Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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Após o baixo desempenho durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, esperava-se do próximo técnico da Seleção Brasileira de Futebol feminino o resgate da energia do time, além de renovações para seguir crescendo em campo contra outras grandes seleções. Esta foi a missão de Emily Lima nos 10 meses de comando do time, com resultados interessantes: em 13 jogos, ela somou sete vitórias, um empate e cinco derrotas e inovou, por exemplo, ao apostar em jogadoras novatas ao lado das experientes Marta e Cristiane. Emily só estava começando a mostrar seu trabalho quando foi demitida pela CBF. “Disseram que estavam buscando resultados e que ela não os apresentou. Mas ela não poderia apresentar sem ter participado de jogos oficiais, só amistosos. Ao contrário do Vadão (antecessor de Emily), que não teve resultados e agora está sendo trazido de volta para a Seleção”, explica a jornalista esportiva Luciane Castro, colunista do Portal Vermelho.

Quando se é uma mulher em um alto posto de comando, as expectativas vão além dos resultados. Inicialmente, a contratação de Emily para uma função tão importante em um ambiente sempre dominado por homens pode ter simbolizado um avanço. Mas, olhando com profundidade, o caminho percorrido por Emily e muitas outras mulheres que chegam a cargos altos em suas profissões é frágil. Além do teto de vidro – que somente dá a impressão que o céu é o limite, quando na verdade ainda existem barreiras mantidas pelo machismo institucional – há também uma fundação muito frágil para aquelas que conseguem chegar ao topo apesar das adversidades. Há um chão de vidro.

Uma pesquisa de 2005, feita pelos professores Michelle Ryan e Alexander Haslam, da Universidade Exeter, na Inglaterra aponta que, normalmente, as mulheres são chamadas para cargos de lideranças em momentos de crise nas empresas, como, no caso da CBF, por causa das críticas à valorização do esporte masculino em detrimento ao esporte feminino. A presença de Emily ajudou a CBF a mascarar problemas internos, como o abismo salarial entre homens e mulheres que trabalham para a CBF, usando a imagem da técnica para “vender” um progresso por parte da administração.

Os pesquisadores explicam que o chão de vidro existe porque as mulheres recebem cobranças diferentes que os homens. As missões dadas a elas, normalmente são hercúleas ou condenadas ao fracasso aos olhos dos administradores. Como uma armadilha preparada para tirá-la do comando. Para Lu Castro, a contratação de Emily não só tinha a intenção de sabotá-la, como também servir de justificativa para se trazer um homem para o comando do time novamente.

Não é impossível caminhar sobre esse chão de vidro e resistir à queda. Mas são condições desiguais e injustas, que nem deveriam existir. Como paralelo, esta matéria da BBC News identifica o problema como “escada quebrada”, que só dá a impressão de subida. Uma situação que acontece nas altas esferas de poder e em praticamente todas áreas.

Este é o caso da executiva Marissa Mayer. Hoje é difícil imaginar que sua passagem como CEO do Yahoo seria tão turbulenta. A principal missão dada em sua chegada, em 2012, era de recuperar o posto da marca como pioneira da internet e superar o Google. Ao longo de sua gestão, Mayer recebeu críticas profissionais, por ter um estilo diferente de gerenciamento, mas o julgamento não se restringiu a isso. Ela foi criticada pela maternidade de gêmeos ao longo do processo, algo impensável em uma cultura como a norte-americana, sobretudo no ambiente machista do Vale do Silício. Cinco anos depois, o baixo crescimento foi argumento para a venda da empresa para a gigante Verizon. Inicialmente, Mayer não pretendia pedir demissão, mas com tamanha culpabilização e excessiva cobrança a fez desistir do cargo. Para o The Wall Street Journal, em uma reportagem especial sobre o conceito do chão de vidro, a administradora não teria caído tão facilmente se fosse um homem. Na verdade, teria tido uma chance no novo modelo da empresa.

O mesmo poderia ser aplicado então para Ellen Pao, durante sua gestão do site Reddit. Para uma mulher, estar neste ambiente pode ser um chão de vidro com um profundo penhasco logo abaixo, pois a empresa é composta por uma maioria masculina (74% dos funcionários são homens) e isso se reflete em seus usuários, que fazem dos fóruns do site espaços para demonstrações de misoginia, racismo, LGBTfobia e outros discursos de ódio, sem a menor restrição por parte do site.

Especialistas questionam o trabalho de Pao, o que justificaria sua demissão, não fossem todas questões de gênero envolvidas. As ofensas machistas internas e do público chegaram a gerar petições online, assinadas por homens, para a remoção da empresária, como lembra o The Daily Dot. Mas este não foi um problema recente. Seu cargo foi diminuído desde a sua chegada, sendo colocada como a única “CEO interina” da empresa. Por que não apenas CEO?

O The Daily Dot também destacou que a crise no Reddit durante a administração de Pao foi propositalmente levada a público de uma maneira que nunca aconteceu com homens CEOs, como se, sabendo da tendência violenta do público, a empresa quisesse usar a pressão para dispensa-la.

Se ter mulheres em altos cargos de liderança é um passo importante para levar mais outras mulheres a crescer no mercado de trabalho, principalmente em espaços dominados por homens, o chão de vidro é preocupante por representar mais um obstáculo que enfrentamos na jornada um retrocesso nesta luta.

Perder mulheres CEO nesta armadilha é perder espaços de poder. É desestimular as mulheres que as seguem. Para os homens líderes, a estratégia do chão de vidro é mais uma maneira de justificar seu domínio. Por isso, é preciso identificar essa armadilha antes de cair nela e assim não ceder a um mundo corporativo e masculino, que insiste em tirar as mulheres do jogo.

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Três anos de prisão: esta é a pena que uma mulher que tenha feito aborto pode ser condenada a cumprir. Quem a ajudou pode pegar quatro anos na cadeia. Com exceção de casos em que o aborto é legalizado (gravidez em decorrência de estupro; único meio de salvar a vida da mãe; ou feto anencéfalo), o aborto é considerado crime no nosso país.  Ainda assim, ele é praticado clandestinamente por milhares de mulheres anualmente, por um simples fato: é uma questão de saúde e da vida das brasileiras. A estimativa da Anis – Instituto de Bioética, é de que uma em cada cinco mulheres terá abortado até os 40 anos. Isso quer dizer que pessoas muito próximas de você, ou você mesma, já abortaram.

Com o objetivo de descriminalizar uma prática tão recorrente na vida das brasileiras, quatro advogadas protocolaram uma ação no Supremo Tribunal Federal aproveitando o último 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A relatora designada, ou seja, a pessoa responsável pelo andamento da ação, é a ministra Rosa Weber.

O primeiro passo da relatora foi pedir informações a órgãos e autoridades responsáveis pela lei, como Câmara dos Deputados e Senado Federal, e também à Advocacia-Geral da União e a Procuradoria-Geral da República. Esse é o andamento do pedido de medida liminar, o que significa um pedido de urgência, identificando o risco da saúde pública e das mulheres, para que se impeça qualquer prisão em flagrante, ou o andamento de processos em curso. “A urgência se justifica pelo fato de mulheres se submeterem a abortos todos os dias”, explica Gabriela Rondon, da Anis – Instituto de Bioética, uma das advogadas responsáveis pela ação. Em regra, a ministra aguarda receber as informações solicitadas para poder decidir sobre a urgência e colocar o processo em pauta.

Por enquanto, não é possível prever quanto tempo vai levar até uma resolução nem qual se ela será positiva, mas não há dúvidas quanto a necessidade de descriminalização imediata. “O que mais mata não é o fato das mulheres fazerem o aborto, em sua maioria por medicamento, mas as complicações posteriores, quando a precariedade dos serviços age”, explica Maria das Dores Nunes, médica ginecologista, obstetra e pesquisadora. De acordo com seus estudos com famílias de adolescentes que morreram após um aborto, o que matou essas meninas foi a recepção preconceituosa ou desqualificada que levou a diagnósticos errados. Este atendimento também é muitas vezes  tardio, pois as mulheres têm medo de procurar o serviço médico e contar que cometeram algo que ainda é um crime.

Conversamos com três militantes envolvidas nesta luta – Debora Diniz, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética; Luciana Boiteux, PSOL, uma das advogadas responsáveis pela ação e Maria das Dores Nunes, médica ginecologista e obstetra e pesquisadora – para entender o que a descriminalização do aborto pode fazer por mim, por você e por todas as mulheres – e como podemos participar desta importante mudança.

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O que a descriminalização vai mudar na vida e na saúde das brasileiras?

  • Debora Diniz, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética.

Um ponto inicial é entender o que significa descriminalizar. O aborto é um crime no Brasil, pelo qual uma mulher pode ir presa. Então, descriminalizar não é tornar obrigatório, não é banalizar o aborto – as mulheres que um dia precisam fazê-lo estão conscientes da seriedade desta decisão. Descriminalizar significa não levar essa mulher à cadeia, não prendê-la. Mas não é transformá-lo em método de planejamento familiar como tantos outros que possam estar acessíveis. É assumir que, pelas mais variadas razões, em algum momento da vida uma mulher possa ter que enfrentar essa decisão, tomar essa decisão, sem ter medo de ir pra cadeia por isso, nem recorrer a práticas clandestinas, que põem sua vida em risco. É preciso deixar claro que é uma necessidade de saúde, que está inscrita num tabu, mas que não é vista assim em determinados países nem por quem precisa recorrer a ela em algum momento da vida. Descriminalizar é devolver o aborto como uma necessidade de saúde e um cuidado de saúde para as mulheres.

  • Luciana Boiteux, PSOL, uma das advogadas responsáveis pela ação

A criminalização não impede que mulheres abortem: quem tem melhores condições paga por um aborto seguro, enquanto as que não podem pagar morrem em clínicas clandestinas ou por tentativas solitárias. Descriminalizar quer dizer retirar o crime do código penal, que é o que o Supremo pode decidir e essa é a primeira luta. Mas depois vem a legalização, o que quer dizer tornar o serviço legal e oferecido, implementado como política pública de garantia de acesso. Isso é o que queremos no fim.

Não sendo mais crime, esperamos que essas mulheres possam se sentir acolhidas, respeitadas, respaldadas pelo poder público. Esperamos que isso possa reduzir o número de mortes maternas, considerando inclusive que muitas mulheres que morrem por complicações decorrentes de um aborto são chefes de família.

  • Maria das Dores Nunes, médica ginecologista e obstetra e pesquisadora

Sei que há um comportamento discriminatório, inclusive no grupo de profissionais médicos, que leva a um atendimento com descaso às mulheres que chegam no serviço de saúde com complicações após abortos. Deixar de ser crime leva a um tratamento com mais dignidade, mais respeito à autonomia e diminuição da discriminação das mulheres – principalmente pobres, negras, adolescentes. Pensar nessa possibilidade é pensar que muitas mulheres possam deixar de morrer.

O que vai mudar nas redes de apoio de mulheres?

DD – Elas vão poder sair da clandestinidade, vão poder existir de fato. O que há hoje é uma rede clandestina de mulheres que se cuidam, se apoiam, mas no medo, no segredo, procurando serviços de saúde muitas vezes de maneira tardia. Isso vai permitir que, ao chegarem a um serviço de saúde, o atendimento seja adequado e elas possam saber o que fazer para não passar novamente por essa experiência, por exemplo. Porque hoje as mulheres escondem quando fazem e os profissionais de saúde perdem uma oportunidade de orientá-las, o que inclusive pode reduzir a taxa de aborto no Brasil.

LB –  Ser uma atividade ilegal dificulta o apoio, porque qualquer pessoa está sujeita à lei penal se ajuda uma mulher. Assim, outras mulheres são colocadas sob risco de incriminação e toda essa relação se torna uma conduta ilícita. Ao descriminalizar, esta solidariedade se torna menos difícil.

MDN – Vai acontecer uma mudança no serviços ao direito das mulheres – e a rede de apoio ajudará na vigilância disso. Se elas desejam interromper a gestação e é um direito garantido por lei, caberá exigir qualidade desses serviços, que passarão a ser olhados de maneira mais humanizada. Facilitará para que pais e familiares entendam que têm que cuidar e possam retirar o peso moral e religioso do julgamento sobre o aborto.

Será muito importante a divulgação da descriminalização pelas redes de apoio para que chegue a mais gente, para que as mulheres nos interiores do país tenham acesso à informação.

O que podemos fazer, enquanto cidadãs, para ajudar a pressionar por uma resolução?

DD – A primeira coisa é começar a falar mais sobre o aborto para tirá-lo desse lugar como se fosse algo estranho na vida das mulheres, porque não é. Ele é comum.

Então precisamos começar a contar as histórias de aborto (com mais de 8 anos, pois não estão mais sujeitos a crime) de uma maneira diferente: as mulheres fazem aborto, sobrevivem, têm filhos, não entram em sofrimento eterno sobre isso. Não é, por isso, uma experiência feliz, mas não precisa ser algo que envolva medo da prisão e medo de morrer.

O aborto está no Supremo e nunca tivemos um momento assim no país. É nosso momento de mudar a lei a favor da autonomia das mulheres. Precisamos nos mobilizar quando esse tema entrar em pauta.

LB – Teremos uma data para promover um grande debate: 28 de setembro, Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina. É essencial que muitas mulheres tragam a conversa para as redes, postem e divulguem a descriminalização como algo a favor da vida das mulheres. É preciso haver uma outra forma para lidar com esse debate sem interdição e sem preconceito. A reação das pessoas depende muito da pergunta que se faz: você criminalizaria uma mulher por aborto?

MDN –  É muito importante termos conhecimento da realidade do Brasil. Mulheres abortam, é fato. As pobres padecem. As que ficam com graves sequelas, como perdas de órgãos e infecções graves, são as que têm filhos, pobres, que sustentam a família. Se elas morrem, a família fica desassistida. Precisamos conversar que mesmo descriminalizado, o aborto não é uma situação cômoda, é uma decisão difícil, mas que precisa ser possível.

Nina Neves é jornalista freelancer. Escreve e estuda sobre temas de direitos humanos, gênero, cultura e sexualidade. 

Arte: Kaye Blegvad.

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Em março deste ano, uma menina de 11 anos do Maranhão, vítima de estupro, não foi autorizada a fazer um aborto porque o tempo gestacional ultrapassava o previsto em lei, de 12 semanas. Ela vinha sendo abusada sexualmente pelo padrasto desde os 8 anos. A equipe médica levou a família a crer que um aborto ofereceria riscos à vida da garota e declarou que ia “encorajar” esta criança a cuidar do bebê. Os médicos estavam despreparados para lidar com um tema tabu, um tema que mexe com julgamentos morais e religiosos, um tema que mexe com questões legais.

No mesmo março de 2017, na véspera do Dia Internacional da Mulher, foi protocolada no Supremo Tribunal Federal uma ação que pretende descriminalizar o aborto. A relatora designada, ou seja, a pessoa responsável pelo andamento da ação, é a ministra Rosa Weber. É simbólico – e bom, nesse caso – que seja uma mulher. Foi feito um pedido de medida liminar, o que significa que é uma medida urgente. “Esta urgência se justifica pelo fato de mulheres se submeterem a abortos todos os dias”, explica Gabriela Rondon, da Anis – Instituto de Bioética, uma das advogadas responsáveis pela ação.

As pessoas não deixam de abortar por ser ilegal. Mas a legalidade, por outro lado, é benéfica. Ao legalizar o aborto, profissionais de saúde poderão ser treinados de maneira a dar orientação e atendimento apropriados às mulheres. Aquela menina de 11 anos no Maranhão não vai mais precisar gestar e parir uma criança concebida por um estupro. Muitas adolescentes não morrerão por medo de procurar ajuda caso tenham uma complicação após um aborto. “Deixar de ser crime leva a um tratamento com mais dignidade, mais respeito à autonomia e diminuição da discriminação das mulheres – principalmente pobres, negras, adolescentes”, reforça Maria das Dores Nunes, médica ginecologista e obstetra e pesquisadora.

Há uma estatística muito poderosa para trazer a noção da realidade comum a muitas mulheres: até os 40 anos, uma em cada cinco brasileiras terá feito um aborto. Se você tem um grupo de dez amigas, isso quer dizer que duas delas fizeram ou farão um aborto. Ou você. Porque cometer este crime e estar sujeita a ser condenada a três anos de prisão é muito recorrente.

Em setembro, mais um dia simbólico para esta luta constante: o Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto (28). Para dar força a esta luta, divulgar a ação, informar sobre o tema e criar uma rede de apoio, a Anis – Instituto de Bioética se prepara para lançar a campanha #EuVouContar, que consiste no trabalho árduo da pesquisadora Debora Diniz de ouvir e publicar histórias de abortos ocorridas há mais de oito anos – quando o crime prescreve perante a lei.  

Foi aberto um canal para receber diversas histórias de abortos feitos há mais de oito anos (tempo em que o crime prescreve), que serão divulgadas ao longo de um ano. “Elas sabem que não serão julgadas, só ouvidas. Algumas falam e se vão. Outras falam e esperam que eu diga algo. Pode ser qualquer coisa, em geral, um afago de presença. Eu Vou Contar é uma campanha iniciada pela Anis para ouvir histórias de aborto. Não é um confessionário, pois não há penitência. É só um encontro entre vozes e memórias. São histórias apertadas no peito, para umas; histórias já contadas para umas poucas”, explica Debora Diniz, pesquisadora à frente da campanha.

Começar a retirar o aborto do lugar de tabu é essencial para que as informações circulem, as histórias apareçam, mais pessoas se envolvam e as mulheres, especialmente, percebam que todas  são diretamente afetadas pela descriminalização da prática, que é um tema de saúde da mulher, não uma questão de cadeia.

Acreditando nisso, a Think Olga dá as mãos a Anis na produção de conteúdos que serão publicados ao longo dessa semana, de modo a munir as mulheres nessa batalha por direitos e dignidade. Não vamos permitir que as mulheres corram risco de morte em situações de abortamento clandestino. Não vamos permitir que as mulheres tenham medo de ser presas, que se sintam culpadas e eternamente julgadas por sua moral. Cuidar da saúde, da vida e do bem-estar de outras mulheres como se fossem seus é pedir a descriminalização do aborto.

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Embora verifiquemos alguns avanços em matéria de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, como no julgamento pelo Supremo Tribunal Federal nos autos do Habeas Corpus nº 124.306, em que o Ministro Luís Roberto Barroso, acompanhado dos Ministros Rosa Weber e Edson Fachin, teceu inúmeras considerações a respeito da descriminalização do aborto no caso analisado, referida decisão, moderna e atual do Judiciário brasileiro veio acompanhada de um movimento e de crescente retrocesso por parte do Legislativo. Este anacronismo encontra-se materializado pela PEC 181/2011.

A PEC 181/2011 que inicialmente dizia respeito à ampliação de direitos trabalhistas, com o aumento do tempo da licença-maternidade para mulheres cujos filhos nasceram prematuros, por exemplo, e que aparentava ser um benefício para as mulheres, logo se transformou num pesadelo. Lamentavelmente, o Legislativo modificou o texto original em dezembro, o que levou a instalação de uma Comissão Especial para discutir o aborto.

Nesta Comissão passou-se a debater, então, formas de restringir ainda mais o acesso aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, proibindo o aborto em todas as circunstâncias até mesmo quando já autorizados pela legislação e jurisprudência brasileira, como no caso de estupro, gravidez de risco para gestante e anencefalia. Isto porque o parecer do Relator da Comissão Especial que discute a PEC, apresentou uma alteração aos artigos 1º e 5º da CF estendendo até o momento da concepção a inviolabilidade à vida, o que significa equiparar o embrião ao recém-nascido.

Como sabemos, além do novo caso julgado pelo Supremo Tribunal Federal, a legislação brasileira vigente permite expressamente o aborto em duas situações específicas: quando a vítima sofreu um estupro ou há risco de morte da mulher[1]. Nestas duas hipóteses, a lei permite a prática do aborto legal, que deve ser prestado pelo sistema público e privado de saúde, de forma segura e integral, a todas as gestantes. A partir do precedente no STF de 2012, por 8 votos a 2, foi permitida a interrupção da gestação nos casos de anencefalia. Neste julgamento, os Ministros decidiram que os médicos que realizam a cirurgia e as gestantes que decidam interromper a gravidez não praticam crime. Assim deliberou o STF:[2]

O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, julgou procedente a ação para declarar a inconstitucionalidade da interpretação segundo a qual a interrupção da gravidez de feto anencéfalo é conduta tipificada nos artigos 124, 126, 128, incisos I e II, todos do Código Penal, contra os votos dos Senhores Ministros Gilmar Mendes e Celso de Mello que, julgando-a procedente, acrescentavam condições de diagnóstico de anencefalia especificadas pelo Ministro Celso de Mello; e contra os votos dos Senhores Ministros Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso (Presidente), que a julgavam improcedente. Ausentes, justificadamente, os Senhores Ministros Joaquim Barbosa e Dias Toffoli. Plenário, 12.04.2012.

O tema do aborto deve ser tratado sob a ótica da moderna jurisprudência pátria, que deve seguir as evidências científicas, a melhor tendência mundial de proteção à saúde, inclusive respeitando-se os tratados internacionais firmados pelo Brasil e a Constituição Federal. A Pesquisa Nacional do Aborto, realizada em 2010, pelo instituto Anis, concluiu que no Brasil pelo menos uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já se submeteu à prática do aborto.[3] Por esta razão, não há como não concluirmos que o aborto é uma questão diretamente relacionada à saúde das mulheres brasileiras.

Ademais, conforme se observa na tendência mundial dos direitos sexuais e reprodutivos, há uma incongruência no argumento de que a criminalização possa diminuir o número de abortos, especialmente porque as pesquisas demonstram que, de um lado, nos países em que o aborto não é criminalizado, como no nosso vizinho Uruguai, por exemplo, caso seja praticado até o primeiro trimestre, houve uma queda expressiva no número de abortos, por outro lado, nos países que continuam proibindo o aborto, as taxas continuam muito elevadas.

Com efeito, desde o início da década de 1990, no âmbito da legislação nacional, foram editados muitos instrumentos legislativos visando garantir o atendimento na rede pública de saúde, aos casos de aborto legal. Isto foi possível em razão da intensa mobilização de diversos grupos de mulheres, em união com a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).[4] Cumpre destacar que o Ministério da Saúde editou duas normas técnicas a respeito deste tema: “Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes” e a norma técnica: “Atenção humanizada ao abortamento”.[5] Estes instrumentos locais estão em consonância com o marco internacional de proteção às mulheres. A Convenção CEDAW em seu artigo 2º dispõe o seguinte: “Os Estados-parte condenam a discriminação contra a mulher em todas as suas formas, concordam em seguir, por todos os meios apropriados e sem dilações, uma política destinada a eliminar a discriminação contra a mulher, e com tal objetivo se comprometem a: f) Adotar todas as medidas adequadas, inclusive de caráter legislativo, para modificar ou derrogar leis, regulamentos, usos e práticas que constituam discriminação contra a mulher, além de g) Derrogar todas as disposições penais nacionais que constituam discriminação contra a mulher.” A legislação que criminaliza a mulher é visivelmente uma legislação discriminatória.

O Comitê CEDAW que monitora o cumprimento das obrigações da Convenção CEDAW (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres) realizou a seguinte recomendação ao Estado Brasileiro:

“Agilizar a revisão da legislação que criminaliza o aborto, a fim de eliminar as disposições punitivas impostas às mulheres, como já recomendado pelo Comitê 9 (CEDAW/C/BRA/CO/6, parágrafo 3.); e colaborar com todos os intervenientes na discussão e análise do impacto do Estatuto do Nascituro, que restringe ainda mais os já estreitos motivos existentes que as mulheres façam abortos legais, antes da aprovação pelo Congresso Nacional do Estatuto do Nascituro”[6]

Portanto, com a referida manobra do Congresso Nacional pátrio, constituído majoritariamente por aqueles que não engravidam, não está observando a obrigação do Estado Brasileiro em cumprir com as disposições da Convenção CEDAW. O compromisso do Estado Brasileiro deve ser com o respeito à vida, a vida de milhares de meninas e mulheres que estão morrendo em razão de falta de acesso à saúde.

Como ocorre com uma grande parte da legislação pátria, o fato de existir uma legislação específica, bem como um tratado internacional ratificado pelo Estado do Brasil e uma decisão do STF, não garante necessariamente que esse direito das gestantes seja efetivado pelas instituições de saúde.

Com efeito, os serviços de aborto legal no Brasil vêm enfrentando obstáculos crescentes, em virtude das pressões exercidas por extratos conservadores da sociedade brasileira e determinados setores religiosos, em que pese à laicidade do Estado brasileiro. Antes existiam aproximadamente 65 serviços[7] que atendiam às gestantes que necessitavam realizar o procedimento de aborto legal, atualmente os números diminuíram sensivelmente para aproximadamente 30 serviços, muito embora não seja possível obter a informação exata acerca do número de serviços, por falta de registros formais.[8] A transparência a respeito do número de serviços, a sua distribuição regional (ou da inexistência destes serviços em determinadas regiões do Brasil) e o número de atendimentos em caso de aborto legal, também não se encontram sistematizados de forma eficiente, técnica e ampla, o que por si só já caracteriza uma omissão estatal no dever de prestar a assistência integral à saúde.

É preciso ter coragem para dar a visibilidade e a dimensão necessárias ao problema. Conforme Pesquisa Nacional sobre o aborto, uma em cada cinco mulheres brasileiras entre 18 e 29 anos já realizou aborto no Brasil.[9] A questão precisa ser tratada sob a ótica do direito à saúde, os avanços existentes não podem ser acompanhados de tantos retrocessos, em especial com violação das obrigações já assumidas pelo Estado Brasileiro, inclusive de diminuição da mortalidade materna, que não ocorrerá se não houver uma atenção à saúde das brasileiras, em especial às gestantes.

[1] Artigo 128, incisos I e II, do Código Penal.
[2] http://s.conjur.com.br/dl/acordao-interrupcao-gravidez-anencefalo.pdf
[3]DINIZ, Debora e MEDEIROS, Marcelo, Aborto no Brasil uma pesquisa domiciliar com técnica de urna, http://www.scielo.br/pdf/csc/v15s1/002.pdf, 2/06/2017.
[4] SANTIN, Myrian, Sexualidade e Reprodução: da natureza aos direitos: a incidência da Igreja Cem viratólica na Tramitação do PL 20/91, aborto legal, e PL 1151/95, união civil de pessoas do mesmo sexo. Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2005.
[5] BRASIL, Ministério da Saúde, Norma Técnica, Brasília 2005.
[6] Observações Finais do Comitê CEDAW,  http://www.spm.gov.br/assuntos/conselho/atas-das-reunioes/recomendacoes-vii-relatorio-cedaw-brasil, em 16/9/2017.
[7] http://oglobo.globo.com/brasil/brasil-tem-apenas-65-servicos-para-aborto-legal-10696828
[8] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/07/1796717-procuradoria-apura-omissao-do-estado-nos-servicos-de-aborto-legal-no-brasil.shtml
[9] DINIZ, Debora, MEDEIROS, Marcelo, Aborto no Brasil: uma Pesquisa Domiciliar com Técnica de Urna, ANIS, Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.

Fabiana Dal’Ma é promotora de Justiça do MP/SP, mestre em Direitos Humanos pela UNSW (Austrália), vice- Presidente da ABMCJ-SP, diretora da APMP e membro do MPD.

Arte: Milagros Vitale

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De acordo com o anúncio do Cartoon Netwoork ao site da revista Entertainment Weekly, o clássico desenho animado Meninas Super Poderosas não será mais sobre um trio. A equipe de super heroínas ganhará uma nova integrante em um episódio especial que vai ao ar no dia 17 de setembro. Esta nova personagem ainda não teve seu nome ou aparência divulgados, mas a audiência tem motivos para crer que será negra –  em função da escolha da cantora Toya Delazy para dar voz à nova heroína e também por conta da imagem abaixo, vazada pela versão russa do canal, com as originais Florzinha, Lindinha e Docinho com uma figura desconhecida. Mesmo antes dessas confirmações, e sem saber se esta seria uma mudança fixa ou uma publicidade momentânea para o canal, as reações dos fãs renderam muitos comentários na internet. O site de cultura nerd Digital Spy elencou reações negativas e positivas à notícia. As positivas, tratavam sobre representatividade, mas as negativas que ganharam destaque no título do artigo. Alguns fóruns de nerdices online chegaram a abrir tópicos onde é “permitido ser racista” para comentar a imagem vazada, pois, como defendem alguns comentários, “as cores não estão certas” e por isso precisam ser criticadas.

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Recentemente, a atriz Anna Diop também foi alvo de comentários racistas por aceitar o papel da heroína Estelar na série live-action de Jovens Titãs, da DC Comics. Estelar é uma alienígena de pele laranja e globos oculares verdes. Ou seja, nenhum traço ou indicação de raça, pelo menos não no mundo dos seres humanos. Mesmo assim, fãs dos quadrinhos e da equipe de heróis, que conta com um personagem originalmente negro, alegam que Anna não seria adequada pois Estelar tem cabelos ruivos.

Estas reações desqualificam uma das características mais fascinantes sobre ficção científica: o uso de mundos imaginários em séries, filmes, quadrinhos, games, animações e livros do gênero e sem limites para demonstrar como combater problemas da sociedade no mundo real. Na verdade, parece que a ficção científica e a cultura nerd, ambientes dominados por homens, são cheios de regras e uma delas é: as mulheres negras não são bem vindas.

Claro que este pode ser um problema unicamente de gênero, como demonstrou a versão feminina do deus/herói Thor para os quadrinhos da Marvel. Pior ainda quando  existe uma personificação dessa mulher que ocupa o lugar considerado masculino, como na escalação de Jodie Whittaker para viver a nova encarnação de Doctor Who na série aclamada de mesmo nome. A BBC britânica demorou mais de 50 anos para selecionar uma mulher para a posição, mas as reações parecem ter vindo do período em que a série estreou. “Ninguém quer uma TARDIS cheia de sutiãs”, “O politicamente correto não deveria existir no espaço” e “Viagem no tempo é para homens, somente homens” foram alguns dos comentários que viralizaram junto com a notícia. O jornal Daily Mail chegou a publicar fotos nuas da atriz em outra obra que protagonizou, chamando-a de “Doctor Nude”. Isso sem listar as montagens colocando a atriz em posições sexualizadas em cenários da série.

Mesmo com essa resistência dos homens, as produtoras, emissoras e autores não querem mais ficar em cima do muro com relação a diversidade de gênero. A deusa dos quadrinhos tomou o lugar de Thor e Jodie ainda vai ser uma Doctor, com estreia prevista para dezembro. Para além das posições masculinas, as mulheres também estão passando a ser donas de suas próprias histórias originais de ficção científica, como em Orphan Black, onde Tatiana Maslany interpreta brilhantemente mais de 10 clones diferentes.

Mas as críticas recebidas por atrizes negras que também estão ocupando espaço nesse mundo ainda são preocupantes, pois demonstram que mulheres, ainda que com muita insistência, podem até ser bem vindas nas narrativas, mas isso é mais fácil quando são brancas. Como no caso da existência de uma Hermione Granger – a melhor amiga do bruxo Harry Potter – de pele negra.

As reações à notícia de que Noma Dumezweni daria vida a personagem na peça de teatro “A Criança Amaldiçoada”, que dá continuidade à saga Harry Potter depois da história contada nos livros e no cinema, não pareceram dignas de um grupo de fãs que, segundo o estudo publicado no Journal of Applied Social Psychology, crescem mais tolerantes e menos preconceituosos por lerem a série. A autora J.K Rowling teve que se pronunciar no Twitter, para lembrar aos fãs que nos livros, Hermione é descrita da seguinte forma: “olhos castanhos, cabelo crespo e muito inteligente” e destacando que a cor da pele nunca fora especificada e sendo assim, tanto Emma Watson, a primeira Hermione, quanto Noma seriam fisicamente qualificadas para o papel e a nova atriz não estragaria a “essência” da personagem, como muitos argumentaram para não soar racistas.

É importante destacar que tal revolta vem de, em sua maioria, homens brancos e isso diz muito sobre o quanto a representatividade importa. Primeiro, pelas mudanças que produtoras e autores têm procurado trazer para suas obras, a fim de agradar todos os consumidores e não só uma parcela deles. Mas também pois importa a ponto de causar revolta quando ela é dada para um grupo minorizado que antes nunca foi protagonista. Importa a ponto de fazer um grupo acreditar em uma vida onde é capaz de tudo e outro, acreditar no contrário.  

Imagens:

A nova Menina Super Poderosa / Cartoon Netwoork
Versão de Estelar no game Injustice / Divulgação
Noma Dumezweni como Hermione Granger para “A Criança Amaldiçoada” / Divulgação

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Neste Dia da Visibilidade Lésbica, mulheres de diferentes vivências respondem à Olga a mesma pergunta: quais as principais pautas do movimento lésbico hoje? A cantora JosyAra demonstrou bem a pluralidade embutida na letra “L” da causa LGBT: “eu, enquanto mulher negra, vinda do sertão da Bahia, acredito na importância do posicionamento crítico acerca do modo que as coisas estão e não posso responder à pergunta de forma individual, universalizando o sentido do ‘ser mulher lésbica'”. Contudo, ainda que cada uma das entrevistadas tenha trazido diferentes pontos de vista, há um um ponto em comum em toda resposta: o sentimento de unidade existe na luta.

# Reconhecer a existência e diferentes demandas das mulheres lésbicas

Josyara

A luta aparece em cada pedido urgente por saúde humanizada e adaptada para as necessidades da mulher lésbica, ou por políticas públicas que provenham segurança e punição em casos de violência. Não é à toa que o dia pede por visibilidade, ou seja, por reconhecimento social, político e cultural de tantas mulheres. Como disse Renata Alves, da Coletiva Luana Barbosa, dedicada ao movimento lésbico: “nossa luta é de nós e por nós. Muitas vezes, não queremos falar com o opressor. Queremos que nossas iguais se vejam em nós e se sintam fortalecidas o suficiente para continuarem resistindo”.

Ao longo deste dia, publicamos em nossas redes sociais, de hora em hora, uma demanda do movimento em relação à data de hoje, trazidas por nossas entrevistadas. Mais do que uma luta por direitos, é um coletivo de vozes diversas – que não irão se calar. Não pretendemos, de forma alguma, encerrar o tema nas demandas publicadas ou elencá-las como mais importantes, e sim jogar luz e estimular a conversa sobre temas tão essenciais. #VisibilidadeLesbica

# Entender a luta das mulheres lésbicas com recorte de raça

joana

A mulher lésbica é ostensivamente objetificada e fetichizada pela indústria cultural, e isso é um enorme obstáculo na luta por direitos e visibilidade do movimento. Uma pesquisa recente do Pornhub, uma das maiores plataformas de conteúdo pornográfico do mundo, apontou que 60% do público masculino do site tem como principal fantasia o relacionamento entre duas mulheres. E as maiores vítimas dessa objetificação são as mulheres negras – que são duplamente oprimidas por uma sociedade que nega sua existência.

Em entrevista para a Think Olga, a cantora JosyAra apontou: “Além de enfrentar a lesbofobia do dia a dia, nós, mulheres negras, temos que lutar contra a objetificação sexual que vem da escravidão, além de outras reverberações do racismo que enfrentamos ainda hoje. E isso vai além das barreiras sociais; atinge desde a mulher da periferia à de classes mais altas”. A redatora Joana Mendes complementa com questão da pressão estética: “existe a padronização da beleza e eu estou fora dos padrões. Isso também se reflete na maneira que muitas mulheres se relacionam”.

A cantora Karla da Silva, também mulher negra e lésbica, concorda, levantando o fator da mulher em situação de vulnerabilidade social. “A maioria das lésbicas negras vivem nas periferias, são marginalizadas perante a sociedade, são escrachadas e oprimidas nos subúrbios e favelas sem acesso ao conhecimento de seus direitos. Quantas já morreram e viraram apenas estatística?”.

Infelizmente, muitas delas sequer são visibilizadas a este ponto: existem poucos dados e estudos focados em violência contra a mulher LBT. Quando há o recorte de raça, há ainda menos fontes sobre o assunto.

Ambas as artistas enxergam a música como um instrumento de resistência e força e criar laços. “A cena da música – assim como toda profissão – é um espaço ainda majoritariamente masculino. O machismo está presente em cada relação e, hoje, isso só é tão visível pra mim graças ao contato com outras mulheres que também vivem esse tipo de coisa na sua carreira”, contou Josyara. “Nada nunca nos foi concedido de bandeja, mas sim conquistado”.

# Fim da invisibilização da violência contra mulheres lésbicas

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Invisibilidade mata. É isso que aponta o Dossiê sobre Violência Contra Mulheres Lésbicas, Bis e Trans do Instituto Patrícia Galvão. Mulheres LBT estão mais suscetíveis à misoginia e violência de gênero. Segundo a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), entre 2012 e 2014, 9% das vítimas de estupro que ligaram no Disque 100, programa do governo federal para recolher denúncias que ferem os direitos humanos. Muitas delas denunciavam “estupros corretivos”.

Contudo, são poucos os dados sobre agressões e mortes de mulheres lésbicas. Parte disso vem do medo de denunciar – muitas vezes, essas violências acontecem dentro do ambiente familiar. Somada a isso, está a intolerância e o machismo da nossa sociedade, que nega o direito à identidade das mulheres lésbicas.

Mas há também uma falha da parte da imprensa em noticiar os raros casos que vêm a público. Em nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado LGBT, há diversos exemplos de como a imprensa, muitas vezes, desumaniza a vítima, reduzindo-a ao crime cometido contra ela. Além disso, ao chamar de “homofobia” casos de lesbofobia ou dar mais voz ao agressor do que à vítima, a comunicação comete outro tipo de violência: a indiferença em relação à vítima, seus familiares e amigos.

Segundo Renata Alves, da Coletiva Luana Barbosa: “nós não somos gays e nem mulheres heterossexuais. Morremos por motivos específicos: a combinação de misoginia e lesbofobia”. Sem informações precisas sobre o tamanho da violência, é muito mais difícil combatê-la. É por isso que é tão essencial incluir esses temas em pauta.

Muitas produções culturais já estão enveredando este caminho. Em pesquisa levantada pela Glaad, uma organização americana voltada para os direitos LGBT, 4.8% dos personagens presentes em seriados americanos de grande audiência são parte desse grupo. Contudo, Sarah Kate Ellis, diretora da organização, levanta um ponto importante: 25 personagens femininas queer foram mortas nas histórias, com o pretexto de que serviriam como um artifício de narrativa. Para Ellis, isso passa uma mensagem tóxica sobre a participação da mulher lésbica nessas histórias. A luta está apenas começando.

# Debater maternidade lésbica nas escolas

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Nos últimos anos, as redes sociais possibilitam que muitas mães compartilhassem suas experiências e quebrassem os “mitos” relacionados à experiência da maternidade. Não foi diferente para as mães lésbicas, que formaram grupos de apoio para falar sobre suas angústias e desafios específicos. Mas ainda estão longe de serem acolhidas nos espaços de convívio.

Elizandra Delon, da Coletiva Luana Barbosa, diz que a verdadeira maternidade lésbica é muito distante da versão idealizada e romântica que costuma ganhar manchetes e posts nas redes sociais. “Quando se é lésbica e tem um filho fruto de uma relação heteronormativa, sua lesbianidade é colocada a prova a todo momento”, dividiu ela. “Se não há um trabalho efetivo na escola, há rejeição e invisibilidade por parte dos professores, coleguinhas… e a mãe solo lésbica é quem sofre a pressão maior”.

Embora muitas pesquisas apontam que crianças com duas mães tendem a ter um desempenho melhor na escola e serem menos agressivas, não é o suficiente para combater o machismo estrutural que minimiza a maternidade da mulher lésbica. Em um artigo para o HuffPost Brasil, Natacha Orestes diz que a exclusão do tema da maternidade nos espaços de debate é uma violência contra as mães lésbicas. “A maternidade lésbica representa um local social e uma história de potência política que não pode simplesmente ser ignorada”. Como toda luta, a aceitação da maternidade lésbica também é um ato político.

# Cuidados específicos para saúde da mulher lésbica

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Desinformação e constrangimento. Por esses dois motivos, a saúde da mulher lésbica não recebe tratamento adequado no Brasil e no mundo. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Pittsburgh, 93,3% das mulheres lésbicas acima de 40 anos ainda não haviam feito exames de mamografia. Segundo o estudo, o medo de passar por situações constrangedoras afasta mulheres lésbicas das mesas de exames – enquanto mulheres heterossexuais ou bissexuais, por usarem pílulas anticoncepcionais, são mais comumente submetidas a esses exames.

Além disso, o mesmo estudo apontou que mulheres homossexuais têm tendência a fumar e beber com mais frequência. O uso de psicotrópicos também desponta como uma opção de fuga para questões de autoestima entre as mulheres lésbicas.

Em 2015, o governo federal brasileiro lançou um projeto voltado para a saúde de mulheres lésbicas e bissexuais. A pesquisa traz informações essenciais – aponta, por exemplo, que “questões de gênero e sexualidade não costumam ser pautadas durante a formação profissional em saúde”. Também desmistifica ideias equivocadas, como a de que mulheres lésbicas não correm riscos de ter câncer de mama ou de colo de útero.

Mas iniciativas isoladas não são suficientes para transformar uma mentalidade; ainda faltam mais pesquisas voltadas essencialmente para este público, com acompanhamento humanizado e mudança estrutural já no ambiente de ensino da medicina. Boa parte das entrevistadas da Think Olga para este Dia da Visibilidade Lésbica pediu por mais saúde, fisiológica e mental.

# Falar sobre sexo lésbico e proteção
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Em um estudo publicado em 2008 pela organização Stonewall, voltada para direitos LGBT, aproximadamente 50% das mulheres lésbicas inglesas que passaram por exames ginecológicos haviam contraído algum tipo de DST. Em resposta a esta pesquisa, o sistema de saúde britânico criou um manual online de cuidados básicos para a saúde sexual da mulher lésbica. Enquanto isso, em 2013, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais, que deveria ser gradualmente integrada às políticas do SUS.
Embora algumas ações de conscientização tenham surgido desde então, a realidade ainda é hostil à saúde da mulher lésbica. Como pontuou Josyara em entrevista à Olga, ainda que existam ações para a saúde da mulher LBT, muitas vezes são esquecidas em campanhas de conscientização nacional. A pior parte, é claro, é que embora essas medidas já existam, a implementação delas está longe de ser ideal.
Em um artigo preparado para o CONAGES (Colóquio Nacional Representações de Gênero e Sexualidades), as autoras Sandra Aparecida de Almeida, Josefa Eliziana Bandeira Crispim, Ivoneide Lucena Pereira e Jordana de Almeida Nogueira fizeram um levantamento de artigos publicados sobre a saúde da mulher lésbica entre 2010 e 2014. Entre suas constatações, estão o despreparo da equipe médica, que não sabe como lidar com a declaração da mulher como lésbica; a intimidação sentida pela própria paciente, que prefere não abrir sua sexualidade; a falta de informação direcionada à mulher lésbica em relação a DSTs às quais ela é suscetível; e também ao fato de que a grande parte das iniciativas relacionadas à saúde da mulher no Brasil tem fundo reprodutivo. As autoras apontam, então, “a necessidade de mudanças desde a formação acadêmica até o cotidiano desses profissionais de saúde, sensibilizando-os para a diversidade sexual, e eliminando a discriminação e o preconceito institucional”. 
# Representatividade em pesquisas e estudos 
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Basta procurar pesquisas relacionadas ao lesbianismo no Google para notar um padrão: abundam reportagens com títulos caça-clique como “toda mulher é lésbica ou bissexual” ou “lésbicas tem mais orgasmos”, mas há pouca informação real sobre bem estar, saúde e garantia de direitos da mulher lésbica. Institutos como o Patrícia Galvão, por exemplo, reúnem informações essenciais sobre violência entre mulheres LBT e prestam serviços importantes. Mas ainda estamos muito longe de compreender o cenário completo, em especial sobre a violência, principalmente com camadas extras de dificuldade: o silêncio e a baixa produção de pesquisas focadas nesse tema.

Durante a produção do documentário “Eu Sou a Próxima” da Coletiva Luana Barbosa, que registrou casos de mulheres vítimas da lesbofobia e os transportou para as telas, ficou claro para as organizadoras que a falta de informação deixa marcas profundas. “A invisibilidade é tanta que [as vítimas de lesbofobia] não são nem a estatística”, diz Renata Alves. Em geral, os levantamentos sobre violência de gênero agrupam estatísticas muito diversas em um único guarda-chuva muito abrangente: o movimento LGBT. É urgente que se criem mais núcleos de pesquisa focados na mulher lésbica.

Para a cantora Marcia Castro, que mencionou a urgência por políticas públicas específicas para mulheres lésbicas como uma de suas demandas para o dia de hoje, a arte pode contribuir para levar atenção a essas pautas. “Nós, artistas trazemos luz às questões, mas para implementar ações, se faz necessária a elaboração de um plano, com objetivo e diretrizes”.

# Criação de políticas públicas para mulheres lésbicas
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Quando a Lei Maria da Penha foi consolidada, em 2006, passou a contemplar não apenas denúncias de violências cometidas em relacionamentos heterossexuais, mas também homoafetivos. Contudo, onze anos após sua aplicação, a lei parece distante da realidade das mulheres lésbicas. Na Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal, nem 1% dos casos de violência doméstica reportados vieram desse grupo. Este é um forte indicativo que políticas públicas específicas para o movimento lésbico são necessárias.
Maria Berenice Dias, advogada e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, disse ao Dossiê do Instituto Patrícia Galvão sobre Violência Contra a Mulher: “A Lei Maria da Penha não deixa lacunas, ela é muito expressa neste sentido, mas há todo um preconceito muito severo associado a uma omissão legislativa muito grande”. O risco de exposição, somado à LGBTfobia estrutural de muitos órgãos reguladores, afasta as mulheres lésbicas desta ferramenta.
Mas para haver políticas específicas, é preciso informação suficiente – algo que está em falta. Muitas vezes, violências cometidas contra mulheres lésbicas são classificadas como “homofobia” ou “feminicídio” – e embora a segunda opção seja correta, não entrega todo o contexto necessário para compreender as motivações daquele crime específico. Para a Coletiva Luana Barbosa – que leva esse nome em homenagem a uma vítima de lesbofobia, espancada por seis policiais em 2016 – “isso só atrapalha no momento de fazer esse recorte e conseguirmos dados estatísticos”. Imprensa, academia e sociedade devem agir conjuntamente, produzindo informação e pesquisa apuradas, para criar uma base de dados real sobre a mulher lésbica no Brasil, e não apenas pesquisas pontuais.
Consolidar políticas públicas específicas para as demandas das mulheres lésbicas não é apenas atender melhor a uma parcela da população que não se sente representada; é também legitimar a luta, reconhecê-las como parte importante da sociedade, que não deve tolerar mais violência. Como disse a cantora Aíla, que lança hoje seu clipe “Lesbigay”, em entrevista para a Olga: “Precisamos assumir quem somos e todas as violências que sofremos; não calar, expor”.
# Fim da fetichização do lesbianismo
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Mulheres lésbicas são objetificadas e fetichizadas em todos os espaços sociais, da indústria cultural à pornográfica. Para Joana Mendes, redatora, a fetichização é problemática porque abre caminho para pensamentos ainda mais perigosos. “Mulher lésbica, muitas vezes, é vista como alguém que tá numa fase, que ainda não arranjou um cara legal, que foi maltrada. Não é alguém que tem o desejo por outra mulher, e sim que teve um relacionamento ruim com os homens”. Em muitas ocasiões, a comunicação endossa isso, ao colocar mulheres hétero em posições sensuais umas com as outras; quantos programas de comédia não reforçam a ideia de que mulheres jovens “experimentam” sua sexualidade, como se fosse uma escolha?
Esses dois estereótipos nocivos – a sexualidade como escolha e a narrativa autocentrada, que vê o homem como principal componente da sexualidade da mulher – não estão apenas causando uma violência de gênero; os homens passam a se sentir donos do corpo da mulher. Não à toa, quando não atendem às expectativas de feminilidade e afetividade dos homens, mulheres lésbicas correm riscos de serem violentadas e agredidas.
Não é à toa que quando entrevistamos a publicitária Vanessa Goldmacher sobre suas demandas para o Dia da Visibilidade Lésbica, ela foi categórica: segurança. “Me sinto insegura e vejo como ameaça todo homem hétero, principalmente desconhecidos”. Em tempos de grande retrocesso em relação a direitos já conquistados para a mulher, o medo é bastante compreensível: se as políticas que combatem a violência contra a mulher já não são efetivas o suficiente, pode-se esperar ainda menos efetividade de punição em violências de nicho – embora essa também seja uma demanda urgente do movimento.
Mas Vanessa acredita na validade do dia de hoje: “as estatísticas mostram quanto a luta pela visibilidade e proteção das mulheres no Brasil precisa ganhar força”. Pelo fim da fetichização da mulher lésbica, votamos sim.
# Identificação com a luta
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Em todas as perguntas que Olga fez às entrevistadas deste especial, apenas uma demonstrava centelhas de esperança. “Por que o Dia da Visibilidade Lésbica é essencial em tempos de intolerância?” se desdobrou em confiança na luta que é conduzida diariamente por tantas mulheres.
A cantora Josyara não vê opção: uma vez que nasceu mulher e lésbica, sabia o que estava por vir. “A opressão mais dolorosa é o silenciamento de quem somos. É não poder existir sem estar sujeita a violências de todo tipo quando saímos na rua de mãos dadas com quem amamos”. A também cantora Karla da Silva divide uma opinião similar, incluindo sua profissão como espaço para militância: “Estamos aí, queremos nosso espaço, somos fortes, somos resistência e não aprendemos a desistir fácil. Da nossa forma, com a nossa arte, temos que ir contribuindo pelas mudanças”.
Para Joana Mendes, o Dia da Visibilidade Lésbica também tem tudo a ver com o eu, e não apenas com o sentimento de coletividade. “Você pode aprender um pouco sobre cuidado com seu corpo, com sua mente. Ver a resistência de mulheres de diferentes lugares da cidade e como isso reflete em você”.
 
A militância pode ser exaustiva, mas também recompensadora. E essa parece ser uma das maiores motivações para continuar na batalha. As representantes da Coletiva Luana Barbosa são otimistas: “esse está sendo o primeiro ano em que estamos vendo muitos eventos da visibilidade, em sua maioria puxados por nós mesmas, mulheres lésbicas”. Como cada mulher disse à Olga, à sua maneira, a luta não pode tardar. “Não podemos esperar isso vir de outros.”
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Ao encerrar sua fase de estrela teen da Disney, a cantora Miley Cyrus se desprendeu completamente da imagem pura e infantil para cantar sobre sexo e outros temas que ela considerava adultos. “Coming of age”: é assim que a mídia internacional chama a fase de amadurecimento de um artista que começou sua carreira ainda criança, como Miley. Em questão de processos, Miley fez o esperado dessa fase, que vem acompanhada de uma ação de marketing pesada, com novo álbum e novo visual. Mas a mídia e a opinião pública não aceitaram a versão adulta da estrela de Hannah Montana e, em meio a opiniões machistas sobre a artista, uma questão de preconceito e apagamento racial surgia, demandando atenção.

Muito frequentemente, esta nova era para os artistas brancos vem cheia de elementos apropriados da cultura negra que, em vez de traduzirem e homenagearem de fato a cultura em questão, vestem artistas brancos de estereótipos já atribuídos socialmente a pessoas negras, como a hipersexualização de corpos e a idealização da marginalidade. Logo, na leitura de Miley Cyrus, isso significou twerks e uso de drogas, tudo com o hip-hop como trilha sonora; já para o cantor Justin Bieber, significou aderir a dreads no cabelo, a um estilo mais próximo do rap americano de se vestir e até de fazer música, além de, é claro, firmar parcerias com rappers negros. Esta fase foi diretamente atrelada a atos irresponsáveis do, agora adulto, astro, incluindo uma prisão por dirigir bêbado.

Esta mudança de persona não é algo novo e, muitas vezes, pode acontecer de maneira sutil, como o amadurecimento de Justin Timberlake, que depois de sair de uma boy band formada por garotos jovens e brancos, com músicas dançantes sobre amor, trabalhou com o rapper e produtor negro Timbaland e passou a utilizar batidas de funk americano, jazz e até blues para falar sobre sexo. Quem percebeu essa tendência foi a cantora independente estadunidense Richey Collazo, que mostrou no Twitter exemplos também de com Britney Spears, Christina Aguilera e outros artistas fizeram o mesmo em suas fases de amadurecimento.

Em tempos de um governo que não apoia minorias nos Estados Unidos, Miley volta a renovar sua imagem pessoal e musical, dizendo, em matéria de capa da Billboard, que a música negra a impulsionou para o que ela agora julga ser uma imagem vulgar e que sua “redenção” será voltar a suas raízes, cantando pop e country. Tudo isso usando maquiagem e roupas leves e claras, quase uma personificação daquela ideia de mulher bela, recatada e do lar.

Este não é um questionamento sobre a liberdade sexual de Miley, mas sim de como ela e outros artistas brancos escolhem expressá-la, pois, em nome de sua própria liberdade, acabam colocando ainda mais amarras para pessoas negras, especialmente mulheres.

Mesmo recebendo slut shaming por seus rebolados e danças originárias da cultura negra, Miley foi mais presente e aceita no show business do que quando mulheres negras praticam a mesma arte. E elas quase sempre acabam sendo hipersexualizadas por isso. Um exemplo disso foi sua participação no VMA como uma cantora adulta. Depois da performance no VMA de 2013, ela foi convidada a apresentar a mesma premiação em 2015, enquanto a rapper Nicki Minaj usava as redes sociais para criticar a falta de indicações de artistas negros.

Hoje, Miley renega esta cultura, culpando-a por afastá-la do que agora acredita ser digno e respeitável. Assim, a cantora endossa a posição de marginalização e depreciação de mulheres negras, reafirmando que ser branca é mais culto, puro e recatado, ou seja, mais digno de respeito do público, já que é isso que ela busca atualmente.

Sendo a música e a cultura pop parte da formação cultural e de opinião do público de massa, é preciso se atentar para o racismo presente na indústria musical. A conversa sobre apropriação cultural não é uma proibição para pessoas brancas consumirem ou reproduzirem a cultura negra, mas sim um pedido de respeito a partir do entendimento de que o racismo existe e, por causa disso, existem batalhas para que esta cultura possa ser consumida sem criminalização. Mas, principalmente, para que artistas brancos reconheçam seus privilégios e não esvaziem a música negra em prol de seus interesses pessoais e comerciais.

Trazendo a situação para o contexto da música brasileira, a cantora Mallu Magalhães demonstrou, recentemente, o que é não reconhecer privilégios como artista branca performando música negra. O clipe da canção “Você Não Presta” foi considerado racista por movimentos e ativistas. Embora não tenha sido usada como um marco para a entrada da vida adulta dessa cantora (que ficou famosa aos 15 anos), a música é a primeira da divulgação do novo álbum de Mallu após a gravidez. Porém, quando a cantora dedicou, em rede nacional, uma música “pra quem é preconceituoso e fala que branco não pode tocar samba”, claramente se referindo às críticas que recebeu, demonstrou tudo menos amadurecimento e respeito à discussão sobre racismo na qual se viu inserida.

Para que Mallu entenda sobre a questão racial por trás da música que canta, é preciso sair do modo de defensiva, de proteger seu direito de cantá-la como se estivesse sendo tirado. É preciso ouvir. Como fez a sambista Beth Carvalho. Em entrevista para a Folha de São Paulo, ela fala sobre aprender e não repetir erros. “‘O Teu Cabelo Não Nega’ é racista. Martinho me chamou a atenção para isso. Eu já havia gravado quando entendi. Hoje, não teria gravado. Se Lamartine Babo errou, porque errar de novo?”

Para não errar de novo ou nem mesmo chegar a cometer o erro, é preciso atentar para a importância da empatia e interseccionalidade com as mulheres que saem prejudicadas por tais estereótipos. Como bem disse Audre Lorde: “eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”.

Para melhor entendimento e identificação deste processo de amadurecimento com apropriação cultural traduzimos os tweets de Richey Collazo:

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Texto original: 
Twitter: @richey_collazo 

Tradução: 
Think Olga
Ilustração e edição: 
Pri Ferrari
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A escritora americana Kate Schatz nem sabe dizer quando se tornou feminista. Para ela, o feminismo faz parte de sua experiência e vivência desde que se entende por gente – e não faz nenhum segredo disso. Foi natural, então, que pensasse em uma forma de compartilhar histórias de mulheres fantásticas – em geral, apagadas ou ignoradas pela história – em seu ofício. “Mulheres Incríveis” é a segunda obra de não-ficção de Kate, com recorte global; inclusive, na edição brasileira, publicada pela editora Astral Cultural, a fundadora da Think Olga, Juliana de Faria, contribuiu com mais quatro perfis: Maria da Penha, Debora Diniz, Sonia Bone Guajajara e Elza Soares. Entrevistamos a autora para conhecer sua relação com o feminismo e a importância de tornar a vida dessas mulheres conhecida em todo o país.

O que é ser uma mulher incrível (rad woman, no original)?

A palavra “rad” tem alguns significados diferentes; é uma gíria que traz diferentes maneiras de se dizer “muito legal” em inglês. No livro, nós usamos de uma forma meio engraçada, uma brincadeira com o fato de que as mulheres no livro são muito incríveis. Mas “rad” também é um diminutivo de “Radical”, o que pode significar algo poderoso ou que nunca foi feito antes. Então quando falamos dessas mulheres, nos referimos a pessoas que são muito legais, mas também fora do comum, que fazem coisas grandes e inesperadas.

Como surgiu a ideia do livro?

A ideia começou no meu primeiro livro, que se chama “Rad American Woman A-Z”, e a inspiração surgiu com a chegada da minha filha. Eu estava pensando muito em como é criar uma filha nesse mundo e as histórias que eu gostaria que ela aprendesse. E por aqui temos muitos livros alfabetizantes, que ensinam as crianças o ABC e eu pensei: ‘E se eu fizesse um livro como este, mas ao invés de animais ou frutas, eu usasse nomes de mulheres fascinantes da história?’. Então foi mesmo uma combinação de coisas as quais eu tenho paixão: feminismo, história, leitura para jovens… Quando apareceu na minha cabeça, eu pensei: ‘uau! esta é uma ótima ideia!’.

Você é uma escritora de ficção e esta foi a primeira vez escrevendo para jovens e sobre história! Como foi a experiência?

Quando eu tive a ideia, fiquei muito animada. Mas ao mesmo tempo, era um território novo, muito diferente. Eu nunca havia escrito para crianças e nunca havia escrito algo que não era ficcional. Então foi um ótimo desafio que eu fiquei feliz de aceitar. Mas no fim das contas, não sei se houve tanta diferença. Mesmo que estas histórias sejam verdadeiras, que não sejam ficção, ainda é tudo sobre contar histórias. Então, as mesmas ferramentas que eu uso como escritora de ficção, também uso quando estou escrevendo histórias sobre estas mulheres da vida real. A minha verdadeira intenção é tentar manter um público interessado e engajado com as histórias que estão sendo contadas por meio dessas mulheres.

E sua filha? Ela gostou dos livros?

Ah, ela ama os livros! Ela tem oito anos agora e é uma grande fã e muito orgulhosa. Quando o primeiro livro saiu, ela estava perto dos seis anos de idade e ainda não conseguia ler, então ela olhava e reconhecia o livro, mas não havia lido sem ajuda, ainda. E quando ela aprendeu a ler, houve um momento em que ela leu o livro em voz alta para mim e esse foi um momento muito emocionante.

Em algumas entrevistas, você mencionou que se divertiu muito durante a pesquisa para o livro. Gostaríamos de saber: como foi o seu processo de desenvolvimento e escrita?

A pesquisa para conteúdo histórico é difícil, mas incrivelmente divertida ao mesmo tempo. Para o Mulheres Incríveis, meu processo de pesquisa foi diferenciado pois, no primeiro livro, eu já tinha um conhecimento vasto sobre mulheres americanas na história, mas com esse eu não tinha tantos nomes específicos e eu não queria deixar muitas brechas. Então eu contatei pessoas de todo o mundo, amigos meus e amigos de amigos meus e perguntei a eles: que  mulheres, em suas respectivas culturas, eles gostariam de ver neste livro? Isso foi uma parte bem grande da minha pesquisa, para ter uma representação autêntica de pessoas em todo o mundo se identificassem. E foi isso, todo mundo deu ideias… e enquanto eu me aprofundava nas pesquisas, lendo muito e assistindo a todos os documentários e vídeos possíveis, acabei aprendendo muito sobre essas mulheres incríveis. Cerca de 40 histórias entraram no livro, mas eu pesquisei mais de 200 nomes antes de decidir quem incluir. Eu passava meu tempo lendo e vendo histórias sobre pessoas legais! *rindo*

Isso parece bem divertido, mesmo!

E agora, pessoas me mandam histórias o tempo todo por e-mail, Facebook, mandam links de mulheres e garotas fantásticas… As pessoas também vêm falar comigo em eventos, algo como “ei, você já viu essa ou essa pessoa?”. Eu sempre anoto essas ideias. Acabou se tornando uma parte bem importante do projeto.

Você tem alguma história favorita que gostaria de compartilhar com a gente?

Bem… eu acabei ficando muito ligada a todas as histórias. Sempre faço visitas a escolas, para conversar com os jovens, e acabo lendo sempre as mesmas histórias que fazem sucesso entre eles, são mais fáceis de ler em voz alta… e a história da Marta, essa fantástica jogadora de futebol brasileira, é sempre um sucesso… É engraçado, futebol é muito popular entre crianças aqui nos Estados Unidos, especialmente jovens meninas. Mas não é tão popular entre adultos. Há muitas meninas que jogam quando são pequenas, mas não têm oportunidade de jogar de forma profissional quando crescem. É tão incrível a reação delas quando ouvem falar da Marta, ficam muito empolgadas. Também gosto muito da história de Sophie Scholl, a jovem estudante alemã que foi uma das primeiras pessoas a falar publicamente contra Hitler. É uma história poderosa e muito triste sobre como é importante se posicionar em relação ao seu governo, o que com certeza é muito relevante para a gente até hoje.

A edição brasileira tem mais quatro mulheres incríveis, cujos perfis foram escritos por Juliana de Faria, fundadora da Olga. Você conhecia a história delas?

Fiquei tão feliz quando a editora brasileira sugeriu a inclusão de mais mulheres, fiquei tão feliz. Eu não era familiarizada com a história dessas mulheres, então fiquei tão emocionada em ler sobre suas vidas. Foi realmente uma ideia muito boa adicionar mais mulheres, foi perfeito. Fiquei bem animada em conhecer mais sobre elas. Quando soube da inclusão desses nomes, perguntei para alguns amigos brasileiros se conheciam essas mulheres, e todos ficaram tão empolgados quanto eu.

Muito bom! Bem, o tema agora é feminismo. A Olga é uma ONG focada em empoderar mulheres por meio da informação aqui no Brasil. Quando você soube que era feminista?

Eu não tenho uma memória específica sobre isso, embora quisesse muito ter. Minha mãe encontrou um pôster que fiz quando tinha 12 anos para um projeto de escola, basicamente fazer um pôster que me representasse. E o meu tinha diversas fotos, colagens e montagens, e no meio delas a palavra “feminista” escrita bem grande. Eu era bastante ativa politicamente quando era mais nova, mas isso me surpreendeu! Eu não lembro muito bem disso… lembro de recortar essa palavra para colocar no pôster, mas não lembrava que tinha colado nem que tinha feito isso aos 12 anos! Então, tenho o feminismo em mim há bastante tempo, claramente *rindo*. Desde pequena, era interessada em gênero e política. E sempre tive um conceito muito sólido sobre o que é ser mulher, e sempre pensava nisso, nas coisas que eu achava que não eram certas. Sou feminista desde sempre, acho!

O mundo mudou bastante nas últimas décadas em relação ao feminismo, mas queria saber o que é o feminismo hoje, na sua opinião.

Para mim, feminismo é muito simples. É acreditar na igualdade dos gêneros, mas também, o que eu sempre digo, é saber que ainda não temos essa igualdade. Vivemos em um sistema patriarcal, que desvaloriza de forma consistente as conquistas da mulher. Então, o feminismo está presente na forma que eu me posiciono no mundo, nos trabalhos que faço, em como educo meus filhos… E é algo que eu torno bastante público sobre mim, eu falo bastante sobre o tema, tenho uma camiseta, porque acho importante ter pessoas pensando e falando sobre isso. De certa forma, acho que muita gente ainda acredita que feminismo é um palavrão, e eu quero torná-la uma palavra legal. Todo mundo que acredita na igualdade de direitos deveria se considerar feminista. É uma grande parte da minha vida, em todos os sentidos.

Você poderia contar um pouco mais sobre seu projeto Solidarity Sundays?

Sim, claro! Solidarity Sundays é uma rede americana de ativismo fundada por uma amiga minha. Uma vez por mês, a gente reúne mulheres que cumprem ações políticas para descobrir novas formas de ativismo. É similar ao feminismo; muitas pessoas se identificam com as ideias, têm posicionamento, mas não se sentem ativistas de uma causa, não sabem como fazer a diferença. É uma forma de ajudar pessoas a encontrarem a melhor maneira de lutar, ao seu modo. Muitas pessoas usam a internet, por exemplo, como espaço para o ativismo. Isso é bom, mas também acho que as pessoas devem se encontrar em espaços offline. É por isso que começamos o Solidarity Sundays, que se encontra sempre em um domingo do mês. Há um ano, temos um grupo que se encontra na minha casa e se organiza para agir em diferentes causas, como a luta pelo meio ambiente, pela legalização do aborto. Logo depois da eleição [presidencial nos Estados Unidos], nosso grupo cresceu muito! *rindo* Tínhamos um grupo já grande no Facebook, com cerca de 700 pessoas, e depois das eleições esse número saltou para 1900! E temos cerca de 300 grupos ao redor do país, e em alguns outros países também, como Canadá, Áustria… Sempre são grupos de pessoas que se reúnem na casa de alguém. Escrevemos um kit de ações que podemos tomar, em diferentes cidades. Ligamos para representantes do governo, organizamos festas beneficentes para angariar fundos para organizações, participamos de marcas… mas muito das nossas ações focam, hoje, na política americana, como saúde, políticas anti-imigrantes, somos muito reativas a tudo que Donald Trump vem propondo. Estamos trabalhando bastante por aqui, é muito frustrante, às vezes. Sabemos que o resto do mundo olha pra gente e pergunta o que está acontecendo. *rindo*

Acreditamos muito no empoderamento feminino por meio da informação, ou seja, em mulheres contando suas histórias ou passando o microfone para que outras também compartilhem suas vivências, que é o que você está fazendo também. Como podemos empoderar ainda mais mulheres nessa missão?

Acho que há uma grande quantidade de formas de fazer isso e é extremamente importante. Artistas, por exemplo, tem um grande papel nisso, assim como vocês, jornalistas. Geralmente, fazendo com que todas as mulheres saibam que suas histórias são importantes e válidas. Artistas têm esse poder, seja no cinema, escrevendo roteiros para a televisão ou criando artes visuais, é essencial contar essas histórias. Jornalistas também tem essa responsabilidade de amplificar vozes. E também acredito que é essencial começar o mais cedo possível! Fazendo com que jovens meninas sintam que suas opiniões são válidas, que são interessantes e suas histórias devem ser contadas também, inclusive nas salas de aula. Elas precisam se sentir preparadas para fazer perguntas e respondê-las também. Encorajar essa cultura do compartilhamento, de trocar experiências, é realmente importante. Se isso não acontece, você acaba tendo mulheres adultas que não sentem que suas opiniões e histórias são válidas, e isso é ainda mais duro, né? Outro aspecto que pode ser importante é criar espaços seguros para mulheres conversarem e dividirem vivências, seja no espaço digital ou offline.

Nossa última pergunta é, claro, sobre recomendação de livros de outras mulheres incríveis?  

Oh meu Deus, eu consigo recomendar um milhão de livros! *rindo* Isso é muito difícil! Acho que vale dizer que há muitos livros que são similares ao Mulheres Incríveis, que contam histórias fantásticas sobre mulheres na história ou empoderam meninas… há uma escritora americana que gosto muito, que é Rebecca Solnit, que para mim é uma das pessoas mais brilhantes escrevendo sobre política hoje. Caramba, são muitas opções! *rindo* Acho que não vou conseguir pensar em mais agora, estou olhando para a minha estante agora e é muito difícil escolher uma só *rindo*.

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Quando o cantor Biel voltou à mídia, depois de um ano afastado por conta da repercussão do assédio que cometeu à jornalista Giulia Bressani, tinha um discurso na ponta da língua para se justificar: o assediador era, na verdade, um personagem criado para ganhar dinheiro. Na ocasião, a Think Olga identificou a existência do “personagem assediador”: quando um homem famoso não quer ser responsabilizado pelo que fez, diz que estava agindo de forma caricata, desconectada de sua real personalidade. Contudo, o inverso também acontece: às vezes, a “fama” ou conduta do homem serve de justificativa para todos os seus atos, gerando assim uma proteção, concebida pela sociedade e pela mídia, quando casos de machismo e violência de gênero vêm à tona. Tais acusações deveriam ser “esperadas” quando atreladas a alguns elementos estereotípicos de masculinidade – e são suavizadas pela opinião pública.

Recentemente, a entrevista de Washington Olivetto à BBC Brasil, em que o publicitário expôs opiniões machistas e objetificantes sobre as mulheres, foi defendida – principalmente entre seus colegas de profissão – que usaram a experiência de Olivetto para colocá-lo como um gênio inquestionável, buscando carta branca para suas declarações. Muitos chegaram a insinuar que as mulheres é que não haviam compreendido o que ele quis dizer, mas a verdade é que frases como “Porsche é melhor do que mulher que, diga-se de passagem, é excelente”, já deixam o posicionamento deste homem bem claro; a questão é que ele poderá manter este tipo de discurso, uma vez que a opinião pública seguirá encontrando maneiras de protegê-lo.

A “genialidade” de Woody Allen também o protege de acusações ainda mais graves: abuso sexual de sua filha adotiva, Dylan Farrow, quando ela tinha 7 anos. Mesmo sendo passivo de punição legal, ele segue sendo um diretor renomado em Hollywood. Seus filmes são lançados anualmente, com grande sucesso de bilheteria. Quando é lembrado por conta desse possível ato criminoso, seu nome geralmente vem acompanhado de um debate puramente teórico sobre separar a arte do artista, como se seus atos não tivessem implicações reais para pessoas reais. A denúncia de um abuso de menor não manchou sua imagem porque, há décadas, Allen sustenta em seus filmes a figura do homem confuso, tímido e divertido que seus espectadores associam a ele. Ao representar este personagem nas telas, o diretor também o performa na vida real. A imagem do abusador não condiz com a ideia que os espectadores tem de Allen, entre o genial e o excêntrico – e ele se aproveita disso.

A premissa do “tudo pela arte” é o que mantém Allen livre para continuar trabalhando enquanto deveria estar sendo investigado, assim como permite que Johnny Depp continue sendo adorado e conquistando papéis milionários em Hollywood. Depois das acusações de violência doméstica por parte da ex-esposa Amber Heard tornaram-se públicas, o ator continuou sendo defendido pela opinião geral sem mover um dedo para tanto. A reputação de Depp de “causador de problemas”, sustentada desde os anos 90, também acompanha a “aura excêntrica” colocada em seus personagens de fantasia, que criam empatia no cinema. Por isso, não precisou se esconder; seria perdoado e amado de qualquer forma.

Entre Depp e Amber, houve um acordo jurídico – e como já apontamos antes, não há nada de errado com o fato de um homem reconstruir sua vida após cumprir a punição que lhe coube, mas existe algo de preocupante quando tantas oportunidades são tão facilmente concedidas a homens que machucaram e sacrificaram mulheres com quem se envolveram. Ainda mais problemático é perceber que essas oportunidades mostram que a opinião do público sobre os acusados não foi abalada.

No caso do fotógrafo americano Terry Richardson, muitos famosos o defendem pela “honra” de serem clicados por ele. Assim, segue trabalhando em meio a acusações de assédio e abuso sexual de atrizes e modelos. Em 2014, uma vítima de Richardson contou ao mundo como ele forçou seu pênis dentro de sua boca e ele alegou que as fotos eram consentidas e que “estava bem consigo mesmo e isso é o mais importante”. A carreira dele permanece ilesa; ainda é um dos fotógrafos mais célebres do mundo, sendo considerado, no máximo, “polêmico” e “controverso”.

Mas não é só a genialidade ou a excentricidade que poupam homens de suas acusações. Um exemplo disso é o que aconteceu durante a participação do ator Alexandre Frota no programa Agora É Tarde, em 2014. Em rede nacional, Frota deu detalhes do estupro que cometeu a uma mulher negra, mãe de santo, a ponto de fazê-la desmaiar. Apesar da confissão evidente de violência, tanto o apresentador do programa na época, Rafinha Bastos, quanto a plateia aplaudiram fervorosamente, às gargalhadas. A narrativa de Frota endossa sua imagem perante a audiência: a figura do “pegador” tão descontrolado que se acha no direito de atacar uma mulher que lhe prestava um serviço. Uma atitude como essa é esperada de homens como ele, portanto, minimizada. Embora tenha recebido mensagens de repúdio ao seu ato, Frota participa da vida pública como se nada tivesse acontecido – e chegou a intimidar uma mulher que ousou dar nome à “pegação” pelo que era de fato: um estupro.

Outro homem que se beneficia do estereótipo de “pegador” é Charlie Sheen. Entre as denúncias feitas por mulheres que se relacionaram com ele, estão agressões físicas e psicológicas, ameaças de morte com facas e ordens de restrição; a atriz Brittany Ashland, que namorou o ator, chegou a levar sete pontos nos lábios após um ataque de fúria de Sheen. Mesmo assim, por uma década, ele foi um dos atores mais bem pagos da televisão ao estrelar a série Two And A Half Men, onde também interpretava a figura do conquistador. Sheen foi afastado, inicialmente, por questões de saúde – estava em reabilitação contra as drogas -, não por sua postura hedionda em relação a mulheres. Relacionamentos tortuosos e violentos são esperados de homens como ele, e não afetaram em nada sua carreira por décadas.

Enquanto a sociedade permitir que certos estereótipos – do ator hollywoodiano acima do bem e do mal até o pegador (e abusador) de mulheres – estejam protegidos pela opinião pública, não avançaremos nas questões de gênero. Primeiro, porque mulheres são muito mais penalizadas pelos estereótipos que são atribuídos a elas. E segundo, porque a partir do momento em que delitos e agressões sequer arranham a imagem desses homens, estamos apenas endossando comportamentos violentos em todas as esferas sociais.  Precisamos que todos sejam investigados e punidos por seus atos, independentemente de sua fama e sucesso.

[Esta é a última parte de nossa série de conteúdos especiais analisando a entrevista de Washington Olivetto e como seus discursos demonstram diversos problemas sociais e de gênero. Clique para ler as primeira parte e a segunda]

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silvio1.1
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[Este post faz parte de uma série especial de conteúdos sobre declarações do publicitário Washington Olivetto e como esse caso expõe diferentes problemas sociais e de gênero. Leia a primeira parte aqui]

silvio1.1

Quando Washington Olivetto, em entrevista publicada na BBC Brasil na última semana, comparou mulheres a Porsches e disse que “empoderamento feminino é um clichê constrangedor”, muitos vieram em sua defesa alegando que ele não sabia do que estava falando por ser um homem idoso. Aos 65 anos, Olivetto mostrou de fato ter completo desconhecimento sobre debate de gênero – sua opinião, no mínimo, encoraja a objetificação da mulher – mas isso não tem nada a ver com idade. Na verdade, parece muito mais provável que sinta-se confortável em pensar e se expressar assim por ter uma rede tão fiel de protetores que endossam seus atos. Isso nos faz pensar sobre um fenômeno que parece permear a vida do homem: a justificativa etária.

Os homens são perdoados por seu comportamento desde a infância. Quando jovens, são considerados “moleques” demais para prestar contas sobre o que fazem. Em maio de 2016, durante uma entrevista para o Ego sobre o término de um relacionamento, o cantor Biel disse: “Tenho 20 anos, sou uma criança. […] estou na fase de formar a minha personalidade ainda”. Uma semana depois, viria à tona o maior escândalo envolvendo sua carreira: o assédio à jornalista Giulia Pereira. Entrou em cena, então, o pai de Biel, naturalmente justificando seu comportamento violento… Com a juventude: “qualquer moleque faz uma palhaçada dessas”, disse ele ao Extra.

Aos vinte anos, homens não são mais crianças nem moleques. São plenamente responsáveis por seus atos, que podem ser passíveis de punição legal. É o caso de Justin Bieber. Apenas em 2013, o cantor canadense avançou aos socos em um motorista de sua limousine, pichou muros em São Paulo, agrediu um paparazzi… Tudo sem punição. Um ano depois, seria preso por dirigir alcoolizado. Autoridades na China e na Argentina proibiram a entrada de Bieber nesses países por suas atitudes irresponsáveis, mas para o resto do mundo, o astro está em fase de “amadurecimento” – sempre blindado pela justificativa de que homens amadurecem mais tarde e, eventualmente, seguem em frente.

Mas esse não parece ser o caso. Quando o homem envelhece e chega à terceira idade, seu comportamento é ainda mais endossado pela sociedade. Após o episódio de assédio com a figurinista Su Tonani, o ator José Mayer se justificou: “tristemente, sou, sim, fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas”. A desculpa soou artificial, uma vez que José Mayer tentou, em um primeiro momento, culpar a vítima por “confundir” o ator com seu personagem na novela – outra desculpa que parece recorrente, como já apontamos. Além disso, culpar “sua geração” por seu comportamento individual é tirar de si toda a responsabilidade pelo crime.

Ainda que José Mayer esteja mais próximo do estereótipo do galã de novela do que do homem envelhecido, a sociedade abraça de forma questionável a maturidade masculina. Dependendo de seu status social, profissão e fama, o homem idoso pode tanto ser considerado “gênio” ou “ultrapassado”; tudo depende da perspectiva de quem fala. No caso de Washington Olivetto, o público se divide entre ambos os estereótipos. Algo parecido – e em maior escala – acontece com o apresentador Sílvio Santos. A história de vida do dono do SBT tem tons quase míticos: seu talento natural como comunicador seria responsável pela ascensão social que o removeu de uma situação de pobreza e vulnerabilidade até se tornar um dos homens mais ricos e influentes do país. Contudo, mesmo constrangendo funcionárias em público e sendo gordofóbico e racista com suas convidadas, segue sendo considerado um gênio da comunicação.

Talvez seja necessário ressignificar o que é genialidade, afinal. Ser genial é enxergar as necessidades de seu próprio tempo de forma original. Ficar congelado naquilo que foi, décadas atrás, considerado aceitável, é mais parecido com nostalgia do que genialidade. E impede a sociedade de se desprender de discursos que não servem mais. E é neste tópico que seguiremos nossa discussão no texto de amanhã.

Enquanto narrativas violentas e objetificantes insistirem em se perpetuar, seja qual for a idade daquele que os propaga, é preciso continuar lutando. E se você gosta do nosso conteúdo e quer manter a Olga firme e forte, considere doar para a gente.

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