Por que a cultura nerd odeia as mulheres negras?

De acordo com o anúncio do Cartoon Netwoork ao site da revista Entertainment Weekly, o clássico desenho animado Meninas Super Poderosas não será mais sobre um trio. A equipe de super heroínas ganhará uma nova integrante em um episódio especial que vai ao ar no dia 17 de setembro. Esta nova personagem ainda não teve seu nome ou aparência divulgados, mas a audiência tem motivos para crer que será negra –  em função da escolha da cantora Toya Delazy para dar voz à nova heroína e também por conta da imagem abaixo, vazada pela versão russa do canal, com as originais Florzinha, Lindinha e Docinho com uma figura desconhecida. Mesmo antes dessas confirmações, e sem saber se esta seria uma mudança fixa ou uma publicidade momentânea para o canal, as reações dos fãs renderam muitos comentários na internet. O site de cultura nerd Digital Spy elencou reações negativas e positivas à notícia. As positivas, tratavam sobre representatividade, mas as negativas que ganharam destaque no título do artigo. Alguns fóruns de nerdices online chegaram a abrir tópicos onde é “permitido ser racista” para comentar a imagem vazada, pois, como defendem alguns comentários, “as cores não estão certas” e por isso precisam ser criticadas.

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Recentemente, a atriz Anna Diop também foi alvo de comentários racistas por aceitar o papel da heroína Estelar na série live-action de Jovens Titãs, da DC Comics. Estelar é uma alienígena de pele laranja e globos oculares verdes. Ou seja, nenhum traço ou indicação de raça, pelo menos não no mundo dos seres humanos. Mesmo assim, fãs dos quadrinhos e da equipe de heróis, que conta com um personagem originalmente negro, alegam que Anna não seria adequada pois Estelar tem cabelos ruivos.

Estas reações desqualificam uma das características mais fascinantes sobre ficção científica: o uso de mundos imaginários em séries, filmes, quadrinhos, games, animações e livros do gênero e sem limites para demonstrar como combater problemas da sociedade no mundo real. Na verdade, parece que a ficção científica e a cultura nerd, ambientes dominados por homens, são cheios de regras e uma delas é: as mulheres negras não são bem vindas.

Claro que este pode ser um problema unicamente de gênero, como demonstrou a versão feminina do deus/herói Thor para os quadrinhos da Marvel. Pior ainda quando  existe uma personificação dessa mulher que ocupa o lugar considerado masculino, como na escalação de Jodie Whittaker para viver a nova encarnação de Doctor Who na série aclamada de mesmo nome. A BBC britânica demorou mais de 50 anos para selecionar uma mulher para a posição, mas as reações parecem ter vindo do período em que a série estreou. “Ninguém quer uma TARDIS cheia de sutiãs”, “O politicamente correto não deveria existir no espaço” e “Viagem no tempo é para homens, somente homens” foram alguns dos comentários que viralizaram junto com a notícia. O jornal Daily Mail chegou a publicar fotos nuas da atriz em outra obra que protagonizou, chamando-a de “Doctor Nude”. Isso sem listar as montagens colocando a atriz em posições sexualizadas em cenários da série.

Mesmo com essa resistência dos homens, as produtoras, emissoras e autores não querem mais ficar em cima do muro com relação a diversidade de gênero. A deusa dos quadrinhos tomou o lugar de Thor e Jodie ainda vai ser uma Doctor, com estreia prevista para dezembro. Para além das posições masculinas, as mulheres também estão passando a ser donas de suas próprias histórias originais de ficção científica, como em Orphan Black, onde Tatiana Maslany interpreta brilhantemente mais de 10 clones diferentes.

Mas as críticas recebidas por atrizes negras que também estão ocupando espaço nesse mundo ainda são preocupantes, pois demonstram que mulheres, ainda que com muita insistência, podem até ser bem vindas nas narrativas, mas isso é mais fácil quando são brancas. Como no caso da existência de uma Hermione Granger – a melhor amiga do bruxo Harry Potter – de pele negra.

As reações à notícia de que Noma Dumezweni daria vida a personagem na peça de teatro “A Criança Amaldiçoada”, que dá continuidade à saga Harry Potter depois da história contada nos livros e no cinema, não pareceram dignas de um grupo de fãs que, segundo o estudo publicado no Journal of Applied Social Psychology, crescem mais tolerantes e menos preconceituosos por lerem a série. A autora J.K Rowling teve que se pronunciar no Twitter, para lembrar aos fãs que nos livros, Hermione é descrita da seguinte forma: “olhos castanhos, cabelo crespo e muito inteligente” e destacando que a cor da pele nunca fora especificada e sendo assim, tanto Emma Watson, a primeira Hermione, quanto Noma seriam fisicamente qualificadas para o papel e a nova atriz não estragaria a “essência” da personagem, como muitos argumentaram para não soar racistas.

É importante destacar que tal revolta vem de, em sua maioria, homens brancos e isso diz muito sobre o quanto a representatividade importa. Primeiro, pelas mudanças que produtoras e autores têm procurado trazer para suas obras, a fim de agradar todos os consumidores e não só uma parcela deles. Mas também pois importa a ponto de causar revolta quando ela é dada para um grupo minorizado que antes nunca foi protagonista. Importa a ponto de fazer um grupo acreditar em uma vida onde é capaz de tudo e outro, acreditar no contrário.  

Imagens:

A nova Menina Super Poderosa / Cartoon Netwoork
Versão de Estelar no game Injustice / Divulgação
Noma Dumezweni como Hermione Granger para “A Criança Amaldiçoada” / Divulgação

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.