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Mulheres de impacto: mães informadas são mães empoderadas

A campanha #cadanascimentoimporta da Comparto quer democratizar o conhecimento sobre o parto
A campanha #cadanascimentoimporta da Comparto quer democratizar o conhecimento sobre o parto

“Para mudar a sociedade é preciso mudar a forma de nascer”, afirma o obstetra francês e referência em parto humanizado Michel Odent. Inspiradas por essa ideia de transformar a sociedade a partir do nascimento, as irmãs Raquel e Lia Oliva criaram a Comparto, uma empresa voltada para a defesa do parto humanizado como ferramenta de transformação social e do sujeito. A luta pelo parto humanizado se faz necessária ao considerar os números que dão ao Brasil o ingrato título de campeão mundial da cesárea: mais da metade dos bebês nasce por via cirúrgica na saúde pública brasileira, chegando a 88% dos partos na rede privada, de acordo com uma pesquisa realizada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Em 53,5% dos casos, não há justificativa clínica adequada para a cesárea. A orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é que no máximo 15% dos partos sejam cesáreas.

De acordo com a pesquisa “Trajetória das mulheres na definição pelo parto cesáreo”, da Fiocruz, a alta taxa de cesáreas no Brasil está ligada à “baixa informação recebida pelas mulheres em relação às vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de parto”. Tendo em vista esse cenário de desinformação, Raquel criou em 2012 a Comparto para acompanhar casais na preparação do nascimento dos filhos como Doula e Educadora Perinatal. Formada em Naturalogia, desde a graduação ela se questionava a partir de que momento era possível promover a saúde na vida de alguém e concluiu que era desde o ventre. Foi atrás de formação para trabalhar diretamente com isso e se tornou Doula, lutando pela causa do parto humanizado. “Com o excesso de cesáreas há mais custos na saúde pública, mais riscos de o bebê ficar na UTI, a mulher tem três vezes mais chances de morrer em uma cirurgia desnecessária por hemorragia… Não é uma questão de escolha ou de ideologia, é uma questão de saúde pública. É importante que as mulheres se dêem conta disso para ter condições mais saudáveis de parir seus bebês”, diz Raquel.

Raquel auxilia parto humanizado de Maíra Gadagnotto. Foto: Carla Raiter
Raquel auxilia parto humanizado de Maíra Gadagnotto. Foto: Carla Raiter

Depois de seis anos de experiência como doula e após acompanhar mais de 200 nascimentos – 85% deles partos normais ou naturais – Raquel quis expandir expandir seus serviços para um número maior de pessoas e para isso passou a contar em 2015 com a ajuda da irmã, Lia, com quem dividiu um útero e que traz dez anos de know how com projetos, para transformar a Comparto em um grande hub de troca de experiências e serviços relacionados ao nascimento. O assunto já tocava Lia por ter nascido em uma família de cinco filhas – as chamadas irmãs Oliva -, o que lhe proporcionou ao longo da vida uma discussão muito aberta e presente sobre os assuntos relacionados ao universo feminino. Além disso, a própria Lia nasceu em um parto com violência obstétrica. Quando sua mãe entrou em trabalho de parto, em 1981, não se usava ultrassom tanto quanto hoje e durante a auscultação o médico não ouviu batimentos e concluiu que o bebê era era um natimorto. Dez horas em trabalho de parto para “expelir” o bebê que havia nutrido por nove meses, a mãe acabou sendo submetida a uma cesárea, quando se descobriu que a pequena Lia estava viva e saudável. “A violência obstétrica não é só a maldade do médico, sabemos que muitos médicos são bem intencionados, mas violência não é só meter a mão na cara, às vezes é não deixar a mãe comer, não deixar esperar a filha mias velha chegar porque ele tem compromisso, é a enfermeira dizer ‘na hora de fazer você não gritou’. Basicamente, é tratar a mulher como infantil, como incapaz de entender e tirar-lhe a autonomia”, diz Lia. No Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto, segundo a pesquisa “Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado”, realizada em 2011 pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC. Outras pesquisas relacionam a violência no parto com o nível de violência de uma sociedade em um processo que gera ao mesmo tempo em que reflete desigualdade de gênero.

"Respeita as mina e deixa a gente parir com respeito”, diz Lia. Foto: Carla Raiter
“Respeita as mina e deixa a gente parir com respeito”, diz Lia. Foto: Carla Raiter

Logo após a união de forças das duas irmãs Oliva, foi anunciado o projeto Mulheres de Impacto, uma parceria entre a Benfeitoria, a Think Olga e a ONU Mulheres para financiar através de crowdfunding 11 projetos voltados para o empoderamento das mulheres. Para as irmãs Oliva, o timing foi perfeito. “A Comparto essencialmente é feminina, lógico que não excluimos pais e médicos, mas é algo nosso, parir e gestar é exclusividade nossa. A gente sabe o que está fazendo, a gente é mulher, esse lugar é nosso, respeita as mina e deixa a gente parir com respeito”, afirma Lia.

A partir de agosto e até 15 de setembro a Comparto está em campanha de crowdfunding com uma meta mínima de R$ 32.550,00 para a realização do projeto. A primeira meta garantirá a transformação do site da Comparto em um portal com informação de qualidade e rede de apoio, além de um canal no YouTube com os primeiros 10 vídeos. Se a segunda meta for alcançada, soma-se a isso seis meses de conteúdo com artigos, pesquisas, calendário de eventos e 10 vídeos a mais, além da primeira conferência online de doulas do Brasil. Caso a terceira meta se concretize, a ideia é expandir o portal e criar um ranking de profissionais que apoiam partos humanizados, suporte para ferramentas de cursos online, espaço de networking, área restrita para doulas com programação exclusiva e um ano garantido de conteúdo do portal. Gostou da proposta? Então a apoie financeiramente ou compartilhe com seus amigos.

Confira abaixo os vídeos da campanha #cadanascimentoimporta, feito pela Comparto e com apoio da Benfeitoria:

Arte: Rafael Prado

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Sobre Gabriela Loureiro

Jornalista freelancer, mestre em Gênero e colaboradora da Olga. Trabalhou nas editoras Abril e Globo, fez mestrado no Reino Unido através do programa de liderança do governo britânico Chevening e escreve para a Think Olga desde 2013.