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Na sociedade machista em que vivemos, o mercado de trabalho pode ser nocivo às mulheres mesmo antes que ela conquiste sua inserção. O processo seletivo para uma vaga de emprego, e consequentemente a contratação, é mais difícil para as mulheres do que para os homens. E é possível afirmar isso com base, não só nas experiências individuais, como também cientificamente. Um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia e pela Universidade do Sul da Califórnia, publicado no Journal of Social Sciences, revelou que elas são interrompidas durante entrevistas mais vezes do que os competidores do sexo masculino, o que pode causar estranheza, ansiedade e nervosismo nas entrevistadas.

As mulheres recebem mais perguntas (em média, 17 para elas e 14 para os homens), as quais costumam ser intimidadoras e exigentes, as forçando a provar ainda mais sua capacitação. Já para os homens, quando são interrompidos, o interrogatório não é o mesmo. Pelo contrário: costumam ouvir algo “geralmente positivo e afirmativo”, segundo a pesquisa.

Diante deste cenário, superar a barreira da entrevista é uma vitória para as mulheres que buscam iniciar uma carreira, mas esta fase se apresenta cheia de medos e desafios, em vez de aprendizado e crescimento. Pensando nisso, a Think Olga elaborou este roteiro, em parceria com a ThoughtWorks Brasil, empresa de consultoria tecnológica que tem como prioridade a contratação de pessoas pertencentes a grupos minorizados. Listamos perguntas e práticas machistas das empresas no processo de contratação que muitas vezes passam despercebidas, mas que representam desvantagem e desrespeito que não deveriam ser comuns ou aceitas pelas candidatas.

E, para explicar como agir diante de tais situações, contamos com a consultoria da advogada trabalhista Amarílis Costa, mestranda em Humanidades, Direito e outras Legitimidades pela FFLCH – USP, coordenadora Adjunta do Grupo de Estudos Ciências Criminais e Direitos Humanos do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e co-fundadora do projeto Preta e Acadêmica. Ela explica que, embora muitas empresas não sigam isso à risca, a decisão do entrevistador, do RH ou dos gerentes da empresa devem ser feitas mediantes somente às capacitações profissionais da candidata e não à questão de gênero, sexualidade ou raça.

Tendo em mente que a conquista do trabalho é mais difícil para as mulheres, principalmente negras e transexuais, nossa proposta não é aconselhá-las a desistir de uma oportunidade ao primeiro sinal de preconceito. Mas sim como, justamente, identificá-los e agir contra eles de modo a garantir que esta barreira possa ser quebrada.

Além disso, ter uma entrevista segura e livre de preconceitos é um direito de todos.

“Por mais que não exista ainda uma relação de emprego estabelecida na entrevista, este ramo também é protegido pelo direito trabalhista e tem que obedecer a legislação”, finaliza Amarílis.

SEUS PLANOS DE ENGRAVIDAR NÃO SÃO DA CONTA DE NINGUÉM

Sim, a empresa precisa ser informada se a candidata tem uma doença que precisa ser tratada ou que a tornaria inapta para a função, mas não como critério de avaliação. Sendo assim, a questão sobre saúde não deverá surgir na entrevista de emprego. “A empresa pode precisar até de informações jurídicas na burocracia da contratação, como antecedentes criminais, por exemplo. Mas jamais perguntar diretamente para o candidato. Isso se confere em documentos e, em linhas gerais, não são questões pertinentes”, explica Amarílis.

Mas as pergunta feitas mais frequentemente para as mulheres são sobre maternidade. Muitas empresas argumentam que precisam saber se as mulheres estão grávidas ou se desejam engravidar para avaliar questões como licença-maternidade. Ou ainda, se têm filhos e se a criação e saúde deles poderiam influenciar seus horários de trabalho. Mais uma vez, é importante lembrar que os homens também têm filhos, mas as atribuições da maternidade às mulheres acabam ficando no caminho de uma contratação.  

A intenção de maternidade não é algo que se possa prever em exames admissionais – a empresa não pode pedir atestado ou exame para comprovação de esterilidade ou gravidez na admissão – mas as perguntas sobre maternidade são consideradas pessoais, discriminatórias e proibidas. Assim, você não é obrigada a responder.

SUA SEXUALIDADE NÃO MUDA O SEU DESEMPENHO

“Não influencia na capacitação da candidata. Não é de interesse da empresa. Não deve ser questionada”, Amarílis é direta sobre a questão, mas alerta que as empresas não deixam de “investigar” sobre a orientação sexual de suas candidatas, usando perguntas capciosas sobre hábitos e hobbies, onde a candidata pode deixar escapar suas companhias ou lugares que frequenta. Ainda que as respostas não digam mais sobre a sexualidade da mulher do que a própria afirmação dela diria, existe um julgamento lesbofóbico ou bifóbico envolvido.

Esta estratégia também é usada para descobrir costumes da candidata, como se ela costuma beber ou frequentar baladas e Amarílis alerta que a resposta da mulher costuma ter mais peso e afetar a decisão de contratação. “Existe um julgamento de caráter e social atrelado a esta pergunta, geralmente atribuído ao sexo feminino”, argumenta.

Dentro do que são consideradas perguntas pessoais, estas questões são proibidas pela legislação do trabalho, mas raramente pune o recrutador, pois a empresa argumenta ter feito perguntas leves, para descontrair. De qualquer modo, a candidata não é obrigada a dar detalhes pessoais sobre sua vida. É importante ter atenção a perguntas pessoais que podem parecer somente parte de uma conversa descontraída.

VOCÊ É LIVRE PARA TER A RELIGIÃO QUE VOCÊ ESCOLHER

Segundo a especialista, não há nenhuma necessidade de responder perguntas relacionadas a crenças, mesmo quando a empresa é ligada a instituições ou trabalhos religiosos. “Não se pode, em momento algum, questionar valores  pessoais. E o primeiro deles é a fé”, destaca Amarílis.

Segundo dados da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça, entre janeiro e setembro de 2016, foram registradas 300 denúncias de intolerância religiosa, pelo Disque 100. Um aumento de 105% na comparação com o ano anterior. Porém especialistas acreditam que o aumento poderia ser ainda maior, considerando que dados do ano inteiro não foram consolidados e que nem todos denunciam as agressões sofridas. E, como outros problemas sociais no Brasil, a intolerância religiosa pode chegar também às empresas e seus processos de seleção.

Pensando nisso, como candidata, é preciso desconfiar de perguntas relacionadas a símbolos religiosos, tais como turbantes, escapulários, colares de contas ou hijabs, por exemplo. Elas sugerem que não só a religião está sendo julgada, como também a influência dela na vestimenta da candidata – o que costuma acontecer principalmente com as mulheres. Perguntas mais diretas como “qual sua religião” ou “quantas vezes na semana você frequenta a igreja” também são vistas pela lei como  práticas ruins.  

Caso questionada, a candidata pode recorrer ao seu direito de falar somente de suas capacitações durante uma entrevista de emprego, respondendo com outra pergunta: “qual a importância dessa questão para o meu desempenho no trabalho?”

RACISMO É CRIME

Para além do gênero, o julgamento por aparência também é racista e elitista. Por isso, a entrada de uma mulher em uma empresa não pode, jamais, estar relacionada à sua disponibilidade de alisar o cabelo, por exemplo. “Existem alguns cargos e funções específicas que pedem algum tipo de alteração da imagem do empregado, como no setor da saúde, por exemplo. Porém, textura do cabelo, sendo algo natural da candidata, não cabe em tal exigência”, explica Amarílis.

E também nunca é suficiente destacar que a cor de sua pele não deve influenciar a escolha do avaliador e da instituição como um todo – isso porque, na prática, esta regra fundamental ainda não está sendo obedecida.

São recentes – em torno de 15 anos – as políticas públicas, como as cotas, que garantem a presença da população negra nas universidades brasileiras. E, embora existam resultados positivos, ainda há muito a percorrer até que exista igualdade nos meios acadêmicos e também, como uma extensão disso, no mercado de trabalho, como aponta a diretora executiva do Instituto ID_BR, parceiro da ThoughtWorks, Luana Genot: “O público negro, após essa inserção na universidade, não segue sendo absorvido proporcionalmente no mercado de trabalho, sobretudo no setor privado”. E essa tendência tem nome: racismo institucional.

Em 2016, uma campanha do Governo Estadual do Paraná viralizou por mostrar, de forma prática, como funciona o racismo institucional. Dois grupos de profissionais de RH foram expostos a um grupo diferente de imagens de pessoas em atividades do dia a dia. O primeiro grupo visualizou somente fotos de pessoas brancas, chutando que aqueles seriam gerentes, empreendedores e outros cargos de liderança. Já o segundo grupo visualizou as mesmas imagens, mas com protagonistas negros, e acreditou que eles fossem seguranças, empregadas domésticas e outras profissões comumente atribuídas a negros em um mercado de trabalho segregador. Segundo pesquisa de 2015 da Folha de São Paulo, este experimento se confirma ao analisar o mercado de trabalho, em que os negros ocupam somente 18% dos cargos de liderança.

Em casos de racismo em entrevistas de emprego, existe a possibilidade do avaliador ou empresa serem apenados em outras esferas que não só a trabalhista, já que racismo é crime no Brasil, mas Amarílis alerta que isso não seria tão simples. “Só é complicado porque denunciar racismo no Brasil já é difícil e em caso de entrevistas, muitas vezes, não há testemunhas”.  

NÃO HÁ LUGAR PARA TRANSFOBIA

O mercado de trabalho para pessoas transexuais e travestis é tão escasso que não há dados estatísticos de quantas estão, atualmente, trabalhando no mercado formal. Contudo, sabe-se que a inclusão é urgente, pela situação de marginalidade social a que são submetidos e considerando que 90% da população trans brasileira está se prostituindo, de acordo com a estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Segundo a analista de sistemas na ThoughtWorks Brasil e membro do Grupo dos Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS) Daniela Andrade, mesmo algumas empresas que se dispõem a contratar pessoas trans não conseguem atendê-las já no processo de recrutamento, uma vez que possuem  pouco ou nenhum preparo sobre como lidar com documentação, além de nenhum controle sobre perguntas ofensivas e pessoais. “É muito comum ser perguntada sobre sua genitália ou sobre cirurgias de mudança de sexo”, relata Daniela.

De acordo com Amarílis, tais perguntas são transfóbicas e inaceitáveis em uma entrevista. “O tratamento de pessoas trans tem que ser alinhado com determinações de dignidade, então é amplamente inadmissível a exposição e a objetivação”.

Infelizmente, enquanto ainda existem muitos constrangimentos, há poucas informações e proteção legal para pessoas trans. “Muitas mulheres trans nem sabem que podem enviar currículos com o nome que escolheram. Infelizmente, não é permitido na legislação trabalhista, mas também não é proibido. É nessas brechas que encontramos espaço para ocupar com as nossas identidades”, explica Daniela.

Amarílis comenta estas brechas: “De fato, não existem determinações específicas sobre pessoas trans na legislação do trabalho. Contudo, existem determinações gerais do direito do trabalho e alguns apontamentos, como danos morais, dignidade da pessoa humana, preservação da honra, que podem ser utilizados para proteger pessoas que sofrem transfobia”.

Quando se é uma mulher trans, há ainda a barreira de gênero, já abordada  aqui. Daniela fez um experimento que demonstra como a questão de gênero as afeta diretamente. Ela enviou, para as mesmas empresas, currículos assinados com seu nome de registro (masculino) e outros com seu nome social (feminino) e recebeu muito mais respostas com chamados para entrevistas com a primeira assinatura.

Apesar do cenário alarmante, que só pode ser resolvido com muita consciência por parte dos setores privado e legislativo, Amarílis traz uma visão positiva para o futuro das mulheres trans no mercado de trabalho: “A área jurídica também costuma trabalhar com a questão do costume. Se espera e se imagina que questões já pautadas e incluídas em ambientes educacionais, por exemplo, sejam aplicadas também pelas empresas”.

DEFICIÊNCIA NÃO DETERMINA APTIDÃO

Em se tratando de direitos trabalhistas para pessoas com deficiência, pode-se notar um cenário mais avançado quando os comparamos com outros grupos minorizados, como pessoas negras e transsexuais. Existe uma lei específica de cotas de contratação de pessoas com deficiência nas empresas dos setores público e privado. A Lei N° 8.213, de 1991 garante que a empresa com 100 ou mais funcionários está obrigada a preencher seus cargos da seguinte forma:

– até 200 funcionários = 2% de cargos para pessoas com deficiência.

– de 201 a 500 funcionários = 3% de cargos para pessoas com deficiência.

– de 501 a 1000 funcionários = 4% de cargos para pessoas com deficiência.

– de 1001 em diante funcionários = 5% de cargos para pessoas com deficiência.

Contudo, a analista de recursos humanos e recrutadora na ThoughtWorks Aneliz Silva, afirma que é preciso ficar atenta na maneira com que as empresas tratam o recrutamento de pessoas com deficiência. Muitas podem estar interessadas somente em preencher a obrigatoriedade das cotas, mas não em incluir ou adaptar suas instalações. “É possível perceber isso quando se aplica para uma vaga que não é dirigida para pessoas com deficiências. As empresas, muitas vezes, não têm nem mesmo a instalação necessárias para receber você”, explica Aneliz dividindo experiências que teve em função da própria deficiência.

Ela explica que, em função das cotas, a deficiência não afasta a candidata da oportunidade, mas a entrevista pode ser constrangedora quando o recrutador não está avisado e, principalmente, preparado para o atendimento. “O que se espera pela lei, é que todas as empresas tenham acessibilidade e a possibilidade de contratação diversa, do contrário, há discriminação”, diz.

Amarílis confirma e destaca que, mesmo no telefone para agendar a entrevista, muitas perguntas podem ser evitadas. “Existe a necessidade da empresa instrumentalizar o processo seletivo da pessoa com deficiência de maneira a não constranger o candidato. Quando a empresa precisa de alguma informação relacionada a locomoção, essas perguntas podem ser feitas em formulários. O ideal é que a empresa esteja preparada para contratar a pessoa que tenha a aptidão técnica, independente da característica física”.

Sendo assim, desconfie de perguntas feitas diretamente e, principalmente, as que colocam em teste a capacidade física da candidata de chegar ao local e utilizar as instalações da empresa. Na verdade, o contrário que deveria acontecer: como pessoa com deficiência, é importante questionar a empresa sobre esta acessibilidade.

Entendemos que chegar à etapa final de um processo seletivo não é tarefa fácil para mulheres. Em pleno 2017, provar-se capaz não é suficiente. Ainda é necessário esconder nossa essência e nos sujeitamos a violências de diversas naturezas. Mas com informação e consciência, uma entrevista de cada vez, poderemos mudar esta realidade. Ao nos educarmos, educamos também a sociedade. Ao conquistarmos espaço, podemos trazer outras mulheres com a gente.

Arte: Stephanie Kubo.

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No começo de outubro, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama estava no país para uma palestra organizada por um jornal brasileiro e, nessa semana de visitação a São Paulo, fui convidada a encontrá-lo em um jantar privado oferecido a seis convidados.

O pequeno grupo era formado por pessoas que pudessem trazer pautas próximas aos novos planos de Obama. Após a presidência, ele pretende mentorar e conectar jovens líderes ao redor do mundo por meio de uma fundação que leva seu nome.

Na manhã do mesmo dia, durante o evento, ele já havia adiantado publicamente um pouco do porque essa abordagem é importante:  “claro que o governo é importante em áreas como educação e esforços para reduzir a pobreza, mas nada vai mudar se, na comunidade local, pessoas não se encontrarem, construírem confiança e aprenderem a trabalhar juntas. Isso vai ser refletido em como será a política ao longo do tempo”.

Fui convidada, como fundadora da Think Olga, para falar sobre questões de gênero. Não é um tema estranho ao ex-presidente – tanto ele, quanto a ex-primeira dama Michelle Obama, durante o mandato, foram cabeça de várias ações pelos direitos das mulheres – mas era importante saber como o tema se encaixaria nas ações da nova fundação.

O meu plano era defender que a pauta das mulheres deveria estar no foco de qualquer iniciativa que queira de fato fazer a diferença no mundo. Se quiser fortalecer a sociedade para a mudança social, a Fundação Obama precisa apoiar, em especial, as mulheres ao redor do mundo. Sejam elas líderes em questões de gênero ou líderes em outras áreas.

A mensagem foi bem recebida. Logo no início do jantar, Obama começa uma rodada de apresentações e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, afirma: “Eu fiz a minha lição de casa. Você é da ONG Think Olga, certo?”

“Sim, muito prazer!”

Aproveitei o momento para contar sobre o cenário brasileiro – do levante popular conhecido como a Primavera das Mulheres, mas também tomado por uma onda retrógrada que tenta fortemente manter o status quo. Falei sobre nossas campanhas e principalmente sobre nossa vontade em criar uma consciência sobre problemas e opressões ainda invisíveis e normalizados pela sociedade. Obama concordou e elogiou: “O trabalho de mudança de uma cultura começa com a conscientização”.

E foi algo muito próximo do como agimos em prol dos direitos das mulheres. Quando falamos que somos uma ONG, o imaginário das pessoas nos levam para aquela imagem de assistência. Porém não fazemos atendimento de vítimas, não mentoramos pequenos grupos escolares. Somos comunicadoras e nossa missão é o empoderamento feminino por meio da informação. Ou seja, acreditamos na criação de conteúdos gratuitos que possam quebrar barreiras do offline e atingir pessoas no Brasil inteiro, que permita a elas reconhecer uma opressão, entender melhor o problema e agir para mudar seus microuniversos como novas multiplicadoras de informação, usando nossos produtos como ferramenta.

Obama parecia concordar com a proposta: “As pessoas precisam ter consciência das desigualdades e violências que existem para que deem passos rumo à mudança”. E mostrou se preocupar com questões parecidas: qual a melhor maneira de usar as mídias disponíveis hoje para educar? Como lidar com violências e perseguições que acontecem nelas? E como criar, em cada contato, alguém que possa espalhar a mudança adiante?

O ex-presidente dos EUA, com a experiência de quem determinou os rumos do mundo durante oito anos, nos explicou sua estratégia e ambição com a fundação. “A nossa programação internacional estará focada em criar um espaço para que todos estes jovens líderes de todo o mundo se unam e comecem a resolver problemas, tanto localmente, quanto nacionalmente e internacionalmente.”

Nós, da Think Olga, buscamos um impacto local, mas somos igualmente ambiciosas. Nosso foco está na criação de conteúdo profundo, rico e gratuito sobre temas de tamanha importância para as mulheres. Essa foi uma oportunidade incrível para explicar o que fazemos: uma nova proposta de educação. Queremos criar debates em cima de temas, esclarecer pontos, direcionar conversas, etc. Não à toa, nossos materiais já foram usados em eventos de RH, escolas, universidades, grupos feministas, etc.

Buscamos ser um canal pelo qual pessoas que acreditam na igualdade de gênero possam se conectar a um número grande de pessoas e ensiná-las a espalhar o conhecimento sobre feminismo a um número maior ainda. Nossa luta pela equidade de gênero está, também, em dar ferramentas para que cada vez mais pessoas possam compreender e entrar nessa jornada de transformação. É preciso não só entender, mas também valorizar esses novos formatos educativos e que desafiam o sistema tradicional.

E, em outubro, foi a vez do Obama conhecer essa rede. Estamos em um momento em que forças conservadoras e sexistas ganharam espaço e ameaçam destruir diversas conquistas recentes das mulheres. Independentemente de opiniões e apontamentos sobre os rumos dos mandatos, é importante ter, nesse momento, aliados capazes de reforçar a equidade de gênero como uma pauta urgente para todo o planeta.

Agradecemos a parceria e apoio do Consulado dos EUA em São Paulo.

Clique aqui e apoie o nosso trabalho.

Juliana de Faria é fundadora da Think Olga.

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Após o baixo desempenho durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, esperava-se do próximo técnico da Seleção Brasileira de Futebol feminino o resgate da energia do time, além de renovações para seguir crescendo em campo contra outras grandes seleções. Esta foi a missão de Emily Lima nos 10 meses de comando do time, com resultados interessantes: em 13 jogos, ela somou sete vitórias, um empate e cinco derrotas e inovou, por exemplo, ao apostar em jogadoras novatas ao lado das experientes Marta e Cristiane. Emily só estava começando a mostrar seu trabalho quando foi demitida pela CBF. “Disseram que estavam buscando resultados e que ela não os apresentou. Mas ela não poderia apresentar sem ter participado de jogos oficiais, só amistosos. Ao contrário do Vadão (antecessor de Emily), que não teve resultados e agora está sendo trazido de volta para a Seleção”, explica a jornalista esportiva Luciane Castro, colunista do Portal Vermelho.

Quando se é uma mulher em um alto posto de comando, as expectativas vão além dos resultados. Inicialmente, a contratação de Emily para uma função tão importante em um ambiente sempre dominado por homens pode ter simbolizado um avanço. Mas, olhando com profundidade, o caminho percorrido por Emily e muitas outras mulheres que chegam a cargos altos em suas profissões é frágil. Além do teto de vidro – que somente dá a impressão que o céu é o limite, quando na verdade ainda existem barreiras mantidas pelo machismo institucional – há também uma fundação muito frágil para aquelas que conseguem chegar ao topo apesar das adversidades. Há um chão de vidro.

Uma pesquisa de 2005, feita pelos professores Michelle Ryan e Alexander Haslam, da Universidade Exeter, na Inglaterra aponta que, normalmente, as mulheres são chamadas para cargos de lideranças em momentos de crise nas empresas, como, no caso da CBF, por causa das críticas à valorização do esporte masculino em detrimento ao esporte feminino. A presença de Emily ajudou a CBF a mascarar problemas internos, como o abismo salarial entre homens e mulheres que trabalham para a CBF, usando a imagem da técnica para “vender” um progresso por parte da administração.

Os pesquisadores explicam que o chão de vidro existe porque as mulheres recebem cobranças diferentes que os homens. As missões dadas a elas, normalmente são hercúleas ou condenadas ao fracasso aos olhos dos administradores. Como uma armadilha preparada para tirá-la do comando. Para Lu Castro, a contratação de Emily não só tinha a intenção de sabotá-la, como também servir de justificativa para se trazer um homem para o comando do time novamente.

Não é impossível caminhar sobre esse chão de vidro e resistir à queda. Mas são condições desiguais e injustas, que nem deveriam existir. Como paralelo, esta matéria da BBC News identifica o problema como “escada quebrada”, que só dá a impressão de subida. Uma situação que acontece nas altas esferas de poder e em praticamente todas áreas.

Este é o caso da executiva Marissa Mayer. Hoje é difícil imaginar que sua passagem como CEO do Yahoo seria tão turbulenta. A principal missão dada em sua chegada, em 2012, era de recuperar o posto da marca como pioneira da internet e superar o Google. Ao longo de sua gestão, Mayer recebeu críticas profissionais, por ter um estilo diferente de gerenciamento, mas o julgamento não se restringiu a isso. Ela foi criticada pela maternidade de gêmeos ao longo do processo, algo impensável em uma cultura como a norte-americana, sobretudo no ambiente machista do Vale do Silício. Cinco anos depois, o baixo crescimento foi argumento para a venda da empresa para a gigante Verizon. Inicialmente, Mayer não pretendia pedir demissão, mas com tamanha culpabilização e excessiva cobrança a fez desistir do cargo. Para o The Wall Street Journal, em uma reportagem especial sobre o conceito do chão de vidro, a administradora não teria caído tão facilmente se fosse um homem. Na verdade, teria tido uma chance no novo modelo da empresa.

O mesmo poderia ser aplicado então para Ellen Pao, durante sua gestão do site Reddit. Para uma mulher, estar neste ambiente pode ser um chão de vidro com um profundo penhasco logo abaixo, pois a empresa é composta por uma maioria masculina (74% dos funcionários são homens) e isso se reflete em seus usuários, que fazem dos fóruns do site espaços para demonstrações de misoginia, racismo, LGBTfobia e outros discursos de ódio, sem a menor restrição por parte do site.

Especialistas questionam o trabalho de Pao, o que justificaria sua demissão, não fossem todas questões de gênero envolvidas. As ofensas machistas internas e do público chegaram a gerar petições online, assinadas por homens, para a remoção da empresária, como lembra o The Daily Dot. Mas este não foi um problema recente. Seu cargo foi diminuído desde a sua chegada, sendo colocada como a única “CEO interina” da empresa. Por que não apenas CEO?

O The Daily Dot também destacou que a crise no Reddit durante a administração de Pao foi propositalmente levada a público de uma maneira que nunca aconteceu com homens CEOs, como se, sabendo da tendência violenta do público, a empresa quisesse usar a pressão para dispensa-la.

Se ter mulheres em altos cargos de liderança é um passo importante para levar mais outras mulheres a crescer no mercado de trabalho, principalmente em espaços dominados por homens, o chão de vidro é preocupante por representar mais um obstáculo que enfrentamos na jornada um retrocesso nesta luta.

Perder mulheres CEO nesta armadilha é perder espaços de poder. É desestimular as mulheres que as seguem. Para os homens líderes, a estratégia do chão de vidro é mais uma maneira de justificar seu domínio. Por isso, é preciso identificar essa armadilha antes de cair nela e assim não ceder a um mundo corporativo e masculino, que insiste em tirar as mulheres do jogo.

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Em março deste ano, uma menina de 11 anos do Maranhão, vítima de estupro, não foi autorizada a fazer um aborto porque o tempo gestacional ultrapassava o previsto em lei, de 12 semanas. Ela vinha sendo abusada sexualmente pelo padrasto desde os 8 anos. A equipe médica levou a família a crer que um aborto ofereceria riscos à vida da garota e declarou que ia “encorajar” esta criança a cuidar do bebê. Os médicos estavam despreparados para lidar com um tema tabu, um tema que mexe com julgamentos morais e religiosos, um tema que mexe com questões legais.

No mesmo março de 2017, na véspera do Dia Internacional da Mulher, foi protocolada no Supremo Tribunal Federal uma ação que pretende descriminalizar o aborto. A relatora designada, ou seja, a pessoa responsável pelo andamento da ação, é a ministra Rosa Weber. É simbólico – e bom, nesse caso – que seja uma mulher. Foi feito um pedido de medida liminar, o que significa que é uma medida urgente. “Esta urgência se justifica pelo fato de mulheres se submeterem a abortos todos os dias”, explica Gabriela Rondon, da Anis – Instituto de Bioética, uma das advogadas responsáveis pela ação.

As pessoas não deixam de abortar por ser ilegal. Mas a legalidade, por outro lado, é benéfica. Ao legalizar o aborto, profissionais de saúde poderão ser treinados de maneira a dar orientação e atendimento apropriados às mulheres. Aquela menina de 11 anos no Maranhão não vai mais precisar gestar e parir uma criança concebida por um estupro. Muitas adolescentes não morrerão por medo de procurar ajuda caso tenham uma complicação após um aborto. “Deixar de ser crime leva a um tratamento com mais dignidade, mais respeito à autonomia e diminuição da discriminação das mulheres – principalmente pobres, negras, adolescentes”, reforça Maria das Dores Nunes, médica ginecologista e obstetra e pesquisadora.

Há uma estatística muito poderosa para trazer a noção da realidade comum a muitas mulheres: até os 40 anos, uma em cada cinco brasileiras terá feito um aborto. Se você tem um grupo de dez amigas, isso quer dizer que duas delas fizeram ou farão um aborto. Ou você. Porque cometer este crime e estar sujeita a ser condenada a três anos de prisão é muito recorrente.

Em setembro, mais um dia simbólico para esta luta constante: o Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto (28). Para dar força a esta luta, divulgar a ação, informar sobre o tema e criar uma rede de apoio, a Anis – Instituto de Bioética se prepara para lançar a campanha #EuVouContar, que consiste no trabalho árduo da pesquisadora Debora Diniz de ouvir e publicar histórias de abortos ocorridas há mais de oito anos – quando o crime prescreve perante a lei.  

Foi aberto um canal para receber diversas histórias de abortos feitos há mais de oito anos (tempo em que o crime prescreve), que serão divulgadas ao longo de um ano. “Elas sabem que não serão julgadas, só ouvidas. Algumas falam e se vão. Outras falam e esperam que eu diga algo. Pode ser qualquer coisa, em geral, um afago de presença. Eu Vou Contar é uma campanha iniciada pela Anis para ouvir histórias de aborto. Não é um confessionário, pois não há penitência. É só um encontro entre vozes e memórias. São histórias apertadas no peito, para umas; histórias já contadas para umas poucas”, explica Debora Diniz, pesquisadora à frente da campanha.

Começar a retirar o aborto do lugar de tabu é essencial para que as informações circulem, as histórias apareçam, mais pessoas se envolvam e as mulheres, especialmente, percebam que todas  são diretamente afetadas pela descriminalização da prática, que é um tema de saúde da mulher, não uma questão de cadeia.

Acreditando nisso, a Think Olga dá as mãos a Anis na produção de conteúdos que serão publicados ao longo dessa semana, de modo a munir as mulheres nessa batalha por direitos e dignidade. Não vamos permitir que as mulheres corram risco de morte em situações de abortamento clandestino. Não vamos permitir que as mulheres tenham medo de ser presas, que se sintam culpadas e eternamente julgadas por sua moral. Cuidar da saúde, da vida e do bem-estar de outras mulheres como se fossem seus é pedir a descriminalização do aborto.

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Neste Dia da Visibilidade Lésbica, mulheres de diferentes vivências respondem à Olga a mesma pergunta: quais as principais pautas do movimento lésbico hoje? A cantora JosyAra demonstrou bem a pluralidade embutida na letra “L” da causa LGBT: “eu, enquanto mulher negra, vinda do sertão da Bahia, acredito na importância do posicionamento crítico acerca do modo que as coisas estão e não posso responder à pergunta de forma individual, universalizando o sentido do ‘ser mulher lésbica'”. Contudo, ainda que cada uma das entrevistadas tenha trazido diferentes pontos de vista, há um um ponto em comum em toda resposta: o sentimento de unidade existe na luta.

# Reconhecer a existência e diferentes demandas das mulheres lésbicas

Josyara

A luta aparece em cada pedido urgente por saúde humanizada e adaptada para as necessidades da mulher lésbica, ou por políticas públicas que provenham segurança e punição em casos de violência. Não é à toa que o dia pede por visibilidade, ou seja, por reconhecimento social, político e cultural de tantas mulheres. Como disse Renata Alves, da Coletiva Luana Barbosa, dedicada ao movimento lésbico: “nossa luta é de nós e por nós. Muitas vezes, não queremos falar com o opressor. Queremos que nossas iguais se vejam em nós e se sintam fortalecidas o suficiente para continuarem resistindo”.

Ao longo deste dia, publicamos em nossas redes sociais, de hora em hora, uma demanda do movimento em relação à data de hoje, trazidas por nossas entrevistadas. Mais do que uma luta por direitos, é um coletivo de vozes diversas – que não irão se calar. Não pretendemos, de forma alguma, encerrar o tema nas demandas publicadas ou elencá-las como mais importantes, e sim jogar luz e estimular a conversa sobre temas tão essenciais. #VisibilidadeLesbica

# Entender a luta das mulheres lésbicas com recorte de raça

joana

A mulher lésbica é ostensivamente objetificada e fetichizada pela indústria cultural, e isso é um enorme obstáculo na luta por direitos e visibilidade do movimento. Uma pesquisa recente do Pornhub, uma das maiores plataformas de conteúdo pornográfico do mundo, apontou que 60% do público masculino do site tem como principal fantasia o relacionamento entre duas mulheres. E as maiores vítimas dessa objetificação são as mulheres negras – que são duplamente oprimidas por uma sociedade que nega sua existência.

Em entrevista para a Think Olga, a cantora JosyAra apontou: “Além de enfrentar a lesbofobia do dia a dia, nós, mulheres negras, temos que lutar contra a objetificação sexual que vem da escravidão, além de outras reverberações do racismo que enfrentamos ainda hoje. E isso vai além das barreiras sociais; atinge desde a mulher da periferia à de classes mais altas”. A redatora Joana Mendes complementa com questão da pressão estética: “existe a padronização da beleza e eu estou fora dos padrões. Isso também se reflete na maneira que muitas mulheres se relacionam”.

A cantora Karla da Silva, também mulher negra e lésbica, concorda, levantando o fator da mulher em situação de vulnerabilidade social. “A maioria das lésbicas negras vivem nas periferias, são marginalizadas perante a sociedade, são escrachadas e oprimidas nos subúrbios e favelas sem acesso ao conhecimento de seus direitos. Quantas já morreram e viraram apenas estatística?”.

Infelizmente, muitas delas sequer são visibilizadas a este ponto: existem poucos dados e estudos focados em violência contra a mulher LBT. Quando há o recorte de raça, há ainda menos fontes sobre o assunto.

Ambas as artistas enxergam a música como um instrumento de resistência e força e criar laços. “A cena da música – assim como toda profissão – é um espaço ainda majoritariamente masculino. O machismo está presente em cada relação e, hoje, isso só é tão visível pra mim graças ao contato com outras mulheres que também vivem esse tipo de coisa na sua carreira”, contou Josyara. “Nada nunca nos foi concedido de bandeja, mas sim conquistado”.

# Fim da invisibilização da violência contra mulheres lésbicas

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Invisibilidade mata. É isso que aponta o Dossiê sobre Violência Contra Mulheres Lésbicas, Bis e Trans do Instituto Patrícia Galvão. Mulheres LBT estão mais suscetíveis à misoginia e violência de gênero. Segundo a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), entre 2012 e 2014, 9% das vítimas de estupro que ligaram no Disque 100, programa do governo federal para recolher denúncias que ferem os direitos humanos. Muitas delas denunciavam “estupros corretivos”.

Contudo, são poucos os dados sobre agressões e mortes de mulheres lésbicas. Parte disso vem do medo de denunciar – muitas vezes, essas violências acontecem dentro do ambiente familiar. Somada a isso, está a intolerância e o machismo da nossa sociedade, que nega o direito à identidade das mulheres lésbicas.

Mas há também uma falha da parte da imprensa em noticiar os raros casos que vêm a público. Em nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado LGBT, há diversos exemplos de como a imprensa, muitas vezes, desumaniza a vítima, reduzindo-a ao crime cometido contra ela. Além disso, ao chamar de “homofobia” casos de lesbofobia ou dar mais voz ao agressor do que à vítima, a comunicação comete outro tipo de violência: a indiferença em relação à vítima, seus familiares e amigos.

Segundo Renata Alves, da Coletiva Luana Barbosa: “nós não somos gays e nem mulheres heterossexuais. Morremos por motivos específicos: a combinação de misoginia e lesbofobia”. Sem informações precisas sobre o tamanho da violência, é muito mais difícil combatê-la. É por isso que é tão essencial incluir esses temas em pauta.

Muitas produções culturais já estão enveredando este caminho. Em pesquisa levantada pela Glaad, uma organização americana voltada para os direitos LGBT, 4.8% dos personagens presentes em seriados americanos de grande audiência são parte desse grupo. Contudo, Sarah Kate Ellis, diretora da organização, levanta um ponto importante: 25 personagens femininas queer foram mortas nas histórias, com o pretexto de que serviriam como um artifício de narrativa. Para Ellis, isso passa uma mensagem tóxica sobre a participação da mulher lésbica nessas histórias. A luta está apenas começando.

# Debater maternidade lésbica nas escolas

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Nos últimos anos, as redes sociais possibilitam que muitas mães compartilhassem suas experiências e quebrassem os “mitos” relacionados à experiência da maternidade. Não foi diferente para as mães lésbicas, que formaram grupos de apoio para falar sobre suas angústias e desafios específicos. Mas ainda estão longe de serem acolhidas nos espaços de convívio.

Elizandra Delon, da Coletiva Luana Barbosa, diz que a verdadeira maternidade lésbica é muito distante da versão idealizada e romântica que costuma ganhar manchetes e posts nas redes sociais. “Quando se é lésbica e tem um filho fruto de uma relação heteronormativa, sua lesbianidade é colocada a prova a todo momento”, dividiu ela. “Se não há um trabalho efetivo na escola, há rejeição e invisibilidade por parte dos professores, coleguinhas… e a mãe solo lésbica é quem sofre a pressão maior”.

Embora muitas pesquisas apontam que crianças com duas mães tendem a ter um desempenho melhor na escola e serem menos agressivas, não é o suficiente para combater o machismo estrutural que minimiza a maternidade da mulher lésbica. Em um artigo para o HuffPost Brasil, Natacha Orestes diz que a exclusão do tema da maternidade nos espaços de debate é uma violência contra as mães lésbicas. “A maternidade lésbica representa um local social e uma história de potência política que não pode simplesmente ser ignorada”. Como toda luta, a aceitação da maternidade lésbica também é um ato político.

# Cuidados específicos para saúde da mulher lésbica

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Desinformação e constrangimento. Por esses dois motivos, a saúde da mulher lésbica não recebe tratamento adequado no Brasil e no mundo. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Pittsburgh, 93,3% das mulheres lésbicas acima de 40 anos ainda não haviam feito exames de mamografia. Segundo o estudo, o medo de passar por situações constrangedoras afasta mulheres lésbicas das mesas de exames – enquanto mulheres heterossexuais ou bissexuais, por usarem pílulas anticoncepcionais, são mais comumente submetidas a esses exames.

Além disso, o mesmo estudo apontou que mulheres homossexuais têm tendência a fumar e beber com mais frequência. O uso de psicotrópicos também desponta como uma opção de fuga para questões de autoestima entre as mulheres lésbicas.

Em 2015, o governo federal brasileiro lançou um projeto voltado para a saúde de mulheres lésbicas e bissexuais. A pesquisa traz informações essenciais – aponta, por exemplo, que “questões de gênero e sexualidade não costumam ser pautadas durante a formação profissional em saúde”. Também desmistifica ideias equivocadas, como a de que mulheres lésbicas não correm riscos de ter câncer de mama ou de colo de útero.

Mas iniciativas isoladas não são suficientes para transformar uma mentalidade; ainda faltam mais pesquisas voltadas essencialmente para este público, com acompanhamento humanizado e mudança estrutural já no ambiente de ensino da medicina. Boa parte das entrevistadas da Think Olga para este Dia da Visibilidade Lésbica pediu por mais saúde, fisiológica e mental.

# Falar sobre sexo lésbico e proteção
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Em um estudo publicado em 2008 pela organização Stonewall, voltada para direitos LGBT, aproximadamente 50% das mulheres lésbicas inglesas que passaram por exames ginecológicos haviam contraído algum tipo de DST. Em resposta a esta pesquisa, o sistema de saúde britânico criou um manual online de cuidados básicos para a saúde sexual da mulher lésbica. Enquanto isso, em 2013, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais, que deveria ser gradualmente integrada às políticas do SUS.
Embora algumas ações de conscientização tenham surgido desde então, a realidade ainda é hostil à saúde da mulher lésbica. Como pontuou Josyara em entrevista à Olga, ainda que existam ações para a saúde da mulher LBT, muitas vezes são esquecidas em campanhas de conscientização nacional. A pior parte, é claro, é que embora essas medidas já existam, a implementação delas está longe de ser ideal.
Em um artigo preparado para o CONAGES (Colóquio Nacional Representações de Gênero e Sexualidades), as autoras Sandra Aparecida de Almeida, Josefa Eliziana Bandeira Crispim, Ivoneide Lucena Pereira e Jordana de Almeida Nogueira fizeram um levantamento de artigos publicados sobre a saúde da mulher lésbica entre 2010 e 2014. Entre suas constatações, estão o despreparo da equipe médica, que não sabe como lidar com a declaração da mulher como lésbica; a intimidação sentida pela própria paciente, que prefere não abrir sua sexualidade; a falta de informação direcionada à mulher lésbica em relação a DSTs às quais ela é suscetível; e também ao fato de que a grande parte das iniciativas relacionadas à saúde da mulher no Brasil tem fundo reprodutivo. As autoras apontam, então, “a necessidade de mudanças desde a formação acadêmica até o cotidiano desses profissionais de saúde, sensibilizando-os para a diversidade sexual, e eliminando a discriminação e o preconceito institucional”. 
# Representatividade em pesquisas e estudos 
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Basta procurar pesquisas relacionadas ao lesbianismo no Google para notar um padrão: abundam reportagens com títulos caça-clique como “toda mulher é lésbica ou bissexual” ou “lésbicas tem mais orgasmos”, mas há pouca informação real sobre bem estar, saúde e garantia de direitos da mulher lésbica. Institutos como o Patrícia Galvão, por exemplo, reúnem informações essenciais sobre violência entre mulheres LBT e prestam serviços importantes. Mas ainda estamos muito longe de compreender o cenário completo, em especial sobre a violência, principalmente com camadas extras de dificuldade: o silêncio e a baixa produção de pesquisas focadas nesse tema.

Durante a produção do documentário “Eu Sou a Próxima” da Coletiva Luana Barbosa, que registrou casos de mulheres vítimas da lesbofobia e os transportou para as telas, ficou claro para as organizadoras que a falta de informação deixa marcas profundas. “A invisibilidade é tanta que [as vítimas de lesbofobia] não são nem a estatística”, diz Renata Alves. Em geral, os levantamentos sobre violência de gênero agrupam estatísticas muito diversas em um único guarda-chuva muito abrangente: o movimento LGBT. É urgente que se criem mais núcleos de pesquisa focados na mulher lésbica.

Para a cantora Marcia Castro, que mencionou a urgência por políticas públicas específicas para mulheres lésbicas como uma de suas demandas para o dia de hoje, a arte pode contribuir para levar atenção a essas pautas. “Nós, artistas trazemos luz às questões, mas para implementar ações, se faz necessária a elaboração de um plano, com objetivo e diretrizes”.

# Criação de políticas públicas para mulheres lésbicas
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Quando a Lei Maria da Penha foi consolidada, em 2006, passou a contemplar não apenas denúncias de violências cometidas em relacionamentos heterossexuais, mas também homoafetivos. Contudo, onze anos após sua aplicação, a lei parece distante da realidade das mulheres lésbicas. Na Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal, nem 1% dos casos de violência doméstica reportados vieram desse grupo. Este é um forte indicativo que políticas públicas específicas para o movimento lésbico são necessárias.
Maria Berenice Dias, advogada e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, disse ao Dossiê do Instituto Patrícia Galvão sobre Violência Contra a Mulher: “A Lei Maria da Penha não deixa lacunas, ela é muito expressa neste sentido, mas há todo um preconceito muito severo associado a uma omissão legislativa muito grande”. O risco de exposição, somado à LGBTfobia estrutural de muitos órgãos reguladores, afasta as mulheres lésbicas desta ferramenta.
Mas para haver políticas específicas, é preciso informação suficiente – algo que está em falta. Muitas vezes, violências cometidas contra mulheres lésbicas são classificadas como “homofobia” ou “feminicídio” – e embora a segunda opção seja correta, não entrega todo o contexto necessário para compreender as motivações daquele crime específico. Para a Coletiva Luana Barbosa – que leva esse nome em homenagem a uma vítima de lesbofobia, espancada por seis policiais em 2016 – “isso só atrapalha no momento de fazer esse recorte e conseguirmos dados estatísticos”. Imprensa, academia e sociedade devem agir conjuntamente, produzindo informação e pesquisa apuradas, para criar uma base de dados real sobre a mulher lésbica no Brasil, e não apenas pesquisas pontuais.
Consolidar políticas públicas específicas para as demandas das mulheres lésbicas não é apenas atender melhor a uma parcela da população que não se sente representada; é também legitimar a luta, reconhecê-las como parte importante da sociedade, que não deve tolerar mais violência. Como disse a cantora Aíla, que lança hoje seu clipe “Lesbigay”, em entrevista para a Olga: “Precisamos assumir quem somos e todas as violências que sofremos; não calar, expor”.
# Fim da fetichização do lesbianismo
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Mulheres lésbicas são objetificadas e fetichizadas em todos os espaços sociais, da indústria cultural à pornográfica. Para Joana Mendes, redatora, a fetichização é problemática porque abre caminho para pensamentos ainda mais perigosos. “Mulher lésbica, muitas vezes, é vista como alguém que tá numa fase, que ainda não arranjou um cara legal, que foi maltrada. Não é alguém que tem o desejo por outra mulher, e sim que teve um relacionamento ruim com os homens”. Em muitas ocasiões, a comunicação endossa isso, ao colocar mulheres hétero em posições sensuais umas com as outras; quantos programas de comédia não reforçam a ideia de que mulheres jovens “experimentam” sua sexualidade, como se fosse uma escolha?
Esses dois estereótipos nocivos – a sexualidade como escolha e a narrativa autocentrada, que vê o homem como principal componente da sexualidade da mulher – não estão apenas causando uma violência de gênero; os homens passam a se sentir donos do corpo da mulher. Não à toa, quando não atendem às expectativas de feminilidade e afetividade dos homens, mulheres lésbicas correm riscos de serem violentadas e agredidas.
Não é à toa que quando entrevistamos a publicitária Vanessa Goldmacher sobre suas demandas para o Dia da Visibilidade Lésbica, ela foi categórica: segurança. “Me sinto insegura e vejo como ameaça todo homem hétero, principalmente desconhecidos”. Em tempos de grande retrocesso em relação a direitos já conquistados para a mulher, o medo é bastante compreensível: se as políticas que combatem a violência contra a mulher já não são efetivas o suficiente, pode-se esperar ainda menos efetividade de punição em violências de nicho – embora essa também seja uma demanda urgente do movimento.
Mas Vanessa acredita na validade do dia de hoje: “as estatísticas mostram quanto a luta pela visibilidade e proteção das mulheres no Brasil precisa ganhar força”. Pelo fim da fetichização da mulher lésbica, votamos sim.
# Identificação com a luta
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Em todas as perguntas que Olga fez às entrevistadas deste especial, apenas uma demonstrava centelhas de esperança. “Por que o Dia da Visibilidade Lésbica é essencial em tempos de intolerância?” se desdobrou em confiança na luta que é conduzida diariamente por tantas mulheres.
A cantora Josyara não vê opção: uma vez que nasceu mulher e lésbica, sabia o que estava por vir. “A opressão mais dolorosa é o silenciamento de quem somos. É não poder existir sem estar sujeita a violências de todo tipo quando saímos na rua de mãos dadas com quem amamos”. A também cantora Karla da Silva divide uma opinião similar, incluindo sua profissão como espaço para militância: “Estamos aí, queremos nosso espaço, somos fortes, somos resistência e não aprendemos a desistir fácil. Da nossa forma, com a nossa arte, temos que ir contribuindo pelas mudanças”.
Para Joana Mendes, o Dia da Visibilidade Lésbica também tem tudo a ver com o eu, e não apenas com o sentimento de coletividade. “Você pode aprender um pouco sobre cuidado com seu corpo, com sua mente. Ver a resistência de mulheres de diferentes lugares da cidade e como isso reflete em você”.
 
A militância pode ser exaustiva, mas também recompensadora. E essa parece ser uma das maiores motivações para continuar na batalha. As representantes da Coletiva Luana Barbosa são otimistas: “esse está sendo o primeiro ano em que estamos vendo muitos eventos da visibilidade, em sua maioria puxados por nós mesmas, mulheres lésbicas”. Como cada mulher disse à Olga, à sua maneira, a luta não pode tardar. “Não podemos esperar isso vir de outros.”
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Quando o cantor Biel voltou à mídia, depois de um ano afastado por conta da repercussão do assédio que cometeu à jornalista Giulia Bressani, tinha um discurso na ponta da língua para se justificar: o assediador era, na verdade, um personagem criado para ganhar dinheiro. Na ocasião, a Think Olga identificou a existência do “personagem assediador”: quando um homem famoso não quer ser responsabilizado pelo que fez, diz que estava agindo de forma caricata, desconectada de sua real personalidade. Contudo, o inverso também acontece: às vezes, a “fama” ou conduta do homem serve de justificativa para todos os seus atos, gerando assim uma proteção, concebida pela sociedade e pela mídia, quando casos de machismo e violência de gênero vêm à tona. Tais acusações deveriam ser “esperadas” quando atreladas a alguns elementos estereotípicos de masculinidade – e são suavizadas pela opinião pública.

Recentemente, a entrevista de Washington Olivetto à BBC Brasil, em que o publicitário expôs opiniões machistas e objetificantes sobre as mulheres, foi defendida – principalmente entre seus colegas de profissão – que usaram a experiência de Olivetto para colocá-lo como um gênio inquestionável, buscando carta branca para suas declarações. Muitos chegaram a insinuar que as mulheres é que não haviam compreendido o que ele quis dizer, mas a verdade é que frases como “Porsche é melhor do que mulher que, diga-se de passagem, é excelente”, já deixam o posicionamento deste homem bem claro; a questão é que ele poderá manter este tipo de discurso, uma vez que a opinião pública seguirá encontrando maneiras de protegê-lo.

A “genialidade” de Woody Allen também o protege de acusações ainda mais graves: abuso sexual de sua filha adotiva, Dylan Farrow, quando ela tinha 7 anos. Mesmo sendo passivo de punição legal, ele segue sendo um diretor renomado em Hollywood. Seus filmes são lançados anualmente, com grande sucesso de bilheteria. Quando é lembrado por conta desse possível ato criminoso, seu nome geralmente vem acompanhado de um debate puramente teórico sobre separar a arte do artista, como se seus atos não tivessem implicações reais para pessoas reais. A denúncia de um abuso de menor não manchou sua imagem porque, há décadas, Allen sustenta em seus filmes a figura do homem confuso, tímido e divertido que seus espectadores associam a ele. Ao representar este personagem nas telas, o diretor também o performa na vida real. A imagem do abusador não condiz com a ideia que os espectadores tem de Allen, entre o genial e o excêntrico – e ele se aproveita disso.

A premissa do “tudo pela arte” é o que mantém Allen livre para continuar trabalhando enquanto deveria estar sendo investigado, assim como permite que Johnny Depp continue sendo adorado e conquistando papéis milionários em Hollywood. Depois das acusações de violência doméstica por parte da ex-esposa Amber Heard tornaram-se públicas, o ator continuou sendo defendido pela opinião geral sem mover um dedo para tanto. A reputação de Depp de “causador de problemas”, sustentada desde os anos 90, também acompanha a “aura excêntrica” colocada em seus personagens de fantasia, que criam empatia no cinema. Por isso, não precisou se esconder; seria perdoado e amado de qualquer forma.

Entre Depp e Amber, houve um acordo jurídico – e como já apontamos antes, não há nada de errado com o fato de um homem reconstruir sua vida após cumprir a punição que lhe coube, mas existe algo de preocupante quando tantas oportunidades são tão facilmente concedidas a homens que machucaram e sacrificaram mulheres com quem se envolveram. Ainda mais problemático é perceber que essas oportunidades mostram que a opinião do público sobre os acusados não foi abalada.

No caso do fotógrafo americano Terry Richardson, muitos famosos o defendem pela “honra” de serem clicados por ele. Assim, segue trabalhando em meio a acusações de assédio e abuso sexual de atrizes e modelos. Em 2014, uma vítima de Richardson contou ao mundo como ele forçou seu pênis dentro de sua boca e ele alegou que as fotos eram consentidas e que “estava bem consigo mesmo e isso é o mais importante”. A carreira dele permanece ilesa; ainda é um dos fotógrafos mais célebres do mundo, sendo considerado, no máximo, “polêmico” e “controverso”.

Mas não é só a genialidade ou a excentricidade que poupam homens de suas acusações. Um exemplo disso é o que aconteceu durante a participação do ator Alexandre Frota no programa Agora É Tarde, em 2014. Em rede nacional, Frota deu detalhes do estupro que cometeu a uma mulher negra, mãe de santo, a ponto de fazê-la desmaiar. Apesar da confissão evidente de violência, tanto o apresentador do programa na época, Rafinha Bastos, quanto a plateia aplaudiram fervorosamente, às gargalhadas. A narrativa de Frota endossa sua imagem perante a audiência: a figura do “pegador” tão descontrolado que se acha no direito de atacar uma mulher que lhe prestava um serviço. Uma atitude como essa é esperada de homens como ele, portanto, minimizada. Embora tenha recebido mensagens de repúdio ao seu ato, Frota participa da vida pública como se nada tivesse acontecido – e chegou a intimidar uma mulher que ousou dar nome à “pegação” pelo que era de fato: um estupro.

Outro homem que se beneficia do estereótipo de “pegador” é Charlie Sheen. Entre as denúncias feitas por mulheres que se relacionaram com ele, estão agressões físicas e psicológicas, ameaças de morte com facas e ordens de restrição; a atriz Brittany Ashland, que namorou o ator, chegou a levar sete pontos nos lábios após um ataque de fúria de Sheen. Mesmo assim, por uma década, ele foi um dos atores mais bem pagos da televisão ao estrelar a série Two And A Half Men, onde também interpretava a figura do conquistador. Sheen foi afastado, inicialmente, por questões de saúde – estava em reabilitação contra as drogas -, não por sua postura hedionda em relação a mulheres. Relacionamentos tortuosos e violentos são esperados de homens como ele, e não afetaram em nada sua carreira por décadas.

Enquanto a sociedade permitir que certos estereótipos – do ator hollywoodiano acima do bem e do mal até o pegador (e abusador) de mulheres – estejam protegidos pela opinião pública, não avançaremos nas questões de gênero. Primeiro, porque mulheres são muito mais penalizadas pelos estereótipos que são atribuídos a elas. E segundo, porque a partir do momento em que delitos e agressões sequer arranham a imagem desses homens, estamos apenas endossando comportamentos violentos em todas as esferas sociais.  Precisamos que todos sejam investigados e punidos por seus atos, independentemente de sua fama e sucesso.

[Esta é a última parte de nossa série de conteúdos especiais analisando a entrevista de Washington Olivetto e como seus discursos demonstram diversos problemas sociais e de gênero. Clique para ler as primeira parte e a segunda]

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[Este post faz parte de uma série especial de conteúdos sobre declarações do publicitário Washington Olivetto e como esse caso expõe diferentes problemas sociais e de gênero. Leia a primeira parte aqui]

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Quando Washington Olivetto, em entrevista publicada na BBC Brasil na última semana, comparou mulheres a Porsches e disse que “empoderamento feminino é um clichê constrangedor”, muitos vieram em sua defesa alegando que ele não sabia do que estava falando por ser um homem idoso. Aos 65 anos, Olivetto mostrou de fato ter completo desconhecimento sobre debate de gênero – sua opinião, no mínimo, encoraja a objetificação da mulher – mas isso não tem nada a ver com idade. Na verdade, parece muito mais provável que sinta-se confortável em pensar e se expressar assim por ter uma rede tão fiel de protetores que endossam seus atos. Isso nos faz pensar sobre um fenômeno que parece permear a vida do homem: a justificativa etária.

Os homens são perdoados por seu comportamento desde a infância. Quando jovens, são considerados “moleques” demais para prestar contas sobre o que fazem. Em maio de 2016, durante uma entrevista para o Ego sobre o término de um relacionamento, o cantor Biel disse: “Tenho 20 anos, sou uma criança. […] estou na fase de formar a minha personalidade ainda”. Uma semana depois, viria à tona o maior escândalo envolvendo sua carreira: o assédio à jornalista Giulia Pereira. Entrou em cena, então, o pai de Biel, naturalmente justificando seu comportamento violento… Com a juventude: “qualquer moleque faz uma palhaçada dessas”, disse ele ao Extra.

Aos vinte anos, homens não são mais crianças nem moleques. São plenamente responsáveis por seus atos, que podem ser passíveis de punição legal. É o caso de Justin Bieber. Apenas em 2013, o cantor canadense avançou aos socos em um motorista de sua limousine, pichou muros em São Paulo, agrediu um paparazzi… Tudo sem punição. Um ano depois, seria preso por dirigir alcoolizado. Autoridades na China e na Argentina proibiram a entrada de Bieber nesses países por suas atitudes irresponsáveis, mas para o resto do mundo, o astro está em fase de “amadurecimento” – sempre blindado pela justificativa de que homens amadurecem mais tarde e, eventualmente, seguem em frente.

Mas esse não parece ser o caso. Quando o homem envelhece e chega à terceira idade, seu comportamento é ainda mais endossado pela sociedade. Após o episódio de assédio com a figurinista Su Tonani, o ator José Mayer se justificou: “tristemente, sou, sim, fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas”. A desculpa soou artificial, uma vez que José Mayer tentou, em um primeiro momento, culpar a vítima por “confundir” o ator com seu personagem na novela – outra desculpa que parece recorrente, como já apontamos. Além disso, culpar “sua geração” por seu comportamento individual é tirar de si toda a responsabilidade pelo crime.

Ainda que José Mayer esteja mais próximo do estereótipo do galã de novela do que do homem envelhecido, a sociedade abraça de forma questionável a maturidade masculina. Dependendo de seu status social, profissão e fama, o homem idoso pode tanto ser considerado “gênio” ou “ultrapassado”; tudo depende da perspectiva de quem fala. No caso de Washington Olivetto, o público se divide entre ambos os estereótipos. Algo parecido – e em maior escala – acontece com o apresentador Sílvio Santos. A história de vida do dono do SBT tem tons quase míticos: seu talento natural como comunicador seria responsável pela ascensão social que o removeu de uma situação de pobreza e vulnerabilidade até se tornar um dos homens mais ricos e influentes do país. Contudo, mesmo constrangendo funcionárias em público e sendo gordofóbico e racista com suas convidadas, segue sendo considerado um gênio da comunicação.

Talvez seja necessário ressignificar o que é genialidade, afinal. Ser genial é enxergar as necessidades de seu próprio tempo de forma original. Ficar congelado naquilo que foi, décadas atrás, considerado aceitável, é mais parecido com nostalgia do que genialidade. E impede a sociedade de se desprender de discursos que não servem mais. E é neste tópico que seguiremos nossa discussão no texto de amanhã.

Enquanto narrativas violentas e objetificantes insistirem em se perpetuar, seja qual for a idade daquele que os propaga, é preciso continuar lutando. E se você gosta do nosso conteúdo e quer manter a Olga firme e forte, considere doar para a gente.

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É inegável que as declarações machistas do publicitário Washington Olivetto sobre publicidade voltada para o empoderamento feminino, em entrevista publicada na BBC Brasil na última semana, são absurdas. Sendo assim, elas merecem ser questionadas, debatidas e confrontadas. Ou será que não?

Enquanto um grupo tecia críticas ao publicitário nas redes sociais, outro argumentava que o que foi dito precisava ser ignorado, pois Olivetto seria “muito ultrapassado”, “muito velho” ou “muito homem” para opinar sobre o assunto nos dias de hoje; logo, não é merecedor da atenção ou da “audiência” dos leitores. Desse modo, ambos os lados acabaram criando uma alvoroço em torno do que foi dito, mas pouca reflexão que saltasse de suas bolhas individuais na internet. Pensando nisso, a Think Olga preparou uma série especial de reportagens sobre como esse caso expõe diferentes problemas sociais e de gênero, sempre, de certo modo, colocando mais empecilhos para denunciarmos práticas e falas machistas, e até mesmo violências contra a mulher. O conteúdo será publicado ao longo dessa semana.

Entendemos que, quando se escolhe “não dar audiência” a discursos como este, seguindo-se de uma lista de justificativas para tanto, dá-se mais um aval para uma voz negativa e machista na comunicação, que, de qualquer modo, será repercutida – a diferença é que, sem as vozes de feministas opondo-se ao que foi dito. Sendo assim, questionamos: como se opor a declarações e atitudes nocivas pode ser um problema? Como apontar que um indivíduo está perpetuando machismo e violência é uma forma de “dar ibope” e relevância ao que ele diz?

Muitas vezes, figuras políticas com narrativas violentas parecem tão irreais que também acabam sendo vistas como sendo insignificantes por causa do que dizem, merecendo assim ser ignorados. Mas, com esta premissa, Donald Trump, assumidamente assediador e abusador de mulheres, venceu a corrida para a presidência dos Estados Unidos no ano passado, assim como o deputado Jair Bolsonaro e seus comentários machistas, racistas e LGBTfóbicos também caminham para cargos mais altos no governo.

As falas de Bolsonaro são gravíssimas e reproduzi-las sem críticas, sem apontamentos, também pode ser perigoso. Mais ainda seria seguir gerando espaços para que este homem siga seu discurso de ódio disfarçado de opinião, como entendeu a organização do clube Hebraica, que o proibiu de palestrar após declarações homofóbicas

E, muitas vezes, até mesmo espaços considerados seguros para um grupo minorizado podem se mostrar hostis, principalmente quando o assunto é gênero. Nos três primeiros bem sucedidos anos do reality show sobre cultura de drag queens, RuPaul’s Drag Race, da Logo, pouco se questionou uma piada transfóbica que o apresentador RuPaul Charles – um homem gay e negro, com uma vivência muito diferente de Olivetto ou Bolsonaro – usava em todos os episódios, quando dizia que os participantes haviam recebido uma mensagem nomeada de “She-Mail”, trocadilho com “She Male”, uma maneira pejorativa de se dizer “mulher trans” ou “travesti” na comunidade LGBT americana. Até que a ex-participante Carmen Carreira, após assumir sua transição para mulher trans, decidiu expor o problema e confrontar o apresentador e a produção do programa sobre o termo, que, consequentemente, foi retirado. Para isso, Carmem precisou sair como uma vilã para fãs fiéis do programa, que já tinham o termo tão naturalizado que o viam “somente uma piada” que, supostamente, poderia ser facilmente ignorada.

Sabemos que a escolha de “não dar audiência”, para as mulheres, vem como um modo de defender-se de declarações não representativas e, principalmente, ofensivas, que podem vir de trolls da vida real ou na internet. Mas é importante considerar que uma declaração como esta, vinda de um homem muito respeitado e conhecido em seu ambiente de trabalho, é muito diferente do discurso de ódio polvilhado pela internet por trás de uma garantia de anonimidade. Ambos merecem ser denunciados e combatidos, mas por diferentes meios. O caso de Olivetto, na verdade, deve ser um combustível para educar e empoderar mulheres para que não aceitem ataques individualmente.

Não estamos falando de textos mal-intencionados que motivam aquilo que chamamos, em 2013, de clique de indignação. O foco desta conversa é debater sobre a reação da sociedade a discursos vindos de homens públicos, famosos e que assinam embaixo de suas posições controversas.

Não discordamos que exista uma posição de privilégio para homens como Olivetto, inclusive, criticamos a mídia que dá voz somente a esta persona, como quando apontamos a atitude da Folha de São Paulo, que adicionou em uma matéria que, inicialmente tinha somente a versão do cantor Biel, passando a conter aspas da jornalista Giulia Bressani, que foi assediada por ele e as consequências que ela e a editora que a defendeu sofreram, como a demissão do Portal IG. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que a luta por um mundo igualitário é contra estes privilégios é árdua.

Expor opiniões como estas, para depois desconstruí-las, faz parte disso. Não expor os erros na fala de Olivetto, para nós, vai contra a nossa premissa de empoderar mulheres por meio da informação e da educação, principalmente pois partiria de um lugar de privilégio onde se supõe que todas as marcas, todos os publicitários ou mesmo todas as mulheres, conseguem identificar sozinhos tudo de problemático em seus discursos. Ainda não podemos nos dar o luxo de nos omitir, caso contrário ninguém falará por nós.

Por isso, o fato de que a nossa organização irmã, Think Eva, que existe justamente para mudar a representação feminina na publicidade, tenha escolhido responder aos comentários de Olivetto não nos surpreende, somente nos orgulha. Mas a afirmação da importância desse posicionamento está nas reações positivas da publicação.

A vivência de Olivetto, sua idade, seus ideais, seus privilégios, seu trabalho…Tudo isso blinda os homens e torna mais difícil questioná-los. Mas nós existimos para criar um futuro diferente, onde as próximas gerações enxerguem uns aos outros sem preconceitos.  E por isso, não deixaremos pra lá.

E, para que possamos seguir o nosso trabalho, contamos com seu apoio! Compartilhe nosso conteúdo ou doe para a nossa ONG na Benfeitoria.

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Quando começamos a conversa sobre assédio de rua com a Chega de Fiu Fiu, em 2013, o tratamento dado pela imprensa às questões de gênero eram bastante diferentes, em especial no meio online. Uma busca do Google pela expressão “assédio sexual” levava a reportagens que mencionavam esse tipo de violência no ambiente de trabalho, mas pouco se falava sobre o contexto machista que permite que homens, em todas as partes do mundo, se dirijam a mulheres no espaço público de maneira ofensiva e opressora, como se tivessem o direito de opinar ou escrutinar nossos corpos. Nesses quatro anos de campanha, vimos não apenas o tema do assédio ocupar espaço na imprensa e nas redes sociais; como também o feminismo abraçar e encontrar diferentes vozes nas redes, que aprofundaram o debate e mostraram como é urgente ressignificar o retrato da mulher na sociedade, nos meios  de comunicação, nas relações interpessoais.

Hoje, vemos parte da imprensa aderindo a pautas sobre gênero ou às práticas dos nossos Minimanuais de Jornalismo Humanizado. Percebemos que o feminismo é uma pauta que surge com maior naturalidade nos espaços de conversa. Mas como mensurar os avanços e as transformações que a luta feminista provocou dos últimos quatro anos?

É impossível precisar quantas mulheres estão envolvidas no feminismo ou são contempladas e tocadas por suas pautas. Mas podemos contabilizar histórias que não foram esquecidas, nem silenciadas. Histórias como a de Cláudia Silva Ferreira, que sofreu violência duas vezes: primeiro, quando foi arrastada pelo carro da Polícia Militar em 2014. A segunda, quando foi retratada de forma desumanizada pela imprensa, seu nome esquecido, seus sonhos ignorados, sua identidade negada. Se tivessemos aceitado  o tratamento da imprensa à época, Cláudia poderia ter morrido anonimamente, em um dos tantos atos de violência sem sentido que atingem principalmente as mulheres negras e periféricas.

Mas status social também não é garantia de proteção às mulheres. Lembremos de Nigella Lawson, agredida em público pelo marido; Amber Heard, que foi agredida pelo então parceiro, Johnny Depp, e não apenas teve sua história duvidada e questionada, como perdeu papéis no cinema por ter denunciado sua história de abuso; a cantora Rihanna, que sofreu violência doméstica pelas mãos de Chris Brown pouco antes da cerimônia do Grammy de 2009, viu o ex-namorado comemorar no Twitter que estava livre de punições.

Sabemos que nossa luta faz avanços quando essas histórias não são esquecidas, quando a vítima não é silenciada, quando a mulher é levada a sério em seu testemunho. Como diz Virginia Woolf: “Uma feminista é qualquer mulher que diz a verdade sobre sua vida”. Mas é preciso coragem tremenda para dizer essa verdade.

Nos últimos quatro anos, colecionamos vozes que corajosamente contaram suas histórias. Queremos continuar esse trabalho, pois sabemos que as mudanças são lentas, graduais e não-lineares; basta prestar atenção nos direitos que estão sendo cerceados e manipulados nos últimos dois anos, alguns deles que considerávamos já conquistados, como a reforma trabalhista que pode permitir que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres, a dificuldade de denunciar violência mesmo com a Lei da Maria da Penha, a resistência à legalização do aborto. É preciso reforçar, todos os dias, que o silenciamento dessas vozes representa a perda de dignidade e até mesmo a morte de muitas mulheres.

Queremos que os próximos anos sejam de ainda mais conquistas e pluralidade de vivências. Queremos ver a mulher que opta pelo aborto livre dos caminhos escusos da ilegalidade. Queremos mais empatia. E direitos verdadeiramente assegurados.

Nos ajude a continuar lutando. Participe da nossa campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria e mantenha a luta da Think Olga acesa. Precisamos de vocês! #Olga4Anos

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Há alguns meses, enfrentei uma depressão ao lidar com traumas e questões profundas da minha história. Quem já passou por isso sabe o quanto custa para uma pessoa deprimida ser obrigada a se relacionar. Mas ao que parece, para as mulheres, nos trancarmos no quarto, nos escondermos sob o travesseiro, não querer ser gentil, social e cordata o tempo todo não é uma opção bem aceita. Se somos o esteio emocional da família, como podemos falhar?

Minha família, assim como muitas outras, tem sempre uma mulher responsável pelo bem estar de todo mundo. É nela que recaem as responsabilidades de cuidar de idosos e crianças, de reunir a família em eventos especiais, de socorrer um irmão ou uma sobrinha, de ouvir queixas e desabafos de quem quer que esteja precisando. Ela cuida de todos, menos de si mesma. E isso consome tempo, energia e espaço mental e afetivo.

Eu, durante minha fase depressiva, não tinha forças para estar disponível, não conseguia ouvir os problemas alheios. Simplesmente não conseguia. Mas como isso é possível? Como eu não estaria ali para os que eu amo? Uma culpa enorme, uma sensação de débito emocional tomou conta de mim. E essa culpa – assim como o pressuposto que sempre devo estar disponível – tem uma grande relação com o machismo que está profundamente enraizado em nossa sociedade.

Em 1969, o psicólogo John Bowlby criou um conceito inovador para a comunidade psicanalítica: a “teoria do apego“, que descreve a relação entre mãe e filho, a interdependência de ambos e as expectativas e consequências dessa relação. Apesar de trazer algumas ideias polêmicas para a época, o termo vingou – e aos poucos, estimulou a conversa sobre a ideia de disponibilidade emocional em todas as relações afetivas, não apenas na maternidade.

Mas afinal, o que é estar emocionalmente disponível para o outro? É aí que mora o problema: ao que tudo indica, para a parcela masculina do mundo, significa apenas estar presente (ou não) em um relacionamento. Para a mulher, a disponibilidade emocional é obrigatória em todos os campos de sua vida. Desde a infância, somos estimuladas a sempre acolher, cuidar e ouvir. Somos a parte da população que “sabe abrir o coração”, que “tem talento para falar de sentimentos”. Em um estudo profundo sobre disponibilidade emocional, publicado em 2005 por Rebecca J. Erickson, todas essas tarefas estão atreladas não ao sexo, mas ao conceito de gênero feminino que se estende séculos a fio. Não somos “melhores” em emoções: somos educadas para acreditar que sim. A pior parte nisso tudo? Essas construções culturais e sociais são exploradas por outros.

Na trilha do estudo de Bowlby, a pesquisadora Arlie Russel Hochschild publicou, em 1983, o livro The Managed Heart, que mostra como esses sentimentos “femininos” são comercializados e prometidos por empresas. Um exemplo de Hochschild são as companhias aéreas, que estampam o sorriso das aeromoças em todas as suas campanhas. A simpatia e a solicitude da comissária de bordo são tão garantidas quanto o lanchinho durante o vôo.

Mas estamos falando sobre emoções humanas, que são complexas e, geralmente, exigem muito de nós. Segundo pesquisas, trabalhos que lidam com muita dedicação emocional – Hochschild identificou mais de 40 tipos – são mais exaustivos a longo prazo, mas isso raramente é notado pelos empregadores. No estudo Gênero, Emoções e Produção Cultural: Uma Análise da Autoajuda Brasileira, a mestre em Antropologia Social Talita Castro menciona Hochschild para explicar porque isso recai principalmente sobre as mulheres: “quanto maior o status social da pessoa, mais suas emoções são levadas em conta; em contraposição, quanto mais subordinada, mais ela é institucionalmente chamada a atuar sobre seus estados emocionais”.

Vale dizer que a expectativa da mulher profissional como boa ouvinte e sempre disponível emocionalmente se repete em todas as camadas da sociedade: espera-se que nós sejamos professoras mais gentis, líderes mais maleáveis – caso contrário, somos chamadas de “endurecidas” e acusadas de perder nossa feminilidade para alcançar o topo. Na política, a expectativa é que candidatas sejam mais bem humoradas e afáveis (além, é claro, de inteligentes e capazes) do que os homens. A lista de tarefas invisíveis da mulher parece interminável.  

Nos relacionamentos conjugais, essa exigência se repete: quem nunca passou a noite escutando o marido ou namorado reclamar do trabalho? Ou tentou contornar e conciliar brigas dele com a família? Administrou seus rompantes de raiva? Esta desigualdade também pode ocorrer em casais homoafetivos, é verdade, mas a disparidade de expectativas impostas a homens e mulheres nesse aspecto não pode ser ignorada. Segundo Hochschild, “[…] as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom.” Ou seja, além de acolher, também nos cabe fazer a relação funcionar até os mínimos detalhes. Em um longo artigo do The Guardian sobre trabalho emocional e disponibilidade, a autora Rose Hackman menciona uma lista de afazeres exclusivos da mulher em um relacionamento heterossexual, que vai do planejamento do melhor momento para ter filhos até ser a referência de coisas perdidas pela casa.

Este desequilíbrio profundo também tem a ver como os homens são educados. São encorajados, desde cedo, a esconder seus sentimentos e muitas vezes represam angústia, raiva, dor e sofrimento para proteger sua “masculinidade”. Estudos já relacionaram esta incapacidade de lidar com emoções com violência, comportamentos obsessivos e compulsões, como por exemplo a objetificação feminina por meio da pornografia. Mas na vida familiar, a disponibilidade emocional do homem é mais do que um pressuposto para um relacionamento saudável: o estudo “Mais do que o provedor”, realizado na Universidade de Michigan, estabeleceu a relação entre a disponibilidade emocional paterna e o desenvolvimento de habilidades como a fala e a coordenação motora de bebês. Ou seja, essa tarefa é grande e importante demais para ser exclusiva da mãe, embora recaia ainda sobre nós.

A manipulação de emoções de forma desequilibrada – seja para se encaixar em um estereótipo ou perpetuá-lo – é prejudicial a todos, mas a uma parcela mais do que outra. Se queremos realmente entender o quanto essas cobranças fazem mal, é essencial fazer um recorte racial aqui: as mulheres negras são as maiores vítimas desse sistema.

Em nossa sociedade racista, onde a população negra é invisibilizada, explorada e solitária, é muito conveniente perpetuar o mito da “mulher negra forte”, como diz Meri Danquah: “Supõe-se que as mulheres negras sejam fortes – amparadoras, nutridoras, que curam outras pessoas […]. Supõe-se que a dureza emocional que é construída na estrutura de nossas vidas esteja ligada ao fato de eu ser ao mesmo tempo negra e mulher”.

No subtexto sinistro dessas expressões, está a convicção de que a mulher negra deve ter ainda mais disponibilidade emocional, uma vez que, oprimida de todas as formas possíveis, não deve fraquejar ou abalar-se, sem direito à tristeza ou ao recolhimento. Tamara Beauboeuf-Lafontant faz uma avaliação precisa dos malefícios da perpetuação desse estereótipo: “o conceito de força associado à mulher negra esconde aquilo que acredito que seja sua verdadeira função: defender e manter uma ordem social estratificada ao ocultar as experiências de sofrimento, os atos desesperados e a raiva da mulher negra”. Negar-se a ser a “mulher negra forte”, permitir-se sentir e fraquejar, é um ato de resistência.

No texto “Nós negros não morremos só de tiros: tenho depressão” de Stephanie Ribeiro para a Afronta, ela resiste. “Ser forte não é bom para mim enquanto mulher negra. Pois ser forte é negar minha humanidade. Essa cobrança da mulher negra que não sente e lida bem com tudo é resquício da ideia que somos mais objeto do que gente. Existem dores na minha alma que me fazem querer chorar e ficar só. E sobre isso, é bem mais complexo falar, mas preciso me permitir apenas ‘Sentir’”.  

Doar-se – e ainda mais de forma obrigatória, diária, como forma de opressão e não de expressão afetiva – é exaustivo. Não é à toa que estamos esgotadas, como essa tirinha da quadrinista francesa Emma exemplifica muito bem. A exigência de trabalho emocional tão grande – seja no emprego, na vida familiar ou até mesmo nas amizades – nos sufoca, quando deveríamos ser dedicadas, de forma espontânea, apenas àqueles que queremos bem. A disponibilidade emocional deve ser tudo, menos tóxica.

A acadêmica portuguesa Sofia Pracana, da Universidade de Lisboa, tem uma definição bonita do termo: “estar emocionalmente disponível é a capacidade de me ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada. É abraçar, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida”. A recíproca precisa ser verdadeira: a disponibilidade emocional só deve funcionar como uma via de mão dupla.

O feminismo assume, há décadas, a tarefa de quebrar estereótipos sobre a mulher. Há quem diga que a próxima grande revolução feminista terá como objetivo nos desvincular, de uma vez por todas, da obrigatoriedade de estar sempre disponível. Não entenda mal: somos fazedoras de laços e isso, para muitas, é prazeroso. Mas não podemos cair na armadilha de aceitar que isso é nossa obrigação – e apenas nossa. Todos perdem com isso.

Precisamos, urgentemente, ter um tempo de recolhimento. Precisamos ter o direito de, às vezes, simplesmente não estar ali.

Maíra Liguori é diretora da ONG Think Olga e criadora do projeto Olga Esporte Clube. 

Arte: Chloe Cushman para o The Guardian

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