Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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Ao encerrar sua fase de estrela teen da Disney, a cantora Miley Cyrus se desprendeu completamente da imagem pura e infantil para cantar sobre sexo e outros temas que ela considerava adultos. “Coming of age”: é assim que a mídia internacional chama a fase de amadurecimento de um artista que começou sua carreira ainda criança, como Miley. Em questão de processos, Miley fez o esperado dessa fase, que vem acompanhada de uma ação de marketing pesada, com novo álbum e novo visual. Mas a mídia e a opinião pública não aceitaram a versão adulta da estrela de Hannah Montana e, em meio a opiniões machistas sobre a artista, uma questão de preconceito e apagamento racial surgia, demandando atenção.

Muito frequentemente, esta nova era para os artistas brancos vem cheia de elementos apropriados da cultura negra que, em vez de traduzirem e homenagearem de fato a cultura em questão, vestem artistas brancos de estereótipos já atribuídos socialmente a pessoas negras, como a hipersexualização de corpos e a idealização da marginalidade. Logo, na leitura de Miley Cyrus, isso significou twerks e uso de drogas, tudo com o hip-hop como trilha sonora; já para o cantor Justin Bieber, significou aderir a dreads no cabelo, a um estilo mais próximo do rap americano de se vestir e até de fazer música, além de, é claro, firmar parcerias com rappers negros. Esta fase foi diretamente atrelada a atos irresponsáveis do, agora adulto, astro, incluindo uma prisão por dirigir bêbado.

Esta mudança de persona não é algo novo e, muitas vezes, pode acontecer de maneira sutil, como o amadurecimento de Justin Timberlake, que depois de sair de uma boy band formada por garotos jovens e brancos, com músicas dançantes sobre amor, trabalhou com o rapper e produtor negro Timbaland e passou a utilizar batidas de funk americano, jazz e até blues para falar sobre sexo. Quem percebeu essa tendência foi a cantora independente estadunidense Richey Collazo, que mostrou no Twitter exemplos também de com Britney Spears, Christina Aguilera e outros artistas fizeram o mesmo em suas fases de amadurecimento.

Em tempos de um governo que não apoia minorias nos Estados Unidos, Miley volta a renovar sua imagem pessoal e musical, dizendo, em matéria de capa da Billboard, que a música negra a impulsionou para o que ela agora julga ser uma imagem vulgar e que sua “redenção” será voltar a suas raízes, cantando pop e country. Tudo isso usando maquiagem e roupas leves e claras, quase uma personificação daquela ideia de mulher bela, recatada e do lar.

Este não é um questionamento sobre a liberdade sexual de Miley, mas sim de como ela e outros artistas brancos escolhem expressá-la, pois, em nome de sua própria liberdade, acabam colocando ainda mais amarras para pessoas negras, especialmente mulheres.

Mesmo recebendo slut shaming por seus rebolados e danças originárias da cultura negra, Miley foi mais presente e aceita no show business do que quando mulheres negras praticam a mesma arte. E elas quase sempre acabam sendo hipersexualizadas por isso. Um exemplo disso foi sua participação no VMA como uma cantora adulta. Depois da performance no VMA de 2013, ela foi convidada a apresentar a mesma premiação em 2015, enquanto a rapper Nicki Minaj usava as redes sociais para criticar a falta de indicações de artistas negros.

Hoje, Miley renega esta cultura, culpando-a por afastá-la do que agora acredita ser digno e respeitável. Assim, a cantora endossa a posição de marginalização e depreciação de mulheres negras, reafirmando que ser branca é mais culto, puro e recatado, ou seja, mais digno de respeito do público, já que é isso que ela busca atualmente.

Sendo a música e a cultura pop parte da formação cultural e de opinião do público de massa, é preciso se atentar para o racismo presente na indústria musical. A conversa sobre apropriação cultural não é uma proibição para pessoas brancas consumirem ou reproduzirem a cultura negra, mas sim um pedido de respeito a partir do entendimento de que o racismo existe e, por causa disso, existem batalhas para que esta cultura possa ser consumida sem criminalização. Mas, principalmente, para que artistas brancos reconheçam seus privilégios e não esvaziem a música negra em prol de seus interesses pessoais e comerciais.

Trazendo a situação para o contexto da música brasileira, a cantora Mallu Magalhães demonstrou, recentemente, o que é não reconhecer privilégios como artista branca performando música negra. O clipe da canção “Você Não Presta” foi considerado racista por movimentos e ativistas. Embora não tenha sido usada como um marco para a entrada da vida adulta dessa cantora (que ficou famosa aos 15 anos), a música é a primeira da divulgação do novo álbum de Mallu após a gravidez. Porém, quando a cantora dedicou, em rede nacional, uma música “pra quem é preconceituoso e fala que branco não pode tocar samba”, claramente se referindo às críticas que recebeu, demonstrou tudo menos amadurecimento e respeito à discussão sobre racismo na qual se viu inserida.

Para que Mallu entenda sobre a questão racial por trás da música que canta, é preciso sair do modo de defensiva, de proteger seu direito de cantá-la como se estivesse sendo tirado. É preciso ouvir. Como fez a sambista Beth Carvalho. Em entrevista para a Folha de São Paulo, ela fala sobre aprender e não repetir erros. “‘O Teu Cabelo Não Nega’ é racista. Martinho me chamou a atenção para isso. Eu já havia gravado quando entendi. Hoje, não teria gravado. Se Lamartine Babo errou, porque errar de novo?”

Para não errar de novo ou nem mesmo chegar a cometer o erro, é preciso atentar para a importância da empatia e interseccionalidade com as mulheres que saem prejudicadas por tais estereótipos. Como bem disse Audre Lorde: “eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”.

Para melhor entendimento e identificação deste processo de amadurecimento com apropriação cultural traduzimos os tweets de Richey Collazo:

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Texto original: 
Twitter: @richey_collazo 

Tradução: 
Think Olga
Ilustração e edição: 
Pri Ferrari
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A escritora americana Kate Schatz nem sabe dizer quando se tornou feminista. Para ela, o feminismo faz parte de sua experiência e vivência desde que se entende por gente – e não faz nenhum segredo disso. Foi natural, então, que pensasse em uma forma de compartilhar histórias de mulheres fantásticas – em geral, apagadas ou ignoradas pela história – em seu ofício. “Mulheres Incríveis” é a segunda obra de não-ficção de Kate, com recorte global; inclusive, na edição brasileira, publicada pela editora Astral Cultural, a fundadora da Think Olga, Juliana de Faria, contribuiu com mais quatro perfis: Maria da Penha, Debora Diniz, Sonia Bone Guajajara e Elza Soares. Entrevistamos a autora para conhecer sua relação com o feminismo e a importância de tornar a vida dessas mulheres conhecida em todo o país.

O que é ser uma mulher incrível (rad woman, no original)?

A palavra “rad” tem alguns significados diferentes; é uma gíria que traz diferentes maneiras de se dizer “muito legal” em inglês. No livro, nós usamos de uma forma meio engraçada, uma brincadeira com o fato de que as mulheres no livro são muito incríveis. Mas “rad” também é um diminutivo de “Radical”, o que pode significar algo poderoso ou que nunca foi feito antes. Então quando falamos dessas mulheres, nos referimos a pessoas que são muito legais, mas também fora do comum, que fazem coisas grandes e inesperadas.

Como surgiu a ideia do livro?

A ideia começou no meu primeiro livro, que se chama “Rad American Woman A-Z”, e a inspiração surgiu com a chegada da minha filha. Eu estava pensando muito em como é criar uma filha nesse mundo e as histórias que eu gostaria que ela aprendesse. E por aqui temos muitos livros alfabetizantes, que ensinam as crianças o ABC e eu pensei: ‘E se eu fizesse um livro como este, mas ao invés de animais ou frutas, eu usasse nomes de mulheres fascinantes da história?’. Então foi mesmo uma combinação de coisas as quais eu tenho paixão: feminismo, história, leitura para jovens… Quando apareceu na minha cabeça, eu pensei: ‘uau! esta é uma ótima ideia!’.

Você é uma escritora de ficção e esta foi a primeira vez escrevendo para jovens e sobre história! Como foi a experiência?

Quando eu tive a ideia, fiquei muito animada. Mas ao mesmo tempo, era um território novo, muito diferente. Eu nunca havia escrito para crianças e nunca havia escrito algo que não era ficcional. Então foi um ótimo desafio que eu fiquei feliz de aceitar. Mas no fim das contas, não sei se houve tanta diferença. Mesmo que estas histórias sejam verdadeiras, que não sejam ficção, ainda é tudo sobre contar histórias. Então, as mesmas ferramentas que eu uso como escritora de ficção, também uso quando estou escrevendo histórias sobre estas mulheres da vida real. A minha verdadeira intenção é tentar manter um público interessado e engajado com as histórias que estão sendo contadas por meio dessas mulheres.

E sua filha? Ela gostou dos livros?

Ah, ela ama os livros! Ela tem oito anos agora e é uma grande fã e muito orgulhosa. Quando o primeiro livro saiu, ela estava perto dos seis anos de idade e ainda não conseguia ler, então ela olhava e reconhecia o livro, mas não havia lido sem ajuda, ainda. E quando ela aprendeu a ler, houve um momento em que ela leu o livro em voz alta para mim e esse foi um momento muito emocionante.

Em algumas entrevistas, você mencionou que se divertiu muito durante a pesquisa para o livro. Gostaríamos de saber: como foi o seu processo de desenvolvimento e escrita?

A pesquisa para conteúdo histórico é difícil, mas incrivelmente divertida ao mesmo tempo. Para o Mulheres Incríveis, meu processo de pesquisa foi diferenciado pois, no primeiro livro, eu já tinha um conhecimento vasto sobre mulheres americanas na história, mas com esse eu não tinha tantos nomes específicos e eu não queria deixar muitas brechas. Então eu contatei pessoas de todo o mundo, amigos meus e amigos de amigos meus e perguntei a eles: que  mulheres, em suas respectivas culturas, eles gostariam de ver neste livro? Isso foi uma parte bem grande da minha pesquisa, para ter uma representação autêntica de pessoas em todo o mundo se identificassem. E foi isso, todo mundo deu ideias… e enquanto eu me aprofundava nas pesquisas, lendo muito e assistindo a todos os documentários e vídeos possíveis, acabei aprendendo muito sobre essas mulheres incríveis. Cerca de 40 histórias entraram no livro, mas eu pesquisei mais de 200 nomes antes de decidir quem incluir. Eu passava meu tempo lendo e vendo histórias sobre pessoas legais! *rindo*

Isso parece bem divertido, mesmo!

E agora, pessoas me mandam histórias o tempo todo por e-mail, Facebook, mandam links de mulheres e garotas fantásticas… As pessoas também vêm falar comigo em eventos, algo como “ei, você já viu essa ou essa pessoa?”. Eu sempre anoto essas ideias. Acabou se tornando uma parte bem importante do projeto.

Você tem alguma história favorita que gostaria de compartilhar com a gente?

Bem… eu acabei ficando muito ligada a todas as histórias. Sempre faço visitas a escolas, para conversar com os jovens, e acabo lendo sempre as mesmas histórias que fazem sucesso entre eles, são mais fáceis de ler em voz alta… e a história da Marta, essa fantástica jogadora de futebol brasileira, é sempre um sucesso… É engraçado, futebol é muito popular entre crianças aqui nos Estados Unidos, especialmente jovens meninas. Mas não é tão popular entre adultos. Há muitas meninas que jogam quando são pequenas, mas não têm oportunidade de jogar de forma profissional quando crescem. É tão incrível a reação delas quando ouvem falar da Marta, ficam muito empolgadas. Também gosto muito da história de Sophie Scholl, a jovem estudante alemã que foi uma das primeiras pessoas a falar publicamente contra Hitler. É uma história poderosa e muito triste sobre como é importante se posicionar em relação ao seu governo, o que com certeza é muito relevante para a gente até hoje.

A edição brasileira tem mais quatro mulheres incríveis, cujos perfis foram escritos por Juliana de Faria, fundadora da Olga. Você conhecia a história delas?

Fiquei tão feliz quando a editora brasileira sugeriu a inclusão de mais mulheres, fiquei tão feliz. Eu não era familiarizada com a história dessas mulheres, então fiquei tão emocionada em ler sobre suas vidas. Foi realmente uma ideia muito boa adicionar mais mulheres, foi perfeito. Fiquei bem animada em conhecer mais sobre elas. Quando soube da inclusão desses nomes, perguntei para alguns amigos brasileiros se conheciam essas mulheres, e todos ficaram tão empolgados quanto eu.

Muito bom! Bem, o tema agora é feminismo. A Olga é uma ONG focada em empoderar mulheres por meio da informação aqui no Brasil. Quando você soube que era feminista?

Eu não tenho uma memória específica sobre isso, embora quisesse muito ter. Minha mãe encontrou um pôster que fiz quando tinha 12 anos para um projeto de escola, basicamente fazer um pôster que me representasse. E o meu tinha diversas fotos, colagens e montagens, e no meio delas a palavra “feminista” escrita bem grande. Eu era bastante ativa politicamente quando era mais nova, mas isso me surpreendeu! Eu não lembro muito bem disso… lembro de recortar essa palavra para colocar no pôster, mas não lembrava que tinha colado nem que tinha feito isso aos 12 anos! Então, tenho o feminismo em mim há bastante tempo, claramente *rindo*. Desde pequena, era interessada em gênero e política. E sempre tive um conceito muito sólido sobre o que é ser mulher, e sempre pensava nisso, nas coisas que eu achava que não eram certas. Sou feminista desde sempre, acho!

O mundo mudou bastante nas últimas décadas em relação ao feminismo, mas queria saber o que é o feminismo hoje, na sua opinião.

Para mim, feminismo é muito simples. É acreditar na igualdade dos gêneros, mas também, o que eu sempre digo, é saber que ainda não temos essa igualdade. Vivemos em um sistema patriarcal, que desvaloriza de forma consistente as conquistas da mulher. Então, o feminismo está presente na forma que eu me posiciono no mundo, nos trabalhos que faço, em como educo meus filhos… E é algo que eu torno bastante público sobre mim, eu falo bastante sobre o tema, tenho uma camiseta, porque acho importante ter pessoas pensando e falando sobre isso. De certa forma, acho que muita gente ainda acredita que feminismo é um palavrão, e eu quero torná-la uma palavra legal. Todo mundo que acredita na igualdade de direitos deveria se considerar feminista. É uma grande parte da minha vida, em todos os sentidos.

Você poderia contar um pouco mais sobre seu projeto Solidarity Sundays?

Sim, claro! Solidarity Sundays é uma rede americana de ativismo fundada por uma amiga minha. Uma vez por mês, a gente reúne mulheres que cumprem ações políticas para descobrir novas formas de ativismo. É similar ao feminismo; muitas pessoas se identificam com as ideias, têm posicionamento, mas não se sentem ativistas de uma causa, não sabem como fazer a diferença. É uma forma de ajudar pessoas a encontrarem a melhor maneira de lutar, ao seu modo. Muitas pessoas usam a internet, por exemplo, como espaço para o ativismo. Isso é bom, mas também acho que as pessoas devem se encontrar em espaços offline. É por isso que começamos o Solidarity Sundays, que se encontra sempre em um domingo do mês. Há um ano, temos um grupo que se encontra na minha casa e se organiza para agir em diferentes causas, como a luta pelo meio ambiente, pela legalização do aborto. Logo depois da eleição [presidencial nos Estados Unidos], nosso grupo cresceu muito! *rindo* Tínhamos um grupo já grande no Facebook, com cerca de 700 pessoas, e depois das eleições esse número saltou para 1900! E temos cerca de 300 grupos ao redor do país, e em alguns outros países também, como Canadá, Áustria… Sempre são grupos de pessoas que se reúnem na casa de alguém. Escrevemos um kit de ações que podemos tomar, em diferentes cidades. Ligamos para representantes do governo, organizamos festas beneficentes para angariar fundos para organizações, participamos de marcas… mas muito das nossas ações focam, hoje, na política americana, como saúde, políticas anti-imigrantes, somos muito reativas a tudo que Donald Trump vem propondo. Estamos trabalhando bastante por aqui, é muito frustrante, às vezes. Sabemos que o resto do mundo olha pra gente e pergunta o que está acontecendo. *rindo*

Acreditamos muito no empoderamento feminino por meio da informação, ou seja, em mulheres contando suas histórias ou passando o microfone para que outras também compartilhem suas vivências, que é o que você está fazendo também. Como podemos empoderar ainda mais mulheres nessa missão?

Acho que há uma grande quantidade de formas de fazer isso e é extremamente importante. Artistas, por exemplo, tem um grande papel nisso, assim como vocês, jornalistas. Geralmente, fazendo com que todas as mulheres saibam que suas histórias são importantes e válidas. Artistas têm esse poder, seja no cinema, escrevendo roteiros para a televisão ou criando artes visuais, é essencial contar essas histórias. Jornalistas também tem essa responsabilidade de amplificar vozes. E também acredito que é essencial começar o mais cedo possível! Fazendo com que jovens meninas sintam que suas opiniões são válidas, que são interessantes e suas histórias devem ser contadas também, inclusive nas salas de aula. Elas precisam se sentir preparadas para fazer perguntas e respondê-las também. Encorajar essa cultura do compartilhamento, de trocar experiências, é realmente importante. Se isso não acontece, você acaba tendo mulheres adultas que não sentem que suas opiniões e histórias são válidas, e isso é ainda mais duro, né? Outro aspecto que pode ser importante é criar espaços seguros para mulheres conversarem e dividirem vivências, seja no espaço digital ou offline.

Nossa última pergunta é, claro, sobre recomendação de livros de outras mulheres incríveis?  

Oh meu Deus, eu consigo recomendar um milhão de livros! *rindo* Isso é muito difícil! Acho que vale dizer que há muitos livros que são similares ao Mulheres Incríveis, que contam histórias fantásticas sobre mulheres na história ou empoderam meninas… há uma escritora americana que gosto muito, que é Rebecca Solnit, que para mim é uma das pessoas mais brilhantes escrevendo sobre política hoje. Caramba, são muitas opções! *rindo* Acho que não vou conseguir pensar em mais agora, estou olhando para a minha estante agora e é muito difícil escolher uma só *rindo*.

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Quando o cantor Biel voltou à mídia, depois de um ano afastado por conta da repercussão do assédio que cometeu à jornalista Giulia Bressani, tinha um discurso na ponta da língua para se justificar: o assediador era, na verdade, um personagem criado para ganhar dinheiro. Na ocasião, a Think Olga identificou a existência do “personagem assediador”: quando um homem famoso não quer ser responsabilizado pelo que fez, diz que estava agindo de forma caricata, desconectada de sua real personalidade. Contudo, o inverso também acontece: às vezes, a “fama” ou conduta do homem serve de justificativa para todos os seus atos, gerando assim uma proteção, concebida pela sociedade e pela mídia, quando casos de machismo e violência de gênero vêm à tona. Tais acusações deveriam ser “esperadas” quando atreladas a alguns elementos estereotípicos de masculinidade – e são suavizadas pela opinião pública.

Recentemente, a entrevista de Washington Olivetto à BBC Brasil, em que o publicitário expôs opiniões machistas e objetificantes sobre as mulheres, foi defendida – principalmente entre seus colegas de profissão – que usaram a experiência de Olivetto para colocá-lo como um gênio inquestionável, buscando carta branca para suas declarações. Muitos chegaram a insinuar que as mulheres é que não haviam compreendido o que ele quis dizer, mas a verdade é que frases como “Porsche é melhor do que mulher que, diga-se de passagem, é excelente”, já deixam o posicionamento deste homem bem claro; a questão é que ele poderá manter este tipo de discurso, uma vez que a opinião pública seguirá encontrando maneiras de protegê-lo.

A “genialidade” de Woody Allen também o protege de acusações ainda mais graves: abuso sexual de sua filha adotiva, Dylan Farrow, quando ela tinha 7 anos. Mesmo sendo passivo de punição legal, ele segue sendo um diretor renomado em Hollywood. Seus filmes são lançados anualmente, com grande sucesso de bilheteria. Quando é lembrado por conta desse possível ato criminoso, seu nome geralmente vem acompanhado de um debate puramente teórico sobre separar a arte do artista, como se seus atos não tivessem implicações reais para pessoas reais. A denúncia de um abuso de menor não manchou sua imagem porque, há décadas, Allen sustenta em seus filmes a figura do homem confuso, tímido e divertido que seus espectadores associam a ele. Ao representar este personagem nas telas, o diretor também o performa na vida real. A imagem do abusador não condiz com a ideia que os espectadores tem de Allen, entre o genial e o excêntrico – e ele se aproveita disso.

A premissa do “tudo pela arte” é o que mantém Allen livre para continuar trabalhando enquanto deveria estar sendo investigado, assim como permite que Johnny Depp continue sendo adorado e conquistando papéis milionários em Hollywood. Depois das acusações de violência doméstica por parte da ex-esposa Amber Heard tornaram-se públicas, o ator continuou sendo defendido pela opinião geral sem mover um dedo para tanto. A reputação de Depp de “causador de problemas”, sustentada desde os anos 90, também acompanha a “aura excêntrica” colocada em seus personagens de fantasia, que criam empatia no cinema. Por isso, não precisou se esconder; seria perdoado e amado de qualquer forma.

Entre Depp e Amber, houve um acordo jurídico – e como já apontamos antes, não há nada de errado com o fato de um homem reconstruir sua vida após cumprir a punição que lhe coube, mas existe algo de preocupante quando tantas oportunidades são tão facilmente concedidas a homens que machucaram e sacrificaram mulheres com quem se envolveram. Ainda mais problemático é perceber que essas oportunidades mostram que a opinião do público sobre os acusados não foi abalada.

No caso do fotógrafo americano Terry Richardson, muitos famosos o defendem pela “honra” de serem clicados por ele. Assim, segue trabalhando em meio a acusações de assédio e abuso sexual de atrizes e modelos. Em 2014, uma vítima de Richardson contou ao mundo como ele forçou seu pênis dentro de sua boca e ele alegou que as fotos eram consentidas e que “estava bem consigo mesmo e isso é o mais importante”. A carreira dele permanece ilesa; ainda é um dos fotógrafos mais célebres do mundo, sendo considerado, no máximo, “polêmico” e “controverso”.

Mas não é só a genialidade ou a excentricidade que poupam homens de suas acusações. Um exemplo disso é o que aconteceu durante a participação do ator Alexandre Frota no programa Agora É Tarde, em 2014. Em rede nacional, Frota deu detalhes do estupro que cometeu a uma mulher negra, mãe de santo, a ponto de fazê-la desmaiar. Apesar da confissão evidente de violência, tanto o apresentador do programa na época, Rafinha Bastos, quanto a plateia aplaudiram fervorosamente, às gargalhadas. A narrativa de Frota endossa sua imagem perante a audiência: a figura do “pegador” tão descontrolado que se acha no direito de atacar uma mulher que lhe prestava um serviço. Uma atitude como essa é esperada de homens como ele, portanto, minimizada. Embora tenha recebido mensagens de repúdio ao seu ato, Frota participa da vida pública como se nada tivesse acontecido – e chegou a intimidar uma mulher que ousou dar nome à “pegação” pelo que era de fato: um estupro.

Outro homem que se beneficia do estereótipo de “pegador” é Charlie Sheen. Entre as denúncias feitas por mulheres que se relacionaram com ele, estão agressões físicas e psicológicas, ameaças de morte com facas e ordens de restrição; a atriz Brittany Ashland, que namorou o ator, chegou a levar sete pontos nos lábios após um ataque de fúria de Sheen. Mesmo assim, por uma década, ele foi um dos atores mais bem pagos da televisão ao estrelar a série Two And A Half Men, onde também interpretava a figura do conquistador. Sheen foi afastado, inicialmente, por questões de saúde – estava em reabilitação contra as drogas -, não por sua postura hedionda em relação a mulheres. Relacionamentos tortuosos e violentos são esperados de homens como ele, e não afetaram em nada sua carreira por décadas.

Enquanto a sociedade permitir que certos estereótipos – do ator hollywoodiano acima do bem e do mal até o pegador (e abusador) de mulheres – estejam protegidos pela opinião pública, não avançaremos nas questões de gênero. Primeiro, porque mulheres são muito mais penalizadas pelos estereótipos que são atribuídos a elas. E segundo, porque a partir do momento em que delitos e agressões sequer arranham a imagem desses homens, estamos apenas endossando comportamentos violentos em todas as esferas sociais.  Precisamos que todos sejam investigados e punidos por seus atos, independentemente de sua fama e sucesso.

[Esta é a última parte de nossa série de conteúdos especiais analisando a entrevista de Washington Olivetto e como seus discursos demonstram diversos problemas sociais e de gênero. Clique para ler as primeira parte e a segunda]

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[Este post faz parte de uma série especial de conteúdos sobre declarações do publicitário Washington Olivetto e como esse caso expõe diferentes problemas sociais e de gênero. Leia a primeira parte aqui]

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Quando Washington Olivetto, em entrevista publicada na BBC Brasil na última semana, comparou mulheres a Porsches e disse que “empoderamento feminino é um clichê constrangedor”, muitos vieram em sua defesa alegando que ele não sabia do que estava falando por ser um homem idoso. Aos 65 anos, Olivetto mostrou de fato ter completo desconhecimento sobre debate de gênero – sua opinião, no mínimo, encoraja a objetificação da mulher – mas isso não tem nada a ver com idade. Na verdade, parece muito mais provável que sinta-se confortável em pensar e se expressar assim por ter uma rede tão fiel de protetores que endossam seus atos. Isso nos faz pensar sobre um fenômeno que parece permear a vida do homem: a justificativa etária.

Os homens são perdoados por seu comportamento desde a infância. Quando jovens, são considerados “moleques” demais para prestar contas sobre o que fazem. Em maio de 2016, durante uma entrevista para o Ego sobre o término de um relacionamento, o cantor Biel disse: “Tenho 20 anos, sou uma criança. […] estou na fase de formar a minha personalidade ainda”. Uma semana depois, viria à tona o maior escândalo envolvendo sua carreira: o assédio à jornalista Giulia Pereira. Entrou em cena, então, o pai de Biel, naturalmente justificando seu comportamento violento… Com a juventude: “qualquer moleque faz uma palhaçada dessas”, disse ele ao Extra.

Aos vinte anos, homens não são mais crianças nem moleques. São plenamente responsáveis por seus atos, que podem ser passíveis de punição legal. É o caso de Justin Bieber. Apenas em 2013, o cantor canadense avançou aos socos em um motorista de sua limousine, pichou muros em São Paulo, agrediu um paparazzi… Tudo sem punição. Um ano depois, seria preso por dirigir alcoolizado. Autoridades na China e na Argentina proibiram a entrada de Bieber nesses países por suas atitudes irresponsáveis, mas para o resto do mundo, o astro está em fase de “amadurecimento” – sempre blindado pela justificativa de que homens amadurecem mais tarde e, eventualmente, seguem em frente.

Mas esse não parece ser o caso. Quando o homem envelhece e chega à terceira idade, seu comportamento é ainda mais endossado pela sociedade. Após o episódio de assédio com a figurinista Su Tonani, o ator José Mayer se justificou: “tristemente, sou, sim, fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas”. A desculpa soou artificial, uma vez que José Mayer tentou, em um primeiro momento, culpar a vítima por “confundir” o ator com seu personagem na novela – outra desculpa que parece recorrente, como já apontamos. Além disso, culpar “sua geração” por seu comportamento individual é tirar de si toda a responsabilidade pelo crime.

Ainda que José Mayer esteja mais próximo do estereótipo do galã de novela do que do homem envelhecido, a sociedade abraça de forma questionável a maturidade masculina. Dependendo de seu status social, profissão e fama, o homem idoso pode tanto ser considerado “gênio” ou “ultrapassado”; tudo depende da perspectiva de quem fala. No caso de Washington Olivetto, o público se divide entre ambos os estereótipos. Algo parecido – e em maior escala – acontece com o apresentador Sílvio Santos. A história de vida do dono do SBT tem tons quase míticos: seu talento natural como comunicador seria responsável pela ascensão social que o removeu de uma situação de pobreza e vulnerabilidade até se tornar um dos homens mais ricos e influentes do país. Contudo, mesmo constrangendo funcionárias em público e sendo gordofóbico e racista com suas convidadas, segue sendo considerado um gênio da comunicação.

Talvez seja necessário ressignificar o que é genialidade, afinal. Ser genial é enxergar as necessidades de seu próprio tempo de forma original. Ficar congelado naquilo que foi, décadas atrás, considerado aceitável, é mais parecido com nostalgia do que genialidade. E impede a sociedade de se desprender de discursos que não servem mais. E é neste tópico que seguiremos nossa discussão no texto de amanhã.

Enquanto narrativas violentas e objetificantes insistirem em se perpetuar, seja qual for a idade daquele que os propaga, é preciso continuar lutando. E se você gosta do nosso conteúdo e quer manter a Olga firme e forte, considere doar para a gente.

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É inegável que as declarações machistas do publicitário Washington Olivetto sobre publicidade voltada para o empoderamento feminino, em entrevista publicada na BBC Brasil na última semana, são absurdas. Sendo assim, elas merecem ser questionadas, debatidas e confrontadas. Ou será que não?

Enquanto um grupo tecia críticas ao publicitário nas redes sociais, outro argumentava que o que foi dito precisava ser ignorado, pois Olivetto seria “muito ultrapassado”, “muito velho” ou “muito homem” para opinar sobre o assunto nos dias de hoje; logo, não é merecedor da atenção ou da “audiência” dos leitores. Desse modo, ambos os lados acabaram criando uma alvoroço em torno do que foi dito, mas pouca reflexão que saltasse de suas bolhas individuais na internet. Pensando nisso, a Think Olga preparou uma série especial de reportagens sobre como esse caso expõe diferentes problemas sociais e de gênero, sempre, de certo modo, colocando mais empecilhos para denunciarmos práticas e falas machistas, e até mesmo violências contra a mulher. O conteúdo será publicado ao longo dessa semana.

Entendemos que, quando se escolhe “não dar audiência” a discursos como este, seguindo-se de uma lista de justificativas para tanto, dá-se mais um aval para uma voz negativa e machista na comunicação, que, de qualquer modo, será repercutida – a diferença é que, sem as vozes de feministas opondo-se ao que foi dito. Sendo assim, questionamos: como se opor a declarações e atitudes nocivas pode ser um problema? Como apontar que um indivíduo está perpetuando machismo e violência é uma forma de “dar ibope” e relevância ao que ele diz?

Muitas vezes, figuras políticas com narrativas violentas parecem tão irreais que também acabam sendo vistas como sendo insignificantes por causa do que dizem, merecendo assim ser ignorados. Mas, com esta premissa, Donald Trump, assumidamente assediador e abusador de mulheres, venceu a corrida para a presidência dos Estados Unidos no ano passado, assim como o deputado Jair Bolsonaro e seus comentários machistas, racistas e LGBTfóbicos também caminham para cargos mais altos no governo.

As falas de Bolsonaro são gravíssimas e reproduzi-las sem críticas, sem apontamentos, também pode ser perigoso. Mais ainda seria seguir gerando espaços para que este homem siga seu discurso de ódio disfarçado de opinião, como entendeu a organização do clube Hebraica, que o proibiu de palestrar após declarações homofóbicas

E, muitas vezes, até mesmo espaços considerados seguros para um grupo minorizado podem se mostrar hostis, principalmente quando o assunto é gênero. Nos três primeiros bem sucedidos anos do reality show sobre cultura de drag queens, RuPaul’s Drag Race, da Logo, pouco se questionou uma piada transfóbica que o apresentador RuPaul Charles – um homem gay e negro, com uma vivência muito diferente de Olivetto ou Bolsonaro – usava em todos os episódios, quando dizia que os participantes haviam recebido uma mensagem nomeada de “She-Mail”, trocadilho com “She Male”, uma maneira pejorativa de se dizer “mulher trans” ou “travesti” na comunidade LGBT americana. Até que a ex-participante Carmen Carreira, após assumir sua transição para mulher trans, decidiu expor o problema e confrontar o apresentador e a produção do programa sobre o termo, que, consequentemente, foi retirado. Para isso, Carmem precisou sair como uma vilã para fãs fiéis do programa, que já tinham o termo tão naturalizado que o viam “somente uma piada” que, supostamente, poderia ser facilmente ignorada.

Sabemos que a escolha de “não dar audiência”, para as mulheres, vem como um modo de defender-se de declarações não representativas e, principalmente, ofensivas, que podem vir de trolls da vida real ou na internet. Mas é importante considerar que uma declaração como esta, vinda de um homem muito respeitado e conhecido em seu ambiente de trabalho, é muito diferente do discurso de ódio polvilhado pela internet por trás de uma garantia de anonimidade. Ambos merecem ser denunciados e combatidos, mas por diferentes meios. O caso de Olivetto, na verdade, deve ser um combustível para educar e empoderar mulheres para que não aceitem ataques individualmente.

Não estamos falando de textos mal-intencionados que motivam aquilo que chamamos, em 2013, de clique de indignação. O foco desta conversa é debater sobre a reação da sociedade a discursos vindos de homens públicos, famosos e que assinam embaixo de suas posições controversas.

Não discordamos que exista uma posição de privilégio para homens como Olivetto, inclusive, criticamos a mídia que dá voz somente a esta persona, como quando apontamos a atitude da Folha de São Paulo, que adicionou em uma matéria que, inicialmente tinha somente a versão do cantor Biel, passando a conter aspas da jornalista Giulia Bressani, que foi assediada por ele e as consequências que ela e a editora que a defendeu sofreram, como a demissão do Portal IG. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que a luta por um mundo igualitário é contra estes privilégios é árdua.

Expor opiniões como estas, para depois desconstruí-las, faz parte disso. Não expor os erros na fala de Olivetto, para nós, vai contra a nossa premissa de empoderar mulheres por meio da informação e da educação, principalmente pois partiria de um lugar de privilégio onde se supõe que todas as marcas, todos os publicitários ou mesmo todas as mulheres, conseguem identificar sozinhos tudo de problemático em seus discursos. Ainda não podemos nos dar o luxo de nos omitir, caso contrário ninguém falará por nós.

Por isso, o fato de que a nossa organização irmã, Think Eva, que existe justamente para mudar a representação feminina na publicidade, tenha escolhido responder aos comentários de Olivetto não nos surpreende, somente nos orgulha. Mas a afirmação da importância desse posicionamento está nas reações positivas da publicação.

A vivência de Olivetto, sua idade, seus ideais, seus privilégios, seu trabalho…Tudo isso blinda os homens e torna mais difícil questioná-los. Mas nós existimos para criar um futuro diferente, onde as próximas gerações enxerguem uns aos outros sem preconceitos.  E por isso, não deixaremos pra lá.

E, para que possamos seguir o nosso trabalho, contamos com seu apoio! Compartilhe nosso conteúdo ou doe para a nossa ONG na Benfeitoria.

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Quando começamos a conversa sobre assédio de rua com a Chega de Fiu Fiu, em 2013, o tratamento dado pela imprensa às questões de gênero eram bastante diferentes, em especial no meio online. Uma busca do Google pela expressão “assédio sexual” levava a reportagens que mencionavam esse tipo de violência no ambiente de trabalho, mas pouco se falava sobre o contexto machista que permite que homens, em todas as partes do mundo, se dirijam a mulheres no espaço público de maneira ofensiva e opressora, como se tivessem o direito de opinar ou escrutinar nossos corpos. Nesses quatro anos de campanha, vimos não apenas o tema do assédio ocupar espaço na imprensa e nas redes sociais; como também o feminismo abraçar e encontrar diferentes vozes nas redes, que aprofundaram o debate e mostraram como é urgente ressignificar o retrato da mulher na sociedade, nos meios  de comunicação, nas relações interpessoais.

Hoje, vemos parte da imprensa aderindo a pautas sobre gênero ou às práticas dos nossos Minimanuais de Jornalismo Humanizado. Percebemos que o feminismo é uma pauta que surge com maior naturalidade nos espaços de conversa. Mas como mensurar os avanços e as transformações que a luta feminista provocou dos últimos quatro anos?

É impossível precisar quantas mulheres estão envolvidas no feminismo ou são contempladas e tocadas por suas pautas. Mas podemos contabilizar histórias que não foram esquecidas, nem silenciadas. Histórias como a de Cláudia Silva Ferreira, que sofreu violência duas vezes: primeiro, quando foi arrastada pelo carro da Polícia Militar em 2014. A segunda, quando foi retratada de forma desumanizada pela imprensa, seu nome esquecido, seus sonhos ignorados, sua identidade negada. Se tivessemos aceitado  o tratamento da imprensa à época, Cláudia poderia ter morrido anonimamente, em um dos tantos atos de violência sem sentido que atingem principalmente as mulheres negras e periféricas.

Mas status social também não é garantia de proteção às mulheres. Lembremos de Nigella Lawson, agredida em público pelo marido; Amber Heard, que foi agredida pelo então parceiro, Johnny Depp, e não apenas teve sua história duvidada e questionada, como perdeu papéis no cinema por ter denunciado sua história de abuso; a cantora Rihanna, que sofreu violência doméstica pelas mãos de Chris Brown pouco antes da cerimônia do Grammy de 2009, viu o ex-namorado comemorar no Twitter que estava livre de punições.

Sabemos que nossa luta faz avanços quando essas histórias não são esquecidas, quando a vítima não é silenciada, quando a mulher é levada a sério em seu testemunho. Como diz Virginia Woolf: “Uma feminista é qualquer mulher que diz a verdade sobre sua vida”. Mas é preciso coragem tremenda para dizer essa verdade.

Nos últimos quatro anos, colecionamos vozes que corajosamente contaram suas histórias. Queremos continuar esse trabalho, pois sabemos que as mudanças são lentas, graduais e não-lineares; basta prestar atenção nos direitos que estão sendo cerceados e manipulados nos últimos dois anos, alguns deles que considerávamos já conquistados, como a reforma trabalhista que pode permitir que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres, a dificuldade de denunciar violência mesmo com a Lei da Maria da Penha, a resistência à legalização do aborto. É preciso reforçar, todos os dias, que o silenciamento dessas vozes representa a perda de dignidade e até mesmo a morte de muitas mulheres.

Queremos que os próximos anos sejam de ainda mais conquistas e pluralidade de vivências. Queremos ver a mulher que opta pelo aborto livre dos caminhos escusos da ilegalidade. Queremos mais empatia. E direitos verdadeiramente assegurados.

Nos ajude a continuar lutando. Participe da nossa campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria e mantenha a luta da Think Olga acesa. Precisamos de vocês! #Olga4Anos

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Há alguns meses, enfrentei uma depressão ao lidar com traumas e questões profundas da minha história. Quem já passou por isso sabe o quanto custa para uma pessoa deprimida ser obrigada a se relacionar. Mas ao que parece, para as mulheres, nos trancarmos no quarto, nos escondermos sob o travesseiro, não querer ser gentil, social e cordata o tempo todo não é uma opção bem aceita. Se somos o esteio emocional da família, como podemos falhar?

Minha família, assim como muitas outras, tem sempre uma mulher responsável pelo bem estar de todo mundo. É nela que recaem as responsabilidades de cuidar de idosos e crianças, de reunir a família em eventos especiais, de socorrer um irmão ou uma sobrinha, de ouvir queixas e desabafos de quem quer que esteja precisando. Ela cuida de todos, menos de si mesma. E isso consome tempo, energia e espaço mental e afetivo.

Eu, durante minha fase depressiva, não tinha forças para estar disponível, não conseguia ouvir os problemas alheios. Simplesmente não conseguia. Mas como isso é possível? Como eu não estaria ali para os que eu amo? Uma culpa enorme, uma sensação de débito emocional tomou conta de mim. E essa culpa – assim como o pressuposto que sempre devo estar disponível – tem uma grande relação com o machismo que está profundamente enraizado em nossa sociedade.

Em 1969, o psicólogo John Bowlby criou um conceito inovador para a comunidade psicanalítica: a “teoria do apego“, que descreve a relação entre mãe e filho, a interdependência de ambos e as expectativas e consequências dessa relação. Apesar de trazer algumas ideias polêmicas para a época, o termo vingou – e aos poucos, estimulou a conversa sobre a ideia de disponibilidade emocional em todas as relações afetivas, não apenas na maternidade.

Mas afinal, o que é estar emocionalmente disponível para o outro? É aí que mora o problema: ao que tudo indica, para a parcela masculina do mundo, significa apenas estar presente (ou não) em um relacionamento. Para a mulher, a disponibilidade emocional é obrigatória em todos os campos de sua vida. Desde a infância, somos estimuladas a sempre acolher, cuidar e ouvir. Somos a parte da população que “sabe abrir o coração”, que “tem talento para falar de sentimentos”. Em um estudo profundo sobre disponibilidade emocional, publicado em 2005 por Rebecca J. Erickson, todas essas tarefas estão atreladas não ao sexo, mas ao conceito de gênero feminino que se estende séculos a fio. Não somos “melhores” em emoções: somos educadas para acreditar que sim. A pior parte nisso tudo? Essas construções culturais e sociais são exploradas por outros.

Na trilha do estudo de Bowlby, a pesquisadora Arlie Russel Hochschild publicou, em 1983, o livro The Managed Heart, que mostra como esses sentimentos “femininos” são comercializados e prometidos por empresas. Um exemplo de Hochschild são as companhias aéreas, que estampam o sorriso das aeromoças em todas as suas campanhas. A simpatia e a solicitude da comissária de bordo são tão garantidas quanto o lanchinho durante o vôo.

Mas estamos falando sobre emoções humanas, que são complexas e, geralmente, exigem muito de nós. Segundo pesquisas, trabalhos que lidam com muita dedicação emocional – Hochschild identificou mais de 40 tipos – são mais exaustivos a longo prazo, mas isso raramente é notado pelos empregadores. No estudo Gênero, Emoções e Produção Cultural: Uma Análise da Autoajuda Brasileira, a mestre em Antropologia Social Talita Castro menciona Hochschild para explicar porque isso recai principalmente sobre as mulheres: “quanto maior o status social da pessoa, mais suas emoções são levadas em conta; em contraposição, quanto mais subordinada, mais ela é institucionalmente chamada a atuar sobre seus estados emocionais”.

Vale dizer que a expectativa da mulher profissional como boa ouvinte e sempre disponível emocionalmente se repete em todas as camadas da sociedade: espera-se que nós sejamos professoras mais gentis, líderes mais maleáveis – caso contrário, somos chamadas de “endurecidas” e acusadas de perder nossa feminilidade para alcançar o topo. Na política, a expectativa é que candidatas sejam mais bem humoradas e afáveis (além, é claro, de inteligentes e capazes) do que os homens. A lista de tarefas invisíveis da mulher parece interminável.  

Nos relacionamentos conjugais, essa exigência se repete: quem nunca passou a noite escutando o marido ou namorado reclamar do trabalho? Ou tentou contornar e conciliar brigas dele com a família? Administrou seus rompantes de raiva? Esta desigualdade também pode ocorrer em casais homoafetivos, é verdade, mas a disparidade de expectativas impostas a homens e mulheres nesse aspecto não pode ser ignorada. Segundo Hochschild, “[…] as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom.” Ou seja, além de acolher, também nos cabe fazer a relação funcionar até os mínimos detalhes. Em um longo artigo do The Guardian sobre trabalho emocional e disponibilidade, a autora Rose Hackman menciona uma lista de afazeres exclusivos da mulher em um relacionamento heterossexual, que vai do planejamento do melhor momento para ter filhos até ser a referência de coisas perdidas pela casa.

Este desequilíbrio profundo também tem a ver como os homens são educados. São encorajados, desde cedo, a esconder seus sentimentos e muitas vezes represam angústia, raiva, dor e sofrimento para proteger sua “masculinidade”. Estudos já relacionaram esta incapacidade de lidar com emoções com violência, comportamentos obsessivos e compulsões, como por exemplo a objetificação feminina por meio da pornografia. Mas na vida familiar, a disponibilidade emocional do homem é mais do que um pressuposto para um relacionamento saudável: o estudo “Mais do que o provedor”, realizado na Universidade de Michigan, estabeleceu a relação entre a disponibilidade emocional paterna e o desenvolvimento de habilidades como a fala e a coordenação motora de bebês. Ou seja, essa tarefa é grande e importante demais para ser exclusiva da mãe, embora recaia ainda sobre nós.

A manipulação de emoções de forma desequilibrada – seja para se encaixar em um estereótipo ou perpetuá-lo – é prejudicial a todos, mas a uma parcela mais do que outra. Se queremos realmente entender o quanto essas cobranças fazem mal, é essencial fazer um recorte racial aqui: as mulheres negras são as maiores vítimas desse sistema.

Em nossa sociedade racista, onde a população negra é invisibilizada, explorada e solitária, é muito conveniente perpetuar o mito da “mulher negra forte”, como diz Meri Danquah: “Supõe-se que as mulheres negras sejam fortes – amparadoras, nutridoras, que curam outras pessoas […]. Supõe-se que a dureza emocional que é construída na estrutura de nossas vidas esteja ligada ao fato de eu ser ao mesmo tempo negra e mulher”.

No subtexto sinistro dessas expressões, está a convicção de que a mulher negra deve ter ainda mais disponibilidade emocional, uma vez que, oprimida de todas as formas possíveis, não deve fraquejar ou abalar-se, sem direito à tristeza ou ao recolhimento. Tamara Beauboeuf-Lafontant faz uma avaliação precisa dos malefícios da perpetuação desse estereótipo: “o conceito de força associado à mulher negra esconde aquilo que acredito que seja sua verdadeira função: defender e manter uma ordem social estratificada ao ocultar as experiências de sofrimento, os atos desesperados e a raiva da mulher negra”. Negar-se a ser a “mulher negra forte”, permitir-se sentir e fraquejar, é um ato de resistência.

No texto “Nós negros não morremos só de tiros: tenho depressão” de Stephanie Ribeiro para a Afronta, ela resiste. “Ser forte não é bom para mim enquanto mulher negra. Pois ser forte é negar minha humanidade. Essa cobrança da mulher negra que não sente e lida bem com tudo é resquício da ideia que somos mais objeto do que gente. Existem dores na minha alma que me fazem querer chorar e ficar só. E sobre isso, é bem mais complexo falar, mas preciso me permitir apenas ‘Sentir’”.  

Doar-se – e ainda mais de forma obrigatória, diária, como forma de opressão e não de expressão afetiva – é exaustivo. Não é à toa que estamos esgotadas, como essa tirinha da quadrinista francesa Emma exemplifica muito bem. A exigência de trabalho emocional tão grande – seja no emprego, na vida familiar ou até mesmo nas amizades – nos sufoca, quando deveríamos ser dedicadas, de forma espontânea, apenas àqueles que queremos bem. A disponibilidade emocional deve ser tudo, menos tóxica.

A acadêmica portuguesa Sofia Pracana, da Universidade de Lisboa, tem uma definição bonita do termo: “estar emocionalmente disponível é a capacidade de me ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada. É abraçar, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida”. A recíproca precisa ser verdadeira: a disponibilidade emocional só deve funcionar como uma via de mão dupla.

O feminismo assume, há décadas, a tarefa de quebrar estereótipos sobre a mulher. Há quem diga que a próxima grande revolução feminista terá como objetivo nos desvincular, de uma vez por todas, da obrigatoriedade de estar sempre disponível. Não entenda mal: somos fazedoras de laços e isso, para muitas, é prazeroso. Mas não podemos cair na armadilha de aceitar que isso é nossa obrigação – e apenas nossa. Todos perdem com isso.

Precisamos, urgentemente, ter um tempo de recolhimento. Precisamos ter o direito de, às vezes, simplesmente não estar ali.

Maíra Liguori é diretora da ONG Think Olga e criadora do projeto Olga Esporte Clube. 

Arte: Chloe Cushman para o The Guardian

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Quando falamos sobre a presença feminina no esporte como um ato revolucionário, seja aqui na Think Olga ou na Olga Esporte Clube, estamos jogando luz nos inúmeros obstáculos que a mulher encara até ocupar seu lugar na quadra. Muitas vezes, são desafios que digerimos de forma mais solitária: vergonha do corpo, insegurança com as próprias habilidades, falta de hábito. Mas e quando a prática esportiva é impedida pela violência externalizada, em grupo?

Na última semana, jogadoras de basquete amador foram hostilizadas, assediadas e ameaçadas pelo simples fato de quererem dividir o espaço público: uma quadra na Praça Rotary, no centro de São Paulo. Essas agressões não são novas: há meses, o grupo procura por um local de onde não fossem expulsas por outros times masculinos ou que tenha infraestrutura adequada. O conflito na praça, contudo, ganhou maiores proporções, uma vez que os jogadores pareciam ter entrado em um acordo com as basqueteiras – para ignorarem na semana seguinte, reagindo agressivamente à chegada delas. Um grupo de homens adultos impedindo que mulheres usassem a quadra por apenas um dia por semana não é uma agressão aleatória: é mais uma das numerosas provas que a presença das mulheres é sistematicamente negada nos esportes. Como apontou Joana Mendes, uma das integrantes do time, “a gente tem várias demandas que não são atendidas. Coisas muito básicas, como tênis feminino para jogar basquete. As marcas falam que não tem procura ”.

Em resposta à ofensa, o time das basqueteiras organizou um encontrão entre grupos de esportes femininos para que ocupassem o campo na noite da última segunda-feira. O evento #OccupyRotary reuniu dezenas de mulheres que só queriam jogar. O encontro chegou aos ouvidos, inclusive, de Magic Paula, uma das maiores jogadoras de basquete do Brasil. Somente com a persistência de Paula e daquele grande grupo de mulheres, os agressores, mesmo com uma desvantagem considerável em número, foram embora, não sem hostilidade e resistência.

No fim da noite, a sensação era de conquista e vitória – o que engajou ainda mais os times em quadra, rendendo disputas incríveis. Mas como garantir a segurança das esportistas em dias comuns, sem um grupo grande e pronto para fazer barulho? Em nossa pesquisa na Olga Esporte Clube, descobrimos de 57% das entrevistadas não fazem exercícios em lugares públicos por medo da violência (http://bit.ly/pesquisa-OEC).

Se, para as mulheres, praticar esporte em espaços públicos é um risco, esta é uma questão  governamental. Daniela Castro, Secretária Adjunta da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, esteve no #OccupyRotary e entende que a organização entre os grupos para o uso do espaço é um exercício de cidadania. Isso não quer dizer que seja fácil, mas existem algumas ferramentas disponíveis. Espaços abertos de lazer geralmente possuem canais de contato, desde a Secretaria até coordenadores individuais de parques e clubes. Daniela orienta que se busque essas fontes no minuto que a agressão ocorrer, mas também reforça a importância de chegar a um acordo de forma pacífica. E, é claro, também incentiva o “chamamento coletivo”: a ideia de que é possível, sim, pressionar e fincar pé com grupos de mulheres.

Não vamos voltar atrás. Afinal, como disse Roberta Magalhães, do Rachão Basquete Feminino, na noite de #OccupyRotary: “Se a gente quisesse ocupar a quadra o dia inteiro, a gente também poderia. A gente tá acostumada a receber o mínimo do mínimo do mínimo… Chega. Não concordamos mais com isso”.

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O assediador Biel não existe mais. Na verdade, ele nunca existiu. É o que garante Gah, como agora ele quer ser chamado. Ciente de que não conseguiria se desprender das acusações para seguir sua carreira, o cantor reaparece apontando que tudo, desde a agressão até o pedido de desculpas, foram feitos sob influência de um personagem.

Longe de ser convincente, um vídeo lançado por Biel para apresentar sua nova fase é uma tentativa desesperada de anular o passado ou fugir de suas responsabilidades. Mas falhou nessa missão, pois mostra para o público que o personagem inventado é, na verdade, Gah, que não só não está constrangido ou arrependido pelos seus atos no passado, como também os defende. A verdade é que nada apaga a #ViolênciaEmDobro sofrida pela jornalista Giulia Bressani, primeiro no momento do assédio por parte de Biel e depois por meio de todo tipo de retaliação sofrida, incluindo sua demissão do portal IG, quando fez a acusação e exigiu respeito no ambiente de trabalho. E toda a punição, jurídica ou de mídia, que o agressor veio recebendo desde então merece ser destacada, em um mundo em que homens se livram facilmente de acusações quando são famosos.

Mas, ainda que nos esforcemos para acreditar que qualquer personagem um dia tenha sido exigido de Biel em nome do sucesso, o questionamento principal a ser feito em um momento de redenção e evolução pessoal deveria ser: por que esta persona criada é um homem assediador e agressivo?

O currículo do ator José Mayer, veterano das novelas da Rede Globo, está repleto de personagens que demonstram um ciclo vicioso, de uma cultura que normaliza agressores, mostrando-os como “cafajestes” ou “mulherengos”, e vê o assédio como algo da natureza masculina. Não é a toa que ele acreditou que poderia sair ileso de uma acusação de assédio com a mesma desculpa do “personagem” e acabou demonstrando como funciona o gaslight na prática. Em sua primeira declaração sobre o depoimento da figurinista Su Tonani, denunciando o assédio nos bastidores da Rede Globo, Mayer alegou que a vítima estava fazendo confusão com seu personagem Tião, na época no ar na novela “A Lei do Amor”. Depois da péssima repercussão do caso, o ator, agora afastado de atividades na emissora, foi forçado a assumir o ato e pedir desculpas formalmente.

Este ideal de masculinidade ajudou a impulsionar a carreira de Mayer nos anos 80 e a de Biel atualmente, mas também foi responsável por manchar a imagem de ambos os artistas. A ideia de atribuir o assédio a um personagem, como uma tentativa de reparar os próprios danos, pode não ter funcionado para melhorar as imagens de Biel e Mayer – mas está funcionando para construir a de Dudu Camargo.

Se hoje o jornalista e apresentador de 19 anos está sendo disputado por emissoras, a ponto de ter propostas para apresentar seu próprio programa de auditório, é por causa da proteção que o dono do SBT, Sílvio Santos, tem dado a ele. Dudu foi incentivado a assediar a atriz e apresentadora Maísa durante um dos programas do Dono do Baú. Com a justificativa de que deveria haver um romance entre os dois, Sílvio Santos transmitiu o #PrimeiroAssédio de uma menina de 15 anos em rede nacional.

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Maísa tem sido forte e resistente diante da insistência da mídia em reviver a briga que teve com Dudu nas gravações e nos bastidores do SBT, mesmo sem o apoio da emissora, para a qual trabalha desde a infância. Enquanto a imprensa divulga rumores sobre o fim da carreira de Maísa, o portal Comunique-se, especializado em comunicação e jornalismo, analisa o futuro de Dudu e o aconselha, para que ele aproveite seu potencial de apresentador, a não se “perder no personagem que ele mesmo está criando”. E aparentemente, o problema não estaria na misoginia desse suposto personagem, mas sim no “humor” dele, para que este fator não fique no caminho de notícias sérias.

Com uma persona que assedia sendo construída já no início de sua carreira, Dudu teria ainda mais facilidade de culpar um personagem por este ou mais atos agressivos que podem vir a acontecer, se nada for feito sobre isso imediatamente. Passar a ouvir a vítima ao invés de dar voz para justificativas como as de Biel, Mayer ou da mídia sobre Dudu, é um passo importante.

A atriz Maria Schneider nunca teve voz nos bastidores de Último Tango em Paris, tampouco foi levada a sério em um das suas últimas entrevistas, quando acusou o ator Marlon Brando, com quem contracenou no filme, e o diretor Bernardo Bertolucci de estupro por causa da cena conhecida como “cena da manteiga”. Somente em 2013, quando o diretor assumiu o crime, dizendo que havia combinado a cena com Brando sem avisar Maria, o caso tomou a atenção que merecia. Porém, nada aconteceu com Bertolucci, que buscou justificar o crime dizendo que o cometeu em nome da arte, pois queria ter a reação de Maria como mulher e não como atriz.

O que os homens da vida real querem provar ao falar de seus personagens machistas, vai muito além de suas próprias condutas. Estes argumentos podem colocar as mulheres que os denunciam como loucas e assim continua os livrando de punição. Mas, embora tentem, eles nunca vão anular o fato que o assédio ou agressão sofridos são reais e existe punição.

Para continuarmos lutando contra assédio e violência de gênero, participe da nossa campanha de financiamento coletivo recorrente na Benfeitoria e ganhe recompensas! Saiba mais: bit.ly/OLGA-na-benfeitoria.

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Aqui na Olga, apesar de entendermos o quanto a construção da masculinidade está intimamente relacionada à desigualdade de gênero que nos afeta, a gente não costuma falar sobre homens. Mas, nesses 30 Dias por Rafael Braga, e diante de tantas injustiças que têm nos impactado recentemente, é difícil não refletir sobre a quem serve a justiça no Brasil e no mundo – e como raça, gênero e classe fazem parte dessa conversa. Ao relacionar a anulação do julgamento do estuprador em série Bill Cosby e a absolvição de Jeronimo Yanes, policial que covardemente assassinou o homem negro Philando Castile diante de sua namorada e da filha dela, o site Fusion trouxe uma afirmação que ressoou forte em nossos corações: “O sistema não está quebrado. Está funcionando exatamente como planejado”.

Existe uma dissonância fatal entre ideia que temos de justiça e como ela funciona na prática. Talvez o nome gere a confusão. Afinal, por justiça, de grosso modo, entendemos a distribuição adequada de responsabilidades, compensações e penalidades entre os indivíduos envolvidos em determinada situação. Na prática, esse equilíbrio é corrompido a favor de grupos historicamente favorecidos – a saber, homens brancos – ainda que homens negros por vezes ainda recebam algum privilégio de gênero quando este fator está envolvido, como nos casos de Bill Cosby e do diretor de cinema Nate Parker, acusado de estupro e também inocentado.

Apesar de tudo, nada disso é surpresa quando pensamos que essa injustiça encontra espelho nas indignações seletivas, que refletem a profundidade das diferenças estabelecidas entre grupos dominantes e minorizados. É o caso da comoção em torno da morte do estudante Otto Warmbier, preso na Coréia do Norte por roubar uma placa em um hotel do país e condenado a 15 anos de trabalhos forçados. Ele voltou aos EUA em coma e faleceu dias depois. O governo da Coréia afirma que ele foi acometido por botulismo, mas a família rejeita a versão. De toda forma, o caso revoltou americanos e o presidente Trump chegou a insinuar intenções de guerra contra o país, que também possui armas nucleares.

Ainda que não se esvazie a barbaridade da morte de Otto, certamente o fato de ele ser branco e de família influente tem um papel na comoção em torno do caso. É como se apenas com a morte de um jovem branco a opinião pública tenha encontrado motivos para se revoltar contra o regime totalitário que vitimiza o povo norte-coreano há décadas, quando o próprio fato de visitar o país é uma forma de apoiar o governo – afinal, a viagem ajuda a financiar e legitimar a barbárie. Em 2015, o filme A Entrevista, estrelado por Seth Rogen e James Franco, repleto de piadas racistas, fazia troça do país, apesar do clamor e críticas de ativistas asiáticos sobre a gravidade de transformar uma sangrenta ditadura em motivo de risada. Enquanto só padeciam asiáticos, tudo bem fazer piadas e tentar roubar “souvenirs” do regime de Kim Jong-un. Mas, quando esse mesmo regime mata um menino branco, só então eles foram longe demais?

Um silêncio ensurdecedor e uma perigosa relativização se manifestam também quando pensamos em nomes como Claudia Silva Ferreira, Sandra Bland, Rafael Braga, Philando Castile, Kalief Browder, Jandira Magdalena, Charleena Lyles e de tantas outras vítimas de estados que, para quem difere em cor de pele, gênero, orientação sexual ou classe, são tão ou mais cruéis que a Coréia do Norte, mas que se escondem sob um véu democrático que aplaca críticas e dissidências.

O que vivemos hoje, em termos de disseminação de informação, não tem precedentes na história e, apesar de muitas conquistas, estamos apenas começando a descobrir o alcance do nosso poder. Dizer os nomes dessas pessoas, preservar suas memórias, suas verdades e suas histórias deve ser o nosso compromisso. Se olharmos para os dados, para os números, para o sistema, a desesperança toma conta. Mas, se olharmos uns para e pelos outros, nos enchemos da certeza de que as nossas vozes têm poder e, juntas, não podem ser ignoradas.

Foto: New York Magazine, para reportagem especial com 35 mulheres denunciando Bill Cosby.

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