Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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Pare um instante o que você estiver fazendo e me ajude a listar 15 escritoras mulheres que você conhece: J.K. Rowling… Clarice Lispector… Ruth Rocha… Chimamanda Ngozi… Nora Roberts… Agatha Christie… Martha Medeiros… Ih, acabou! Acho que temos um problema.

E é dos grandes. Isso porque, em um estudo recente feito na Universidade de Brasília, pela pesquisadora Regina Dalcastagnè, apenas 27,3% dos escritores são mulheres (foram lidos 258 livros, publicados entre 1990 e 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco). Tá bom pra você?

Aqui no Brasil, os primeiros grandes nomes femininos da literatura (digo, os primeiros a realmente entrarem nas casas brasileiras pelo tão sonhado “boca a boca”) só surgiram na década de 30, com escritoras como Zélia Gathai, Cecília Meireles e a já mencionada Clarice Lispector. Tudo isso praticamente na semana passada…

Em plena Belle Époque (1890-1920), nas terras brasileiras, de 15 mil mulheres pesquisadas pelo antigo IBGE, menos de 20% sabia ler e escrever. Daí a gente pensa: “Poxa, são mais de 100 anos, tá tudo mudado, agora é só reclamação à toa”. Hoje, se pegarmos o número geral, segundo relatório da Unesco de 2014, há 774 milhões analfabetos no mundo. Deste número exorbitante, 64% são mulheres.

Isso dá mais do que 495 milhões de pessoas, do gênero feminino, que não sabem ler ou escrever. Isso sem contar que, as poucas que sabem ler e se destinam à escrita, são instantaneamente condenadas ao termo “literatura de mulherzinha”, uma vez que antigamente o foco principal da mulher era destinar-se aos atributos domésticos: ser esposa, mãe e dona de seu próprio lar. Por conta disso, os poucos livros destinados às mulheres tinham o papel de ratificar seus bons costumes em casa, passando sempre pelo aval dos familiares da moça de família. Logo, os temas não podiam contemplar coisas que fugissem do universo doméstico, da moda e da educação. O que fez a gente trazer consigo até hoje a questão de “literatura feminina”, mesmo nunca tendo existido uma “literatura masculina” propriamente dita.

 

Não precisamos ir muito longe, o primeiro livro de ficção científica da história, “Frankenstein” foi publicado de maneira anônima, para que ninguém soubesse que por trás do monstro que ia mudar a história da literatura estava a escritora Mary Shelley (mesmo a autora pertencendo a um grupo de grandes nomes da literatura, como Lord Byron e seu marido Percy Shelley). J.K. Rowling, outro exemplo, a aclamada escritora de Harry Potter e outros livros incríveis, foi aconselhada a colocar abreviações no lugar de seu nome completo, assim seria mais difícil dizer que um livro sobre um bruxinho (sem tantos romances e floreios) tinha sido escrito por alguém que usava saias. Pra finalizar a lista, o prêmio Nobel de Literatura, que existe desde 1901, só foi destinado a 12 mulheres ao longo de sua história; em terras nacionais, a Academia Brasileira de Letras tem 40 membros, destes só 5 são mulheres.

 


Pensar na falta de acesso (ou nas dificuldades em seguir) do mundo dos livros por questões de gênero, pode parecer tópico antigo, mas infelizmente ainda está muito presente nos dias de hoje. Cabe a nós, portanto, incentivar a produção e a leitura feita por mulheres neste mundo afora. Eu tenho certeza que será uma experiência inenarrável, sendo nós mulheres ou não.

Tatiany Leite é jornalista e apaixonada por internet e literatura. Já tendo apresentado colunas em diversos projetos (Cabine Literária; Torrada Torrada; Saraiva Conteúdo e ReVisão), hoje faz parte dos canais Vá Ler um Livro (que está com conteúdo exclusivo sobre mulheres na literatura para o mês de março) e Blablálogia. Além disso, já teve seus textos publicados na Revista TPM, Trip, Revista Capricho, Revista da Cultura e muitos outros veículos.

Arte: Jen Keenan

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Se hoje nós, mulheres negras, resistimos a estereótipos raciais que limitam nossas vivências e sexualizam nossos corpos para nos fazemos ouvidas e contar nossas próprias histórias, é porque outras, antes de nós, lutaram por esses mesmos sonhos. Isso não significa que estamos paradas no tempo nesta busca por progresso e pelo respeito que é nosso por direito, pelo contrário.

Agora falamos sobre reconhecer-se negra após anos de embranquecimento e negação de identidade e ancestralidade. Ocupamos lugares que nos eram negados e, consequentemente, quebramos estereótipos. Celebramos datas importantes como este Dia Internacional contra a Descriminalização Racial falando sobre inspirações do passado para inspirar as próximas gerações. E é um pouco de tudo isso que a jornalista Tatiane de Assis traz para esta colaboração para a Think Olga.

Karoline Gomes, assistente de conteúdo da Think Olga.

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“A inteligência causou medo”. Arte de Brittany Williams

Em tempos de valorização midiática de elementos da cultura negra,  a ancestralidade africana torna-se, muitas vezes, mais um item a ser adquirido em uma prateleira do supermercado ou de uma loja no shopping. No entanto, reconhecer-se como uma mulher negra é um processo complexo, que envolve desde o estudo do processo de rapto e escravização da população africana até o embate diário com o preconceito racial em suas diferentes roupagens.

A fim de contribuir com esse debate, conversamos com cinco mulheres negras: as atrizes Taís Araújo e Flávia dos Prazeres,  a docente Luciene Dias, a escritora Mel Duarte e a artista Angélica Dass. Elas elegeram livros que as ajudaram em seu processo de empoderamento e comentaram o impacto que os títulos provocaram em suas vidas.

Os depoimentos que você confere abaixo são mais do que um compilado; também podem funcionar como um guia para quem descobre a História, a luta e a força que guarda em sua pele.

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Foto original: Keila Jimenez / Divulgação.

Taís Araújo – Atriz
Livro: Um defeito de cor
Autora: Ana Maria Gonçalves

“Lázaro leu. Eu não consegui esperar ele terminar para pegar o livro emprestado. Comprei outro e fui ler também. Mudou a minha vida. Mudou meu ponto de vista sobre a história dos africanos que foram escravizados no Brasil. Traz uma heroína, a Luíza Main, que é uma mulher que lutou na revolta dos Malês. Ela é uma referência para todas nós. É romanceado, mas é de um poder transformador incalculável. Briguei com ele (o livro) muitas vezes. Fechei, abri, fechei, abri”.

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Foto original: Jornal UFG Online

Luciene  Dias – docente da Universidade Federal de Goiás, doutora em Antropologia Social pela UnB
Livro: Ensinando a Transgredir
Autora: Bell Hooks

“Não é um livro muito recente, mas foi recém-traduzido para o português. Quando isso aconteceu, as pessoas o buscaram muito. Soube pelas redes sociais e tive muita vontade de ter um. Comentei com várias pessoas que queria comprar e um amigo me deu de presente. Li o livro de folêgo. Foi bem rápido. É um título que tem muito a ver comigo, que fala de mulheres negras que transgridem e são desafiadas a fazerem diferente do que aprenderam. Fala muito de educação, mas educação enquanto processo, como prática de liberdade. Ela é freiriana. Inclusive em um dos capítulos do livro, ela simula uma entrevista com o Paulo Freire. Tem a educação como prática de liberdade, como um caminho para romper o patriarcalismo e conduzir a vida de forma transgressora. Mas essa transgressão não tem nada a ver com enfrentamento. É uma coisa mais suave, muito circular, muito feminina. Tem a ver com a ruptura de um processo de dominação para que você consiga alcançar um universo melhor. É um livro muito importante, me ajudou na sala de aula e em casa.”

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Foto original: Reprodução / Instagram

Angélica Dass – artista
Livro: Negros no Estúdio do Fotógrafo
Autora: Sandra Sofia Machado Koutsoukos

“Acho muito interessante quando ela fala da imagem da mulher negra no início da história do Brasil. Principalmente, por mostrar que boa parte das mulheres que tinham a possibilidade de ter um retrato eram amas de leites. Elas eram como propriedade, as famílias as usavam para dizer que eram abastadas.

Isso, para mim, fala muito do lugar de onde a gente vem, dessa representação da mulher negra que persiste. O século passou, mas a impressão é que a gente continua no mesmo lugar. No fundo, acho que olhar para esse passado faz com que a gente entenda o presente.  É uma forma de perceber que é muito importante continuar brigando.”

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Foto original: Reprodução / Instagram

Flávia dos Prazeres – atriz e bailarina
Livro: A Cor Púrpura
Autora: Alice Walker

“Tive a sorte de encontrar o livro na casa de um amigo que estava de mudança. A capa me chamou atenção por ter o perfil de uma mulher negra lendo, concentrada, e, ao fundo, o nascer do Sol. Era uma imagem positiva, a admirei por um bom tempo. Me remetia a falta de representatividade negra. Na verdade, há possibilidade de representação, me via ali. Na época, tinha 19 anos, havia acabado de me reconhecer enquanto mulher negra, tinha começado a usar o meu cabelo crespo, começava a me achar bonita. Era um processo complicado, sempre que era elogiada, diziam tudo menos que era bonita. Ouvia sempre: “Você é negra, mas tem traços finos”, “Ela é exótica”. No começo, recebi muitos insultos nas ruas por usar o cabelo natural. Há uma década atrás, isso não era bem recebido. A leitura me ajudou a ser forte como a personagem. Ela sofreu, mas persistiu. Me empoderei. Seus capítulos eram como que sessões de terapia. Sentia que tirava um peso enorme das minhas costas porque ao sofrer situações de racismo, me sentia culpada e triste. Vi que a solidão que sentia não era só minha. Pude entender e chorar as minhas dores junto com a personagem, o que foi libertador. A solidão da mulher negra nunca foi abordada dentro de casa, da escola, ou com amigos, nunca foi um assunto nos meios onde eu frequentava. Tampouco, tinha condições financeiras para frequentar um psicólogo e entender questões tão íntimas. O livro me ajudou a não perder a fé, o amor pela vida mesmo diante do racismo. Contribuiu para que eu olhasse pra mim, para que eu entendesse que é normal ter insegurança, ter medo de não ser aceita em uma sociedade onde a mulher negra não tem voz. Ao lê-lo, tive certeza que a culpa nunca foi minha. Que eu era linda, sim! Inteligente, sim! E que nada nem ninguém iria me impedir de enxergar isso. Parei de ver tantos defeitos da minha personalidade, comecei a dar mais a minha opinião, a participar e a ocupar mais espaços.”

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Foto original: Reprodução instagram @fotografiajessy / @projeto.fluidos.

Mel Duarte – poeta, slammer e produtora cultural
Livro: Pretextos de mulheres negra
Organização: Carmem Faustino e Elizandra Souza

“Esse livro é uma coletânea de literatura marginal negra feminina com 22 autoras. Fazer parte desse processo, pra mim, foi muito enriquecedor. As meninas fizeram tudo com muito capricho e zelo, o que normalmente não acontece em coletâneas. As fotos das autoras foram tiradas durante um encontro em um parque, onde tivemos chance de conversar, falar um pouco de nós e vivenciar um dia diferente. Antes de fazer parte da publicação, não tinha poemas voltados apenas para a mulher negra, ainda estava num processo de entender o quê e como gostaria de falar sobre mim, sobre nós. Depois de lê-lo e ver tantas biografias incríveis assim como os poemas dessas mulheres, entendi o meu tom e compreendi a necessidade de ter poemas com esse recorte. Esse é daqueles livros que vale a pena presentear meninas que ainda estão passando por esse processo de entendimento da sua ancestralidade, aceitando o próprio corpo e cabelo. Perdi a conta de quantos dei de presente para amigas e familiares e de quantos retornos positivos tive a respeito do mesmo, por mulheres de diferentes idades e realidades. Pra mim, é um título importante porque é um marco da nossa geração e pela beleza que tem. A parte visual – linda – é feita pela artista Renata Felinto.”

Tatiane de Assis é repórter com experiência nas áreas de artes visuais e bem-viver contemporâneo. Já colaborou com a revista Vida Simples e o site do Guia do Estudante. Atualmente, é reporte do site O Beijo, portal de cultura urbana associado ao IG.

Arte: Brittany Williams.

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No último dia 7 de março, o PSOL, em parceria com Anis – Instituto de Bioética, levou ao Supremo uma Ação de  Descumprimento  de  Preceito Fundamental (ADPF). A ação pede que se torne legal o aborto de fetos de até 12 semanas, descriminalizando o ato. Segundo a ação protocolada, os artigos 124 e 126, que criminalizam o aborto, vão contra a Constituição de 1988, que prevê o direito à dignidade, à autonomia e à cidadania da mulher. O aborto, enquanto crime, força a mulher a seguir por caminhos perigosos e solitários. Para esclarecer alguns pontos importantes da ação e qualificar o debate, elaboramos um F.A.Q. com principais possíveis dúvidas sobre o tema, que esperamos servir como um ponto de partida para discussões mais aprofundadas.

Para a produção do F.A.Q., contamos com a ajuda essencial de Debora Diniz, que é professora, antropóloga e pesquisadora da ANIS. Para ela, o tema é mais do que fagulha para debate; é uma luta que já completa doze anos de existência. “Já abrimos muitas portas para os direitos das mulheres – e já conseguimos reduzir estigmas mais complexos do que isso, como nossa sexualidade”.

A tramitação da ação pode levar meses ou anos – segundo Debora, o Supremo tem seu próprio tempo e tudo dependerá do ministro que for sorteado para lidar com o tema. É justamente por isso que é importante trazer a discussão, sempre que possível, para o debate público – entender o quanto a descriminalização do aborto é essencial é também entender porque os direitos da mulher serão, sem dúvida, transformados também.

Quando o aborto se tornou crime?

Na Constituição de 1940, o aborto era considerado “crime contra a vida”. Na Constituição de 88, o texto não foi alterado, e hoje contempla o aborto legal apenas em casos de estupro, risco de vida contra a mulher e feto anencéfalo (que não desenvolveu cérebro).

Mas por que é tão importante descriminalizá-lo?

Porque diz respeito a todas as mulheres. Por ano, mais de meio milhão de mulheres brasileiras recorrem a métodos ilegais, humilhantes e arriscados de abortar. Descriminalizar o aborto é a melhor de entender a mulher, compreender o que a levou a tomar essa decisão. Quando legal, a mulher é tirada da “rota crítica”.

O que é “rota crítica”?

É o caminho que a mulher faz até o procedimento abortivo em caso de criminalização. Quando  a mulher se dirige a uma clínica que faz esse tipo de procedimento ilegal, não recebe nenhum tipo de suporte médico ou psicológico. Com a legalização do aborto, a rota crítica deixa de existir e o procedimento passa a ser observado pelo Ministério da Saúde.

Os casos de aborto vão aumentar?

Na verdade, todos os países que implantaram a legalização do aborto tiveram diminuição de casos, em parte por conta do acesso a médicos que podem orientá-la abertamente.

O que significa ação protocolada?

A ação é um caso judicial proposto por um determinado partido para o STF. No caso da descriminalização do aborto, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) enviou ao Supremo uma Ação de  Descumprimento  de  Preceito Fundamental  (ADPF), ou seja, apontou que os artigos 124 e 126, que criminalizam o aborto, são incompatíveis com a Constituição Federal, uma vez que tiram o direito à dignidade, à autonomia e à cidadania da mulher.

Por que 12 semanas?

Porque é o período mais seguro para a mulher recorrer ao procedimento. Mais de 90% dos abortos, hoje, já ocorrem nesse primeiro trimestre. Além disso, porque é o tempo médio proposto em países que já legalizaram o aborto, como Alemanha, França e Japão.

O aborto vai passar a ser considerado um método contraceptivo?

Não. A ação não leva à banalização do aborto. Os países que já descriminalizaram o procedimento possuem dados confiáveis de declínio permanente de procedimentos abortivos.

Após protocolar, quais os próximos passos?

O projeto vai para a Corte do Supremo, que tem seu próprio tempo. Pode levar dez anos para que uma decisão seja tomada, tudo depende do ministro sorteado para lidar com a ação. Uma boa base de comparação foi a ADFP 54, sobre anencefalia, que levou cerca de nove anos para ser aprovada, ou a ADPF 132, que permite a união civil de pessoas do mesmo sexo, que correu pelo Supremo durante seis anos.

O que a sociedade civil pode fazer para pressionar?

A primeira coisa é que todas nós, mulheres, entendamos que o assunto tem a ver com todas nós. Ainda que você nunca faça um aborto, é essencial entender que, a partir da legalização dele, a vida de muitas mulheres pode ser salva. É muito difícil obter documentação sobre mulheres que apelam à ilegalidade: com os caminhos claros, é possível apoiá-las e orientá-las para a melhor solução possível.

Arte: Masha D’yans

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Arte: Ana Yael

Arte: Ana Yael

Na última terça-feira (21), o Projeto de Lei da Escuta Protegida (PL 3792/2015), proposto pela deputada Maria do Rosário, foi aprovado na Câmara dos Deputados. Voltado para o combate à violência contra crianças e adolescentes, criando um sistema de direitos e proteções à vítima, o projeto segue agora para o Senado.

Qual a importância desse projeto? Segundo a própria Maria do Rosário, o que faltava era a garantia de amparo real à vítima de violência infantil, sobretudo sexual. Até então, o Brasil não possui uma legislação especial para esse tipo de caso tão traumático e violento.

Com o PL sendo aprovado, muita coisa deve mudar. O projeto prevê a implantação de campanhas de conscientização periódicas para alertar a sociedade sobre os rastros da violência contra os jovens; também está previsto um serviço de atendimento especial, telefônico e online, para denúncias de abuso de menores; isso sem falar na implantação de atendimento clínico e psicológico especializado, no SUS, para vítimas de abuso infantil.

Outra mudança importante é o tipo de registro dos relatos. As vítimas, além de serem ouvidas por profissionais de saúde e assistência social especializados, terão seus depoimentos gravados. Isso é especialmente importante porque, muitas vezes, a família da vítima tenta convencê-la a mudar o discurso – seja para acobertar o agressor ou evitar desdobramentos legais do caso. Segundo Maria do Rosário, “a criança e o adolescente pagam um preço alto por entrarem em contato com o universo da violência”.

Infelizmente, a própria deputada sentiu na pele a importância da implantação do projeto. Logo depois de comemorar a aprovação do PL na Câmara, Maria do Rosário se manifestou sobre ataques direcionados à filha, de 16 anos, que teve fotos pessoais expostas em sites e páginas de redes sociais. Em uma nota pública postada em sua página no Facebook, a deputada disse: “Sabemos que todos os pais e mães têm preocupação com a exposição de seus filhos e filhas na Internet. Não há dúvida que este tipo de divulgação manipulada gera efeitos gravemente nocivos de dimensão imensurável às vítimas”. De uma forma ou outra, a violência sempre atinge com mais força os núcleos mais vulneráveis da sociedade. Ter um projeto de lei que assegura proteção e cuidado ao menor é de extrema importância.

Conversamos com a Maria do Rosário sobre a aprovação do PL e quais mudanças podemos esperar caso seja aprovado no Senado:

Qual o impacto imediato da aprovação do PL?

O Projeto da Escuta Protegida (PL 3792/2015), é uma importante conquista para as crianças e adolescentes vítimas de qualquer tipo de violência. A legislação vai possibilitar que os depoimentos de crianças e adolescentes vítimas e testemunhas de violência sejam realizados com o apoio de uma equipe técnica capacitada, que deverá ser realizada com todo o cuidado possível, evitando-se ao máximo a reiteração do depoimento e o contato com o agressor.

A escuta qualificada será realizada por meio de entrevista da criança ou adolescente, com apoio de órgãos especializados da saúde, assistência social ou segurança pública. O projeto também prevê que participe da entrevista um profissional devidamente qualificado para registro dos fatos narrados, que possa fazer uma análise sociopsicológica da vítima e do contexto familiar, assim como da capacidade protetiva dos responsáveis. Além da escuta, o projeto prevê que a tomada de depoimento judicial seja realizada com uma linguagem apropriada a criança, protegendo-a o máximo possível da revitimização.

Esses depoimentos serão gravados para impedir a repetição, afastando a revitimização. Mas a ideia é que ele também sirva para evitar a possibilidade de alterações no depoimento, o que pode livrar os culpados, como tantas vezes acontece hoje. Pessoas próximas ao agressor ou o próprio agressor podem pressionar a vítima a mudar o depoimento.

E quais são os próximos passos?

O próximo passo é a tramitação do Projeto de Lei no Senado. É fundamental que o texto não sofra alterações. Primeiro, para que seus dispositivos possam ser colocados em prática o quanto antes, mas também para evitar que matérias que não guardam relação alguma com a proposta sejam atreladas a ela.

Digo isso porque durante o debate em Plenário, mesmo após termos realizado um acordo junto aos líderes, enfrentamos parlamentares que atacavam o PL distorcendo seu objeto, afirmando que este buscava destituir o poder familiar. Tinham na verdade o objetivo de inserir uma emenda que alteraria a Lei Menino Bernardo, parte do Estatuto da Criança e do Adolescente desde 2014, que versa sobre a proibição de castigos físicos.

Precisamos seguir atentos a essas manobras, mas estamos confiantes. Este é um projeto dos parlamentares que integram a Frente Parlamentar Mista de Promoção e Defesa dos Direitos das Criança e do Adolescente, que acompanharam seu processo de construção e que sem dúvidas lutarão por sua aprovação no Senado, tal como fizemos aqui na Câmara, de forma suprapartidária, na busca do melhor interesse das crianças e adolescentes brasileiros.

Quais mudanças políticas podemos esperar da aprovação da Escuta Protegida?

Em um momento de tantos retrocessos, em que mesmo os direitos de crianças e adolescentes, que são prioridade absoluta da Constituição, são severamente ameaçados, tal legislação vai na contramão da corrente retrógrada que ocupou o Congresso Nacional.

Reconhece nas crianças e adolescentes sujeitos que merecem respeito. Tal respeito passa pelo reconhecimento de sua condição peculiar de desenvolvimento, da necessidade de um cuidado diferenciado durante o processo judicial, que evite sua revitimização, bem como permita que seu depoimento seja de fato considerado, e não anulado, por meio de artimanhas que se utilizam exatamente de elementos constitutivos dessa condição peculiar para evitar que seu agressor seja responsabilizado.

No caso da exploração e abuso sexual é um passo ainda mais fundamental. Se pararmos para pensar rapidamente sobre situações de violência institucional praticados contra adolescentes vítimas, nos lembraremos do caso de estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, que após ter sido violentada sofreu com um interrogatório desrespeitoso, preconceituoso e abusivo por parte do delegado do caso, e nos recordaremos também da menina gaúcha que após ter sido estuprada pelo pai foi humilhada e ofendida pelo promotor do caso.

Essa legislação buscar impedir que esse tipo de situação volte a acontecer, e é uma resposta ao conservadorismo que atinge a todos, atacando de maneira mais acintosa a vida de mulheres e meninas, particularmente nos casos de violência sexual, ainda envolvidos em um manto de impunidade movido por um machismo que atribuiu à vítima a responsabilidade pelo crime.

Como podemos assegurar que essas mudanças vão ser instauradas e qual seria o prazo para isso?

Infelizmente ainda temos alguns passos pela frente, aqui no Poder Legislativo, e posteriormente dependeremos da sanção presidencial. Superado este processo, a lei entrará em vigor após um ano da data de sua publicação oficial.

Na sua opinião, por que o Brasil levou tanto tempo para ter esse tipo de legislação?

Além das particularidades próprias do processo legislativo, pois há inúmeros projetos de lei que tramitam na casa, é preciso dizer que este tema demorou a prosperar no parlamento porque se trata de um tema complexo, que conta com nuances, particularidades que não permitem uma tomada de decisão simples sobre que caminho seguir.

Para se ter uma ideia, este projeto é fruto de um debate estimulado e iniciado pelo nosso mandato há quinze anos, juntamente com representantes do Poder Judiciário, em especial o Dr. Daltoé Cezar, Desembargador do TJ/RS e um dos magistrados pioneiros no tema, e representantes de entidades da sociedade civil da área da infância.

Desde então o projeto foi aprimorado, contou com a contribuição de organizações internacionais de proteção e defesa dos direitos das crianças, de diversos membros da magistratura, ministério público, do Direito em geral, dos movimentos sociais, de representantes de categorias profissionais, em especial psicólogos e assistentes sociais, e por óbvio, de parlamentares. Essa é uma parte do processo legislativo importante, o debate público e a incorporação de sugestões, o que demanda tempo e a construção de consensos entre os diversos atores sociais envolvidos no tema para seja resultado de um processo verdadeiramente democrático e, portanto, legítimo. Não por acaso o projeto foi aprovado a quase unanimidade na Câmara.

Além disso, não se podemos esquecer que parlamento abriu os olhos ao tema, infelizmente, a partir de exemplos trágicos de violações a direitos de crianças e adolescentes que ganharam notoriedade nacional, e finalmente priorizou a matéria a partir do segundo semestre de 2015, quando deu urgência a matéria.

Quais os cuidados que as campanhas de conscientização devem ter ao serem direcionadas a jovens e crianças?

Devem ter o cuidado de compreender sua condição, suas peculiaridades próprias de seu estágio de desenvolvimento, se fazer inteligível para ser efetiva. Quando fui ministra dos Direitos Humanos promovi junto com a equipe da Secretaria de Direitos Humanos, uma campanha de conscientização que visava possibilitar que crianças e adolescentes realizassem denúncias ao Disque 100. A linguagem lúdica combinada a mensagem de que a vítima seria acolhida e não colocada em risco foi fundamental. Um outro excelente exemplo é a atual campanha de autodefesa de crianças contra a violência sexual, promovida pelo grupo Marista, que apresenta uma linguagem próxima das crianças para tratar de um tema complexo como a diferenciação entre o carinho e o abuso. Creio que o caminho passe por aí.

Arte: Ana Yael
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A Língua Portuguesa não é sexista. Seu mau uso, sim. Como ato-reflexo da sociedade, a linguagem é um dos espaços mais sutis, constantes e estáveis de legitimação de padrões e práticas de desigualdade e opressão. O sexismo é uma delas, que discrimina com base no sexo e perpetua o Patriarcado, sistema secular que centra no homem o papel de protagonista da ordem social, reduzindo e invisibilizando a identidade feminina e de grupos que sofrem camadas ainda mais cruéis de exclusão, por sua condição de classe e raça.

É um processo de retroalimentação: o sujeito masculino domina os espaços da vida cotidiana – escola, religião, artes, política, família, urbanidade, mídia – e essa hegemonia se instala na linguagem que, ao ser usada como se natural fosse, reproduz, mantém e cimenta a desigualdade. Neste sentido, falar é fazer. Especialmente quando a linguagem sexista e discriminatória é usada pelos meios de comunicação, esses importantes e eficientes agentes de socialização de valores, crenças e padrões sociais. A força do ato tem um peso ainda mais simbólico.

Os exemplos multiplicam-se mas vale destacar, por sua condição pedagógica, a reportagem exibida no Jornal Nacional do último dia 2 de janeiro. A matéria trata do pagamento de 17 salários ao corpo docente da cidade de Costa Rica, no Mato Grosso do Sul. Em apenas 30 dias, as professoras e os professores da rede municipal de ensino receberam quase seis salários, num ‘milagre’ conquistado graças à economia de recursos gerada pela redução drástica das faltas das educadoras e educadores, que evitou gastos com a contratação de profissionais temporários.

Para além da ótima notícia, merece destaque a distorção (quase imperceptível, tamanha a sua naturalização) do sistema gramatical de gênero utilizado. Na reportagem, o masculino ‘professor’ não se refere ao docente-homem (dentro do padrão heteronormativo), mas a toda a categoria. O masculino faz as vezes de genérico universal, como se o homem (em qualquer situação, profissão, condição) fosse ele próprio a medida da humanidade.

A Língua Portuguesa, no entanto, estabelece regras bem definidas para tratamento de gênero – masculino, feminino, comum de dois gêneros, sobrecomum, epiceno, etc, significando que o uso do masculino como tratamento único é um ato linguístico significativo e nunca, nunca neutro. A matéria começa com a seguinte narração: “a fila no caixa eletrônico só tem professores. Uma a uma as notas vão saindo para melhorar a vida deles. Solange até trocou de carro”. A imagem correspondente ao trecho denuncia a própria fala: uma fila de mulheres professoras (nenhum homem nela), e uma professora citada como personagem. Nem assim elas foram inseridas no contexto linguístico. A identidade feminina das professoras foi suprimida, engolida pelo ‘presumível genérico’ masculino.

Se a fala fosse expressa no rádio, e portanto sem imagem, o imaginário provavelmente nos levaria a ‘visualizar’ uma fila de homens e mulheres, já que o formato gramatical sexista é aceito, incontestado e de uso corrente. Quanto mais profunda e bem sucedida se dá a marca discriminatória, mais imperceptível e naturalizada ela se apresenta. Uma marca imensa, mas que de tão introjetada parece nem existir. Por isso se faz tão urgente combater qualquer tipo de exclusão linguística. Uma democracia que respeite plenamente a diversidade e não invisibilize grupo algum depende do enfrentamento dessas questões, em busca de modelos de linguagem mais democráticos, inclusivos e críticos – para uma sociedade que possa refletir/ser reflexo dessas condições.

A reportagem de 2 minutos e 33 segundos menciona oito vezes a palavra professor no masculino e mais duas vezes se refere ao corpo docente como “eles”. O prefeito também usa o masculino, assim como a própria secretária de Educação. Só vemos uso feminino da profissão na legenda da fala da última entrevistada. Verdadeiramente não me surpreenderia que o repórter nem tenha se apercebido da falta de identificação língua-pessoa, por força do hábito, da base ideológica, e da vontade cega de simplificar. Mas o jornalismo é produtor de sentidos e como um importante intérprete da realidade (de um tipo de realidade), não pode se furtar a refletir sobre seu papel na autonomia dos indivíduos e sobre o direto à presença/representação na língua.

Como diz o excelente Manual Para o Uso Não Sexista da Linguagem, organizado pela Secretaria de Política para as Mulheres do Rio Grande do Sul a partir do texto da Red de Educación Popular Entre Mujeres de Latinoamérica y Caribe, “a linguagem cria consciência, cultura, ideologia e modifica o pensamento das pessoas. Podemos, portanto, ao mudar a forma de falar e escrever, modificar a mentalidade das pessoas, suas condutas e como consequência a própria sociedade”. Não há incorreção ou repetição no ato de nomear o masculino como masculino e feminino como feminino. Também não há duplicidade, uma vez que duplicar é fazer uma cópia igual a outra e esse não é o caso. “É simplesmente um ato de justiça, de direitos, de liberdade. É necessário nomear as mulheres, torná-las visíveis como protagonistas de suas vidas”.

Se faz imprescindível, por fim, tirar o tema da zona de conforto do status quo – ‘uso gramatical padrão’, para mostrá-lo como reflexo direto da naturalização e da legitimação do domínio masculino. Há que se mudar os formatos e buscar novas experiências linguísticas inclusivas, seja por meio das regras existentes, seja a partir da criação de novas regras, fazendo a ciranda mutável da língua se transformar em favor de uma vivência mais inclusiva e múltipla.

Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.

Arte: Pep Montserrat.

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Uma carta de ódio às mulheres é divulgada pela imprensa como se nada fosse. Nem a chacina de uma família inteira motivada por misoginia é capaz de despertar alguns veículos de imprensa para sua responsabilidade na cobertura do caso. Qual é o sentido de dar tanto valor, espaço e voz aos motivos que levaram um homem a cometer um crime tão bárbaro?

Nos comentários dos portais e espaços de convivência virtuais, o resultado óbvio: aqueles que se abertamente rejeitam o fato de que mulheres são seres humanos sentem-se fortalecidos em seu argumento e têm um novo mártir. E as matérias sobre o caso não cansam de humanizá-lo: contam sua profissão, descrevem seus sentimentos, tentam entender seus motivos. Já para Isamara Filier, sua ex-esposa, sobra apenas o título de vítima e a suspeita à boca pequena de que alguma coisa deve ter feito para merecer esse destino.

Mas se a guerra contra as mulheres chegou a esse ponto e está tão às claras é porque nós mesmas quebramos o silêncio e, assim, aprendemos, ouvindo o grito umas das outras, que estamos sendo atacadas e que devemos lutar contra isso. Por misoginia nós morremos há séculos. Hoje, porém, muitos homens se debatem e sentem muito mais ódio não por estarmos tomando seus direitos, mas porque estamos fazendo valer os nossos. Eles não estão perdendo nada que não mereçam, apenas seus privilégios e não merecem qualquer simpatia por isso.

Não é o primeiro caso de terrorismo misógino. Um dos mais emblemáticos aconteceu na Califórnia em 2014 quando o Elliot Rodger abriu fogo contra seis mulheres antes de tirar a própria vida, não sem antes deixar para trás vídeos e escritos detalhando sua frustração por não se sentir desejado pelo sexo feminino. Ele participava de fóruns na internet frequentado por homens que partilhavam da mesma opinião – bem similares a muitos espaços brasileiros onde hoje o assassino de Isamara está sendo endeusado.

É preciso despertar para o fato de que é dessa forma como hoje está composto o nosso tecido social. O que aconteceu em Campinas não foi um caso isolado, mas a manifestação explosiva do ódio às mulheres que perpassa as interações de gênero. Precisamos urgentemente que as instituições descruzem os braços para nos proteger e se coloquem abertamente contra essa mentalidade estabelecida.

Na cobertura do caso, por exemplo, mesmo uma postura neutra colabora com a disseminação desse tipo de ataque. O Brasil é o quinto país do mundo em feminicídios: nossas mulheres estão morrendo diariamente nas mãos de homens com quem se relacionaram. Existe um padrão de comportamento que merece destaque e hoje não são poucas as fontes de informação sobre o tema:

Minimanual do jornalismo humanizado – Parte 1
Dossiês Patrícia Galvão

É nesse contexto que o crime acontece e é trazendo-o a tona que vamos combater o problema pela raiz, que é o ódio pelas mulheres, sem perder tempo com as asneiras odiosas que um terrorista misógino deixou para trás. Precisamos seguir adiante, com coragem e inteligência, porque esse tipo de comportamento não é nenhuma surpresa para quem está bem informado. Não é esse o papel da imprensa, afinal?

Arte: Jarek Puczel.

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Nascer com a pele escura não nos torna negros, assim como nascer do sexo feminino, não nos torna mulheres. Tanto a identidade de gênero quanto a identidade racial são construções sociais numa sociedade como a brasileira, profundamente machista e marcadamente racista, onde carregar essas duas marcas não é a melhor tarefa do mundo.

A minha trajetória pessoal, até o momento em que escrevo esse texto, é marcada por muita dor, mas também de crescimento e mudanças. E decidi compartilhar essa jornada com todas vocês, leitoras da Think Olga, por que acredito que, dividindo o peso, se torna mais leve e por que, juntas, vamos mais longe.

Em 2012, eu entrei no mestrado na PUC-SP, um dos melhores programas de pós graduação em Educação do Brasil. Foi nos elevadores da PUC, que eu entendi o que era ser negra e o valor social que isso tem. Toda minha família é negra, sim é verdade. Meus amigos e amigas de infância também, colegas de escola, as pessoas que eu mais quero bem, como meus filhos. Mas isso nunca, em momento nenhum da minha vida, foi motivo de dor ou vergonha, muito pelo contrário, sempre foi motivo de orgulho, a pele escura e os traços negroides no corpo. Até que, nesses dois anos, como mestranda numa das universidades mais elitizadas de São Paulo, eu entendi e aprendi o que quer dizer SER NEGRA.

Com muita frequência, as outras mulheres brancas, na grande maioria professoras e já senhoras, me perguntavam coisas sobre meu trabalho: “que horas você vai trocar o lixo do banheiro?, “avise para sua chefe que acabou o material de limpeza do banheiro” ou “por que você está sem uniforme?”. Eu não entendia bem de onde elas tiravam a ideia de que eu era faxineira, afinal, lá estava eu com meus livros, mochilas, notebook e olheiras, características típicas de qualquer pós graduando. Um dia, em um bate papo informal com uma professora do meu programa, eu ouvi o seguinte comentário: “Quanto é sua bolsa integral paga pelo Governo, só R$ 1.500? Nossa, minha doméstica ganha mais que isso e ainda é registrada, hein?”. Foi só depois de ouvir isso que entendi qual era a raiz da questão: eu mulher negra, só poderia estar naquele espaço, se fosse como serviçal, como faxineira, como doméstica. Não como uma aluna e nunca como uma professora.

Isso, para mim, foi uma chamada a realidade, uma chamada para a verdade: as mulheres negras no Brasil, valem quase nada, por que são nada. Quem liga para tia da limpeza ou a senhora do café?

Num primeiro momento, eu quis largar o mestrado, faltava menos de um ano para eu terminar, me doía muito voltar pra lá e ter aula com a professora que me humilhou tão duramente. De fato, não consegui terminar a disciplina dela. Mas eu precisava terminar, por que precisava da bolsa integral. Dos R$ 1.500 pagos pelo Governo Federal.

Eu terminei o mestrado com louvor, tirei 9,5 na banca final de defesa e comecei uma jornada em busca do autoconhecimento. Afinal, quem sou eu, mulher negra? Li muita coisa, pesquisei muito coisa, apesar de toda a dor, o mestrado me deu o gosto pelo fazer acadêmico. Nesse processo, conheci Angela Davis e que ler os textos dela é mais do que mera leitura. É um mergulho na visão de mundo dessa mulher extraordinária, ou melhor: dessa mulher negra extraordinária.

Existe no Brasil uma necessidade de aprofundamento sobre o pensamento da Angela Davis e meus dois anos de pesquisa sobre ela me deram um pequeno saber no campo. A partir disso, surgiram convites para palestras, debates e cursos, o que contribuir para o nascimento do Coletivo Di Jejê: um espaço de multiplicação de conhecimento sobre a mulher negra, feito por uma mulher negra, para as mulheres negras.

Em pouco tempo a procura triplicou: de uma turma de 7 pessoas, passei a atender 30 pessoas. Tudo na minha casa mesmo, na minha garagem/quintal. Em 2016, continuamos com os encontros “Vivências sobre a mulher negra” nos formatos presencial e a distância.

A cada encontro, todas aquelas mulheres negras, me traziam força, beleza e resistência para as minhas lutas diárias, para as minhas dores, para os meus medos, para os meus sonhos. Cada mulher negra que me procurava depois, pedindo orientação para sua pesquisa de graduação, para seu projeto de mestrado ou para desabafar uma dor, um sofrimento, alimentavam em mim a certeza de que, mesmo sem saber como, eu deveria continuar.

Me lembro de um curso que ministrei na Universidade Federal de Santa Catarina onde, no final, uma jovem negra da Baixada Fluminense, aluna de robótica, veio me dizer chorando que naquela semana ela havia pensando em se matar, mas que a minha palestra sobre Angela Davis, fez ela perceber que, se eu consegui, ela também vai conseguir superar suas dores. Devo confessar que escrevo isso chorando, por que, no auge das crises na PUC, eu também pensei em me matar.

Conto para vocês toda essa história para dizer que hoje o Coletivo Di Jejê precisa  continuar existindo e crescendo, precisa do apoio e a colaboração de todas e todos que acreditam que o conhecimento liberta e emancipa. Liberta das amarras que a sociedade colocou em nossas cabeças, emancipa por que nos ajuda a entender quem somos e o que podemos ser.

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Eu acredito nisso, eu vivo por isso. Essa tem sido minha luta, minha jornada nos últimos três anos. Ser a ponte que atravessa qualquer rio e que permite que outras mulheres negras marcadas, assim como eu, pela dor da invisibilidade social e histórica, possam significar suas vidas em prol do crescimento de si mesmas, de seus filhos, de suas comunidades.

Estamos agora iniciando nossa campanha de doação de bolsas para os cursos presenciais e a distância, que serão oferecidos pelo Coletivo Di Jejê em 2017. Você pode contribuir com nosso trabalho por meio de doações de bolsas de estudos ou patrocínio para nossos cursos. Basta preencher o formulário e entramos em contato.

*Jaque Conceição tem 31 anos, é mãe de dois meninos, professora e pesquisadora, filha de santo. Há três anos, fundou o Coletivo Di Jejêeu e, em 2016, é uma de nossas Mulheres Inspiradoras.

Arte: thinkcommon.

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Em um ano marcado pela mudança na tradicional lista de Mulheres do Ano da revista Glamour americana somente para que fosse possível nomear um homem; pela persistência do prêmio Nobel em ignorar mulheres brilhantes; e por retrocessos na política a ponto de haver cada vez mais espaço para o conservadorismo e elitismo, a motivação para desenvolver a lista de Mulheres Inspiradoras 2016 só não continua a mesma pois é ainda maior. Publicamos o primeiro documento em 2013 com o objetivo de combater a falta de reconhecimento de trabalhos protagonizados e desenvolvidos por mulheres e, ainda hoje, cada novo projeto, cada nova conquista, cada novo grito de luta e resistência nas ruas são necessários e merecem méritos.

Nossa lista não premia ou classifica o trabalho das mulheres selecionadas, tampouco consegue nomear todas que merecem ser lembradas. Contudo, estamos felizes por reunir mais de 200 mulheres, grupos e coletivos cujas contribuições em 2016 merecem ser reconhecidas, valorizadas e incentivadas a continuar. A lista contou com uma vasta pesquisa da jornalista da Think Olga, Karoline Gomes, indicações de parceiras da Olga, além da colaboração super especial da blogueira e ativista Jéssica Ipólito.

A todas essas mulheres, o nosso muito obrigada e votos de ainda mais sucesso! Desejamos que, com essa singela homenagem, vocês possam inspirar ainda mais mulheres. E a você, leitora da Think Olga, a principal inspiração para nosso trabalho diário, um convite para participar desta celebração, compartilhando esta lista e citando outros nomes de mulheres que a inspirou em 2016.

ATIVISMO & CIDADANIA

Bruna Antunes – Em Porto Alegre (RS), organiza o curso Bordado Empoderado, onde ensina ponto cruz e técnica livre de bordado para se chegar a símbolos e frases que significam força e união entre as mulheres. A preços acessíveis, os encontros ocupam vários pontos da cidade. É possível acompanhar a agenda das aulas na fanpage.

Camila Carvalho – Para estimular a sustentabilidade e melhor convívio entre as pessoas, a advogada pela PUC-RJ criou a Tem açúcar?, plataforma que estimula economia colaborativa, redução de gastos, desperdícios e empréstimo de diversos utensílios. Desde agosto deste ano a rede também está disponível como um aplicativo.   

Coletivo Hera Bárbara – Passou a promover o Oficina de Mulher, projeto com oficinas de defesa pessoal, teatro, fotografia e produção musical ministradas por mulheres e para mulheres, criando um espaço de troca e compartilhamento de experiências, na cidade de João Pessoa.

Fernanda Vicente – A jornalista criou o projeto Mães no ENEM, que conecta mães em preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) com mulheres que se voluntariam a cuidar de seus filhos para que elas tenham tempo de estudar. A plataforma on-line já conta com mais de 150 voluntárias em 19 estados do Brasil, e Fernanda deseja expandir o alcance do projeto para todos os estados do país, a fim de atender mães que vão prestar também vestibulares e processos seletivos de empresas.

Jaque Conceição – Pedagoga e mestre em História, Política e Sociedade, fundou o Coletivo Di Jejê, um espaço de formação e produção de conhecimento para mulheres negras. O coletivo oferece cursos de temas de aspectos políticos, econômicos, filosóficos e identitários ligados a questões raciais com recorte de gênero, que são pertinentes às mulheres negras no Brasil.

Laina CrisóstomoA advogada baiana é criadora do coletivo TamosJuntas, que surgiu após o lançamento da campanha #MaisAmorEntreNós, para divulgar o atendimento jurídico gratuito de mulheres vítimas de violência de gênero, que é uma advocacia voluntária prevista no Estatuto da OAB. As advogadas Aline Nascimento, Carolina Rola e Natasha Barreto se uniram a ela e criaram uma página no Facebook, expandindo a divulgação do projeto, que busca também sanar dúvidas, orientar e atender as mulheres de Salvador (BA) em diferentes situações de risco.

La Frida Bike – Um projeto de cicloativistas negras que une bicicleta a arte de rua e estimula a representatividade feminina na mobilidade urbana em Salvador (BA). Iniciou uma campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria, a fim de arrecadar verba para a criação de uma escola de bike itinerante e instalação de 40 bicicletários em universidades e escolas públicas da capital baiana.

Maria Clara de Sena É a primeira mulher trans a assumir um cargo no Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura do Governo do Estado de Pernambuco, que atua em parceria com a ONU e busca coibir e denunciar violências nas cadeias. Foi vencedora do Prêmio Cláudia 2016 na categoria Políticas Públicas por sua atuação no projeto Fortalecer para Superar Preconceitos, da ONG de direitos humanos Grupo de Trabalhos em Prevenção (GTP), onde ajuda mulheres trans detentas, chegando até a conseguir uma ala exclusiva em um dos presídios em que atua, evitando que estas mulheres ficassem vulneráveis a detentos homens.

Patrícia de Oliveira – É uma das fundadoras da Rede de Comunidades e Movimento Contra a Violência. Organizou um evento na Casa Pública, Rio de Janeiro, para falar sobre a alta taxa de violência policial contra a população negra e a diferença da cobertura da imprensa realizada nos Estados Unidos e Brasil sobre o assunto. O debate foi realizado em julho, mesmo mês em que a Chacina da Candelária completou 23 anos, quando policiais mataram crianças de rua da capital carioca e um dos sobreviventes foi Wagner dos Santos, irmão de Patrícia. O evento contou com representantes de outros movimentos, como o Black Lives Matter e Liz Martin, fundadora do Brazil Police Watch, que coordena a campanha Kill For Me: Safe Games for All por aqui, desde 2007, todos com o objetivo em comum de combater a violência policial.

#PrecisamosFalarSobreAborto 24hrA virada feminista a favor da legalização do aborto no Brasil, organizada por Jéssica Ipólito (Gorda & Sapatão), Joice Berth (Justificando) e Thaís Martins (Ativismo de Sofá) em parceria com a Think Olga, foi concentrada no Facebook, movendo coletivos, especialistas e militantes feministas a falar sobre questões de saúde pública, jurídicas e de autonomia feminina nas 24 horas do dia 28 de setembro, Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto. Para isso, todos utilizaram a ferramenta de transmissão ao vivo Facebook Live.

Samira Soares, Milla Carol, Ivy Guedes, Naira Gomes, Andrea Souza, Lorena Lacerda, Nadja Santos, Vanessa Santos – Ao lado de João Vieira, elas integram a organização da Marcha do Empoderamento Crespo da Bahia que aborda assuntos da estética negra. Em sua segunda edição, a Marcha reuniu mais de mil pessoas no centro de Salvador.

Tabata Contri e Carolina Ignarra – Pela Talento Incluir, as consultoras de inclusão de profissionais com deficiência no mercado de trabalho aplicam treinamento de conscientização em organizações, junto com equipe capacitada neste tema. No segundo semestre, a empresa realizou uma pesquisa com o portal Vagas.com, na qual 38% das pessoas entrevistadas alegaram a falta de um plano de carreira.

Vilma Reis – A socióloga recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares, honraria na Câmara Municipal de Salvador, em reconhecimento de sua luta antirracista. Atualmente, Vilma Reis é ouvidora da Defensoria Pública do Estado da Bahia e uma referência na luta contra o genocídio da população negra. É uma potente contribuidora para transformação social em Salvador e no Brasil, inspirando jovens no engajamento na luta antirracista por onde passa.

Internacional:

Patricia Torres Linares, Norma Aidé Jiménez Osorio, Georgina Edith Rosales Gutiérrez, Maria Patricia Romero Hernández – 10 anos após sofrerem violência e abuso sexual de policiais ao serem presas por estarem em protesto na cidade de Atenco, no Estado do México (MEX), Patricia, Norma, Aidé, Georgia, Maria e mais sete mulheres se reúnem e apresentam seus casos à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que seguirá com investigação.

Wahida Mohamed – Líder de grupo com dezenas de homens, em combate ao Estado Islâmico (EI). Em Shirqat, no Iraque, é conhecida como Um Hanadi, considerada um dos principais inimigos dos jihadistas do EI. Despertou para esta função quando trabalhou nas forças de segurança iraquiana, em 2004.

ARTE & ENTRETENIMENTO

Aíssa Mattos e Ana Carla Oliveira – Criadoras do projeto fotográfico ParÁFRICA, cujo objetivo é mostrar o Povo Negro do Pará, evidenciando a sua beleza dentro dos seus contextos diários e ressaltando a diversidade cultural.

Beatriz Vieira – Estudante de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), teve sua proposta de roteiro selecionada entre as 20 pelo Edital Curtas Universitários 2016/2017. Assim, Beatriz começará a produzir um documentário retratando a vida de Lélia Gonzales: mulher negra, professora e antropóloga brasileira que é referência quando se fala de feminismo negro brasileiro.

Cau Gonçalves e Josy Garcia – São criadoras do ÂNIMA – Ações Nutrindo Inquietações de Mulheres Artistas, em Salvador, na Bahia, que surge com o pensamento de abrir um espaço que una e fortaleça a sororidade, debates, questionamentos e, acima de tudo, a voz das mulheres. O ÂNIMA tem reunido exposições, intervenções, arte urbana, música, teatro, poesia, artes visuais, artes plásticas, cinema, moda, cultura popular e artesanato, promovendo a presença feminina através da arte.

Coletivo Gaia – Criado em maio por alunas e ex-alunas da Escola Técnica de Teatro Martins Penna, localizada no centro do Rio de Janeiro, durante uma ocupação estudantil, teve, como primeiro trabalho o curta Irmã, que fala sobre o estupro coletivo sofrido por uma jovem de 16 anos na mesma cidade. O trabalho é premiado como melhor trilha sonora no Festival de Cinema 72 horas, além da segunda colocação como melhor curta.

Denise Fraga Na tradicional A Vida de Galileu, peça de Bertolt Brecht, a atriz quebrou barreiras de gênero ao se tornar a primeira mulher a assumir o papel-título, interpretando o físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano Galileu Galilei.

Julyana Terto e Kalyane Lima, Camila Rocha e Preta Lange, Priscila Lima e Giordana Leite –  Juntas, criaram a Sinta A Liga CREW, com o objetivo de fortalecer a cena e potencializar a visibilidade da produção feminina no hip-hop na Paraíba, promovendo shows e encontros para inspirar mulheres que amam esta arte.

Mônica Santana – A atriz criou o projeto multilinguagens Isto Não é Uma Mulata, com o objetivo de questionar as formas com que a mulher negra é representada na mídia e na cultura brasileira. No mês de novembro, em que se comemora, no dia 20, o Dia da Consciência Negra, Mônica expôs, no Teatro Gamboa Nova, em Salvador, Bahia, seus desenhos, poemas e ensaio visual para o projeto, além de uma performance solo.

Letícia Sabatella – Com a produção da companhia de teatro Os Satyros e em parceria com outros atores, a bailarina, atriz e cantora ministrou oficinas para preparar haitianos refugiados na capital paulista para atuar na peça Haiti Somos Nós. Sem experiência anterior com a linguagem teatral, os participantes protagonizaram a peça apresentada na Galeria Olido, centro da capital de São Paulo, mostrando os desafios que enfrentam no Brasil, entre eles, a xenofobia e o desemprego, além de retomar fatos históricos do país caribenho, como o terremoto de 2010.

Priscila Ferrari – Ilustradora e autora do blog Cadê Meu Café?, lançou, por meio de financiamento coletivo, o livro infantil Coisa de Menina, com ilustrações e mensagens que retratam meninas exercendo diversas profissões mostrando que “tudo” pode ser “coisa de menina”.

Internacional:

Cate Blanchett e Rooney Mara – As atrizes interpretaram um casal no filme Carol, que mostra as dificuldades, angústias e conquistas para manter um relacionamento afetivo entre mulheres, ainda mais nos anos 1950. Adaptado do livro The Price of Salt, de Patricia Highsmith, o longa-metragem traz a questão lésbica que ainda é pouco retratada no cinema.

Júlia Rebouças (Brasil), Gabi Ngcobo (África do Sul) e Sofia Olascoaga (México) – Elas formam a curadoria da 32ª Bienal de Arte de São Paulo, que também contou com o curador Jochen Volz e co-curador Lars Bang Larsen, aberta até dezembro no Pavilhão do Parque do Ibirapuera com obras de 81 artistas – sendo 47 delas mulheres de vários países. Entre as artistas, estão a mineira Lais Myrrha, a paulistana Ana Mazzei, a africana Tracey Rose, a britânica Carolina Caycedo, a kuwaitiana Maarad Trablous, a portuguesa Carla Filipe, a peruana Rita Ponce de León e a finlandesa Pia Lindman. Com o tema Incerteza Viva, a mostra reúne trabalhos que conversam entre si, com mensagens relacionadas às condições atuais de vida e de que a incerteza pode direcionar ao invés de ser só evitada.  

Millie Bobby Brown – Como Eleven de Stranger Things, a atriz de 12 anos se destacou pela interpretação no seriado. Ela também divulgou um vídeo em apoio ao Malala Fund, fundação liderada por Malala Yousafzai e voltada à inserção das garotas do Oriente Médio na escola, para aumentar o direito à educação dessas jovens.

Noma Dumezweni – Neste ano a atriz suazilandesa e negra chamou atenção por ser escalada para interpretar Hermione Granger no musical Harry Potter and the Cursed Child, que estreou em julho no Reino Unido. Noma recebeu alguns comentários preconceituosos nas redes sociais, mas não se abalou. Antes mesmo da estreia, a autora J.K. Rowling já tinha demonstrado no Twitter que esta personagem nunca teve a cor de pele anunciada nos livros que originaram a história e que escalou a atriz pelo ótimo trabalho desempenhado por ela em outros projetos.

Queen Latifah e Uzo Aduba Após o discurso engajado e emocionante da atriz Viola Davis como primeira atriz negra a ganhar o Emmy, em 2015, no início deste ano o Screen Actors Guild Awards (SAG) premiou outras atrizes negras. Queen Latifah levou como Melhor Performance Feminina ao interpretar a cantora de blues Bessie Smith no telefilme Bessie, da HBO. E Uzo Aduba ganhou como melhor atriz de série de comédia pela atuação em Orange Is the New Black, da Netflix. O seriado também ganhou, na mesma categoria, como melhor elenco, afirmando a diversidade como ponto forte da história que vem conquistando cada vez mais fãs.

Tatiana Maslany – No Emmy 2016, ela ganhou como melhor atriz de série dramática pela interpretação de 11 personagens diferentes em Orphan Black, seriado sobre uma conspiração de clones e que tem o patriarcado e representatividade feminina como pontos fortes dos episódios. Era uma das favoritas da audiência para ganhar a premiação, conquistada após três anos no elenco da produção.

Yara Shahidi – A atriz norte-americana de 16 anos tem forte envolvimento no ativismo contra racismo e a favor da educação. Neste ano, a atriz de Blackish palestrou contra os estereótipos da indústria hollywoodiana e do entretenimento, levando sua fala para uma campanha da DoSomething.Org, cujo objetivo era arrecadar fundos para equipamentos de ciência em tecnologias para escolas em Minnesota e St.Louis, nos Estados Unidos. Também lançou recentemente o Yara’s Club, onde, uma vez por mês, jovens se reúnem com ela para falar sobre educação e problemas sociais, por meio de transmissão no site da instituição The Young Women’s Leadership Schools (TYWLS).

INTERNET & MÍDIAS SOCIAIS

Beatriz Oliveira, Carol Silvanno, Samantha Cristina e Stella Yeshua – Depois de sofrer racismo em um shopping na cidade de São Paulo, o grupo gravou um vídeo com um desabafo bem humorado que viralizou na internet. Usando o bordão Estaremos Lá, elas iniciaram um canal no Youtube para continuar a conversa sobre racismo e hoje têm mais de 3 mil seguidores.  

Cida Nicolau, Maria Clara Vieira e Júlia Vieira – De São Bernardo do Campo (SP), mãe e filhas, respectivamente, criaram o site Cabeça e Coração, para sensibilizar e arrecadar doações às mães de bebês com microcefalia decorrente da epidemia relacionada ao vírus Zika. Começou no fim de 2015 e hoje a fanpage conta com quase 6 mil curtidas.

Gabi Oliveira – Inspirada pela própria monografia “Papel das redes sociais na valorização da estética negra”, que desenvolveu para a conclusão do curso de Relações Públicas, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Gabriela Oliveira criou um canal no Youtube, o DePretas, para falar de militância a dicas de beleza com o objetivo de informar outras mulheres negras.

Comum.vc – A plataforma criada pela advogada Anna Haddad, pela jornalista Carol Patrocínio e a gerente de comunidade Giovana Camargo, reúne conteúdo em texto e vídeos, além de espaços de fóruns e debates exclusivamente para mulheres. O objetivo é manter um espaço seguro para mulheres terem conversas profundas, longe dos haters de internet.

Helen RamosComo o canal Hel Mother, a jornalista e mãe divulga vídeos para esclarecer e mostrar os desafios da maternidade. Com abordagem bem-humorada, ela fala das dificuldades da gestação até a criação solo, além de questões vistas como obstáculos, como o sexo casual e as mudanças nas amizades nessa nova fase da vida. Lançado no Dia das Mães deste ano, o canal já conta com mais de 23 mil inscritos.

Jackeline Salomão, Nina Dutra e Mariana Zatz – Diretora, produtora e roteirista, respectivamente, do canal DR de humor, em que abordam diversos temas do universo feminino como menstruação, orgasmo, tpm. O canal já conta com mais de 180 mil inscritos.

Jéssica Tauane e Débora Baldin – As idealizadoras do popular Canal das Bee, que combate o preconceito em todas as formas e conta com o apoio da comunidade LGBT. Por meio da campanha de crowdfunding Bee Ajuda, elas arrecadaram fundos para garantir acolhimento psicológico aos jovens LGBTs que sofrem opressão por causa da orientação sexual, remunerando um profissional especialista neste trabalho. O projeto surgiu após o aumento dos pedidos de ajuda do público que sofre com esta exclusão e elas resolveram expandir o trabalho voluntário, que já acolheu mais de 2 mil pessoas com ajuda de uma psicóloga voluntária. Parte da renda angariada será direcionada para a realização de um curta-metragem sobre a vivência lésbica.

Joyce Fernandes – Ex-empregada doméstica, Joyce Fernandes, também conhecida pelas rimas como Preta-Rara, criou a fanpage Eu Empregada Doméstica, onde contou uma história pessoal de racismo e abuso trabalhista. Com a hashtag #EuEmpregadaDomestica, outras mulheres contaram suas próprias histórias e ajudaram a expor este cenário de desigualdade social. Atualmente, o projeto está em campanha de financiamento coletivo para que Joyce consiga lançar o livro #EuEmpregadaDomestica – Nossa Voz Ecoa, que reunirá histórias relatadas por meio da hashtag.  

Joyce Gervaes – A estudante de Rádio e TV lançou o canal Joyce Gervaes Show no YouTube, em abril, onde apresenta questões que ela e outras pessoas negras enfrentam no mercado de trabalho, principalmente no setor audiovisual e meios de comunicação. É um espaço no qual ela  exercita a reflexão social e étnica.

Juliana Ricci – A professora de inglês Juliana Ricci é a criadora do grupo Indique uma Mina, que divulga vagas de emprego exclusivamente para mulheres, além de apoiar este público que costuma lidar com diferentes abusos onde trabalha. Atualmente a iniciativa tem mais de 85 mil participantes, apoiando também mulheres trans e fortalecendo a redução da desigualdade de gênero no mercado de trabalho.

Luiza Junqueira – Criadora do canal Tá, Querida?, que acumulou mais de 23 mil seguidores em pouco mais de um ano, dirigiu o documentário GORDA, como seu trabalho de conclusão de curso na ECO – UFRJ. O filme reúne mulheres gordas para falar sobre como é viver em uma sociedade gordofóbica.   

Mandy Candy – A primeira youtuber transexual do Brasil lançou este ano o livro Meu Nome é Amanda na 24ª Bienal Internacional do Livro, em São Paulo (SP). Na biografia, aborda o preconceito que sofreu, a sensação péssima de se olhar ao espelho e não se reconhecer até o momento da cirurgia para mudança de sexo. No YouTube, ela mostra diferentes perspectivas em torno das pessoas trans e do tema LGBT.

Mônica Sousa – Diretora executiva da Mauricio de Sousa Produções, empresa que realizou, no dia Internacional da Mulher deste ano, o projeto #DonasdaRua, cujo objetivo é mostrar a força das meninas utilizando personagens da Turma da Mônica como imagem de representatividade. Conta, ainda, com eventos e um site colaborativo que reúne histórias reais de leitoras que se sentem empoderadas.

Sueide Kintê – É jornalista e idealizadora do projeto #MaisAmorEntreNós, uma corrente feminista de apoio e ajuda entre mulheres. Por meio da plataforma da campanha, que funciona como uma rede social, as participantes podem trocar serviços e afetos.

Thaynara OG – A jovem maranhense se tornou uma influência digital após atrair milhões de seguidores com um jeito único de gerar conteúdo usando o aplicativo de vídeos e fotos Snapchat. Neste ano, ela ganhou o Prêmio Jovem Brasileiro na categoria melhor Snapchat.

Internacional:  

Issa Rae – Depois de bombar no YouTube com vídeos de produções independentes, a comediante americana agora atua e assina o roteiro da nova série da HBO, Insecure, que fala sobre relacionamentos e vida adulta do ponto de vista de uma mulher negra.

Jiang Yilei – A youtuber chinesa viralizou com vídeos cheios de sátiras publicados com o pseudônimo de Papi Jiang. Jian fala principalmente sobre solteirice depois dos 30, e sobre como lida com a pressão social em seu país para que mulheres se casem.

Stephanie Sarley – Artista plástica americana que publicou vídeo no Instagram em que “masturbava” frutas, como uma forma de falar da sexualidade feminina. Começou em janeiro, quando tinha 10 mil seguidores, e hoje tem mais de 170 mil fãs.

ARQUITETURA & URBANISMO

Ana Bazzo, Ana Bigi, Ana Zabotti, Angela Marschall, Daniela Lopes, Mariana Rocha, Paula Cury – As arquitetas catarinenses são fundadoras do #estarnarua, projeto que identifica o potencial de lugares de Florianópolis (SC) que podem ser melhor aproveitados e ocupados pela população. Duas vezes por mês, elas procuram por esses pontos, propõem mudanças e aplicam soluções rápidas aproveitando o que o local já oferece. As ideias projetadas no ateliê URBE, como sugestões para os espaços públicos, são divulgadas no site, além de oferecer espaço do ateliê para cursos, oficinas e exposições.

Raquel Rolnik Arquiteta e Urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, valoriza uma cidade mais inclusiva e mantém um blog homônimo onde publica artigos que explicam, em linguagem acessível, temas atuais como a proposta do futuro prefeito de São Paulo (SP), João Dória, de privatizar locais como o Parque do Ibirapuera. Ela ainda apresenta seminários sobre novos espaços em grandes metrópoles como forma de reduzir impacto no meio ambiente e nas comunidades. Lançou também o livro A Guerra dos Lugares: A Colonização da Terra e da Moradia na Era das Finanças, obra que analisa as transformações nas políticas habitacionais e fundiárias em vários países. Entre as atividades que já exerceu, foi relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia Adequada por dois mandatos, e secretária nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-2007).  

Internacional:

Linda Cox – A urbanista norte-americana se volta à recuperação de rios de grandes metrópoles e neste ano foi palestrante no seminário A cidade e a água, em setembro, no Insper São Paulo (SP). É diretora executiva da Bronx River Alliance, que recupera o rio Bronx em Nova Iorque, integrando comunidades do bairro com alta taxa de criminalidade. Em outubro, o jornal Folha de São Paulo a entrevistou sobre as semelhanças entre os problemas dos rios poluídos em São Paulo (SP) e Nova Iorque (EUA).

Marwa al-Sabouni Arquiteta síria que tenta reerguer cidades e faz um diagnóstico da infraestrutura, apontando que a arquitetura vigente pode ter facilitado os ataques que as destruíram. Recentemente lançou o livro Battle for Home: The Vision of a Young Architect in Syria sobre o tema.  

CIÊNCIA

Ana Amélia Machado – A Professora e Doutora em Física da Universidade Federal do ABC (SP) está desenvolvendo a chamada Arapuca, um sensor para identificar neutrinos, com financiamento da FAPESP. Ela também participa de pesquisa coordenada pelo Fermilab, Estados Unidos, que resultará em um instrumento chamado Dune para identificar os neutrinos, partículas livres de carga elétrica, que interagem por meio da gravidade e de difícil identificação.

Ciência & Mulher – Site de divulgação científica da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), lançado em julho deste ano, para expandir divulgação das pesquisas e projetos de mulheres cientistas feitos para mulheres. O espaço também está aberto para discutir questões de gênero no Brasil.

Letícia Camargo Padilha e Samantha Karpe – Estudantes de Engenharia, elas levaram o Prêmio Claudia 2016 na categoria Revelação pelo desenvolvimento do Poliway, asfalto ecológico feito a partir de um tipo de plástico reciclável. Com forte tom na consciência ambiental, o produto é mais resistente e cerca de 15% mais barato do que o convencional. Com o projeto, elas já participaram de feiras de ciências, como a Mostratec e a DOESEF, esta na Turquia. Também foram finalistas do BraskemLab, que fomenta startups que usam o plástico como fator de mudança na vida dos cidadãos. A dupla conta com outras láureas, entre eles, o Prêmio Jovem Brasileiro, na área Meio Ambiente.

Lorrayne Isidoro – A estudante do Ensino Médio do Colégio Estadual Pedro II (RJ), participou da Olimpíada Internacional de Neurociências contando com a ajuda de pessoas nas redes sociais que fizeram com que o seu passaporte fosse emitido com mais agilidade, após atraso na liberação. Ela ficou em 2º lugar na prova de clínica geral para diagnóstico de doenças e em 18º lugar na competição geral.

Maria Vitória Valoto – A estudante de 16 anos do Colégio Interativa, em Londrina (PR), foi a primeira brasileira a ficar entre os finalistas do Google Science Fair 2016. Ela criou cápsulas reutilizáveis que tornam os alimentos com lactose viáveis para pessoas com intolerância ao componente.  

Patricia Medici Para diminuir o número de antas atropeladas nas rodovias do Mato Grosso do Sul, a conservacionista, junto a uma equipe, desenvolveu coleiras com GPS e refletores para os animais. Ela se dedica a pesquisas para a conservação dessa espécie no país há duas décadas como líder da Iniciativa Nacional de Conservação da Anta Brasileira (Incab), mamífero que ajuda a dispersar sementes e, assim, colabora com a manutenção das matas. Patricia é Engenheira Florestal pela ESALQ-USP, além de Doutora e Mestre em Ecologia e conservação de animais silvestres, e uma das fundadoras do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).

Internacional:

Shu Lam – A Microbiologista malaia e PhD da Universidade de Melbourne (AUS) está pesquisando uma forma para combater as superbactérias resistentes a todos os antibióticos que existem, já consideradas como ameaça global pelas Nações Unidas. A solução pode estar nas cadeias de proteínas com moléculas criadas por ela, chamadas de polímeros peptídeos.

COMUNICAÇÃO & AUDIOVISUAL

Alane Reis – Jornalista, editora e criadora da Revista Afirmativa, com temas mensais que trazem conteúdo voltado para a comunidade negra de forma independente, trazendo tendências literárias em seu formato.

Ana Aranha – Jornalista e documentarista, recentemente conquistou, pela Repórter Brasil, o Prêmio Gabriel García Márquez com o filme Jaci – Sete Pecados de uma Obra Amazônica, dividindo a direção e autoria com Caio Cavechini, Carlos Juliano Barros, Caue Angeli, Marcelo Min e Leonardo Sakamoto. Atualmente é coordenadora de Jornalismo na Repórter Brasil, e desde 2011 ela trabalha com jornalismo independente, colaborando em veículos como Agência Pública, Rolling Stone, The Guardian e Marie Claire, além de ter outros 11 prêmios de Jornalismo, entre eles, dois GPs Ayrton Senna e uma menção honrosa no Vladimir Herzog.

Anita Rocha da Silveira – Com o primeiro longa Mate-me Por Favor, a diretora carioca mostra as diferentes reações de um grupo de amigas sobre uma série de mortes de garotas na Barra da Tijuca (RJ), com a protagonista indo em busca de seus desejos sem limitar o corpo. Ainda retrata como a cultura do estupro influência na vivência, um dos temas presentes na obra ao lado dos pilares morte, desejo e impulso. O filme ganhou premiações como melhor Direção de Ficção no Festival do Rio e antes teve estreia mundial no Festival de Veneza (ITA), conquistando o prêmio independente Bisatto D’Oro de atuação pelas atrizes Valentina Herszage, Julia Roliz, Mariana Oliveira e Dora Freind.

Cristina Tardáguila – A jornalista criou e lançou a Agência Lupa, considerada a primeira agência de fact-checking do Brasil, empresa que fechou contrato com a GloboNews no começo de 2016, ampliando este modo de checagem jornalística para a TV. A Agência Lupa se destacou pela ampla cobertura da Eleição 2016, contrapondo dados reais e informações falsas apresentadas pelos candidatos. Tudo isso é resultado do que Cristina já vinha planejando desde o trabalho no blog Preto no Branco, do jornal O Globo, onde checava as declarações de políticos. No início deste ano, Cristina também lançou o livro A Arte do Descaso, sobre o maior roubo a museu do Brasil, que incluiu cinco obras – de Salvador Dalí, dois do Picasso, Monet e Matisse – que ficavam no Museu da Chácara do Céu (RJ).  

Dea Ferraz – No documentário Câmera de Espelhos, a cineasta mostra como a cultura do estupro ainda impera entre os homens de diversas idades e culturas. O filme conta com os depoimentos deles, sobre como veem as mulheres, com o objetivo de mostrar um espelho social de uma sociedade ainda fortemente machista. A obra também conta com recortes de imagens de mulheres em diferentes situações e teve importante repercussão ao ser lançado no festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro.

Débora Prado – Editora executiva e pesquisadora, coordenou, por meio da Agência Patrícia Galvão (do Instituto Patrícia Galvão), a criação do Dossiê Feminicídio, plataforma que reúne dados, pesquisas e todo tipo de conteúdo sobre assassinato de mulheres no Brasil, disponibilizando o conteúdo para pesquisadores e jornalistas.

Giulliana Bianconi, Maria Lutterbach e Natalia Mazotte – São Diretoras de Conteúdo da Gênero e Número – Narrativas pela equidade, portal de jornalismo independente que surgiu para detalhar as questões de gênero por conteúdos em diferentes formatos e com dados interativos como diferencial de checagem.

Jamile Menezes – Mulher negra, jornalista e produtora baiana, é a idealizadora do Portal Soteropreta, o primeiro portal de notícias voltado, prioritariamente, para a produção cultural (Artes, Música, Teatro, Audiovisual, Memória, Dança, Formação, Literatura, Religião, Gastronomia, Moda, Políticas Culturais etc.) soteropolitana construída, formada, mobilizada e destinada à comunidade negra de Salvador. Também abarca a produção de outros municípios baianos que tenham alcance em Salvador (BA), para o mesmo público.

Lili Fialho e Kátia Lund – As diretoras dividem a direção de cinco documentários que ficaram em cartaz no Festival Reimagine Rio, na capital carioca, entre agosto e setembro. Como ação encomendada pela ONG Rise Up & Care, cada um se volta às histórias de pessoas que mudaram a própria perspectiva de vida a partir de cinco projetos sociais oferecidos na cidade, focados na arte e no esporte.

Marina Maciel, Mônica Nunes e Suzana Camargo – As jornalistas idealizadoras do Conexão Planeta, um dos sites presentes no Mapa do Jornalismo Independente da Agência Pública. O portal apresenta matérias sobre consumo consciente, igualdade socioeconômica e preservação da natureza.

Marizilda Cruppe – Fotojornalista ganhou o Greenpeace Photo Award 2016 com o projeto Viver e morrer pela floresta, sobre mulheres ativistas brasileiras que lutam pela preservação da Floresta Amazônica, parte de grupos indígenas e comunidades ribeirinhas. A conquista deu a ela uma bolsa do Greenpeace para colocar em prática seu plano, de tornar este trabalho multimídia. A fotógrafa colabora em diferentes locais, como New York Times, The Guardian, Greenpeace, Cruz Vermelha Internacional, cobrindo aspectos como desigualdade social e direitos humanos.  

Michelle Trombelli – A repórter ganhou no 38º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos pela série Especial 10 anos – Lei Maria da Penha na categoria Rádio e veiculada na Rádio BandNews FM. Nas reportagens, Michelle apresenta os principais avanços dessa legislação, a violência psicológica, o atendimento, o silêncio rompido e outras iniciativas paralelas que ajudam a combater a violência contra a mulher.

Naiara Leite e Ana Paula Rosário – Ambas jovens do programa de comunicação do Odara Instituto da Mulher Negra, são criadoras do Projeto Yalodês, que atua com a formação de  jovens negras em situação de abrigamento em novas linguagens e tecnologias de comunicação, possibilitando o acesso às informações e manipulação de instrumentos tecnológicos que as habilite para o manuseio desses recursos, a fim de comunicar e difundir os conceitos, visão política, suas estratégias, da comunidade e das organizações de mulheres negras, formando novas multiplicadoras. O projeto formou, ao longo de um ano e meio, cerca de 30 jovens. Atualmente, a equipe do projeto formada pelas jovens que participaram do processo de formação têm se debruçado para a criação da primeira Agência de Negras Jovens Comunicadoras.

Nana Soares – Jornalista pela ECA-USP, com blog homônimo no Estadão, onde escreve sobre questões de gênero, violência e sociedade, além de mostrar que feminismo é mais do que necessário para uma igualdade plena.

Natacha Cortêz – Repórter da Revista TPM, brilhou ao lado de entrevistadas como Fafá de Belém, Debora Diniz, Kenarik Boujikian, além da reportagem A pele que habito, onde falou com a atriz Vanessa Giacomo, a paratleta Cláudia Santos, a blogueira Jéssica Ipólito e as cantoras Xênia e Tiê, sobre suas relações individuais com o corpo. Destaque ainda para a matéria Ainda precisamos falar sobre aborto, uma atualização para a forte #PrecisamosFalarSobreAborto, de 2014.

Rebecca Miller – Diretora do filme Maggie’s Plan, que narra histórias de mulheres que não querem se casar, com olhar guiado pela atriz Greta Gerwig. Exibido na Mostra de Cinema de São Paulo (SP), em outubro, o longa mostra como mulher e homem se relacionam atualmente, já que padrões de casal, de procriação e de família já não são impostos em vários lugares.

Renata Falzoni – A cicloativista, videorrepórter e arquiteta conduziu a Tocha Olímpica dos Jogos Rio 2016 em bicicleta, pedalando na cidade de São Paulo (SP). Ela incentiva a bike como meio de transporte há anos. Fundou o Night Bikers Club do Brasil no final dos anos 1980, já pedalou por mais de 20 países para o programa de TV Aventuras com Renata Falzoni e é idealizadora do portal Bike é Legal, voltado ao ciclismo, sustentabilidade e mobilidade urbana.

Renata Tupinambá – Foi indicada em matéria da Revista AzMina como uma das mulheres indígenas para seguir nas redes. A jornalista, roteirista, poeta e produtora é uma das fundadoras da Rádio Yandê, primeira rádio on-line indígena do Brasil, que divulga temas culturais e sociais, com músicas de artistas indígenas que saem do comum, desde rap, heavy metal e o tradicional. Ela atua com etnojornalismo e ciberativismo indígena desde 2008 e na Yandê conta com colunistas como Daiara Tukano militante feminista e que fez parte da criação de movimentos como Marcha das vadias em Brasília (DF). Em resposta à indicação  na lista d’AzMina, Renata e Daiara listaram 100 mulheres indígenas a seguir na vida, pela forte defesa ao meio ambiente, cultura, saúde, educação, espiritualidade e cidadania.

Sabrina Fidalgo – Escreveu e dirigiu o media-metragem Rainha, que conta a história da personagem Rita e sua trajetória para tornar-se rainha de bateria da escola de samba de sua comunidade. O filme foi vencedor, por júri popular, do prêmio Panorama Carioca (Competição Nacional do Curta Cinema – Festival Nacional de Curtas do Rio de Janeiro).

Séries por elas – O site surgiu para atender a falta de conteúdos a respeito de seriados sobre e produzidos por mulheres, e com um diferencial: sob a ótica delas. Foi fundado pela jornalista Carolina Maria que atua como editora juntamente com a jornalista Fernanda P. Garcia. Em seu expediente contam com mais de 30 colaboradoras entre jornalistas, advogadas, publicitárias, roteiristas, historiadoras e produtoras audiovisuais.

Tamo Junta – Ação da Women in Film and Television (WIFT Brasil) lançada em outubro, com evento na biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo (SP), e tema Produção de Elenco. O objetivo é promover encontros de mulheres que atuam em diversas áreas do audiovisual – cinema, TV e novas mídias – e, ainda mais, colaborar com suporte e profissionalização feminina neste setor. Este é o lema central da instituição, que no Brasil conta com Ana Cláudia Martin, Camila Pinho, Marília Nogueira, Maristela Bizarro, Nágila Guimarães e Tatiana Groff.

Yasmin Tayná – A roteirista fundou em janeiro a Afroflix, onde é Diretora Geral da plataforma colaborativa que reúne produções feitas por negros ou com pelo menos uma pessoa negra envolvida na concepção técnica ou atuação artística. Sob avaliação de uma curadoria, o intuito é mostrar a representatividade e contribuição dessa raça na indústria audiovisual, com títulos de ficção, experimentais, séries, videoclipes, documentários e vlogs. Yasmin tem outros trabalhos de destaque que englobam a questão étnica racial, como a direção e roteiro do filme KBELA, sobre ser mulher e processo para se enxergar negra, se apresentou no TEDx Talks nesse ano e escreve no Brasil Post.

Internacional:

Ava DuVernay – Consagrada por dirigir Selma, filme que conta a história do ativista Martin Luther King, em 2016 lançou, em parceria com a Netflix, o documentário 13ª Emenda, que correlaciona a criminalização da população negra dos Estados Unidos com a superlotação no sistema carcerário do país.

Diaa Hadid Correspondente do New York Times, na sucursal de Jerusalém, é de origem muçulmana e está retratando em matérias sua peregrinação à Meca (Arábia Saudita), observando o comportamento das mulheres e das contradições que enfrentam neste ambiente.

Noor Tagouri – Jornalista americana e de origem turca posou para Playboy (edição de outubro) com hijab, traje típico da mulher muçulmana. Na revista, que não publica mais apenas mulheres nuas, seu objetivo foi se opor à objetificação das mulheres, e na matéria ela fala do preconceito dos EUA pela população islâmica.

We Do It Together – Diante da baixa representatividade feminina no cinema e em premiações do segmento, como só 22% delas indicadas às diferentes categorias do Oscar deste ano, de acordo com o estudo do Women’s Media Center, as mulheres da indústria cinematográfica agora contam com a We Do It Together. Fundada por profissionais como as atrizes Queen Latifah, Jessica Chastain, Freida Pinto e Juliette Binoche, a diretora Catherine Hardwicke e a roteirista brasileira Kátia Lund, que foi codiretora de trabalhos como Cidade de Deus e Notícias de Uma Guerra Particular, a ONG busca a igualdade de gênero como regra e produzir obras audiovisuais que promovam as mulheres que trabalham no cinema, TV e outras mídias.  

EDUCAÇÃO

Abraço Cultural – A plataforma que promove cursos de idiomas ministrados por professores refugiados de diferentes países latino-americanos, africanos e árabes, em bases físicas em São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), conta com coordenadoras educacionais à frente das disciplinas de francês, espanhol, árabe e inglês. São elas: Ligia Magalhães, Relações Internacionais pela USP e coordenadora pedagógica de espanhol; Karina Noçais, Letras pela PUC-SP e coordenadora pedagógica de francês; Carolina Teixeira, Relações Internacionais pela PUC-SP e coordenadora geral, Joana Fontana, Letras pela USP e coordenadora pedagógica de inglês e Mari Garbelini, formada em Direito pela USP e Relações Internacionais pela PUC-SP é coordenadora geral e administrativa, todas colaborando com a promoção dos Direitos Humanos e integração de imigrantes. Essas profissionais ajudam a potencializar oportunidades de trabalho para pessoas refugiadas, aprimorando capacitação para que deem aulas e ao mesmo tempo se integrem por meio de experiências e intervenções culturais.

Ariane Senna – É uma das mais novas Psicólogas de Salvador (BA) e a primeira transexual a se formar nesta especialidade na cidade, pela Unime Salvador. Ela celebrou sua formação com família e companheiro, mostrando que o preconceito não impediu mais uma de suas conquistas. Neste ano, ainda estrelou a campanha da 15ª Parada do Orgulho LGBT da Bahia com o marido Anderson Barbosa, ajudando na mensagem de direito aos travestis e transexuais.

Coletivo Feminista Geni – Para enfrentar a violência de gênero no ambiente universitário, este grupo da Faculdade de Medicina da USP liderou e conseguiu aproximadamente 4 mil assinaturas que cancelou a festa Fantasias no Bosque, fazendo com que os organizadores mudassem o formato e o nome, agora intitulada como A Primeira. Este evento anual chegou a ser investigado pelo Ministério Público por casos de estupro e outros tipos de abuso. Percebendo a falta da sexualidade feminina aprofundada durante as aulas, na primeira Semana da Diversidade na FMUSP, o coletivo ainda promoveu a Oficina de Siririca para debater a masturbação feminina, ato ainda julgado e considerado tabu.  Geni é um dos quase 20 coletivos da Universidade de São Paulo que se centralizam pela Frente Feminista USP.

Carla Akotirene, Viecha Vinhático e Laura Augusta – Idealizadoras do Opará Saberes, iniciativa que oferece apoio e instrumentos de pesquisas para mulheres e homens negros interessados em elaborar projetos de pesquisas de mestrado e doutorado voltado para os temas: racismo institucional, violências de gênero e saúde da mulher, dando segmento mais elaborado a estas linhas de pesquisas dentro da acadêmia.

Coletivo Zaha – O coletivo feminista das faculdades de Arquitetura e Urbanismo e de Design do Mackenzie se movimentou e divulgou opiniões de professores que tratam o gênero feminino como inferior, além de piadas contra as minorias, acompanhadas pela hashtag #esseémeuprofessor.

#elevaiserpsicólogo – Com propósito semelhante das campanhas acima, o Coletivo Feminista Aurora Furtado, do Instituto de Psicologia da USP, adotou a hashtag para mostrar as frases preconceituosas de pessoas que, no futuro, poderão atender o público no setor da saúde.

Laura Segurado Estudante do terceiro ano e do movimento secundarista, participa de grupos que movimentaram as ocupações das escolas estaduais contra o fechamento das unidades pelo governo do Geraldo Alckmin (SP). Neste ano, foi fonte entrevistada em matéria sobre a resolução do governo federal sobre o corte  das disciplinas de Artes e Educação Física no Ensino Médio, posicionando-se contra a medida.

Midiã Noelle Santana – Jornalista e mestranda em Cultura e Sociedade na UFBA (BA). Com vasta experiência na área de Comunicação para promoção de Direitos Humanos, é responsável pelo site Lista Negra, que inverte o significado negativo da expressão título e registra histórias de vida de empreendedores negros como forma de visibilizar o trabalho que a população negra tem feito. Além disso, ela escreve no blog Preticess, onde mais uma vez ressignifica termos e estabelece novas narrativas.

Politécnicas.R.existem – Para mostrar apoio mútuo entre elas e reivindicar por melhores comportamentos em um ambiente predominantemente masculino e machista, esta fanpage foi criada por universitárias dos cursos de Engenharia da Poli-USP. O grupo começou a publicar comentários de professores e colegas de classe opressores acompanhados pelas #MeuQueridoPolitécnico e #MeuQueridoProfessor. Os relatos passaram para o espaço físico, em cartazes espalhados pelas faculdades. Os depoimentos são obtidos por formulários on-line e sem a necessidade de se identificar.

EMPREENDEDORISMO

Ana Luisa Correard – Desconfortável com abordagem de um entregador de gás, perguntando se ela estava sozinha em casa, a cineasta resolveu formalizar os consertos domésticos que já vinha realizando para algumas amigas, criando, em parceria com a sócia Katherine Pavloski, a M’Ana – Mulher conserta pra mulherprestadora de serviços de manutenção residencial e comercial que, em 2016, passou a promover cursos de manutenção doméstica básica para mulheres.

Coletivo Cabeças – Artistas e cabeleireiras paulistanas que cortam cabelo e fazem outros serviços, como manicure e barba, através de intervenções cênicas e audiovisuais. Exploram o experimental e quebra de padrão, além de um brechó que não está separado por gênero. Camila Machado, figurinista, e as artistas Juliana Carvalho, as irmãs Bruna e Tetê Sartini e Ana Elisa Cunha mantêm esse espaço na Bela Vista, região central da cidade de São Paulo (SP).

Denise Leme – Começando com a venda de mini ramalhetes hidratados nas ruas da Vila Madalena e Jardins (SP), a estilista e florista começou o Charme no Detalhe, que fornece arranjos florais para diferentes ocasiões, desde presentes, para festas, eventos empresariais e ações sociais. Estende esse talento para ações sociais de forma voluntária, como festas beneficentes e o Flores na Rua. Por esta atividade, ajudou a entregar 100 bolsas kits para mulheres em situação de rua, contendo itens de higiene, agasalhos, alimentos e um botão de rosa no Dia Internacional da Mulher.

Mulheres de Impacto –  No canal de financiamento coletivo da Benfeitoria, desenvolvido em parceria com a Think Olga e a ONU Mulheres, dez empreendimentos liderados por mulheres inspiradoras. São elas: Thaiz Leão Gouveia (Mãe Solo), Élida Aquino, Bárbara Vieira, Graucianna Santos (Afrôbox), Raquel Oliva, Lia Oliva (Comparto), Manuela Galindo, Joana Pires (#DeixaElaEmPaz), Emily Blyza, Aline Silveira, Lhaís Rodrigues, Renata Albertim, Thaísa Queiroz, Carol Cani (Mete a Colher), Cris Lustosa (Desabafa), Teresa Rocha (Bonita Também), Cristiane Brosso, Vanessa Bertelli (Longarina), Coletivo Feminicidade e banda Cores de Aidê. Foram R$ 235.377,00 arrecadados para os oito projetos financiados, que colocarão em prática seus planos de ação mais urgentes. Se contarmos as quatro iniciativas que não atingiram a meta, mas que continuam merecedoras de apoio e admiração, são somados R$ 253.227,00.

Nina ValentiniCom o movimento Arredondar, onde é diretora-executiva e cofundadora, é uma das finalistas no Empreendedor Social de Futuro, prêmio a ser entregue voltado para líderes de até 35 anos. O projeto funciona como uma ponte entre instituições, doadores e varejistas, que ajuda no custeio de ONGs, voltadas às causas socioambientais, por meio de um sistema inovador de coleta de doações na boca do caixa, onde o consumidor pode optar por arredondar a compra em benefício das instituições.

Sampa Tattoo – Primeiro estúdio só com tatuadoras de São Paulo (SP). Neste ano, junto com a HPEt, realizaram o 1º Pet Day Tattoo, evento que arrecadou doações e fundos para compra de ração, remédios e produtos de limpeza para diversas entidades que resgatam animais abandonados ou fazem adoção.

Vania Ferrari – Neste ano a proprietária e consultora da Pensamentos Transformadores, empresa que realiza palestras, seminários, workshops e stand ups corporativos para clientes como Itaú, Telefônica | VIVO, Shell, Trifill e HSM, lançou o segundo livro, Crônicas do Bizarro Mundinho Corporativo. No exemplar apresenta as próprias experiências, mais de 25 anos de carreira em grandes empresas nacionais e multinacionais, destacando métodos antigos aplicados em negócios, que, na verdade, precisam ser reinventados. Por causa de alguns feedbacks que recebeu ao apresentar o livro anterior Manual de um Gerente a Beira de um Ataque de Nervos, como o assédio moral no local de trabalho e não saber como se posicionar,  ela reuniu novas narrativas no título atual.

ESPORTES

Amanda Nunes –  A baiana se tornou a primeira atleta feminina brasileira campeã UFC (Ultimate Fighting Championship), principal torneio de MMA do mundo, ao derrotar Miesha Tate e conquistar o cinturão da categoria peso-galo. Amanda é também  a primeira atleta assumidamente homossexual a ser dona de um cinturão na competição. Ela agora se prepara para defender o cinturão contra Ronda Rousey, numa luta que acontece ainda em dezembro de 2016.

Edneusa Costa – Em sua primeira participação em Paralimpíadas (na Rio 2016) e também sua primeira maratona internacional, a paratleta conquistou o bronze e se tornou a primeira brasileira a ter medalha nesta prova, seja em Olimpíadas ou em Paralimpíadas.

Emily Lima – Vice campeã da Copa do Brasil no comando do São José (SP), Emily agora é técnica, à convite pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), da Seleção Brasileira de Futebol Feminino. A primeira mulher a exercer esta função na história

Futebol Feminino – Após sair das Olímpiadas Rio 2016 sem medalhas, os noticiários repercutiram que a Seleção brasileira de futebol feminino corria risco de ser extinta pela CBF. Dirigentes da Confederação justificaram a medida alegando terem investido na equipe que não retornou com o resultado desejado, mesmo sendo um problema antigo: a camada feminina recebe menos investimento e incentivo. Mas a esperança aumentou quando a Conmebol (Confederação Sul-americana de Futebol) aprovou regulamento que, a partir de 2019, os clubes de futebol só poderão participar da Libertadores e da Copa Sul-americana se mantiverem times femininos, os ajudando no desenvolvimento das jogadoras. Além disso, as equipes femininas poderão se inscrever em competições organizadas pelas federações de cada país.

Isadora Cerullo – O rúgbi se destacou não só em campo com a seleção brasileira, que ficou na 9ª colocação da Rio 2016, considerado bom resultado já que este esporte ainda não é tão popular por aqui. A jogadora Isadora Cerullo foi pedida em casamento pela namorada Marjorie Enya e o acontecimento repercutiu na imprensa e redes sociais. Em uma entrevista a Época, a jogadora afirmou que considera importante as pessoas verem manifestações de amor como essa de modo normal, com admiração e respeito.

Lúcia Teixeira – Prata na categoria até 57kg do judô para pessoas cegas, foi a primeira mulher a conquistar uma medalha para o Brasil nesta edição dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 e também a primeira medalha brasileira para a modalidade na história da competição.

Marineide Silva – Criadora do Projeto Vida Corrida, que muda vida de crianças e famílias no Capão Redondo, em São Paulo (SP), por meio do atletismo, a maratonista participou do revezamento da tocha Olímpica para os Jogos Rio 2016 e ganhou o Prêmio Cláudia na categoria trabalho social.

Rafaela Silva A judoca conquistou o ouro para o nosso país durante as Olímpiadas 2016. Foi durante a Rio 2016 que Rafaela teve trajetória de luta e conquistas mais conhecidas pelo público, como mulher negra, periférica e lésbica. Sua vitória representou também a superação dos ataques preconceituosos que recebeu ao longo dos anos. Recentemente ela passou a integrar a equipe de embaixadores dos Jogos Olímpicos Escolares da Juventude, que incentiva a prática esportiva entre jovens de 12 a 17 anos.

Verônica Hipólito –  Além de superar o seu próprio tempo no atletismo, a corredora também estabeleceu o novo recorde paralímpico durante uma prova eliminatória para a final das Paralimpíadas. Aos 20 anos, Verônica encerrou sua participação no evento com duas medalhas, uma de prata e outra de bronze.

Internacional:

Fu Yuanhui  – Medalhista de bronze nos 100 metros costas na Rio 2016, a nadadora conquistou o público com seu entusiasmo. Depois dos Jogos, ela levantou uma discussão importante, ao falar abertamente sobre como sua menstruação atrapalhou seu desempenho durante uma competição na China, país onde o assunto é considerado um grande tabú.

Melissa Stockwell – Ex-militar do exército americano, Melissa foi designada para a Guerra do Iraque, depois dos atentados de 11 de setembro, onde perdeu uma perna em combate. Quinze anos depois, ela se firma como triatleta, conquistando sua primeira medalha paralímpica, de bronze, na Rio 2016, no dia 11 de setembro.

Oksana Chusovitina – Ginasta uzbequistanesa foi a mais velha dessa modalidade a competir nas Olimpíadas 2016. Aos 41 anos, esta foi sua última participação em eventos esportivos. Mostrou para as gerações mais jovens como é possível manter-se ativa e que talento não tem prazo de validade.

Serena Williams – A tenista norte-americana conquistou sua sétima vitória no tradicional Torneio de Wimbledon, na Inglaterra, e se firmou como a atleta mais bem paga de 2016.

Yusra Mardini – Exemplo de superação e garra, a nadadora síria participou dos Jogos Rio 2016 pela Equipe Olímpica de Atletas Refugiados. Com o seu país em guerra há anos, a atleta fugiu do conflito nadando e ajudou a salvar 19 pessoas de um barco encalhado que tentavam o mesmo. Ela pretende continuar treinando para participar das próximas Olimpíadas.

Zulfiya Gabidullina – Aos 50 anos, a nadadora do Cazaquistão conquistou ouro paralímpico e quebrou um recorde mundial na piscina da Rio 2016.

INSPIRAÇÃO

Beatriz Franco Um post da jornalista sobre a profissão de balconista foi compartilhado por mais de 54 mil pessoas, repercutiu na imprensa e a fez enxergar outras possibilidades. Tanto que desenvolveu o blog Posso Ajudar?, com diferentes reflexões sobre atitude, trabalho, religião, amor e família, além de diferentes fatos que estão em pauta.

Bela Gil – A chef de cozinha e apresentadora também transmite seu estilo de vida saudável no Canal da Bela, disponível no YouTube, onde tira dúvidas e apresenta alternativas de exercícios físicos e alimentação, com quadros como Lancheira da Flor. Lá ainda esclarece pontos do parto humanizado, outro assunto que a fez ser alvo de críticas e elogios na internet, todas levantando o poder de escolha das mulheres como principal ponto. 

Dalvina Borges Ramos – Diarista de São Paulo (SP), economizou R$ 150 mil e contratou profissionais da Terra e Tuma Arquitetos Associados para reformar sua casa na Vila Matilde. O resultado final resultou em uma obra que foi vencedora como melhor construção no prêmio Building of the Year 2016, realizado pelo site internacional ArchDaily.

Daniele Toledo – Lançou o livro Tristezas em Pó, onde conta sua história de superação. Presa injustamente sob a acusação de matar a própria filha recém-nascida, Daniele fala sobre o estupro que sofreu no hospital onde a bebê foi internada e sobre as torturas que sofreu na cadeia.

Lea T – A estilista e modelo se destacou ao ser a primeira mulher trans a conduzir o Time Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 desde que o evento foi criado, em 1896, carregando o nome do país em frente aos atletas. Em entrevista ao programa Estúdio i da Globo News, ela aproveitou a oportunidade para destacar a luta de todas as mulheres trans no Brasil, que lutam para viver em uma sociedade transfóbica sem os mesmos privilégios que ela teve ao longo da vida.

Neon Cunha – A designer de 44 anos é a primeira mulher trans no Brasil a conseguir na Justiça o direito de mudar de gênero e de nome sem passar por avaliação médica. A decisão foi assinada pelo juiz Celso Lourenço Morgado da 6ª Vara Cível de São Bernardo do Campo (Grande SP), em novembro, depois de muita persistência por parte de Neon, que também lutou pelo direito à morte assistida, caso não conseguisse vencer a briga com a Justiça.

Raissa Santana – Representando o estado do Paraná, é a primeira Miss Brasil negra eleita desde Deise Nunes, em 1986. A edição de 2016 do concurso ficou marcada pelo recorde de concorrentes negras, contando com Raissa, foram 5: Victoria Esteves (BA), Deise D’Anne (MA), Mariana Theol (RO) e Sabrina Paiva (SP).

Xanaxou – Coletivo musical feminista que tem se apresentado no Rio de Janeiro pela sororidade – a mulher e seu lugar social – com teatro, poesia e misticismo. O grupo é integrado por Ana Cláudia Lomelino, Bel Baroni, Camila Costa, Clara Cosentino, Giulia Drummond Battesini, Ju Storino, Laura Lavieri, Mari Romano, Paola Alfamor, Poliana Pieratti, Larissa Conforto e Rafaela Prestes.

Internacional:

Fati Abubakar – No Instagram Bits of Borno, a fotógrafa nigeriana e muçulmana deixa o registro de um outro lado de Maiduguri, capital de Borno, onde nasceu. O estado de Borno está ocupado pelo grupo extremista islâmico Boko Haram, que oprime por vários tipos de violência, como assassinato de civis e o sequestro de meninas para torná-las escravas sexuais. Mas Fati fotografa a vida que ainda persiste na região, como comércios, crianças brincando e jovens experimentando os diferentes estilos de se expressar, de se vestir. Atualmente a conta tem mais de sete mil seguidores.

Paola Carosella – Nascida na argentina, a chef de cozinha tem trabalho fixo no Brasil, incentivando a agroecologia e o consumo dos alimentos orgânicos, colaborando com grupos como os associados da Cooperapas, ao comprar esses produtos para suas receitas no restaurante Arturito. Outro apoio foi para os estudantes de São Paulo (SP), cozinhando para os que estavam na escola Fernão Dias Paes durante ocupação das escolas públicas estaduais contra o fechamento e reorganização anunciados pelo governador Geraldo Alckmin, no fim de 2015.

Zianna Oliphant  – A garota norte-americana de nove anos fez discurso emocionado sobre o racismo e a alta taxa de violência policial que vem destruindo a população negra dos Estados Unidos e viralizou na internet.

Mulheres polonesas vencem parte da descriminalização do aborto – No início de outubro, várias mulheres vestidas de preto e de diferentes idades foram às ruas de 60 cidades da Polônia, como uma greve geral, para protestar contra medida do governo que queria proibir completamente o aborto legal. Se fosse aprovado, o regulamento também poderia prender mães e médicos, que recorrem pela forma clandestina, por até cinco anos. Os participantes do protesto se organizaram pelas redes sociais e informativos de megafones, fazendo o governo não seguir com nova legislação. Assim, a Polônia continua com o aborto em casos de gravidez de risco para a vida da mãe, estupro ou incesto e má formação do feto.

Mulheres que participaram do ato #NiUnaMenos – O movimento nasceu na Argentina para lutar contra o feminicídio. Este ano, reacendeu uma onda de protestos que reuniu milhares de mulheres nas ruas de países da América Latina, depois do assassinato da jovem Lucía Pérez, que foi drogada, estuprada e empalada na cidade Mar del Plata, situada 400 quilômetros da capital Buenos Aires.

ESCRITA E LITERATURA

Amara Moira – A escritora trans lançou E se eu fosse puta, seu primeiro livro. Autobiográfica, a obra conta a transição pela qual passou e a experiência com prostituição. Maria Valéria Rezende, escritora, religiosa e autora do famoso Quarenta Dias que resultou no Prêmio Jabuti, assina o prefácio da obra de Amara.

Bárbara Bulhosa – A editora e diretora editorial da Editora Tinta da China fez parte da comissão em defesa dos ativistas angolanos que foram condenados à prisão por realizarem encontro coletivo para a leitura do livro Da ditadura à democracia, de Gene Sharp. O apoio é pelo grupo angolano, pela liberdade de expressão e debate plural.

Bianca Santana – A jornalista lançou o livro Quando me descobri negra, onde reúne relatos pessoais e de pessoas negras sobre como descobriram sua identidade e ancestralidade, a maioria, por meio de situações de discriminação racial.

Claudia Rankine – A poeta ativista é autora da reconhecida coleção de poemas Citizen, sobre racismo sofrido por afro-americanos nos EUA. Com esta obra ganhou a bolsa para gênios da fundação MacArthur, ao lado de outras 23 pessoas que receberam a doação de US$ 625 mil. Com isso, ela planeja investir em um instituto cultural para refletir sobre questão racial.

Clara Averbuck e Eva Uviedo – Por meio de financiamento coletivo, lançaram o livro Toureando o Diabo, romance cuja narrativa, escrita por Clara, conta a história de Camila, uma mulher que decide revirar seus antigos diários e cadernos de anotações. Por isso, o texto está diretamente ligado com os desenhos, rabiscos e bilhetes feitos à mão por Eva. Clara Averbuck é uma das criadoras do site Lugar de Mulher e autora de, entre outros livros, Máquina de Pinball (2002); Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante (2003) e Eu Quero Ser Eu (2014). Eva Uviedo é ilustradora e responsável por, entre outros títulos, Queria ter ficado mais (2015), Felinos: a luta pela sobrevivência (2015) e Como Viver em São Paulo Sem Carro (2012). A primeira parceria das duas aconteceu em 2008, quando lançaram, em coautoria, o livro Nossa Senhora da Pequena Morte e participaram da Mostra SESC de Artes com o projeto Poesia de Elevador.

Elaine Ramos, Florencia Ferrari e Gisela Gasparian – As ex-diretoras da extinta Cosac Naify se uniram e lançaram nova editora, a Ubu, com livro de literatura, arte, arquitetura, cinema e teatro, ciências humanas, fotografia, entre outros segmentos. O espaço fica no Largo do Arouche, em São Paulo (SP), com uma equipe formada por mulheres com o comando de Elaine, diretora de arte, Florencia, diretora editorial, e Gisela, diretora de operações.  

Eva Furnari – A escritora e ilustradora lançou na Bienal do Livro de São Paulo o livro Drufs para crianças, mostrando a variedade de 16 famílias com o intuito de desconstruir os estereótipos impostos.  Os personagens que ilustram o título ganham vida com objetivos nas pontas dos dedos de Eva, possibilitando que os pequenos se inspirem e recriem em casa.

Gabriela Wiener – Escritora e jornalista peruana lançou Sexografias no Brasil, livro sobre liberdade sexual e por onde ela relata as experiências com o próprio corpo (“jornalismo gonzo”), desde poligamia até indústria pornô. Ela participou da FLIP deste ano, em mesa que recebeu o nome da obra e contou com outros convidados, como a escritora Juliana Frank.

Josélia Aguiar – A jornalista e historiadora baiana será curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2017, onde tentará incluir mais questões de movimentos sociais. No próximo ano também está previsto o lançamento de seu novo livro – Jorge Amado – uma biografia.

Marcia Tiburi  – A escritora e filósofa lançou o livro Uma fuga perfeita é sem volta, onde apresenta a história de Klaus, um brasileiro radicado na Alemanha que enfrenta a dificuldade de se expressar, conflito com o próprio corpo, a distância com as pessoas e a solidão.  No livro, sua narrativa conversa com os tópicos gênero, classe social, religião, raça, globalização, preconceito e opressão.

Mel Duarte – A poeta paulistana venceu o Rio Poetry Slam, campeonato de poesia falada que aconteceu na Flupp (Festa Literária das Periferias). Ela é a primeira mulher a vencer esta competição internacional, que também é a primeira do gênero na América do Sul. Antes do prêmio, Mel viralizou na internet com o vídeo de sua apresentação na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano.

Paula Gabriela, Evelyn Sacramento, e Adriele Regine Todas são mestrandas em Estudos Étnicos e Africanos no Programa Interdisciplinar de Pós-graduação da Universidade Federal da Bahia (BA) e criadoras do projeto Lendo Mulheres Negra. Com a ajuda de outras colaboradoras negras, promovem encontros literários para debater e conhecer obras de escritoras negras, proporcionando um espaço de trocas de ideias a partir das leituras. Os encontros mensais acontecem no CEAO, Centro de Estudos Afro-orientais de Salvador (BA).

Rita Lee – Oficialmente aposentada dos palcos, a cantora conta sua própria história em Rita Lee – uma autobiografia, livro que começa narrando um abuso que Rita sofreu aos seis anos de idade e vai até sua carreira de sucesso, passando, é claro, pelo início na música com a banda Os Mutantes.

Teresa de la Parra (1889-1936) – O livro Ifigênia da escritora franco-venezuelana chega ao Brasil, apresentando a história da jovem personagem Maria Eugenia Alonso que escreveu por estar entediada no começo do século XX. Com forte linha feminista, a narrativa mostra a protagonista venezuelana se sentindo limitada no padrão que querem lhe impor, a de mulher voltada apenas aos filhos e casamento, além de argumentos ainda recorrentes nos dias atuais.

Internacional:

Angela Davis – Filósofa norte-americana e militante pelos direitos civis, teve seu livro Mulheres, Raça e Classe traduzido no Brasil, após 35 anos do primeiro lançamento. Na obra, a ativista aponta a relação entre racismo, patriarcado e capitalismo, além do estupro e a luta das mulheres, temas ainda presentes e com debates cada vez mais necessários. Presa em 1970, quando integrava o movimento Pantera Negra, Angela é grande representante da emancipação da mulher negra.

Jessica Bennett – A jornalista norte-americana lança o livro Feminist Fight Club – An Office Survival Manual For a Sexist Workplace (Clube da Luta Feminista – Manual de Sobrevivência no Escritório para Ambientes de Trabalho Sexistas), no Brasil. Com bom-humor, ela mostra as próprias experiências diante de atitudes machistas no trabalho, como os colegas apontarem TPM como causa de uma reação mais assertiva, e dá conselhos para as mulheres que passam por situações semelhantes.

Roxane Gay – blogueira e escritora norte-americana que ficou conhecida pelo livro Má Feminista, se tornou a primeira mulher negra roteirista de quadrinhos da Marvel, passando a ser responsável pelas histórias do herói Pantera Negra.  

MÚSICA

Alcione Neste ano a cantora lançou o projeto Boteco da Marrom, no bairro Barra da Tijuca (RJ), como uma vitrine de novidades que estão surgindo no samba.

Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Mayra Maldjian, Stefanie, Tássia Reis, Tatiana Bispo – Juntas comandam o Projeto Rimas & Melodias, music session no estilo de encontro entre rimadoras, cantoras, DJs e produtoras. O coletivo propõe desconstruir modelos para expandir a presença da mulher, especialmente a negra, não só meio do rap, R&B e soul, como também na sociedade. Realizaram a primeira apresentação no início deste ano, na Casa Brasilis, e vem encantando com shows em outros lugares, como Sesc Interlagos e na 9ª Mostra Cultural da Cooperifa, na cidade de São Paulo (SP).

Ângela do Amaral, Camila Silva Inocêncio, Carla Verônica Pronsato, Cibele Palopoli e Gabrela Silveira de Andrade – Formam “Elas no Choro”, projeto do clube do choro de São Paulo, com músicas de Lina Pasce, Chiquinha Gonzaga e outras compositoras deste estilo musical que defenderam os direitos das mulheres. Apresentaram-se a partir do Dia da Mulher, com encontros durante o primeiro semestre.

Assucena Assucena e Raquel Virgínia – Mulheres trans e vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, que busca passar pelas músicas as expressões das mulheres, das trans e, como os próprios integrantes pregam, “de ser o que é”, com o disco Mulher. O grupo, formado por amigos que se conheceram no curso de História da USP, tem influências musicais da Tropicália, xote e Clube da Esquina.

BlubellEm 2016 lançou o quinto disco de sua carreira, Confissões de Camarim, misturando jazz, ska, bolero e rock, disponível em plataformas digitais e versão física. Paralelamente, a artista apresenta o show Blubell canta Madonna, fazendo uma releitura acústica e teatral de hits da cantora pop.

Dona Onete – Cantora, compositora e poetisa paraense, 77 anos, que retornou ao cenário musical com o disco Banzeiro (2016) pelo selo Natura Musical. Carimbó, samba de cacete e a vida ribeirinha estão presentes no álbum, ritmos e culturas que ela divulga pelo Brasil por meio das novas canções, e todas autorais. Sua carreira deslanchou ao se aposentar, com músicas reconhecidas por aqui e em outros países. Antes, era professora de História em escolas do Pará. Ela é símbolo de que não tem limite para atuar e se destacar em novas áreas.

Ellen Oléria – A cantora lançou seu quarto e mais recente disco, chamado Afrofuturista, que fala sobre identidade e ancestralidade negra, em um ritmo que resulta da mistura de rap e funk. Afrofuturista foi um sucesso no iTunes e, superando as expectativas de um mercado em declínio, vendeu 15 mil cópias físicas em alguns meses de venda.

Elza Soares – Com o álbum A Mulher do Fim do Mundo, lançado no fim de 2015, a cantora levou o prêmio de melhor álbum de música popular brasileira no Grammy Latino 2016 e de melhor álbum pela Academia Paulista de Críticos de Artes (APCA) e pelo Prêmio da Música Brasileira. Para além da música e focando em seu engajamento contra o racismo, a cantora recebeu também o prêmio Raça Negra.

Esperanza Spalding – A cantora e contrabaixista que já tem prêmios como Grammy, lançou o disco Emily’s D+Evolution. No recente álbum, ao invés de se concentrar no jazz, ela explora o R&B, rock progressivo e sintetizadores , sendo co-produtora e contou com o Tony Visconti, responsável pela produção de alguns discos de David Bowie.

Isis Carolina Vergílio – Produtora musical, trabalhou, ao longo do ano, ao lado de artistas como Tássia Reis. É ativista pelas mulheres negras empreendedoras com a Afro Creators

Karina Buhr – Além da compositora baiana se apresentar com Selvática, disco com forte mensagem feminista e identidade visual que simboliza força e liberdade, ela mantém um fanzine feminista intitulado Sexo Ágil para que o machismo não cale mais questões tão importantes a serem divulgadas e esclarecidas. Neste ano o aborto foi o tema, lançado na internet e contou com colaboração de ativistas como a blogueira Jéssica Ipólito e a ilustradora Camila Fudissaku.

Karol Conka – A rapper curitibana ganha mais espaço não só pelo talento na música e rimas. Além do videoclipe Poder, com referências ao Candomblé e lançado este ano como uma prévia do que tem no próximo disco, ela participou de grandes eventos e ganhou destaque no cenário nacional. Ultimamente também se destacou com a música 100% feminista, composta em parceria com MC Carol, que prima pela independência da mulher, citando personalidades fortes como Dandara dos Palmares, Elza Soares e Frida Kahlo.

Lay – Rapper negra de São Paulo (SP) lançou este ano o EP 129129, carregado de letras feministas e de combate ao racismo.  

Mahmundi – Nome artístico da cantora e multi-instrumentista carioca Marcela Vale, que produziu o próprio CD – Mahmundi (2016) – explorando o pop e sintetizadores que vêm chamando atenção na cena indie. O álbum já foi indicado ao Prêmio APCA como um dos melhores de 2016, concorrendo ao lado de discos como Tropix, da Céu.

Maiara & Maraísa – Para driblar o universo masculino que domina na música sertaneja, a dupla busca falar da realidade da mulher e tem composições gravadas por artistas como Jorge & Mateus. No segundo semestre estão focadas na gravação de novo disco e DVD.

MC Carol – A rapper e funkeira lançou o álbum Bandida, com uma forte mensagem já passada nos singles Delação Premiada e 100% feminista, composta em parceria com Karol Conká. Na primeira, também autoral, ela canta a desigualdade social e repressão policial sofrida pelas comunidades, mostrando a diferença de tratamento dada a criminosos apontados pela Operação Lava Jato. Na segunda música, prima pela independência da mulher citando personalidades fortes como Dandara dos Palmares, Elza Soares e Frida Kahlo.

MC Linn da Quebrada – Funkeira em defesa da comunidade LGBT, se denomina negra, trans e periférica, com forte presença de palco durante suas apresentações.  Ao lançar o videoclipe para o novo single, Enviadecer, apresenta a opressão que também existe dos gays discretos contra as “escandalosas”, e que a expressão que dá nome a música se trata mais de atitude do que se classificar como gay. Também mantém seu ativismo em ações como quando ajudou a formar a Associação de Travestis de Santo André – ATRAVESSA.

MC Mayara – Para a semana do Orgulho LGBT, em junho, a funkeira lançou a música Close Certo, com trechos como “pra curar preconceito, eu  prego a desconstrução” e “não adianta reclamar nem criar regra pra mim”.

Naiara Azevedo – Cantora sertaneja estourou com as músicas Coitado e Parceira de Copo, além de lançar o DVD Totalmente Diferente. Escreve letras de “sofrência”, trazendo a visão da mulher e valorizando o amor próprio.

Nina Oliveira A voz doce da jovem cantora de 19 anos apresenta o lugar da mulher negra, violência sexual, pobreza e escravidão, entre outros temas. Este ano, se destacou com as músicas como Disque Denúncia (composta em parceria com Gabrielle Rainer e Gabriella Nunes). Ela agora se prepara para lançar seu primeiro disco, Ciranda de Dandara, no primeiro semestre de 2017.  

MC Sara Donato e MC Issa Paz – As duas formam uma dupla de hip-hop e lançaram o álbum RAP Plus Size, carregado de letras contra o machismo, gordofobia, anti-padrões estéticos. Além do álbum, se destacaram, ao lado de Souto Mc e Luana Hansen, pela música Machocídio.

Simone & Simaria – As irmãs formam a dupla sertaneja em um estilo musical onde a mulher ainda é colocada como objeto muitas vezes. A música Ele Bate Nela, por exemplo, retrata a violência contra o gênero feminino. Misturando sertanejo com forró, o trabalho mais recente é o DVD Simone e Simaria Live e Convidados, lançado este ano.

Verónica Decide Morrer – De estilo post-punk e new wave, a banda de Fortaleza lançou disco homônimo este ano, o primeiro da banda liderada pela vocalista (e mulher trans) Verônica Valentino. O grupo ficou conhecido por protestar pela diversidade sexual nas letras acompanhadas de apresentações performáticas. 

Yzalú – Com letras poéticas e, ao mesmo tempo, que combatem o racismo, machismo e preconceito direcionado às pessoas com deficiência, a rapper de São Bernardo do Campo (SP) lançou o primeiro disco, Minha Bossa é Treta, misturando o rap com reggae, MPB e samba. O lançamento virtual foi no Dia Internacional da Mulher.

Internacional:

Akua Naru – Com influências do afrobeat e R&B, a compositora norte-americana veio a São Paulo (SP) em outubro para apresentar seu hip hop misturado ao jazz do disco The Miner’s Canary Já colaborou com grandes nomes, como Angelique Kidjo (The Roots) e o brasileiro Lamau, e tem em suas rimas forte engajamento social.

Alicia Keys – A cantora divulgou carta aberta, publicada no site Lenny Letter da roteirista e atriz Lena Dunham, onde explica porque não usará mais maquiagem. Um dos motivos foi cansar dos padrões de beleza impostos às mulheres. Lançou em novembro o álbum Here, com composições como In Common, e com identidade visual que já traz a nova Alicia.

Beyoncé – Nesse ano lançou o CD Lemonade com todas as músicas de própria autoria e co-produzidas por ela. Racismo, empoderamento negro, independência da mulher, direito civil e violência policial estão entre os temas tratados no disco, que leva esse nome pela crença de escravos norte-americanos que beber limonada poderia clarear a pele.  

M.I.A. – Ativista pelos movimentos sociais e contra opressão governamental, lançou em 2016 o álbum AIM, com o clipe para o single Borders, retratando a questão dos refugiados.

Solange Knowles – A cantora lançou o disco A Seat at the Table, com músicas que abordam o racismo, misoginia e questões da identidade negra. Na canção Don’t Touch My Hair ela enfatiza os traços afros, que ainda são pouco valorizados.

MODA

Ana Paula Xongani – A estilista negra veste famosas como Sheron Menezes e Taís Araújo e tem um projeto onde produz vestidos de noiva de inspiração africana. Neste ano, ganhou destaque no YouTube, falando sobre representatividade e racismo.

Angela Luna – A estilista desenvolveu roupas adaptáveis que viram abrigo, ou se tornam flutuantes para refugiados, como sacos e tendas. Com esta coleção foi considerada estilista do ano na Design Parsons School, de Nova Iorque (EUA).

Bouchra Jarrar e Maria Grazia Chiuri – Estilistas da Lanvin e Christian Dior, respectivamente, que comandaram coleções na Semana de Moda de Paris, que este ano abriu mais espaço para as mulheres. A primeira misturou cortes masculinos e femininos nas peças, enquanto que a segunda trouxe mensagens feministas estampadas nas roupas.

Nátaly Neri – A youtuber negra se tornou influenciadora digital com o Afro e Afins, atualmente com mais de 110 mil inscritos e por onde dá dicas de moda e beleza para a mulher negra envaidecer o que tem de melhor e sem gastar muito. Autonomia intelectual e econômica para maior empoderamento da mulher são outros assuntos discutidos no canal.  É estudante de Ciências Sociais na UNIFESP, concentrando estudo no recorte étnico-racial. Foi uma das convidadas do evento Teia, realizado pela GNT e voltado à importância da empatia, da coletividade e sororidade.

POLÍTICA

Ana Paula Braga e Marina Ruzzi – Criadoras do Braga & Ruzzi – Advocacia para mulheres, as advogadas feministas são especializadas nos direitos das mulheres e desigualdade de gênero, oferecendo assistência jurídica, consultiva e contenciosa. As advogadas vem rebatendo o Projeto de Lei no Congresso Nacional (PL 07/16), que pretende alterar Lei Maria da Penha, colocando mulher como vítima, além de não prever orçamento para delegacias especializadas no atendimento à mulher ficarem disponíveis por 24 horas. Ana Paula e Marina defendem o termo “mulheres em situação de violência” já utilizado no texto original da lei.

Áurea Carolina – Mestre em Ciência Política pela UFMG (MG), especialista em gênero e igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona, a candidata do PSOL foi eleita a vereadora de Belo Horizonte com maior número de votos (17.420). Negra e feminista, apoia as causas das mulheres, dos negros e da juventude. Durante a eleição deste ano, a cientista política e outros candidatos ao posto de vereador do estado mineiro se uniram pelo site somosmuitas.com.br, onde é possível conhecer as propostas dos candidatos trans, indígenas, entre outros, que se importam com os direitos humanos, questões LGBTQ+ e inclusão de todos para uma vivência cada vez melhor.

Carol Protesto – Com 19 anos, a estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (SP), integrou não só o movimento dos secundaristas durante ocupação das escolas estaduais em 2015, como também se candidatou a vereadora na capital paulista pelo PT. Com propostas focadas na população jovem, mulheres, indígenas, negros, LGBTs, população em situação de rua, profissionais da cultura, pessoas com religião de matriz africana, entre outras, ela conseguiu 516 votos. Não o suficiente para se eleger, mas pretende continuar colaborando com a política da cidade.

Cristiana Bento – Quando passou a comandar equipe de investigação do estupro coletivo à garota de 16 anos do Rio de Janeiro, em maio, a delegada da Polícia Civil mostrou evidências que, de fato, ocorreu o crime, considerou a denúncia da adolescente e não adotou aquela abordagem costumeira de culpar a vítima. Ela ajudou na agilidade da prisão preventiva dos suspeitos identificados no vídeo, enfrentando colegas de trabalho contrários à medida e parte da comunidade aliada ao tráfico. Sua trajetória profissional passou por locais como a Delegacia de Mulheres de Duque de Caxias (RJ) e atualmente é delegada titular da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima.  

Djamila Ribeiro – Filósofa e fundadora do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Sexualidades, atuou também como secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo. Sua gestão ajudou a pautar a mídia sobre questões raciais e de direitos humanos, além de aproximar militantes das ações da administração.   

Margarida Maxacali e Diva Maxakali – A cidade de Santa Helena de Minas (MG) elegeu representantes mulheres indígenas. As duas são candidatas do PRB, sendo Margarida como a segunda vereadora mais votada e Diva como vice-prefeita. As duas também são trabalhadoras rurais.

Maria da Penha Maia Fernandes – A farmacêutica bioquímica formada pela Universidade Federal do Ceará e mestre em parasitologia pela USP, dá nome a Lei Maria da Penha, que completou 10 anos em agosto. Em outubro ela recebeu premiação Hors-Concours no 21º Prêmio Claudia, pela sua contribuição ao combate da violência doméstica, que começou quando foi quase assassinada pelo ex-marido nos anos 1980. Maria também pode ser uma das pessoas cotadas para o Prêmio Nobel da Paz 2017, com confirmação a ser divulgada em fevereiro do próximo ano. A possibilidade foi anunciada durante sessão solene do Congresso Nacional e que pode ser uma indicação conjunta entre Senado e Governo do Distrito Federal.

Marielle Franco – Candidata do PSOL, se elegeu vereadora no Rio de Janeiro, com propostas feministas e para a periferia. Negra e criada na favela da Maré (RJ), é formada em Sociologia pela PUC-RJ e Mestre em Administração Pública pela UFF-RJ.

MeRepresenta – Lançada em setembro, a ferramenta foi constituída pelas campanhas #VoteLGBT, #AgoraéQueSãoElas, a Rede Feminista de Juristas (#DeFEMde), a Rede Nossas Cidades (Meu Rio, Minha Sampa, Minha Porto Alegre e Meu Recife), a organização não governamental CFEMEA e o grupo LGBT Brasil, e tem como principal porta-voz Evorah Cardoso. A #MeRepresenta ajudou eleitores a localizar candidatas e candidatos às Câmaras Municipais que defendem os direitos humanos, igualdade de gênero, questões raciais e de orientação sexual e agora está com uma campanha de financiamento coletivo a fim de coletar verba para prosseguir com o projeto.

Sâmia Bomfim – Membro do coletivo feminista Juntas, é a primeira vereadora do PSOL a ser eleita em São Paulo. A militante de 27 anos faz parte do movimento Bancada Ativista, recebeu mais de 12.400 votos e se voltará às discussões de gênero, apoio para o funcionamento 24h das delegacias da mulher, direito à cidade, igualdade salarial e outras causas. Formada em Letras pela USP, também é funcionária pública nesta universidade e faz parte do Sintusp (Sindicato dos trabalhadores da Universidade de São Paulo). Ela fez parte da organização de diversas mobilizações, uma delas contra a PL5069, proposto pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que limita o atendimento à mulher que passou por violência sexual.

Internacional:

Virgínia Raggi – A advogada e candidata do partido antissistema Movimento 5 Estrelas foi eleita em junho, com 67% dos votos, como primeira prefeita de Roma. Noticiários mostraram que a população buscou nela como uma alternativa às gestões corruptas de anos anteriores. Mas ela vem sendo criticada ao anunciar que a cidade não tem interesse em sediar Olimpíadas de 2024 por não ter verba o suficiente para investir. Tal comportamento é visto como impopular pela parcela conservadora da cidade.

Yuriko Koike – A Socióloga pela Universidade do Cairo (EGT), ex-ministra do Meio Ambiente e da Defesa é a primeira mulher eleita governadora de Tóquio (partido Liberal Democrata), com 62% dos votos, anunciada em julho. Ela já tem em mãos o desafio de acompanhar os preparos dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2020 e está fazendo mudança trabalhistas na capital japonesa. Determinou que nenhum funcionário do governo deve trabalhar após as 20h, principalmente mulheres com filhos e busca ampliar participação feminina no mercado de trabalho. Quando ministra do Meio Ambiente, ficou conhecida pela campanha cool biz, para os homens do ministério deixarem de lado a gravata durante o verão para economizar o ar-condicionado, virando hábito nas empresas privadas.   

SAÚDE

Debora Diniz – Pesquisadora sobre saúde, feminismo e direitos humanos, a antropóloga, pela UnB, e professora de Bioética na mesma universidade lançou o livro Zika, do sertão nordestino à ameaça global. Além de lembrar o início, em 2014, como doença indecifrável, a obra é fruto da imersão que a autora fez no nordeste, no 1º semestre de 2016, acompanhando as mães de bebês com microcefalia, relatos de médicos, de pesquisadores e a desavença entre eles ao longo dos estudos sobre o surto do vírus.

Elcylene Leocádio – A médica especializada em Saúde Pública, militante e feminista lançou o livro Outubro Rosa – Do muito que há por ser dito como forma de desmistificar o câncer de mama, doença com a qual foi diagnosticada em 2014. Pela narrativa, ela lembra que é importante não se culpar, não tratar o tumor como inimigo e que a feminilidade vai além dos seios e cabelos. E está com um crowdfunding para viabilizar o projeto Nu Espelho, que vai se tornar um site e formação de voluntárias para grupos terapêuticos para mulheres com câncer de mama e seus acompanhantes (família/amigos) de baixa condição socioeconômica.

Eliana Abdelhay A biofísica, coordenadora e fundadora da Divisão de Laboratórios do Centro de Transplantes do Instituto Nacional do Câncer (Inca) desenvolveu uma forma menos invasiva e mais rápida para diagnosticar o câncer de mama, por meio de amostras de sangue. Ela busca comprovar eficácia para que daqui três anos possa substituir a mamografia, e tornando-se cada vez mais exame de rotina entre as mulheres. Sua pesquisa mostra que os biomarcadores do câncer podem ser identificados no sangue periférico, possibilitando análise não invasiva. A OMS aponta o câncer de mama o mais comum entre as mulheres. Eliana fundou o primeiro laboratório de organismo geneticamente modificado do Brasil, na UFRJ.

Érica Lourenço, Raquel Nantes e Márcia Furlanetto – As doulas estão à frente da concepção da Casa Materna, lançada em Santo André (SP) para assistência humanizada ao parto, buscando o empoderamento da maternidade e paternidade. Além de rodas de conversa gratuitas para esclarecer vários assuntos em torno do parto humanizado, o local vai oferecer serviços de especialistas a custos acessíveis, como médicos, ioga, musicalização e teatro infantil. Raquel Nantes também integra a MaternaMente, grupo que promove debates sobre políticas públicas voltadas a autonomia da gestante.

Graziela Kunsch – A artista plástica propôs a Clínica pública de Psicanálise na Vila Itororó, junto com os psicanalistas Tales Ab’Sáber e Daniel Guimarães. Desde julho, psicanalistas atendem gratuitamente pacientes nos plantões aos sábados. Ela também é responsável pela formação de público da Vila Itororó e militante do Movimento Passe Livre-SP.

Maria Julia Wotzik – Coordenadora da plataforma Mapa do Acolhimento, que viabiliza terapias gratuitas às vítimas de estupro e outras violências sexuais em mais de 10 cidades do Brasil, um mapa colaborativo com avaliação de serviços públicos que oferecem atendimento humanizado, informações sobre legislações voltadas ao assunto e formulário online às mulheres que buscam esse suporte. Criada pela ONG Meu Rio, o coletivo #AgoraÉQueSãoElas e a organização Nossas Cidades, o projeto tem mais de 2500 voluntárias e 450 terapeutas. Foi lançado em julho, diante dos altos números deste abuso no país e após uma garota de 16 anos ser estuprada por 30 homens no Rio de Janeiro.

Internacional:

Alicia Raimundo contra estigma direcionado às pessoas que sofrem com depressão, já se apresentou no TedxWaterloo e conferências pelo Canadá, seu país de origem. Outra forma que encontrou para falar sobre saúde mental foi escrevendo o livro Red Carnations, relatando a própria história com a doença. No blog Mental Health Superhero esclarece o tema com o objetivo de incentivar jovens a demonstrarem opiniões sobre a própria saúde mental. Neste ano apresentou palestra no One Young World, no Canadá, evento que convida jovens a aprenderem sobre empreendedorismo e liderança. Tem mais tem mais de 600 palestras apresentadas e é formada em Artes e negócios pela University of Waterloo.

TECNOLOGIA

Aline Silveira, Carol Dani, Emily Blyza, Lhaís Rodrigues, Renata Albertim, Thaísa Queiroz Criadoras da Mete a Colher, rede colaborativa que surgiu em Recife (PE) a partir da Startup Weekend Women, voltada a sororidade para as mulheres que estão em algum relacionamento abusivo. Pela fanpage atendem pedidos de ajuda e relatos de quem já passou por esta situação. Em breve a rede se torna um app gratuito, em iOS e Android, a nível nacional para conectar mulheres de forma rápida e segura, com geolocalização e com auxílios em quatro categorias: apoio emocional, ajuda jurídica, abrigo temporário e oportunidades de trabalho.    

Búh D’Angelo – Depois de alguns anos sem conseguir emprego, concentrou a expertise em Tecnologia da Informação no InfoPreta. Com serviços de informática, reciclagem e descarte correto de equipamentos eletrônicos, consultoria, cursos de TI e inclusão digital para moradoras da periferia paulistana, ela e equipe fortalecem esta área que ainda conta com poucas mulheres, principalmente negras. Com o projeto Notes Solidários da Preta, o empreendimento social também recebe notebooks que são doados para mulheres de baixa renda matriculadas no ensino superior, colaborando com a formação universitária. Neste ano o InfoPreta lançou canal no YouTube com dicas desde como fazer para localizar o HD até orientação para quem quer começar a programar.

Camilla Gomes – Com o coletivo MariaLab, promove oficinas de capacitação profissional em tecnologia e das ciências exatas para mulheres, para reunir as interessadas pela cultura hacker e incentivar participação feminina nessas áreas. Há oficinas de vários tipos, como a de jogos digitais e de WordPress+CSS+HTML. Neste ano, Camilla apresentou a palestra Procura-se um DvOps na Campus Party Brasil, exercitando ainda mais o Cyberativismo feminista. Maria, parte do nome do coletivo, é justamente para popularizar a divulgação do grupo e remete às cientistas com este nome, como a física Maria Goeppert Maye e a cientista Marie Curie.

Claudia Melo – PhD em Ciência da Computação pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP, professora adjunta na UnB e Conselheira do Mulheres na Tecnologia, é uma das principais palestrantes da Conferência Webbr com o tema A Web das Inovações de Gênero, analisando como as inovações de gênero resultam em soluções mais inclusivas e criativas para todos. Atualmente investiga padrões da língua portuguesa que podem distorcer colocações de gênero em conteúdos na web, em pesquisa para desenvolver tecnologias que detectam textos sexistas nos sites do Brasil, para em seguida sugerir correções. E no próprio site vem publicando uma série de artigos sobre a relação entre as mulheres e o universo da Computação, nomeada como O ideal feminino e a computação, onde apresenta experiências profissionais, pessoais, visões das comunidades, perspectiva filosófica e pesquisa científica.

Cristina Junqueira – A cofundadora do Nubank, cartão de crédito sem anuidade, sem um banco como intermediário e com todas as transações administradas por meio de um app no celular, ganhou o Prêmio Claudia 2016 na categoria Negócios com este feito. A Engenheira de Produção pela USP, criou o Nubank com o CEO David Veléz, um cartão livre de tarifas, de juros e que conta com mais de 5,5 milhões pedidos brasileiros.

Girls in Tech Brazil – A ONG promove palestras e engaja mulheres que trabalham com as novas tecnologias. Realizou, em São Paulo, a 1ª edição do Lady Pitch Night (LPN) da América Latina, competição de negócios em fase inicial focada em startups fundadas ou co-fundadas por mulheres. A vencedora foi a startup Brand Lovers, Market place de beleza, e o evento recebeu em torno de 80 inscritas de todo o país.  A ONG conta com várias representantes na direção executiva e como membros do conselho consultivo: Beatriz Meirelles, Estelle Rinaudo, Juliana Sampaio, Loana Felix Santos, Mariana Fonseca, Monique Almeida, Nayara Moia, Renata Frade e Soraia Andrade.

EM MEMÓRIA

Carmem Silva (1945 – 2016) – Nos anos 60, Carmen foi vencedora do concurso Um Cantor por um Milhão, um Milhão por uma Canção, na TV Record. Premiada com os troféus Roquete Pinho e Chico Viola, Carmen ficou conhecida pelos sucessos Espinho na Cama, Meu Velho Pai, Amor com Amor se Paga e Fofurinha, além do apelido de pérola negra. Aos 71 anos, a cantora faleceu em decorrência de uma parada cardíaca.

Luiza Helena de Bairros (1953 – 2016) – ex-ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, lutava contra um câncer de pulmão e faleceu no dia 12 de julho, em Porto Alegre.

Serena Assumpção (1977 – 2016) – O álbum póstumo Ascensão reúne 12 orixás do candomblé, cada um em uma faixa musical. Filha do cantor e compositor Itamar Assumpção e irmã de Anelis, Serena morreu em março em função de complicações causadas pelo câncer de intestino. O disco conta com várias participações, como Karina Buhr e Tulipa Ruiz.

Internacional:

Lucía Pérez (2000 – 2016) – Estudante de 16 anos assassinada de forma brutal na cidade costeira de Mar del Plata, situada 400 quilômetros ao sul de Buenos Aires. Sua morte despertou mais uma onda de protestos do movimento (e de mulheres a favor do movimento) #NiUnaMenos pela América Latina.

Sheron Jones – Natural da Geórgia e criada em Nova York, nos Estados Unidos, a cantora de soul morreu em novembro, aos 60 anos, vítima de um câncer de pâncreas, cujo tratamento encerrou sua carreira quando diagnosticado em 2013. A cantora foi aclamada, principalmente, pelos álbuns I Learned the Hard Way e Give the People What They Want, feito em parceria com o grupo The Dap-Kings.

Zaha Hadid (1950 – 2016) – A arquiteta iraquiana-britânica foi a primeira mulher a vencer o Prêmio Pritzker, considerado o Nobel da arquitetura. Também foi pioneira ao ganhar a Medalha de Ouro do Instituto Real de Arquitetos Britânicos, em reconhecimento por seu trabalho. Zaha morreu em março deste ano em decorrência de um ataque cardíaco durante um tratamento contra bronquite.

Arte: Pri Ferrari.

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Mulheres nas finanças

Mulheres nas finanças

Quando me deparei com os achados de uma pesquisa sobre alfabetização financeira no mundo, fiquei pasma! Ao longo de toda a minha carreira como executiva e, agora, como consultora, trabalhei com finanças. Há cinco anos, decidi criar a Precisão, empresa de consultoria, com o objetivo de contribuir com pessoas que estão à procura de um maior equilíbrio na sua vida financeira. Tem sido uma experiência e tanto! E, por mais que eu perceba as minhas dificuldade e dos meus clientes em lidar com o tema, não pude deixar de me surpreender com as estatísticas, especialmente relacionadas às mulheres adultas brasileiras.

Em função disso, e quase que imediatamente, pensei em dar visibilidade ao estudo, pois acredito que antes de mudar uma realidade, precisamos ter consciência dela.

Primeiramente, quero falar um pouco da pesquisa¹, que alcançou cerca de 150 mil pessoas², distribuídas em 140 países, dentre eles, o Brasil. No decorrer de 2014, cada pessoa entrevistada respondia a quatro perguntas. Para aquelas e aqueles que quiserem medir o seu grau de alfabetização financeira, trago as respostas corretas ao final desse texto:

1. Suponha que você tenha algum dinheiro. É mais seguro aplicá-lo em único negócio ou investimento ou colocá-lo em múltiplos negócios ou investimentos?
A. Um negócio ou investimento
B. Múltiplos negócios ou investimentos
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

2. Suponha que nos próximos 10 anos os preços das coisas que você compra dobrem. Se a sua renda também dobrar, você será capaz de comprar menos, o mesmo ou mais do que você compra hoje?
A. Menos
B. O mesmo
C. Mais
D. Eu não sei

3. Suponha que você precise tomar um empréstimo de R$ 100,00. Qual é o menor valor a devolver: R$ 105,00 ou R$ 100,00 + 3%?
A. R$ 105,00
B. R$ 100,00 + 3%
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

4. Suponha que você invista dinheiro no banco por dois anos e o banco concorde em depositar 15% por ano na sua conta. O banco irá depositar mais dinheiro no segundo ano em relação ao primeiro ano, ou ele irá depositar o mesmo montante nos dois anos?
A. Mais
B. O mesmo
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

Mas o que significa ser alfabetizado financeiramente?

Para os organizadores da pesquisa, “alfabetização financeira é a capacidade que uma pessoa tem de entender como o dinheiro trabalha no mundo: como alguém consegue ganhar dinheiro, como essa pessoa gerencia seus recursos, investe ou faz doações para ajudar o próximo”. Confesso que, num primeiro momento, o conceito de alfabetização financeira me incomodou. Mas, após alguma reflexão, passei a considerá-lo justo, desde que, fique claro que por ter gabaritado a pesquisa, uma pessoa pode, mesmo assim, não dispor de todos os elementos necessários para tomar a decisão mais acertada do ponto de vista financeiro.

Assim, não é meu intuito tratar aqui da alfabetização financeira de forma geral, mas sim abordar alguns aspectos relacionados à realidade brasileira, especialmente no que tange às mulheres. Por isso, trago os principais resultados da pesquisa para o Brasil!

Aqui, o índice de alfabetização financeira é baixo, em torno de 35%, quando consideramos mulheres e homens em conjunto. Isso quer dizer que, de 100 pessoas, somente 35 podem ser consideradas alfabetizadas financeiramente. Entretanto, esse mesmo índice cai para 29%, ao contemplar apenas mulheres, o que indica que estamos mais propensas a sofrer de lacunas quanto ao conhecimento sobre conceitos financeiros básicos. Você deve ter notado que o índice de alfabetização financeira das mulheres está abaixo da média brasileira. Essa conclusão é a mesma coisa que dizer que 41% dos homens adultos, no Brasil, são alfabetizados financeiramente. Acredite! A diferença entre os índices de mulheres e homens pode ser chamada de lacuna de gênero.

Essa lacuna é mais do que o dobro da existente em nível mundial. E pode estar relacionada a diversos aspectos, mas prefiro deixar isso para especialistas. A despeito disso, eu gostaria de chamar atenção para a importância de as mulheres começarem a se dedicar à organização da sua vida financeira. E isso pode ser justificado por vários motivos. De forma resumida, e pensando apenas na situação brasileira, devo ressaltar ao menos três razões: mulheres vivem, em média, 7,2 anos a mais do que os homens³, mulheres representam somente 42,8% da população ocupada (4), apesar de serem a maioria na população com idade para trabalhar e mulheres ganham menos do que homens, independentemente do nível de instrução (5).

Particularmente, os pontos relacionados acima me preocupam muito. Eu explico o porquê. Antes de mais nada, e a fim de evitar distorções, eu acho muito bom ter a expectativa de passar mais tempo nesse mundo. Apesar de todos os desafios que precisamos enfrentar.

Contudo, do ponto de vista estritamente financeiro, viver mais requer uma necessidade maior de poupança, especialmente se quisermos manter nosso padrão de vida quando estivermos fora do mercado de trabalho.

Inevitavelmente, esse dia chegará. É possível ter uma velhice tranquila, acredite! Basta fazer um planejamento adequado. Como? Coloque a organização da sua vida financeira como uma prioridade. Eduque-se sobre o tema! E caso precise de ajuda, procure especialistas no assunto. Não fique refém das orientações dos gerentes do banco em que você possui conta corrente, pois estes, e sem querer generalizar, tendem a propor operações que são mais rentáveis para a instituição em que trabalham. Além disso, muitas vezes, os próprios gerentes carecem de informações precisas sobre os complexos produtos financeiros. Afinal, são tantos! Se tiver dúvidas sobre o negócio proposto, peça simulações, converse com pessoas próximas, consulte especialistas e conteste sempre que algo não fizer sentido. Investimentos com altos retornos jamais são livres de risco. Lembre-se dessa máxima!

Como já mencionei, nós, mulheres, somos a minoria no mercado de trabalho, apesar de sermos a maior parcela da população e passarmos mais tempo estudando. Essa situação está presente em todos os níveis empresariais. E piora na medida em que nos aproximamos das camadas de liderança. Estudo recente (6) indica que as mulheres representam 45% dos profissionais que entram nas empresas americanas. Entretanto, no nível executivo, em que as decisões estratégicas são tomadas, esse percentual cai para 17%. Fica evidente que a ascensão profissional das mulheres é bem mais difícil do que a dos homens.

O Brasil, infelizmente, está entre os dez países que possuem a pior proporção de mulheres ocupando posições na alta administração das empresas (7): apenas 15%. O impacto disso em nossa vida financeira é um pouco óbvio. Como as promoções nas carreiras são mais escassas para as mulheres, a tendência é que tenhamos poucos saltos na renda, o que restringe nossa capacidade de poupança. Nesse cenário, a disciplina torna-se primordial. Pois é, ainda preciso acrescentar que vivemos em um país desigual em termos de remuneração. As mulheres, mesmo executando tarefas idênticas às dos homens, recebem menos. Considerando as que têm ensino superior, recebemos em torno de 60% da remuneração paga aos homens (8).

Então, vamos traduzir isso em números para dar uma ideia do buraco. Imagine um homem com nível superior que trabalhe em uma empresa qualquer, recebendo R$ 3 mil por mês. Uma mulher formada, e realizando as mesmas tarefas, ganharia R$ 1.800. Se a diferença salarial fosse integralmente investida por cinco anos, a uma taxa de 8% ao ano (cerca de 30% acima do rendimento anual previsto na caderneta de poupança), o homem teria acumulado uma quantia superior a R$ 90 mil. Não me parece uma situação justa. E você? O que acha? Penso que as estatísticas apresentadas irão trazer um sentimento de indignação. Eu também passei por ele.

Revivi algumas situações desagradáveis. Inclusive, algumas delas só se revelaram agora, pois na época em que ocorreram, eu sequer tinha consciência da discriminação. Entretanto, acima de tudo, eu espero que as mulheres que esbarrarem com esse artigo coloquem o planejamento financeiro pessoal como uma prioridade em suas vidas. E, além disso, jamais se esqueçam de permanecer lutando por um mundo menos desigual!

Respostas: 1. B | 2. B | 3. B | 4.A

Todas as questões foram desenvolvidas com a finalidade de examinar conceitos financeiros básicos – aritmética, diversificação de risco, inflação e juros compostos. E, para ser considerada alfabetizada financeiramente, era necessário responder corretamente pelo menos três questões.

1. A pesquisa, conduzida pela Standard & Poor’s Ratings Services, contou com a contribuição das seguintes instituições: Gallup World Poll, Banco Mundial, McGraw Hill Financial Inc. e The George Washington University School of Business.
2. Selecionada aleatoriamente, a amostra da população compreendeu qualquer indivíduo com idade igual ou acima de 15 anos, desconsiderando soldados e prisioneiros.
3. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Tábua completa de mortalidade para o Brasil – 2015.
4. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – março de 2016.
5. OECD. Gender equality – julho de 2016.
6. Leanin.org e Mckinsey & Co. Women in the workplace – 2015.
7. GRANT THORNTON. Women in Business: the path to leadership. Grant Thornton International Business Report – 2015.
8. OECD. Gender equality – julho de 2016.

Renata Fontes é mestre em Administração de Empresas pela Universidade de Brasília, especialista em Estratégia Empresarial e economista. Fundou a Precisão | Consultoria Financeira em 2011.

Arte: Barry Falls.

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A fotógrafa paulista Nair Benedicto (1940), em sua última mostra “Fé Menina” (São Paulo), exibiu trabalhos que ilustram sua percepção sobre o universo feminino através de um olhar provocadoramente etéreo e sensual, um olhar que legitima o prazer, a devoção e o estado de existir de suas protagonistas. Considerada uma das maiores fotógrafas do país, Nair Benedicto expôs uma coletânea de fotos em preto e branco e em cores que busca retratar a condição feminina desde os anos 1970 até a atualidade e cujo foco está direcionado e apoiado na figura fundamental da mulher em cada clique, pois segundo ela: “Mulher sempre foi um tema recorrente no meu trabalho. Eu considero esses registros fotográficos um pout pourri sobre a realidade da mulher brasileira, que é mostrada em diferentes situações: na prisão, em passeatas, em aldeias indígenas e no carnaval”.

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Louvação à Iemanjá na Cidade de Praia Grande (São Paulo), 1978

A vibração, a dramaticidade e a potência que acompanham os conteúdos das fotos de Nair Benedicto são intensificadas pelo efeito óptico que os elementos visuais em preto e branco produzem entre si. Essa mescla viceral entre o conteúdo/mensagem e a forma retratada em cada foto permite ao observador ter acesso a uma combinação de percepções díspares e, ao mesmo tempo, complementares entre si como a noção de distanciamento e de proximidade, de movimento e estaticidade, de simbologia conservadora e libertária, da devoção/recato e do profano/prazeroso. E nesse universo de pulsação vital, Nair Benedicto captura a figura feminina, que ocupa a posição cêntrica na cena e se deixa registrar sem filtros em um momento particular e simbólico de sua existência.

Noiva em romaria Aparecida do Norte-SP1981Crédito: Nair Benedicto/N Imagens
Pagadora de promessa em Aparecida do Norte (São Paulo), 1981

A aptidão que Nair tem em abstrair uma determinada cena de seu espaço-tempo e de projetá-la em nosso presente estimula a imaginação do observador que busca decifrá-la e interpretá-la a partir de sua própria realidade. A fim de aprofundar o significado que as imagens passam a ter para si, esse observador tende a “scannear”, a perambular sobre cada detalhe do plano fotográfico e esse, segundo o filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991), é um caminho complexo que o olhar tende a seguir: um caminho formado e delimitado em parte pela própria estrutura da imagem e em outra parte pelas intenções do observador. Devido a essa ação de “scanner“, o significado de cada imagem passa a apresentar tanto a intenção da própria imagem, em seu particular microcosmo narrativo, quanto a do observador, em seu macrocosmo social, fazendo com que cada imagem forneça complexos de símbolos conotativos.

Ou seja, cada imagem abre espaço para variadas interpretações e intenções – dependendo justamente do olhar de quem a scannea e a decifra. E cada imagem de Nair Benedicto nos permite deambular pelo recorte de um determinado universo particular que ela capturou com seu olhar e nos oferece. A cada imagem registrada somos levadas a um instante de convivência e interação com as mulheres ali representadas e podemos, através de nossa leitura em “scanner”, preenchê-la com nossas próprias intenções, interpretações e experiências.

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Tesão no Forró do Mário Zan (São Paulo) 1978

Enquanto o olhar do observador capta um elemento após o outro do plano da imagem, ele passa a estabelecer relações de significados entre esses elementos internos em si, entre esses elementos e outras imagens já vistas anteriormente que lhe marcaram profundamente, entre esses elementos e a realidade do próprio observador. Nesse movimento que aponta tanto para o universo interno quanto para o externo da imagem ali retratada encontra-se um mundo mágico: um mundo onde tudo acaba se repetindo e interligando o passado ao presente; onde tudo compõe um contexto de significados variados e interconectados a partir do olhar de cada observador.

Nesse sentido, a abordagem do universo feminino pela lente de Nair Benedicto aponta para um mundo mágico porque retoma e conecta o passado ao presente através da representação de temáticas recorrentes e pertencentes ao universo feminino. Numa espécie de eterno retorno ao contexto do feminino e seus enclaves ainda existentes, especialmente na abordagem e na evocação de „o prazer é nosso sim e não há razão para repressão alguma“ ou „essa é a fé menina – minha constituição natural e da qual não devo me envergonhar“ Nair Benedicto trabalha a estética de ser fêmea, de ser mulher sem medo ou repressão alheia.

A magia das imagens de Nair Benedicto encontra-se também presente na inusitada combinação entre a ambientação etérea e a realisticamente brutal, como no retrato das mulheres do sisal. Uma magia que aponta o poder transformador da fotografia na qual acredita a artista, já que “Por meio dela (fotografia), procuro chamar a atenção para questões que considero relevantes para a sociedade”.

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Mulheres trabalhando no sisal (Bahia), 1985

No pequeno documentário abaixo, ouvimos Nair Benedicto falar especialmente de dois trabalhos audiovisuais que lhe marcaram: “O prazer é nosso” e “Não quero ser a próxima”.

*Todas as fotos divulgadas foram gentilmente cedidas pela Imã Foto Galeria, onde Nair Benedicto teve uma mostra exposta de julho 2015 a abril 2016.

*Referência a Vilém Flusser provém do livro “Für eine Philosophie der Fotografie” (Sobre uma filosofia da fotografia).

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

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