Capacitismo não tem fim. Sanidade editorial, sim.

A revista Vogue, preferida pela classe A e B para contemplar as ofertas fashions de Milão, Paris e New York, acaba de apresentar ao mundo a maior campanha capacitista já publicada no século XXI.  Não é a primeira vez que a revista se envolve em campanhas polêmicas: fez outubro rosa para falar de câncer, sem mulheres de câncer e matéria com crianças em poses sensuais com direito à denúncia ao MPF. Direitos Humanos e respeito à dor alheia não é o forte da revista, pois como antropóloga eu achava que devia ler de tudo, e confesso, gosto de moda, e amo a blogueira de beleza da Vogue, Vic Ceridono, que eu li por anos, mas deixei de comprar a revista na absurda matéria fotográfica de Vogue Kids: me deu vômito.

Agora, a revista faz uma matéria sobre Jogos Paralímpicos sem os atletas, com artistas globais como se fossem pessoas com deficiência. De fato, há pessoas que desejam por transformações corporais, se tornarem pessoas com deficiência. Marco Antonio Galverioz da UFSCAR escreve brilhantemente sobre o tema. Mas, ao que se sabe, não é o caso de Cleo Pires nem de Paulo Vilhena. O último aliás, faz uma referência fotográfica ao Oscar Pistorius, assassino de sua esposa. Prova de que o capacitismo da Vogue não tem fim. Sua sanidade editorial, sim.

A discriminação das pessoas com deficiência, ableism em inglês, no Brasil traduzido por capacitismo para unificar traduções em língua portuguesa e espanhola, é a narrativa social que pensa o corpo da pessoa com deficiência como menos humano, menor, patológico, menos capaz. Isso se dá como escreveu Oliver, porque como escreveu Oliver, porque os corpos deficientes sofreram historicamente classificações debilitantes. Ou seja, desde que o mundo é mundo, ou por motivo religioso ou por motivo biopolítico e biomédico somos pensados como débeis. Inferiores. Segundo a Vogue, até para representar a nós mesmos. Inclusive quando nós mesmos significa ATLETAS OLÍMPICOS. Não é só questão de representação, tem muito medo envolvido.

Explico: é melhor que a mocinha do Leblon veja o Vilhena e a do Jardins veja a Cleo. O rapaz também. Porque ver uma atleta como Daniele Bernardes, o tesão do Jeferson Gonçalves, em campo, ou o lindo Daniel Dias nadando, para citar apenas três, podem despertar sentimentos complicados na turma da elite. E ser devotee para eles pode ser algo difícil de explicar aos pais. Porque nossos corpos, além de capazes são desejáveis. E como são.


Adriana Dias é coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia, e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG ESSAS MULHERES (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência). É Membro da American Anthropological Association, e foi membro da Associação Brasileira de Cibercultura e da Latin American Jewish Studies Association.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.