Quando a violência contra a mulher vira espetáculo na mídia: o que aprendemos com o caso Eloá

Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?
Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?

“Inconformado com o fim do relacionamento”, “crise de ciúmes”, “crime passional”… A forma como a imprensa cobre casos de violência doméstica diz muito sobre como os jornalistas entendem o que é agressão contra a mulher e sobre a sociedade que assiste a esse noticiário. Para Lívia Perez, diretora do documentário Quem Matou Eloá?, a espetacularização da violência e a abordagem da mídia televisiva nos casos de violência contra a mulher têm tudo a ver com a posição em quinto lugar do Brasil no ranking de países que mais matam mulheres no mundo. O documentário traz uma análise crítica de especialistas em assuntos como violência contra a mulher, polícia e mídia sobre a forma como o sequestro em cárcere privado e posterior homicídio da jovem Eloá Cristina Pimentel pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves foi abordado pela imprensa brasileira em outubro de 2008. Depois de rodar em 16 festivais e ganhar cinco prêmios, o documentário está disponível online, no site Porta Curtas. Em entrevista à Think Olga, Lívia falou sobre como a televisão banaliza a violência e afeta a forma como a sociedade entende questões relacionadas a gênero, muitas vezes invisibilizando mulheres e justificando e até mesmo romantizando comportamentos machistas e agressivos dos homens.

De onde veio a ideia de fazer o documentário?

Na época do crime a cobertura foi intensa mas eu não vi em nenhum veículo a imprensa falando sobre a violência contra a mulher – apesar de estarmos diante de um caso clássico de violência contra a mulher – e isso me motivou muito a fazer o documentário. Aquilo ficou na minha cabeça um tempo até que eu li um texto da Analba Teixeira, uma militante do Nordeste que milita no SOS Corpo, e o texto falava tudo que eu pensava naquele momento. Continuei com essa ideia e quando vi os vídeos no YouTube com a hashtag Eloá e #eloaelindemberg pensei em colocar mulheres que pensam a violência e o audiovisual para analisar isso e refletir. A ideia era meio inviável porque eu não tinha dinheiro para fazer o filme até que fui contemplada pelo edital Carmen Santos de Cinema, uma iniciativa bem única da Secretaria do Audivisual, do Minc e da Secretaria Pública de Mulheres de contemplar apenas mulheres.

No documentário você mistura o áudio da narração de programas televisivos com abutres sobrevoando o céu. Fale um pouco mais sobre a linguagem visual do documentário e o que você quis dizer com essas mensagens.

Eu e meu companheiro Giovani sempre pensávamos nessa relação entre o jornalista e o abutre, de um jornalismo feito sempre de uma forma muito semelhante do abutre, que se aproxima quando uma tragédia está prestes a acontecer, que é o que o jornalismo das seis da tarde faz com muita frequência, principalmente com as classes menos privilegiadas. Além disso tinha a questão dos helicópteros sobrevoando, o que eu achava surreal porque era um conjunto habitacional, tudo estava acontecendo dentro mas eles insistiam em colocar o helicóptero girando ali, e isso se associou totalmente aos abutres. Além do paralelo com os abutres há também o estúdio preto justamente sem informação nenhuma para contrastar com essa linguagem da TV que tem legenda, publicidade em cima, é amarelo… O estúdio preto, um lugar de reflexão onde elas pudessem entrar e refletir o máximo sobre o que foi aquele circo, a forma que se noticio, enfim.

Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário
Analba Teixeira, militante feminista, avalia cobertura da imprensa no documentário

Na sua visão, qual é a mensagem que a TV passou ao falar em crime passional? Como você interpreta isso?

No filme eu tentei trabalhar três eixos: a sociedade, a polícia e a imprensa, que acabou sendo o mais forte. Primeiro no caso de sequestro eles geralmente são sigilosos então a imprensa não deveria nem ter noticiado antes que o caso acabasse, mas noticiou. Além disso tem a interferência. E a terceira camada é a romantização, construir um romance em cima do crime, construir os personagens Lindemberg e Eloá, ele bem mais complexo que ela, ele joga futebol, ele trabalha, faz várias coisas mas sobre ela não temos muita informação. Sempre se apoiando sobre a dor do Lindemberg, sobre o ciúme, sobre o que ele quer, uma construção de uma forma muito clássica, como uma novela. E como aquilo foi se estendendo, a mídia foi trazendo mais e mais informações até que aquilo precisava de um desfecho dramático, tanto que teve, ela foi morta em uma intervenção às seis da tarde. Até uma entrevistada fala “é uma coincidência né, a polícia ter entrado na hora em que todos os programas policialescos estão com a câmera ligada para lá”. A imprensa perdeu uma oportunidade muito grande de fazer uma discussão sobre violência contra mulher, sobre o que significa você começar a namorar muito cedo um cara e entrar em um relacionamento abusivo.

Você vê alguma mudança na forma de noticiar esses crimes de 2008 para hoje?

Vejo poucas mudanças. No caso da Eloá houve um grande debate sobre o papel da mídia, a Rede TV foi alvo de uma ação civil mas o foco era na exposição de duas menores de idade na TV. Não se falava sobre como a TV tratou Eloá como algoz em vez de vítima e hoje continuamos vendo isso, por exemplo no estupro coletivo no Rio. Falavam em “suposto estupro” mesmo quando eles já haviam cometido o crime mas muitas pessoas caíram em cima do G1 no Twitter, a própria população já está pressionando nas redes sobre coisas que a mídia não pode falar. Vejo que esse tipo de abordagem sensacionalista de espetacularizar continua acontecendo muito com as camadas mais pobres. Acho que estamos avançando a passos lentos na discussão sobre a mulher mas ainda há uma exploração da miséria muito forte na mídia.

Você acha que o discurso da mídia sobre a violência contra a mulher acaba reforçando essa violência – ou até influenciando?

Eu pesquisei muito para fazer esse documentário, vi muitas reportagens sobre violência doméstica e na maioria das vezes se fala sempre sobre ciúmes, o padrasto que matou a enteada por ciúmes, o ex-namorado, o marido enciumado, é muito parecido, o que me leva a crer que a forma como a mulher é retratada na mídia brasileira influencia sim a posição do Brasil como o quinto país que mais mata mulher no mundo. É muito determinante não só a forma como retrata a violência mas a presença das mulheres nos programas de auditório, nas telenovelas, com cenas de violência. Eu penso que a gente deveria desconstruir isso, por exemplo uma manchete que diz que uma mulher foi estuprada por 30 homens, eu acho que isso está errado, porque ela está como agente da frase gramaticalmente falando, deveria ser “33 homens estupraram uma mulher”, foram eles os responsáveis pela ação, não foi ela quem pediu para ser estuprada. Acho que deveríamos fazer essa discussão bem profundamente, ver como vamos reportar esses crimes e como a sociedade vai receber essa informação.

Assista ao trailer do documentário:

Assista o documentário completo no Porta Curtas.

Arte: Amber Lynn Seegmiller

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Sobre Gabriela Loureiro

Jornalista freelancer, mestre em Gênero e colaboradora da Olga. Trabalhou nas editoras Abril e Globo, fez mestrado no Reino Unido através do programa de liderança do governo britânico Chevening e escreve para a Think Olga desde 2013.