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O Brasil é um dos países mais igualitários no campo da ciência. E agora?

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Um estudo divulgado em março deste ano trouxe surpresa na comunidade científica: segundo a Elsevier, o Brasil, ao lado de Portugal, é o país líder em igualdade de gênero no ambiente das pesquisas. Sob o recorte do relatório, mulheres publicam artigos praticamente tanto quanto homens e representam 49% dos profissionais de pesquisa no Brasil. Esta é uma entre algumas notícias animadoras sobre as mulheres cientistas brasileiras; também sabemos que Celina Turchi, uma das responsáveis pela comprovação da relação entre zika e microcefalia, foi indicada pela Nature como uma das 10 cientistas mais importantes de 2016 (entre homens e mulheres); também podemos falar sobre Nadia Ayad, engenheira negra que venceu um desafio científico mundial por conta de suas pesquisas sobre a utilização do grafeno, um material à base de carbono.

Isso quer dizer que a comunidade científica é um lugar seguro e perfeito para as mulheres? Que todos os desafios foram conquistados e todas nós seremos recebidas de braços abertos em todos os laboratórios e salas de aulas que desejarmos entrar? Infelizmente, não. E ainda estamos bastante longe dessa realidade.

Por mais que os números sejam animadores, eles representam apenas um pequeno recorte do que é ser uma mulher na ciência. O estudo também revela grande disparidade da presença de mulheres em certas áreas do conhecimento – muitas delas exclusivamente “masculinas”, como as engenharias – e não contempla a cultura de publicação de artigos científicos no Brasil – nas ciências exatas, em especial, é exigido que pesquisadores e pesquisadoras publiquem muito para permanecerem relevantes no mercado. Além disso, a pesquisa não contempla em profundidade as questões de gênero e as microagressões diárias que mulheres na ciência, em todo lugar do mundo, enfrentam diariamente.

A verdade é que é duro ser mulher no espaço científico. Vera Rubin, uma das astrônomas mais importantes do século passado, responsável pela descoberta da existência da matéria escura, foi zombada pelos seus colegas e desestimulada a estudar física. Ada Lovelace, que pode tranqüilamente ser considerada a primeira programadora de computadores do mundo, volta e meia tem suas descobertas questionadas e atribuídas a seu colega de trabalho, Charles Babbage. Marie Curie, talvez a cientista mais famosa do mundo, ganhadora de dois prêmios Nobel em áreas diferentes, era proibida de entrar na universidade na Polônia, seu país de origem, simplesmente por ser mulher. No Brasil, o direito da mulher a entrar na universidade tem 120 anos. Isso sem falar que a história da ciência está polvilhada de casos de mulheres que, para serem aceitas no ambiente científico, assinavam seus trabalhos com nomes masculinos – e outros tantos casos de homens que simplesmente roubaram descobertas de grandes inventoras e pesquisadoras.

Há quem possa argumentar que os tempos mudaram. Nem tanto. O site Speak Your Story encoraja mulheres das áreas de exatas a denunciarem casos de assédio, abuso e até violência sexual no ambiente de trabalho. Universidades renomadas no mundo todo possuem centros de pesquisa que visam aumentar a representatividade nas áreas científicas, que ainda surgem como ambientes hostis para muitas mulheres. Infelizmente, o mesmo ambiente onde o trabalho de pesquisadoras é encorajado pode ser palco para dor e muito silêncio, já que muitas cientistas preferem ocultar seus casos de agressão para evitar conflitos com orientadores e outros alunos e colocar toda a carreira a perder. Vale dizer que as universidades brasileiras fazem de tudo para ocultar esses casos, inclusive encorajar esse medo do futuro acadêmico.

Não podemos acreditar que o Brasil seja perfeitamente igualitário no campo da ciência quando questões  de gênero tão urgentes são silenciadas no ambiente acadêmico.

Para auxiliar no debate desse tema tão importante – e por vezes esquecido, silenciado e fora do escopo de debate do mundo acadêmico -, estaremos mediando uma mesa com três cientistas brasileiras no lançamento do livro “As Cientistas”, de Rachel Ignotofsky, que traz a história de 50 cientistas mulheres que mudaram o mundo com sua genialidade. O evento acontece no dia 06 de maio, próximo sábado, a partir das 16h, no Shopping Pátio Paulista, em São Paulo. Para mais informações, visite a página do evento!

Arte: Katherine Johnson por Rachel Ignotofsky para o livro As Cientistas.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.