Chamam as mulheres de loucas, mas já tentou rejeitar um homem?


 

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Dar o ponto final em uma relação pode ser o começo de uma difícil batalha para muitas mulheres. É nesse momento que comportamentos abusivos, já presentes ou não durante o relacionamento, se intensificam ou passam a se manifestar no ex-parceiro. Ainda que mulheres sejam historicamente entendidas como emocionalmente descontroladas, as histórias de homens que passaram a perseguir, ameaçar e perturbar a vida de parceiras que os rejeitaram são a prova de que essa fama é, pra dizer o mínimo, injusta.

A revolução sexual dos anos 1960, potencializada pela chegada da pílula anticoncepcional, foi apenas o início de uma mudança na forma como algumas mulheres passaram a lidar com a sua autonomia e independência enquanto seres sexuais — mas, ainda hoje, cinco décadas depois, estamos longe de um entendimento sobre o quanto esses são direitos inalienáveis e como cada mulher é livre para viver como quiser, como os homens sempre fizeram.

O conceito de que mulheres são seres domésticos, feitas para o casamento e para pertencer somente a um marido por toda vida, continua firme e forte na cabeça de muita gente — inclusive de homens que se consideram modernos e desconstruídos, mas que, quando colocados diante de uma mulher com aspirações diferentes, recorrem à violência para fazer valer a sua vontade. É nesse momento em que eles se impõem pela força física ou ameaça, verbal ou não, de seu uso — e qualquer mensagem de texto, telefonema ou aparição indesejada passam a simbolizar, para a mulher, um risco de vida.

Afinal, vivemos em um dos países que mais mata mulheres no mundo. O Brasil é o quinto país com maior taxa de feminicídios de acordo com o Mapa da Violência 2015: Homicídios de Mulheres no Brasil. O estudo também revela que 33,2% dessas mortes são cometidas por parceiros ou ex-parceiros e que 55,3% desses crimes foram cometidos no ambiente doméstico. O medo que uma mulher sente ao se dar conta de que seu ex-parceiro não está aceitando bem o termino do relacionamento é real e bastante compreensível.

Entretanto, ainda que o feminicídio não ocorra, sua latente possibilidade torna qualquer perseguição ainda mais grave e angustiante. E a violência física também é uma sombra: o Balanço 2014 do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher aponta que mais de 80% dos casos de agressão reportados têm homens (com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo) como algozes.

Quando perdem o controle que acreditavam ter sobre as mulheres com quem se relacionavam, alguns homens passam então a tentar monitorá-las e se fazer presentes todo o tempo, com mensagens, ligações, ofensas, chantagens, ridicularizações, aparecendo na porta de sua casa, nos lugares que ela frequenta, vigiando seus passos e fazendo-a saber disso, limitando seu direito de ir e vir e causando-lhe, assim, danos emocionais, financeiros e sociais, colocando a vítima em uma prisão sem grades.

O Brasil considera a prática de stalking, que é o termo em inglês para a perseguição insistente de uma pessoa, como uma contravenção penal, nos termos do artigo 65, da Lei de Contravenções Penais, Decreto-lei nº 3.688/41, ex vi : Art. 65, que afirma: “Molestar alguém ou perturbar-lhe a tranqüilidade, por acinte ou por motivo reprovável: Pena prisão simples, de quinze dias a dois meses, ou multa (…).” Como as mulheres são as principais vítimas, algumas de suas manifestações encaixam-se também na lei Maria da Penha.

Apesar disso, nossa justiça está inserida no contexto de uma sociedade machista e isso dificulta muito o registro de crimes de violência contra a mulher. Não são poucos os relatos de vítimas que buscaram ajuda em delegacias e sequer conseguiram registrar uma ocorrência porque o policial ou delegado de plantão não a levou a sério. Nesses casos, é preciso insistir, procurar outra delegacia (preferencialmente da mulher) ou retornar com um advogado para fazer valer o seu direito — uma panacéia da qual muitas abrem mão na primeira resistência do sistema em acreditar na sua palavra.

Ou seja: a experiência de ser perseguida por um homem após o fim de um relacionamento é assustadora, solitária e isolante, mas muito frequente e pouco falada pelo estigma que carrega. O mito do amor romântico também colabora para que muitos enxerguem os gestos de perseguição como provas de amor, tentativas de reconquista, ou como uma manifestação temporária de tristeza por parte do homem.

Nenhuma dessas opções, porém, justificam o inferno pelo qual essas mulheres passam sozinhas sem saber como se desvencilhar — por vezes, sendo chamadas de loucas por familiares, amigos e conhecidos do casal que não acreditam no que elas dizem, mas dão ouvidos ao agressor. Em muitos casos, tudo o que elas têm como prova é sua palavra — e no mundo machista em que vivemos, sabemos que a feminina tem menos valor.

O preço do descrédito

Foi o que aconteceu com D.. Durante três anos, ela esteve em um relacionamento abusivo que minou completamente sua autoestima. As brigas eram constantes. Seu ex-parceiro a fez acreditar que ele seria o único homem capaz de amá-la e seu comportamento indesculpável isolou D. de seus amigos e de sua família. A gota d’água foi uma traição que finalmente despertou nela a força necessária para se afastar. Mas seus problemas com aquele homem ainda estavam longe de terminar: ao invés de deixá-la em paz, ele passou a fazer campanha para pintá-la como louca em sua vida profissional e pessoal.

“Eu passei anos sendo prejudicada por ele, porque ele queimou meu filme com pessoas-chave na minha profissão. Eu perdi freelas, oportunidades com meu blog, e principalmente amigos. Quando a gente tava junto, ele já tinha me afastado de muita gente, e depois mais ainda. Eu ficava inconformada de ver que as pessoas que eu adorava me odiavam por causa de uma pessoa como ele, mas com isso tudo que rolou eu entendi que ninguém via a pessoa que eu estava vendo”, conta D., que passou a tomar medidas para sair do alcance dele. “Eu fiquei esses anos todos evitando lugares e pessoas porque os olhares e comentários doíam demais. Minha lista de pessoas bloqueadas nas redes sociais era enorme! Eu não podia nem imaginar que ele soubesse coisas da minha vida que isso já me dava arrepios.”

Foram três anos após o término convivendo com as consequências de uma narrativa com a qual ela jamais quis se envolver. Até que uma reviravolta aconteceu recentemente e tornou-se uma libertação para ela. Após comportar-se de maneira igualmente abusiva em um novo relacionamento, seu ex foi desmascarado nas redes sociais pela mulher que estava perseguindo. “Não tinha esse diálogo sobre abuso e machismo lá atrás, quando terminamos. Agora, eu sinto um lance de justiça muito forte, finalmente. Eu cheguei a vomitar depois de encontrá-lo na rua. Me fazia muito mal. Ver isso tudo acontecendo tirou uma tonelada das minhas costas. Quando dezenas de pessoas falam que você é mentirosa, você mesma começa a se duvidar. E finalmente eu tô conseguindo entender 100%, por mais que eu já soubesse, que não é coisa da minha cabeça, que eu não era louca nem exagerada. Meu sofrimento foi validado.”

Após a denúncia nas redes sociais, outras mulheres que haviam sido vitimadas por esse mesmo homem ao se relacionarem com ele surgiram para contar suas histórias e traçar o comportamento sistemático de abusos a que foram submetidas pela mesma pessoa. “A gente se uniu porque os tempos e a relação entre mulheres está mudando e vamos juntas conseguir justiça. Talvez ela não chegue pelos meios jurídicos, mas no meu coração eu tô me sentindo livre. Pela primeira vez em seis anos! Livre pra viver, livre pra viver meu relacionamento com meu atual noivo, livre pra ir aonde eu quiser sem ninguém me olhar torto. É emocionante de verdade”, explica D..

Lastro virtual

O comportamento errático de homens ao serem rejeitados ganhou uma nova plataforma nos últimos anos, que comprova que nem mesmo é necessário estar em um relacionamento para ser alvo de ataques: aplicativos de relacionamento, que possibilitam o registro das conversas entre os usuários. Ainda que bater papo pela internet não seja nenhuma novidade e chats e websites de paquera existam há muito tempo, apps como Tinder e Happn, por exemplo, têm o propósito definido de apresentar pessoas que indiquem interesse mútuo uma na outra e, por meio de uma limitação geográfica (só é possível encontrar pretendentes dentro de um raio estabelecido pelo seu GPS), promove a ideia de que o casal tem chances reais de se encontrar pessoalmente.

Por mais moderninha que seja essa forma de se relacionar, esses espaços estão repletos de pessoas que ainda acreditam na velha, desgastada e violenta ideia de que mulheres não têm o direito de dizer não. Alexandra Tweten estava conversando com outras mulheres em um grupo no Facebook quando várias delas começaram a compartilhar as dezenas de mensagens terríveis que haviam recebido de homens ao informarem seu desinteresse. Ela decidiu publicá-las em uma conta do Instagram chamada Bye Felipe — que se tornou um grande sucesso e passou a receber prints de mulheres do mundo inteiro.

 

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– Não sei o que você acha que vai acontecer haha
– Trepar
– É… não.
– Você é gorda. Fique longe de refrigerantes. E fast food.

 

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– Ei 🙂 Como você está?
– Não me ignore! Vou acabar com você!

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– Oi, sou o Stan, legal te conhecer. Você é muito atraente e eu amo seu rosto fofo.
– Vadia metida.
– Eu te daria uma surra daquelas!

 

Em um artigo para a MsMagazine, Alexandra explica que suas principais razões para criar o perfil foram “A) Por compaixão com outras mulheres (você não pode ser uma mulher online e não receber mensagens estranhas de homens); B) Mostrar aos homens como é ser uma mulher na internet (não são só cupcakes e arco-íris!); e C) Para expor a problemática titularidade que alguns homens sentem a necessidade de exercer sobre mulheres em geral”.

Para eles, é como se a aprovação inicial da mulher, que permite o início da conversa, roubasse delas o direito de posteriormente mudar de ideia, de dizer não, independente da forma como tenham sido tratadas. E nem sempre o problema termina em uma mensagem malcriada. A publicitária Thais Padilha viveu um verdadeiro pesadelo ao recusar-se a sair com um suposto fotógrafo que conhecera em um aplicativo. Eles haviam combinado de sair, mas ela, por ser mãe solo, teve dificuldades de encontrar um momento para isso. Ele insistiu, queria que ela levasse o filho no encontro — o que ela jamais faria, para preservar a criança. Não satisfeito com isso, eles tiveram uma discussão e ela acreditou que o assunto estava encerrado.

No dia seguinte, a surpresa: seu telefone estava explodindo de mensagens, ligações e imagens obscenas de homens que a procuraram para fazer programa. O homem havia criado um perfil falso no Tinder com suas fotos e divulgando seu número de celular apresentando-se como acompanhante. ”Eu sempre li histórias iguais ou piores que a minha, mas quando foi comigo, eu me vi sem chão num primeiro momento”, conta Thais, que descobriu a origem das mensagens ao conversar com um dos homens que a abordou, explicando a ele que o perfil era falso e solicitando prints para saber o que havia sido inventado sobre ela.

Thais compartilhou sua história no Facebook e registrou boletim de ocorrência na 1° Delegacia de Defesa da Mulher, em São Paulo, por falsidade ideológica, calúnia, difamação e ameaça, além de conseguir uma medida protetiva, que sempre carrega consigo, para que o homem não chegue perto dela e nem de ninguém de sua família. “Ele descobriu onde eu trabalhava, então eu vivia com medo de encontrá-lo, dele se juntar com amigos e fazer algo comigo. Ele fez postagens me humilhando e ofendendo, me chamando de louca, e nessas postagens alguns homens falavam pra ele jogar meu nome e minha foto na roda, em grupos de putaria”, explica a publicitária.

Apesar de todos os ataques que recebeu, Thais também contou com o suporte de mulheres que acreditaram em sua história e ajudaram a divulgar o caso, levando-a a encontrar outras cinco mulheres que relataram experiências parecidas com o mesmo homem. Ela conta que “com algumas ele fez até coisas piores, mas todas tiveram medo de denunciar”.

Rotas de fuga

E não sem razão. Como já demonstrado, a justiça muitas vezes falha em proteger as mulheres — e a reação das pessoas a esse tipo de denúncia pode ser avassaladora. Mas, apesar do cenário intimidante, aos poucos, as coisas estão mudando. O feminismo virtual está mais estabelecido e as manifestações de apoio em casos assim têm ajudado na identificação de predadores sistemáticos, como aconteceu com D. e Thais. Quando seus agressores foram denunciados virtualmente, apareceram outras mulheres que viveram a mesma situação e elas passaram a conversar entre si. “Avise suas amigas mais próximas, porque hoje a rede de mulheres é incrível e as minas se conversam. Você pode ajudar a evitar que outra mulher passe por isso”, explica D..

Tanto para ela quanto para Thais, a denúncia formal ainda tem um papel muito importante para mulheres que estejam passando por esse tipo de situação. “Sei que na hora da raiva a gente quer apagar tudo, sumir, deixar essa história de lado. Mas não! Não apague e-mails, não apague mensagens. Junte tudo que você tem. Se ele aparecer em algum lugar onde você está, filme, mande pra amigos os vídeos, peça que eles guardem também. E junte tudo isso pra denunciar, pedir medida restritiva”, aconselha D.. “Não tenha medo de expor a situação e fazer um Boletim de Ocorrência. Por mais que não dê em nada, um cara que faz isso com uma, faz com outras, e amanhã outra pode fazer mais um BO e assim vai, até que um dia um delegado pode realmente estranhar tantas acusações contra a mesma pessoa e fazer algo. É um pensamento otimista, mas eu acredito nisso.” completa Thais.

 

P.S.: Nossa campanha Manda Prints foi criada para educar mulheres vítimas de violência online sobre as maneiras mais seguras e eficazes de denunciar as agressões que sofrem nesses ambientes. Clique aqui para saber mais.


Arte: Anna Wanda Gogusey

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