Sobre thinkolga

olga fearless

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Por que mulheres ganham menos do que homens? Não há uma resposta simples para essa questão. São vários os motivos que resultam na disparidade salarial. Muitos deles – como sexismo e preconceito – são questões mais duras, enraizadas, que exigem um trabalho em conjunto para serem derrubadas. No entanto, outro fator ganhou luz recentemente graças a livros, pesquisas, palestras e artigos jornalísticos e ele diz respeito só a cada uma de nós: o fato de não nos sentirmos à vontade para negociarmos, como fazem os homens.

Esse assunto grudou na minha cabeça ao participar de um debate sobre empreendedorismo realizado pelo Berlin Geekettes, grupo que celebra a participação das mulheres no mundo tech na capital alemã. Uma das participantes, que trabalha na área de recrutamento de uma empresa online famosa, disse: “por experiência própria, digo que mulheres nunca se dispõem a negociar uma oferta de salário. Às vezes, até tenho vontade de avisá-las quando oferecemos pouco para o cargo. Mas elas aceitam de primeira, sem nem tentar um diálogo”. É no mínimo surpreendente pensar que, como mulheres, enfrentamos batalhas pelos nossos filhos, maridos, amigos, projetos, chefes, por outras mulheres. E não cultivamos coragem na hora de brigar por nós mesmas.

O cenário do medo

Linda C. Babcock, criadora da Negotiation Academy for Women (sim, isso existe), e Sara Laschever são autoras do Women Don’t Ask (em português, “Mulheres Não Pedem”), livro com dados alarmantes sobre o tema.

  • Homens negociam 4 vezes mais do que mulheres. 
  • Enquanto 58% dos homens negociam o salário do primeiro emprego, apenas 7% das mulheres fazem o mesmo.
  • Homens definem negociações como “divertidas”. Mulheres as acham “assustadoras” e tão doloridas quanto “consulta em dentista”.
  • Pessimistas, quando as mulheres de fato negociam, pedem promoções menores do que homens (em torno de 30%).
  • 20% das mulheres afirmam nunca negociar, mesmo quando a situação lhes é favorável.

Esse medo tem algumas explicações. Mulheres têm receio de ganharem antipatia ao exigir um aumento. Isso infelizmente pode ser uma realidade: funcionárias decididas, com estilo de trabalho ousado ou objetivo, tendem a ser vistas como autoritárias, enquanto homens com as mesmas características são vistos como líderes. Uma situação “se correr o bicho pega…”. E o comportamento feminino natural de supervalorizar as relações acaba limitando as exigências, mesmo que merecidas, para evitar conflitos.

A falta de confiança também reprime qualquer potencial negociação, não apenas na hora de pedir um aumento, mas durante toda a jornada feminina de trabalho. Você alguma vez hesitou ao se candidatar para alguma vaga, pois achou que não era boa o suficiente? Não se sente merecedora dos elogios que recebe ao finalizar um projeto? Você não está sozinha. Que fique claro que essas sensações não são exclusivas das mulheres. No entanto, no ambiente de trabalho, são elas que sofrem mais com isso.

A questão, na verdade, é bem delicada. Quando o estudo do Women Don’t Ask foi divulgado, muitas o receberam quase como uma ofensa, como se fosse uma postura de culpar a vítima. Joan Williams, professora de direito da Universidade da Califórnia, escreveu em artigo publicado no Huffington Post: “e se, para cada programa voltado a consertar as mulheres, associarmos um programa de reestruturação do business tradicional, que dá vantagens aos homens?”. O fato é que é recente a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Ícones femininos no mundo dos negócios só se popularizaram nos últimos 20 anos. É natural que ainda haja muito o que aprender – ainda mais em um cenário que exige que nos ajustemos a ele, e não o contrário.

Existem aos montes na internet, textos cheios de promessas e soluções para o problema. E a verdade é que todos nós – independente do sexo – sabemos que devemos batalhar por um aumento ou uma promoção. Mas será que todo esse papo pode, de fato, encorajar as mulheres de alguma forma? A melhor motivação, achei em um artigo na Forbes, dita por Selena Rezvani, autora do livro Pushback: How Smart Women Ask – And Stand Up – For What They Want. “Um estímulo é relembrar que há outras mulheres observando. Em todos os cargos, claro, mas principalmente se você atingiu uma posição na diretoria. Saiba que existem outras mulheres mais jovens se espelhando em você. Por isso, deve prestar atenção ao exemplo que está passando: o de apenas aceitar o status quo ou de lutar pelo seus direitos”. 

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