Liberdade para que imprensa?

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“Manual do politicamente correto”. Este comentário chegou até nós em resposta ao nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado e, apesar do tom negativo, quase como uma acusação, ele nos ajudou. Ajudou a reafirmar a nossa missão com esse projeto e a necessidade dele. Como podemos nos opor ao termo “politicamente correto”, quando não se refere a  nada mais do que a algo… Correto!?

Respondemos prontamente que, se trabalhar por uma comunicação que seja justa e respeitosa para grupos minorizados socialmente é ser “politicamente correto” não queremos ser incorretas. Principalmente quando a ideia do tal politicamente incorreto vem disfarçada de uma falsa liberdade de imprensa.  

E, neste Dia da Liberdade de Imprensa, questionamos: liberdade de que imprensa? Para que público?

Hoje encontramos muitos veículos – a Olga inclusa – que buscam a representatividade, profundidade e, principalmente, pluralidade de uma sociedade representada nas notícias. Mas este trabalho independente não isenta os jornalistas de buscarem pelas mesmas mudanças em suas redações. Na verdade, esta visão independente, longe de ser uma concorrência para grandes empresas de comunicação, é o que está pautando a grande mídia e acordando seu público.

As revistas voltadas para adolescentes não mais publicam perfis de garotas “para casar” ou “para pegar” sem serem questionadas quanto a essa visão machista sobre a conduta da mulher, uma faísca para repensar se esse tipo de questionamento é realmente uma  pauta, pra começo de conversa. As revistas de moda não mais são bem vistas por falar de novas tendências sem ter mulheres diversas vestindo-as. Os jornais mais tradicionais não mais falam sobre violência de gênero sem acender debates nas caixas de comentários. E todas estas mudanças, para diferentes veículos, significa o mesmo: mais do que nunca, é preciso assumir a responsabilidade de informar de maneira imparcial e respeitosa.

Por isso o Minimanual de Jornalismo Humanizado traz maus exemplos da prática jornalística, derrubando a antiética que vem com a máscara do “politicamente incorreto” para mostrar as maneiras corretas de se falar sobre gênero, pessoas com deficiência e racismo.  

Estamos conscientes do quão longe o Minimanual ainda precisa ir para evitar manchetes e reportagens que diminuem mulheres e as violências que sofreram, como “Espancada ao reagir a cantada morre após quatro meses de internação”, publicada pelo G1 ao falar de Michelle Ferreira Ventura, no ano passado. Ou ainda, “Mulher arrastada pela polícia morre no Rio de Janeiro”, como muitos veículos se referiram a Cláudia Silva Ferreira em 2014.

Sabemos também o quanto a atenção da mídia (ou a falta dela) para pautas de grupos minorizados diminui o conhecimento da população sobre estes grupos. Um dos maiores exemplos disso foi o episódio em que o prefeito de São Paulo virou manchete ao dizer que doaria seu primeiro salário para “crianças defeituosas”, provando a utilidade do Minimanual até para quem não é comunicólogo.

Mas também presenciamos debate e mudanças efetivas que acontecem a partir dos conhecimentos que compartilhamentos por meio dessa ferramenta.

No ano passado, um editor da Folha de S.Paulo alterou o conteúdo de uma matéria que trazia MC Biel se pronunciando sobre o episódio de assédio a jornalista Giulia Bressani, repórter do portal IG na época. Foram inseridas aspas da jornalista e, consequentemente, um novo ponto de vista, narrando o que ela e a editora que a defendeu sofreram (ambas foram demitidas pouco mais de um mês depois da denúncia). A matéria também cresceu ao falar sobre resistência, citando o movimento Jornalistas contra o assédio, que surgiu por conta este caso.

Entre outros trabalhos, este combate contra o incorreto na mídia por meio do Minimanual nos fez finalistas do Prêmio Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico.

Para nós, as conquistas e as decepções são grandes sinais da importância de apontarmos as falhas que encontramos. De não nos calarmos diante da grandeza da tão falada mídia de massa. Por meio de uma comunicação mais justa e humanizada, educamos para construir um mundo mais justo.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.