Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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Por mais absurdo que possa parecer, tem se tornado cada vez mais comum ter homens ocupando espaço de mulheres em premiações segmentadas. A nomeação de Bono Vox, vocalista da banda U2, no topo da lista de Mulheres do Ano 2016 da revista Glamour americana é um grande exemplo disso.

Mas homens já não ganham muitos prêmios? A revista disse não concordar: “Essa mentalidade começou a ficar defasada. Existem tantos homens fazendo coisas maravilhosas pelas mulheres hoje em dia”.

Para nós, ao invés de justificar, esta declaração só gerou mais questionamentos:

– Se hoje homens estão colaborando para a igualdade de gêneros, será que não devemos agradecer às mulheres que iniciaram e mantém essa luta?
– Será que, nessa posição de privilégio, Bono Vox e os “outros homens” não estão fazendo mais do que sua obrigação, ao colaborar com (e não protagonizar) as lutas das mulheres?
– Chegamos no mesmo patamar de oportunidades que os homens, a ponto de não mais precisarmos de premiações segmentadas?

Sabemos as respostas para todas essas perguntas e é por isso que, em 2013, iniciamos a lista de Mulheres Inspiradoras da Think Olga, onde não buscamos premiar, tampouco classificar as nomeadas, mas sim usar nosso espaço para exaltar trabalhos protagonizados e desenvolvidos por mulheres, como forma de combater a falta de reconhecimento.

E, acompanhando tantas mulheres inspiradoras em suas jornadas, podemos dizer que, ainda hoje, cada nova conquista merece méritos. Entre estes feitos, está o de tornar o feminismo e a luta por direitos iguais tão populares a ponto de engajar também os homens na causa.

Se os homens têm encontrado maneiras de ocupar listas segmentadas, pode-se imaginar a discrepância em prêmios mistos. Em uma das maiores honrarias da humanidade, o Prêmio Nobel, 97% dos vencedores na categoria de ciências são homens, uma área onde a participação feminina vem crescendo, mas ainda não o suficiente para mudar este quadro de representatividade.

Já na categoria Literatura, somente 14 mulheres foram agraciadas com o prêmio  em 116 anos. No ano passado, a academia escolheu Bob Dylan, o primeiro músico nomeado para Literatura em 103 anos, e foi questionada quanto às voltas dadas para premiar homens quando há tantas mulheres na mesma área buscando visibilidade. No fim das contas, uma mulher, a cantora e compositora Patti Smith, foi quem recebeu a honraria em nome de Bob Dylan, que não estava presente na cerimônia de entrega.  

Um refresco de diversidade aparece  na categoria Paz, a que mais cresce em nomeações femininas. E, em 2017, temos a chance de ter uma representante brasileira entre os indicados e, melhor ainda, pautar a importância da luta feminista, com Maria da Penha e seu trabalho em prol dos direitos e proteção das mulheres vítimas de violência: http://bit.ly/2qk4QMR.

Contudo, quando se traz um recorte social para a questão do reconhecimento, nota-se que ainda estamos longe da equiparação. Enquanto, para Bono Vox, ser o primeiro homem do ano da Revista Glamour foi um ato tido como histórico, Viola Davis de fato fez história ao tornar-se a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz em série dramática na história da premiação em 2015, demonstrando que mesmo em uma categoria segmentada, as oportunidades não são as mesmas, como ela disse em seu discurso: “A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”  

Quando o assunto é música, as oportunidades que são dadas na maior premiação do mundo, o Grammy, não passam de categorização e limitação de artistas negras a estereótipos. No ano passado, Beyoncé levou “Melhor Álbum Urbano” pelo trabalho musical e audiovisual sobre identidade e ancestralidade negra que é “Lemonade”. Já a maior categoria da noite, “Álbum do Ano”, ficou para a britânica Adele que disse, em seu discurso, ter sido injusto não competir com Beyoncé, dedicando o prêmio a ela.

E até em listas menos prestigiadas, como a “O que é sexy” da marca de lingerie Victoria’s Secret, não pensa em mulheres negras. Em 2017, a marca falhou na oportunidade de redefinir padrões de beleza, nomeando somente Vanessa Hudgens, Priyanka Chopra e Jamie Chung como não-brancas.

Por isso, iniciativas como o Troféu Raça Negra ou ainda a lista de #25WebNegras do site Blogueiras Negras, que destaca mulheres negras que usam a internet para terem suas vozes ouvidas em diversas áreas, ainda são tão necessárias.  

A Victoria’s Secret ainda demonstrou como não falar de “diversidade de gênero” ao nomear, nesta lista só de mulheres, um homem cisgênero, James Corden, como apresentador de TV mais sexy. Não há mulheres ou homens transgêneros em nenhuma outra categoria. E, em resposta às críticas, a marca se manteve confiante ao dizer: “Isto é o que significa sexy para nós”.

Já na atualização que a MTV americana deu para a antiga premiação MTV Movie Awards, transformando-a em “MTV Movie & TV Awards” contou com mais inovação do que somente a inclusão de entretenimento de televisão e streaming para os nomeados. Nesta nova versão, as categorias de atuação não são separadas por gênero (https://glo.bo/2pQdAqM) e de primeira, duas garotas levaram o prêmio em formato de balde de pipoca para casa: Emma Watson, pela performance em A Bela e a Fera, desbancou os favoritos James McAvoy e Hugh Jackman na categoria “Atuação em Filmes”. E Millie Bobby Brown, a Eleven da série Stranger Things, de apenas 13 anos, venceu na categoria “Atuação em uma série de televisão”, atores consagrados em Game of Thrones e The Walking Dead.

Já vivemos em uma sociedade fomentada pelo trabalho de mulheres tanto quanto os trabalhos  de homens. Contudo, nem todos podem enxergar isso com clareza, já que o que as revistas e premiações destacam nem sempre representam de fato a pluralidade de nossa sociedade. Por isso, para que possamos um dia ver mais mulheres nomeadas, precisamos passar por listas segmentadas que lhes dêem destaque e não que colaborem para o apagamento de seus nomes.

Nos sentimos honradas por estarmos entre as finalistas do Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico, pois sabemos que estamos ao lado de mulheres inspiradoras de nossa área e em um ambiente que as reconhece.

A verdade é que a sociedade e os mercados devem muito às mulheres, por isso não vemos porque deixar de celebrar suas conquistas mesmo em um, ainda utópico, mundo igualitário. Afinal, esse mundo igualitário só será possível por conta delas.

Arte: Eleanor Shakespeare.

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Em um debate sobre representatividade negra e racismo na mídia, uma pessoa na plateia questionou às presentes: “Como fazer uma comunicação justa e inclusiva para mulheres negras?”

Embora eu estivesse mediando a conversa, sussurrei para minha colega que ela cuidasse do assunto, pois era delicado para mim. Como jornalista, descobri a resposta para esta pergunta já na faculdade e acreditei que poderia colocá-la em prática no mercado de trabalho. Mas logo me deparei com uma realidade de oportunidades negadas pelo racismo institucional, responsável por moldar e disseminar estereótipos de pessoas negras e não suas histórias. Precisei enfrentar muitas barreiras até me encontrar no jornalismo independente.

Logo, a pergunta me trouxe, imediatamente, lembranças e sentimentos, entre eles de raiva e impotência. Minha primeira reação foi me proteger. Porém, nem sempre um assunto que consideramos um gatilho faz somente enfraquecer. Naquele momento, me veio exatamente o contrário e, pela primeira vez em muito tempo, tive coragem de enfrentar colegas de profissão e responder: “Chame mulheres negras para falar. Abra espaço para elas escreverem, contarem suas histórias, falarem sobre si mesmas”.

Parece uma solução tão simples, mas na prática, é dizer, na cara de editoras e jornalistas, que eles são racistas em suas produções de conteúdo, que, muitas vezes, pautam questões raciais em função de uma cobrança da militâncias mas não o fazem de maneira correta. Isso acontece pois não ouvem tais cobranças, já que continuam sem dar oportunidades para que pessoas negras façam parte das redações.

Como a personagem Samantha White, da série Cara Gente Branca (Dear White People), disponível na Netflix, sempre diz e repete para seus colegas brancos: o medo, a revolta e a resistência negra ainda existem por causa dos efeitos da escravidão.

Como já apontei, esta série é para e sobre pessoas negras e as diversas questões e vivências em torno delas. Porém, Cara Gente Branca continua fazendo jus ao título, quando coloca uma mulher negra, Sam White, para falar sobre racismo estrutural diretamente para pessoas brancas. Para isso, ela usa um veículo de comunicação independente em seu campus universitário e enfrenta as confrontações com relação ao suposto “racismo reverso”. Basicamente, ela faz o que precisei reunir coragem para fazer somente uma vez, naquela mesa de debate, só que em alto e bom som em um programa de rádio periódico.

No fim das contas, a série acaba sendo sobre a importância de se reconhecer privilégios, até mesmo para pessoas brancas que se dizem “acordadas” para a existência do racismo. Uma mensagem importante é a de que amar uma pessoa negra ou se juntar à militância não livra alguém de ser racista.

Claro que ninguém quer ter este título, receber esta acusação. Não só no contexto americano que a série traz. No Brasil, 90% dos brasileiros admitem que existe preconceito de cor, mas 96% dos entrevistados se identificaram como não racistas, segundo uma pesquisa histórica do Datafolha, de 1995.

No dia da Abolição da Escravatura no país, não é estranho perceber que esta resistência a admitir a profundidade do racismo no Brasil ainda existe? Mesmo  que a conversa sobre racismo esteja sendo expandida, ainda encontramos estereótipos nocivos, a ponto de ser necessária a criação de uma parte do nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado dedicada a apontar práticas ruins e fornecer maneiras  honestas de como contar as histórias de pessoas negras e ainda a criação do projeto Entreviste um Negro, pela jornalista Helaine Martins. 

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Se ser racista é tão pesado e negativo, o que estamos fazendo para mudar isso? Melhor: o que as pessoas brancas estão fazendo para mudar isso?

Ainda paira sobre a sociedade, principalmente no Brasil, uma ideia de que preconceito de raça só acontece quando é vociferando, gritado ou caracterizado por agressões físicas, como em tempos de escravidão, apagando o fato de que somente a abolição não foi suficiente para igualar as raças.

Logo, é muito fácil se agarrar nisso para relativizar agressões que parecem pequenas, mas que são dolorosas. Em outras palavras, ainda vivemos em um mundo em que as pessoas brancas julgam o que é racismo e se mascaram para não parecerem racistas.

A Cara Gente Branca a qual a série se refere é um grupo que precisa parar de ver um apontamento de racismo como algo pessoal e aprender a ouvir quem aponta. E agora eu também me refiro a esta Cara Gente Branca, mais especificamente meus colegas de profissão, pois minha coragem não pode ficar naquela situação isolada da mesa de debates e espero ser ouvida.

A mídia e a comunicação são grandes responsáveis por propagar ideais que geram violência e segregação. Logo, está em nossas mãos, como comunicólogos, não deixar que os esforços de pessoas negras para superar gatilhos e falar sobre suas angústias sejam em vão. Retribuam com respeito e espaço de fala.

Ficar na defensiva ou buscar uma redenção por ter sido chamado de racista não resolve um problema tão grande. Mas assumir o erro e aprender com ele, sim.

Karoline Gomes é produtora de conteúdo e assistente de comunidades da ONG Think Olga.

Arte: Akilah Richards

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Um estudo divulgado em março deste ano trouxe surpresa na comunidade científica: segundo a Elsevier, o Brasil, ao lado de Portugal, é o país líder em igualdade de gênero no ambiente das pesquisas. Sob o recorte do relatório, mulheres publicam artigos praticamente tanto quanto homens e representam 49% dos profissionais de pesquisa no Brasil. Esta é uma entre algumas notícias animadoras sobre as mulheres cientistas brasileiras; também sabemos que Celina Turchi, uma das responsáveis pela comprovação da relação entre zika e microcefalia, foi indicada pela Nature como uma das 10 cientistas mais importantes de 2016 (entre homens e mulheres); também podemos falar sobre Nadia Ayad, engenheira negra que venceu um desafio científico mundial por conta de suas pesquisas sobre a utilização do grafeno, um material à base de carbono.

Isso quer dizer que a comunidade científica é um lugar seguro e perfeito para as mulheres? Que todos os desafios foram conquistados e todas nós seremos recebidas de braços abertos em todos os laboratórios e salas de aulas que desejarmos entrar? Infelizmente, não. E ainda estamos bastante longe dessa realidade.

Por mais que os números sejam animadores, eles representam apenas um pequeno recorte do que é ser uma mulher na ciência. O estudo também revela grande disparidade da presença de mulheres em certas áreas do conhecimento – muitas delas exclusivamente “masculinas”, como as engenharias – e não contempla a cultura de publicação de artigos científicos no Brasil – nas ciências exatas, em especial, é exigido que pesquisadores e pesquisadoras publiquem muito para permanecerem relevantes no mercado. Além disso, a pesquisa não contempla em profundidade as questões de gênero e as microagressões diárias que mulheres na ciência, em todo lugar do mundo, enfrentam diariamente.

A verdade é que é duro ser mulher no espaço científico. Vera Rubin, uma das astrônomas mais importantes do século passado, responsável pela descoberta da existência da matéria escura, foi zombada pelos seus colegas e desestimulada a estudar física. Ada Lovelace, que pode tranqüilamente ser considerada a primeira programadora de computadores do mundo, volta e meia tem suas descobertas questionadas e atribuídas a seu colega de trabalho, Charles Babbage. Marie Curie, talvez a cientista mais famosa do mundo, ganhadora de dois prêmios Nobel em áreas diferentes, era proibida de entrar na universidade na Polônia, seu país de origem, simplesmente por ser mulher. No Brasil, o direito da mulher a entrar na universidade tem 120 anos. Isso sem falar que a história da ciência está polvilhada de casos de mulheres que, para serem aceitas no ambiente científico, assinavam seus trabalhos com nomes masculinos – e outros tantos casos de homens que simplesmente roubaram descobertas de grandes inventoras e pesquisadoras.

Há quem possa argumentar que os tempos mudaram. Nem tanto. O site Speak Your Story encoraja mulheres das áreas de exatas a denunciarem casos de assédio, abuso e até violência sexual no ambiente de trabalho. Universidades renomadas no mundo todo possuem centros de pesquisa que visam aumentar a representatividade nas áreas científicas, que ainda surgem como ambientes hostis para muitas mulheres. Infelizmente, o mesmo ambiente onde o trabalho de pesquisadoras é encorajado pode ser palco para dor e muito silêncio, já que muitas cientistas preferem ocultar seus casos de agressão para evitar conflitos com orientadores e outros alunos e colocar toda a carreira a perder. Vale dizer que as universidades brasileiras fazem de tudo para ocultar esses casos, inclusive encorajar esse medo do futuro acadêmico.

Não podemos acreditar que o Brasil seja perfeitamente igualitário no campo da ciência quando questões  de gênero tão urgentes são silenciadas no ambiente acadêmico.

Para auxiliar no debate desse tema tão importante – e por vezes esquecido, silenciado e fora do escopo de debate do mundo acadêmico -, estaremos mediando uma mesa com três cientistas brasileiras no lançamento do livro “As Cientistas”, de Rachel Ignotofsky, que traz a história de 50 cientistas mulheres que mudaram o mundo com sua genialidade. O evento acontece no dia 06 de maio, próximo sábado, a partir das 16h, no Shopping Pátio Paulista, em São Paulo. Para mais informações, visite a página do evento!

Arte: Katherine Johnson por Rachel Ignotofsky para o livro As Cientistas.

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“Manual do politicamente correto”. Este comentário chegou até nós em resposta ao nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado e, apesar do tom negativo, quase como uma acusação, ele nos ajudou. Ajudou a reafirmar a nossa missão com esse projeto e a necessidade dele. Como podemos nos opor ao termo “politicamente correto”, quando não se refere a  nada mais do que a algo… Correto!?

Respondemos prontamente que, se trabalhar por uma comunicação que seja justa e respeitosa para grupos minorizados socialmente é ser “politicamente correto” não queremos ser incorretas. Principalmente quando a ideia do tal politicamente incorreto vem disfarçada de uma falsa liberdade de imprensa.  

E, neste Dia da Liberdade de Imprensa, questionamos: liberdade de que imprensa? Para que público?

Hoje encontramos muitos veículos – a Olga inclusa – que buscam a representatividade, profundidade e, principalmente, pluralidade de uma sociedade representada nas notícias. Mas este trabalho independente não isenta os jornalistas de buscarem pelas mesmas mudanças em suas redações. Na verdade, esta visão independente, longe de ser uma concorrência para grandes empresas de comunicação, é o que está pautando a grande mídia e acordando seu público.

As revistas voltadas para adolescentes não mais publicam perfis de garotas “para casar” ou “para pegar” sem serem questionadas quanto a essa visão machista sobre a conduta da mulher, uma faísca para repensar se esse tipo de questionamento é realmente uma  pauta, pra começo de conversa. As revistas de moda não mais são bem vistas por falar de novas tendências sem ter mulheres diversas vestindo-as. Os jornais mais tradicionais não mais falam sobre violência de gênero sem acender debates nas caixas de comentários. E todas estas mudanças, para diferentes veículos, significa o mesmo: mais do que nunca, é preciso assumir a responsabilidade de informar de maneira imparcial e respeitosa.

Por isso o Minimanual de Jornalismo Humanizado traz maus exemplos da prática jornalística, derrubando a antiética que vem com a máscara do “politicamente incorreto” para mostrar as maneiras corretas de se falar sobre gênero, pessoas com deficiência e racismo.  

Estamos conscientes do quão longe o Minimanual ainda precisa ir para evitar manchetes e reportagens que diminuem mulheres e as violências que sofreram, como “Espancada ao reagir a cantada morre após quatro meses de internação”, publicada pelo G1 ao falar de Michelle Ferreira Ventura, no ano passado. Ou ainda, “Mulher arrastada pela polícia morre no Rio de Janeiro”, como muitos veículos se referiram a Cláudia Silva Ferreira em 2014.

Sabemos também o quanto a atenção da mídia (ou a falta dela) para pautas de grupos minorizados diminui o conhecimento da população sobre estes grupos. Um dos maiores exemplos disso foi o episódio em que o prefeito de São Paulo virou manchete ao dizer que doaria seu primeiro salário para “crianças defeituosas”, provando a utilidade do Minimanual até para quem não é comunicólogo.

Mas também presenciamos debate e mudanças efetivas que acontecem a partir dos conhecimentos que compartilhamentos por meio dessa ferramenta.

No ano passado, um editor da Folha de S.Paulo alterou o conteúdo de uma matéria que trazia MC Biel se pronunciando sobre o episódio de assédio a jornalista Giulia Bressani, repórter do portal IG na época. Foram inseridas aspas da jornalista e, consequentemente, um novo ponto de vista, narrando o que ela e a editora que a defendeu sofreram (ambas foram demitidas pouco mais de um mês depois da denúncia). A matéria também cresceu ao falar sobre resistência, citando o movimento Jornalistas contra o assédio, que surgiu por conta este caso.

Entre outros trabalhos, este combate contra o incorreto na mídia por meio do Minimanual nos fez finalistas do Prêmio Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico.

Para nós, as conquistas e as decepções são grandes sinais da importância de apontarmos as falhas que encontramos. De não nos calarmos diante da grandeza da tão falada mídia de massa. Por meio de uma comunicação mais justa e humanizada, educamos para construir um mundo mais justo.

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O processo de alfabetização de uma criança é tão fascinante quanto intrigante. As letras passam de símbolos indecifráveis a sílabas, palavras, frases, até a condição de expressão do eu. Um mundo completamente novo e imenso que nasce a partir do ritmo, som, formato e efeito vindos da interação e significação das letras e delas com o entorno, com a realidade. Chega a parecer um portal mágico, mas a verdade é que o processo é longo e lento, fruto de uma estrada bastante particular de estímulos, muito esforço, troca, e necessidade (de comunicação).

– B com A?

– BA, responde a criança, certeira.

– B com E?

– DO? arrisca, insegura.

A resposta soa absurda a uma pessoa alfabetizada, íntima da lógica do letramento e das conexões necessárias para estar nele. Como pode? Mas o fato é que o domínio de uma linguagem ou conhecimento novo é sempre um processo difícil e desafiador. A primeira palavra lida por uma criança é tão-somente a soma das letras, e mesmo assim, um sacrifício similar ao de subir 50 lances de escada. O esforço é visível na força do abdome, na concentração absoluta, na quase falta de ar. Aos poucos, com muito treino/estímulo, o processo se consolida. As letras passam a fazer sentido – um sentido funcional, social e estético – e a descoberta da possibilidade de ler a vida e dialogar com o mundo trazem autonomia e auto-estima irreversíveis. A chave gira e nada é como antes.

O feminismo também é assim, parece uma ficha que cai, um portal mágico que se abre, uma cirurgia de catarata bem sucedida. A avassaladora transformação que ele efetiva, no entanto, é gradual e anti-horária. Sempre contra o curso do rio. É um desconstruir de referências, uma revisão de conceitos num processo tão dolorido e particular (antes de se perceber também coletivo) que beira a desalfabetização para uma outra alfabetização do mundo – que não é novo, mas que pela nova e lenta tomada de consciência, se descortina. E aparece como realmente é – masculinizado, opressor, desigual e extremamente violento com as mulheres e com os grupos igualmente desrespeitados e anulados por sua condição de raça, classe, sexualidade, idade.

A bolha estoura e o choque de realidade escancara o histórico e continuado processo de desqualificação e desfiguração da persona da mulher e de sua presença na sociedade, uma presença ora útil – quando mantida na caixa pré-formatada que lhe foi determinada, ora perigosa e incômoda, ao primeiro sinal de ‘subversão’. A explosão da bolha, tal qual a consciência da leitura, novamente é irreversível. Não há caminho de volta.

O feminismo é quase como a troca de pele da cobra, se ela não fosse involuntária. Perceber o ‘novo’ mundo dentro do mesmo mundo demanda maturidade, esforço e coragem para assistir um filme de terror retratando a própria realidade. Ter a consciência dói e exige atitudes. Sair do lugar e buscar incessantemente a transformação do modelo de tudo o que é modelo. Lutar todos os dias, em cada momento individual e coletivo por uma democracia feminista, que se propõe a quebrar o paradigma da dominação masculina e seu apetite insaciável pelo poder, para incluir, dialogar e construir coletivamente (construir com) uma estrutura social mais justa, democrática e constitucional. Sim, está tudo lá, nossa Constituição é linda. Mas a consciência nos exige mais do que a ação. Ela demanda perdão ao nosso próprio retrovisor e sororidade efetiva a cada mulher – cada pessoa – em seu estágio de desalfabetização. É preciso estar perto para contribuir com o processo, abrir diálogo, sempre com respeito ao tamanho de cada perna e de cada passo.

O que resta da nossa paciência histórica deve ser direcionado a esta solidariedade, empoderamento mútuo e valorização da pessoa, criando as condições para a individual e intransferível busca pelo conhecimento – inicialmente de dentro para fora e depois em ambos os fluxos. E a cada descoberta cresce a luta pelos direitos sociais negados, inexistentes ou corrompidos. O feminismo torna-se uma necessidade – e todas as mulheres serão feministas, é apenas uma questão de tempo.

Algumas entenderam ainda crianças – quanto mais dura a vida, mais cedo a tapa na cara abre os olhos. Outras estão juntando as letras, ou já lêem com fluência, cada uma a seu tempo. E, como processo, o feminismo não se encerra no letramento, ele se amplia, se discute, se fortalece. Não existe mais/menos feminista, nem há exatamente uma ‘linha de chegada’, muito menos um caminho único na estrada. Há um borbulhar de forças genuínas, e por isso mesmo até difusas, em busca de uma sociedade verdadeiramente democrática. E vamos a ela por mar, por terra, e pelo ar. O feminismo é a revolução.

Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista de educação Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.

Arte: Gaby D’Alessandro.

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O Dia do Índio, que acontece todos os anos em 19 de abril, não é uma data comemorativa. Assim como o Dia da Mulher, é um símbolo de luta por mudanças, melhorias e pela manutenção de direitos conquistados. As mulheres indígenas tendem a ser as maiores prejudicadas nas questões de defasagem de ensino, preconceito e assédio. É extremamente importante que essas pautas se tornem de interesse público e potencializem as vozes indígenas, reconhecendo sua presença no tempo atual.

Para encorajar o debate com recorte de gênero, conversamos com Braulina Aurora Baniwa, estudante de Ciências Sociais na UnB e membro da Diretoria do Coletivo de Estudantes Indígenas – AAIUnB, sobre as pautas das mulheres indígenas, a importância do território e como alertar a sociedade sobre as necessidades modernas das tribos:

Quais os maiores desafios de ser mulher indígena?

Primeiramente, os desafios são inúmeros e podem depender da diversidade de povos, culturas e realidades em que cada mulher indígena vive. Mas vou destacar minha percepção como mulher indígena do povo Baniwa, que vive em dois mundos: a sociedade que não me enxerga como sou, como uma indígena capaz, que tem potencial além do tema “povos indígenas”. No âmbito tradicional, é de ter espaço reconhecido nos debates políticos, como colaboradora nas discussões.

Qual é a pauta mais importante para as mulheres indígenas hoje? Quais são as principais lutas de vocês?

No cenário nacional para povos indígenas, lutamos pela garantia de direitos conquistados, evitando os retrocessos. Uma das principais reivindicações de mulheres indígenas é o território, pois é a partir dele que discutimos ou reivindicamos as políticas públicas para nós. Como estudantes indígenas, também temos lutado pela garantia de uma educação de qualidade e pelo enfrentamento da violência nas universidades, onde observamos que há necessidade de políticas especificas para mulheres e estudantes em geral, pois não há uma política no sistema das universidades que atendam nossas especificidades.

 

A sociedade pode ajudar nessa luta? Quais são os mecanismos que podemos usar para vencer o preconceito?

Por meio de uma educação sem discriminação e racismos em todos níveis de formação. Destacaria a formação no ensino superior, onde se formam profissionais que vão lidar com a diversidade que existe no nosso pais. Que leis vigentes no país seja de fato efetivas, como da lei 11.645 LBD, que está ligada diretamente no processo educacional; estatuto da igualdade racial (que abrange os povos indígenas) e campanhas informativas para conscientização.

E como a educação pode ser mais inclusiva em relação às tradições indígenas?

Demonstrando nós, indígenas, como somos na contemporaneidade, e não na visão de 1500 na invasão do Brasil. A educação deve ser uma educação de reconhecimento, e não de discriminação, “do achismo” ou do passado “os índios faziam, os índios caçavam”. E apontar a diversidade de povos e culturas que temos! Isso é uma das riquezas do país, as mais de 270 línguas indígenas, os mais de 300 povos indígenas (isso sem contar os povos isolados, que ainda não se sabe tronco linguistico e fatores culturais). Fortalecer essa diversidade é contribuir com o Brasil mais indígena e mais humano, reconhecendo os povos originários.

Arte: Anita Ekman para a coleção Mundo Indígena, da Editora Hedra
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É de se esperar que, em um reality show como o Big Brother, um caso de violência de gênero em relacionamento abusivo não passe despercebido. E na edição 2017, não passou. A audiência percebeu muitas agressões sofridas pela participante Emilly Araújo por parte de Marcos Harter, e fez pressão para que a Rede Globo acionasse a Delegacia da Mulher. Depois de apurar as imagens das câmeras, a polícia decidiu por expulsar Marcos da competição para continuar a investigação.

Mas, embora tidas as intimidações, os gritos, as marcas roxas pelo corpo e tudo mais que ela sofreu possam claramente categorizar violência para muitos, o problema não ficou tão claro para Emilly, ativando mais uma violência sofrida: a culpabilização da vítima.

Este infográfico, que traduzimos da Amnistia Internacional Madrid, demonstra que muitas agressões são invisíveis para a vítima – e até mesmo para pessoas que acompanham o relacionamento de fora. Caso contrário, não haveria uma parcela de telespectadores se pronunciando contra a expulsão de Marcos, argumentando que não houve crime, que as intimidações eram “normais” ou “parte do romance”.  

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Sendo o #BBB17 um programa que torna, de repente, pessoas anônimas em populares no horário nobre da maior emissora do país, Marcos poderia se encaixar facilmente no perfil de um homem inconformado com o fim de um relacionamento e que usa seu status e influência adquiridos com a fama para sair impune das acusações.  

Mas a máxima #MexeuComUmaMexeuComTodas faz a diferença quando se observa a pressão exercida no reality. Afinal, se a percepção do problema é difícil até para a vítima, a luta por justiça é ainda mais nebulosa. O caso de Emilly foi discutido abertamente por ter sido televisionado – quantos são os casos de violência que passam invisíveis e silenciosos por mulheres em todo o Brasil? Quantos deles saem impunes?

Da suspeita de estupro na edição de 2012, que resultou na expulsão do ex-participante Daniel (https://glo.bo/2o6hmfx), para a expulsão de Marcos na edição que está no ar atualmente, a discussão avançou. Dessa vez o programa teve com Emilly uma atitude que não teve com Monique no passado, tornando pública a visita da Delegacia da Mulher aos estúdios para interrogação e fazendo um pronunciamento oficial. Porém, ainda considera “supostas” as agressões que foram registradas por câmeras e, aparentemente, não pensa em medidas mais rigorosas para proteger mulheres na casa em outras edições que possam acontecer.     

Por isso é tão importante que Emilly tenha podido contar com um público que meteu a colher no que poderia passar como “brigas de casal”, impedindo que os abusos chegassem à ponta do iceberg. Contou também com o apoio da participante Vivian Amorim, que de forma madura e sensata, está ajudando Emilly a visualizar os abusos que ficavam escondidos debaixo d’água. “Não precisa ter intenção de machucar, agressão é agressão”, explicou ela no programa.  

E, quando sair do confinamento, poderá ver os tantos relatos nas hashtags #EuViviUmRelacionamentoAbusivo e #MasEleNuncaMeBateu, levantadas em apoio a ela e justamente para mostrar para quem ainda tem dúvida que também existe violência psicológica, e que, em outras casas, bem menos vigiadas, outras mulheres também podem estar precisando de ajuda.

Não somos desesperançosas quanto à punição para agressores. Já até apontamos alguns momentos importantes e simbólicos para estas mudanças. Contudo, a necessidade de insistência e de combater a relativização das violências não nos deixa iludir ou simplesmente esperar por mudanças. Cobraremos atitudes de instituições e da justiça até que não seja necessário cobrar. Até que não seja necessário que uma mulher sofra publicamente em nome da conscientização coletiva.

Arte: Xuan Loc Xuan.

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Quando recebi o convite para escrever um texto apresentando o livro Mulher, raça e classe da professora, pesquisadora e militante Angela Davis, senti um frio na barriga.

Esse livro é uma das principais referências para pesquisadoras e ativistas do feminismo negro no mundo inteiro. O que dizer sobre uma obra com essa importância histórica para tantas mulheres?

Acho que eu gostaria, então, de usar esse espaço para trazer algumas questões importantes para pensarmos juntas.

Primeira delas: feminismo não é espaço de disputa de saberes ou etnias. Feminismo é espaço de análise, reflexão e enfrentamento à opressão. E sim, é preciso racializar a discussão nesse campo, porque realidades diferentes exigem enfrentamentos diferentes.

Sabe qual é o ponto de partida para pensar essa realidade? A escravidão no Brasil. Sim, a escravidão moldou efetivamente a forma como indivíduos brancos e negros se percebem na sociedade brasileira. Mesmo que o mito da democracia racial diga que não, vivemos permanentemente uma tensão racial que se expressa em índices horríveis sobre a população negra, onde o pior dos piores índices retrata o cotidiano das mulheres negras.

O processo de luta para enfrentamento da opressão está ligado a dois fatores: 1. Empatia com a causa a partir de demandas reais e subjetivas, e 2. Compreensão que é preciso mudar essa realidade.

Nesse sentido, Mulher, raça e classe é um livro que parte das questões que Davis também vivencia, por ser uma mulher negra, ao mesmo tempo que ela potencializa essa experiência num método de análise da realidade da mulher negra, latina e indígena norte-americana.

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Esse é um livro obrigatório para qualquer mulher que se acredite feminista. Seja porque ele é rico em elementos para compreendermos a dimensão de raça e classe no debate feminista, seja porque ele foi escrito por uma das maiores intelectuais negras (senão a única) da filosofia política na modernidade, e que está viva e atuando nas trincheiras do feminismo e dos direitos humanos.

Se você é uma mulher negra, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente, faça rodas de debate e discussão. Para nós, mulheres negras, compartilhar conhecimento entre nós é um gesto de amor.

Se você é uma mulher branca, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente para outras mulheres brancas, faça rodas de conversa sobre os livros, procure compreender, por meio da genialidade de Davis, porque em alguns momentos gênero nos une e raça nos divide.

Sabe, a Angela Davis sempre diz que nossa missão revolucionária e feminista é romper com toda e qualquer forma de cisão, seja de gênero, de raça ou de classe. Na minha opinião, sabe como vamos fazer isso? Quando entendermos que a história tem dois lados e a realidade é um mosaico.

Que nada nos defina, a não ser a liberdade.

Awetu!

Jaqueline Conceição foi indicada em 2016 na lista de Mulheres Inspiradoras da ONG Think Olga, é graduada em Pedagogia (2009) pelo Centro Universitário São Camilo e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (2014) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Articuladora do Coletivo Di Jejê, pesquisa à luz da Teoria Crítica da Sociedade, especialmente as contribuições de Herbert Marcuse, Theodor W. Adorno e Angela Y. Davis. Possui publicações sobre gênero, funk, juventude, racismo, sistema prisional e políticas sociais (artigos autorais e traduções) em revistas científicas e revistas de circulação não acadêmica.

Para saber mais:

Leia: Mulher, raça e classe. Angela Davis. 1ª edição brasileira. São Paulo: Boitempo: 2016.Curso On Line O pensamento de Clique aqui para mais informações sobre o curso “Pensamento de Angela Davis”, do Coletivo Di Jejê

Arte: Dicionário Aurélia.

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Poucos momentos em minha vida gritaram tanto a minha identidade de mulher negra quanto o meu “primeiro assédio racista”. Eu já havia passado muitos constrangimentos na rua como uma adolescente, mas, se for possível classificar os piores tipos de “cantadas” que ouvimos na rua, eu diria que nenhuma se compara a ser chamada de macaca depois de ignorar um convite para o samba. Eu tinha 15 anos.  

Eu não me lembro do rosto do indivíduo, minha cabeça já estava baixa na primeira vez que ele se referiu a mim, me chamando de “mulatinha”, percebendo minha pouca idade. Nesse momento, eu já havia estava me punindo mentalmente por ter passado por ali no meu caminho para o curso de inglês, mesmo sabendo do bar que ficava aberto durante a tarde nos fins de semana para receber os turistas que iam a praia.

Eu apertei o passo, ainda olhando para o chão, pois queria sair dali o mais rápido possível. Mas logo em seguida, vi os passos do meu agressor ao lado dos meus e me arrepiei de medo. Ele havia deixado sua cadeira na porta do bar e corrido para me alcançar só para deixar claro seu descontentamento com o fato de que o ignorei. “Não sei da onde você tira tanto orgulho, sua macaca”, disse e se retirou.

Até para mim, que cresci, assim como minha família negra, negando minha identidade, aquilo foi um aviso do que estaria por vir com meu amadurecimento.  Os homens agora me veriam de um modo diferente que viam minhas amigas brancas.

Isso faz parte da experiência de crescer negra, ainda que sem consciência disso: depois do preterimento na infância, falta de amor e atenção de colegas, professores e até alguns familiares, um súbito interesse com a chegada da puberdade e da vida adulta, mas sem deixar de ser preterida, pois este interesse não costuma passar do convite para o sexo.

E esta visão, tão frequentemente reforçada pela mídia, nos coloca como objetos exóticos, como justificativa para o tipo de assédio ainda mais agressivo que sofremos. “Há sempre uma jogada, uma pergunta, uma imagem construída para remeter à sensualidade exacerbada. Mulheres negras representam perigo, ou são sedutoras ou os dois, são perigosas porque são sedutoras”, argumenta a jornalista negra Aline Ramos, na terceira parte do Minimanual de Jornalismo Humanizado da Think Olga, sobre racismo.

Assim é a vivência de uma mulher que tem que lidar também com o racismo, além do machismo. A “chegada da mulata” é o tema da palestra da youtuber e estudante de ciências sociais Nátaly Neri no TEDx, onde ela muito pontualmente coloca: “Quando a mulata chega, é insuportável, porque elas não conseguem andar na rua, elas não conseguem conversar com pessoas sem sentir o desconforto dos olhares e piadas direcionado ao seus corpos”.

Hoje, consciente da minha raça e cercada de mulheres que lutam para combater a cultura do assédio e do estupro a qual estamos inseridas socialmente, me sinto mais forte para falar sobre as camadas do problema como uma mulher negra. Não é à toa que conto este relato aqui, publicamente, pela primeira vez.

Isso não significa que posso deixar meus medos de lado. Medo de ser agredida caso reagir a um grito racista na rua. Medo de ser julgada e desacreditada por conta da minha cor ao enfrentar ou denunciar uma agressão, como aconteceu com Renata Hill e Patreese Johnson, mulheres negras e lésbicas americanas, que foram presas por se proteger de um assédio sexual nas ruas de Nova York (a história do ponto de vista das duas foi contada no documentário Out In The Night).  

Ao mesmo tempo, também temo não conseguir demonstrar completamente a minha aversão ao assédio, pois, para o assediador, a cor da minha pele, o meu cabelo ou o tamanho dos meus lábios lhe dizem que estou sempre disponível e, muitas vezes, sinto a necessidade de deixar claro que não.

Mas a coragem de falar isso parte de uma necessidade que é maior do que os meus medos: o fato de que estes também são os medos de outras mulheres negras. Vem também da inspiração de ver Djamila Ribeiro, no trailer do documentário Chega de Fiu Fiu – O Filme, expondo a questão como o problema cultural que é.

A necessidade de trazer este recorte para o debate sobre assédio sexual é urgente no Brasil, onde, segundo a ONU, houve um crescimento de 54% na mortalidade da mulher negra entre 2003 e 2013, enquanto as mortes de mulheres brancas caíram 10%. Onde a mobilidade urbana (e os assédios encontrados nos caminhos) da mulher negra também é mais difícil, pois a maioria mora em periferias. Onde, quando acendemos socialmente, somos facilmente vistas como atrações para homens brancos e ricos, muitas vezes estrangeiros.    

“Da cor do pecado”, “mulata”, “neguinha”. Nenhum desses termos me definem. Sou uma mulher, sou negra, jornalista, esposa, filha de outra mulher negra e mereço respeito. Mas porque ainda preciso abaixar a cabeça quando ouço estas palavras na rua?  

Karoline Gomes é produtora de conteúdo e assistente de comunidades da ONG Think Olga.

Arte: Dika Ribeiro.

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Pare um instante o que você estiver fazendo e me ajude a listar 15 escritoras mulheres que você conhece: J.K. Rowling… Clarice Lispector… Ruth Rocha… Chimamanda Ngozi… Nora Roberts… Agatha Christie… Martha Medeiros… Ih, acabou! Acho que temos um problema.

E é dos grandes. Isso porque, em um estudo recente feito na Universidade de Brasília, pela pesquisadora Regina Dalcastagnè, apenas 27,3% dos escritores são mulheres (foram lidos 258 livros, publicados entre 1990 e 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco). Tá bom pra você?

Aqui no Brasil, os primeiros grandes nomes femininos da literatura (digo, os primeiros a realmente entrarem nas casas brasileiras pelo tão sonhado “boca a boca”) só surgiram na década de 30, com escritoras como Zélia Gathai, Cecília Meireles e a já mencionada Clarice Lispector. Tudo isso praticamente na semana passada…

Em plena Belle Époque (1890-1920), nas terras brasileiras, de 15 mil mulheres pesquisadas pelo antigo IBGE, menos de 20% sabia ler e escrever. Daí a gente pensa: “Poxa, são mais de 100 anos, tá tudo mudado, agora é só reclamação à toa”. Hoje, se pegarmos o número geral, segundo relatório da Unesco de 2014, há 774 milhões analfabetos no mundo. Deste número exorbitante, 64% são mulheres.

Isso dá mais do que 495 milhões de pessoas, do gênero feminino, que não sabem ler ou escrever. Isso sem contar que, as poucas que sabem ler e se destinam à escrita, são instantaneamente condenadas ao termo “literatura de mulherzinha”, uma vez que antigamente o foco principal da mulher era destinar-se aos atributos domésticos: ser esposa, mãe e dona de seu próprio lar. Por conta disso, os poucos livros destinados às mulheres tinham o papel de ratificar seus bons costumes em casa, passando sempre pelo aval dos familiares da moça de família. Logo, os temas não podiam contemplar coisas que fugissem do universo doméstico, da moda e da educação. O que fez a gente trazer consigo até hoje a questão de “literatura feminina”, mesmo nunca tendo existido uma “literatura masculina” propriamente dita.

 

Não precisamos ir muito longe, o primeiro livro de ficção científica da história, “Frankenstein” foi publicado de maneira anônima, para que ninguém soubesse que por trás do monstro que ia mudar a história da literatura estava a escritora Mary Shelley (mesmo a autora pertencendo a um grupo de grandes nomes da literatura, como Lord Byron e seu marido Percy Shelley). J.K. Rowling, outro exemplo, a aclamada escritora de Harry Potter e outros livros incríveis, foi aconselhada a colocar abreviações no lugar de seu nome completo, assim seria mais difícil dizer que um livro sobre um bruxinho (sem tantos romances e floreios) tinha sido escrito por alguém que usava saias. Pra finalizar a lista, o prêmio Nobel de Literatura, que existe desde 1901, só foi destinado a 12 mulheres ao longo de sua história; em terras nacionais, a Academia Brasileira de Letras tem 40 membros, destes só 5 são mulheres.

 


Pensar na falta de acesso (ou nas dificuldades em seguir) do mundo dos livros por questões de gênero, pode parecer tópico antigo, mas infelizmente ainda está muito presente nos dias de hoje. Cabe a nós, portanto, incentivar a produção e a leitura feita por mulheres neste mundo afora. Eu tenho certeza que será uma experiência inenarrável, sendo nós mulheres ou não.

Tatiany Leite é jornalista e apaixonada por internet e literatura. Já tendo apresentado colunas em diversos projetos (Cabine Literária; Torrada Torrada; Saraiva Conteúdo e ReVisão), hoje faz parte dos canais Vá Ler um Livro (que está com conteúdo exclusivo sobre mulheres na literatura para o mês de março) e Blablálogia. Além disso, já teve seus textos publicados na Revista TPM, Trip, Revista Capricho, Revista da Cultura e muitos outros veículos.

Arte: Jen Keenan

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