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O dia em que Think Olga e Obama debateram feminismo


No começo de outubro, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama estava no país para uma palestra organizada por um jornal brasileiro e, nessa semana de visitação a São Paulo, fui convidada a encontrá-lo em um jantar privado oferecido a seis convidados.

O pequeno grupo era formado por pessoas que pudessem trazer pautas próximas aos novos planos de Obama. Após a presidência, ele pretende mentorar e conectar jovens líderes ao redor do mundo por meio de uma fundação que leva seu nome.

Na manhã do mesmo dia, durante o evento, ele já havia adiantado publicamente um pouco do porque essa abordagem é importante:  “claro que o governo é importante em áreas como educação e esforços para reduzir a pobreza, mas nada vai mudar se, na comunidade local, pessoas não se encontrarem, construírem confiança e aprenderem a trabalhar juntas. Isso vai ser refletido em como será a política ao longo do tempo”.

Fui convidada, como fundadora da Think Olga, para falar sobre questões de gênero. Não é um tema estranho ao ex-presidente – tanto ele, quanto a ex-primeira dama Michelle Obama, durante o mandato, foram cabeça de várias ações pelos direitos das mulheres – mas era importante saber como o tema se encaixaria nas ações da nova fundação.

O meu plano era defender que a pauta das mulheres deveria estar no foco de qualquer iniciativa que queira de fato fazer a diferença no mundo. Se quiser fortalecer a sociedade para a mudança social, a Fundação Obama precisa apoiar, em especial, as mulheres ao redor do mundo. Sejam elas líderes em questões de gênero ou líderes em outras áreas.

A mensagem foi bem recebida. Logo no início do jantar, Obama começa uma rodada de apresentações e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, afirma: “Eu fiz a minha lição de casa. Você é da ONG Think Olga, certo?”

“Sim, muito prazer!”

Aproveitei o momento para contar sobre o cenário brasileiro – do levante popular conhecido como a Primavera das Mulheres, mas também tomado por uma onda retrógrada que tenta fortemente manter o status quo. Falei sobre nossas campanhas e principalmente sobre nossa vontade em criar uma consciência sobre problemas e opressões ainda invisíveis e normalizados pela sociedade. Obama concordou e elogiou: “O trabalho de mudança de uma cultura começa com a conscientização”.

E foi algo muito próximo do como agimos em prol dos direitos das mulheres. Quando falamos que somos uma ONG, o imaginário das pessoas nos levam para aquela imagem de assistência. Porém não fazemos atendimento de vítimas, não mentoramos pequenos grupos escolares. Somos comunicadoras e nossa missão é o empoderamento feminino por meio da informação. Ou seja, acreditamos na criação de conteúdos gratuitos que possam quebrar barreiras do offline e atingir pessoas no Brasil inteiro, que permita a elas reconhecer uma opressão, entender melhor o problema e agir para mudar seus microuniversos como novas multiplicadoras de informação, usando nossos produtos como ferramenta.

Obama parecia concordar com a proposta: “As pessoas precisam ter consciência das desigualdades e violências que existem para que deem passos rumo à mudança”. E mostrou se preocupar com questões parecidas: qual a melhor maneira de usar as mídias disponíveis hoje para educar? Como lidar com violências e perseguições que acontecem nelas? E como criar, em cada contato, alguém que possa espalhar a mudança adiante?

O ex-presidente dos EUA, com a experiência de quem determinou os rumos do mundo durante oito anos, nos explicou sua estratégia e ambição com a fundação. “A nossa programação internacional estará focada em criar um espaço para que todos estes jovens líderes de todo o mundo se unam e comecem a resolver problemas, tanto localmente, quanto nacionalmente e internacionalmente.”

Nós, da Think Olga, buscamos um impacto local, mas somos igualmente ambiciosas. Nosso foco está na criação de conteúdo profundo, rico e gratuito sobre temas de tamanha importância para as mulheres. Essa foi uma oportunidade incrível para explicar o que fazemos: uma nova proposta de educação. Queremos criar debates em cima de temas, esclarecer pontos, direcionar conversas, etc. Não à toa, nossos materiais já foram usados em eventos de RH, escolas, universidades, grupos feministas, etc.

Buscamos ser um canal pelo qual pessoas que acreditam na igualdade de gênero possam se conectar a um número grande de pessoas e ensiná-las a espalhar o conhecimento sobre feminismo a um número maior ainda. Nossa luta pela equidade de gênero está, também, em dar ferramentas para que cada vez mais pessoas possam compreender e entrar nessa jornada de transformação. É preciso não só entender, mas também valorizar esses novos formatos educativos e que desafiam o sistema tradicional.

E, em outubro, foi a vez do Obama conhecer essa rede. Estamos em um momento em que forças conservadoras e sexistas ganharam espaço e ameaçam destruir diversas conquistas recentes das mulheres. Independentemente de opiniões e apontamentos sobre os rumos dos mandatos, é importante ter, nesse momento, aliados capazes de reforçar a equidade de gênero como uma pauta urgente para todo o planeta.

Agradecemos a parceria e apoio do Consulado dos EUA em São Paulo.

Clique aqui e apoie o nosso trabalho.

Juliana de Faria é fundadora da Think Olga.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.