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#OccupyRotary e a resistência no esporte em espaços públicos

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Quando falamos sobre a presença feminina no esporte como um ato revolucionário, seja aqui na Think Olga ou na Olga Esporte Clube, estamos jogando luz nos inúmeros obstáculos que a mulher encara até ocupar seu lugar na quadra. Muitas vezes, são desafios que digerimos de forma mais solitária: vergonha do corpo, insegurança com as próprias habilidades, falta de hábito. Mas e quando a prática esportiva é impedida pela violência externalizada, em grupo?

Na última semana, jogadoras de basquete amador foram hostilizadas, assediadas e ameaçadas pelo simples fato de quererem dividir o espaço público: uma quadra na Praça Rotary, no centro de São Paulo. Essas agressões não são novas: há meses, o grupo procura por um local de onde não fossem expulsas por outros times masculinos ou que tenha infraestrutura adequada. O conflito na praça, contudo, ganhou maiores proporções, uma vez que os jogadores pareciam ter entrado em um acordo com as basqueteiras – para ignorarem na semana seguinte, reagindo agressivamente à chegada delas. Um grupo de homens adultos impedindo que mulheres usassem a quadra por apenas um dia por semana não é uma agressão aleatória: é mais uma das numerosas provas que a presença das mulheres é sistematicamente negada nos esportes. Como apontou Joana Mendes, uma das integrantes do time, “a gente tem várias demandas que não são atendidas. Coisas muito básicas, como tênis feminino para jogar basquete. As marcas falam que não tem procura ”.

Em resposta à ofensa, o time das basqueteiras organizou um encontrão entre grupos de esportes femininos para que ocupassem o campo na noite da última segunda-feira. O evento #OccupyRotary reuniu dezenas de mulheres que só queriam jogar. O encontro chegou aos ouvidos, inclusive, de Magic Paula, uma das maiores jogadoras de basquete do Brasil. Somente com a persistência de Paula e daquele grande grupo de mulheres, os agressores, mesmo com uma desvantagem considerável em número, foram embora, não sem hostilidade e resistência.

No fim da noite, a sensação era de conquista e vitória – o que engajou ainda mais os times em quadra, rendendo disputas incríveis. Mas como garantir a segurança das esportistas em dias comuns, sem um grupo grande e pronto para fazer barulho? Em nossa pesquisa na Olga Esporte Clube, descobrimos de 57% das entrevistadas não fazem exercícios em lugares públicos por medo da violência (http://bit.ly/pesquisa-OEC).

Se, para as mulheres, praticar esporte em espaços públicos é um risco, esta é uma questão  governamental. Daniela Castro, Secretária Adjunta da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, esteve no #OccupyRotary e entende que a organização entre os grupos para o uso do espaço é um exercício de cidadania. Isso não quer dizer que seja fácil, mas existem algumas ferramentas disponíveis. Espaços abertos de lazer geralmente possuem canais de contato, desde a Secretaria até coordenadores individuais de parques e clubes. Daniela orienta que se busque essas fontes no minuto que a agressão ocorrer, mas também reforça a importância de chegar a um acordo de forma pacífica. E, é claro, também incentiva o “chamamento coletivo”: a ideia de que é possível, sim, pressionar e fincar pé com grupos de mulheres.

Não vamos voltar atrás. Afinal, como disse Roberta Magalhães, do Rachão Basquete Feminino, na noite de #OccupyRotary: “Se a gente quisesse ocupar a quadra o dia inteiro, a gente também poderia. A gente tá acostumada a receber o mínimo do mínimo do mínimo… Chega. Não concordamos mais com isso”.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.