O personagem do assediador

O assediador Biel não existe mais. Na verdade, ele nunca existiu. É o que garante Gah, como agora ele quer ser chamado. Ciente de que não conseguiria se desprender das acusações para seguir sua carreira, o cantor reaparece apontando que tudo, desde a agressão até o pedido de desculpas, foram feitos sob influência de um personagem.

Longe de ser convincente, um vídeo lançado por Biel para apresentar sua nova fase é uma tentativa desesperada de anular o passado ou fugir de suas responsabilidades. Mas falhou nessa missão, pois mostra para o público que o personagem inventado é, na verdade, Gah, que não só não está constrangido ou arrependido pelos seus atos no passado, como também os defende. A verdade é que nada apaga a #ViolênciaEmDobro sofrida pela jornalista Giulia Bressani, primeiro no momento do assédio por parte de Biel e depois por meio de todo tipo de retaliação sofrida, incluindo sua demissão do portal IG, quando fez a acusação e exigiu respeito no ambiente de trabalho. E toda a punição, jurídica ou de mídia, que o agressor veio recebendo desde então merece ser destacada, em um mundo em que homens se livram facilmente de acusações quando são famosos.

Mas, ainda que nos esforcemos para acreditar que qualquer personagem um dia tenha sido exigido de Biel em nome do sucesso, o questionamento principal a ser feito em um momento de redenção e evolução pessoal deveria ser: por que esta persona criada é um homem assediador e agressivo?

O currículo do ator José Mayer, veterano das novelas da Rede Globo, está repleto de personagens que demonstram um ciclo vicioso, de uma cultura que normaliza agressores, mostrando-os como “cafajestes” ou “mulherengos”, e vê o assédio como algo da natureza masculina. Não é a toa que ele acreditou que poderia sair ileso de uma acusação de assédio com a mesma desculpa do “personagem” e acabou demonstrando como funciona o gaslight na prática. Em sua primeira declaração sobre o depoimento da figurinista Su Tonani, denunciando o assédio nos bastidores da Rede Globo, Mayer alegou que a vítima estava fazendo confusão com seu personagem Tião, na época no ar na novela “A Lei do Amor”. Depois da péssima repercussão do caso, o ator, agora afastado de atividades na emissora, foi forçado a assumir o ato e pedir desculpas formalmente.

Este ideal de masculinidade ajudou a impulsionar a carreira de Mayer nos anos 80 e a de Biel atualmente, mas também foi responsável por manchar a imagem de ambos os artistas. A ideia de atribuir o assédio a um personagem, como uma tentativa de reparar os próprios danos, pode não ter funcionado para melhorar as imagens de Biel e Mayer – mas está funcionando para construir a de Dudu Camargo.

Se hoje o jornalista e apresentador de 19 anos está sendo disputado por emissoras, a ponto de ter propostas para apresentar seu próprio programa de auditório, é por causa da proteção que o dono do SBT, Sílvio Santos, tem dado a ele. Dudu foi incentivado a assediar a atriz e apresentadora Maísa durante um dos programas do Dono do Baú. Com a justificativa de que deveria haver um romance entre os dois, Sílvio Santos transmitiu o #PrimeiroAssédio de uma menina de 15 anos em rede nacional.

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Maísa tem sido forte e resistente diante da insistência da mídia em reviver a briga que teve com Dudu nas gravações e nos bastidores do SBT, mesmo sem o apoio da emissora, para a qual trabalha desde a infância. Enquanto a imprensa divulga rumores sobre o fim da carreira de Maísa, o portal Comunique-se, especializado em comunicação e jornalismo, analisa o futuro de Dudu e o aconselha, para que ele aproveite seu potencial de apresentador, a não se “perder no personagem que ele mesmo está criando”. E aparentemente, o problema não estaria na misoginia desse suposto personagem, mas sim no “humor” dele, para que este fator não fique no caminho de notícias sérias.

Com uma persona que assedia sendo construída já no início de sua carreira, Dudu teria ainda mais facilidade de culpar um personagem por este ou mais atos agressivos que podem vir a acontecer, se nada for feito sobre isso imediatamente. Passar a ouvir a vítima ao invés de dar voz para justificativas como as de Biel, Mayer ou da mídia sobre Dudu, é um passo importante.

A atriz Maria Schneider nunca teve voz nos bastidores de Último Tango em Paris, tampouco foi levada a sério em um das suas últimas entrevistas, quando acusou o ator Marlon Brando, com quem contracenou no filme, e o diretor Bernardo Bertolucci de estupro por causa da cena conhecida como “cena da manteiga”. Somente em 2013, quando o diretor assumiu o crime, dizendo que havia combinado a cena com Brando sem avisar Maria, o caso tomou a atenção que merecia. Porém, nada aconteceu com Bertolucci, que buscou justificar o crime dizendo que o cometeu em nome da arte, pois queria ter a reação de Maria como mulher e não como atriz.

O que os homens da vida real querem provar ao falar de seus personagens machistas, vai muito além de suas próprias condutas. Estes argumentos podem colocar as mulheres que os denunciam como loucas e assim continua os livrando de punição. Mas, embora tentem, eles nunca vão anular o fato que o assédio ou agressão sofridos são reais e existe punição.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.