Relacionamento abusivo e televisionado

É de se esperar que, em um reality show como o Big Brother, um caso de violência de gênero em relacionamento abusivo não passe despercebido. E na edição 2017, não passou. A audiência percebeu muitas agressões sofridas pela participante Emilly Araújo por parte de Marcos Harter, e fez pressão para que a Rede Globo acionasse a Delegacia da Mulher. Depois de apurar as imagens das câmeras, a polícia decidiu por expulsar Marcos da competição para continuar a investigação.

Mas, embora tidas as intimidações, os gritos, as marcas roxas pelo corpo e tudo mais que ela sofreu possam claramente categorizar violência para muitos, o problema não ficou tão claro para Emilly, ativando mais uma violência sofrida: a culpabilização da vítima.

Este infográfico, que traduzimos da Amnistia Internacional Madrid, demonstra que muitas agressões são invisíveis para a vítima – e até mesmo para pessoas que acompanham o relacionamento de fora. Caso contrário, não haveria uma parcela de telespectadores se pronunciando contra a expulsão de Marcos, argumentando que não houve crime, que as intimidações eram “normais” ou “parte do romance”.  

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Sendo o #BBB17 um programa que torna, de repente, pessoas anônimas em populares no horário nobre da maior emissora do país, Marcos poderia se encaixar facilmente no perfil de um homem inconformado com o fim de um relacionamento e que usa seu status e influência adquiridos com a fama para sair impune das acusações.  

Mas a máxima #MexeuComUmaMexeuComTodas faz a diferença quando se observa a pressão exercida no reality. Afinal, se a percepção do problema é difícil até para a vítima, a luta por justiça é ainda mais nebulosa. O caso de Emilly foi discutido abertamente por ter sido televisionado – quantos são os casos de violência que passam invisíveis e silenciosos por mulheres em todo o Brasil? Quantos deles saem impunes?

Da suspeita de estupro na edição de 2012, que resultou na expulsão do ex-participante Daniel (https://glo.bo/2o6hmfx), para a expulsão de Marcos na edição que está no ar atualmente, a discussão avançou. Dessa vez o programa teve com Emilly uma atitude que não teve com Monique no passado, tornando pública a visita da Delegacia da Mulher aos estúdios para interrogação e fazendo um pronunciamento oficial. Porém, ainda considera “supostas” as agressões que foram registradas por câmeras e, aparentemente, não pensa em medidas mais rigorosas para proteger mulheres na casa em outras edições que possam acontecer.     

Por isso é tão importante que Emilly tenha podido contar com um público que meteu a colher no que poderia passar como “brigas de casal”, impedindo que os abusos chegassem à ponta do iceberg. Contou também com o apoio da participante Vivian Amorim, que de forma madura e sensata, está ajudando Emilly a visualizar os abusos que ficavam escondidos debaixo d’água. “Não precisa ter intenção de machucar, agressão é agressão”, explicou ela no programa.  

E, quando sair do confinamento, poderá ver os tantos relatos nas hashtags #EuViviUmRelacionamentoAbusivo e #MasEleNuncaMeBateu, levantadas em apoio a ela e justamente para mostrar para quem ainda tem dúvida que também existe violência psicológica, e que, em outras casas, bem menos vigiadas, outras mulheres também podem estar precisando de ajuda.

Não somos desesperançosas quanto à punição para agressores. Já até apontamos alguns momentos importantes e simbólicos para estas mudanças. Contudo, a necessidade de insistência e de combater a relativização das violências não nos deixa iludir ou simplesmente esperar por mudanças. Cobraremos atitudes de instituições e da justiça até que não seja necessário cobrar. Até que não seja necessário que uma mulher sofra publicamente em nome da conscientização coletiva.

Arte: Xuan Loc Xuan.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.