Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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No rastro da repercussão do manifesto das cem artistas e intelectuais francesas na defesa pela liberdade dos homens de “importunar” as mulheres, a escritora e crítica de arte Catherine Millet, uma das signatárias do texto, deu uma entrevista ao jornal El País, no último sábado (12). Mais uma vez, ela usa de sua visibilidade midiática e do perigoso apoio de uma imprensa mais preocupada em clicks do que em informar, para ratificar um discurso que banaliza a violência sexual e faz apologia ao estupro.

Nós, da Olga, defendemos que todas as mulheres tenham o direito de expressar sua opinião, ainda que discordemos dela. Mas, também acreditamos que, quando essa opinião pode custar a vida de outras tantas mulheres vítimas do machismo, é nossa responsabilidade nos manifestarmos e, acima de tudo, passar a informação correta e bem fundamentada. É por isso que comentamos, abaixo, os pontos mais preocupantes da entrevista de Catherine Millet.

Nossa missão é empoderar mulheres por meio da informação. E ela pode salvar vidas.

“Lamento muito não ter sido estuprada, porque assim poderia provar que um estupro também pode ser superado”

A declaração de Millet, que na entrevista ao El País justificou como uma “formulação um tanto cômica e sem reflexão”, foi dada em dezembro do ano passado, no programa “À voix nue”, da rádio France Culture. Na ocasião, a apresentadora Raphaëlle Rérolle questionou a escritora por afirmar que um estupro não é doloroso o suficiente para causar traumas, dizendo, inclusive, que só seria uma violação do corpo se a vítima fosse virgem. No coração de seu argumento está o fato de que, para ela, durante um estupro, o agressor se apropriaria apenas de um corpo e não de sua consciência. “Se a violência desse ato tivesse me transtornado, acredito contar com a capacidade moral suficiente para superar esse fato e tentar esquecê-lo. Essa é minha resposta pessoal”, ratifica ao El País.

A Millet falta empatia e sobram privilégios. Partindo da realidade de uma mulher que pode se beneficiar de todo o tipo de tratamento para curar qualquer tipo de trauma, é bem possível que ele seja realmente superado. Que a experiência de ter sido estuprada fique, simplesmente, para trás. Para a maioria das vítimas, no entanto, essa não é uma possibilidade. Especialmente no Brasil, onde 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) — sendo 15% desses estupros sendo feitos por dois ou mais agressores. Dados que corroboram com campanhas da Olga, como a campanha #primeiroassedio, que convidou mulheres a contar a história da primeira vez que sofreram assédio. Ao reunir as 3.111 histórias compartilhadas no Twitter, constatou-se que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

Para além das consequências físicas, como gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, as vítimas de estupro têm de conviver com inúmeras consequências psicológicas. E não somos nós que estamos dizendo. Segundo o Ministério da Saúde, um estupro pode causar danos à saúde mental da vítima, como ansiedade, depressão, sentimentos de medo da morte, sensação de solidão, vergonha e culpa, transtornos da sexualidade – incluindo vaginismo, dispareunia, diminuição da lubrificação vaginal e perda do orgasmo, que podem evoluir para a completa aversão ao sexo. Em muitos casos, chega ao suicídio. Não à toa, a violência sexual é considerada uma questão de saúde pública no Brasil e na maior parte do mundo.

“Há pouco tempo, li uma entrevista de uma advogada que havia sido estuprada quando jovem e que desaconselhava suas clientes a denunciar e processar, porque isso só te faz prisioneira do sofrimento. Salvo em casos em que haja consequências físicas graves, acredito que a mente consegue vencer o corpo.”

Falar de violência sexual exige não só respeito, especialmente às vítimas, mas, principalmente, responsabilidade. Uma informação errada pode colocar tudo a perder. Claro que ao ser vítima de um estupro, a mulher tem todo o direito de escolher fazer uma denuncia ou não. E muitas vezes elas são tão negligenciadas pelo Estado que decidem não passar por mais esse constrangimento e humilhação. Mas, de forma alguma, isso deve ser incentivado. Denunciar e processar o seu agressor são importantes para evitar que outros casos aconteçam. Para gerar dados e estatísticas. Para pautar políticas públicas. Para evitar que outras mulheres também sejam estupradas.      

“Elas (consequências psicológicas) existem para algumas mulheres, mas não para todas. É preciso deixar de pensar que a mulher é sempre uma vítima. Pode ser vítima desse ato num instante, mas também pode encontrar a capacidade de reagir…”

Durante todo o texto, Millet usa a sua experiência pessoal de mulher branca e privilegiada para justificar o coletivo. Em momento algum a escritora consegue criar empatia com a demanda de mulheres que não têm outra escolha que não seja pegar transporte público, que têm que sair de casa ainda de madrugada para trabalhar (portanto, física e psicologicamente vulneráveis), que não podem reagir a investidas de seus chefes porque são arrimo de família e, por isso, morrem. De medo, de agressões físicas, por suicídio. É, não deve ser fácil compreender experiências tão fora de sua realidade…

Falar sobre estupro não é nada fácil. Vivê-lo, menos ainda. Ainda mais quando sua história e dor são banalizadas e ironizadas. Pensando nisso, nós, da Think Olga, estamos preparando um manual que orienta vítimas, amigos e familiares e responde as principais perguntas sobre o tema. Acompanhe  nosso site e redes sociais que lançaremos em breve. E ajude a compartilhar informações que salvam vidas.

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Cem mulheres francesas, entre artistas, intelectuais e acadêmicas, lançaram um manifesto pelo direito dos homens de assediar as mulheres. Não, você não leu errado. Depois que uma série de acusações contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, no ano passado, encorajou outras vítimas de abusos e estupros em Hollywood a denunciarem os seus poderosos agressores, atrizes e intelectuais, como Catherine Millet, Ingrid Caven e Catherine Deneuve, se aproveitaram do interesse da imprensa pelo tema para publicar uma carta aberta, na terça-feira (9) pelo jornal Le Monde, pró-assédio e que deslegitima todo um movimento que, finalmente, tem dado às mulheres força e coragem suficientes para falar e conduzir suas histórias com as próprias mãos. São cem mulheres brancas, ricas, famosas e privilegiadas que, na contramão do feminismo, desprezam as vítimas de violências sofridas diariamente e defendem, pelos pobres e oprimidos homens, um espaço que, efetivamente, nunca deixou de pertencer a eles: o do poder. Inclusive sobre o corpo da mulher.

A declaração que abre o manifesto não poderia ser mais equivocada:

“Estupro é crime, mas tentar seduzir alguém, mesmo de forma insistente ou desajeitada, não é – tampouco o cavalheirismo é uma agressão machista.”

Opa! Como assim sedução insistente é algo aceitável? Se é algo insistente, não existe o consentimento, certo? Logo, se não há consentimento torna-se grosseiro, ofensivo, inadequado e humilhante, então não é algo aceitável. Conclusão óbvia: é assédio sim! E não é uma prática que apenas importuna as mulheres, mas também causa, comprovadamente, danos psicológicos, emocionais e de ordem prática em suas vidas, limitando seu direito de ir e vir como, onde e a hora que desejam. É triste e revoltante, em pleno 2018, ainda termos que explicar que assédio sexual é diferente de paquera. Em uma paquera, não é não. Viu como nem é difícil de entender?

“Os homens foram punidos sumariamente, forçados a sair dos seus empregos quando tudo o que fizeram foi tocar no joelho de alguém, tentado roubar um beijo, falado de coisas íntimas em um jantar profissional.”

A declaração grave e irresponsável ainda foi endossada pela jornalista Danuza Leão em sua coluna no jornal O Globo: “Toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana, pra ser feliz”. Talvez ela não saiba, mas se o homem usa do poder que possui para fazer com que a mulher ceda ao ato para uma realização pessoal, pode ser enquadrado como assédio sexual ou mesmo estupro. É crime. É caso de polícia. Está no Código Penal. São casos como os que levaram produtores, diretores e atores de Holywood a perderem seus empregos: há ameaça de demitir a funcionária que se nega a fazer sexo, há o oferecimento de um papel (ou um aumento) em troca de uma transa, há a tentativa de roubar um beijo ou de tocar no corpo da mulher. Não existe o querer da vítima no ato, ela apenas cede para não perder a oportunidade de trabalho ou sofrer maiores retaliações.

A nossa campanha Chega de Fiu Fiu divulgou um estudo online com 7.762 participantes, na qual 99,6% afirmou já terem sido  assediadas. E esse número é muito próximo do contado por pesquisas como da organização internacional de combate à pobreza ActionAid, de 2016, que mostrou que 86% das mulheres brasileiras ouvidas já sofreram assédio sexual. Cinquenta e cinco por cento das entrevistadas relataram ter sido assediadas na rua e 23%, no ambiente de trabalho.

O que elas chamam de flerte é ilegal em vários países. De 173 países analisados pelo Banco Mundial na pesquisa “Mulheres, empresas e o direito 2016”, pelo menos 95 abordam a violência física e sexual e 122, a violência psicológica, em suas leis.

“Mas é a característica do puritanismo pedir emprestado, em nome de um suposto bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação para melhor vinculá-los ao status de vítimas eternas.”

Vejamos o que o Dicionário Michaelis Online diz o que é puritano:

pu·ri·ta·no

adj sm

1 Diz-se de ou partidário de uma doutrina presbiteriana, muito rigorosa, cujo objetivo era a interpretação literal da Sagrada Escritura.

2 Diz-se de ou indivíduo que adota qualquer seita de rigor excessivo.

3 Diz-se de ou pessoa que age de forma austera, que demonstra respeito rigoroso pelos costumes; moralista.

4 Que ou quem não admite qualquer atitude liberal com relação a comportamento sexual.

É compreensível que a liberdade sexual seja uma bandeira tão defendida por essas mulheres. Foram elas que estiveram na linha de frente da revolução sexual, pela liberdade de dizer sim a quem desejassem. Hoje, uma de nossas bandeiras continua sendo a liberdade sexual. Mas a de ter o poder de dizer não e não sermos agredidas. Isso não é puritanismo. Ainda é sobre liberdade.

“O movimento #metoo resultou na imprensa e nas redes sociais em uma campanha de denúncias públicas e impeachment de indivíduos que, sem terem a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente no mesmo nível que infratores sexuais”.

A campanha #MeToo é muito mais que um hashtag. Embora tenha viralizado após a atriz Alyssa Milano convidar as mulheres a usarem as duas palavras nas redes sociais para compartilhar casos de assédio e estupro, a campanha começou há dez anos, com a ativista negra Tanara Burke. Sua organização sem fins lucrativos ajuda as vítimas de assédio e assédio sexual, especialmente meninas negras e pobres. De que forma as mulheres que assinam esse manifesto acreditam ser a melhor forma dessas pessoas denunciarem? Melhor que isso. O que faz elas, mulheres brancas, ricas e bem sucedidas, acreditarem que tem o poder de dizer qual a forma correta dessas vítimas procurarem ajuda? Campanhas como #MeToo são uma das poucas oportunidades dessas mulheres romperem anos de silêncio e dor. Os homens, ao contrário, ainda que denunciados (e muitas vezes comprovadamente culpados) tem a imprensa ao seu lado. E pelo menos cem mulheres francesas.

“Uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e apreciar ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma ‘vagabunda’ ou cúmplice do patriarcado. Ela pode garantir que seu salário seja igual ao de um homem, mas não se sente traumatizada por uma apalpada no metrô, mesmo que seja considerado um crime.”

Se é crime não tem a ver com liberdade. Ser apalpada no metrô, ter o corpo violado quando só se quer ir e vir, ser objetificada – em sua maioria, corpos de mulheres negras e pobres – não pode ser visto como elogio quando isso causa medo, angústia, dor e traumas. E, obviamente, quando isso está tipificado no código penal. Crime é crime e deve ser passível de punição. Isso é banalizar a violência sexual contra mulheres.

“Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além da denúncia de abusos de poder, prega o ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar”.

Como feministas, não nos reconhecemos em um movimento que acredita que denunciar abusos sexuais e estupros seja um erro, que acredita que criminalizamos o flerte, que legitima o status quo vigente do homem ter domínio sobre o corpo da mulher. Essa “liberação sexual” masculina que força a mulher a entrar nesse mundo sexual ainda criança nunca será nossa bandeira.


Imprensa não é só o mensageiro, é a mensagem

E nesse processo a imprensa tem papel fundamental! Se você é jornalista, é seu dever, diante de tantos casos de violência contra as mulheres, sair da sua zona de conforto da neutralidade e se aprofundar nas coberturas. Dentre as centenas de matérias sobre o manifesto, nenhuma teve o trabalho de contextualizar a notícia, sem levantar casos de estupro, de assédio. Por que não atrelar essa notícia com o número de violência contra mulher? O Minimanual de Jornalismo Humanizado da Think Olga é uma ferramenta que pretende ajudar de forma prática os profissionais dos meios de comunicação. Lembre-se: quando a imprensa se cala, se torna cúmplice.

E para você que acha que manifestos como esses enfraquecem o feminismo, fica o nosso recado: nós só ficamos mais fortes. Não tem mais volta.

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Evelyn Mendes mal havia encerrado sua palestra no BrazilJS, um dos principais eventos de javascript do mundo, e sua caixa de e-mail já estava lotada de mensagens machistas e violentas, muitas delas, ameaças de morte. O motivo — veja só a ironia — é que Evelyn havia falado no evento sobre a desigualdade e domínio masculino na área de tecnologia da informação.

Evelyn é uma mulher transsexual e, para os agressores transfóbicos, este fator tornou sua presença no evento ainda mais ultrajante. “Fui chamada de aberração e continuo sendo. Vira e mexe ainda mandam e-mail. Eles (os agressores) também têm meu nome de registro, pois é fácil de conseguir, e usam isso para me atingir”, contou em entrevista para a Think Olga.  

A programadora fez uma denúncia formal na Delegacia da Mulher em Porto Alegre, conta com uma advogada fornecida pela BrazilJS para acompanhar seu caso e aguarda decisão da justiça na área de crimes digitais. Enquanto isso, Evelyn segue levando sua experiência em outras palestras e dá continuidade a uma educação sobre machismo e como tal comportamento pode ser prejudicial. Principalmente para mulheres trans nas áreas da tecnologia.

Segundo Daniela Andrade, analista de sistemas na ThoughtWorks Brasil e membro do Grupo dos Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS), a agressividade que Evelyn sofreu na BrazilJS, infelizmente, se faz presente em diversas outras áreas do mercado de trabalho, o que contribui para a marginalização da imagem das pessoas transexuais e travestis. “O Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Aqui, 90% das minhas iguais estão se prostituindo. A sociedade brasileira trata travestis e transexuais como aberrações. A gente é assassinada, mas a culpa continua sendo nossa”.

Diante deste cenário violento e incerto, a II Marcha pela Paz, realizada em São Paulo no dia da Visibilidade Trans (29 de janeiro), teve como tema este ano “Sou trans, quero dignidade e emprego”. Renata Peron, assistente social e presidente do Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais (CAIS) de São Paulo, explica que os protestos da caminhada foram transcritos em uma carta e encaminhado para Câmara Municipal de São Paulo, para a criação de projeto de lei. A esperança é de conseguir cotas de 5% para pessoas trans em concursos públicos e dignidade no mercado de trabalho do estado, além de influenciar outros estados a fazerem as mesmas mudanças. Entretanto, com o cenário político conservador em que o Brasil está inserido atualmente, não houve muitas mudanças desde o pedido.

Contudo, Renata não desanima. “Queremos que o estado reconheça que tem uma dívida muito grande com as travestis e transexuais. Ano que vem tem eleições e os políticos vão precisar conversar sobre projetos de inclusão”, argumenta.

Ela também elogia a conduta da empresa contratante ao disponibilizar uma advogada para Evelyn, além do apoio da ThoughtWorks, onde Evelyn atuava antes do ocorrido: “É assim que diferenciamos as situações em que a instituição quer lucrar em cima da sua representatividade ou de fato a vê como um ser humano que merece respeito”, finaliza.

A partir dessa reflexão trazida por Renata, nós perguntamos à Daniela Andrade como uma empresa deveria agir para proteger seus funcionários trans, especialmente considerando que não há leis específicas na Legislação do Trabalho que assegurem seus direitos. Para ela, é preciso ir além da preparação para lidar com casos de transfobia, focando em criar um ambiente seguro para o profissional contratado.

É preciso entender as especificidades e particularidades da vida dessa pessoa. Além de seus desafios profissionais, há os desafios do restante de sua vida morando em um país com uma enorme transfobia institucional”, justifica Daniela. Listamos abaixo os apontamentos trazidos pela profissional e ativista:

A preocupação precisa estar presente desde o processo seletivo

“O processo seletivo precisa ser intencional, considerando que grande parte da população de travestis e transexuais não teve oportunidade para se especializar. Intencional no sentido de verificar se a pessoa demonstra no processo seletivo empenho, capacidade, força de vontade para superar os desafios colocados, ao invés de se focar apenas em relação à bagagem profissional e se a pessoa estudou nas consideradas universidades de ponta. Se o foco for esse, raramente teremos uma pessoa travesti ou transexual dentro das empresas”.

Leia mais: Mulheres e o mercado de trabalho: a primeira barreira é a entrevista

Acompanhamento técnico com inserção de mentor/coach  é fundamental

“Novamente a empresa precisa entender que esse profissional teve menos oportunidades que os demais ou que a grande maioria. De forma que é preciso compreender, juntamente com a pessoa, suas dificuldades e necessidades, entrando num acordo entre o que pode ser melhor para a empresa e melhor para o profissional, criando uma estratégia que atinja os objetivos de ambos”.

Garanta um plano de carreira

“Também é necessário um plano de carreira no sentido de verificar se os salários, os acessos às promoções de cargo são equânimes, a fim de que essa população não esteja sempre ganhando os menores salários, e ocupando os cargos considerados os mais subalternos sem qualquer possibilidade de ascensão dentro de um projeto justo e com regras objetivas, valorizando-se assim essa mão de obra”.

Eduque contra a transfobia

“É preciso instruir os funcionários da empresa – da recepção à diretoria – sobre o que vem a ser identidade de gênero e como respeitar essa população. É preciso, por exemplo, não constranger ou discriminar a pessoa que ainda não teve a oportunidade de corrigir judicialmente seus documentos, mas que necessita ser tratada pelo seu nome social, sem que seu nome civil seja exposto às demais pessoas na empresa. Da mesma forma, ser tratada pelo gênero que reivindica, se masculino e/ou feminino”.

Tenha um ambiente seguro

“Da mesma forma possibilitar que a pessoa utilize o banheiro e/ou vestiário de acordo com o gênero com o qual se identifica, lembrando que as necessidades são realizadas dentro de cabine privativa dentro dos banheiros, prezando assim pela dignidade constitucional a que essa população também deveria ter direito”.

Arte: Decue Wu.

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Compose

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Na sociedade machista em que vivemos, o mercado de trabalho pode ser nocivo às mulheres mesmo antes que ela conquiste sua inserção. O processo seletivo para uma vaga de emprego, e consequentemente a contratação, é mais difícil para as mulheres do que para os homens. E é possível afirmar isso com base, não só nas experiências individuais, como também cientificamente.

Um estudo divulgado em 2017 pela Universidade da Califórnia e pela Universidade do Sul da Califórnia revelou que elas são interrompidas durante entrevistas mais vezes do que os competidores do sexo masculino, o que pode causar estranheza, ansiedade e nervosismo nas entrevistadas. As mulheres costumam receber mais perguntas (em média, 17 para elas e 14 para os homens), as quais costumam ser intimidadoras e exigentes, as forçando a provar ainda mais sua capacitação. Já para os homens, quando são interrompidos, o interrogatório não é o mesmo. Pelo contrário: costumam ouvir algo “geralmente positivo e afirmativo”, segundo a pesquisa.

Diante deste cenário, superar a barreira da entrevista é uma vitória para as mulheres que buscam iniciar uma carreira, mas esta fase se apresenta cheia de medos e desafios, em vez de aprendizado e crescimento. Pensando nisso, a Think Olga elaborou este roteiro, em parceria com a ThoughtWorks Brasil, empresa de consultoria tecnológica que valoriza a contratação e o desenvolvimento de pessoas pertencentes a grupos minorizados. Listamos perguntas e práticas preconceituosas das empresas no processo de contratação que muitas vezes passam despercebidas, mas que representam desvantagem e desrespeito que não deveriam ser comuns ou aceitas pelas candidatas.

E, para explicar como agir diante de tais situações, contamos com a consultoria da advogada trabalhista Amarílis Costa, mestranda em Humanidades, Direito e outras Legitimidades pela FFLCH – USP, coordenadora Adjunta do Grupo de Estudos Ciências Criminais e Direitos Humanos do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e co-fundadora do projeto Preta e Acadêmica. Ela explica que, embora muitas empresas não sigam isso à risca, a decisão do entrevistador, do RH ou dos gerentes da empresa devem ser feitas mediantes somente às capacitações profissionais da candidata e não à questão de gênero, sexualidade ou raça. Inclusive, anexar fotos ou vídeos no currículo não é obrigatório – mesmo que por solicitação da empresa – porque a aparência física da candidata não pode ser um fator de avaliação na hora da seleção.

Tendo em mente que a conquista do trabalho é mais difícil para as mulheres, principalmente negras e transexuais, nossa proposta não é aconselhá-las a desistir de uma oportunidade ao primeiro sinal de preconceito. Mas sim como, justamente, identificá-los e agir contra eles de modo a garantir que esta barreira possa ser quebrada.

Além disso, ter uma entrevista segura e livre de preconceitos é um direito de todas.

“Por mais que não exista ainda uma relação de emprego estabelecida na entrevista, este ramo também é protegido pelo direito trabalhista e tem que obedecer a legislação”, finaliza Amarílis.

SEUS PLANOS DE ENGRAVIDAR NÃO SÃO DA CONTA DE NINGUÉM

Sim, a empresa precisa ser informada se a candidata tem uma doença que precisa ser tratada ou que a tornaria inapta para a função, mas não como critério de avaliação. Sendo assim, a questão sobre saúde não deverá surgir na entrevista de emprego. “A empresa pode precisar até de informações jurídicas na burocracia da contratação, como antecedentes criminais, por exemplo. Mas jamais perguntar diretamente para o candidato. Isso se confere em documentos e, em linhas gerais, não são questões pertinentes”, explica Amarílis.

Apesar disso, as perguntas feitas mais frequentemente para mulheres são sobre maternidade. Muitas empresas argumentam que precisam saber se as mulheres estão grávidas ou se desejam engravidar para avaliar questões como licença-maternidade. Ou ainda, se têm filhos e se a criação e saúde deles poderiam influenciar seus horários de trabalho. Mais uma vez, é importante lembrar que homens também têm filhos, mas a paternidade não fica no caminho da contratação da mesma maneira que a maternidade fica.

A intenção de maternidade não é algo que se possa prever em exames admissionais – a empresa não pode pedir atestado ou exame para comprovação de esterilidade ou gravidez na admissão. Além disso, perguntas sobre maternidade são consideradas pessoais, discriminatórias e proibidas, portanto você não é obrigada a responder.

SUA SEXUALIDADE NÃO MUDA O SEU DESEMPENHO

“Não influencia na capacitação da candidata. Não é de interesse da empresa. Não deve ser questionada”, Amarílis é direta sobre a questão, mas alerta que as empresas não deixam de “investigar” sobre a orientação sexual de suas candidatas, usando perguntas capciosas sobre hábitos e hobbies, onde a candidata pode deixar escapar suas companhias ou lugares que frequenta. Ainda que as respostas não digam mais sobre a sexualidade da mulher do que a própria afirmação dela diria, existe um julgamento lesbofóbico ou bifóbico envolvido.

Esta estratégia também é usada para descobrir costumes da candidata, como, por exemplo, se ela costuma beber ou frequentar baladas.  Amarílis alerta que a resposta da mulher costuma ter mais peso e afetar a decisão de contratação. “Existe um julgamento de caráter e social atrelado a esta pergunta, geralmente atribuído ao sexo feminino”, argumenta.

Dentro do que são consideradas perguntas pessoais, estas questões são proibidas pela legislação do trabalho, mas raramente punem o recrutador, pois a empresa argumenta ter feito perguntas leves, para descontrair. De qualquer modo, você não é obrigada a dar detalhes pessoais sobre sua vida. É importante ter atenção a perguntas pessoais que podem parecer somente parte de uma conversa descontraída.

VOCÊ É LIVRE PARA TER A RELIGIÃO QUE VOCÊ ESCOLHER

Segundo a especialista, não há nenhuma necessidade de responder perguntas relacionadas a crenças, mesmo quando a empresa é ligada a instituições ou trabalhos religiosos. “Não se pode, em momento algum, questionar valores  pessoais. E o primeiro deles é a fé”, destaca Amarílis.

Segundo dados da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça, entre janeiro e setembro de 2016, foram registradas 300 denúncias de intolerância religiosa, pelo Disque 100. Um aumento de 105% na comparação com o ano anterior. Porém especialistas acreditam que o aumento poderia ser ainda maior, considerando que dados do ano inteiro não foram consolidados e que nem todos denunciam as agressões sofridas. E, como outros problemas sociais no Brasil, a intolerância religiosa pode chegar também às empresas e seus processos de seleção.

Pensando nisso, como candidata, é preciso desconfiar de perguntas relacionadas a símbolos religiosos, tais como turbantes, escapulários, colares de contas ou hijabs, por exemplo. Elas sugerem que não só a religião está sendo julgada, como também a influência dela na vestimenta da candidata – o que costuma acontecer principalmente com as mulheres. Perguntas mais diretas como “qual sua religião” ou “quantas vezes na semana você frequenta a igreja” também são vistas pela lei como práticas ruins.  

Caso questionada, você pode recorrer ao seu direito de falar somente sobre suas capacitações durante a entrevista, respondendo com outra pergunta: “qual a importância dessa questão para o meu desempenho no trabalho?”

RACISMO É CRIME

Para além do gênero, o julgamento por aparência também é racista e elitista. Por isso, a entrada de uma mulher em uma empresa não pode, jamais, estar relacionada à sua disponibilidade de alisar o cabelo, por exemplo. “Existem alguns cargos e funções específicas que pedem algum tipo de alteração da imagem do empregado, como no setor da saúde, por exemplo. Porém, textura do cabelo, sendo algo natural da candidata, não cabe em tal exigência”, explica Amarílis.

E também nunca é suficiente destacar que a cor de sua pele não deve influenciar a escolha do avaliador e da instituição como um todo – isso porque, na prática, esta regra fundamental ainda não está sendo obedecida.

São recentes – em torno de 15 anos – as políticas públicas, como as cotas, que garantem a presença da população negra nas universidades brasileiras. E, embora existam resultados positivos, ainda há muito a percorrer até que exista igualdade nos meios acadêmicos e também, como uma extensão disso, no mercado de trabalho, como aponta a diretora executiva do Instituto ID_BR, parceiro da ThoughtWorks, Luana Genot: “O público negro, após essa inserção na universidade, não segue sendo absorvido proporcionalmente no mercado de trabalho, sobretudo no setor privado”. E essa tendência tem nome: racismo institucional.

Em 2016, uma campanha do Governo Estadual do Paraná viralizou por mostrar, de forma prática, como funciona o racismo institucional. Dois grupos de profissionais de RH foram expostos a um grupo diferente de imagens de pessoas em atividades do dia a dia. O primeiro grupo visualizou somente fotos de pessoas brancas, chutando que aqueles seriam gerentes, empreendedores e outros cargos de liderança. Já o segundo grupo visualizou as mesmas imagens, mas com protagonistas negros, e acreditou que eles fossem seguranças, empregadas domésticas e outras profissões comumente atribuídas a negros em um mercado de trabalho segregador.

De acordo com a Gerente Geral do Escritório de BH da ThoughtWorks Lisiane Rocha, mesmo quando a atribuição do cargo de uma pessoa negra, especialmente uma mulher negra, está clara, existe uma dúvida de capacidades, muitas vezes já na entrevista de emprego. “Em processos seletivos eu escuto com frequência que ‘essa pessoa precisará de apoio, não está pronta para exercer essa função e precisará de muito tempo para aprender’”, conta.  

Ela percebe a questão de raça institucionalizada neste tipo de pensamento, quando pessoas brancas expõem, durante a entrevista, suas possíveis dificuldades na atuação daquela vaga. “Fica aparente para mim quando observo outros processos seletivos onde candidatos brancos trazem os mesmos pontos de desenvolvimento, mas isso é tratado como “grande potencial de aprendizado”, observa Lisiane.

Em casos de racismo em entrevistas de emprego, existe a possibilidade do avaliador ou empresa serem apenados em outras esferas que não só a trabalhista, já que racismo é crime no Brasil. Amarílis incentiva a denúncia, mas  alerta que a candidata poderá encontrar dificuldades se não tiver provas. “Denunciar racismo no Brasil já é difícil e em caso de entrevistas, muitas vezes, não há testemunhas”.  

NÃO HÁ LUGAR PARA TRANSFOBIA

O mercado de trabalho para pessoas transexuais e travestis é tão escasso que não há dados estatísticos de quantas estão, atualmente, trabalhando no mercado formal. Contudo, sabe-se que a inclusão é urgente, pela situação de marginalidade social a que são submetidas e também considerando que 90% da população trans brasileira está na prostituição, de acordo com a estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Segundo a analista de sistemas na ThoughtWorks Brasil e membro do Grupo dos Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS) Daniela Andrade, mesmo algumas empresas que se dispõem a contratar pessoas trans não conseguem atendê-las já no processo de recrutamento, uma vez que possuem  pouco ou nenhum preparo sobre como lidar com documentação, além de nenhum controle sobre perguntas ofensivas e pessoais. “É muito comum ser perguntada sobre sua genitália ou sobre cirurgias de mudança de sexo”, relata Daniela.

De acordo com Amarílis, tais perguntas são transfóbicas e inaceitáveis em uma entrevista. “O tratamento de pessoas trans tem que ser alinhado com determinações de dignidade, então é amplamente inadmissível a exposição e a objetivação dessas pessoas”.

Infelizmente, enquanto ainda existem muitos constrangimentos, há poucas informações e proteção legal para pessoas trans. “Muitas mulheres trans nem sabem que podem enviar currículos com o nome que escolheram. Não é permitido na legislação trabalhista, mas também não é proibido. É nessas brechas que encontramos espaço para ocupar com as nossas identidades”, explica Daniela.

Quando se é uma mulher trans, há ainda a barreira de gênero, já abordada  aqui. Daniela fez um experimento que demonstra como a questão de gênero as afeta diretamente. Ela enviou, para as mesmas empresas, currículos assinados com seu nome de registro (masculino) e outros com seu nome social (feminino) e recebeu muito mais respostas com chamados para entrevistas com a primeira assinatura.

Apesar do cenário alarmante, que só pode ser resolvido com muita consciência por parte dos setores privado e legislativo, Amarílis traz uma visão positiva para o futuro das mulheres trans no mercado de trabalho: “A área jurídica também costuma trabalhar com a questão do costume. Se espera e se imagina que questões já pautadas e incluídas em ambientes educacionais, por exemplo, sejam aplicadas também pelas empresas”.

DEFICIÊNCIA NÃO DETERMINA APTIDÃO

Em se tratando de direitos trabalhistas para pessoas com deficiência, pode-se notar um cenário mais avançado quando os comparamos com outros grupos minorizados, como pessoas negras e transsexuais. Existe uma lei específica de cotas de contratação de pessoas com deficiência nas empresas dos setores público e privado. A Lei N° 8.213, de 1991 garante que a empresa com 100 ou mais funcionários está obrigada a preencher seus cargos da seguinte forma:

– até 200 funcionários = 2% de cargos para pessoas com deficiência.

– de 201 a 500 funcionários = 3% de cargos para pessoas com deficiência.

– de 501 a 1000 funcionários = 4% de cargos para pessoas com deficiência.

– de 1001 em diante funcionários = 5% de cargos para pessoas com deficiência.

Contudo, a analista de recursos humanos e recrutadora na ThoughtWorks Aneliz Silva, afirma que é preciso ficar atenta na maneira com que as empresas tratam o recrutamento de pessoas com deficiência. Muitas podem estar interessadas somente em preencher a obrigatoriedade das cotas, mas não em incluir ou adaptar suas instalações. “É possível perceber isso quando se aplica para uma vaga que não é dirigida para pessoas com deficiências. As empresas, muitas vezes, não têm nem mesmo a instalação necessárias para receber você”, explica Aneliz dividindo experiências que teve em função da própria deficiência.

Ela explica que, em função das cotas, a deficiência não afasta a candidata da oportunidade, mas a entrevista pode ser constrangedora quando o recrutador não está avisado e, principalmente, preparado para o atendimento. “O que se espera pela lei, é que todas as empresas tenham acessibilidade e a possibilidade de contratação diversa, do contrário, há discriminação”, diz.

Amarílis confirma e destaca que, mesmo no telefone para agendar a entrevista, muitas perguntas podem ser evitadas. “Existe a necessidade da empresa instrumentalizar o processo seletivo da pessoa com deficiência de maneira a não constranger o candidato. Quando a empresa precisa de alguma informação relacionada a locomoção, essas perguntas podem ser feitas em formulários. O ideal é que a empresa esteja preparada para contratar a pessoa que tenha a aptidão técnica, independente da característica física”.

Sendo assim, desconfie de perguntas feitas diretamente e, principalmente, as que colocam em teste a capacidade física da candidata de chegar ao local e utilizar as instalações da empresa. Na verdade, o contrário que deveria acontecer: como pessoa com deficiência, é importante questionar a empresa sobre esta acessibilidade como a ONU apontou, não são as pessoas deficientes, mas sim os ambientes que não estão preparados para recebê-las.

Por fim, entendemos que chegar à etapa final de um processo seletivo nesse mercado de trabalho cheio de fundamentos preconceituosos não é tarefa fácil para mulheres. Em pleno 2017, provar-se capaz não é suficiente. Ainda é necessário esconder nossa essência e nos sujeitamos a violências de diversas naturezas. Mas com informação e consciência, uma entrevista de cada vez, poderemos mudar esta realidade. Ao nos educarmos, educamos também a sociedade. Ao conquistarmos espaço, podemos trazer outras mulheres com a gente.

Arte: Ojima Abalaka.

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MulheresInspiradoras
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MulheresInspiradoras

O ano vem chegando ao fim e nós da Think Olga estamos com a sensação de dever cumprido: o de reconhecer e divulgar os trabalhos de mulheres inspiradoras em todo o Brasil. É igualmente um prazer reunir mais de 200 nomes nesta Lista de Mulheres Inspiradoras que tanto nos representam e nos orgulham. Publicamos a edição de 2017 com a esperança de que a lista possa ser um suspiro merecido neste ano desafiador, em que as mulheres, mais uma vez, revisitaram traumas causados por violência de gênero enquanto seguem desprotegidas de um governo conservador que quer reduzir ainda mais seus direitos sexuais e reprodutivos.

Não nos atrevemos a premiar ou classificar o trabalho das mulheres selecionadas, tampouco a assumir a tarefa – felizmente difícil – de citar todas as mulheres que inspiram coletivamente. Mas convidamos nossas leitoras, que são a principal inspiração para nossa luta diária, a conhecerem os nomes nessa lista, traduzidos não somente pela  pesquisa da jornalista da Think Olga Karoline Gomes, como também pelas colaboradoras Nana Soares, que trouxe seu vasto conhecimento em cultura pop; Marina Colerato, que contribuiu com seu conhecimento sobre meio ambiente e veganismo e Jéssica Ipólito que, pelo segundo ano consecutivo, nos apresenta mulheres incríveis que conheceu fora do eixo RJ-SP Brasil.

Das leitoras às colaboradoras, das apoiadoras às mulheres aqui listadas, deixamos o nosso muito obrigada e votos de força e sucesso em 2018!

* Os nomes são separados por categorias e em ordem alfabética.

Ativismo & cidadania:

Adriana Galvão e Márcia Rocha – Adriana é a presidente da comissão de diversidade sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e, depois de lutar por quatro anos, conseguiu, em 2017, a liberação nacional do uso do nome social por parte de advogadas e advogados transexuais a fim de garantir que estes profissionais sejam tratados com respeito e humanidade ao exercer a profissão. Depois da conquista, Adriana atua com outras instituições que querem implementar os mesmos direitos para profissionais de outras áreas. Também em São Paulo, Márcia Rocha foi a primeira profissional trans a conquistar o direito.  

Ana Lúcia Keunecke – Advogada de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e co-fundadora da ONG Mulher sem Violência, fez um relato sobre o estupro que sofreu durante um encontro marcado pelo aplicativo Tinder, em sua própria casa. Com sua história publicada na revista Marie Claire, Ana Lúcia, corajosamente, abriu um debate sobre cultura do estupro. Como ativista pelos direitos das mulheres, Ana Lúcia denunciou o Estado Brasileiro e seus parlamentares, por descumprimento de acordos internacionais que ferem a dignidade e liberdade das mulheres brasileiras, dos quais o Brasil é signatário.

Bartira Macedo de Miranda Santos – Bartira é, desde 1° de agosto, diretora da Faculdade de Direito, da Universidade Federal de Goiás. É a primeira mulher negra e nordestina a assumir o cargo, o que ela enfatizou em seu discurso de posse, ponderando a importância simbólica e política da sua nomeação. Bartira também defende um Direito atualizado ao século XXI, com foco na preservação de direitos humanos e das minorias.

Daniela Andrade – Analista de sistemas e membro do Grupo dos Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS), Daniela foi porta-voz da luta das mulheres trans no Brasil pelo direito da cirurgia de redesignação sexual. Sua participação no programa Estação Plural da TV Brasil, onde falou sobre esta e outras questões burocráticas para mulheres trans, também foi muito significativa para a comunidade e de conteúdo informativo valioso para o público em geral.

Dona Rosa e Raquel Carvalho – Quando saía de casa para prestar queixas na Delegacia da Mulher, Dona Rosa sofreu uma tentativa de feminicídio por parte do seu ex-marido, em Salvador, na Bahia, onde mora com a filha Raquel Carvalho. Ela levou seis facadas espalhadas pelo rosto, tórax e pescoço. Depois de passar pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Geral do Estado (HGE), Dona Rosa não desistiu da denúncia e acabou se tornando um símbolo de resistência. Além do apoio da filha, Raquel Carvalho, cuja história a Think Olga contou no documentário Chega de Fiu Fiu – O filme (a ser lançado em breve), Dona Rosa reuniu todo um movimento de mulheres negras, para acompanhá-la na audiência de seu caso, que se enquadra na Lei Maria da Penha, e cobrar justiça. O processo de Dona Rosa contra o ex-marido ainda corre na justiça.

Gordas em Cena – O ciclo de debates criado pelas ativistas anti-gordofobia Danubia Kessia Muniz, Flávia Nascimento, Milly Costa e Sandra Santos provocou o debate sobre gordofobia presentesnas relações raciais, relações de gênero e em outros marcadores sociais que se cruzam e colocam as pessoas gordas em determinados locais na sociedade. Durante todo mês de outubro, ocorreram discussões sobre gordofobia em suas mais variadas instâncias: conceito e prática, legislação, corpo político, infância, violência de gênero, maternidade, afetividade, mercado de trabalho, saúde, política, mulheres LBTs e transsexualidade, mídia e acessibilidade.

Hevellyn Pedroza – Hevellyn ficou conhecida de um jeito cruel: foi uma das “atrasadas no Enem” em 2015, ocasião em que passou mal e teve até que ser levada ao hospital. Ela faria a prova para conseguir uma bolsa de estudos no curso de Direito, que havia trancado por falta de condições financeiras. Mesmo não fazendo a prova, Hevellyn conseguiu o financiamento por outras vias e, hoje, no 5° semestre do curso, já sabe que quer se especializar em vítimas de cyberbullying. Neste ano, para que os estudantes evitassem a passar pelo que ela passou, no primeiro dia do Enem, Hevellyn formou um grupo de pessoas que foram às portas dos locais de prova para ajudar e incentivar quem estivesse atrasado, impedindo o acesso dos curiosos e das câmeras de TV.

Letícia Zenevich – A advogada brasileira de 28 anos trabalha para as ONGs Women on Waves (Mulheres nas Ondas), conhecida por fazer campanhas de barco para levar aborto a países onde o procedimento é proibido, e a Women on Web (Mulheres na Rede), um local seguro para obter informações e medicamentos para mulheres que querem abortar. Atua na Holanda respondendo e-mails e dúvidas jurídicas de mulheres que procuram ambas as instituições.

Maria de Lourdes da Conceição Alves (Cacique Pequena) – Primeira cacique mulher da comunidade Jenipapo-Kanindé, da aldeia Lagoa da Encantada, no interior do Ceará, figura expressiva na luta por  garantia do direitos à terra de seu povo ao lado dos Tapeba, Tremembém e Pitaguary. A Associação das Mulheres Indígenas Jenipapo-Kanindé é pioneira no Estado do Ceará por fomentar produção audiovisual etnográfica, em especial com temática indígena. A associação é responsável pela I e II Mostra Indígena de Filmes Etnográficos do Ceará, realizadas em Dezembro de 2015 e Abril de 2017. Além dos filmes exibidos na Mostra, com curadoria compartilhada, o povo Jenipapo-Kanindé organizou a formação de cineastas indígenas, que, no segundo ano do evento, também incluiu módulos em aldeias de etnias diferentes. Com essa ação, mulheres indígenas estão formando jovens cineastas, cujos aprendizados vêm de suas terras e seus familiares, fazendo com que as comunidades indígenas do Ceará se aproximem, se articulem e promovam a criação de redes colaborativas em cinema indígena e etnográfico.

#MexeucomUmaMexeuComTodas – Essa foi a reação das mulheres à denúncia de assédio sexual que a figurinista Su Tonani fez contra o ator Zé Mayer. Após o relato no blog #AgoraÉQueSãoElas, a figurinista foi desacreditada, demitida e processada pelo ator, que por enquanto encontra-se afastado da televisão. No mesmo dia da denúncia, as funcionárias da emissora vestiram a camisa contra o assédio, em um movimento que se disseminou para reafirmar que a culpa do assédio nunca é da vítima.  

Nara Baré – Francinara Soares Baré é amazonense, natural de São Gabriel da Cachoeira, e tornou-se a primeira mulher no comando da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a maior organização do tipo no Brasil, que abrange 60% da população indígena do país. Nara ingressou no movimento indígena enquanto cursava Administração na Universidade Estadual do Amazonas, que não concluiu para se dedicar à causa.

Pajé Zeneida Lima – Mantém à plenos pulmões a ONG Caruanas do Marajó Cultura Ecológica, na Ilha do Marajó, Pará. Desde 1999, o seu trabalho tem sido aprimorar a aproximação de crianças das comunidades com a cultura ancestral da região. Envolvendo ecologia, educação e cultura, o Instituto Caruanas hoje mantém uma escola de Ensino Fundamental no município de Soure, a “E.R.C Zeneida Lima de Araújo”, criada por meio de um convênio firmado com a Secretária Estadual da Educação, que possibilitou acesso à educação gratuita e de qualidade para cerca de 260 crianças do Marajó. Por ter uma história de vida repleta de encantos místicos, neste ano Zeneida foi tema de um longa-metragem dirigido por Tizuka Yamasaki, o registro em romance da vida de uma adolescente comum até se tornar pajé.

Patrícia Torrez – Advogada e integrante do Frente das Mulheres Migrantes, coletivo de mulheres imigrantes e brasileiras que reivindica maior equidade de gênero no contexto migratório, e coordenadora do coletivo Sí, Yo Puedo, movimento independente de acolhimento e orientação vocacional e profissional para imigrantes.

Rebeca Mendes Silva Leite – Estudante de 30 anos e mãe de dois filhos, Rebeca tornou-se símbolo da luta pela descriminalização do aborto no Brasil ao escrever uma carta aberta para a ministra do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal, Rosa Weber, pedindo o direito de interromper uma gravidez indesejada de forma legal e segura. A Anis – Instituto Bioética e o PSOL protocolaram uma ação no STF, para formalizar o pedido de Rebeca, que foi indeferido pelo STF. Inspiradas pela história de Rebeca, e, a fim de protegê-la da sociedade que julga e da justiça que criminaliza, divulgamos e fortalecemos seu nome e seu rosto por meio da hashtag #PelaVidadeRebeca. Rebeca, com apoio da Anis – Instituto Bioética e da ONG Profamilia Colombia, viajou para a Colômbia para participar de um evento onde falou sobre sua experiência de litígio no Brasil. No país, Rebeca aproveitou a oportunidade para realizar o seu aborto, uma vez que estava protegida pelas hipóteses de aborto legal colombianas.

Sônia Guajajara – Líder indígena e coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e coordenadora das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, subiu ao palco do Rock in Rio 2017, a convite da cantora Alicia Keys, para falar sobre os ataques à Amazônia e sobre a demarcação de terras indígenas na região.

Internacional:

Muzoon Almellehan – A ativista síria de 19 anos foi escolhida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) como sua embaixadora global. A nomeação de Muzoon é inédita: a primeira pessoa com status oficial de refugiado a se tornar um embaixador ou embaixadora do UNICEF. Muzoon fugiu do conflito na Síria com sua família em 2013, vivendo como refugiada por três anos na Jordânia, antes de se instalar no Reino Unido. Foi durante seus 18 meses no campo de Za’atari que começou a defender o acesso das crianças à educação, particularmente das meninas.

Saffiyah Khan – A ativista britânica ficou conhecida em 2017 por uma foto em que aparece confrontando um membro de um grupo de extrema-direita, durante um protesto contra imigrantes e refugiados em Birmingham, na Inglaterra. Na imagem que viralizou, o homem está visivelmente raivoso e Saffiyah responde com um sorriso. De acordo com a imprensa inglesa, no momento do clique Saffiyah impedia que o protestante gritasse com uma mulher usando hijab, se colocando entre os dois.

Ondjango Feminista – Mulheres angolanas se reuniram e fundaram o Odjango Feminista, coletivo autônomo de ativismo e educação em prol dos direitos humanos de todas as mulheres e meninas em Angola, lutando por uma agenda feminista transformadora, com focos estratégicos no combate à violência contra a mulher e pela garantia de saúde e direitos sexuais e reprodutivos, justiça econômica e exclusão social. Nas redes sociais, com o programa Vamos Falar, elas têm desempenhado um papel fundamental na difusão de opiniões feministas sobre atualidade e políticas analisadas por uma perspectiva feminista em que as mulheres tem sua vez e voz garantidas. O programa semanal  aborda vários temas que dizem respeito à sociedade, à economia e às mulheres. Ele é transmitido ao vivo, na página do facebook da Ondjango Feminista, todas às quartas-feiras, a partir das 15h (horário de Angola).

Women’s March – Em janeiro de 2017, as mulheres estadunidenses e residentes dos Estados Unidos marcharam em protesto à posse de Donald Trump, eleito presidente do país, por conta de seus discursos preconceituosos contra grupos minorizados e após ter sido acusado de assédio por diversas mulheres. As principais demandas pautadas na Marcha e, consequentemente, cobranças ao novo presidente foram as reformas nas leis de imigração, a garantia de saúde e direitos reprodutivos, os direitos para a população LGBTQ, igualdade racial, liberdade de religião e direitos dos trabalhadores.

Arte & Entretenimento:

Annie Gonzala – Annie é artista autônoma, especializada no grafite. Em seus murais, pinta as mulheres negras em sua beleza, força e seus amores, dizendo ser sua ferramenta para combater o racismo. Enquanto se firmava como artista, Annie descobriu um glaucoma em estágio avançado. Desde então, perdeu a visão de um olho e corre o risco de perder a do outro. Negra, lésbica, mãe e artista, não desistiu. Lançou a campanha “preciso de olhos para ser artista”, para arrecadar fundos para o tratamento. Conseguiu o valor necessário para o seu tratamento e em dezembro vai operar o olho.

Carol Duarte – A atriz fez sua estreia em novelas interpretando Ivan, um menino trans, em A Força do Querer, da Rede Globo. O personagem, que descobriu-se trans e fez a transição durante a trama da novela, trouxe a conversa sobre a transexualidade para o dia a dia, abordando, junto à identidade de gênero, questões como violência, aceitação e orientação sexual. Ao longo da novela, a atriz, que é lésbica, reiterou a importância de discutir o assunto e a esperança de que a visibilização do tema acarrete em menos violência. Atualmente, o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo.

Fernanda Grigolin – É artista visual, editora e pesquisadora doutoranda em Artes Visuais, na Unicamp. Por dez anos, foi ativista de movimentos sociais no Brasil e na América Latina. Esse ano lançou o projeto Arquivo 17, que parte do seu levantamento de pesquisa e documentação sobre o universo das pessoas trabalhadoras no Brasil no início do século XX, passando pela Primeira Grande Greve Operária, ocorrida em 1917. No campo expositivo, a artista privilegiou imagens de mulheres a partir de uma temporalidade feminista porque, apesar da Greve ter sido iniciada pelas pessoas do sexo feminino, há uma ausência imagética dessas mulheres, tanto nos contextos de rua quanto de reuniões daquela época.

Helen Salomão – Helen Salomão encanta e emociona com sua capacidade de registrar detalhes, cores, texturas e movimentos por meio da fotopoesia, como ela mesma descreve. Recentemente, Helen lançou o projeto Casa Corpo Pele Parede, que conta vivências de diferentes mulheres através do corpo, experiências marcadas na pele. Atualmente, a jovem fotógrafa mora em São Paulo e acompanha o trabalho da cantora Ellen Oléria. Esse ano, ela foi responsável pela beleza fotográfica no clipe da música Baiana, do rapper Emicida, além de outros trabalhos na área.

Karlla Girotto – Artista, professora e pesquisadora nas áreas de artes visuais e subjetividade, e Mestre em Psicologia Clínica, pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade PUC/SP, tem como principais eixos de pesquisa: modos de existência, como produção artística, linguagens artísticas híbridas e processos de criação e produção de subjetividades. Coordena o grupo de pesquisa e propostas estéticas G>E que gerou o projeto Ateliê Vivo no qual é colaboradora.

Laura CardosoUma das maiores atrizes do Brasil, Laura foi a primeira homenageada em pelo projeto Ocupação, do Itaú Cultural, em São Paulo, entre fevereiro e abril de 2017. Laura também se pronunciou com a repercussão do caso José Mayer, cobrando punição por parte da Rede Globo e afirmando “sou feminista desde criancinha”.

Lellêzinha – A cantora e dançarina do grupo Dream Team do Passinho estreou como apresentadora do Multishow durante a transmissão do festival Rock in Rio. Ao lado do seu grupo, também subiu ao palco do show da cantora Alicia Keys para performar uma das músicas ao lado da cantora.  

Luisa Dorr – Luisa é a responsável pelas 46 capas da edição Firsts, da revista Time. A fotógrafa gaúcha de 28 anos foi convidada pela revista por causa de seu Instagram e fotografou a maior série de capas da publicação utilizando o Iphone, e não as convencionais câmeras fotográficas profissionais. Fotografou personalidades como Elle DeGeneres, Oprah Winfrey e Selena Gomez.

Maisa Silva – A apresentadora do SBT inspira meninas e mulheres com suas atitudes e não deixa os comentários machistas saírem vitoriosos. Em junho, um episódio chamou a atenção: foi assediada pelo também apresentador Dudu Camargo no programa de Silvio Santos – apenas por não querer ficar com ele. Nos dias que se seguiram, enquanto ele ganhou publicidade, ela foi ameaçada de ficar na “geladeira” da emissora, mas não se calou e continuou defendendo sua liberdade e direito de escolha de ficar (ou não) com quem quiser.

Preta Rara – Depois de viralizar na internet no ano passado com a campanha #EuEmpregadaDoméstica, a rapper Joyce Fernandes, que atende pelo nome de Preta Rara, estreou na apresentação da websérie Nossa Voz Ecoa, um programa de entrevistas feito para o YouTube, cuja premissa é dar voz à mulheres e negros.

Taís Araújo – A atriz brasileira tem se destacado nos últimos anos por sua política de combate ao racismo e à discriminação racial. Em 2017, a luta rendeu importantes reconhecimentos para a atriz: foi nomeada pela ONU como Defensora dos Direitos das Mulheres Negras e, junto a seu marido Lázaro Ramos, foi uma das vencedoras do prêmio Most Influential People of African Descent, em Nova York. Na mesma edição, também foram reconhecidas a cantora Beyoncé e a escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Taís também começou o trabalho como apresentadora no programa Saia Justa, da GNT, onde pauta questões pertinentes às mulheres negras.

Hub das Pretas – O projeto, que envolve diferentes organizações e coletivos de jovens negras atuantes no combate ao racismo e sexismo em quatro cidades brasileiras (Brasília, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo) lançou, em 2017, a websérie Sonho de Preta Conta. Viviane Ferreira é quem dirige a websérie, fazendo também o roteiro juntamente a Larissa Fulana de Tal, duas cineastas baianas expoentes do cenário brasileiro. A produção dessa websérie contou com muitas outras mãos femininas.

Internacional:

Brie Larson – Premiada com o Oscar de melhor atriz no ano passado, Brie seguiu o protocolo da premiação e apresentou a categoria de melhor ator no evento de 2017. Contudo, na ocasião, escolheu não aplaudir nem cumprimentar o ator vencedor, Casey Affleck, em sinal de protesto contra o fato de que a Academia premiou um homem acusado, em 2010, de violência sexual por duas mulheres da equipe do filme Eu Ainda Estou Aqui. Sem poder ir contra a influência de Affleck, as vítimas nunca conseguiram levar o caso aos tribunais e o ator nunca foi julgado.  

Elisabeth Moss – Eleita no Emmy Awards como a melhor atriz de drama de 2017, por sua atuação no papel principal da série The Handmaid’s Tale, O Conto da Aia em português, baseada no romance de Margaret Atwood.

Lena Waithe – Atriz e roteirista norte-americana. Em 2017, fez história ao se tornar a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de Melhor Roteiro de Comédia, por conta do episódio Thanksgiving, da segunda temporada da série Master of None. O episódio é baseado em suas experiências de se assumir publicamente como lésbica. Em seu discurso de aceitação do prêmio, Lena reforçou a importância da diversidade por trás das câmeras e mandou uma mensagem às pessoas LGBT: “As coisas que nos fazem diferentes são super poderes. Todos os dias, quando vocês saírem de casa, ponham suas capas imaginárias e conquistem o mundo. Ele não seria tão bonito se nós não estivéssemos nele”.

Meryl Streep – Aos 67 anos a atriz americana recebeu o prêmio Cecil B. DeMille, entregue na cerimônia do Golden Globe, por realizações de sua carreira.

Octavia SpencerA atriz negra brilhou no cinema no ano de 2017, em Estrelas Além do Tempo, no papel de Dorothy Vaughn, e em A Cabana, no papel de Deus.

Tracee Ellis Ross – Em 2017, Tracee tornou-se a primeira mulher negra em 35 anos a ser premiada com um Golden Globe de melhor atriz de comédia. Ela também recebeu o NAACP Image Award na mesma categoria. Ambos os prêmios foram atribuídos à atriz de 44 anos por seu trabalho na série Black-ish.

Yoko Ono – A exposição O Céu Ainda é Azul, Você Sabe percorreu os quatro cantos do mundo em 2017, incluindo o Brasil. Além de convidar o espectador para participar de suas peças super interativas, Yoko também usou a mostra para falar sobre violência de gênero. Também em 2017, aos 84 anos, Yoko conquistou os direitos sobre a música Imagine, cuja autoria fora atribuída somente ao seu falecido marido, John Lennon, por 46 anos. A National Music Publishers Association fez uma cerimônia em honraria a Yoko para oficializar a documentação da música.

Ciência & Tecnologia:

Débora EmmUma das idealizadoras do Mappa, site que faz consultoria personalizada de conhecimento, oferecendo ao leitor artigos, filmes, documentários, livros, palestras, músicas, reportagens e podcasts online e gratuito sobre os assuntos que gostariam de aprender.

Evelyn Mendes – A fim de promover igualdade de gênero na área da Tecnologia da Informação, a analista e desenvolvedora Evelyn Mendes trabalha para ensinar mulheres a construírem seus próprios sites e as incentiva a adentrar neste mundo. Natural de Porto Alegre, Evelyn viaja todo o Brasil palestrando sobre Java Script, PHP, SQL, Asp.Net, Ruby e outras terminologias técnicas, além de sempre levar um recorte de gênero em suas falas. Em setembro deste ano, depois de sua palestra na BrazilJS, um dos principais eventos de javascript do mundo, Evelyn passou a receber ataques machistas e transfóbicos via redes sociais e e-mail, incluindo ameaças de morte, por parte de alguns participantes. Ela agora enfrenta, publicamente, uma batalha judicial para punir seus agressores.  

Fernanda Werneck – Aos 35 anos, a cientista goiana é a mais jovem  vencedora do prêmio Para Mulheres na Ciência (uma versão nacional do International Rising Talents), por seu trabalho sobre impacto do aquecimento global na vida animal. Fernanda é doutora em Biologia Integrativa, pela Brigham Young University (EUA), mestre em Ecologia, pela UNB e ex-bolsista do Jovens Talentos, do programa do governo Ciência Sem Fronteiras. Atualmente trabalha como pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Jaqueline Venturim – Jaqueline Venturim criou, em Março, o EmpoderaMarta, iniciativa que tem como objetivo empoderar as mulheres de mais de 50 anos através da tecnologia, com cursos, tira-dúvidas e outras ações. Em agosto, a iniciativa foi uma das selecionadas para representar o Brasil no #eSkills4Girls, desafio em Berlim, na Alemanha, que uniu startups, ONGs e outros atores de fomento às mulheres na tecnologia.

Joana D’Arc Felix de Souza – PhD em química, pela renomada Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, Joana já chegou a passar fome para se formar cientista, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Hoje, ela soma 56 prêmios na carreira. Desde 2008, ela também é professora da Escola Técnica Estadual (ETEC) Prof. Carmelino Corrêa Júnior, mais conhecida como Escola Agrícola de Franca, cidade do interior de São Paulo, e molda novas gerações a seguirem sua trajetória inspiradora. Juntamente com uma equipe de alunos de Franca, Joana conseguiu desenvolver uma pele similar à humana, a partir da derme de porcos, o que pode ajudar no abastecimento de bancos de pele especializados e de hospitais. O projeto foi exposto no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro), como parte da mostra “Inovanças – Criações à Brasileira”.

Nadia Ayad – Recém-formada em Engenharia de Materiais, pelo IME (Instituto Militar de Engenharia), Nadia venceu o Desafio do Grafeno, concurso mundial promovido pela Sandvik (empresa sueca renomada pelo trabalho de Engenharia), em que propôs a utilização de grafeno – um material a base de carbono, 200 vezes mais resistente que o aço e considerado o melhor condutor térmico e elétrico do mundo – em um dispositivo de filtragem e sistema de dessalinização para fornecer água potável para residências.

Natália Oliveira – Natália Oliveira é doutora em Biologia, pela Universidade Federal de Pernambuco, e criou o biosensor, um aparelho do tamanho de um chip que pode trazer mais precisão à detecção de sangue, esperma ou outros fluidos corporais em cenas de crime. Natália se destacou por ter explicado seu doutorado em dança, em um vídeo que ganhou duas categorias em um concurso da revista Science, maior publicação científica do mundo e que desafia pesquisadores de todas as áreas a contar suas descobertas de uma maneira diferente. O vídeo de Natália ganhou pelo voto popular e pelo júri técnico, na categoria Química.

As mulheres do Nossas.org – A ONG lançou, em setembro, a Beta, um robô “feminista até o último código”, que envia, por meio de mensagem privada no Facebook, atualizações sobre ações políticas sobre direitos das mulheres. A Beta chegou para pautar questões de direitos das mulheres e feminismo na internet, incidindo nos políticos e gestores responsáveis por leis ou projetos que coloquem os direitos das mulheres em jogo. Foi uma resposta a uma tecnologia já usada pelos políticos, mas agora como arma da população civil.

Themis – A ONG lançou o aplicativo Laudelina, que funciona como um guia sobre os direitos trabalhistas para domésticas, assegurando as trabalhadoras dessa categoria tenham consciência de seus direitos. Dividido em itens como salários, benefícios e valores da rescisão contratual, o aplicativo começou a ser desenvolvido depois da participação da Themis no Desafio de Impacto Social Google 2016.

Internacional:

Jeanette Epps – Ph.D em Engenharia Aeroespacial, pela Universidade de Maryland, Jeanette será a primeira mulher negra a ser enviada para a  Estação Espacial Internacional (ISS),  pela NASA. A jornada dela começará em 2018.

Katherine Johnson – A matemática fez parte da equipe de “computadores humanos” da Nasa, na época da segregação nos Estados Unidos,. Mais de 50 anos depois, ela, Mary Jackson e Dorothy Vaughan, engenheira e mecânica respectivamente, que trabalharam com Katherine na NAA, tiveram suas histórias contadas no filme Estrelas Além do Tempo. O filme mostra a participação das três mulheres na missão de sucesso da Nasa que levou o homem americano ao espaço e, posteriormente à lua, no filme.

Mother Nature needs her daughters – O programa da Homeward Bound reuniu o maior grupo de cientistas a trabalhar em conjunto na Antártica, todas mulheres. São 76 especialistas, na faixa de 25 e 65 anos, entre cientistas, biólogas marinhas e médicas, trabalhado juntas durante todo o ano.

Peggy Whitson – Considerada a primeira mulher a comandar a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), a astronauta dos EUA a mais velha a ir ao espaço e, mais recentemente, a mulher americana a passar mais tempo fora da Terra. No início de dezembro de 2017, Peggy completou 365 dias no espaço.

Sabrina Pasterski – A cientista graduada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) com a maior pontuação possível está sendo reconhecida em seu campo de atuação como a “nova Einstein“. Para sua candidatura ao Ph.D em Harvard, Sabrina se propõe a esclarecer algumas das questões mais complexas e desafiadoras da Física: buracos negros, natureza da gravidade e o espaço-tempo.

Comunicação & audiovisual

Adélia SampaioA primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil. Em julho de 2017, o filme Amor Maldito, de 1984, que também é considerado o primeiro filme lésbico brasileiro, foi exibido novamente no Seminário Diversidades, da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Alice RiffA diretora acompanhou a rotina de quatro pessoas: o homem transexual Fernando Ribeiro e as mulheres transexuais Giu Nonato, Paula Beatriz e Linn da Quebrada. O resultado está  no documentário Meu Corpo é Político, que mostra, de um jeito sensível, a rotina de pessoas trans no Brasil. Fazem parte da narrativa desde os gestos banais dos personagens, como tomar banho, comer, esperar o ônibus, estudar, trabalhar, se divertir com os amigos até o contato dos personagens com o ambiente urbano e a transfobia encontrada no caminho.

Ananda Radhika e Jéssica Queiroz – Roteirista e diretora do Curta-metragem Peripatético, que retrata a vida de jovens moradores da periferia paulista em maio de 2006, durante ataques da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). O filme destaca a luta do movimento Mães de Maio, uma reação à violência contra inúmeros jovens negros assassinados durante o conflito e foi premiado com o melhor roteiro e prêmio do júri no Festival de Brasília (DF).

Antonia Pellegrino e Isabel Nascimento e Silva  – Antonia e Isabel são, respectivamente, roteirista e diretora do documentário #PrimaveraDasMulheres, lançado em outubro deste ano. O longa propõe-se a mostrar as diferentes vozes que compõem o feminismo no Brasil. Ou melhor, os feminismos, já que o movimento é formado por diferentes vertentes de mulheres das mais variadas origens, idades, sexualidades, raças e classes sociais. O documentário aborda diversos momentos do feminismo e tenta derrubar os mitos em torno do conceito, explicitando quais de fato são suas pautas.

Coletiva Luana Barbosa – A Coletiva (assim mesmo, no feminino) formada por nove mulheres lésbicas ou bissexuais, negras e periféricas lançou, em abril, o documentário Eu sou a próxima, que reúne relatos de agressões e mortes de mulheres lésbicas, especialmente as negras. O filme foi feito de maneira independente pela Coletiva para expor a vulnerabilidade deste grupo – inspirada pela história de Luana, que morreu por ser mulher, negra, lésbica e periférica. Compõem a Coletiva: Márcia Fábia, Jheniffer Santini, Lê Nor, Ariane Oliveira, Micheli Moreira, Liz Delon, Nanda Gomes, Re Alves e Ane Sarinara.

Estela Renner – Fundadora da Maria Farinha Filmes, dirigiu o documentário Repense o Elogio, que mostra como a palavra pode impactar a autoestima durante a infância. O filme, encomendado pela marca de cosméticos Avon, está disponível gratuitamente do YouTube.

Empoderadas – O projeto coordenada por uma equipe de audiovisual composta de mulheres negras nasceu como uma websérie, com o objetivo de ampliar a representação de mulheres negras, tanto diante quanto por trás das câmera, em todas as etapas de produção. Agora, o projeto se desenvolve para uma série educomunicativa, de formação audiovisual, e referência em questões de gênero com recorte étnico.

Joyce Prado – Além de brilhar na direção do clipe de Um Corpo no Mundo, da cantora Luedji Luna, Joyce Prado é fundadora da produtora Oxalá Produções e membro da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negrx (APAN).

Juliana Vicente – Produtora, diretora e fundadora da Preta Portê Filmes. Teve seu trabalho reconhecido em diversos festivais, como o curta Avós, no Festival de Berlim (2010), e Os Sapatos de Aristeu, no Festival de Clermont-Ferrand (2009), e Filme Para Poeta Cego (International Film Festival of Rotterdam de 2013), tendo recebido mais de 50 prêmios. Dirigiu o curta-metragem Cores e Botas e o documentário Leva. Produziu os longa-metragens Anna K., do artista José Roberto Aguilar, e Lili e as Libélulas, do roteirista e diretor René Guerra. Em 2017, passou a dirigir a nova série do Futura, Afronta!,  que narra os desafios e as inovações trazidas pela juventude negra no Brasil.

Leandra Leal – O documentário Divinas Divas, dirigido por Leandra, foi eleito melhor filme na categoria de votação popular do festival South by Southwest (SXSW), nos Estados Unidos. O filme já havia sido eleito o melhor filme na categoria voto popular no Festival do Rio e no Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, de João Pessoa, Espírito Santo.

Letícia Marques – Dirigiu o documentário Faça Você Mesma, que busca os desdobramentos do movimento punk e feminista riot grrrl e recria o histórico deste movimento com imagens de arquivo e entrevistas com diferentes mulheres que conviveram na cena punk desde a década de 90.

Nós, mulheres da Periferia – O coletivo formado por sete mulheres comunicadoras de São Paulo lançou, em 2017, o documentário Nós, Carolinas – vozes das mulheres da periferia, que conta a história de mulheres periféricas da cidade, entre 17 e 94 anos. Lançado em 8 de março, o filme ficou em exibição ao longo de todo o mês, contando as histórias das mulheres sistematicamente marginalizadas e ignoradas nos meios tradicionais de comunicação.  

Internacional:

Ellen Tejle – Ellen trabalhava coordenando salas de cinema em Estocolmo, na Suécia, onde nasceu, quando teve a ideia de aproveitar o seu dia a dia na casa para colar selos nos cartazes de filmes em exibição. Os adesivos apontavam quais filmes passavam no teste de Bechdel-Wallace, criado pela cartunista americana Alison Bechdel e que consiste em três requisitos para comprovar a representatividade (ou falta de) em personagens mulheres: ter ao menos duas mulheres com nomes, conversando entre si, sobre um assunto que não seja um homem. Cerca de quatro anos depois, o selo está em mais de dez países. Em 2017, Ellen esteve no Brasil para o Seminário Internacional Mulheres em Foco no Audiovisual e para oficializar o uso do selo por aqui.

Greta Gerwig – O filme Lady Bird, primeiro longa-metragem solo da carreira de Greta, tornou-se o filme mais bem avaliado da história do site Rotten Tomatoes, que agrega críticas de cinema. O filme atingiu o percentual de 100% de resenhas positivas e ultrapassou o recordista anterior, Toy Story 3. O roteiro acompanha Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma jovem mulher que vive um momento de amadurecimento em Sacramento, na Califórnia.

Guetty Felin – A primeira mulher a dirigir um filme no haiti levará seu Ayiti Mon Amour, um longa-metragem que retrata o luto desta nação após o terremoto de 2010, para o Oscar, como o primeiro filme a representar o país caribenho na categoria de melhor filme estrangeiro.

Loung Ung – A ativista de direitos humanos é autora do livro Primeiro Mataram meu Pai, uma autobiografia com detalhes sobre sua criação no Camboja, especialmente sobre a relação com seu pai, um oficial militar do governo anterior de Lon Nol e, principalmente sobre a fuga forçada da família quando o grupo Khmer Vermelho, governado pelo ditador Pol Pot, invadiu o país. Em 2013, participou do roteiro do filme Girl Rising, sobre nove garotas de diferentes partes do mundo que são apresentadas por nove cineastas diferentes, narrando, assim, a juventude das meninas do século 21. Em 2017, voltou ao cinema mas como protagonista. O livro que conta sua história foi adaptado para o cinema e dirigido por Angelina Jolie.

Lucrecia Martel – A cineasta foi indicada ao Oscar com seu novo filme ZAMA. Lucrecia Martel vem de um hiato de quase dez anos sem produzir filmes; contrariando as pressões para ela produzir em massa. Ela disse em entrevista que “não sou um produto. Faço as coisas quando tenho uma ideia. E leva-se muito tempo para ter uma. Não sinto que perdi minha vida nesse tempo”. Na sua mais recente produção, faz um retrato de época de colonização espanhola na América, em um tom de deslegitimação à ideia de que Brasil e Argentina possuem histórias opostas. Neste filme, Lucrecia aproxima os países e suas histórias e mostra que, quando juntos, a narrativa contada tem semelhanças que até hoje estão presentes nas sociedades.

Patty Jenkins – Diretora de cinema norte-americana. Foi a diretora de Mulher-Maravilha, que estreou em 2017, sendo o primeiro filme em 75 anos de história da super-heroína. O longa teve divulgação menor do que outros filmes da marca e enfrentou um tremendo backlash antes mesmo de chegar às telonas – tudo isso por ter uma protagonista mulher. No entanto, Mulher-Maravilha foi uma das principais estreias do ano e a maior bilheteria da história para filmes sobre a origem de super-heróis. O sucesso foi tanto que a sequência foi confirmada logo após a estreia, mais uma vez tendo Patty Jenkins como diretora.

Viola Davis –  Por sua performance no filme Um Limite Entre Nós, a atriz americana recebeu os principais prêmios de Atriz Coadjuvante da indústria: British Academy Awards (BAFTA), Sindicato dos Atores (SAG), Globo de Ouro e Oscar.

Empreendedorismo & Mercado de trabalho:

Ana Paula Fracasso e Julia Bedolo – As paulistas residentes no Rio de Janeiro são fundadoras da Mais Alma, primeiro e-commerce brasileiro dedicado a vender produtos de moda e decoração, feitos com preocupações socioambientais.

Andreia Prestes, Clarissa Cogo, Elaine Barbosa, Maria Antônia Goulart e Maura Santiago – As cariocas fundaram a Cervejaria Feminista. Além de produzir cervejas originais por mulheres e para mulheres, a marca homenageia ícones femininos de resistência.

Carol Mercedes – Uma das responsáveis por alavancar a primeira rede de restaurantes vegetarianos do Brasil, o Barão Natural, está por trás da empresa de sorvetes Da Sereia, primeira marca de sorvetes veganos do Brasil, que nasceu de maneira caseira e artesanal, mas rapidamente se profissionalizou e se espalhou pelo país em 2017. Antes de entrar no ramo da alimentação, Carol já empreendia no veganismo com a marca de roupas King 55. Ela também está por trás do Pop Vegan Food, restaurante que promove a alimentação vegana por meio de preços acessíveis e muito sabor.  

Egnalda Cortês – Mãe do youtuber PH Cortês, deixou o mundo corporativo para assessorar o filho em campanhas e trabalhos consequentes ao seus vídeos no YouTube. Hoje Egnalda administra a Côrtes Assessoria e Agenciamento, consultoria e agência de carreira de youtubers negros. A primeira neste segmento na América Latina.

Luísa Santiago – Líder da Ellen Macarthur Foundation Brasil, principal think-tank do mundo no tema da economia circular. Trabalhando com empresas, governos e academia, Luísa vem liderando os esforços para acelerar a transição do país para uma economia circular.

Luiza Helena Trajano – Fundadora e presidente da Magazine Luiza, uma das empresas brasileiras mais valiosas na bolsa de valores. Emprega mais de 10 mil mulheres e, em 2017, deu um passo importante para promover um ambiente mais igualitário e seguro para suas funcionárias: criou um disque-denúncia interno para denúncias de violência doméstica e familiar contra as funcionárias da empresa. A criação do disque-denúncia veio após o assassinato de Denise Neves dos Anjos, gerente de uma das lojas da rede, em Campinas. Em menos de três meses, foram registradas 32 queixas à Central, que presta apoio jurídico e psicológico e ajuda a conduzir o caso com a polícia.

Kesia Salgado e Mayra Alves – La Dolceta, a primeira loja de doces eróticos do país, é comandado por duas mulheres negras em Recife. Kesia Salgado é empreendedora e proprietária da Donna K Consultoria, loja de produtos eróticos. Já Mayra Alves investiu na doceria Colméia da Preta. Elas já promoviam despedidas de solteiro na cidade e decidiram juntar os dois trabalhos em um só. La Dolceta é um café, mas também é um espaço para eventos: happy hour, despedida de solteiro, chá de lingerie e a New Life Party – festa para comemorar o fim de um relacionamento abusivo. Foi pensado com muito carinho e cuidado para oferecer um ambiente aconchegante e seguro para mulheres e pessoas LGBTs.

Maitê Lourenço  – Psicóloga de formação, a paulistana Maitê Lourenço aproximou-se do empreendedorismo es percebeu que faltavam profissionais negros acessando o frutífero ecossistema das Startups. Por isso, fundou o BlackRocks Startups, que tem o objetivo de aumentar a diversidade racial no empreendedorismo brasileiro. Criado no fim de 2015, o projeto iniciou suas ações externas em 2017, impactando mais de 350 pessoas e sendo um dos finalistas do Startup Awards.

Patrícia Lima – Comandando a Revista Catarina há mais de 10 anos, é o nome por trás da Simple Organic, primeira marca de beleza natural, orgânica e vegana a assinar a beleza de desfiles na São Paulo Fashion Week e entrar sem ressalvas no mundo da moda mostrando que beleza natural e orgânica é possível, é versátil e é atraente. A Simple Organic busca promover a beleza limpa e a saúde por meio de cosméticos feitos com ingredientes naturais e orgânicos, a preços competitivos e em grande escala.

Restaurante Dona Lili – Lilian Almeida é proprietária e chefe de cozinha do restaurante Dona Lili, na Bahia. Antes de inaugurar seu próprio restaurante, Lilian trabalhou em diversas cozinhas de Salvador, também fez feiras e eventos até se estabilizar. Apaixonada pelo que faz, Dona Lili é autodidata na culinária e foi se descobrindo ao longo do tempo até entender que seu negócio mesmo é a cozinha afro-brasileira. Além disso, ela transita muito bem na culinária vegetariana e abre mais o leque de opções para diversas pessoas poderem provar o sabor da comida baiana sem precisar ter camarão no tempero.

#GooseIslandSisterhood – O projeto iniciado por mulheres cervejeiras da Goose Island, e apoiado por representantes de entidades, ativistas e cervejeiras feministas, é uma confraria feminina que se reúne para estimular o engajamento das mulheres nesse meio, além de homenagear mulheres que fizeram história criando, mensalmente, uma cerveja personalizada. A cerveja criada em parceria com a Think Olga, por exemplo, chama-se Nísia por causa de Nísia Floresta Brasileira Augusta, educadora, escritora e poetisa nascida no Rio Grande do Norte (estado que inspirou o caju na receita da cerveja). Todo o lucro da Nísia foi revertido para a ONG.

Internacional:

Chetna Sinha, Christine Lagarde, Erna Solberg, Fabiola Rometty, Ginni Rommetty, Isabelle Kocher e Sharan Burrow – Respectivamente da Índia, França, Noruega, Itália, Estados Unidos, França e Austrália, elas serão copresidentes do Fórum Econômico Mundial em sua próxima conferência anual em Davos, na Suíça. Em janeiro de 2018, o grupo composto só por mulheres conduzirá um dos principais encontros da elite mundial.

Christia’n Annice – Fundadora da She’s Got Her Own Network, um site que reúne informações de pesquisa sobre outras mulheres empreendedoras, que funciona como uma rede social. O objetivo é estimular conversas sobre independência financeira e coragem de iniciar novos negócios.

Esportes:

Anna Cristina Silva –  É professora de educação física em uma escola estadual do Grajau, distrito de São Paulo com alguns dos piores índices de desenvolvimento da cidade, e há mais de uma década treina crianças e adolescentes para campeonatos de voleibol. Sem incentivo financeiro governamental, mantém a equipe através de rifa e financiamento pessoal. É a atual campeã da capital nos Jogos Escolares do Estado e nos jogos InterCEUs, além de quinta colocada no estado. Anna também desenvolve um trabalho de continuidade, levando esses jovens às peneiras dos melhores clubes de São Paulo, contando hoje com dez jovens talentos em clubes que formam a base do voleibol profissional brasileiro.

Cristiane, Fran e Rosana – As três jogadoras da seleção brasileira de futebol decidiram não mais jogar no time em protesto à demissão da técnica Emily Lima. Cristiane, maior artilheira do futebol feminino em Olimpíadas e uma das principais jogadoras do time, foi a primeira a anunciar a decisão, seguida de Fran e Rosana. Elas argumentam que a demissão da comissão técnica foi injusta e que as atletas têm pouca voz e reconhecimento, apesar de seus esforços. Emily Lima deixou o cargo com 56% de aproveitamento, tendo sido demitida após duas derrotas consecutivas e substituída por Oswaldo Fumeiro Alvarez, conhecido como Vadão, que ocupou o cargo antes dela. Sob o comando de Emily Lima, a seleção feminina conquistou o Torneio Internacional de Manaus.

Eliane Aparecida Barbosa e Maria Alice – A pequena Maria Alice, de 10 anos, é a única garota do time infantil Vieiras Esporte Clube, de Vieira, em Minas Gerais. Ela chegou a ser uma das capitãs do time e jogou em campeonatos municipais e intermunicipais. Mas, o primeiro obstáculo de gênero surgiu por parte do SESC Minas, que não permitiu a inscrição de Maria Alice para a Copa Sesc 2017, por ela ser uma menina. Entra em cena então a mãe da jogadora mirim, Eliane Aparecida Barbosa, que lutou para garantir que a filha estivesse em mais esta competição. Por meio do abaixo-assinado online intitulado “Deixem a Maria Alice jogar futebol! #MeninasTambémJogam”, que obteve quase 20 mil assinaturas, Eliane garantiu a inscrição da filha.

Emily LimaDiante de sua demissão repentina por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a primeira mulher a comandar a Seleção Feminina de Futebol não abaixou a cabeça para o machismo institucional e falou sobre a desigualdade de gênero nesse esporte.

Etiene Medeiros – A nadadora brasileira de 26 anos fez história em 2017: tornou-se a primeira brasileira a ser campeã mundial de natação, na etapa de Hungria em julho. Com o tempo de 27s15, ela levou o ouro nos 50m – costas e também estabeleceu o novo recorde das Américas. Em 2008, a nadadora pernambucana já havia sido a primeira brasileira a ir a pódio em campeonatos mundiais, com a prata na mesma categoria, no Mundial Junior. Seis anos depois, foi a primeira a ser medalhista em mundial de piscina curta e, no ano seguinte, foi vice-campeã em piscina longa.

Ingrid Silva – A primeira bailarina negra do Brasil a chegar na Dance Theatre of Harlem, importante companhia de dança de Nova Iorque, Ingrid foi capa da Pointe Magazine, uma das revistas de balé mais famosas dos Estados Unidos.

Isabelly Morais – Aos 20 anos, a estudante de jornalismo foi a primeira mulheres da história a narrar uma partida de Série B do Campeonato Brasileiro. Isabelly estreou como locutora pela Rádio Inconfidência de Belo Horizonte e narrou a vitória do América-MG por 2 a 0 sobre o ABC, no Independência.

Karen Jonz – A tetracampeã mundial de skate voltou a competir pela primeira vez desde que se tornou mãe e garantiu o primeiro lugar no Brasileirão de Vertical. Karen também iniciou a preparação para competir nos próximos Jogos Olímpicos, de 2020, em Tokyo.

#MagicMinas – O time de basquete fundado em 2016 por mulheres a partir de um aulão promovido pela Olga Esporte Clube, o projeto de empoderamento feminino por meio dos esportes da Think Olga, tem um objetivo muito claro: facilitar o contato das mulheres com os esportes coletivos – no caso, o basquete. Elas treinam três vezes por semana em São Paulo, na Praça Rotary. No entanto, começaram a ser hostilizadas pelos homens do local, que não gostaram da ideia de dividir espaço com as mulheres. Por conta disso,  organizaram o #OccupyRotary, que levou mais de cem mulheres, inclusive a medalhista olímpica Magic Paula, às quadras da Praça, mostrando que lugar de mulher é no esporte sim!  

Maravilhosas Corpo de Baile – Coletivo de mulheres praticantes de pole dance com a premissa de encontrar uma relação de amor, leveza e liberdade com seus corpos.

Perifeminas FC – O time de futebol feminino do extremo Sul de São Paulo veio para mostrar que futebol também é coisa de mulher – e que não adianta tentarem impedir. Em 2017, as fundadoras passaram a atuar ainda mais politicamente em seus territórios, promovendo debates e rodas de conversas sobre assuntos relacionados às mulheres (como sexualidade, feminismo e sororidade), além de clubes de livro e saraus. Por meio do esporte, elas lutam juntas e combatem o preconceito.

Rugby Feminino – A seleção feminina de Rugby do Brasil sagrou-se campeã do Sul-Americano Feminino pela 13ª vez, assegurando a classificação para a Copa do Mundo de Sevens, em Hong Kong, na China, e para a etapa do Canadá Etapa da próxima Série Mundial de Sevens, ambos em 2018.

Tiffany Abreu – Quase dez meses depois de fazer história ao se tornar a primeira atleta transexual brasileira a conseguir autorização da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) para jogar profissionalmente, fechou contrato com o Vôlei Bauru. O time contará com a atacante da Superliga feminina de vôlei, em 2018.

Vanessa Joda – Há seis anos, Vanessa trocou a carreira no mundo da logística por um curso de formação em yoga. Há dois anos, comanda a Yoga Para Todos que, como o nome sugere, foca em receber pessoas consideradas fora do padrão de beleza perante a sociedade, especialmente pessoas gordas, assim como Vanessa. Em 2017, a professora de yoga firmou-se como  porta-voz desse público na mídia.

Internacional:

AEM de Lleida: O time feminino de futebol participou da Liga de Segunda, um torneio infantil catalão, com atletas entre 12 e 14 anos de idade, e foram campeãs com quatro rodadas de antecedência, tendo competido somente com times masculinos.

Aditi Ashok – Aos 19 anos, a jogadora é considerada um prodígio do golfe. Já fez história em 2016, ao se tornar a primeira mulher indiana a vencer um Ladies European Tour. Em 2017, foi novamente a primeira do seu país, desta vez ao se qualificar para a renomada LPGA Tour Championships e, consequentemente, está cotada a ser pioneira também em 2018, caso vença o campeonato.

Aly Raisman – Movida pela campanha #MeToo, a ginasta tricampeã olímpica revelou que também foi vítima de Lawrence G. Nassar, ex-médico da seleção de ginástica artística feminina dos Estados Unidos, que atualmente responde por outras 22 acusações. O depoimento de Aly reacendeu a investigação contra o médico que havia confessado o crime contra somente uma de suas pacientes, Jamie Dantzscher, em 2001.

Isha Johansen – A única mulher a presidir a associação de Futebol de Serra Leoa anunciou que vai concorrer a reeleição em 2018, mesmo que isso possa, segundo a própria, “enfurecer muitas pessoas”.  

Lieke Martens – Aos 24 anos, a jogadora holandesa foi eleita, com 21,72% dos votos dos membros da Federação Internacional de Futebol (FIFA), a melhor jogadora do mundo na temporada, vencendo a americana a campeã do ano anterior, Carli Lloyd.

Nora Tausz Ronai – Sobrevivente do holocausto, Nora foi lembrada na lista 100 Women da BBC pela façanha de conquistar seis medalhas de ouro, no  Masters World Championships, em Montreal, Canadá, aos 90 anos. Hoje, aos 93, Nora é  atleta profissional pela equipe de natação do Brasil, onde mora desde 1941.

Serena Williams – A tenista de 36 anos, maior vencedora de Grand Slams da história, anunciou em abril que estava grávida de cinco meses. Poderia ser apenas um anúncio, mas pela data da gestação ficou claro que Serena Williams já estava grávida quando foi campeã do Open Australia e levou seu 23° título de Slam para casa.

Internet & Redes Sociais:

Alexandra Gurgel – A jornalista do Rio de Janeiro ficou popular por causa dos vídeos publicados em seu canal no Youtube, Alexandrismos, onde discute feminismo e o corpo, de modo a combater a gordofobia, além de discursos de aceitação pessoal que inspiram e encorajam. Entre os assuntos importantes trazidos por Alexandra, está a questão da solidão da mulher gorda.

Clara Averbuck – A escritora e ativista feminista utilizou as redes sociais  para denunciar um estupro que aconteceu dentro de um carro a serviço da Uber, em São Paulo, por parte do motorista., serviço esse serviço que, para muitas mulheres com o privilégio de obtê-lo, é uma alternativa para não caminhar sozinha ou estar em um transporte público. Uma forma de se isolar de homens que acreditam que seus corpos também são públicos e que por isso, os pertencem. Certa de que precisava ir além da denúncia formal na delegacia ou na empresa, Clara iniciou a campanha #MeuMotoristaAbusador, convidando mulheres a compartilhar histórias de assédio que aconteceram em uma situação semelhante, de modo a alertar para o problema, torná-lo público.

Consuelo #DicaBoa – É a personagem criada por Lívia La Gatto para comentar política e gênero no Youtube de forma bem humorada. Formada em Artes Cênicas, pela Universidade de São Paulo (USP), Lívia interpreta uma argentina de sotaque bem pesado que dá dicas do tipo “como lidar com pessoas machistas” e ironiza publicações que falam sobre emagrecimento e outros assuntos normalmente direcionados às mulheres.

Louie Ponto – Louie Ponto tem um canal no YouTube que leva seu nome. Nele, comenta principalmente assuntos relacionados à vivência lésbica e aos direitos LGBT, esclarecendo conceitos como a “cura gay” e fetichização das lésbicas. Em 2017, seus vídeos de maior sucesso esclareceram os perigos de “trollar” alguém dizendo ser LGBT e da “cura gay”.

Luciene Nascimento – A jovem advogada viralizou na internet ao mostrar seu talento para poesia, em vídeos publicados em sua conta pessoal no instagram. Luciene fala, principalmente, sobre sua vivência e ancestralidade como mulher negra.

Ju Giampaoli –  Atriz, feminista e ativista LGBT, Juliana Giampaoli criou um canal no YouTube para falar sobre vivências e demandas de mulheres bissexuais, feminismo e autocuidado e hoje está perto de alcançar 10 mil seguidores na plataforma.

Mãe Stella de Oxossi – Aos 92 anos, começou um seu canal no YouTube para difundir a cultura iorubá e o candomblé, religião na qual foi iniciada há mais de 70 anos. Mãe Stella de Oxossi é a youtuber mais longeva em atividade no país.

Nath Araújo – A ilustradora ficou popular na internet por desenhar mulheres jovens com diversidade, juntamente com mensagens motivacionais e de autocuidado, tudo isso mantendo o bom humor. Ela já pintou garotas em trajes de astronauta e em versões alienígenas, mas suas séries sobre signos e brasileiras deram o que falar.

Thallita Xavier – Por meio do blog Sim, sou vegana e feminista preta, Thallita tem falado abertamente sobre veganismo, trazendo um ponto de vista importante: o de uma mulher negra. Ela adereça a importância de quebrar o elitismo em torno do conceito, quebrar mitos sobre o assunto e, principalmente, informar de modo a alcançar uma parte da população que  o movimento tipicamente não alcança.

Tia Má – Sem cenário, sem edição, sem roteiro. Tia Má fez sucesso no YouTube com vídeos sem fórmulas, apenas com seu bom humor e sua conversa certeira sobre racismo no Brasil. Em menos de um ano, a baiana passou a ser convidada fixa do programa Encontro com Fátima Bernardes, nas manhãs da Rede Globo, e assumiu os roteiros da série de comédia Vai Que Cola, do Multishow.

Xan Ravelli – Blogueira e musicoterapeuta, Xan brilhou no Youtube ao mostrar sua rotina de beleza e também ao falar sobre maternidade. Ela tornou-se uma grande representatividade negra no conteúdo da plataforma.

Internacional:

Dalia Al-faghal – Ela se autodenomina a “lésbica mais odiada do Egito”. Isso porque em julho, Dalia usou o Facebook para celebrar a aceitação de seu pai a seu namoro com uma mulher. Desde então, passou a receber ofensas e ameaças de agressão e de morte até mesmo da imprensa egípcia, onde é considerada uma das primeiras mulhees a assumir publicamente sua homossexualidade.

Feminista Jones – A escritora e feminista americana utilizou as redes sociais para fazer um experimento sobre comportamento masculino incentivado pelo machismo na sociedade. Sempre que recebia um elogio da parte de um homem, Jones simplesmente o aceitava, concordando. Ela percebeu que isso gerava um comportamento padronizado nos homens, que passaram a criticá-la e ofendê-la por ter aceitado os elogios. O experimento corajoso de Jones rendeu muitos debates antropológicos nas redes.  

#MakeMineMilkshake – Em 28 de julho, a editora Heather Antos, da Marvel Comics, postou uma foto em seu Twitter tomando milkshake junto a outras funcionárias da empresa. Esse simples fato causou espanto nos fãs mais conservadores de quadrinhos, que passaram a ameaçá-la, assediá-la e praticar bullying. Essa reação iniciou a campanha de apoio #MakeMineMilkshake, em que diversos funcionários e funcionárias da Marvel e de outras empresas da área também postaram fotos de apoio à Heather e tomando milkshake. O destaque da ação foi o apoio das mulheres da DC Comics, maior rival da Marvel. Elas mostraram que não há espaço para rivalidade no combate ao machismo em uma área que ainda hesita muito em incluir mulheres.

#MeToo (#EuTambém) A denúncia de assédio que derrubou o produtor renomado Harvey Weinstein dos lugares mais privilegiados de Hollywood, incluindo a própria empresa, foi o impulso para que outras denúncias surgirem nessa área e, posteriormente, também nos campos da música e dos esportes. Por meio da hashtag #MeToo, também utilizada no Brasil como #EuTambém, mulheres da indústria, de empregadas dos bastidores até atrizes famosas, começaram a relatar histórias pessoais. Desde então, relatos vêm se tornando públicos praticamente toda semana e têm ajudado a demonstrar que assédio e abuso sexual no ambiente de trabalho são problemas frequentes nas vidas das mulheres e precisam ser adereçados com urgência.   

Tarana Burke –  Embora inicialmente a criação da hashtag #MeToo tenha sido atribuída a atriz Alyssa Melano, que a utilizou para convidar mulheres no Twitter a compartilhar relatos de assédio e estupro, a hashtag foi iniciada há 10 anos pela ativista negra Tarana Burke, em uma outra campanha, cujo o objetivo era alcançar vítimas de assédio e violência sexual em comunidades periféricas dos Estados Unidos. Com a volta da hashtag em 2017, Tarana teve novas oportunidades de divulgar seu trabalho na mídia e falar sobre a importância do acolhimento para vítimas.

Literatura:

Calila das Mercês – A pesquisadora e jornalista baiana criou em 2017 o projeto “Escritoras Negras da Bahia”, com o intuito de visibilizar a produção das mulheres na arte e na literatura. A iniciativa agrega poetas, contistas, romancistas e artistas literárias em geral. Foi lançada em julho, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e o Dia Nacional do Escritor.

Conceição Evaristo – Oriunda da Zona Sul de Belo Horizonte, Minas Gerais, Conceição teve que conciliar estudos com trabalhos de faxina, até se tornar uma das principais expoentes da literatura brasileira, com expansão internacional, tendo seus livros traduzidos para outros idiomas. Publicou seu primeiro poema em 1990 e, desde então, publicou diversos poemas e contos, além de uma coletânea de poemas e dois romances, abrindo espaço para outras mulheres negras na literatura. Aos 71 anos, é doutora em literatura pela Universidade Federal Fluminense, militante ativa do movimento negro, vencedora do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2017, pelo conjunto de sua obra, homenageada do Itaú Cultural, em São Paulo, reverenciada na 2ª Mostra Conceição Evaristo, no Sesc Palladium e na Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH).

Cristiane Sobral – A ganhadora do Prêmio FAC 2017 Culturas Afro-Brasileiras é mestre em Teatro, pela UnB, dirige a Cia de Arte Negra Cabeça e o Sindicato dos Escritores do Distrito Federal (Sindescritores). Autora do livro de contos O Tapete Voador e das obras de poesia Não vou mais lavar os pratos e Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz, entre outras publicações.

Dayse Sacramento – Em julho deste ano, colocou de pé uma atividade fruto do seu projeto de pesquisa de doutorado em Literatura e Cultura Violências contra mulheres negras e suas insubmissões, contemplado no edital PIBIC/IFBA. O evento “Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras” é inspirado na obra da renomada escritora Conceição Evaristo. A proposta é estudar e avaliar os relatos de mulheres negras ao longo dos contos escritos por Evaristo em seu livro. Em agosto, a própria Conceição Evaristo foi convidada de honra do último dia desse grande encontro.

Daniela Rosendo – Mestre em Filosofia, foi a primeira pessoa a escrever um livro brasileiro sobre ecofeminismo. Sensível ao Cuidado: Uma Perspectiva Ética Ecofeminista analisa e explica ecofeminismo a partir dos escritos da famosa ecofeminista Karen J. Warren. Rosendo também tem diversos artigos debatendo as conexões de feminismo, veganismo e ambientalismo. No site Modefica, foi responsável por uma série de artigos elucidativos sobre ecofeminismo, chegando até a abordar ecofeminismo queer.  

Débora Prado e Marisa Sanematsu – Débora e Marisa foram as organizadoras e coordenadoras editoriais do livro Feminicídio #InvisibilidadeMata, produzido pelo Instituto Patrícia Galvão e lançado em abril de 2017. O livro está disponível para download gratuito e traz as principais definições e números do feminicídio no Brasil, além de resgatar a história de vítimas desse crime no país, como Luana Barbosa e Eloá Pimentel. A publicação explicita os agravantes racistas, LGBTfóbicos e classistas dos casos, além de dedicar-se a falar do Feminicídio de Estado.

Djamila Ribeiro –  A mestre em filosofia e feminista negra lançou o livro O que é Lugar de Fala?, que aborda, pela perspectiva do feminismo negro, a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, explicando didaticamente o que é o conceito ao mesmo tempo em que traz ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história. A autora tem arrastado multidões para os eventos de lançamento do seu livro, que até agora aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Isabela Sena e Sueli Feliziani – As pesquisadoras criaram o projeto Bibliopreta, uma plataforma online gratuita que agrega produção acadêmica sobre feminismo negro. O site reúne traduções, artigos, resenhas, dissertações, vídeos e cursos produzidos e coletados pela dupla, de autoras estrangeiras como Angela Davis, Bell Hooks e Audre Lorde, tal como as brasileiras Lélia Gonzalez, Thereza Santos e Sueli Carneiro.

Jarid Arraes – Escritora, poeta e cordelista, Jarid lançou em 2017 a coletânea Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, que resgata trajetórias de mulheres quase sempre esquecidas, apesar de fundamentais na história do Brasil, como Carolina Maria de Jesus, Tereza de Benguela e Maria Firmina dos Reis. Também neste ano, teve o seu primeiro Cordel sobre uma heroína negra, publicado originalmente em 2013, traduzido para o francês.

Ketty Valêncio – Criadora da Livraria Africanidades, focada em vender apenas obras de autoras negras, com loja física e online. A livraria possui livros sobre feminismo, poesia, religião, ciências sociais, entre outros tópicos, todos do ponto de vista da mulher negra. Ketty é pós-graduada em gênero e diversidade sexual na Unifesp e MBA-Bens Culturais: Cultura, Gestão e Economia na FGV e após sete anos trabalhando em bibliotecas, investiu no próprio negócio.

Laudelina Ferreira da Silva – Aos 77 anos, a dona de casa tem seus 12 filhos criados e o primeiro livro de poesias lançado, mesmo sem ter avançado nos estudos para além da 4ª série do ensino fundamental. Por quase três décadas, guardou suas ideias em papel até que os vizinhos na cidade de Bebedouro (SP) colaboraram para a impressão de 300 exemplares de Livro de Poesias, todos vendidos por R$ 10. A autora diz que o segredo é anotar as ideias rapidamente, para não perder a inspiração. E assim, ela já acumula versos para um segundo livro.

Pri Ferrari – Depois do sucesso do livro Coisa de Menina, cheio de ilustrações que demonstram não existir limites de gênero para os sonhos das meninas, a autora lançou o Coisa de Menino, para estender a discussão sobre papéis de gênero também para mães de garotos.  

Internacional:

Angela Davis – Do discurso em janeiro durante a Marcha das Mulheres, nos EUA, à sua visita ao Brasil em julho, a lendária filósofa americana segue inspirando mulheres ao redor do mundo. Em 2017, as palavras de Davis chegaram às brasileiras por meio das publicações de Mulheres, raça e classe e Mulheres, cultura e política.

Angie Thomas – A autora americana de 29 anos lançou The Hate U Give, traduzido no Brasil como O Ódio que Você Semeia, considerado pelo The New York Times o livro mais popular de 2017, na categoria jovem adulto. Angie surpreendeu o mercado editorial ao adicionar em uma história de ficção questões muito reais: racismo e violência policial nos Estados Unidos. Isso em uma categoria ainda dominada por histórias de fantasia, como Harry Potter.

Carol J. Adams – A americana pesquisadora e autora ecofeminista, responsável pelo famoso livro A Política Sexual da Carne e diversas outras publicações sobre ecofeminismo, continua ativa e lançou em 2017 o livro Até os Vegans Morrem: Um Guia Prático para Cuidar, Aceitar e Proteger seu Legado de Compaixão (ainda sem edição em português). Endereçando temas como body shaming, o livro é um manifesto para construir uma comunidade ativista mais compassiva, diversa e afetiva.

Chimamanda Ngozi Adichie – A autora de Sejamos todos Feministas teve mais um manifesto publicado. Em Para Educar Crianças Feministas, uma carta da autora para uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães.

Dra A Breeze Harper – Doutora em Crítica em Geografia de Alimentos, a americana é criadora do The Sistah Vegan Project e editora da antologia inovadora, Sistah Vegan: Black Female Vegans Speak on Food, Identity, Health, and Society (ainda sem edição em português), publicação responsável por reunir diversos artigos abordando a interseccionalidade do veganismo, feminismo e luta anti-racista.

Judith Butler – A filósofa pós-estruturalista estadunidense conhecida por escrever sobre gênero mostrou, para além da academia, outra área de atuação em seus estudos: a religião. Caminhos Divergentes surgiu de uma urgência pessoal da pesquisadora em retomar suas origens judias e contribuir academicamente enquanto faz isso. Durante a turnê de divulgação do livro, a passagem da autora pelo Brasil a forçou a retomar o assunto sobre gênero, em função de ataques por parte de grupos conservadores que queriam impedir a vinda de uma estudiosa sobre cultura queer, chegando a organizar protestos e queimar bonecos que representavam Judith. A filósofa respondeu aos comentários de ódio propondo novos debates sobre discursos de ódio.

Kate Schatz – A autora deu continuidade ao trabalho com Rad American Women A-Z, livro infantil de biografias de heroínas da história dos Estados Unidos. Em 2017, o título da nova publicação de Kate é Rad Women, ou Mulheres Incríveis, dessa vez contando histórias de mulheres ao redor do mundo. Na edição brasileira, publicada pela editora Astral Cultural, a fundadora da Think Olga, Juliana de Faria, contribuiu com mais quatro perfis: Maria da Penha, Debora Diniz, Sonia Bone Guajajara e Elza Soares.

Naomi Klein – A jornalista, escritora e ativista americana é um dos nomes mais conhecidos quando o assunto é ambientalismo e mudanças climáticas. Autora dos emblemáticos Sem Logo: A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido e Isso Muda Tudo: Capitalismo versus Mudanças Climáticas, lançou esse ano Não Basta Dizer Não: Resistir à Nova Política do Choque e Conquistar o Mundo do Qual Precisamos, livro escrito em tempo recorde para debater a candidatura do presidente americano Donald Trump e engajar pessoas na resistência aos tempos conservadores e populistas atuais.

Rachel Ignotofsky – Com trabalho focado em arte e ilustração, a autora lançou o livro Women in Science, ou As Cientistas, com histórias sobre 50 mulheres que fizeram história nesta área. Rachel também é autora de Women in Sports, ainda sem tradução no Brasil.

Roxane Gay – A autora americana lançou em 2017 o livro Fome, uma autobiografia sobre sua relação com o corpo, como mulher negra e gorda. Roxane deixou claro que o livro não conta uma história de superação sobre uma super dieta, mas sim uma reflexão sobre como a cobrança sobre aparência e peso tornam-se obrigações nas vidas das mulheres.   

Rupi Kaur – O livro de poesias Milk and Honey, intitulado no Brasil como Outros Jeitos de Usar a Boca, foi publicado pela primeira vez em 2014, de maneira independente. Mas em 2017, os versos duros e diretos sobre abuso parental e relacionamentos abusivos da autora indiana ganharam atenção das editoras.  Fenômeno de vendas, o livro permaneceu no topo da lista de mais vendidos do New York Times por 40 semanas seguidas.

Moda & Beleza:

Cibele de Barros – Fundadora da Tecido Social, uma empresa social que promove e busca viabilizar economicamente empreendedores solidários talentosos e criativos, que atuam nos vários segmentos da moda. Promove e viabiliza a união de grupos produtivos da economia solidária com marcas de moda que querem promover a transformação social por meio de seus processos produtivos.

Daniela Auler – Idealizadora e coordenadora do Projeto Moda Inclusiva, da Secretaria da Pessoa com Deficiência. Busca atrair a atenção da indústria da moda, principalmente de estilistas e designers, para as questões e necessidades das pessoas com deficiência. Referência mundial, o projeto conta com Concurso de Moda Inclusiva, para engajar novos designers na pauta, além de cursos de formação para moda inclusiva.

Daniele da Mata – A experiência de Daniele com maquiagem começou cedo, aos 16 anos, em um emprego de empacotadora de uma fábrica de cosméticos, onde aprendeu muito sobre as composições dos produtos e também sobre a escassez de opções para peles negras. Hoje, como maquiadora profissional, coordena a escola de maquiagem itinerante Projeto Negras do Brasil, pelo qual viaja o Brasil ensinando automaquiagem para mulheres negras.

Dariele Santos – Fundadora do Instituto Alinha, negócio social focado na melhoria das condições de trabalho e de vida de costureiras e costureiros, principalmente imigrantes. O Instituto Alinha auxilia, de forma gratuita, donos e donas de oficinas de costura a regularizarem suas oficinas e, por meio de uma plataforma online, facilita o contato dessas oficinas alinhadas com marcas que desejam produzir com trabalho justo.

Emanuela Farias – Criadora do Mulheres Sul Global, iniciativa que promove formação em corte e costura para mulheres refugiadas que vivem no Rio de Janeiro, Emanuela ganhou primeiro lugar na Feira de Negócios da Shell Iniciativa Jovem e levou também o desafio Moda Consciente, durante o ColaborAmérica 2017.

Francisca Vieira – Por trás da Natural Cotton Color, articulou o cultivo do algodão orgânico no Brasil em assentamentos na Paraíba, garantindo renda aos agricultores e responsabilidade ambiental no plantio de uma das fibras mais utilizadas na indústria da moda. Além de encabeçar a expansão do algodão orgânico brasileiro, por meio da produção das roupas da marca, Francisca trabalha com rendeiras e bordadeiras para promover o trabalho justo e os saberes artesanais.

Fernanda Simon – É responsável por encabeçar o braço brasileiro do movimento global para uma moda mais justa, limpa e responsável, o Fashion Revolution Brasil. Em 2017, Fernanda foi co-realizadora da primeira edição da Brasil Eco Fashion Week, uma semana de moda dedicada a promover sustentabilidade na moda.

Gabriela Mazepa – Arquiteta de formação, está por trás do Re-Roupa, marca e projeto que visa transformar roupas paradas em novas peças usando técnicas de upcycling. Com o Re-Roupa, Gabriela também promove a inserção social por meio da costura, principalmente em comunidades do Rio de Janeiro. Esse ano, foi convidada pela Mercedes-Benz Fashion Week Sri Lanka e a Academy of Design a encabeçar um projeto de upcycling para mulheres artesãs em Colombo.

Mayara Yamada – Youtuber, DJ e atriz, Mayara se destacou ao longo do ano também no mundo da moda. Ela posa como mulher gorda e sem depilação, uma representação ainda considerada tabu nesse universo, principalmente na moda praia.

Renata Buzzo – A estilista foi destaque na edição da Casa de Criadores com sua marca homônima, ao criar uma coleção conceitual, a She Broke, que colocava em debate a questão do relacionamento abusivo. Renata, que passou por esse momento, criou peças fortes e originais com retalhos de tecidos para mostrar como mulheres recolhem seus   pedaços para reconstruir a vida a partir deles.  

Tasha e Tracie Okereke – Conhecidas como as it girls da favela, as gêmeas impressionam pela habilidade compartilhada de montar looks super estilosos com roupas customizadas de brechó. Elas dividem suas inspirações de moda e música com seguidores do blog/movimento Expensive $hit, por onde buscam também promover “a auto-estima da mulher jovem, preta e favelada”.

Valentina Sampaio – A modelo cearense fez história como a primeira mulher transexual na capa da revista Vogue Paris.

Internacional:

Adriana Santanocito e Enrica Arena – São as co-fundadoras da startup italiana Orange Fiber, a primeira empresa do mundo a produzir tecidos a partir da celulose encontradas em cascas de laranja descartadas pela indústria de sucos, na Itália, onde são produzidas mais de 700.000 toneladas/ano do resíduo. O projeto de pesquisa começou em 2014, ganhou prêmios e financiamento. Em 2017, chegou ao mercado de moda em uma coleção cápsula com a marca de luxo Salvatore Ferragamo. Ao usar os restos das cascas de laranja, a Orange Fiber garante um tecido de baixo impacto para produção, com propriedades biodegradáveis, única necessidade de uso de solo vem das plantas produtivas dos fios e tecidos.

Ashley Graham – A modelo de moda plus size ocupou espaços ainda restritos para mulheres gordas, como as capas das revistas Sports Illustrated e Vogue Italia.

Rihanna – A cantora de Barbados teve um 2017 poderoso: começou o ano sendo eleita a Ativista do Ano, pela Universidade de Harvard. O reconhecimento vem por conta de seus projetos humanitários, como um hospital para tratamento de câncer em seu país natal e o apoio à educação de meninas nos países em desenvolvimento. No fim do ano ela seguiu dando exemplos, mas em outra linha: criou sua própria marca de maquiagem, a Fenty Beauty, que se destacou pela inclusão de diversos tons de pele. Só de base são quarenta tons contemplados. A Fenty Beauty foi eleita uma das invenções do ano pela revista Time.

Música:

Aíla – É uma das principais vozes da música paraense – e brasileira. Lésbica, suas letras não economizam em críticas ao racismo, machismo e homofobia. Em 29 de agosto, Dia da Visibilidade Lésbica, lançou o clipe de Lesbigay, uma celebração da cidadania LGBT e de todos os tipos de amor.

Ana Cañas A cantora Ana Cañas destacou-se em 2017 por gritar a violência contra as mulheres, especialmente com seu single e clipe Respeita, que aborda diversas formas de violência. No clipe, mais de 80 mulheres cantaram junto com Ana, relembrando a experiência de seu primeiro assédio. Ao longo do ano, a cantora também se apresentou em diversos protestos e ocupações por moradia e terra.

Anavitória – A dupla formada pelas cantoras Ana Clara Caetano Costa (goianiense de 23 anos) e Vitória Fernandes Falcão (araguainense de 22 anos) estourou em 2017 com a canção Trevo (Tu), em parceria com o cantor Tiago Iorc. Pela composição, elas foram premiadas com o Grammy Latino de Melhor Canção Brasileira e também foram indicadas na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro.

Anitta – Em 2017, a cantora de 24 anos, oriunda do funk carioca, estourou no cenário do pop internacional fazendo parcerias com os internacionais Major Lazer, Poor Bear, Alesso, Iggy Azalea, J Balvin e  a drag queen brasileira Pabllo Vittar. Para as apresentações de seus hits na TV nacional e internacional, Anitta atualizou seu grupo de dançarinos para receber mulheres gordas e pessoas com deficiência. Tendo administrado a própria carreira para o rumo internacional, também passou a atender outros artistas em sua produtora, a Redemoinho Produções Artísticas, firmando-se como grande empresária da música. No final do ano, foi eleita a Mulher do Ano pela Revista GQ.  

Djuena Tikuna – Djuena Tikuna é uma cantora indígena que lançou seu primeiro álbum em 2017, cantando a identidade e as resistências dos povos ameaçados. Ela fez história ao lançar seu trabalho e levar dezenas de indígenas ao palco do tradicional Teatro Amazonas, em Manaus, um espaço historicamente elitizado. Amazonense, ela canta na língua de seu povo autodenominado Magüta. Também participou da campanha “Demarcação Já”.

Elza Soares – No Dia da Consciência Negra, a cantora lançou um clipe/documentário para a canção A Carne e levantou debate sobre racismo, poder feminino e diversidade. O filme conta com a participação da judoca e campeã olímpica Rafaela Silva.  

Kell Smith – Lançado no Dia Internacional da Mulher, o hit Respeita as Mina ganhou destaque entre as mulheres pela letra que exige respeito e o fim do assédio em locais públicos. E a mistura de hip-hop e MPB de Kell impressionou para além dessa primeira música. Era uma vez, saída de seu EP homônimo, tem lugar garantido na programação das rádios brasileiras.

Liniker – Sucesso desde o ano passado à frente da banda Liniker e os Caramelows, a vocalista Liniker se abriu sobre sua transexualidade em entrevista para a Revista Glamour, em junho de 2017. Antes mesmo de se nomear mulher trans, Liniker já era considerada símbolo de representatividade negra e LGBT, além de brilhar nas composições de MPB.

Linn da Quebrada – A cantora foi comparada com Beyoncé por ter lançado, sem aviso, um álbum visual com 14 clipes. O álbum Pajubá fala sobre transexualidade. A cantora também abordou o assunto em sua participação no documentário Meu Corpo é Político de Alice Riff.

Luedji Luna – Já conhecida na internet por vídeos amadores, lançou em 2017 um álbum Um Corpo no Mundo, composto por 11 faixas, algumas inéditas e outras já conhecidas do público que acompanhava Luedji pelos vídeos do YouTube, que misturam ritmos como reggae, MPB e samba. O divisor de águas para Luedji foi o lançamento do clipe da faixa que dá nome ao álbum, filmado em São Paulo, para onde a baiana se mudou para apostar na carreira musical. O primeiro álbum de Luedji recebeu o Prêmio Afro 2017.

Mc Soffia – Com apenas 13 anos, a rapper figura na lista de mulheres mais inovadoras do mundo, a 100 Women da emissora do Reino Unido BBC. Convidada a participar do documentário Levelling the playing field, da emissora, Soffia compôs a música Esporte especialmente para a gravação. Na letra, ela explica que as meninas têm os mesmos direitos de praticar esportes que os meninos. A rapper também comentou sobre papéis de gênero no documentário Repense O Elogio da marca de cosméticos Avon.

IZA – A carioca IZA Lima é um dos grandes destaques do atual cenário de pop brasileiro. A cantora lançou suas primeiras músicas em 2016, mas foi em 2017 que mostrou ser mais do que uma promessa, lançando I Put a Spell On You e Pesadão (seu single mais recente e cujo clipe já acumula mais de 5 milhões de views no YouTube). Seu primeiro álbum deve sair ainda esse ano. Em suas canções, IZA canta sua força, independência e determinação para conseguir o que quer, afirmando o poder das mulheres negras e sem pedir desculpas por isso. Tornou-se uma inspiração ao ocupar um lugar necessário na indústria musical.

Rosa Luz Por meio de financiamento coletivo, a rapper brasiliense lançou o Rosa Maria Codinome Rosa Luz, que mistura batidas de samba, MPB e pop com letras certeiras de hip-hop sobre vivências na periferia e do ponto de vista de uma mulher trans e negra.

Xênia França – A cantora baiana lançou seu primeiro disco solo em 2017, mesclando ritmos como MPB, eletrônica e jazz. Aclamado pela crítica e pelo público, o álbum canta sobre machismo e, principalmente, racismo, fazendo várias referências às ancestralidades africanas e às diásporas. Em entrevista à Marie Claire, Xênia disse que seus ancestrais chegaram aqui amordaçados e que seu álbum é uma voz importante, não só pelo discurso, mas também como um instrumento para demonstrar força. Xênia também  é membro da banda Aláfia.

Internacional:

Ariana Grande – Em maio de 2017, o show da cantora americana em Manchester, na Inglaterra, que reuniu, majoritariamente, um público de crianças e adolescentes, foi local de um ataque terrorista que deixou 22 mortos, após explosão de homem bomba.  Um mês depois, Ariana voltou à cidade para um festival beneficente, o One Love Manchesters, com o objetivo de arrecadar dinheiro para famílias afetadas pela explosão nos arredores da Manchester Arena, onde aconteceu o atentado, e também apoiar as vítimas ainda hospitalizadas. A convite de Ariana, Coldplay, Little Mix, Robbie Williams, Liam Gallagher e outros artistas participaram do evento.  

Dua Lipa – A cantora britânica tornou-se conhecida pelo hit “New Rules”, cuja letra foi considerada empoderadora pela crítica, para o jovem público que a acompanha, especialmente as garotas. A composição, que rendeu à cantora os prêmios de revelação no NME para Artista Revelação, MTV Europe Music Award e Glamour Award, explica porque não voltar para relacionamentos abusivos.

Lady Gaga – A cantora americana passou por momentos de glória, como a apresentação no intervalo do SuperBowl, e momentos difíceis, como as crises de fibromialgia, doença crônica que a forçou a cancelar a apresentação no festival Rock in Rio. Tudo isso, além dos bastidores da criação do último álbum, Joanne, foi relatado no documentário Gaga: Five Foot Two, lançado pela Netflix, em setembro. Aberta sobre sua doença, Lady Gaga tornou-se uma voz sobre autocuidado, em uma indústria que muitas vezes exige demais física e psicologicamente das mulheres.

Lorde – Aclamada desde o início da carreira, aos 16 anos, pelo álbum Pure Heroine de 2013, Lorde voltou a lançar músicas inéditas em 2017, no também querido pela crítica Melodrama. Agora, com 21 anos, a cantora encerra o ano como a única mulher indicada ao Grammy de melhor álbum.  

Kesha – O retorno da cantora após uma longa batalha judicial contra seu ex-produtor Dr. Luke, que a abusava sexualmente e psicologicamente, foi simbólico e comemorado pelos fãs. Com a música Praying, Kesha abriu o coração sobre seus sentimentos durante os 10 anos de abuso e os três anos seguintes, na luta pelo fim de seu contrato com Luke e a gravadora Sony Music. Mesmo com o apoio da opinião pública, manifestada na hashtag #FreeKesha, a cantora acabou perdendo a ação, sendo forçada a retirar as acusações contra seu agressor. Em 2017, Dr. Luke foi demitido da Sony, o que abriu caminho para que Kesha pudesse trabalhar livremente, resultando no novo álbum, Rainbow.

SZA – A Melhor Artista Feminina de R&B e Melhor Revelação do ano, segundo o Soul Train Music Award, é uma mulher negra de 28 anos. Seu álbum Ctrl também foi eleito o melhor do ano, pela revista Time.

Política & Serviço Público:

Capitão Carla Borges – Carla Borges é uma Capitã Aviadora da Força Aérea Brasileira (FAB). Foi, em 22 de dezembro de 2016, a primeira mulher a comandar a aeronave presidencial. Integrante da primeira turma de mulheres no curso de formação de oficiais aviadores da Academia da Força Aérea (AFA) em 2003, ela acumula vários pioneirismos em sua carreira: foi a primeira mulher a integrar o Esquadrão Escorpião em Boa Vista (RR), na defesa das fronteiras, e a primeira mulher a chegar à primeira linha da aviação de caça.

Debora Ferreira – Debora Ferreira de Freitas tornou-se, em 2017, a primeira  mulher combatente das Forças Armadas brasileiras a integrar uma tropa em missão de paz, no Haiti. Ela é Segundo-Tenente Auxiliar Fuzileiro Naval e concluiu o curso de Especialização em Guerra Anfíbia em 2016, tornando-se a primeira mulher habilitada a comandar um pelotão de infantaria no Brasil.

Sâmia Bomfim – Aos 28 anos, é a vereadora mais jovem a ser eleita em São Paulo. Formada em Letras, pela USP, ela já mostrou, em seu primeiro ano de mandato, firme atuação na defesa dos direitos das mulheres, da população negra, LGBT, indígena e outros grupos minorizados. Sua primeira lei sancionada obriga os estabelecimentos públicos e privados da cidade a afixarem placas com o número do Disque-Denúncia da Violência Contra a Mulher (disque 180). Sâmia também foi combatente direta de ações que vão contra princípios básicos dos Direitos Humanos, impostas pela Prefeitura Municipal de São Paulo, como a “ração humana”.

Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffman (PT-PR), Lídice da Mata (PSB-BA), Regina Sousa (PT(PT-PI) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) – As senadoras protestaram contra a sessão que coordenava os trabalhos da reforma trabalhista. Para silenciá-las, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, chegou a interromper a transmissão da TV Senado, que, por lei, ocorre 24 horas por dia. As luzes da Casa foram apagadas para interromper a sessão. Tudo isso ocorreu enquanto elas se revezavam no microfone, na maneira que encontraram de dar voz às suas preocupações.

Érika KokayDurante uma comissão especial da Câmara dos Deputados, que votou a PEC 181/2015, a deputada foi a única, de 19, a ficar ao lado das mulheres e votou não à emenda no texto que, por uma manobra da bancada evangélica, traz a possibilidade da proibição da interrupção da vida desde sua concepção, o que tornaria crime o aborto, até mesmo em casos considerados legais hoje pela legislação brasileira, como em situação de estupro ou de risco de morte para a mãe.

Luzianne Lins e Lola Aronovich – A deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) se inspirou no caso da blogueira feminista Lola Aronovich para propor a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de ódio contra as mulheres pela internet. Lola escreve publicamente sobre feminismo há quase 20 anos e sofre constantes ataques machistas e ameaças online. A aprovação da lei marcou a campanha da ONU 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher.

Internacional:

Jacinda Ardern – Aos 37 anos, ela é a mulher mais jovem a ocupar o cargo de Primeira-Ministra na Nova Zelândia, desde 1856. Recém-eleita, Jacinda destacou-se em sua campanha por enfrentar perguntas sexistas, especialmente sobre ser solteira e sem filhos. Para um radialista, que gostaria de saber se sua comandante iria sair do cargo para licença-maternidade, ela declarou: “É totalmente inaceitável, em 2017, dizer que as mulheres precisam responder a essa pergunta no seu local de trabalho. A decisão de uma mulher sobre quando quer ter filhos não deveria pré determinar se elas recebem ou não uma oferta de trabalho”.

Katrín Jakobsdóttir  – A segunda mulher a ser eleita primeira-ministra da Islândia foi escolhida, em sua maioria, por um público jovem, entre 18 e 29 anos. Katrín é declaradamente feminista, ambientalista, social-democrata, anti-militarista e inicou seu governo com uma agenda fortemente pautada na igualdade de gêneros.  

María de Jesús Patricio Martinez “Mariachuy” – Mulher indígena e feminista, anunciou sua candidatura a presidência do México em 2018. Este ano, liderou a Assembleia de Conselho Indígena em seu país, fechando acordos entre mais de 600 comunidades indígenas.

Representatividade:

Dona Diva Guimarães –  A professora ficou conhecida após sua participação na Festa Literária de Paraty (Flip) 2017. Durante uma mesa de debate com o ator Lázaro Ramos e a jornalista Joana Gorjão Henriques, Dona Diva se levantou e falou sobre suas experiências pessoais desde a infância até atualmente, como uma mulher negra paranaense. Sua fala foi filmada e divulgada, ganhando relevância nacional.  

Karol Conká – A rapper denunciou publicamente o assédio de duas mulheres, que ela presenciou d em um hotel do Rio de Janeiro. No vídeo divulgado nas redes sociais, Karol contou que precisou socar o agressor, um estrangeiro hospedado no hotel, pois a segurança do estabelecimento não se mobilizou para proteger as vítimas.

Mirian Bottan – Após superar transtornos alimentares, Mirian passou a utilizar as redes sociais para mostrar seu corpo saudável e a verdade por trás de fotos posadas no Instagram, que, além de não revelar a beleza real das mulheres, também ajudam a intensificar padrões de beleza.  

Nara Almeida – A jovem de 24 anos compartilha com mais de 700 mil seguidores a sua rotina de tratamento contra um câncer de estômago, além de falar sobre beleza e autoestima durante esta fase de sua vida. Nara chegou a ser “elogiada” por seguidores pelo corpo magro em função da doença e rapidamente replicou os comentários explicando que aquele não era seu peso desejado, tampouco saudável, já que é uma consequência da gravidade de sua doença.

Thais Carla – Além de brilhar como bailarina gorda da cantora Anitta, Thais também foi uma voz de combate a gordofobia, depois dos ataques que sofreu na internet por ter posado nua em um ensaio.

Internacional:

Beyoncé – Afastada dos palcos em função da gestação dos seus filhos gêmeos (Rumi e Sir Carter nasceram em julho deste ano), a cantora encontrou tempo para um trabalho educacional voltado para mulheres. A Formation Scholars é um programa de bolsas de estudo que, segundo o site oficial, visa incentivar a carreira de mulheres na área de “creative arts”, como música, literatura e estudos afro-americanos. Beyoncé também esteve muito próxima do trabalho de amparo e alojamento de vítimas de desastres naturais que atingiram a América do Norte no meio do ano, tendo atuado principalmente em prol de Houston, no Texas, cidade natal da cantora, e dos países México e Porto Rico – que receberam os lucros da música Mi Gente, parceria da cantora com J Balvin e Willy William.

Selena Gomez – Depois de colaborar para um debate sobre saúde mental na adolescência, ao produzir e colocar no mundo a série 13 Reasons Why, Selena passou por um momento de reclusão para cuidar da sua própria saúde, deixando até mesmo de estar presente para a divulgação das próprias músicas. A cantora é portadora de Lupus há anos e conseguiu um transplante de rim, doado pela melhor amiga Francia Raisa. Eleita “Mulher do Ano” pela revista Billboard, não deixou passar críticas à reportagem de capa, alegando que boa parte das declarações atribuídas à ela não foram ditas de verdade ou foram modificadas pela publicação, que também a homenageou no evento “Woman in Music”.

Saúde:

Alessandra Luglio – Nutricionista e membro da Sociedade Vegetariana Brasileira, é uma das profissionais por trás do projeto de implementação da alimentação vegetariana saudável e nutritiva para crianças e jovens de escolas públicas pela Brasil.

Karla Daniela Santone – Médica mastologista e youtuber, a Dra Karla Santone vem fazendo um trabalho extensivo de conscientização sobre a relação da alimentação com produtos de origem animais e o câncer. Seu Instagram também é repleto de informações que desmistificam e informam sobre o impacto (positivos e negativos) dos alimentos na nossa saúde.

Neide RigoNutricionista e colunista do Caderno Paladar, do Estadão, é reconhecida por seu trabalho em expandir o conhecimento sobre as PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e promover contato com o alimento a partir das hortas urbanas. Foi um dos nomes responsáveis por criar o #Banquetaço, evento que serviu gratuitamente mais de 2000 refeições no centro de São Paulo. Os pratos foram feitos com frutas, legumes e vegetais de xêpas, além de Pancs. O objetivo do #Banquetaço é promover a distribuição de alimentos, conscientizar sobre o desperdício e combater a proposta da produção e distribuição da ração humana, projeto cogitado pelo prefeito João Dória.

Debora Diniz – A antropóloga da UnB segue lutando pelos direitos das mulheres, crianças e famílias afetadas pela epidemia de zika no Brasil, especialmente nos estados do Nordeste. Lançou um relatório sobre a situação em Alagoas e, por seu livro Zika: do sertão nordestino à ameaça global, ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria Ciências da Saúde. Em Março, protocolou, com apoio do PSOL, uma ação pela descriminalização do aborto no Brasil e em Maio, às vésperas da ação de João Doria na Cracolândia, também lançou o documentário Hotel Laíde, mostrando a necessidade da humanização no tratamento aos usuários de crack na região.

Rafaela Salgado Ferreira – Rafaela é uma farmacêutica mineira e uma das vencedoras do Prêmio “Para Mulheres na Ciência”, de 2017. A jovem e sua equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estudam tratamentos mais eficazes para o zika e a doença de Chagas, analisando mais de 400 substâncias e desenhando moléculas potencialmente capazes de inibir o funcionamento de proteínas essenciais no vírus e protozoário que transmitem as doenças.

União de Mães de anjos – É uma organização pernambucana formada por mais de 300 mães de filhos afetados pela epidemia de zika. Criada no fim de 2015, elas reivindicam que o Estado garanta a assistência médica e pague o Benefício de Prestação Continuada (BPC) às famílias afetadas. Em Julho, as mães se organizaram e realizaram um ato em Recife, exigindo respostas mais eficazes do governo, motivadas pelo falecimento de três crianças no mês anterior, decorrentes da assistência inadequada. São as famílias afetadas por uma epidemia que saiu dos holofotes e que agora contam apenas com elas mesmas para enfrentar as consequências do descaso do Estado.

Internacional:

Janine Clayton – Diretora de pesquisa da National Institutes of Health (NIH), em Maryland, defendeu um estudo sobre as diferenças que homens e mulheres enfrentam ao buscar tratamento de saúde. Na pesquisa, Janine demonstra que, quando tem dores entre os sintomas, as mulheres são mais negligenciadas pelos médicos.

Melanie Joy – Psicóloga social e professora de psicologia e sociologia, na Universidade de Massachusetts, é reconhecida por introduzir o conceito de “carnismo”, amplamente discutido no seu famoso livro Por que Amamos Cachorros, Comemos Porcos e Vestimos Vacas e na palestra TED Talks Além do Carnismo. Em 2017, lançou sua terceira e mais recente publicação, Beyond Beliefs: A Guide to Improving Relationships and Communication for Vegans, Vegetarians, and Meat Eaters (ainda sem edição em português).

Natalie Achong –  Assumiu, em 2017, a posição de primeira presidente negra da  Hartford County Medical Association, dos Estados Unidos.  

EM MEMÓRIA:

Danielle Jesus LafonVítima de feminicídio e violência doméstica, Danielle foi morta pelo marido, em casa, em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais Ela tinha 47 anos e foi golpeada com uma tesoura na altura do pescoço e também no crânio. O corpo só foi encontrado dois ou três dias após o crime.

Emmanuelle MunizA mulher transexual Emanuelle Muniz foi morta a pedradas após ser vítima de um sequestro, em Anápolis, a 55 km de Goiânia. O corpo da jovem de 21 anos  foi encontrado pela própria mãe, em uma estrada na zona rural da cidade.

Eva Todor – A atriz veterana faleceu aos 98 anos em decorrência de uma pneumonia. Eva surpreendeu ao deixar sua fortuna para os seus funcionários – uma empregada, um motorista e um secretário pessoal. Eva não tinha filhos.

Fátima Oliveira – A médica foi grande defensora do Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisadora da saúde da mulher, da população negra e defensora dos direitos sexuais e direitos reprodutivos. Além de sua atuação no meio da saúde, Fátima também compartilhou seu conhecimento como colunista nos sites Portal Vermelho e Portal Geledes.

Helley Abreu Batista – Uma das vítimas do incêndio criminoso em uma creche em Janaúba, no Norte de Minas Gerais. Helley trabalhava como professora no local e tentou impedir o autor do crime, Damião Soares dos Santos, de 50 anos, de atear fogo em seu próprio corpo para depois atacar as crianças. Ela teve 90% do corpo queimado e morreu no hospital, cerca de 11 horas depois da tragédia.

Isamara Filier – Vítima do crime de ódio por parte do ex-marido Sidnei Ramis de Araújo, Isamara, seu filho de oito anos e mais dez familiares foram assassinados durante uma festa de Réveillon, entre a noite de 31 de dezembro e a madrugada de 1° de janeiro. No crime, que ficou conhecido como a Chacina de Campinas, o atirador deixou uma carta expressando sua misoginia com a esposa. Isamara já havia sofrido ameaças de morte no Natal de 2012 e denunciado Sidnei no Centro de Referência e Apoio à Mulher.

Júlia Volp – Natural do Morro da Fumaça, no Sul do estado de Florianópolis, era uma mulher trans e trabalhadora sexual. Júlia esteve desaparecida por 13 dias até ter seu corpo encontrado próximo ao seu ponto de programa. A Delegacia de Homicídios da Capital reportou que o corpo tinha sinais de facadas.

Márcia CabritaA atriz e comediante faleceu aos 53 anos, após quase 7 anos lutando contra um câncer de ovário. Após o falecimento de Márcia, uma entrevista de 2011 voltou a circular, onde a atriz falou sobre o direito de se sentir mal diante da notícia da doença: “Ao contrário do que muitos fantasiam, não tirei de letra. Não sei o porquê, mas existe uma ideia estapafúrdia de que quem está com câncer tem que, pelo menos, parecer herói. Nãnãninã não!”.

Marisa de Carvalho Nóbrega – Diarista, vendedora, mulher negra e periférica. Marisa foi agredida por Policiais Militares do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), que queriam a ajuda dela para prender seu filho. Marisa chegou a ser levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e depois transferida para o Hospital Salgado Filho, onde veio a falecer. A certidão de óbito consta aneurisma como causa da morte. Marisa deixou 5 filhos.

Mayara Amaral – A jovem de 27 anos era violonista, professora de música e tinha mestrado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), cuja dissertação fala sobre mulheres compositoras de violão. Mayara foi vítima de feminicídio na cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Ela foi atraída para um motel por Luis Alberto Bastos Barbosa, onde ficou encurralada com outros dois homens. Dois a estupraram, os três a martelaram na cabeça e atearam fogo ao corpo. Mayara continuou sendo violentada pela imprensa, que contou a história do ponto de vista dos agressores e a desumanizou. O feminicídio sofrido por Mayara incentivou protestos contra violência de gênero pelo país.  

Rogéria – Aos 74 anos, a atriz faleceu depois de ser internada com uma infecção urinária e complicações decorrentes. Recentemente, Rogéria participou do lançamento da biografia Rogéria – Uma mulher e mais um pouco, escrita por Márcio Paschoal e fez parte do grupo de travestis e transexuais retratado no documentário Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal. Rogéria tornou-se tão popular por suas atuações no cinema e na TV desde os anos 40, que passou a ser conhecida como “travesti da família brasileira”.

Yasmin Costa – Estudante negra de Física, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), foi assassinada a golpes de facas por seu namorado, em um apartamento no bairro Coroa do Meio, em Aracaju, Sergipe.

Internacional:

Emmanuelle RivaA atriz que foi referência do movimento artístico do cinema francês Nouvelle Vague, nos anos 60, morreu de um câncer em janeiro de 2017. Emmanuelle ficou conhecida pelo papel de protagonista no filme Hiroshima meu amor (1959), de Alain Resnais, e voltou a brilhar em 2012, com o filme Amor, do austríaco Michael Haneke, que lhe rendeu os prêmios César e Bafta de melhor atriz, além de sua primeira indicação ao Oscar. A honraria mais recente veio em 2014, o Beaumarchais, entregue por um júri de críticos do jornal francês Le Figaro, por sua atuação na peça Savannah bay, de Marguerite Duras.

Jo Walker-Meador Considerada a matriarca na música country por ter administrado a Country Music Association por quase três décadas, Jo faleceu em agosto de 2017, aos 93 anos.

Mary Tyler MooreA estrela do programa The Dick Van Dyke Show nos anos 60, morreu em janeiro de 2017, aos 80 anos. Além do trabalho como atriz, Mary era ativista feminista e usou de sua influência para pautar, como produtora de um noticiário da TV americana, questões ainda tabus para sua época, como igualdade salarial e pílula anticoncepcional.

Ruth Escobar A atriz portuguesa brilhou em mais de 30 peças de teatro no Brasil, onde morou desde os 15 anos de idade. Ruth também teve atuações políticas memoráveis, seu ativismo político e feminista a levou ao cargo de deputada estadual em duas gestões. Em outubro de 2017, aos 82 anos, Ruth faleceu por complicações do Alzheimer.

Arte: Kaol Porfírio para Think Olga.

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Diante de uma gravidez indesejada e da necessidade de seguir trabalhando e  estudando com bolsa do ProUni para criar dois filhos, Rebeca Mendes da Silva Leite, de 30 anos, pediu à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, o direito de realizar o aborto de maneira segura e legal. O pedido foi negado sem análise do mérito pela ministra, mas a estudante não ficou sem amparo. Rebeca conseguiu a interrupção da gestação em viagem à Colômbia. Ela estava grávida de sete semanas e havia viajado ao país a convite de organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para participar de debates sobre seu caso judicial no Brasil.

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Foto: Anis – Intituto Bioética

Sabendo que estava protegida pelas hipóteses de aborto legal colombianas, Rebeca decidiu realizar o procedimento. O aborto é um procedimento autorizado pela Corte Constitucional do país vizinho desde 2006 em três circunstâncias: quando a gravidez coloca em perigo a saúde física ou mental da mulher, quando a gravidez é resultado de estupro ou incesto e em caso de malformações do feto incompatíveis com a vida fora do útero. O procedimento é feito por um médico clínico geral ou obstetra que auxilia a mulher a escolher entre a interrupção com medicamentos ou cirúrgica. Há um acompanhamento médico após o procedimento e a mulher ainda escolhe a implementação de um método contraceptivo de sua preferência.

Rebeca conta que desde que chegou na Colômbia foi tratada com acolhimento e respeito. “Aqui há a compreensão sobre o que eu estava passando e o que eu queria fazer com o meu corpo. O procedimento da interrupção ocorreu sem grandes problemas, sem nenhum empecilho. Detalharam todo o processo. Eu fui muito bem orientada. Eu fiz a interrupção da gravidez e já saí com o método contraceptivo que escolhi. Diferente do Brasil. Na Colômbia, recebi carinho e atenção de pessoas que não são da minha pátria, mas que entendem a minha luta. Eles lutam diariamente pelos direitos das mulheres. Então só tenho a agradecer a todos que estiveram envolvidos”, comenta aliviada.

A Anis – Instituto Bioética apoiou Rebeca desde a sua tomada de decisão e responde dúvidas com relação ao procedimento e a estadia da estudante na Colômbia:

O que aconteceu com Rebeca desde que teve o pedido de aborto negado?
Depois da resposta Supremo Tribunal Federal, Rebeca estava em espera pela decisão do habeas corpus impetrado diante da justiça de São Paulo. Seu objetivo era receber amparo judicial para realizar o aborto legal e seguro no país. Neste intervalo, Rebeca foi convidada por organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para ir à Colômbia falar sobre sua experiência de litígio no Brasil. Sabendo que o aborto na Colômbia é permitido nos casos de risco à saúde mental da mulher, e considerando o silêncio do STF e do TJSP sobre sua demanda, Rebeca decidiu realizar o procedimento durante a viagem.

Rebeca pretendia fazer o aborto na Colômbia desde o início?
Não. Rebeca procurou a Anis em busca de uma forma de interromper a gestação que não colocasse sua saúde em risco e que não fosse crime. Por isso decidiu expor sua história em pedidos ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Havia planos para atender a demanda de Rebeca em um país onde o aborto é legal se ela não conseguisse a autorização judicial até perto de completar 12 semanas de gestação. Mas o convite para a viagem à Colômbia veio antes desse prazo, e Rebeca decidiu realizar o procedimento assim que possível.

Onde Rebeca fez o procedimento?
Em uma clínica da organização privada e sem fins lucrativos Profamilia, que oferece diversos serviços de planejamento familiar e cuidado à saúde sexual e reprodutiva na Colômbia.

Quem pagou pelo procedimento?
A Profamilia tem uma atuação assistencial, por meio da qual oferece o procedimento gratuito a mulheres que não podem pagar.

Quem pagou pela viagem de Rebeca?
A viagem foi realizada a convite e financiada pela pela rede latino-americana CLACAI (Consorcio Latino-Americano Contra o Aborto Inseguro). Na Colômbia, Rebeca participou de reunião com o grupo La Mesa por La Vida y La Salud de Las Mujeres.

Como foi o procedimento?
Rebeca foi acolhida na clínica e, após receber explicações sobre métodos para realizar o aborto, optou pelo cirúrgico. Também foi orientada sobre diversos métodos contraceptivos e escolheu o de sua preferência. Tudo transcorreu bem, ao longo de uma manhã, e Rebeca saiu da clínica já com o implante subcutâneo.

Ter feito o procedimento fora do país coloca Rebeca em risco diante da lei brasileira?
Não. A lei brasileira só é aplicável no país. Rebeca fez o aborto amparada pelas leis colombianas e não pode ser punida por isso.

O que acontecerá com o habeas corpus impetrado em São Paulo?
Rebeca solicitará que a ação não tenha mais seguimento, porque já não há propósito.

Isso significa que Rebeca desistiu da decisão judicial antes da hora?
Talvez seja preciso recolocar a pergunta: o pedido de Rebeca era de urgência, e não foi respondido no tempo que sua situação crítica exigia. Ela foi desamparada pelo silêncio da justiça brasileira. Cada dia de espera representava uma ameaça crescente à sua saúde. Rebeca tomou a decisão que considerou mais correta diante da emergência e das condições que tinha. Mas o debate judicial que levantou no Brasil sobre o sofrimento imposto pela criminalização do aborto na vida concreta das mulheres seguirá à sua história.

Solidão – A impossibilidade de prosseguir com sua decisão de forma segura e legal, com acesso aos devidos cuidados em saúde, causava à Rebeca intenso sofrimento mental. Depois do procedimento de interrupção, ela conta que essa sensação passou. “Passou o sentimento de solidão. A decisão já foi tomada e posta em prática. Eu me sinto como a velha Rebeca que existia antes de começar tudo isso. Não tenho mais nenhum sintoma de depressão, solidão, angústia. Eu me sinto normal e não me sinto envergonhada por me sentir bem”, ressalta.

Aborto no Brasil – Uma em cada cinco mulheres até os 40 anos já fez, pelo menos, um aborto no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto 2016. Estima-se que 500 mil mulheres façam aborto a cada ano, o que significa quase uma mulher por minuto. Segundo a mesma pesquisa, cerca de metade das mulheres precisa ser internada depois de um aborto ilegal no país.

“O desfecho do caso de Rebeca demonstra o desamparo das mulheres no Brasil. Para viver um procedimento de aborto com segurança, Rebeca teve de ir a um país vizinho que reconhece que qualquer gestação indesejada é uma gestação de risco pelo sofrimento que impõe às mulheres” diz Gabriela Rondon, uma das advogadas de Rebeca Mendes.

No Brasil, o aborto é permitido somente nos casos de estupro, de anencefalia do feto ou quando a gestação representa um risco para a vida da mulher. Para todas as outras situações, valem os artigos 124 e 126 do Código Penal, datado da década de 1940, segundo os quais provocar o aborto em si mesma, com ou sem o auxílio de outra pessoa, configura crime com pena de um a três anos de prisão. Quem auxilia ou realiza o procedimento, mesmo com o consentimento da mulher, está sujeito a uma pena de um a quatro anos de prisão.

Apoio – A Academia Nacional de Medicina elaborou uma carta endereçada à presidente do STF, ministra Carmen Lúcia defendendo a descriminalização do aborto. “Quando realizado em condições adequadas, segundo os protocolos recomendados pela OMS, o aborto é um procedimento seguro e eficaz, com baixo risco de sequelas e que contribui para reduzir a morbimortalidade materna. O tema precisa ser debatido com base em evidências científicas e nas experiências bem documentadas dos países onde a interrupção voluntária da gravidez é realizada legalmente”, afirma o texto. A Academia observa ainda que, em países onde a prática foi legalizada, houve queda tanto do número de procedimentos quanto de mortes maternas.

Um manifesto “em prol do direito ao aborto seguro para todas as mulheres brasileiras e em apoio a Rebeca Mendes” também foi divulgado este fim de semana. O documento é assinado por 170 mulheres do meio intelectual e artístico do país que defendem “não podemos silenciar sobre essa realidade, que afeta milhares de mulheres. Declaro que sou uma delas. Declaro ter feito um aborto. Rebeca Mendes não é uma exceção”. Entre elas, estão nomes como a atriz Camila Pitanga, a produtora Maria de Médici, a filósofa Marcia Tiburi e a psicanalista Maria Rita Kehl.

Mensagem – Rebeca espera passar uma mensagem positiva e somar forças para ajudar outras mulheres que passam pela mesma situação que ela enfrentou. “Eu espero mostrar que existe uma outra opção para todas as mulheres que eu vejo, diariamente, nas redes sociais, passando pela mesma condição que eu, cogitando abortar clandestinamente por não ter a possibilidade de fazer isso fora do Brasil. Para elas eu digo: há organizações, há pessoas que lutam para que nós tenhamos esse direito”, conta emocionada.

“Eu espero que agora as mulheres vejam que elas têm outra opção. Eu fui a primeira e sabia que a minha resposta no judiciário poderia ser negativa. Afinal, como eles iam dar uma sentença favorável se uma mulher estava pedindo? Era como se só eu no Brasil precisasse abortar. O nosso Estado infelizmente fecha os olhos pra essas mulheres. Essas mulheres precisam aparecer, ter a coragem de dar nome e voz para a história delas e mostrar que isso não acontece só com a Rebeca, mas também com a Maria, com a Julia, com a Fernanda, com milhares de nós. Devemos mostrar que existimos e que precisamos de um respaldo da nossa sociedade”, conclui.

“Rebeca enfrentou a pressão pública ao oferecer sua história e seu rosto em uma demanda tratada de uma maneira tão injusta e estigmatizada no Brasil. É um alívio que o acolhimento de outro país tenha permitido uma solução segura e respeitosa para a sua demanda, mas a sua história nos lembra das outras 500 mil mulheres que vivem um aborto inseguro no país todos os anos. Estamos falando de uma crise permanente de saúde pública que está nas mãos do STF decidir”, conclui Sinara Gumieri, que integra a equipe de advogadas de Rebeca.

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O Supremo Tribunal Federal conheceu a história de Rebeca Mendes Silva Leite por meio de uma liminar, feita pela Anis – Instituto Bioética e o PSOL, que pedia o direito do aborto legal e seguro. As mulheres tiveram Rebeca, por sua coragem, como a personificação da luta pela descriminalização do aborto no Brasil.

Nesta quarta-feira (29), o STF informou que o pedido de Rebeca não foi concedido pela Ministra Rosa Weber, à quem a estudante havia direcionado uma carta ao fazer o pedido.

Mas esta decisão não encerra a luta pela descriminalização no Brasil. O STF ainda tem uma ação para avaliar. Rebeca também não pode ficar sem amparo.

Para saber mais, leia o FAQ (perguntas frequentes) que a Anis preparou sobre Rebeca, a decisão do STF e os próximos passos a serem tomados:  

1. Quem é Rebeca Mendes?

Rebeca é uma mulher de 30 anos, com dois filhos. Engravidou involuntariamente em uma fase de troca de métodos de planejamento familiar. É trabalhadora com contrato temporário, estudante de direito. Ela está com atraso menstrual de três semanas e tempo gestacional de sete semanas.

2. O que foi pedido ao Supremo Tribunal Federal?

Foi feita uma petição à Ministra Rosa Weber para que o caso de Rebeca fosse considerado para a concessão de liminar já solicitada, no dia 7 de março, na ADPF 442. A ADPF 442 pede a descriminalização do aborto no Brasil até 12 semanas de gravidez.

3. Foi feita uma nova ação no STF para o pedido de Rebeca?

Não. O que foi apresentado foi uma petição a uma ação já em curso, a ADPF 442. Não houve uma nova ação para Rebeca

4. O que o STF decidiu?

O pedido de liminar foi indeferido, ou seja, negado. O indeferimento foi sobre o instrumento processual e não sobre o conteúdo do pedido. Ou seja, não houve decisão sobre o caso de Rebeca.

5. Isso significa que Ministra Rosa Weber não analisou o caso de Rebeca?

Sim, a decisão não foi sobre Rebeca, mas sobre o pedido de urgência de uma liminar para todas as mulheres no país. A ministra afirmou duas coisas: 1. Não caberia um pedido individual numa ação abstrata como a ADPF 442; 2. O trâmite da APDF 442 tem sido rápido, ou seja, ela tem considerado a urgência da demanda.

6. Por que Rebeca foi ao STF e não a justiça comum em São Paulo, onde vive?

Porque o tempo da gestação pedia urgência e há uma ação em curso no STF (ADPF 442) que pede uma liminar para descriminalizar o aborto no Brasil. A liminar de Rebeca foi apresentada como uma evidência a esta ação, além dos dados populacionais de 330 mil mulheres que já fizeram aborto desde que a ADPF 442 foi apresentada.

7. Como está Rebeca?

Ela se sente desamparada – pela justiça e pela pressão fanática para que não faça o aborto. Já lhe foi oferecida casa, trabalho e renda para que desista da decisão.

8. Por que Rebeca não fez o aborto ilegalmente?

Porque não quer correr risco de vida. Porque não quer ser criminosa. Rebeca é mãe de dois filhos e quer cuidar deles. Deseja terminar sua faculdade de direito.

9. De onde surgiu Rebeca?

Rebeca procurou a Anis pela campanha Eu vou contar e pediu ajuda. Desde o início, esclareceu que sua vontade era interromper a gestação e não correr risco de vida. Rebeca não quer cometer um crime por isso procurou a justiça.

10. Quais os próximos passos?

Todos os passos foram decididos por Rebeca. Ela ainda está pensando no que fazer. A pressão fanática é intensa, violando sua intimidade. Rebeca precisa de tranquilidade para decidir o que for melhor para sua vida.

Atualização:

Após a negativa do STF, Rebeca conseguiu realizar o aborto na Colômbia. Entenda:

O que aconteceu com Rebeca desde que teve o pedido de aborto negado?

Depois da resposta Supremo Tribunal Federal, Rebeca estava em espera pela decisão do habeas corpus impetrado diante da justiça de São Paulo. Seu objetivo era receber amparo judicial para realizar o aborto legal e seguro no país. Neste intervalo, Rebeca foi convidada por organizações que trabalham pelos direitos das mulheres para ir à Colômbia falar sobre sua experiência de litígio no Brasil. Sabendo que o aborto na Colômbia é permitido nos casos de risco à saúde mental da mulher, e considerando o silêncio do STF e do TJSP sobre sua demanda, Rebeca decidiu realizar o procedimento durante a viagem.

Rebeca pretendia fazer o aborto na Colômbia desde o início?
Não. Rebeca procurou a Anis em busca de uma forma de interromper a gestação que não colocasse sua saúde em risco e que não fosse crime. Por isso decidiu expor sua história em pedidos ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Havia planos para atender a demanda de Rebeca em um país onde o aborto é legal se ela não conseguisse a autorização judicial até perto de completar 12 semanas de gestação. Mas o convite para a viagem à Colômbia veio antes desse prazo, e Rebeca decidiu realizar o procedimento assim que possível.

Onde Rebeca fez o procedimento?
Em uma clínica da organização privada e sem fins lucrativos Profamilia, que oferece diversos serviços de planejamento familiar e cuidado à saúde sexual e reprodutiva na Colômbia.

Quem pagou pelo procedimento?
A Profamilia tem uma atuação assistencial, por meio da qual oferece o procedimento gratuito a mulheres que não podem pagar.

Quem pagou pela viagem de Rebeca?
A viagem foi realizada a convite e financiada pela pela rede latino-americana CLACAI (Consorcio Latino-Americano Contra o Aborto Inseguro). Na Colômbia, Rebeca participou de reunião com o grupo La Mesa por La Vida y La Salud de Las Mujeres.

Como foi o procedimento?
Rebeca foi acolhida na clínica e, após receber explicações sobre métodos para realizar o aborto, optou pelo cirúrgico. Também foi orientada sobre diversos métodos contraceptivos e escolheu o de sua preferência. Tudo transcorreu bem, ao longo de uma manhã, e Rebeca saiu da clínica já com o implante subcutâneo.

Ter feito o procedimento fora do país coloca Rebeca em risco diante da lei brasileira?
Não. A lei brasileira só é aplicável no país. Rebeca fez o aborto amparada pelas leis colombianas e não pode ser punida por isso.

O que acontecerá com o habeas corpus impetrado em São Paulo?
Rebeca solicitará que a ação não tenha mais seguimento, porque já não há propósito.

Isso significa que Rebeca desistiu da decisão judicial antes da hora?
Talvez seja preciso recolocar a pergunta: o pedido de Rebeca era de urgência, e não foi respondido no tempo que sua situação crítica exigia. Ela foi desamparada pelo silêncio da justiça brasileira. Cada dia de espera representava uma ameaça crescente à sua saúde. Rebeca tomou a decisão que considerou mais correta diante da emergência e das condições que tinha. Mas o debate judicial que levantou no Brasil sobre o sofrimento imposto pela criminalização do aborto na vida concreta das mulheres seguirá à sua história.

Leia mais sobre aborto no nosso FAQ Definitivo sobre o assunto.

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Nesta madrugada, o Supremo Tribunal Federal conheceu a história de Rebeca Mendes Silva Leite por meio de uma ação apresentada pelo PSOL e a Anis – Instituto Bioética pedindo o direito de interromper uma gravidez de poucas semanas, indesejada. E hoje convidamos você também a conhecer a história de Rebeca, contada por ela mesma, nesta carta direcionada a Ministra Rosa Weber, pedindo a descriminalização e segurança do aborto para o seu caso.

Para além do STF, para além de Rosa Weber. Nós, mulheres, também precisamos saber a história de Rebeca. Reconhecer sua identidade, seu rosto, seus medos e anseios é protegê-la da lei que criminaliza, da sociedade que julga. É personificar a luta pela descriminalização para todas as brasileiras.

Em plena consciência de sua escolha, Rebeca lê, em vídeo, sua carta direcionada a Ministra Rosa Weber, pedindo a descriminalização e segurança do aborto para o seu caso. Se, ao longo das últimas semanas, a Anis tem trazido histórias que precisam ficar no anonimato por meio da campanha #EuVouContar, hoje é a Rebeca quem vai contar corajosamente a sua, personificar os medos e as dores de muitas de nós. Leia a transcrição: 

Meu nome é Rebeca tenho 30 anos, sou mãe de dois meninos. Thomas de 9 anos e Felipe de 6 anos.  Antes de me julgar, Ministra Rosa Weber, peço que me escute, pois não é fácil, mas tentarei descrever o motivo do meu atual sofrimento.

Na terça-feira, dia 14/11, eu descobri que estou grávida. Minha menstruação, até então, estava atrasada apenas 10 dias. O que isso significa pra mim naquele momento? Bom, senti um grande abismo se abrindo e me sugando cada vez mais para baixo. Desde então, eu já não sei o que significa dormir, comer, estudar, enfim, tudo o que faço tranquilamente e quando não estou fazendo “nada”, eu estou chorando. Fico imaginando as possibilidades, e a longo prazo se eu estivesse vivendo outra realidade, o mínimo diferente que fosse, eu não estaria escolhendo fazer um aborto. O que tentarei fazer aqui é um relato verdadeiro do que está acontecendo neste momento e mais ainda, tentarei ser o mais racional possível.

Como já disse, sou mãe de dois meninos lindos e mesmo o pai pagando a pensão alimentícia para os meninos e morando muito perto de nós, ainda assim, me considero uma mãe que também faz o papel de pai. O lema dessa pessoa que se considera pai dos mais filhos é: “eu já pago pensão”. Isso é o que eu escuto basicamente, em qualquer situação, desde chegar da faculdade às 23 horas e perceber que um deles está com febre alta e ligar e pedir que nos leve até o hospital, pois ele tem carro e eu não, e a resposta que eu tenho é: “Eu não pago pensão? Chama o Uber e leva você”. Dentre outros absurdos que não vem ao caso.

Mas o que isso tem a ver com a atual gestação? Infelizmente, o pai dos meus dois filhos é responsável também por essa gestação. Quando eu conto esse detalhe, geralmente as pessoas riem da situação. Mas não sabem como é ter um relacionamento saudável e sem remorsos, sendo uma mãe solteira. Mesmo assim, estamos separados há 3 anos, e essa foi a única aproximação amorosa que tivemos. Mas ainda assim não é esse o motivo que me leva a decisão de interromper essa gestação.

Já adianto aqui, são dois motivos que me levam a essa decisão. O principal deles é que em fevereiro para ser mais exata, no dia 11/02/2018 eu serei uma mulher desempregada. Tenho um contrato de trabalho temporário no IBGE, e nessa data ele se encerra sem a possibilidade de renovação. Serei então uma mãe de dois filhos desempregada e grávida. Se já é difícil para uma mulher com filhos pequenos trabalhar em nosso país, é impossível uma mulher grávida conseguir um trabalho para qualquer atividade que seja. Seremos três pessoas passando necessidades, não conseguindo pagar meu aluguel sem ter dinheiro para comprar comida e com toda essa dificuldade ainda terei um bebê a caminho. Esse é um cenário que a longo prazo não tenho perspectiva de melhora.

O outro motivo que tenho é que estou cursando o quinto semestre do curso de Direito, curso este onde eu possuo uma bolsa integral pelo PROUNI e é o passaporte da minha família para uma vida melhor. Continuar com essa gestação significa também interromper por prazo indeterminado a conclusão desse sonho. Não sou uma mulher irresponsável, estava trocando de uso de um contraceptivo por outro. Como não possuo convênio médico, todo procedimento é feito pelo SUS, onde todo e qualquer procedimento é moroso.

Moro na cidade de São Paulo e, pra ser sincera, eu poderia ter ido até a Praça da Sé com R$ 700,00 reais e comprar o tal do “Citotec” e ter tomado na minha casa e acabado com tudo isso. Diante dessa possibilidade pesquisei o funcionamento e as consequências deste ato. Me entenda, eu nunca estive nessa posição e os relatos que vi foram mais que suficientes para descartar essa possibilidade. O medo do procedimento não funcionar e acarretar má-formação ou o remédio causar uma hemorragia causando a minha morte e, ser levada para um hospital e chegando lá ser levada para delegacia. Não quero ser presa e muito menos morrer. Não parece ser justo comigo. Não estou grávida de 4 ou 5 meses, estou grávida de dias apenas.

Arte: Kaol Porfírio.

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No começo de outubro, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama estava no país para uma palestra organizada por um jornal brasileiro e, nessa semana de visitação a São Paulo, fui convidada a encontrá-lo em um jantar privado oferecido a seis convidados.

O pequeno grupo era formado por pessoas que pudessem trazer pautas próximas aos novos planos de Obama. Após a presidência, ele pretende mentorar e conectar jovens líderes ao redor do mundo por meio de uma fundação que leva seu nome.

Na manhã do mesmo dia, durante o evento, ele já havia adiantado publicamente um pouco do porque essa abordagem é importante:  “claro que o governo é importante em áreas como educação e esforços para reduzir a pobreza, mas nada vai mudar se, na comunidade local, pessoas não se encontrarem, construírem confiança e aprenderem a trabalhar juntas. Isso vai ser refletido em como será a política ao longo do tempo”.

Fui convidada, como fundadora da Think Olga, para falar sobre questões de gênero. Não é um tema estranho ao ex-presidente – tanto ele, quanto a ex-primeira dama Michelle Obama, durante o mandato, foram cabeça de várias ações pelos direitos das mulheres – mas era importante saber como o tema se encaixaria nas ações da nova fundação.

O meu plano era defender que a pauta das mulheres deveria estar no foco de qualquer iniciativa que queira de fato fazer a diferença no mundo. Se quiser fortalecer a sociedade para a mudança social, a Fundação Obama precisa apoiar, em especial, as mulheres ao redor do mundo. Sejam elas líderes em questões de gênero ou líderes em outras áreas.

A mensagem foi bem recebida. Logo no início do jantar, Obama começa uma rodada de apresentações e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, afirma: “Eu fiz a minha lição de casa. Você é da ONG Think Olga, certo?”

“Sim, muito prazer!”

Aproveitei o momento para contar sobre o cenário brasileiro – do levante popular conhecido como a Primavera das Mulheres, mas também tomado por uma onda retrógrada que tenta fortemente manter o status quo. Falei sobre nossas campanhas e principalmente sobre nossa vontade em criar uma consciência sobre problemas e opressões ainda invisíveis e normalizados pela sociedade. Obama concordou e elogiou: “O trabalho de mudança de uma cultura começa com a conscientização”.

E foi algo muito próximo do como agimos em prol dos direitos das mulheres. Quando falamos que somos uma ONG, o imaginário das pessoas nos levam para aquela imagem de assistência. Porém não fazemos atendimento de vítimas, não mentoramos pequenos grupos escolares. Somos comunicadoras e nossa missão é o empoderamento feminino por meio da informação. Ou seja, acreditamos na criação de conteúdos gratuitos que possam quebrar barreiras do offline e atingir pessoas no Brasil inteiro, que permita a elas reconhecer uma opressão, entender melhor o problema e agir para mudar seus microuniversos como novas multiplicadoras de informação, usando nossos produtos como ferramenta.

Obama parecia concordar com a proposta: “As pessoas precisam ter consciência das desigualdades e violências que existem para que deem passos rumo à mudança”. E mostrou se preocupar com questões parecidas: qual a melhor maneira de usar as mídias disponíveis hoje para educar? Como lidar com violências e perseguições que acontecem nelas? E como criar, em cada contato, alguém que possa espalhar a mudança adiante?

O ex-presidente dos EUA, com a experiência de quem determinou os rumos do mundo durante oito anos, nos explicou sua estratégia e ambição com a fundação. “A nossa programação internacional estará focada em criar um espaço para que todos estes jovens líderes de todo o mundo se unam e comecem a resolver problemas, tanto localmente, quanto nacionalmente e internacionalmente.”

Nós, da Think Olga, buscamos um impacto local, mas somos igualmente ambiciosas. Nosso foco está na criação de conteúdo profundo, rico e gratuito sobre temas de tamanha importância para as mulheres. Essa foi uma oportunidade incrível para explicar o que fazemos: uma nova proposta de educação. Queremos criar debates em cima de temas, esclarecer pontos, direcionar conversas, etc. Não à toa, nossos materiais já foram usados em eventos de RH, escolas, universidades, grupos feministas, etc.

Buscamos ser um canal pelo qual pessoas que acreditam na igualdade de gênero possam se conectar a um número grande de pessoas e ensiná-las a espalhar o conhecimento sobre feminismo a um número maior ainda. Nossa luta pela equidade de gênero está, também, em dar ferramentas para que cada vez mais pessoas possam compreender e entrar nessa jornada de transformação. É preciso não só entender, mas também valorizar esses novos formatos educativos e que desafiam o sistema tradicional.

E, em outubro, foi a vez do Obama conhecer essa rede. Estamos em um momento em que forças conservadoras e sexistas ganharam espaço e ameaçam destruir diversas conquistas recentes das mulheres. Independentemente de opiniões e apontamentos sobre os rumos dos mandatos, é importante ter, nesse momento, aliados capazes de reforçar a equidade de gênero como uma pauta urgente para todo o planeta.

Agradecemos a parceria e apoio do Consulado dos EUA em São Paulo.

Clique aqui e apoie o nosso trabalho.

Juliana de Faria é fundadora da Think Olga.

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Após o baixo desempenho durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, esperava-se do próximo técnico da Seleção Brasileira de Futebol feminino o resgate da energia do time, além de renovações para seguir crescendo em campo contra outras grandes seleções. Esta foi a missão de Emily Lima nos 10 meses de comando do time, com resultados interessantes: em 13 jogos, ela somou sete vitórias, um empate e cinco derrotas e inovou, por exemplo, ao apostar em jogadoras novatas ao lado das experientes Marta e Cristiane. Emily só estava começando a mostrar seu trabalho quando foi demitida pela CBF. “Disseram que estavam buscando resultados e que ela não os apresentou. Mas ela não poderia apresentar sem ter participado de jogos oficiais, só amistosos. Ao contrário do Vadão (antecessor de Emily), que não teve resultados e agora está sendo trazido de volta para a Seleção”, explica a jornalista esportiva Luciane Castro, colunista do Portal Vermelho.

Quando se é uma mulher em um alto posto de comando, as expectativas vão além dos resultados. Inicialmente, a contratação de Emily para uma função tão importante em um ambiente sempre dominado por homens pode ter simbolizado um avanço. Mas, olhando com profundidade, o caminho percorrido por Emily e muitas outras mulheres que chegam a cargos altos em suas profissões é frágil. Além do teto de vidro – que somente dá a impressão que o céu é o limite, quando na verdade ainda existem barreiras mantidas pelo machismo institucional – há também uma fundação muito frágil para aquelas que conseguem chegar ao topo apesar das adversidades. Há um chão de vidro.

Uma pesquisa de 2005, feita pelos professores Michelle Ryan e Alexander Haslam, da Universidade Exeter, na Inglaterra aponta que, normalmente, as mulheres são chamadas para cargos de lideranças em momentos de crise nas empresas, como, no caso da CBF, por causa das críticas à valorização do esporte masculino em detrimento ao esporte feminino. A presença de Emily ajudou a CBF a mascarar problemas internos, como o abismo salarial entre homens e mulheres que trabalham para a CBF, usando a imagem da técnica para “vender” um progresso por parte da administração.

Os pesquisadores explicam que o chão de vidro existe porque as mulheres recebem cobranças diferentes que os homens. As missões dadas a elas, normalmente são hercúleas ou condenadas ao fracasso aos olhos dos administradores. Como uma armadilha preparada para tirá-la do comando. Para Lu Castro, a contratação de Emily não só tinha a intenção de sabotá-la, como também servir de justificativa para se trazer um homem para o comando do time novamente.

Não é impossível caminhar sobre esse chão de vidro e resistir à queda. Mas são condições desiguais e injustas, que nem deveriam existir. Como paralelo, esta matéria da BBC News identifica o problema como “escada quebrada”, que só dá a impressão de subida. Uma situação que acontece nas altas esferas de poder e em praticamente todas áreas.

Este é o caso da executiva Marissa Mayer. Hoje é difícil imaginar que sua passagem como CEO do Yahoo seria tão turbulenta. A principal missão dada em sua chegada, em 2012, era de recuperar o posto da marca como pioneira da internet e superar o Google. Ao longo de sua gestão, Mayer recebeu críticas profissionais, por ter um estilo diferente de gerenciamento, mas o julgamento não se restringiu a isso. Ela foi criticada pela maternidade de gêmeos ao longo do processo, algo impensável em uma cultura como a norte-americana, sobretudo no ambiente machista do Vale do Silício. Cinco anos depois, o baixo crescimento foi argumento para a venda da empresa para a gigante Verizon. Inicialmente, Mayer não pretendia pedir demissão, mas com tamanha culpabilização e excessiva cobrança a fez desistir do cargo. Para o The Wall Street Journal, em uma reportagem especial sobre o conceito do chão de vidro, a administradora não teria caído tão facilmente se fosse um homem. Na verdade, teria tido uma chance no novo modelo da empresa.

O mesmo poderia ser aplicado então para Ellen Pao, durante sua gestão do site Reddit. Para uma mulher, estar neste ambiente pode ser um chão de vidro com um profundo penhasco logo abaixo, pois a empresa é composta por uma maioria masculina (74% dos funcionários são homens) e isso se reflete em seus usuários, que fazem dos fóruns do site espaços para demonstrações de misoginia, racismo, LGBTfobia e outros discursos de ódio, sem a menor restrição por parte do site.

Especialistas questionam o trabalho de Pao, o que justificaria sua demissão, não fossem todas questões de gênero envolvidas. As ofensas machistas internas e do público chegaram a gerar petições online, assinadas por homens, para a remoção da empresária, como lembra o The Daily Dot. Mas este não foi um problema recente. Seu cargo foi diminuído desde a sua chegada, sendo colocada como a única “CEO interina” da empresa. Por que não apenas CEO?

O The Daily Dot também destacou que a crise no Reddit durante a administração de Pao foi propositalmente levada a público de uma maneira que nunca aconteceu com homens CEOs, como se, sabendo da tendência violenta do público, a empresa quisesse usar a pressão para dispensa-la.

Se ter mulheres em altos cargos de liderança é um passo importante para levar mais outras mulheres a crescer no mercado de trabalho, principalmente em espaços dominados por homens, o chão de vidro é preocupante por representar mais um obstáculo que enfrentamos na jornada um retrocesso nesta luta.

Perder mulheres CEO nesta armadilha é perder espaços de poder. É desestimular as mulheres que as seguem. Para os homens líderes, a estratégia do chão de vidro é mais uma maneira de justificar seu domínio. Por isso, é preciso identificar essa armadilha antes de cair nela e assim não ceder a um mundo corporativo e masculino, que insiste em tirar as mulheres do jogo.

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