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Mulheres de Impacto: ocupação das ruas com a voz de todas

Muro com lambes da Feminicidade em São Paulo
Muro com lambes da Feminicidade em São Paulo

“Quando aquela dor ressoa em outras mulheres, então eu tenho mais coragem”, diz um lambe-lambe colado em um muro na Rua Augusta, em São Paulo. A frase é de uma mulher que foi entrevistada por voluntárias da Feminicidade, uma iniciativa que registra depoimentos de mulheres, transforma-os em lambe-lambe e espalha pelas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Com a hashtag #suahistóriaimporta, a ideia é ocupar o espaço público e ao mesmo tempo dar visibilidade às narrativas de todas as mulheres, proporcionando diálogo e disseminação de informações como forma de empoderamento. O projeto faz parte da Mulheres de Impacto, uma parceria entre Benfeitoria, Think Olga e ONU Mulheres, e atualmente está em fase de financiamento coletivo.

Lambes colados em um muro em São Paulo
Lambes colados em um muro em São Paulo

Inicialmente a Feminicidade era um projeto do Atados, uma plataforma social que une ONGs a voluntários, como parte de uma ação promovida pela plataforma em 2015. A intenção era resgatar o sentido original do Dia da Mulher, sem o sentido comercial da data e questionando o espaço da mulher na cidade hoje. Voluntárias coletaram histórias, transformaram em lambes e espalharam por São Paulo. Em 2016, o projeto não seria tocado novamente por falta de suporte, então um grupo de mulheres se voluntariaram e não apenas fizeram os lambes como também criaram um evento e transformaram o projeto em algo muito maior que ocupa três cidades brasileiras e conta com reuniões semanais e uma série de outras atividades. “Acabou virando algo muito maior, além dos lambes fizemos um evento com mais de 40 atividades, tudo na colaboração, com voluntários, tudo grátis. No evento, muitas pessoas pediram para participar mais. Percebemos que a unidade de tudo que fazemos e falamos é que acreditamos que as histórias das mulheres importam e queremos que as vozes ocupem os espaços urbanos, que as mulheres se encontrem e troquem experiências”, diz Laura Mestres, voluntária e organizadora da Feminicidade.

O movimento ganhou força e amplitude e já contou mais de 120 histórias através dos lambes. Para as mulheres do Feminicidade, é importante tomar os espaços urbanos para combater o assédio de rua e também para atingir todos que circulam na cidade. “Faz sentido porque sentimos que não temos lugar no espaço urbano por causa do assédio, de você estar sempre tendo que se esconder, é um espaço dominado pelos homens e também queremos ter nossa cota devida do espaço, queremos poder circular com segurança”, afirma Laura. Mais de mil mulheres já participaram dos espaços de fala promovidos em encontros, que acontecem semanalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Faz muita diferença você se encontrar com pessoas que têm vivências próximas das suas. Às vezes você nunca conversou com ninguém sobre isso e descobre novas formas de lidar, novas pessoas com quem conversar ou desabafar. Eu passei por isso em uma roda em que participei, eu não me senti mais sozinha, senti que estava tudo bem”, conta Laura.

Reunião da Feminicidade na sede do Atados
Reunião da Feminicidade na sede do Atados

Além das intervenções urbanas e os eventos, a Feminicidade fez uma parceria com o Plano Feminino, que dá oficinas de jornalismo para meninas nos bairros de Grajaú e Capão Redondo, e coletaram histórias das mulheres do local para espalhar lambes por lá também. “A longo prazo queremos cada vez mais chegar a mulheres que não têm contato no dia a dia com o feminismo, que não estão em um lugar privilegiado, queremos chegar na periferia, contar cada vez mais histórias e pensar em novas formas de contar essas histórias”, diz Laura. Qualquer pessoa é bem-vinda para participar da Feminicidade, seja como voluntária ou participante das reuniões e eventos. Não há diretrizes ou regras a seguir, a ideia é somar. Se você gostou do projeto, você pode contribuir financeiramente ou participar da Feminicidade como puder, desde divulgando a ideia até se oferecer como voluntária. Veja alguns vídeos da campanha abaixo:

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Sobre Gabriela Loureiro

Jornalista freelancer, mestre em Gênero e colaboradora da Olga. Trabalhou nas editoras Abril e Globo, fez mestrado no Reino Unido através do programa de liderança do governo britânico Chevening e escreve para a Think Olga desde 2013.