A importância de educar mulheres financeiramente

Mulheres nas finanças

Quando me deparei com os achados de uma pesquisa sobre alfabetização financeira no mundo, fiquei pasma! Ao longo de toda a minha carreira como executiva e, agora, como consultora, trabalhei com finanças. Há cinco anos, decidi criar a Precisão, empresa de consultoria, com o objetivo de contribuir com pessoas que estão à procura de um maior equilíbrio na sua vida financeira. Tem sido uma experiência e tanto! E, por mais que eu perceba as minhas dificuldade e dos meus clientes em lidar com o tema, não pude deixar de me surpreender com as estatísticas, especialmente relacionadas às mulheres adultas brasileiras.

Em função disso, e quase que imediatamente, pensei em dar visibilidade ao estudo, pois acredito que antes de mudar uma realidade, precisamos ter consciência dela.

Primeiramente, quero falar um pouco da pesquisa¹, que alcançou cerca de 150 mil pessoas², distribuídas em 140 países, dentre eles, o Brasil. No decorrer de 2014, cada pessoa entrevistada respondia a quatro perguntas. Para aquelas e aqueles que quiserem medir o seu grau de alfabetização financeira, trago as respostas corretas ao final desse texto:

1. Suponha que você tenha algum dinheiro. É mais seguro aplicá-lo em único negócio ou investimento ou colocá-lo em múltiplos negócios ou investimentos?
A. Um negócio ou investimento
B. Múltiplos negócios ou investimentos
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

2. Suponha que nos próximos 10 anos os preços das coisas que você compra dobrem. Se a sua renda também dobrar, você será capaz de comprar menos, o mesmo ou mais do que você compra hoje?
A. Menos
B. O mesmo
C. Mais
D. Eu não sei

3. Suponha que você precise tomar um empréstimo de R$ 100,00. Qual é o menor valor a devolver: R$ 105,00 ou R$ 100,00 + 3%?
A. R$ 105,00
B. R$ 100,00 + 3%
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

4. Suponha que você invista dinheiro no banco por dois anos e o banco concorde em depositar 15% por ano na sua conta. O banco irá depositar mais dinheiro no segundo ano em relação ao primeiro ano, ou ele irá depositar o mesmo montante nos dois anos?
A. Mais
B. O mesmo
C. Eu não sei
D. Me recuso a responder

Mas o que significa ser alfabetizado financeiramente?

Para os organizadores da pesquisa, “alfabetização financeira é a capacidade que uma pessoa tem de entender como o dinheiro trabalha no mundo: como alguém consegue ganhar dinheiro, como essa pessoa gerencia seus recursos, investe ou faz doações para ajudar o próximo”. Confesso que, num primeiro momento, o conceito de alfabetização financeira me incomodou. Mas, após alguma reflexão, passei a considerá-lo justo, desde que, fique claro que por ter gabaritado a pesquisa, uma pessoa pode, mesmo assim, não dispor de todos os elementos necessários para tomar a decisão mais acertada do ponto de vista financeiro.

Assim, não é meu intuito tratar aqui da alfabetização financeira de forma geral, mas sim abordar alguns aspectos relacionados à realidade brasileira, especialmente no que tange às mulheres. Por isso, trago os principais resultados da pesquisa para o Brasil!

Aqui, o índice de alfabetização financeira é baixo, em torno de 35%, quando consideramos mulheres e homens em conjunto. Isso quer dizer que, de 100 pessoas, somente 35 podem ser consideradas alfabetizadas financeiramente. Entretanto, esse mesmo índice cai para 29%, ao contemplar apenas mulheres, o que indica que estamos mais propensas a sofrer de lacunas quanto ao conhecimento sobre conceitos financeiros básicos. Você deve ter notado que o índice de alfabetização financeira das mulheres está abaixo da média brasileira. Essa conclusão é a mesma coisa que dizer que 41% dos homens adultos, no Brasil, são alfabetizados financeiramente. Acredite! A diferença entre os índices de mulheres e homens pode ser chamada de lacuna de gênero.

Essa lacuna é mais do que o dobro da existente em nível mundial. E pode estar relacionada a diversos aspectos, mas prefiro deixar isso para especialistas. A despeito disso, eu gostaria de chamar atenção para a importância de as mulheres começarem a se dedicar à organização da sua vida financeira. E isso pode ser justificado por vários motivos. De forma resumida, e pensando apenas na situação brasileira, devo ressaltar ao menos três razões: mulheres vivem, em média, 7,2 anos a mais do que os homens³, mulheres representam somente 42,8% da população ocupada (4), apesar de serem a maioria na população com idade para trabalhar e mulheres ganham menos do que homens, independentemente do nível de instrução (5).

Particularmente, os pontos relacionados acima me preocupam muito. Eu explico o porquê. Antes de mais nada, e a fim de evitar distorções, eu acho muito bom ter a expectativa de passar mais tempo nesse mundo. Apesar de todos os desafios que precisamos enfrentar.

Contudo, do ponto de vista estritamente financeiro, viver mais requer uma necessidade maior de poupança, especialmente se quisermos manter nosso padrão de vida quando estivermos fora do mercado de trabalho.

Inevitavelmente, esse dia chegará. É possível ter uma velhice tranquila, acredite! Basta fazer um planejamento adequado. Como? Coloque a organização da sua vida financeira como uma prioridade. Eduque-se sobre o tema! E caso precise de ajuda, procure especialistas no assunto. Não fique refém das orientações dos gerentes do banco em que você possui conta corrente, pois estes, e sem querer generalizar, tendem a propor operações que são mais rentáveis para a instituição em que trabalham. Além disso, muitas vezes, os próprios gerentes carecem de informações precisas sobre os complexos produtos financeiros. Afinal, são tantos! Se tiver dúvidas sobre o negócio proposto, peça simulações, converse com pessoas próximas, consulte especialistas e conteste sempre que algo não fizer sentido. Investimentos com altos retornos jamais são livres de risco. Lembre-se dessa máxima!

Como já mencionei, nós, mulheres, somos a minoria no mercado de trabalho, apesar de sermos a maior parcela da população e passarmos mais tempo estudando. Essa situação está presente em todos os níveis empresariais. E piora na medida em que nos aproximamos das camadas de liderança. Estudo recente (6) indica que as mulheres representam 45% dos profissionais que entram nas empresas americanas. Entretanto, no nível executivo, em que as decisões estratégicas são tomadas, esse percentual cai para 17%. Fica evidente que a ascensão profissional das mulheres é bem mais difícil do que a dos homens.

O Brasil, infelizmente, está entre os dez países que possuem a pior proporção de mulheres ocupando posições na alta administração das empresas (7): apenas 15%. O impacto disso em nossa vida financeira é um pouco óbvio. Como as promoções nas carreiras são mais escassas para as mulheres, a tendência é que tenhamos poucos saltos na renda, o que restringe nossa capacidade de poupança. Nesse cenário, a disciplina torna-se primordial. Pois é, ainda preciso acrescentar que vivemos em um país desigual em termos de remuneração. As mulheres, mesmo executando tarefas idênticas às dos homens, recebem menos. Considerando as que têm ensino superior, recebemos em torno de 60% da remuneração paga aos homens (8).

Então, vamos traduzir isso em números para dar uma ideia do buraco. Imagine um homem com nível superior que trabalhe em uma empresa qualquer, recebendo R$ 3 mil por mês. Uma mulher formada, e realizando as mesmas tarefas, ganharia R$ 1.800. Se a diferença salarial fosse integralmente investida por cinco anos, a uma taxa de 8% ao ano (cerca de 30% acima do rendimento anual previsto na caderneta de poupança), o homem teria acumulado uma quantia superior a R$ 90 mil. Não me parece uma situação justa. E você? O que acha? Penso que as estatísticas apresentadas irão trazer um sentimento de indignação. Eu também passei por ele.

Revivi algumas situações desagradáveis. Inclusive, algumas delas só se revelaram agora, pois na época em que ocorreram, eu sequer tinha consciência da discriminação. Entretanto, acima de tudo, eu espero que as mulheres que esbarrarem com esse artigo coloquem o planejamento financeiro pessoal como uma prioridade em suas vidas. E, além disso, jamais se esqueçam de permanecer lutando por um mundo menos desigual!

Respostas: 1. B | 2. B | 3. B | 4.A

Todas as questões foram desenvolvidas com a finalidade de examinar conceitos financeiros básicos – aritmética, diversificação de risco, inflação e juros compostos. E, para ser considerada alfabetizada financeiramente, era necessário responder corretamente pelo menos três questões.

1. A pesquisa, conduzida pela Standard & Poor’s Ratings Services, contou com a contribuição das seguintes instituições: Gallup World Poll, Banco Mundial, McGraw Hill Financial Inc. e The George Washington University School of Business.
2. Selecionada aleatoriamente, a amostra da população compreendeu qualquer indivíduo com idade igual ou acima de 15 anos, desconsiderando soldados e prisioneiros.
3. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Tábua completa de mortalidade para o Brasil – 2015.
4. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – março de 2016.
5. OECD. Gender equality – julho de 2016.
6. Leanin.org e Mckinsey & Co. Women in the workplace – 2015.
7. GRANT THORNTON. Women in Business: the path to leadership. Grant Thornton International Business Report – 2015.
8. OECD. Gender equality – julho de 2016.

Renata Fontes é mestre em Administração de Empresas pela Universidade de Brasília, especialista em Estratégia Empresarial e economista. Fundou a Precisão | Consultoria Financeira em 2011.

Arte: Barry Falls.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.