governo. Uma das instituições por trás desse avanço é a Educate & Celebrate, especialista em transformar escolas, organizações e funcionários LGBT+ friendly, isto é, em humanizar pessoas e ambientes educacionais a fim de combater discriminações ligadas a gênero, orientação sexual e identidade de gênero. Conversamos com a CEO da iniciativa, Elly Barnes, sobre o trabalho desenvolvido e sobre como trazer esse debate para a sala de aula. Confira a conversa:

Como começou a organização Educate & Celebrate?

Eu comecei essa organização há 11 anos porque eu era coordenadora de uma escola e tinha que dirigir 240 crianças de 11 anos que eram meus bebês. Eu queria garantir que a linguagem transfóbica, bifóbica, sexista, racista e homofóbica que todos eles estavam usando fosse erradicada porque eu não aguentava mais ouvi-la. E eu queria desesperadamente que as crianças que estavam sob meus cuidados tratassem todos justa e igualmente. Se não falarmos a respeito, nada vai mudar. Havia um silêncio absoluto, uma completa invisibilidade especificamente sobre sexismo, homofobia e transfobia, não era tão ruim quanto a racismo mas havia alguns temas que não eram trabalhados de maneira alguma no plano escolar.

Comecei simplesmente fazendo um seminário com meus alunos explicando as palavras lésbica, gay, bissexual, trans e então intersexual, travesti, gênero fluido, assexual, pansexual e trouxe essa linguagem para o estado consciente dos meus alunos para que eles soubessem o que elas significam. Eu queria que eles usassem esses termos com confiança. Na época, em 2005, não havia leis específicas sobre o assunto, então causou uma certa agitação. A diretora ficou chocada. Eu perguntei o que ela achava que aconteceria se tivéssemos essa conversa, ela disse que “tornaria” todos os alunos gays e que ensinaria a ter sexo gay. Eu respondi bem, quando celebramos o mês da consciência negra, viramos todos negros? Não. Os pais negros reclamam quando celebramos o dia da visibilidade deficiente? Não.

Como funciona essa pedagogia na prática?

Queremos garantir que estamos falando com todas as pessoas o tempo todo e garantir a interseccionalidade. Se eu estivesse falando sobre música, que era a aula que eu dava, e estávamos no mês da consciência negra, eu escolheria pessoas como Stevie Wonder e Ray Charles porque eles são negros, músicos e têm alguma deficiência. Trazemos a interseccionalidade. Se eu for falar sobre a Joan Armatrading, deixo claro que ela é uma compositora negra e lésbica. Há uma pedagogia por trás, chamamos de “usualising” (“normalizando”, em português). Isso é sobre quebrar a heteronormatividade, isso de as pessoas assumirem que eu sou casada a um homem, queremos encorajar a interseccionalidade usando a pedagogia da normalização e o resultado final que eu quero é justiça social. Eu queria que todos subissem no ônibus do arco-íris, entrassem nessa jornada comigo e nos uníssemos.

E qual é a reação de pais e alunos?

Felizmente, não tivemos muita adversidade por parte dos pais ou dos alunos, desde lá até agora a maior adversidade que encontramos foi por parte dos próprios professores. Eles não se sentem confortáveis falando sobre sexismo, homofobia e transfobia porque eles não foram educados da mesma forma que nossos alunos estão sendo educados hoje. Temos que fazer com que as gerações antigas se atualizem e acompanhem a geração atual para que estejamos todos falando a mesma língua porque essa divisão torna algumas situações impossíveis. Temos que quebrar essas barreiras negativas. Passei muito tempo falando com a equipe e muitos continuam achando que as crianças vão enlouquecer e isso simplesmente não é o caso. Isso é apenas homofobia e transfobia internalizados. Não é o que realmente acontece. Então é isso o que fazemos, damos aulas por exemplo de matemática, com exercícios com diagramas falando do número de pessoas que participaram da parada gay em Brighton para chegar ao resultado de quantas pessoas devem ir à de São Francisco. Apenas adaptamos parte do conteúdo escolar com linguagem LGBT+. Funcionou muito bem. Falamos sobre linguagem LGBT+, colocamos o conteúdo em contexto LGBT+ em todas nossas aulas. Pegamos o programa escolar todo e pensamos: só vamos falar de homens brancos heterossexuais e cristãos? Erradicamos isso e mudamos o programa escolar. Depois disso, aumentamos a visibilidade dentro do contexto. Quando você entra na escola, há um cartaz dizendo “aqui tratamos todos com justiça, sem importar sua idade, deficiência, identidade de gênero, orientação sexual, cor e gênero”. Todos têm que assinar esse termo dentro das regras da escola. As escolas e os pais precisam entrar em consenso em relação a isso antes de os pais enviarem seus filhos para lá. Tudo tem que ser acordado, então mudamos toda a papelada e as regulações das escolas. E então envolvemos a comunidade, todo mês fazemos uma apresentação de arte e as crianças fazem suas próprias músicas, textos, falam sobre as campanhas que estão fazendo ou sobre o que gostam na escola.

Há muitas crianças em transição na escola agora, porque como há mais visibilidade temos mais crianças trans. Isso facilitou muito porque as escolas precisam lidar com isso agora, antes havia um comportamento meio “por que precisamos falar sobre isso se não temos crianças trans?”. Como demos maior visibilidade, as crianças se sentem mais confortáveis para fazer a transição e isso estimula as escolas a agirem. Então fizemos workshops de identidade de gênero com as crianças e com a equipe para garantir que todos entenderam que amanhã Charlie vai vir a escola e continua sendo Charlie, mas o pronome adequado agora é “ele”. Então todos sabem que no dia seguinte será assim. As crianças respondem muito bem a isso e fazem vários cartazes pela escola dizendo “bem-vindo de volta, Charlie!”. É uma questão de consciência. Temos que trabalhar nisso assim que as crianças entram no sistema educacional para quebrar o estigma. Para as crianças, isso não é um problema. Estamos começando a mudar o sistema educacional britânico, mas não estamos perto de onde queremos chegar ainda. Há 22 mil escolas neste país e já trabalhamos com algumas milhares de escolas ao longo dos anos, mas é só a ponta do iceberg. Tentamos prover serviços que as escolas possam acessar facilmente, como treinamento de equipes, workshops e consultoria. Treinamos os professores, atualizamos os regulamentos, questionamos o programa escolar, aumentamos a visiblidade no ambiente e envolvemos pais e alunos na comunidade com vários eventos, esse é o nosso programa. E se todos fizéssemos isso, poderíamos ter aquele mundo com justiça social que sonhamos onde podemos ser nós mesmos sem medo de discriminação.

Muitas vezes no senso comum as pessoas afirmam que esses são assuntos “privados” que devem ser discutidos em casa, não na escola ou no ambiente público, enfim. Como você lida com esse tabu?

O tabu é um problema muito grande. Quando falamos sobre esses assuntos com os professores, eles falam sempre que “não falamos sobre esses assuntos porque é tabu”. Não é engraçado? E se usássemos isso para falar sobre qualquer assunto, por exemplo “não falamos sobre pessoas com deficiência porque é tabu”, “não falamos sobre culturas diferentes porque é tabu”. Não usamos essa linguagem com nenhuma outra desigualdade, usamos? Temos que fazer as pessoas entenderem que isso é sobre equidades, não sexo. Por algum motivo, toda vez que falamos sobre identidade de gênero ou orientação sexual, as pessoas acham que é sobre sexo. Mas não tem nada a ver com sexo. Por quê? Não é relacionado a sexo, é sobre quem você é. Há essa barreira que temos que quebrar e assim que quebramos os portões estão abertos, é sobre dar permissão às pessoas para falar sobre, porque quando você abre a conversa elas se abrem também, dizendo “nossa é verdade, meu tio sempre se transvestia nos finais de semana, sempre me perguntei como chamava isso”. As pessoas começam a falar com você sobre suas experiências e não fazemos isso o bastante. É um método que funciona porque você remove isso da questão de sexualidade e apresenta como uma questão de equidade, assim como racismo, sexismo.

Você acha que isso está relacionado ao nível de violência cometido contra pessoas gays e trans?

É o medo, não é? As pessoas estão assustadas, os níveis de violência relacionados a sexualidade são absolutamente terríveis. Esses são comportamentos aprendidos, porque não nascemos racistas, sexistas, homofóbicos ou transfóbicos. Apredemos isso. Então temos que destruir esses comportamentos desde pequenos. Se você nasceu em uma comunidade onde a homofobia é comum, você sofre uma lavagem cerebral e passa a acreditar nisso, não é? É isso o que precisamos mudar, temos que mudar as leis e é também sobre se infiltrar no sistema educacional para garantir que isso está incluso no programa escolar. A razão para esse ódio é medo. Trabalhei com professores turcos e eles me disseram que não há nada a fazer porque simplesmente não há leis para proteger pessoas LGBT+. E o único trabalho que pessoas trans podem fazer é prostituição porque eles simplesmente não são reconhecidos pela lei como seres humanos. Temos que começar mudando as leis e a educação. A homossexualidade foi legalizada em 1967, mas não podíamos falar sobre isso nas escolas, tem sido uma jornada de lutas. Em 2003 foi abolida a lei que proibia falar sobre isso em sala de aula. Então só tivemos permissão para fazer esse trabalho a partir daí.


Que lei era essa?

Em 1998, Margaret Thatcher criou algo chamado Sessão 28. Havia um livro nas bibliotecas chamado “Jenny vive com Eric e Artie”, a história de uma criança que tinha dois pais. Ela tirou isso das bibliotecas dizendo que era sobre uma “família de mentira” e que não queria isso nas escolas. Os livros foram banidos das escolas e os professores não podiam falar sobre isso, semelhante ao que está acontecendo na Rússia agora. Há um banimento total em relação a isso, eles chamam de “propaganda”. Não sei exatamente de onde vem isso, mas certamente é fruto de ignorância e medo. Infelizmente sofremos uma lavagem cerebral nessa cultura, então temos que começar do início.

Fale um pouco do impacto da organização no Reino Unido.

Acabamos de lançar um relatório sobre nosso trabalho e havia muitas coisas interessantes. Um dos dados apontados é que quanto mais você fala sobre esses assuntos, mais caem os níveis de homofobia e transfobia, simples assim. Quanto mais você envolver as crianças, melhor, e é isso o que fazemos nas nossas redes de apoio. Você está empoderando pessoas jovens a fazerem ações positivas, e assim eles descobrem que são capazes porque eles não sabem que podem, muitas vezes eles me dizem “eu acredito nisso, mas não sei o que fazer a respeito, não sei como fazer”. Vemos na pesquisa que damos voz aos jovens, ouvimos o que estão dizendo e garantimos que outras pessoas também escutem sua voz. Centenas de professores saíram do armário depois de trabalhar conosco, não apenas em termos de orientação sexual mas também de identidade de gênero. Isso é muito encorajador, ver professores trans iniciarem a transição enquanto trabalhamos nas escolas porque eles se sentem seguros. Porque nós tornamos o ambiente seguro para eles ao trabalhar lá, isso é absolutamente incrível. No momento temos 100 escolas premiadas como melhor desempenho, o que significa que alcançaram o nível de excelência em termos de orientação sexual e identidade de gênero e elas continuarão a trabalhar com isso e espalhar conhecimento para suas escolas parceiras e consórcios. Isso só vai se espalhar e ficar cada vez maior. Temos um contrato com o conselho municipal de Londres e trabalhamos pela cidade inteira, também estamos expandindo esses contratos para outras cidades, como Lancaster e Bristol, porque as escolas precisam disso e querem isso. Porque abre conversas e dá às pessoas permissão para falar sobre isso. Como são assuntos delicados, você precisa apoiar as pessoas, não é como prestar um serviço, você precisa estar lá e é o que fazemos. Somos bem práticos, e apoiamos as pessoas.

Arte: Chloe Early.

 

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Não há dúvidas de que o aborto, quinto maior causador de mortes maternas no Brasil, é um problema grave de saúde pública. Há diferentes estimativas sobre quantas mulheres abortam no país — segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são um milhão de brasileiras por ano, enquanto dados oficiais do governo apontam 205.855 internações decorrentes de abortos no país, a maioria delas por interrupção induzida. De acordo com a ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, o número de abortos induzidos é de quatro a cinco vezes maior que o de internações, já que nem todas as mulheres recorrem a hospitais e o fazem na ilegalidade, muitas vezes colocando sua vida em risco.

O Código Penal brasileiro prevê prisão de um a três anos para quem interrompe a gravidez propositalmente, com três exceções: quando não há meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo. Mesmo quando legal, não é simples ter acesso ao procedimento e, legal ou não, mulheres continuam abortando em situações precárias que muitas vezes levam à morte. Como mudar essa realidade? “Há vários caminhos para alterar esse regime perverso de enquadramento do aborto, mas o mais simples deles é afastar as religiões das leis: nenhuma mulher será forçada a fazer um aborto contra sua vontade, mas um estado laico deve garantir as formas de proteção à saúde que estão a sua disposição. Descriminalizar é proteger a saúde; descriminalizar é permitir que cada mulher, na intimidade de suas escolhas, tome suas decisões”, afirma a antropóloga Débora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética Anis.

Por isso, a luta pela legalização do aborto também é uma luta feminista. Queremos ter o direito de decisão sobre nossos próprios corpos independentemente de dogmas religiosos ou morais, queremos ter o direito a um tratamento de saúde. Mas como nós, mulheres da sociedade civil, podemos colaborar com essa luta? Apontamos três maneiras iniciais de fazer algo a respeito:

1) Às ruas!

No final do ano passado, dezenas de milhares de mulheres foram às ruas protestar contra o projeto de lei 5.069/2013, de autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta a interrupção da gravidez mesmo em casos de estupro. O PL estabelece que os casos de estupro sejam obrigatoriamente notificados às autoridades e que as mulheres passem por um exame de corpo de delito. Protestar é importante porque mostramos que somos muitas, estamos unidas, e não vamos aceitar retrocessos.

2) Precisamos falar sobre aborto

Por ser um assunto tão tabu para a moral hegemônica, o aborto não é discutido abertamente como deveria. Muitas têm medo de serem julgadas ou até denunciadas ao falar sobre, mas uma em cada cinco mulheres já abortaram no Brasil. Ou seja, todo mundo conhece alguém que já abortou, mulheres comuns que se sentiram criminosas por não poder tomar uma decisão amparada pelo Estado. Falar sobre é importante para derrubar o mito de que aborto é algo que só “certas” mulheres fazem. “Vamos contar essas histórias de duas maneiras: rompendo a fantasia de que a mulher que aborto é uma outra distante da mulher comum, ela é a mulher comum, mas mostrando o como o aborto é um evento perturbador para as mulheres comuns pela ilegalidade. Precisamos falar mais do aborto como evento comum e retirá-lo dessa classificação ‘tabu’ imposta pelos homens para aumentar o pânico e controle. Aborto é um evento ordinário à vida reprodutiva das mulheres. Vergonhosa é sua criminalização”, afirma Debora.

3) Resistência

É inegável a manobra política e religiosa para transformar o aborto em uma questão moral. A começar pela pergunta “você é contra ou a favor do aborto?”: ninguém deve ser contra ou a favor de deixar pessoas tomarem decisões privadas sobre suas vidas seguindo sua religião ou não. A questão é: uma mulher que aborta deveria ser presa? Ou ainda: por que uma proteção à saúde da mulher é crime? “Temos que resistir, enfaticamente, às tentativas de transformar aborto em questão de opinião, pró ou contra, ou plebiscito. Nosso desafio é enquadrar o aborto em outros termos: queremos falar de mulheres, não de quando a vida humana tem início; queremos falar de tortura psicológica contra as mulheres, e não se a adoção deveria ser um dever; queremos falar de patriarcado, e não de religiões”, diz Débora. Você pode considerar errado uma mulher abortar e mesmo assim ser a favor da descriminalização do aborto para salvar vidas. O debate sobre o tema não exige respostas prontas e opinião formada sobre o início da vida ou sobre o aborto em si, já que a decisão pelo aborto é individual e íntima sem fórmulas sobre certo ou errado. Fato é que um estado democrático e laico deveria prover cuidados de saúde das mulheres e isso envolve disponibilizar o acesso ao aborto seguro a todas.

Quanto às enquetes do Senado, Débora acredita que é importante reagir e votar, mas que não é um agendamento feminista porque não é uma multidão que deveria decidir a vida privada de alguém. O que devemos fazer é enquadrar a discussão da nossa maneira e não transformar essas perguntas em enquetes, mas fazer delas agendas políticas para o feminismo. Vamos?


Arte: Victoria Pacimeo

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Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô
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A Afrô no canal Mulheres de Impacto
A Afrô no canal Mulheres de Impacto

Em uma sociedade em que a beleza da mulher negra é continuamente ignorada ou rejeitada, reconstruir a autoestima e aprender a se achar linda pode ser um desafio. A melhor forma que Élida Aquino, Bárbara Vieira e Graucianna Santos — as mulheres por trás da Afrô — encontraram foi em comunidade, trabalhando a autoestima em grupo e apoiando uma à outra. Por isso elas criaram a Afrô, uma startup com base no Rio de Janeiro que oferece um clube de assinaturas a mulheres negras e mulheres não negras com cabelo crespo ou cacheado. A cada edição, as assinantes recebem em suas casas produtos de beleza personalizados de acordo com o cadastro na plataforma da Afrô. A startup está em campanha de financiamento coletivo no canal Mulheres de Impacto, da Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres até dia primeiro de outubro.

A ideia começou quando Élida Aquino cursou empreendedorismo na Universidade da Correria, uma iniciativa da Casa Dharma. Élida sabia que queria criar um negócio de estética voltado a mulheres negras, só não sabia como. Depois de trocar ideia com amigas que moram nos Estados Unidos e têm uma oferta mais ampla e direcionada de produtos de beleza para mulheres negras, teve a ideia de criar o Afrô. Funciona assim: a assinante cadastra seus dados na plataforma e a cada edição recebe uma caixa do clube de assinaturas, a Afrôbox, contendo de cinco a oito produtos, entre amostras, miniaturas e tamanhos reais. Os produtos serão selecionados de acordo com o perfil cadastrado, que traz dados como cor favorita, tipo de cabelo, tom de pele, etc. Assim, as assinantes poderão experimentar e evitar comprar um produto errado. “A Afrô, junto com curadores, seleciona marca, produto, verifica o perfil da assinante e coloca muito provavelmente o que ela vai curtir e testar dentro da casa dela. Além disso, a gente consegue colocá-la em contato com a marca pra ela dizer no pós-venda o que gostou e não gostou, um feedback que volta para a marca. Ela também pode pegar o que mais gostou e comprar com mais facilidade. Fazemos o contato entre quem não é interpelada pelo mercado e o mercado que está em constante desenvolvimento”, diz Élida, fundadora do Afrô.

Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô
Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô

A Afrô vem para preencher um gap no mercado de beleza: quando há produtos voltados para a mulher negra, a comunicação com essas mulheres é falha, e quando há comunicação, como em blogs ou páginas, não é oferecido o serviço de venda, seleção e/ou entrega de produtos. “Meninas com cabelos muito crespos, numa classificação comum do cabelo natural, ainda sentem dificuldade em se ver no rótulo porque esteticamente o mercado rejeita esse tipo de cabelo muito crespo que é socialmente reconhecido como duro, difícil, ruim. Sinto que as grandes marcas ainda têm dificuldade de quebrar com esse estereótipo. Da mesma forma as meninas com pigmentação muito escura, falando de maquiagem, não se veem no rótulo. Muitas raras vezes elas estão estampadas nas peças publicitárias ou nas ações de marketing das marcas”, afirma Élida.

Segundo uma pesquisa da revista Galileu do ano passado, em média, as marcas de beleza oferecem três vezes mais opções de maquiagem para pele branca do que para pele negra. E quando oferecem, muitas vezes não sabem como atingir o público, não sabem conversar com as mulheres negras. Foi o que aconteceu com uma amiga de Élida, que só usava uma base de uma marca específica que saiu de linha por falta de procura, segundo a própria marca. Mas a marca em questão não divulgava o produto para mulheres negras, mostrando despreparo e descaso do mercado em relação a essas mulheres. “A personalização, se preocupar minimamente em entregar o que interessa, o que é útil é o que a Afrô traz no DNA. Não estamos aqui pelo dinheiro, sabemos que há um potencial gigantesco e estamos prontas para assumir essa demanda, mas não estamos aqui para enriquecer, e sim servir porque é um dever, esse cuidado é quase inédito com as mulheres cujo grupo nós fazemos parte. Não queremos só entregar produtos, queremos também entregar carinho”, diz Élida. O Afrô continua em campanha de crowdfunding até outubro e você pode apoiar o projeto financeiramente ou compartilhando com seus amigos. Se você é uma mulher negra ou com cabelo afro e gostaria de compartilhar seus desejos ou frustrações em relação a produtos de beleza, a Afrô está de braços abertos e convida você a entrar em contato através da página ou site.

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Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro
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Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro
Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro

Certa vez, no metrô do Rio de Janeiro, a cientista social Cris Lustrosa foi abordada por uma mulher que acabara de sofrer um assédio no vagão. A mulher disse que precisava falar sobre aquilo, mas que ninguém queria ouvir. Cris ouviu. Depois do desabafo, o assediador continuava encarando a mulher e elas o enfrentaram juntas. A tensão virou alívio: desabafar fez toda a diferença. Depois disso, Cris teve a ideia de criar o Desabafa!, um projeto colaborativo com o objetivo de colar adesivos no espaço público em combate à cultura do estupro. O Desabafa! está em campanha de financiamento coletivo pelo canal Mulheres de Impacto, uma parceria entre Think Olga, Benfeitoria e ONU Mulheres até dia 2 de outubro.

A primeira ação do Desabafa! será fazer adesivos com a colaboração de todas as mulheres que quiserem participar com frases expondo o que elas acham que deveria ser dito sobre assédio de rua. “A ideia é escancarar o assédio mesmo, tentar falar sobre isso e combater a normalização do abuso. Às vezes escancaramos o assédio e depois volta a parecer algo banal, não podemos deixar isso acontecer. Se não falarmos, nada muda”, diz Cris Lustosa, criadora do projeto.

Dica: o projeto oferece uma série de recompensas legais para quem contribuir financeiramente
Dica: o projeto oferece uma série de recompensas legais para quem contribuir financeiramente

Serão três tipos de adesivos: marcador de estupro (mostrando onde uma mulher foi estuprada para deixar claro a todos que isso acontece o tempo inteiro), assédio (com o que deveria ser dito para quem assedia ou olha de forma inadequada para mulheres em espaços públicos) e sororidade (propondo a união de mulheres na luta contra o assédio). Os adesivos serão colados por mulheres em locais públicos e distribuídos em eventos feministas. “É importante falar para sabermos que não estamos sozinhas e também falar além de nós. Quando penso em adesivos, penso que estamos falando para o mundo, para homens e também para mulheres que às vezes não percebem que estão passando por isso, não atinaram que está errado. É um desabafo mesmo, dizendo que não queremos mais isso, não está legal”, afirma Cris.

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O Desabafa! Já alcançou mais de 60% de sua meta até agora, mas precisa alcançar os 100% caso contrário o dinheiro será desenvolvido e o projeto não será concretizado. Você pode contribuir financeiramente com a campanha, compartilhando a ideia com seus amigos ou ainda preenchendo este formulário. Confira o vídeo abaixo sobre o projeto:

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Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente
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O objetivo principal da Mãe Solo é desromantizar a maternidade
O objetivo principal da Mãe Solo é desromantizar a maternidade

“Ser mãe é padecer no paraíso”, “mãe dá conta de tudo”, “mãe guerreira”… Os mitos sobre a maternidade estão por todos os cantos reforçando a ideia de que é normal abrir mão de absolutamente tudo para ter um filho. Sem o apoio total da pessoa com quem a mãe gerou a criança isso pode ser solitário demais. Para ajudar outras mulheres — casadas ou não — que vivem a solidão de criar um filho ou uma filha, a designer Thaiz Leão criou a Mãe Solo, uma página no Facebook que questiona a romantização da maternidade com muito bom humor e em tirinhas. A Mãe Solo é um dos projetos do canal Mulheres de Impacto, uma parceria entre Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres, e está atualmente em campanha de financiamento coletivo para espalhar o conteúdo produzido por Thaiz a várias partes do país.

A Mãe Solo começou quando Thaiz resolveu usar sua experiência como desginer e ilustradora e sua paixão por HQ para desabafar sobre os desafios da maternidade. Postou uma tirinha despretenciosa em seu Facebook e acabou arrecadando várias curtidas e pedidos de “quero mais”. A fim de centralizar o conteúdo em um lugar só, criou uma página no Facebook que dois anos mais tarde virou uma comunidade de mais de 57 mil pessoas. “Era tanta hipocrisia que eu via em relação à maternidade, tanta ironia em relação aos comerciais, àquela ideia que a gente tem de criança bem comportadinha e que o amor de um filho paga tudo que no final da noite eu ficava pensando ‘não é possível’. Há muita imagem errada que a gente compra na vida e a da maternidade eu já estava vacinada”, conta Thaiz.

Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente
Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente

Em suas tirinhas, Thaiz questiona a romantização da maternidade e estimula reflexões sobre os papéis de mãe, pai e família. “Eu primo por construir um conteúdo independente, sempre crítico, sempre renovando essa visão problematizadora de fantasias que criam para a gente sobre a existência tanto em relação a padrão de beleza para mulher quanto padrão de comportamento de criança”, conta. Alguns de seus diferenciais é que ela faz isso com muito bom humor e através da arte, com suas ilustrações próprias. Mesmo com desenhos fofos e uma política de empatia que promove o diálogo e se dispõe a criar conexões entre as pessoas, a Mãe Solo também briga quando precisa e sabe falar sério. “A minha política é de quebra. Quero que todo mundo entenda que cada um vive sua individualidade e deve ser respeitado dentro dela, a convivência só é possível quando existir empatia em relação uns aos outros”, diz Thaiz.

Thaiz precisa se dividir em cinco turnos diários para conseguir pagar as contas, cuidar do filho e tocar o projeto, mas diz que os comentários de outras mães agradecendo pelo conteúdo e dizendo que aquilo lhes deu força são o que a mantém trabalhando. Para ela, o importante é questionar a romantização da maternidade e fazer as pessoas pensarem a respeito da sobrecarga de mães que sozinhas ou acompanhadas precisam dar conta não só de sobreviver e criar um filho mas corresponder a padrões impossíveis da sociedade. “Existir como mãe do jeito que nos cobram existir hoje é muito difícil, é um papel inalcançável. Chega de falar que mãe é multitarefa, que mãe dá conta de tudo, eu só vejo mulher ficando louca nessa pressão. Toda supermãe é uma mulher sobrecarregada que poderia estar investindo a energia que tem enquanto ser humano em muitas coisas”, diz Thaiz.

A Mãe Solo acabou de atingir a primeira meta do crowdfunding, garantindo a impressão de 2 mil exemplares do livro Chora Lombar e a construção do portal do projeto. Mesmo assim a arrecadação continua até dia 16 de setembro rumo às próximas metas. Se a segunda meta for batida, a ideia é comprar equipamento para mais produção de conteúdo e fazer uma tiragem especial de mil livros extras para doação em maternidades, casas de parto públicas e em ONGs. Se você gostou do projeto, pode ajudá-lo financeiramente ou compartilhando a ideia com seus amigos.

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Meninas treinam durante atividades da Longarina
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Participantes das aulas de surf da Longarina
Participantes das aulas de surf da Longarina

Duas paulistanas que amavam o mar, mas não tinham amigas para acompanhá-las no surf. Uma descia para Baleia, a outra para Maresias. Os vizinhos surfavam e elas também queriam aprender, mas nenhuma amiga tinha o mesmo interesse. Cristiane Brosso acabou se mudando para a Austrália e lá aprendeu a surfar sozinha. Também sozinha, apesar da companhia do ex-namorado, Vanessa Bertelli comprou uma prancha e aprendeu na raça a surfar enquanto o ex pegava suas ondas lá longe. Anos mais tarde, as duas se encontraram e montaram a Longarina, uma organização que empodera mulheres através do surfe, para que outras meninas não passem pelo mesmo e possam aprender a pegar ondas juntas. Agora, elas querem montar um espaço para receber meninas do Brasil inteiro e dar aulas de surf, além de realizar atividades em grupo como yoga, aulas de alimentação saudável e troca de experiências sobre ser mulher. Para isso, a Casa Longarina está em campanha de financiamento coletivo através do canal Mulheres de Impacto, uma parceria da Benfeitoria com a Think Olga e a ONU Mulheres, até a semana que vem.

Longarina oferece conteúdo e atividades para meninas interessadas no surf
Longarina oferece conteúdo e atividades para meninas interessadas no surf

O Longarina começou há pouco mais de três anos como um canal de disseminação de conteúdo sobre o surf direcionado para mulheres. Hoje, conta com um alcance de 1,5 milhões de leitoras nas redes sociais e 40 mil acessos por mês no site, além de ter atingido 500 mulheres presencialmente com aulas de surfe. “O Longarina é um macro projeto que surgiu da necessidade de comunicar para outras meninas o que a gente não encontrava dentro do universo dos esportes de prancha. Percebemos que só escrever não era suficiente, então começamos atividades porque era preciso ensinar o caminho das pedras. Fizemos eventos e reuniões com as meninas para levá-las a prática do surf e foi o que deu mais liga”, conta Vanessa, uma das criadoras do projeto.

Meninas treinam durante atividades da Longarina
Meninas treinam durante atividades da Longarina

Além do conteúdo, hoje a Longarina organiza a logística para levar meninas até Maresias, onde ganham aulas de surf. Há dois tipos de atividade: bate e volta, quando as meninas regressam no mesmo dia, ou acampamento, quando elas permanecem durante o final de semana e recebem aulas também de yoga, exercício funcional, alimentação saudável e cultura surf. Com a casa, será possível oferecer uma estrutura com aulas, equipamentos, alimentação saudável, orientação física, cobertura audiovisual, cultura surf , projetos socioambientais e oficinas de life coach focadas no bem estar e empoderamento da mulher, inclusive o das meninas estudantes da rede pública local de Maresias. “Ainda hoje sentimos uma certa resistência masculina no mar e por esse motivo nos unimos cada vez mais para quebrar isso. Muitas atletas acabam não sendo patrocinadas por não terem a imagem de modelo. Muitas meninas nos escrevem com medo de mostrar o próprio corpo na aula, mas sempre incentivamos e dizemos que a grandiosidade do surfe é muito maior, na hora você nem pensa no seu corpo, você só quer saber de pegar onda”, afirma Vanessa.

A Casa Longarina está na fase final de crowdfunding e, se você se interessou pelo projeto, pode apoiá-lo financeiramente ou compartilhando a ideia com seus amigos. Confira abaixo alguns vídeos do projeto:

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