Pastor, deixa ela falar

Nas últimas semanas, as redes sociais ficaram cheias de vídeos, memes, prints e comentários sobre  a  estudante de jornalismo e militante do PSC, Patrícia Lelis, que acusa o deputado e pastor evangélico Marco Feliciano (PSC-SP) de tentativa de  estupro. A história já teve várias versões e a cada dia aparecem novas verdades e novas mentiras, mas uma coisa é certa: Feliciano não nos representa! Ele não representa o movimento evangélico como um todo, os cristãos e muito menos a luta por direitos humanos, já que o mesmo não cansa de justificar posições odiosas em nome de “Deus” e de uma fé evangélica.  Ele é contra todo tipo de projeto de lei que busque melhorar a vida e garantir direitos à população LGBT,  é contra a autonomia das mulheres sobre seus corpos e ainda anda justificando por aí os problemas do continente africano com versículos bíblicos e insinuando maldição divina (!). Como cidadão, ele tem o direito de professar sua fé como bem quiser (sem que isso fira a dignidade humana!), mas como deputado não pode representar o povo como se estivesseno púlpito da sua igreja. O estado é laico, e me pergunto quando é que esses coronéis da fé entenderão isso.

Voltando ao caso da Patrícia e a acusação de tentativa de estupro (que só cabe à justiça investigar e dar sentença),  o que me assustou foi a  quantidade de pessoas que se disseram chocadas com a história ou não acreditando na possibilidade dela realmente ser verídica. Primeiro, isso se deve ao fato de uma super idealização e até em certo nível de idolatria sobrelideranças religiosas. É quase inimaginável (para algumas pessoas) que pastores, padres, rabinos, pai de santo, guru ou qualquer tipo de líder religioso cometam esse tipo de violência. Em segundo, é bastante comum que, em situações  de violência contra a mulher, seja sexual, física, verbal ou psicológica, as vítimas sejam culpabilizadas. É o machismo de cada dia nos inquirindo : “ah, ela está mentindo”, “ele é doida” , “ela é histérica” “ela quis”, “ela procurou” e a lista de acusações continua.  Em terceiro, em especial nas igrejas evangélicas , violência sexual contra mulheres é um tabu. Somos capazes de passar domingos e domingos fazendo pregações apologéticas sobre a passagem dos hebreus saindo do cativeiro do Egito até a terra prometida em Canaã sem que isso tenha nenhum sentido com a vivência prática das pessoas. Sem que essas experiências nos façam solidarizar com a dor de mulheres, negros e LGBTs.

Ouvimos as notícias de que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada (isso porque apenas 30% denunciam), mas isso não nos toca. Afinal, achamos que nossas irmãs, mães, filhas, parceiras, amigas estão protegidas na igreja.  Elas são “santas”, né? Não, elas não estão protegidas! E, sim, ambientes religiosos podem produzir violência, abuso, controle e perversidade como qualquer outro lugar. E não falar sobre isso em nossas igrejas (paróquias, terreiros, etc.) é fingir que isso não existe e assim nos tornamos responsáveis por essa prática dentro e fora de nossos portões.

Por que ao invés de dizer que não existe, a gente não escuta as nossas mulheres? Por que a gente não protege aquela irmã que foi pedir orientação ao pastor porque não gosta de fazer sexo com seu marido e ele a orientou a continuar dormindo com ele, fingindo que gosta “em nome de Deus”? Por que não ouvimos a filha do diácono que apanha do pai até ficar roxa por não concordar com suas ideias? Por que não ouvimos a adolescente que se apaixonou pelo líder da escola dominical que costuma mandar zap para ela de madrugada e depois disse que ela é louca? Por que não as ouvimos?

Quem cala consente, não é assim que diz o ditado? E calar-se é reproduzir uma fé asséptica e débil que vive no mundo da lua, que não faz sentido algum na vida prática das pessoas e não traz qualquer mudança real da sociedade.

A religião também está sujeita a reproduzir e acobertar violências contra as mulheres. Portanto, a única forma de encarar isso de frente é falar sobre feminicídio, abuso sexual e machismo em nossos púlpitos. Precisa ser pauta de pregação. Não dá para fingir que não existe ou simplesmente dizer: “ah, ele não era um cristão verdadeiro” e ponto . Essas pessoas existem, elas frequentam nossos cultos, podem estar tocando no louvor, pregando na escola dominical ou cuidando das nossas crianças. Além de estarmos atentos, precisamos dar para nossas meninas, jovens e mulheres as ferramentas necessárias para elas denunciarem qualquer violência sofrida. Precisamos ouvi-las e não silencia-las. Quanto aos abusadores e estupradores o evangelho de Cristo nunca foi uma roupa que você usa e se torna bonzinho . Ele é um encontro diário consigo mesmo e requer transformação . Mas enquanto a metanoia não vem, meu irmão, tem tratamento, leis e justiça para isso. E NÓS NÃO NOS CALAREMOS!


Thamyra Thâmara é jornalista, social mídia, fotógrafa, afrofuturista e a idealizadora do GatoMídia.

Arte:  Lou Ros

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.