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Até quando homens serão protegidos por estereótipos?

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Quando o cantor Biel voltou à mídia, depois de um ano afastado por conta da repercussão do assédio que cometeu à jornalista Giulia Bressani, tinha um discurso na ponta da língua para se justificar: o assediador era, na verdade, um personagem criado para ganhar dinheiro. Na ocasião, a Think Olga identificou a existência do “personagem assediador”: quando um homem famoso não quer ser responsabilizado pelo que fez, diz que estava agindo de forma caricata, desconectada de sua real personalidade. Contudo, o inverso também acontece: às vezes, a “fama” ou conduta do homem serve de justificativa para todos os seus atos, gerando assim uma proteção, concebida pela sociedade e pela mídia, quando casos de machismo e violência de gênero vêm à tona. Tais acusações deveriam ser “esperadas” quando atreladas a alguns elementos estereotípicos de masculinidade – e são suavizadas pela opinião pública.

Recentemente, a entrevista de Washington Olivetto à BBC Brasil, em que o publicitário expôs opiniões machistas e objetificantes sobre as mulheres, foi defendida – principalmente entre seus colegas de profissão – que usaram a experiência de Olivetto para colocá-lo como um gênio inquestionável, buscando carta branca para suas declarações. Muitos chegaram a insinuar que as mulheres é que não haviam compreendido o que ele quis dizer, mas a verdade é que frases como “Porsche é melhor do que mulher que, diga-se de passagem, é excelente”, já deixam o posicionamento deste homem bem claro; a questão é que ele poderá manter este tipo de discurso, uma vez que a opinião pública seguirá encontrando maneiras de protegê-lo.

A “genialidade” de Woody Allen também o protege de acusações ainda mais graves: abuso sexual de sua filha adotiva, Dylan Farrow, quando ela tinha 7 anos. Mesmo sendo passivo de punição legal, ele segue sendo um diretor renomado em Hollywood. Seus filmes são lançados anualmente, com grande sucesso de bilheteria. Quando é lembrado por conta desse possível ato criminoso, seu nome geralmente vem acompanhado de um debate puramente teórico sobre separar a arte do artista, como se seus atos não tivessem implicações reais para pessoas reais. A denúncia de um abuso de menor não manchou sua imagem porque, há décadas, Allen sustenta em seus filmes a figura do homem confuso, tímido e divertido que seus espectadores associam a ele. Ao representar este personagem nas telas, o diretor também o performa na vida real. A imagem do abusador não condiz com a ideia que os espectadores tem de Allen, entre o genial e o excêntrico – e ele se aproveita disso.

A premissa do “tudo pela arte” é o que mantém Allen livre para continuar trabalhando enquanto deveria estar sendo investigado, assim como permite que Johnny Depp continue sendo adorado e conquistando papéis milionários em Hollywood. Depois das acusações de violência doméstica por parte da ex-esposa Amber Heard tornaram-se públicas, o ator continuou sendo defendido pela opinião geral sem mover um dedo para tanto. A reputação de Depp de “causador de problemas”, sustentada desde os anos 90, também acompanha a “aura excêntrica” colocada em seus personagens de fantasia, que criam empatia no cinema. Por isso, não precisou se esconder; seria perdoado e amado de qualquer forma.

Entre Depp e Amber, houve um acordo jurídico – e como já apontamos antes, não há nada de errado com o fato de um homem reconstruir sua vida após cumprir a punição que lhe coube, mas existe algo de preocupante quando tantas oportunidades são tão facilmente concedidas a homens que machucaram e sacrificaram mulheres com quem se envolveram. Ainda mais problemático é perceber que essas oportunidades mostram que a opinião do público sobre os acusados não foi abalada.

No caso do fotógrafo americano Terry Richardson, muitos famosos o defendem pela “honra” de serem clicados por ele. Assim, segue trabalhando em meio a acusações de assédio e abuso sexual de atrizes e modelos. Em 2014, uma vítima de Richardson contou ao mundo como ele forçou seu pênis dentro de sua boca e ele alegou que as fotos eram consentidas e que “estava bem consigo mesmo e isso é o mais importante”. A carreira dele permanece ilesa; ainda é um dos fotógrafos mais célebres do mundo, sendo considerado, no máximo, “polêmico” e “controverso”.

Mas não é só a genialidade ou a excentricidade que poupam homens de suas acusações. Um exemplo disso é o que aconteceu durante a participação do ator Alexandre Frota no programa Agora É Tarde, em 2014. Em rede nacional, Frota deu detalhes do estupro que cometeu a uma mulher negra, mãe de santo, a ponto de fazê-la desmaiar. Apesar da confissão evidente de violência, tanto o apresentador do programa na época, Rafinha Bastos, quanto a plateia aplaudiram fervorosamente, às gargalhadas. A narrativa de Frota endossa sua imagem perante a audiência: a figura do “pegador” tão descontrolado que se acha no direito de atacar uma mulher que lhe prestava um serviço. Uma atitude como essa é esperada de homens como ele, portanto, minimizada. Embora tenha recebido mensagens de repúdio ao seu ato, Frota participa da vida pública como se nada tivesse acontecido – e chegou a intimidar uma mulher que ousou dar nome à “pegação” pelo que era de fato: um estupro.

Outro homem que se beneficia do estereótipo de “pegador” é Charlie Sheen. Entre as denúncias feitas por mulheres que se relacionaram com ele, estão agressões físicas e psicológicas, ameaças de morte com facas e ordens de restrição; a atriz Brittany Ashland, que namorou o ator, chegou a levar sete pontos nos lábios após um ataque de fúria de Sheen. Mesmo assim, por uma década, ele foi um dos atores mais bem pagos da televisão ao estrelar a série Two And A Half Men, onde também interpretava a figura do conquistador. Sheen foi afastado, inicialmente, por questões de saúde – estava em reabilitação contra as drogas -, não por sua postura hedionda em relação a mulheres. Relacionamentos tortuosos e violentos são esperados de homens como ele, e não afetaram em nada sua carreira por décadas.

Enquanto a sociedade permitir que certos estereótipos – do ator hollywoodiano acima do bem e do mal até o pegador (e abusador) de mulheres – estejam protegidos pela opinião pública, não avançaremos nas questões de gênero. Primeiro, porque mulheres são muito mais penalizadas pelos estereótipos que são atribuídos a elas. E segundo, porque a partir do momento em que delitos e agressões sequer arranham a imagem desses homens, estamos apenas endossando comportamentos violentos em todas as esferas sociais.  Precisamos que todos sejam investigados e punidos por seus atos, independentemente de sua fama e sucesso.

[Esta é a última parte de nossa série de conteúdos especiais analisando a entrevista de Washington Olivetto e como seus discursos demonstram diversos problemas sociais e de gênero. Clique para ler as primeira parte e a segunda]

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.