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Como o Reino Unido está promovendo o debate de gênero e sexualidade nas escolas

Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres
Parte da equipe da Educate & Celebrate promove a iniciativa durante evento feminista em Londres

Ninguém nasce machista, homofóbico, racista ou transfóbico. Aprendemos a adotar comportamentos considerados comuns para a sociedade onde vivemos. Parte desse aprendizado vem da escola, durante a socialização entre as crianças. Segundo a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com mais de 18,5 mil alunos, mães, pais, diretores professores e funcionários, 99,3% dos entrevistados demonstram algum preconceito étnico-racial, socioeconômico, de gênero, geração, orientação sexual, deficiência ou territorial. O estudo indicou que 99,9% dos entrevistados têm vontade de manter distância de algum grupo social, principalmente os deficientes mentais e homossexuais, ambos com taxas de 98,8% de rejeição.

Seja para combater discriminação na escola ou para ensinar as crianças sobre questões básicas relacionadas a equidade, a educação de gênero em sala de aula é fundamental. Tanto é que a UNESCO recentemente se pronunciou a favor do aprofundamento do debate sobre sexualidade e gênero para uma educação mais inclusiva e de qualidade no Brasil. Enquanto isso, projetos de lei que proíbem debates sobre questões de gênero despontam em várias partes do Brasil, inclusive um que prevê a prisão de professores que abordarem o assunto em sala de aula. No Reino Unido, porém, acontece o oposto: o debate sobre gênero em sala de aula só aumenta, inclusive com apoio financeiro do governo. Uma das instituições por trás desse avanço é a Educate & Celebrate, especialista em transformar escolas, organizações e funcionários LGBT+ friendly, isto é, em humanizar pessoas e ambientes educacionais a fim de combater discriminações ligadas a gênero, orientação sexual e identidade de gênero. Conversamos com a CEO da iniciativa, Elly Barnes, sobre o trabalho desenvolvido e sobre como trazer esse debate para a sala de aula. Confira a conversa:

Como começou a organização Educate & Celebrate?

Eu comecei essa organização há 11 anos porque eu era coordenadora de uma escola e tinha que dirigir 240 crianças de 11 anos que eram meus bebês. Eu queria garantir que a linguagem transfóbica, bifóbica, sexista, racista e homofóbica que todos eles estavam usando fosse erradicada porque eu não aguentava mais ouvi-la. E eu queria desesperadamente que as crianças que estavam sob meus cuidados tratassem todos justa e igualmente. Se não falarmos a respeito, nada vai mudar. Havia um silêncio absoluto, uma completa invisibilidade especificamente sobre sexismo, homofobia e transfobia, não era tão ruim quanto a racismo mas havia alguns temas que não eram trabalhados de maneira alguma no plano escolar.

Comecei simplesmente fazendo um seminário com meus alunos explicando as palavras lésbica, gay, bissexual, trans e então intersexual, travesti, gênero fluido, assexual, pansexual e trouxe essa linguagem para o estado consciente dos meus alunos para que eles soubessem o que elas significam. Eu queria que eles usassem esses termos com confiança. Na época, em 2005, não havia leis específicas sobre o assunto, então causou uma certa agitação. A diretora ficou chocada. Eu perguntei o que ela achava que aconteceria se tivéssemos essa conversa, ela disse que “tornaria” todos os alunos gays e que ensinaria a ter sexo gay. Eu respondi bem, quando celebramos o mês da consciência negra, viramos todos negros? Não. Os pais negros reclamam quando celebramos o dia da visibilidade deficiente? Não.

Como funciona essa pedagogia na prática?

Queremos garantir que estamos falando com todas as pessoas o tempo todo e garantir a interseccionalidade. Se eu estivesse falando sobre música, que era a aula que eu dava, e estávamos no mês da consciência negra, eu escolheria pessoas como Stevie Wonder e Ray Charles porque eles são negros, músicos e têm alguma deficiência. Trazemos a interseccionalidade. Se eu for falar sobre a Joan Armatrading, deixo claro que ela é uma compositora negra e lésbica. Há uma pedagogia por trás, chamamos de “usualising” (“normalizando”, em português). Isso é sobre quebrar a heteronormatividade, isso de as pessoas assumirem que eu sou casada a um homem, queremos encorajar a interseccionalidade usando a pedagogia da normalização e o resultado final que eu quero é justiça social. Eu queria que todos subissem no ônibus do arco-íris, entrassem nessa jornada comigo e nos uníssemos.

E qual é a reação de pais e alunos?

Felizmente, não tivemos muita adversidade por parte dos pais ou dos alunos, desde lá até agora a maior adversidade que encontramos foi por parte dos próprios professores. Eles não se sentem confortáveis falando sobre sexismo, homofobia e transfobia porque eles não foram educados da mesma forma que nossos alunos estão sendo educados hoje. Temos que fazer com que as gerações antigas se atualizem e acompanhem a geração atual para que estejamos todos falando a mesma língua porque essa divisão torna algumas situações impossíveis. Temos que quebrar essas barreiras negativas. Passei muito tempo falando com a equipe e muitos continuam achando que as crianças vão enlouquecer e isso simplesmente não é o caso. Isso é apenas homofobia e transfobia internalizados. Não é o que realmente acontece. Então é isso o que fazemos, damos aulas por exemplo de matemática, com exercícios com diagramas falando do número de pessoas que participaram da parada gay em Brighton para chegar ao resultado de quantas pessoas devem ir à de São Francisco. Apenas adaptamos parte do conteúdo escolar com linguagem LGBT+. Funcionou muito bem. Falamos sobre linguagem LGBT+, colocamos o conteúdo em contexto LGBT+ em todas nossas aulas. Pegamos o programa escolar todo e pensamos: só vamos falar de homens brancos heterossexuais e cristãos? Erradicamos isso e mudamos o programa escolar. Depois disso, aumentamos a visibilidade dentro do contexto. Quando você entra na escola, há um cartaz dizendo “aqui tratamos todos com justiça, sem importar sua idade, deficiência, identidade de gênero, orientação sexual, cor e gênero”. Todos têm que assinar esse termo dentro das regras da escola. As escolas e os pais precisam entrar em consenso em relação a isso antes de os pais enviarem seus filhos para lá. Tudo tem que ser acordado, então mudamos toda a papelada e as regulações das escolas. E então envolvemos a comunidade, todo mês fazemos uma apresentação de arte e as crianças fazem suas próprias músicas, textos, falam sobre as campanhas que estão fazendo ou sobre o que gostam na escola.

Há muitas crianças em transição na escola agora, porque como há mais visibilidade temos mais crianças trans. Isso facilitou muito porque as escolas precisam lidar com isso agora, antes havia um comportamento meio “por que precisamos falar sobre isso se não temos crianças trans?”. Como demos maior visibilidade, as crianças se sentem mais confortáveis para fazer a transição e isso estimula as escolas a agirem. Então fizemos workshops de identidade de gênero com as crianças e com a equipe para garantir que todos entenderam que amanhã Charlie vai vir a escola e continua sendo Charlie, mas o pronome adequado agora é “ele”. Então todos sabem que no dia seguinte será assim. As crianças respondem muito bem a isso e fazem vários cartazes pela escola dizendo “bem-vindo de volta, Charlie!”. É uma questão de consciência. Temos que trabalhar nisso assim que as crianças entram no sistema educacional para quebrar o estigma. Para as crianças, isso não é um problema. Estamos começando a mudar o sistema educacional britânico, mas não estamos perto de onde queremos chegar ainda. Há 22 mil escolas neste país e já trabalhamos com algumas milhares de escolas ao longo dos anos, mas é só a ponta do iceberg. Tentamos prover serviços que as escolas possam acessar facilmente, como treinamento de equipes, workshops e consultoria. Treinamos os professores, atualizamos os regulamentos, questionamos o programa escolar, aumentamos a visiblidade no ambiente e envolvemos pais e alunos na comunidade com vários eventos, esse é o nosso programa. E se todos fizéssemos isso, poderíamos ter aquele mundo com justiça social que sonhamos onde podemos ser nós mesmos sem medo de discriminação.

Muitas vezes no senso comum as pessoas afirmam que esses são assuntos “privados” que devem ser discutidos em casa, não na escola ou no ambiente público, enfim. Como você lida com esse tabu?

O tabu é um problema muito grande. Quando falamos sobre esses assuntos com os professores, eles falam sempre que “não falamos sobre esses assuntos porque é tabu”. Não é engraçado? E se usássemos isso para falar sobre qualquer assunto, por exemplo “não falamos sobre pessoas com deficiência porque é tabu”, “não falamos sobre culturas diferentes porque é tabu”. Não usamos essa linguagem com nenhuma outra desigualdade, usamos? Temos que fazer as pessoas entenderem que isso é sobre equidades, não sexo. Por algum motivo, toda vez que falamos sobre identidade de gênero ou orientação sexual, as pessoas acham que é sobre sexo. Mas não tem nada a ver com sexo. Por quê? Não é relacionado a sexo, é sobre quem você é. Há essa barreira que temos que quebrar e assim que quebramos os portões estão abertos, é sobre dar permissão às pessoas para falar sobre, porque quando você abre a conversa elas se abrem também, dizendo “nossa é verdade, meu tio sempre se transvestia nos finais de semana, sempre me perguntei como chamava isso”. As pessoas começam a falar com você sobre suas experiências e não fazemos isso o bastante. É um método que funciona porque você remove isso da questão de sexualidade e apresenta como uma questão de equidade, assim como racismo, sexismo.

Você acha que isso está relacionado ao nível de violência cometido contra pessoas gays e trans?

É o medo, não é? As pessoas estão assustadas, os níveis de violência relacionados a sexualidade são absolutamente terríveis. Esses são comportamentos aprendidos, porque não nascemos racistas, sexistas, homofóbicos ou transfóbicos. Apredemos isso. Então temos que destruir esses comportamentos desde pequenos. Se você nasceu em uma comunidade onde a homofobia é comum, você sofre uma lavagem cerebral e passa a acreditar nisso, não é? É isso o que precisamos mudar, temos que mudar as leis e é também sobre se infiltrar no sistema educacional para garantir que isso está incluso no programa escolar. A razão para esse ódio é medo. Trabalhei com professores turcos e eles me disseram que não há nada a fazer porque simplesmente não há leis para proteger pessoas LGBT+. E o único trabalho que pessoas trans podem fazer é prostituição porque eles simplesmente não são reconhecidos pela lei como seres humanos. Temos que começar mudando as leis e a educação. A homossexualidade foi legalizada em 1967, mas não podíamos falar sobre isso nas escolas, tem sido uma jornada de lutas. Em 2003 foi abolida a lei que proibia falar sobre isso em sala de aula. Então só tivemos permissão para fazer esse trabalho a partir daí.


Que lei era essa?

Em 1998, Margaret Thatcher criou algo chamado Sessão 28. Havia um livro nas bibliotecas chamado “Jenny vive com Eric e Artie”, a história de uma criança que tinha dois pais. Ela tirou isso das bibliotecas dizendo que era sobre uma “família de mentira” e que não queria isso nas escolas. Os livros foram banidos das escolas e os professores não podiam falar sobre isso, semelhante ao que está acontecendo na Rússia agora. Há um banimento total em relação a isso, eles chamam de “propaganda”. Não sei exatamente de onde vem isso, mas certamente é fruto de ignorância e medo. Infelizmente sofremos uma lavagem cerebral nessa cultura, então temos que começar do início.

Fale um pouco do impacto da organização no Reino Unido.

Acabamos de lançar um relatório sobre nosso trabalho e havia muitas coisas interessantes. Um dos dados apontados é que quanto mais você fala sobre esses assuntos, mais caem os níveis de homofobia e transfobia, simples assim. Quanto mais você envolver as crianças, melhor, e é isso o que fazemos nas nossas redes de apoio. Você está empoderando pessoas jovens a fazerem ações positivas, e assim eles descobrem que são capazes porque eles não sabem que podem, muitas vezes eles me dizem “eu acredito nisso, mas não sei o que fazer a respeito, não sei como fazer”. Vemos na pesquisa que damos voz aos jovens, ouvimos o que estão dizendo e garantimos que outras pessoas também escutem sua voz. Centenas de professores saíram do armário depois de trabalhar conosco, não apenas em termos de orientação sexual mas também de identidade de gênero. Isso é muito encorajador, ver professores trans iniciarem a transição enquanto trabalhamos nas escolas porque eles se sentem seguros. Porque nós tornamos o ambiente seguro para eles ao trabalhar lá, isso é absolutamente incrível. No momento temos 100 escolas premiadas como melhor desempenho, o que significa que alcançaram o nível de excelência em termos de orientação sexual e identidade de gênero e elas continuarão a trabalhar com isso e espalhar conhecimento para suas escolas parceiras e consórcios. Isso só vai se espalhar e ficar cada vez maior. Temos um contrato com o conselho municipal de Londres e trabalhamos pela cidade inteira, também estamos expandindo esses contratos para outras cidades, como Lancaster e Bristol, porque as escolas precisam disso e querem isso. Porque abre conversas e dá às pessoas permissão para falar sobre isso. Como são assuntos delicados, você precisa apoiar as pessoas, não é como prestar um serviço, você precisa estar lá e é o que fazemos. Somos bem práticos, e apoiamos as pessoas.

Arte: Chloe Early.

 

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Sobre Gabriela Loureiro

Jornalista freelancer, mestre em Gênero e colaboradora da Olga. Trabalhou nas editoras Abril e Globo, fez mestrado no Reino Unido através do programa de liderança do governo britânico Chevening e escreve para a Think Olga desde 2013.