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O preconceito provoca #RaivaComRazão

Até que ponto estamos dispostas a deixar pra lá? Até que ponto isso é uma escolha ou uma obrigação? A cantora Solange Knowles estava com sua família em um show da banda Kraftwerk, em Nova Orleans, Estados Unidos. Seu marido, filho, um amigo e ela estavam entre as pouquíssimas pessoas negras presentes no evento. E começaram a dançar, afinal, era um show de música eletrônica. Quatro senhoras brancas começaram a gritar para que eles se sentassem. Solange explicou que estavam dançando em um show. Foi quando começaram a jogar frutas (!) nas suas costas.

Ela escreveu um ensaio em seu site sobre a experiência, no qual descreve sua impossibilidade de reagir: “Você está cheia de raiva e em choque, compartilha essa história no Twitter, suas mãos tremem, porque você realmente deseja que essas mulheres sejam responsabilizadas de alguma forma. Você sabe que não adianta falar com elas sem que a situação saia de controle porque elas não têm qualquer respeito por você ou seu filho, e isso só vai terminar mal para você, e você sabe que não vale a pena envolver a polícia nisso.” Solange sabe que está em desvantagem por ser uma mulher negra sobre a qual recai o preconceituoso estereótipo de “barraqueiras”. Ela concluiu seu relato no Twitter dizendo: “Em espaços predominantemente brancos, não somos nós [negros] que ‘armamos barraco’. Conserte-se.”

Em outra situação, há alguns dias, a deputada Maria do Rosário presidia uma sessão da Comissão Geral na Câmara dos Deputados sobre Cultura do Estupro e Proteção às Vítimas quando o deputado Jair Bolsonaro, ignorando completamente sua autoridade, invade a mesa e passa a gritar em seu ouvido, exigindo equivocadamente um direito de resposta. Maria do Rosário não sai do sério e pede calma, tenta manter a ordem dos trabalhos e depois afirma que não será intimidada.

Na web, textos de cunho machista vira e mexe se tornam o assunto do dia e a internet divide-se entre aqueles que acham errado problematizar, pois assim eles ganham mais fama; os que problematizam; e outros que nem enxergam o machismo e acham tudo um exagero (grande maioria). Em todos os casos, parece que a melhor saída é sempre ficar em silêncio, pois qualquer reação a provocações deliberadas de pessoas privilegiadas cairá contra nós que fazemos partes de grupos minorizados. E, no fundo, às vezes nós ficamos mesmo é cansadas de tentar convencer o mundo inteiro de que somos humanas e merecemos respeito. Daí calamos.

Apesar disso, analisando esses e tantos outros casos, será que somos nós que criamos problemas ou são os outros que criam problemas com a gente? Vivemos em um mundo injusto, frequentemente saímos perdendo, e querem nos convencer de que não merecemos justiça – ou, ao menos, que é feio brigar por causa disso. Pega mal. E pode ser até que pegue, mas parte da nossa jornada como feministas é conhecer os momentos que valem a nossa indisposição e, assim, valorizar também o nosso autocuidado. #RaivaComRazão

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