A jornada da mulher trans para trabalhar com dignidade

Evelyn Mendes mal havia encerrado sua palestra no BrazilJS, um dos principais eventos de javascript do mundo, e sua caixa de e-mail já estava lotada de mensagens machistas e violentas, muitas delas, ameaças de morte. O motivo — veja só a ironia — é que Evelyn havia falado no evento sobre a desigualdade e domínio masculino na área de tecnologia da informação.

Evelyn é uma mulher transsexual e, para os agressores transfóbicos, este fator tornou sua presença no evento ainda mais ultrajante. “Fui chamada de aberração e continuo sendo. Vira e mexe ainda mandam e-mail. Eles (os agressores) também têm meu nome de registro, pois é fácil de conseguir, e usam isso para me atingir”, contou em entrevista para a Think Olga.  

A programadora fez uma denúncia formal na Delegacia da Mulher em Porto Alegre, conta com uma advogada fornecida pela BrazilJS para acompanhar seu caso e aguarda decisão da justiça na área de crimes digitais. Enquanto isso, Evelyn segue levando sua experiência em outras palestras e dá continuidade a uma educação sobre machismo e como tal comportamento pode ser prejudicial. Principalmente para mulheres trans nas áreas da tecnologia.

Segundo Daniela Andrade, analista de sistemas na ThoughtWorks Brasil e membro do Grupo dos Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS), a agressividade que Evelyn sofreu na BrazilJS, infelizmente, se faz presente em diversas outras áreas do mercado de trabalho, o que contribui para a marginalização da imagem das pessoas transexuais e travestis. “O Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Aqui, 90% das minhas iguais estão se prostituindo. A sociedade brasileira trata travestis e transexuais como aberrações. A gente é assassinada, mas a culpa continua sendo nossa”.

Diante deste cenário violento e incerto, a II Marcha pela Paz, realizada em São Paulo no dia da Visibilidade Trans (29 de janeiro), teve como tema este ano “Sou trans, quero dignidade e emprego”. Renata Peron, assistente social e presidente do Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais (CAIS) de São Paulo, explica que os protestos da caminhada foram transcritos em uma carta e encaminhado para Câmara Municipal de São Paulo, para a criação de projeto de lei. A esperança é de conseguir cotas de 5% para pessoas trans em concursos públicos e dignidade no mercado de trabalho do estado, além de influenciar outros estados a fazerem as mesmas mudanças. Entretanto, com o cenário político conservador em que o Brasil está inserido atualmente, não houve muitas mudanças desde o pedido.

Contudo, Renata não desanima. “Queremos que o estado reconheça que tem uma dívida muito grande com as travestis e transexuais. Ano que vem tem eleições e os políticos vão precisar conversar sobre projetos de inclusão”, argumenta.

Ela também elogia a conduta da empresa contratante ao disponibilizar uma advogada para Evelyn, além do apoio da ThoughtWorks, onde Evelyn atuava antes do ocorrido: “É assim que diferenciamos as situações em que a instituição quer lucrar em cima da sua representatividade ou de fato a vê como um ser humano que merece respeito”, finaliza.

A partir dessa reflexão trazida por Renata, nós perguntamos à Daniela Andrade como uma empresa deveria agir para proteger seus funcionários trans, especialmente considerando que não há leis específicas na Legislação do Trabalho que assegurem seus direitos. Para ela, é preciso ir além da preparação para lidar com casos de transfobia, focando em criar um ambiente seguro para o profissional contratado.

É preciso entender as especificidades e particularidades da vida dessa pessoa. Além de seus desafios profissionais, há os desafios do restante de sua vida morando em um país com uma enorme transfobia institucional”, justifica Daniela. Listamos abaixo os apontamentos trazidos pela profissional e ativista:

A preocupação precisa estar presente desde o processo seletivo

“O processo seletivo precisa ser intencional, considerando que grande parte da população de travestis e transexuais não teve oportunidade para se especializar. Intencional no sentido de verificar se a pessoa demonstra no processo seletivo empenho, capacidade, força de vontade para superar os desafios colocados, ao invés de se focar apenas em relação à bagagem profissional e se a pessoa estudou nas consideradas universidades de ponta. Se o foco for esse, raramente teremos uma pessoa travesti ou transexual dentro das empresas”.

Leia mais: Mulheres e o mercado de trabalho: a primeira barreira é a entrevista

Acompanhamento técnico com inserção de mentor/coach  é fundamental

“Novamente a empresa precisa entender que esse profissional teve menos oportunidades que os demais ou que a grande maioria. De forma que é preciso compreender, juntamente com a pessoa, suas dificuldades e necessidades, entrando num acordo entre o que pode ser melhor para a empresa e melhor para o profissional, criando uma estratégia que atinja os objetivos de ambos”.

Garanta um plano de carreira

“Também é necessário um plano de carreira no sentido de verificar se os salários, os acessos às promoções de cargo são equânimes, a fim de que essa população não esteja sempre ganhando os menores salários, e ocupando os cargos considerados os mais subalternos sem qualquer possibilidade de ascensão dentro de um projeto justo e com regras objetivas, valorizando-se assim essa mão de obra”.

Eduque contra a transfobia

“É preciso instruir os funcionários da empresa – da recepção à diretoria – sobre o que vem a ser identidade de gênero e como respeitar essa população. É preciso, por exemplo, não constranger ou discriminar a pessoa que ainda não teve a oportunidade de corrigir judicialmente seus documentos, mas que necessita ser tratada pelo seu nome social, sem que seu nome civil seja exposto às demais pessoas na empresa. Da mesma forma, ser tratada pelo gênero que reivindica, se masculino e/ou feminino”.

Tenha um ambiente seguro

“Da mesma forma possibilitar que a pessoa utilize o banheiro e/ou vestiário de acordo com o gênero com o qual se identifica, lembrando que as necessidades são realizadas dentro de cabine privativa dentro dos banheiros, prezando assim pela dignidade constitucional a que essa população também deveria ter direito”.

Arte: Decue Wu.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.