Por um jornalismo não sexista

A Língua Portuguesa não é sexista. Seu mau uso, sim. Como ato-reflexo da sociedade, a linguagem é um dos espaços mais sutis, constantes e estáveis de legitimação de padrões e práticas de desigualdade e opressão. O sexismo é uma delas, que discrimina com base no sexo e perpetua o Patriarcado, sistema secular que centra no homem o papel de protagonista da ordem social, reduzindo e invisibilizando a identidade feminina e de grupos que sofrem camadas ainda mais cruéis de exclusão, por sua condição de classe e raça.

É um processo de retroalimentação: o sujeito masculino domina os espaços da vida cotidiana – escola, religião, artes, política, família, urbanidade, mídia – e essa hegemonia se instala na linguagem que, ao ser usada como se natural fosse, reproduz, mantém e cimenta a desigualdade. Neste sentido, falar é fazer. Especialmente quando a linguagem sexista e discriminatória é usada pelos meios de comunicação, esses importantes e eficientes agentes de socialização de valores, crenças e padrões sociais. A força do ato tem um peso ainda mais simbólico.

Os exemplos multiplicam-se mas vale destacar, por sua condição pedagógica, a reportagem exibida no Jornal Nacional do último dia 2 de janeiro. A matéria trata do pagamento de 17 salários ao corpo docente da cidade de Costa Rica, no Mato Grosso do Sul. Em apenas 30 dias, as professoras e os professores da rede municipal de ensino receberam quase seis salários, num ‘milagre’ conquistado graças à economia de recursos gerada pela redução drástica das faltas das educadoras e educadores, que evitou gastos com a contratação de profissionais temporários.

Para além da ótima notícia, merece destaque a distorção (quase imperceptível, tamanha a sua naturalização) do sistema gramatical de gênero utilizado. Na reportagem, o masculino ‘professor’ não se refere ao docente-homem (dentro do padrão heteronormativo), mas a toda a categoria. O masculino faz as vezes de genérico universal, como se o homem (em qualquer situação, profissão, condição) fosse ele próprio a medida da humanidade.

A Língua Portuguesa, no entanto, estabelece regras bem definidas para tratamento de gênero – masculino, feminino, comum de dois gêneros, sobrecomum, epiceno, etc, significando que o uso do masculino como tratamento único é um ato linguístico significativo e nunca, nunca neutro. A matéria começa com a seguinte narração: “a fila no caixa eletrônico só tem professores. Uma a uma as notas vão saindo para melhorar a vida deles. Solange até trocou de carro”. A imagem correspondente ao trecho denuncia a própria fala: uma fila de mulheres professoras (nenhum homem nela), e uma professora citada como personagem. Nem assim elas foram inseridas no contexto linguístico. A identidade feminina das professoras foi suprimida, engolida pelo ‘presumível genérico’ masculino.

Se a fala fosse expressa no rádio, e portanto sem imagem, o imaginário provavelmente nos levaria a ‘visualizar’ uma fila de homens e mulheres, já que o formato gramatical sexista é aceito, incontestado e de uso corrente. Quanto mais profunda e bem sucedida se dá a marca discriminatória, mais imperceptível e naturalizada ela se apresenta. Uma marca imensa, mas que de tão introjetada parece nem existir. Por isso se faz tão urgente combater qualquer tipo de exclusão linguística. Uma democracia que respeite plenamente a diversidade e não invisibilize grupo algum depende do enfrentamento dessas questões, em busca de modelos de linguagem mais democráticos, inclusivos e críticos – para uma sociedade que possa refletir/ser reflexo dessas condições.

A reportagem de 2 minutos e 33 segundos menciona oito vezes a palavra professor no masculino e mais duas vezes se refere ao corpo docente como “eles”. O prefeito também usa o masculino, assim como a própria secretária de Educação. Só vemos uso feminino da profissão na legenda da fala da última entrevistada. Verdadeiramente não me surpreenderia que o repórter nem tenha se apercebido da falta de identificação língua-pessoa, por força do hábito, da base ideológica, e da vontade cega de simplificar. Mas o jornalismo é produtor de sentidos e como um importante intérprete da realidade (de um tipo de realidade), não pode se furtar a refletir sobre seu papel na autonomia dos indivíduos e sobre o direto à presença/representação na língua.

Como diz o excelente Manual Para o Uso Não Sexista da Linguagem, organizado pela Secretaria de Política para as Mulheres do Rio Grande do Sul a partir do texto da Red de Educación Popular Entre Mujeres de Latinoamérica y Caribe, “a linguagem cria consciência, cultura, ideologia e modifica o pensamento das pessoas. Podemos, portanto, ao mudar a forma de falar e escrever, modificar a mentalidade das pessoas, suas condutas e como consequência a própria sociedade”. Não há incorreção ou repetição no ato de nomear o masculino como masculino e feminino como feminino. Também não há duplicidade, uma vez que duplicar é fazer uma cópia igual a outra e esse não é o caso. “É simplesmente um ato de justiça, de direitos, de liberdade. É necessário nomear as mulheres, torná-las visíveis como protagonistas de suas vidas”.

Se faz imprescindível, por fim, tirar o tema da zona de conforto do status quo – ‘uso gramatical padrão’, para mostrá-lo como reflexo direto da naturalização e da legitimação do domínio masculino. Há que se mudar os formatos e buscar novas experiências linguísticas inclusivas, seja por meio das regras existentes, seja a partir da criação de novas regras, fazendo a ciranda mutável da língua se transformar em favor de uma vivência mais inclusiva e múltipla.

Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.

Arte: Pep Montserrat.

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