Sobre Gabriela Loureiro

Jornalista freelancer, mestre em Gênero e colaboradora da Olga. Trabalhou nas editoras Abril e Globo, fez mestrado no Reino Unido através do programa de liderança do governo britânico Chevening e escreve para a Think Olga desde 2013.

Arte: Chloe Early
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Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres
Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres

Ninguém nasce machista, homofóbico, racista ou transfóbico. Aprendemos a adotar comportamentos considerados comuns para a sociedade onde vivemos. Parte desse aprendizado vem da escola, durante a socialização entre as crianças. Segundo a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com mais de 18,5 mil alunos, mães, pais, diretores professores e funcionários, 99,3% dos entrevistados demonstram algum preconceito étnico-racial, socioeconômico, de gênero, geração, orientação sexual, deficiência ou territorial. O estudo indicou que 99,9% dos entrevistados têm vontade de manter distância de algum grupo social, principalmente os deficientes mentais e homossexuais, ambos com taxas de 98,8% de rejeição.

Seja para combater discriminação na escola ou para ensinar as crianças sobre questões básicas relacionadas a equidade, a educação de gênero em sala de aula é fundamental. Tanto é que a UNESCO recentemente se pronunciou a favor do aprofundamento do debate sobre sexualidade e gênero para uma educação mais inclusiva e de qualidade no Brasil. Enquanto isso, projetos de lei que proíbem debates sobre questões de gênero despontam em várias partes do Brasil, inclusive um que prevê a prisão de professores que abordarem o assunto em sala de aula. No Reino Unido, porém, acontece o oposto: o debate sobre gênero em sala de aula só aumenta, inclusive com apoio financeiro do governo. Uma das instituições por trás desse avanço é a Educate & Celebrate, especialista em transformar escolas, organizações e funcionários LGBT+ friendly, isto é, em humanizar pessoas e ambientes educacionais a fim de combater discriminações ligadas a gênero, orientação sexual e identidade de gênero. Conversamos com a CEO da iniciativa, Elly Barnes, sobre o trabalho desenvolvido e sobre como trazer esse debate para a sala de aula. Confira a conversa:

Como começou a organização Educate & Celebrate?

Eu comecei essa organização há 11 anos porque eu era coordenadora de uma escola e tinha que dirigir 240 crianças de 11 anos que eram meus bebês. Eu queria garantir que a linguagem transfóbica, bifóbica, sexista, racista e homofóbica que todos eles estavam usando fosse erradicada porque eu não aguentava mais ouvi-la. E eu queria desesperadamente que as crianças que estavam sob meus cuidados tratassem todos justa e igualmente. Se não falarmos a respeito, nada vai mudar. Havia um silêncio absoluto, uma completa invisibilidade especificamente sobre sexismo, homofobia e transfobia, não era tão ruim quanto a racismo mas havia alguns temas que não eram trabalhados de maneira alguma no plano escolar.

Comecei simplesmente fazendo um seminário com meus alunos explicando as palavras lésbica, gay, bissexual, trans e então intersexual, travesti, gênero fluido, assexual, pansexual e trouxe essa linguagem para o estado consciente dos meus alunos para que eles soubessem o que elas significam. Eu queria que eles usassem esses termos com confiança. Na época, em 2005, não havia leis específicas sobre o assunto, então causou uma certa agitação. A diretora ficou chocada. Eu perguntei o que ela achava que aconteceria se tivéssemos essa conversa, ela disse que “tornaria” todos os alunos gays e que ensinaria a ter sexo gay. Eu respondi bem, quando celebramos o mês da consciência negra, viramos todos negros? Não. Os pais negros reclamam quando celebramos o dia da visibilidade deficiente? Não.

Como funciona essa pedagogia na prática?

Queremos garantir que estamos falando com todas as pessoas o tempo todo e garantir a interseccionalidade. Se eu estivesse falando sobre música, que era a aula que eu dava, e estávamos no mês da consciência negra, eu escolheria pessoas como Stevie Wonder e Ray Charles porque eles são negros, músicos e têm alguma deficiência. Trazemos a interseccionalidade. Se eu for falar sobre a Joan Armatrading, deixo claro que ela é uma compositora negra e lésbica. Há uma pedagogia por trás, chamamos de “usualising” (“normalizando”, em português). Isso é sobre quebrar a heteronormatividade, isso de as pessoas assumirem que eu sou casada a um homem, queremos encorajar a interseccionalidade usando a pedagogia da normalização e o resultado final que eu quero é justiça social. Eu queria que todos subissem no ônibus do arco-íris, entrassem nessa jornada comigo e nos uníssemos.

E qual é a reação de pais e alunos?

Felizmente, não tivemos muita adversidade por parte dos pais ou dos alunos, desde lá até agora a maior adversidade que encontramos foi por parte dos próprios professores. Eles não se sentem confortáveis falando sobre sexismo, homofobia e transfobia porque eles não foram educados da mesma forma que nossos alunos estão sendo educados hoje. Temos que fazer com que as gerações antigas se atualizem e acompanhem a geração atual para que estejamos todos falando a mesma língua porque essa divisão torna algumas situações impossíveis. Temos que quebrar essas barreiras negativas. Passei muito tempo falando com a equipe e muitos continuam achando que as crianças vão enlouquecer e isso simplesmente não é o caso. Isso é apenas homofobia e transfobia internalizados. Não é o que realmente acontece. Então é isso o que fazemos, damos aulas por exemplo de matemática, com exercícios com diagramas falando do número de pessoas que participaram da parada gay em Brighton para chegar ao resultado de quantas pessoas devem ir à de São Francisco. Apenas adaptamos parte do conteúdo escolar com linguagem LGBT+. Funcionou muito bem. Falamos sobre linguagem LGBT+, colocamos o conteúdo em contexto LGBT+ em todas nossas aulas. Pegamos o programa escolar todo e pensamos: só vamos falar de homens brancos heterossexuais e cristãos? Erradicamos isso e mudamos o programa escolar. Depois disso, aumentamos a visibilidade dentro do contexto. Quando você entra na escola, há um cartaz dizendo “aqui tratamos todos com justiça, sem importar sua idade, deficiência, identidade de gênero, orientação sexual, cor e gênero”. Todos têm que assinar esse termo dentro das regras da escola. As escolas e os pais precisam entrar em consenso em relação a isso antes de os pais enviarem seus filhos para lá. Tudo tem que ser acordado, então mudamos toda a papelada e as regulações das escolas. E então envolvemos a comunidade, todo mês fazemos uma apresentação de arte e as crianças fazem suas próprias músicas, textos, falam sobre as campanhas que estão fazendo ou sobre o que gostam na escola.

Há muitas crianças em transição na escola agora, porque como há mais visibilidade temos mais crianças trans. Isso facilitou muito porque as escolas precisam lidar com isso agora, antes havia um comportamento meio “por que precisamos falar sobre isso se não temos crianças trans?”. Como demos maior visibilidade, as crianças se sentem mais confortáveis para fazer a transição e isso estimula as escolas a agirem. Então fizemos workshops de identidade de gênero com as crianças e com a equipe para garantir que todos entenderam que amanhã Charlie vai vir a escola e continua sendo Charlie, mas o pronome adequado agora é “ele”. Então todos sabem que no dia seguinte será assim. As crianças respondem muito bem a isso e fazem vários cartazes pela escola dizendo “bem-vindo de volta, Charlie!”. É uma questão de consciência. Temos que trabalhar nisso assim que as crianças entram no sistema educacional para quebrar o estigma. Para as crianças, isso não é um problema. Estamos começando a mudar o sistema educacional britânico, mas não estamos perto de onde queremos chegar ainda. Há 22 mil escolas neste país e já trabalhamos com algumas milhares de escolas ao longo dos anos, mas é só a ponta do iceberg. Tentamos prover serviços que as escolas possam acessar facilmente, como treinamento de equipes, workshops e consultoria. Treinamos os professores, atualizamos os regulamentos, questionamos o programa escolar, aumentamos a visiblidade no ambiente e envolvemos pais e alunos na comunidade com vários eventos, esse é o nosso programa. E se todos fizéssemos isso, poderíamos ter aquele mundo com justiça social que sonhamos onde podemos ser nós mesmos sem medo de discriminação.

Muitas vezes no senso comum as pessoas afirmam que esses são assuntos “privados” que devem ser discutidos em casa, não na escola ou no ambiente público, enfim. Como você lida com esse tabu?

O tabu é um problema muito grande. Quando falamos sobre esses assuntos com os professores, eles falam sempre que “não falamos sobre esses assuntos porque é tabu”. Não é engraçado? E se usássemos isso para falar sobre qualquer assunto, por exemplo “não falamos sobre pessoas com deficiência porque é tabu”, “não falamos sobre culturas diferentes porque é tabu”. Não usamos essa linguagem com nenhuma outra desigualdade, usamos? Temos que fazer as pessoas entenderem que isso é sobre equidades, não sexo. Por algum motivo, toda vez que falamos sobre identidade de gênero ou orientação sexual, as pessoas acham que é sobre sexo. Mas não tem nada a ver com sexo. Por quê? Não é relacionado a sexo, é sobre quem você é. Há essa barreira que temos que quebrar e assim que quebramos os portões estão abertos, é sobre dar permissão às pessoas para falar sobre, porque quando você abre a conversa elas se abrem também, dizendo “nossa é verdade, meu tio sempre se transvestia nos finais de semana, sempre me perguntei como chamava isso”. As pessoas começam a falar com você sobre suas experiências e não fazemos isso o bastante. É um método que funciona porque você remove isso da questão de sexualidade e apresenta como uma questão de equidade, assim como racismo, sexismo.

Você acha que isso está relacionado ao nível de violência cometido contra pessoas gays e trans?

É o medo, não é? As pessoas estão assustadas, os níveis de violência relacionados a sexualidade são absolutamente terríveis. Esses são comportamentos aprendidos, porque não nascemos racistas, sexistas, homofóbicos ou transfóbicos. Apredemos isso. Então temos que destruir esses comportamentos desde pequenos. Se você nasceu em uma comunidade onde a homofobia é comum, você sofre uma lavagem cerebral e passa a acreditar nisso, não é? É isso o que precisamos mudar, temos que mudar as leis e é também sobre se infiltrar no sistema educacional para garantir que isso está incluso no programa escolar. A razão para esse ódio é medo. Trabalhei com professores turcos e eles me disseram que não há nada a fazer porque simplesmente não há leis para proteger pessoas LGBT+. E o único trabalho que pessoas trans podem fazer é prostituição porque eles simplesmente não são reconhecidos pela lei como seres humanos. Temos que começar mudando as leis e a educação. A homossexualidade foi legalizada em 1967, mas não podíamos falar sobre isso nas escolas, tem sido uma jornada de lutas. Em 2003 foi abolida a lei que proibia falar sobre isso em sala de aula. Então só tivemos permissão para fazer esse trabalho a partir daí.


Que lei era essa?

Em 1998, Margaret Thatcher criou algo chamado Sessão 28. Havia um livro nas bibliotecas chamado “Jenny vive com Eric e Artie”, a história de uma criança que tinha dois pais. Ela tirou isso das bibliotecas dizendo que era sobre uma “família de mentira” e que não queria isso nas escolas. Os livros foram banidos das escolas e os professores não podiam falar sobre isso, semelhante ao que está acontecendo na Rússia agora. Há um banimento total em relação a isso, eles chamam de “propaganda”. Não sei exatamente de onde vem isso, mas certamente é fruto de ignorância e medo. Infelizmente sofremos uma lavagem cerebral nessa cultura, então temos que começar do início.

Fale um pouco do impacto da organização no Reino Unido.

Acabamos de lançar um relatório sobre nosso trabalho e havia muitas coisas interessantes. Um dos dados apontados é que quanto mais você fala sobre esses assuntos, mais caem os níveis de homofobia e transfobia, simples assim. Quanto mais você envolver as crianças, melhor, e é isso o que fazemos nas nossas redes de apoio. Você está empoderando pessoas jovens a fazerem ações positivas, e assim eles descobrem que são capazes porque eles não sabem que podem, muitas vezes eles me dizem “eu acredito nisso, mas não sei o que fazer a respeito, não sei como fazer”. Vemos na pesquisa que damos voz aos jovens, ouvimos o que estão dizendo e garantimos que outras pessoas também escutem sua voz. Centenas de professores saíram do armário depois de trabalhar conosco, não apenas em termos de orientação sexual mas também de identidade de gênero. Isso é muito encorajador, ver professores trans iniciarem a transição enquanto trabalhamos nas escolas porque eles se sentem seguros. Porque nós tornamos o ambiente seguro para eles ao trabalhar lá, isso é absolutamente incrível. No momento temos 100 escolas premiadas como melhor desempenho, o que significa que alcançaram o nível de excelência em termos de orientação sexual e identidade de gênero e elas continuarão a trabalhar com isso e espalhar conhecimento para suas escolas parceiras e consórcios. Isso só vai se espalhar e ficar cada vez maior. Temos um contrato com o conselho municipal de Londres e trabalhamos pela cidade inteira, também estamos expandindo esses contratos para outras cidades, como Lancaster e Bristol, porque as escolas precisam disso e querem isso. Porque abre conversas e dá às pessoas permissão para falar sobre isso. Como são assuntos delicados, você precisa apoiar as pessoas, não é como prestar um serviço, você precisa estar lá e é o que fazemos. Somos bem práticos, e apoiamos as pessoas.

Arte: Chloe Early.

 

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Arte Amber Lynn Seegmiller

Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?
Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?

“Inconformado com o fim do relacionamento”, “crise de ciúmes”, “crime passional”… A forma como a imprensa cobre casos de violência doméstica diz muito sobre como os jornalistas entendem o que é agressão contra a mulher e sobre a sociedade que assiste a esse noticiário. Para Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?, a espetacularização da violência e a abordagem da mídia televisiva nos casos de violência contra a mulher têm tudo a ver com a posição em quinto lugar do Brasil no ranking de países que mais matam mulheres no mundo. O documentário traz uma análise crítica de especialistas em assuntos como violência contra a mulher, polícia e mídia sobre a forma como o sequestro em cárcere privado e posterior homicídio da jovem Eloá Cristina Pimentel pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves foi abordado pela imprensa brasileira em outubro de 2008. Depois de rodar em 16 festivais e ganhar cinco prêmios, o documentário está disponível online, no site Porta Curtas. Em entrevista à Think Olga, Lívia falou sobre como a televisão banaliza a violência e afeta a forma como a sociedade entende questões relacionadas a gênero, muitas vezes invisibilizando mulheres e justificando e até mesmo romantizando comportamentos machistas e agressivos dos homens.

De onde veio a ideia de fazer o documentário?

Na época do crime a cobertura foi intensa mas eu não vi em nenhum veículo a imprensa falando sobre a violência contra a mulher – apesar de estarmos diante de um caso clássico de violência contra a mulher – e isso me motivou muito a fazer o documentário. Aquilo ficou na minha cabeça um tempo até que eu li um texto da Analba Teixeira, uma militante do Nordeste que milita no SOS Corpo, e o texto falava tudo que eu pensava naquele momento. Continuei com essa ideia e quando vi os vídeos no YouTube com a hashtag Eloá e #eloaelindemberg pensei em colocar mulheres que pensam a violência e o audiovisual para analisar isso e refletir. A ideia era meio inviável porque eu não tinha dinheiro para fazer o filme até que fui contemplada pelo edital Carmen Santos de Cinema, uma iniciativa bem única da Secretaria do Audivisual, do Minc e da Secretaria Pública de Mulheres de contemplar apenas mulheres.

No documentário você mistura o áudio da narração de programas televisivos com abutres sobrevoando o céu. Fale um pouco mais sobre a linguagem visual do documentário e o que você quis dizer com essas mensagens.

Eu e meu companheiro Giovani sempre pensávamos nessa relação entre o jornalista e o abutre, de um jornalismo feito sempre de uma forma muito semelhante do abutre, que se aproxima quando uma tragédia está prestes a acontecer, que é o que o jornalismo das seis da tarde faz com muita frequência, principalmente com as classes menos privilegiadas. Além disso tinha a questão dos helicópteros sobrevoando, o que eu achava surreal porque era um conjunto habitacional, tudo estava acontecendo dentro mas eles insistiam em colocar o helicóptero girando ali, e isso se associou totalmente aos abutres. Além do paralelo com os abutres há também o estúdio preto justamente sem informação nenhuma para contrastar com essa linguagem da TV que tem legenda, publicidade em cima, é amarelo… O estúdio preto, um lugar de reflexão onde elas pudessem entrar e refletir o máximo sobre o que foi aquele circo, a forma que se noticio, enfim.

Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário
Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário

Na sua visão, qual é a mensagem que a TV passou ao falar em crime passional? Como você interpreta isso?

No filme eu tentei trabalhar três eixos: a sociedade, a polícia e a imprensa, que acabou sendo o mais forte. Primeiro no caso de sequestro eles geralmente são sigilosos então a imprensa não deveria nem ter noticiado antes que o caso acabasse, mas noticiou. Além disso tem a interferência. E a terceira camada é a romantização, construir um romance em cima do crime, construir os personagens Lindemberg e Eloá, ele bem mais complexo que ela, ele joga futebol, ele trabalha, faz várias coisas mas sobre ela não temos muita informação. Sempre se apoiando sobre a dor do Lindemberg, sobre o ciúme, sobre o que ele quer, uma construção de uma forma muito clássica, como uma novela. E como aquilo foi se estendendo, a mídia foi trazendo mais e mais informações até que aquilo precisava de um desfecho dramático, tanto que teve, ela foi morta em uma intervenção às seis da tarde. Até uma entrevistada fala “é uma coincidência né, a polícia ter entrado na hora em que todos os programas policialescos estão com a câmera ligada para lá”. A imprensa perdeu uma oportunidade muito grande de fazer uma discussão sobre violência contra mulher, sobre o que significa você começar a namorar muito cedo um cara e entrar em um relacionamento abusivo.

Você vê alguma mudança na forma de noticiar esses crimes de 2008 para hoje?

Vejo poucas mudanças. No caso da Eloá houve um grande debate sobre o papel da mídia, a Rede TV foi alvo de uma ação civil mas o foco era na exposição de duas menores de idade na TV. Não se falava sobre como a TV tratou Eloá como algoz em vez de vítima e hoje continuamos vendo isso, por exemplo no estupro coletivo no Rio. Falavam em “suposto estupro” mesmo quando eles já haviam cometido o crime mas muitas pessoas caíram em cima do G1 no Twitter, a própria população já está pressionando nas redes sobre coisas que a mídia não pode falar. Vejo que esse tipo de abordagem sensacionalista de espetacularizar continua acontecendo muito com as camadas mais pobres. Acho que estamos avançando a passos lentos na discussão sobre a mulher mas ainda há uma exploração da miséria muito forte na mídia.

Você acha que o discurso da mídia sobre a violência contra a mulher acaba reforçando essa violência – ou até influenciando?

Eu pesquisei muito para fazer esse documentário, vi muitas reportagens sobre violência doméstica e na maioria das vezes se fala sempre sobre ciúmes, o padrasto que matou a enteada por ciúmes, o ex-namorado, o marido enciumado, é muito parecido, o que me leva a crer que a forma como a mulher é retratada na mídia brasileira influencia sim a posição do Brasil como o quinto país que mais mata mulher no mundo. É muito determinante não só a forma como retrata a violência mas a presença das mulheres nos programas de auditório, nas telenovelas, com cenas de violência. Eu penso que a gente deveria desconstruir isso, por exemplo uma manchete que diz que uma mulher foi estuprada por 30 homens, eu acho que isso está errado, porque ela está como agente da frase gramaticalmente falando, deveria ser “33 homens estupraram uma mulher”, foram eles os responsáveis pela ação, não foi ela quem pediu para ser estuprada. Acho que deveríamos fazer essa discussão bem profundamente, ver como vamos reportar esses crimes e como a sociedade vai receber essa informação.

Assista ao trailer do documentário:

Assista o documentário completo no Porta Curtas.

Arte: Amber Lynn Seegmiller

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Não há dúvidas de que o aborto, quinto maior causador de mortes maternas no Brasil, é um problema grave de saúde pública. Há diferentes estimativas sobre quantas mulheres abortam no país — segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são um milhão de brasileiras por ano, enquanto dados oficiais do governo apontam 205.855 internações decorrentes de abortos no país, a maioria delas por interrupção induzida. De acordo com a ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, o número de abortos induzidos é de quatro a cinco vezes maior que o de internações, já que nem todas as mulheres recorrem a hospitais e o fazem na ilegalidade, muitas vezes colocando sua vida em risco.

O Código Penal brasileiro prevê prisão de um a três anos para quem interrompe a gravidez propositalmente, com três exceções: quando não há meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo. Mesmo quando legal, não é simples ter acesso ao procedimento e, legal ou não, mulheres continuam abortando em situações precárias que muitas vezes levam à morte. Como mudar essa realidade? “Há vários caminhos para alterar esse regime perverso de enquadramento do aborto, mas o mais simples deles é afastar as religiões das leis: nenhuma mulher será forçada a fazer um aborto contra sua vontade, mas um estado laico deve garantir as formas de proteção à saúde que estão a sua disposição. Descriminalizar é proteger a saúde; descriminalizar é permitir que cada mulher, na intimidade de suas escolhas, tome suas decisões”, afirma a antropóloga Débora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética Anis.

Por isso, a luta pela legalização do aborto também é uma luta feminista. Queremos ter o direito de decisão sobre nossos próprios corpos independentemente de dogmas religiosos ou morais, queremos ter o direito a um tratamento de saúde. Mas como nós, mulheres da sociedade civil, podemos colaborar com essa luta? Apontamos três maneiras iniciais de fazer algo a respeito:

1) Às ruas!

No final do ano passado, dezenas de milhares de mulheres foram às ruas protestar contra o projeto de lei 5.069/2013, de autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta a interrupção da gravidez mesmo em casos de estupro. O PL estabelece que os casos de estupro sejam obrigatoriamente notificados às autoridades e que as mulheres passem por um exame de corpo de delito. Protestar é importante porque mostramos que somos muitas, estamos unidas, e não vamos aceitar retrocessos.

2) Precisamos falar sobre aborto

Por ser um assunto tão tabu para a moral hegemônica, o aborto não é discutido abertamente como deveria. Muitas têm medo de serem julgadas ou até denunciadas ao falar sobre, mas uma em cada cinco mulheres já abortaram no Brasil. Ou seja, todo mundo conhece alguém que já abortou, mulheres comuns que se sentiram criminosas por não poder tomar uma decisão amparada pelo Estado. Falar sobre é importante para derrubar o mito de que aborto é algo que só “certas” mulheres fazem. “Vamos contar essas histórias de duas maneiras: rompendo a fantasia de que a mulher que aborto é uma outra distante da mulher comum, ela é a mulher comum, mas mostrando o como o aborto é um evento perturbador para as mulheres comuns pela ilegalidade. Precisamos falar mais do aborto como evento comum e retirá-lo dessa classificação ‘tabu’ imposta pelos homens para aumentar o pânico e controle. Aborto é um evento ordinário à vida reprodutiva das mulheres. Vergonhosa é sua criminalização”, afirma Debora.

3) Resistência

É inegável a manobra política e religiosa para transformar o aborto em uma questão moral. A começar pela pergunta “você é contra ou a favor do aborto?”: ninguém deve ser contra ou a favor de deixar pessoas tomarem decisões privadas sobre suas vidas seguindo sua religião ou não. A questão é: uma mulher que aborta deveria ser presa? Ou ainda: por que uma proteção à saúde da mulher é crime? “Temos que resistir, enfaticamente, às tentativas de transformar aborto em questão de opinião, pró ou contra, ou plebiscito. Nosso desafio é enquadrar o aborto em outros termos: queremos falar de mulheres, não de quando a vida humana tem início; queremos falar de tortura psicológica contra as mulheres, e não se a adoção deveria ser um dever; queremos falar de patriarcado, e não de religiões”, diz Débora. Você pode considerar errado uma mulher abortar e mesmo assim ser a favor da descriminalização do aborto para salvar vidas. O debate sobre o tema não exige respostas prontas e opinião formada sobre o início da vida ou sobre o aborto em si, já que a decisão pelo aborto é individual e íntima sem fórmulas sobre certo ou errado. Fato é que um estado democrático e laico deveria prover cuidados de saúde das mulheres e isso envolve disponibilizar o acesso ao aborto seguro a todas.

Quanto às enquetes do Senado, Débora acredita que é importante reagir e votar, mas que não é um agendamento feminista porque não é uma multidão que deveria decidir a vida privada de alguém. O que devemos fazer é enquadrar a discussão da nossa maneira e não transformar essas perguntas em enquetes, mas fazer delas agendas políticas para o feminismo. Vamos?


Arte: Victoria Pacimeo

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Há muita nebulosidade em torno do tema aborto. Muitas pessoas nem sequer o reconhecem pelo nome: chamam de “desmenstruar” ou “tirar”. Ao mesmo tempo, é um assunto urgente relacionado à saúde da mulher e que provoca fortes reações entre os brasileiros — a enquete do Senado sobre a legalização do aborto é a terceira mais popular enquete do site. Aproveitando que estamos na semana do dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto (28 de setembro), a Anis – Instituto de Bioética, em parceria com a Think Olga, preparou um compilado com as perguntas mais comuns e importantes a respeito do assunto. Saiba mais:

O que é o aborto?

Aborto não é um termo simples de definir, porque ao mesmo tempo é um conceito médico, penal e também moral. Do ponto de vista médico, significa a interrupção de uma gestação. Por vezes, é um procedimento médico de tamanha importância que pode ser a única maneira de salvar a vida de uma mulher em risco — isso explica por que é uma necessidade de saúde e um cuidado médico.

Do ponto de vista legal, o aborto está definido no Código Penal, no título de crimes contra a pessoa e capítulo de crimes contra a vida. Ou seja, é em regra um crime, a não ser nas três situações em que não é penalizado: se for a única maneira de salvar a vida da mulher, se a gestação for resultante de um estupro ou se o feto for diagnosticado com anencefalia. Do ponto de vista moral, é uma questão que causa intensa controvérsia, por ser definido por alguns códigos religiosos como um pecado ou uma grave ofensa a princípios de fé. Assim, não há uma resposta única para definir o que é aborto, depende de qual perspectiva você venha a assumir.

A partir de que momento podemos falar em gestação?

Não há um consenso sobre quando se pode falar em início de uma gestação. Em termos estritamente biológicos, a gestação para alguns tem início na fecundação, para outros tem início na nidação, quando esse conjunto de células se acomoda na parede do útero para se desenvolver. O que isso significa? Que a biologia tem diferentes estágios para dizer quando começa a gestação, e as várias respostas a essa pergunta não resolvem a discussão sobre proteção de direitos.

Qual é a diferença entre embrião e feto?

É uma diferença sobre estágios de desenvolvimento. A discussão sobre essa diferença foi um debate muito importante em um momento no Brasil em que se discutia sobre o uso de tecnologias reprodutivas, como fertilização in vitro, e pesquisas com células tronco. Embrião foi definido como o conjunto de células que se forma após a concepção, estágio que dura algumas semanas, após o qual passa a ser denominado feto, até o fim da gestação. Mas, novamente, não podemos confundir a definição biológica sobre fases de desenvolvimento celular e o debate sobre garantias de direitos, porque a biologia, com essas classificações, não responde às nossas maiores inquietações morais e legais sobre aborto.

A vida começa na concepção?

Essa não é uma discussão que a ciência responda. É verdade que na concepção há a individualização do desenvolvimento celular de um possível futuro organismo, mas esse fenômeno depende de uma atividade vital anterior, com o encontro de células que também estão vivas, como o óvulo e o espermatozóide. Ou seja, a biologia não nos fornece um marco que possa responder à controvérsia moral sobre o aborto.

Se formos buscar a resposta nas leis brasileiras, concluiremos que não, já que a Constituição Federal fala em proteger a vida, mas não fala que a vida começa na concepção. Tanto é assim que já existem hipóteses legais para realização de um aborto, que não são consideradas inconstitucionais. Mas é importante lembrar sempre que essa é uma resposta normativa para garantia de direitos: as pessoas são livres para acreditar que o desenvolvimento celular de uma futura pessoa possa começar na concepção, mas isso não nos permite conclusões sobre garantias jurídicas ou mesmo sobre a proibição do aborto.

Aborto é infanticídio?

Não. Há sentidos sociais e penais distintos para cada uma dessas práticas. Aborto é a interrupção de uma gestação, infanticídio é o homicídio de uma criança. No Código Penal hoje vigente no país, há diferenças ainda mais específicas: infanticídio não é o homicídio de qualquer criança nem por qualquer pessoa, é o crime cometido por uma mulher contra o próprio filho, durante o parto ou logo após. Já o aborto é criminalizado se for cometido pela própria grávida ou por outra pessoa, com ou sem o seu consentimento.

Quais são os tipos de aborto?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica dois métodos seguros: o aborto com medicamentos e o aborto por procedimento médico, realizado em unidades de saúde com equipamentos específicos. No Brasil, podemos dizer que há ainda um terceiro tipo, que é o aborto inseguro: aquele realizado pelas mulheres na ilegalidade, com medicamentos desconhecidos e de qualidade duvidosa, em clínicas ilegais ou ainda sozinhas com agulhas de crochê e outros meios precários e perigosos à sua vida.

O aborto é um procedimento seguro?

Sim, se realizado em condições legais e conforme as regras de cuidado em saúde. É um procedimento tão seguro que a Organização Mundial da Saúde reconhece que o aborto por medicamentos, nas primeiras semanas de gestação, pode ser realizado pela própria mulher, em casa, sem a presença de médicos ou enfermeiros. Quando realizado em uma unidade de saúde, recomenda-se repouso de apenas 30 minutos, após o qual a mulher pode voltar às suas atividades normais, caso se sinta bem para isso.

Como é o procedimento do aborto?

Depende da situação da mulher. Uma mulher que realize a interrupção da gestação no início, esteja bem de saúde, informada e esclarecida, pode fazer o aborto com medicamentos e sozinha, por via oral ou introduzindo na vagina doses repetidas do medicamento indicado. Caso suas condições de saúde não permitam, o mesmo procedimento pode ser realizado em uma unidade de saúde, com acompanhamento médico. Já no aborto por procedimento médico, se faz a retirada do conteúdo uterino com um pequeno aparelho de aspiração a vácuo, manejado por um médico.

Quais são os riscos do aborto?

De acordo com a OMS, para os procedimentos recomendados, complicações são extremamente raras e o risco de morte é insignificante. O principal risco do aborto é a ilegalidade: são as mulheres expostas aos métodos inseguros da clandestinidade que sofrem os maiores riscos.

Abortar dói?

Se realizado em condições seguras e conforme as recomendações da OMS, as dores que uma mulher pode enfrentar são semelhantes às dores da cólica menstrual, e podem ser amenizadas com o uso de analgésicos. Ou seja, não são dores muito diferentes daquelas que as mulheres já estão acostumadas em seu cotidiano. Mas é claro que a dor é dependente do acesso das mulheres à informação e aos métodos legais. Os métodos inseguros e clandestinos podem ser dolorosos e ameaçar a saúde.

Quantos abortos acontecem por ano no Brasil? É comum?

Sim, o aborto é um evento comum na vida reprodutiva das mulheres. Precisamos lembrar quem são aquelas que abortam: mulheres comuns, em geral casadas, que já têm filhos e declaram seguir uma fé cristã, segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, desenvolvida pela Anis – Instituto de Bioética. E são milhares: 1 em cada 5 mulheres até os 40 anos no Brasil. Podem ser a irmã, a avó, a vizinha, a professora, a manicure ou a médica. E este é ainda um número subestimado, porque, em um contexto de criminalização, as mulheres ainda têm muitos motivos para mentir e omitir sua experiência de aborto em uma pesquisa. A certeza é de que é, sem dúvida, um fato comum.

O que acontece com a mulher após o aborto?

Se ela não for denunciada, nada. Ela pode talvez viver a vida amedrontada, porque a lei penal a ameaça com prisão de 1 a 3 anos caso seja descoberta. Mas nos países em que o aborto é legalizado, as mulheres simplesmente seguem com as suas vidas e suas decisões.

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Em que casos é permitido abortar?

Em três casos: caso seja a única maneira de salvar a vida da mulher, caso a mulher tenha engravidado em decorrência de um estupro ou caso a mulher esteja grávida de um feto com anencefalia.

É simples conseguir um aborto nos casos permitidos por lei?

O Censo do Aborto Legal, realizado pela Anis – Instituto de Bioética, mostrou que, em todo o país, existem apenas 37 serviços que realizam o aborto em caso de gravidez decorrente de estupro; 30 declararam realizar o aborto em caso de anencefalia e 27 declararam fazê-lo em caso de risco de morte para a mulher. Em 7 estados do país, não há nenhum serviço em atividade e em apenas 4 estados há serviços fora das capitais. Mesmo nas localidades onde há o serviço, as mulheres ainda enfrentam intensas barreiras morais e religiosas para serem atendidas. Por isso, não, não é simples conseguir um aborto nem mesmo nos casos permitidos em lei.

Uma mulher comete um crime ao dizer que fez um aborto?

Uma mulher não deve dizer que fez um aborto em público, porque ela corre o risco de ser denunciada. Dizer que cometeu um aborto é confessar um crime, o que pode gerar investigação policial e penal. O conselho é sempre que não se diga, a não ser que se faça uma ampla discussão e debate sobre o tema, em que várias mulheres decidam contar suas histórias como forma de resistência política.

O que significa legalizar o aborto?

Significa que as mulheres não vão para a cadeia por terem feito um aborto. Nenhuma mulher será obrigada a fazer um aborto caso o procedimento seja legalizado, mas aquelas que o fizerem não serão presas.

Por que o assunto é tão tabu?

Porque diz respeito ao controle da reprodução, ou seja, falar em aborto é falar sobre o controle das famílias, um tema que é central para muitas religiões, e por isso gera tanta controvérsia moral. Mas é importante lembrar que o aborto nem sempre foi condenado pela Igreja Católica, por exemplo. Da mesma maneira que o tema se transformou em tabu em um momento histórico, podemos também nos esforçar para colocá-lo em um outro tipo de debate: trazendo as mulheres e suas necessidades de saúde para o centro da discussão, e debatendo abertamente sobre direitos.

Por que o feminismo considera o aborto um direito da mulher?

Porque todo o processo que diz respeito à gravidez e ao parto ocorre nos corpos das mulheres. Assim, não há como não escutá-las sem fazer disso uma grave violação de direitos. Colocar a questão nesses termos é assumir que o debate sobre o aborto não é só uma demanda feminista, é uma demanda de quem quer que reconheça que as pessoas afetadas pelas leis devem fazer parte de sua formulação. Apenas uma mulher pode dizer sobre o que é tomar uma decisão tão íntima e crucial em sua vida, como a de gestar ou não um futuro filho. Não há outro caminho em uma democracia laica a não ser o de ouvir as mulheres nesse tema.

Por que as mulheres abortam?

As mulheres abortam porque em determinadas circunstâncias chegam à conclusão de que aquele não é o momento para uma gravidez e para um filho. Quando abortam, as mulheres sabem o que estão fazendo, elas tomam uma decisão baseada em suas necessidades e experiências. E nós sabemos quem são elas: são mulheres que já são mães e sabem o que é preciso para cuidar de uma criança, que são casadas e têm uma família, que acreditam em uma fé para decisões importantes da vida. As razões que essas mulheres enfrentam para decidir por um aborto são singulares e íntimas e só devem ser enfrentadas por elas mesmas.

Por que as mulheres ainda engravidam sem querer apesar da disposição de contraceptivos e camisinha?

Primeiro, porque os métodos falham. Segundo, porque se acredita que cabe apenas às mulheres e não aos homens planejar a reprodução, o que impede que o aprendizado sobre a prevenção seja conjunto e compartilhado. Terceiro, porque nem todas as mulheres têm acesso à informação e acesso aos métodos de contracepção. Quarto, porque quanto ao uso de métodos como a camisinha, as mulheres precisam negociar seu uso com os homens, o que é negado por muitos. Quinto, porque o uso de vários métodos exige uma disciplina a longo prazo que é muito difícil de ser mantida, especialmente se não falarmos sobre educação sexual nas escolas, com amplo acesso à informação e ao debate sobre sexualidade.

Por que não ter o filho e dar para adoção em vez de abortar?

Porque se a gravidez é obrigatória, se impõe que essa mulher experimente a barriga crescer, o corpo modificar e dar a luz, se constituindo socialmente como uma mulher que é mãe e que será questionada sobre a criança nascida. Não é possível conceber a mulher apenas como um repositório de gravidez: não é simples passar pela gestação de um futuro bebê que não se vai maternar, e essa pode ser uma experiência de intenso sofrimento às mulheres. Esse é mais um motivo pelo qual é preciso ouvir as mulheres se queremos falar sobre decisões reprodutivas.

Se o aborto for legalizado, as mulheres vão ser obrigadas a abortar?

Não. Pela legislação atual, as mulheres são obrigadas a manter uma gestação em quase qualquer circunstância, mas, se o aborto for legalizado, não haverá uma obrigação oposta. A única coisa que haverá é a possibilidade de escolher prosseguir ou não com a gestação, conforme o que se considere melhor para sua vida e saúde.

É verdade que, onde o aborto foi legalizado, a prática se tornou menos comum, ou seja, o número de abortos realizados caiu?

Sim, e por uma questão muito simples. Uma vez que o aborto é legalizado, as mulheres passam a ser atendidas na rede oficial de saúde e passam a poder ser melhor informadas sobre contraceptivos e planejamento familiar, que são procedimentos incluídos no procedimento de cuidado ao aborto. É no atendimento a essas mulheres que é possível conhecer melhor quais são as falhas da política de saúde para melhor corrigi-las, e assim atuar com mais eficácia na prevenção às gestações indesejadas, ao mesmo tempo em que não se deixa de garantir o aborto como um direito.

O que uma conversa sobre “ideologia de gênero” tem a ver com aborto?

Quem acredita que falar sobre sexualidade e gênero nas escolas é “ideologia” rejeita que se ensine adequadamente sobre reprodução, planejamento familiar, métodos contraceptivos, formas de combate à violência e prevenção a doenças ou gestações indesejadas. Falar sobre tudo isso é um dos caminhos para fazer com que o aborto seja um procedimento cada vez menos necessário, uma vez que se possa fazer uma forte aposta em acesso à informação e prevenção. Curiosamente, a conclusão lógica é que todos que defendem políticas eficazes para redução do número de abortos deveriam ser ferrenhos partidários da educação sexual nas escolas — o que é exatamente o contrário do debate que temos visto.

Arte: Camila Carlow

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Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô
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A Afrô no canal Mulheres de Impacto
A Afrô no canal Mulheres de Impacto

Em uma sociedade em que a beleza da mulher negra é continuamente ignorada ou rejeitada, reconstruir a autoestima e aprender a se achar linda pode ser um desafio. A melhor forma que Élida Aquino, Bárbara Vieira e Graucianna Santos — as mulheres por trás da Afrô — encontraram foi em comunidade, trabalhando a autoestima em grupo e apoiando uma à outra. Por isso elas criaram a Afrô, uma startup com base no Rio de Janeiro que oferece um clube de assinaturas a mulheres negras e mulheres não negras com cabelo crespo ou cacheado. A cada edição, as assinantes recebem em suas casas produtos de beleza personalizados de acordo com o cadastro na plataforma da Afrô. A startup está em campanha de financiamento coletivo no canal Mulheres de Impacto, da Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres até dia primeiro de outubro.

A ideia começou quando Élida Aquino cursou empreendedorismo na Universidade da Correria, uma iniciativa da Casa Dharma. Élida sabia que queria criar um negócio de estética voltado a mulheres negras, só não sabia como. Depois de trocar ideia com amigas que moram nos Estados Unidos e têm uma oferta mais ampla e direcionada de produtos de beleza para mulheres negras, teve a ideia de criar o Afrô. Funciona assim: a assinante cadastra seus dados na plataforma e a cada edição recebe uma caixa do clube de assinaturas, a Afrôbox, contendo de cinco a oito produtos, entre amostras, miniaturas e tamanhos reais. Os produtos serão selecionados de acordo com o perfil cadastrado, que traz dados como cor favorita, tipo de cabelo, tom de pele, etc. Assim, as assinantes poderão experimentar e evitar comprar um produto errado. “A Afrô, junto com curadores, seleciona marca, produto, verifica o perfil da assinante e coloca muito provavelmente o que ela vai curtir e testar dentro da casa dela. Além disso, a gente consegue colocá-la em contato com a marca pra ela dizer no pós-venda o que gostou e não gostou, um feedback que volta para a marca. Ela também pode pegar o que mais gostou e comprar com mais facilidade. Fazemos o contato entre quem não é interpelada pelo mercado e o mercado que está em constante desenvolvimento”, diz Élida, fundadora do Afrô.

Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô
Bárbara, Graucianna e Élida: as mulheres incríveis por trás da Afrô

A Afrô vem para preencher um gap no mercado de beleza: quando há produtos voltados para a mulher negra, a comunicação com essas mulheres é falha, e quando há comunicação, como em blogs ou páginas, não é oferecido o serviço de venda, seleção e/ou entrega de produtos. “Meninas com cabelos muito crespos, numa classificação comum do cabelo natural, ainda sentem dificuldade em se ver no rótulo porque esteticamente o mercado rejeita esse tipo de cabelo muito crespo que é socialmente reconhecido como duro, difícil, ruim. Sinto que as grandes marcas ainda têm dificuldade de quebrar com esse estereótipo. Da mesma forma as meninas com pigmentação muito escura, falando de maquiagem, não se veem no rótulo. Muitas raras vezes elas estão estampadas nas peças publicitárias ou nas ações de marketing das marcas”, afirma Élida.

Segundo uma pesquisa da revista Galileu do ano passado, em média, as marcas de beleza oferecem três vezes mais opções de maquiagem para pele branca do que para pele negra. E quando oferecem, muitas vezes não sabem como atingir o público, não sabem conversar com as mulheres negras. Foi o que aconteceu com uma amiga de Élida, que só usava uma base de uma marca específica que saiu de linha por falta de procura, segundo a própria marca. Mas a marca em questão não divulgava o produto para mulheres negras, mostrando despreparo e descaso do mercado em relação a essas mulheres. “A personalização, se preocupar minimamente em entregar o que interessa, o que é útil é o que a Afrô traz no DNA. Não estamos aqui pelo dinheiro, sabemos que há um potencial gigantesco e estamos prontas para assumir essa demanda, mas não estamos aqui para enriquecer, e sim servir porque é um dever, esse cuidado é quase inédito com as mulheres cujo grupo nós fazemos parte. Não queremos só entregar produtos, queremos também entregar carinho”, diz Élida. O Afrô continua em campanha de crowdfunding até outubro e você pode apoiar o projeto financeiramente ou compartilhando com seus amigos. Se você é uma mulher negra ou com cabelo afro e gostaria de compartilhar seus desejos ou frustrações em relação a produtos de beleza, a Afrô está de braços abertos e convida você a entrar em contato através da página ou site.

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Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro
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Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro
Desabafa! é um projeto que busca discutir a cultura do estupro

Certa vez, no metrô do Rio de Janeiro, a cientista social Cris Lustrosa foi abordada por uma mulher que acabara de sofrer um assédio no vagão. A mulher disse que precisava falar sobre aquilo, mas que ninguém queria ouvir. Cris ouviu. Depois do desabafo, o assediador continuava encarando a mulher e elas o enfrentaram juntas. A tensão virou alívio: desabafar fez toda a diferença. Depois disso, Cris teve a ideia de criar o Desabafa!, um projeto colaborativo com o objetivo de colar adesivos no espaço público em combate à cultura do estupro. O Desabafa! está em campanha de financiamento coletivo pelo canal Mulheres de Impacto, uma parceria entre Think Olga, Benfeitoria e ONU Mulheres até dia 2 de outubro.

A primeira ação do Desabafa! será fazer adesivos com a colaboração de todas as mulheres que quiserem participar com frases expondo o que elas acham que deveria ser dito sobre assédio de rua. “A ideia é escancarar o assédio mesmo, tentar falar sobre isso e combater a normalização do abuso. Às vezes escancaramos o assédio e depois volta a parecer algo banal, não podemos deixar isso acontecer. Se não falarmos, nada muda”, diz Cris Lustosa, criadora do projeto.

Dica: o projeto oferece uma série de recompensas legais para quem contribuir financeiramente
Dica: o projeto oferece uma série de recompensas legais para quem contribuir financeiramente

Serão três tipos de adesivos: marcador de estupro (mostrando onde uma mulher foi estuprada para deixar claro a todos que isso acontece o tempo inteiro), assédio (com o que deveria ser dito para quem assedia ou olha de forma inadequada para mulheres em espaços públicos) e sororidade (propondo a união de mulheres na luta contra o assédio). Os adesivos serão colados por mulheres em locais públicos e distribuídos em eventos feministas. “É importante falar para sabermos que não estamos sozinhas e também falar além de nós. Quando penso em adesivos, penso que estamos falando para o mundo, para homens e também para mulheres que às vezes não percebem que estão passando por isso, não atinaram que está errado. É um desabafo mesmo, dizendo que não queremos mais isso, não está legal”, afirma Cris.

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O Desabafa! Já alcançou mais de 60% de sua meta até agora, mas precisa alcançar os 100% caso contrário o dinheiro será desenvolvido e o projeto não será concretizado. Você pode contribuir financeiramente com a campanha, compartilhando a ideia com seus amigos ou ainda preenchendo este formulário. Confira o vídeo abaixo sobre o projeto:

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Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente
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O objetivo principal da Mãe Solo é desromantizar a maternidade
O objetivo principal da Mãe Solo é desromantizar a maternidade

“Ser mãe é padecer no paraíso”, “mãe dá conta de tudo”, “mãe guerreira”… Os mitos sobre a maternidade estão por todos os cantos reforçando a ideia de que é normal abrir mão de absolutamente tudo para ter um filho. Sem o apoio total da pessoa com quem a mãe gerou a criança isso pode ser solitário demais. Para ajudar outras mulheres — casadas ou não — que vivem a solidão de criar um filho ou uma filha, a designer Thaiz Leão criou a Mãe Solo, uma página no Facebook que questiona a romantização da maternidade com muito bom humor e em tirinhas. A Mãe Solo é um dos projetos do canal Mulheres de Impacto, uma parceria entre Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres, e está atualmente em campanha de financiamento coletivo para espalhar o conteúdo produzido por Thaiz a várias partes do país.

A Mãe Solo começou quando Thaiz resolveu usar sua experiência como desginer e ilustradora e sua paixão por HQ para desabafar sobre os desafios da maternidade. Postou uma tirinha despretenciosa em seu Facebook e acabou arrecadando várias curtidas e pedidos de “quero mais”. A fim de centralizar o conteúdo em um lugar só, criou uma página no Facebook que dois anos mais tarde virou uma comunidade de mais de 57 mil pessoas. “Era tanta hipocrisia que eu via em relação à maternidade, tanta ironia em relação aos comerciais, àquela ideia que a gente tem de criança bem comportadinha e que o amor de um filho paga tudo que no final da noite eu ficava pensando ‘não é possível’. Há muita imagem errada que a gente compra na vida e a da maternidade eu já estava vacinada”, conta Thaiz.

Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente
Thaiz Leão, criadora do Mãe Solo, e seu filho Vicente

Em suas tirinhas, Thaiz questiona a romantização da maternidade e estimula reflexões sobre os papéis de mãe, pai e família. “Eu primo por construir um conteúdo independente, sempre crítico, sempre renovando essa visão problematizadora de fantasias que criam para a gente sobre a existência tanto em relação a padrão de beleza para mulher quanto padrão de comportamento de criança”, conta. Alguns de seus diferenciais é que ela faz isso com muito bom humor e através da arte, com suas ilustrações próprias. Mesmo com desenhos fofos e uma política de empatia que promove o diálogo e se dispõe a criar conexões entre as pessoas, a Mãe Solo também briga quando precisa e sabe falar sério. “A minha política é de quebra. Quero que todo mundo entenda que cada um vive sua individualidade e deve ser respeitado dentro dela, a convivência só é possível quando existir empatia em relação uns aos outros”, diz Thaiz.

Thaiz precisa se dividir em cinco turnos diários para conseguir pagar as contas, cuidar do filho e tocar o projeto, mas diz que os comentários de outras mães agradecendo pelo conteúdo e dizendo que aquilo lhes deu força são o que a mantém trabalhando. Para ela, o importante é questionar a romantização da maternidade e fazer as pessoas pensarem a respeito da sobrecarga de mães que sozinhas ou acompanhadas precisam dar conta não só de sobreviver e criar um filho mas corresponder a padrões impossíveis da sociedade. “Existir como mãe do jeito que nos cobram existir hoje é muito difícil, é um papel inalcançável. Chega de falar que mãe é multitarefa, que mãe dá conta de tudo, eu só vejo mulher ficando louca nessa pressão. Toda supermãe é uma mulher sobrecarregada que poderia estar investindo a energia que tem enquanto ser humano em muitas coisas”, diz Thaiz.

A Mãe Solo acabou de atingir a primeira meta do crowdfunding, garantindo a impressão de 2 mil exemplares do livro Chora Lombar e a construção do portal do projeto. Mesmo assim a arrecadação continua até dia 16 de setembro rumo às próximas metas. Se a segunda meta for batida, a ideia é comprar equipamento para mais produção de conteúdo e fazer uma tiragem especial de mil livros extras para doação em maternidades, casas de parto públicas e em ONGs. Se você gostou do projeto, pode ajudá-lo financeiramente ou compartilhando a ideia com seus amigos.

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Meninas treinam durante atividades da Longarina
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Participantes das aulas de surf da Longarina
Participantes das aulas de surf da Longarina

Duas paulistanas que amavam o mar, mas não tinham amigas para acompanhá-las no surf. Uma descia para Baleia, a outra para Maresias. Os vizinhos surfavam e elas também queriam aprender, mas nenhuma amiga tinha o mesmo interesse. Cristiane Brosso acabou se mudando para a Austrália e lá aprendeu a surfar sozinha. Também sozinha, apesar da companhia do ex-namorado, Vanessa Bertelli comprou uma prancha e aprendeu na raça a surfar enquanto o ex pegava suas ondas lá longe. Anos mais tarde, as duas se encontraram e montaram a Longarina, uma organização que empodera mulheres através do surfe, para que outras meninas não passem pelo mesmo e possam aprender a pegar ondas juntas. Agora, elas querem montar um espaço para receber meninas do Brasil inteiro e dar aulas de surf, além de realizar atividades em grupo como yoga, aulas de alimentação saudável e troca de experiências sobre ser mulher. Para isso, a Casa Longarina está em campanha de financiamento coletivo através do canal Mulheres de Impacto, uma parceria da Benfeitoria com a Think Olga e a ONU Mulheres, até a semana que vem.

Longarina oferece conteúdo e atividades para meninas interessadas no surf
Longarina oferece conteúdo e atividades para meninas interessadas no surf

O Longarina começou há pouco mais de três anos como um canal de disseminação de conteúdo sobre o surf direcionado para mulheres. Hoje, conta com um alcance de 1,5 milhões de leitoras nas redes sociais e 40 mil acessos por mês no site, além de ter atingido 500 mulheres presencialmente com aulas de surfe. “O Longarina é um macro projeto que surgiu da necessidade de comunicar para outras meninas o que a gente não encontrava dentro do universo dos esportes de prancha. Percebemos que só escrever não era suficiente, então começamos atividades porque era preciso ensinar o caminho das pedras. Fizemos eventos e reuniões com as meninas para levá-las a prática do surf e foi o que deu mais liga”, conta Vanessa, uma das criadoras do projeto.

Meninas treinam durante atividades da Longarina
Meninas treinam durante atividades da Longarina

Além do conteúdo, hoje a Longarina organiza a logística para levar meninas até Maresias, onde ganham aulas de surf. Há dois tipos de atividade: bate e volta, quando as meninas regressam no mesmo dia, ou acampamento, quando elas permanecem durante o final de semana e recebem aulas também de yoga, exercício funcional, alimentação saudável e cultura surf. Com a casa, será possível oferecer uma estrutura com aulas, equipamentos, alimentação saudável, orientação física, cobertura audiovisual, cultura surf , projetos socioambientais e oficinas de life coach focadas no bem estar e empoderamento da mulher, inclusive o das meninas estudantes da rede pública local de Maresias. “Ainda hoje sentimos uma certa resistência masculina no mar e por esse motivo nos unimos cada vez mais para quebrar isso. Muitas atletas acabam não sendo patrocinadas por não terem a imagem de modelo. Muitas meninas nos escrevem com medo de mostrar o próprio corpo na aula, mas sempre incentivamos e dizemos que a grandiosidade do surfe é muito maior, na hora você nem pensa no seu corpo, você só quer saber de pegar onda”, afirma Vanessa.

A Casa Longarina está na fase final de crowdfunding e, se você se interessou pelo projeto, pode apoiá-lo financeiramente ou compartilhando a ideia com seus amigos. Confira abaixo alguns vídeos do projeto:

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Voluntárias colam lambes em São Paulo
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Muro com lambes da Feminicidade em São Paulo
Muro com lambes da Feminicidade em São Paulo

“Quando aquela dor ressoa em outras mulheres, então eu tenho mais coragem”, diz um lambe-lambe colado em um muro na Rua Augusta, em São Paulo. A frase é de uma mulher que foi entrevistada por voluntárias da Feminicidade, uma iniciativa que registra depoimentos de mulheres, transforma-os em lambe-lambe e espalha pelas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Com a hashtag #suahistóriaimporta, a ideia é ocupar o espaço público e ao mesmo tempo dar visibilidade às narrativas de todas as mulheres, proporcionando diálogo e disseminação de informações como forma de empoderamento. O projeto faz parte da Mulheres de Impacto, uma parceria entre Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres, e atualmente está em fase de financiamento coletivo.

Lambes colados em um muro em São Paulo
Lambes colados em um muro em São Paulo

Inicialmente a Feminicidade era um projeto do Atados, uma plataforma social que une ONGs a voluntários, como parte de uma ação promovida pela plataforma em 2015. A intenção era resgatar o sentido original do Dia da Mulher, sem o sentido comercial da data e questionando o espaço da mulher na cidade hoje. Voluntárias coletaram histórias, transformaram em lambes e espalharam por São Paulo. Em 2016, o projeto não seria tocado novamente por falta de suporte, então um grupo de mulheres se voluntariaram e não apenas fizeram os lambes como também criaram um evento e transformaram o projeto em algo muito maior que ocupa três cidades brasileiras e conta com reuniões semanais e uma série de outras atividades. “Acabou virando algo muito maior, além dos lambes fizemos um evento com mais de 40 atividades, tudo na colaboração, com voluntários, tudo grátis. No evento, muitas pessoas pediram para participar mais. Percebemos que a unidade de tudo que fazemos e falamos é que acreditamos que as histórias das mulheres importam e queremos que as vozes ocupem os espaços urbanos, que as mulheres se encontrem e troquem experiências”, diz Laura Mestres, voluntária e organizadora da Feminicidade.

O movimento ganhou força e amplitude e já contou mais de 120 histórias através dos lambes. Para as mulheres do Feminicidade, é importante tomar os espaços urbanos para combater o assédio de rua e também para atingir todos que circulam na cidade. “Faz sentido porque sentimos que não temos lugar no espaço urbano por causa do assédio, de você estar sempre tendo que se esconder, é um espaço dominado pelos homens e também queremos ter nossa cota devida do espaço, queremos poder circular com segurança”, afirma Laura. Mais de mil mulheres já participaram dos espaços de fala promovidos em encontros, que acontecem semanalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Faz muita diferença você se encontrar com pessoas que têm vivências próximas das suas. Às vezes você nunca conversou com ninguém sobre isso e descobre novas formas de lidar, novas pessoas com quem conversar ou desabafar. Eu passei por isso em uma roda em que participei, eu não me senti mais sozinha, senti que estava tudo bem”, conta Laura.

Reunião da Feminicidade na sede do Atados
Reunião da Feminicidade na sede do Atados

Além das intervenções urbanas e os eventos, a Feminicidade fez uma parceria com o Plano Feminino, que dá oficinas de jornalismo para meninas nos bairros de Grajaú e Capão Redondo, e coletaram histórias das mulheres do local para espalhar lambes por lá também. “A longo prazo queremos cada vez mais chegar a mulheres que não têm contato no dia a dia com o feminismo, que não estão em um lugar privilegiado, queremos chegar na periferia, contar cada vez mais histórias e pensar em novas formas de contar essas histórias”, diz Laura. Qualquer pessoa é bem-vinda para participar da Feminicidade, seja como voluntária ou participante das reuniões e eventos. Não há diretrizes ou regras a seguir, a ideia é somar. Se você gostou do projeto, você pode contribuir financeiramente ou participar da Feminicidade como puder, desde divulgando a ideia até se oferecer como voluntária. Veja alguns vídeos da campanha abaixo:

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A Cores de Aidê também criou coreografias próprias
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A banda Cores de Aidê se apresenta nas ruas de Florianópolis
A banda Cores de Aidê se apresenta nas ruas de Florianópolis

Do Rock n’ Roll nos Estados Unidos à capoeira no Brasil colônia, a música mostra sua força política: expressa emoções, transmite mensagens, cativa e envolve. Inspiradas pelo Samba Reggae, ritmo afro-brasileiro que surgiu em Salvador na década de 1980 com letras de protesto, 16 mulheres se uniram em Florianópolis e criaram uma banda para denunciar opressões de gênero, a Cores de Aidê. Com suas roupas coloridas, seus tambores e variados instrumentos de percussão, elas falam sobre mulheres de diferentes cores e classes e exaltam a mulheridade. Depois de um ano e meio atuando na capital catarinense, elas comporam mais de dez canções, criaram um bloco de rua que conta com dezenas de mulheres e se preparam para gravar um CD via financiamento coletivo através do projeto Mulheres de Impacto, uma parceria da Benfeitoria com a Think Olga e a ONU Mulheres.

A banda conta com mulheres de diferentes etnias, idades e vivências
A banda conta com mulheres de diferentes etnias, idades e vivências

Tudo começou em 2015 no Morro do Quilombo, em Florianópolis. Sarah Massignan, regenta da banda, reuniu um grupo de mulheres para mergulhar no universo percussivo do Samba Reggae. Cada uma contribuiu de uma forma, algumas com a voz, outras com os braços para tocar os tambores, uma com a composição de músicas, outra com o logo… Em pouco tempo surgiram músicas próprias, arranjos, coreografias e uma conexão forte de mulheres com base na liberdade e no respeito à união de etnias. “Há uma diversidade enorme de mulheres no grupo em termos de idade, regiões, de etnia, então aprendemos muito umas com as outras. E falamos sobre a mulher, sobre vários tipos de mulheres. São mulheres falando de nós pra nós”, diz Dandara Manoela, cantora da Cores do Aidê.

O nome é inspirado na personagem Aidê, uma escrava africana que recebeu uma proposta de casamento do seu senhor em troca de “liberdade”. Em vez de se submeter ao homem, Aidê negou a proposta e fugiu para o quilombo. “Pensamos que Aidê representa as mulheres de formas diversas, essa questão da força, de não aceitar, não se submeter, do empoderamento mesmo. Cores de Aidê é no sentido de mostrar que somos várias, somos muitas”, diz Dandara.

Nas letras, a banda denuncia opressões de gênero e exalta as mulheres
Nas letras, a banda denuncia opressões de gênero e exalta as mulheres

As integrantes da Cores de Aidê começaram se apresentando na rua e passaram a ser convidadas para tocar em vários lugares de Florianópolis. A cada apresentação, dezenas de mulheres pediam para participar da banda, por isso a criação de um bloco de rua que pudesse agregar todas as interessadas. No último final de semana, o bloco foi às ruas com 92 integrantes. A popularidade da banda já causou um impacto em Florianópolis e através das letras elas espalham mensagens sobre desigualdades. “Nas nossas letras falamos de diferentes mulheres, há letras especificamente sobre mulheres negras, outras sobre mulheres indígenas, outras de mulheres de forma geral. Usamos o Samba Reggae, que é uma expressão política, só que através da arte, e com foco em gênero e algumas pautas específicas, mas não só. Acreditamos que só o movimento por si só, o fato de nos encontrarmos todos os finais e semana para tocar percussão e fazer nossas letras, já é político no sentido de mulheres unidas e fazendo coisas por elas mesmas”, explica Dandara.

A Cores de Aidê também criou coreografias próprias
A Cores de Aidê também criou coreografias próprias

A campanha de crowdfunding está aberta no site da Benfeitoria até dia 16 de setembro. Se a primeira meta for atingida, o grupo conseguirá gravar seu primeiro CD com 12 músicas autorais. Caso a segunda meta seja alcançada, haverá também um show de lançamento. Você pode contribuir financeiramente com a campanha ou compartilhando o projeto com seus amigos.

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