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Vó, precisamos falar de aborto

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Vó precisamos falar de aborto. Eu sei que a senhora é mãe de seis filhos e que cuidou deles praticamente sozinha depois que seu marido alcoólatra te abandonou. Eu sei que você mesmo na dificuldade, mesmo com pouco dinheiro, nunca pensou em abandoná-los, ou não tê-los, mas precisamos falar sobre isso. Eu mesma acho que não teria coragem de abortar, talvez em caso de um estupro. Mas nunca me vi nessa situação e tenho muito medo só em  pensar. Vó precisamos falar de aborto, porque mesmo eu não abortando eu não me acho melhor do que elas, mais correta, mas digna, mais amada por Deus.

Vó, você sabia que o aborto ilegal mata uma mulher a cada dois dias no Brasil? Segundo dados da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2013,  foram mais de 150 mil casos de mulheres internadas por complicações em abortos induzidos no país, a maioria preta e pobre. Você sabia que elas são como a gente, cada uma com a sua história e vivência. Muitas mulheres que decidem interromper uma gravidez são cristãs, algumas são adolescentes que tem medo de assumir para a família que engravidaram antes do casamento, medo do julgamento deles, dos amigos, da igreja. Outras são mulheres casadas, com filhos, mas não desejam mais um, tem mulher pobre, tem mulher preta, tem mulher branca, tem mulher com o dinheiro. Muitas mulheres, muitas histórias, muitos motivos.

Vó, você sabia que métodos contraceptivos falham né? Não são 100% seguros. Lembro da minha mãe contar que ela ficou gravida de mim quando meu pai não quis usar camisinha e acabou gozando dentro. Você lembra disso? Aconteceu com você? Poderia ser qualquer uma de nós. Você sabia que segundo o código penal brasileiro, a mulher grávida que abortar é punida com pena de prisão até 3 anos? Do outro lado, muitos homens metem o pé, não querem filhos, não apoiam suas companheiras, e nada acontece com eles. Imagina enfrentar toda essa dor, medo e angustia e ainda ser presa? Em vez de ser acolhida. Você sabia que mulheres vão continuar abortando mesmo que você seja contra? E elas continuaram morrendo, principalmente as pobres. E a vida dessas mulheres que estão morrendo ? O que a gente faz? Ignora?

Vó, esses dias escutei de uma amiga que ela era contra o aborto porque não queria que os “impostos dela pagasse aborto para putas”. Vó aquilo me doeu tanto. Primeiro porque a complexidade da história de uma mulher é muito mais profunda do que categorizá-la em Puta X Santa e segundo porque o sistema público de saúde gasta mais com curetagem e com as internações por complicações decorrentes do aborto clandestino do que gastaria se o aborto fosse legalizado no Brasil. No Sistema Único de Saúde (SUS), o número de curetagens pós-aborto ou puerpério,  se manteve nos últimos anos (190 mil em 2013, 187 mil em 2014 e 181 mil em 2015) enquanto o número de AMIUs, que é o esvaziamento do útero por aspiração manual intrauterina, aumentou (5.704 em 2013, 8.168 em 2014 e 10.623 em 2015). O custo, somando ambos os procedimentos, foi de R$ 40,4 milhões.

Vó, você sabia que se o aborto fosse legalizado no Brasil teria regras. Não seria de qualquer jeito. Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer. Não teria mais um mercado clandestino sem respeito nenhum a vida da mulher, que seria capaz de interromper uma gravidez em qualquer período gestacional. Aborto é questão de saúde pública e não de polícia. Junto com a legalização do aborto viria acompanhamento médico, psicológico e social. Lá no Uruguai isso já acontece desde 2012, e eles tem experimentado quedas tanto no número de mortes maternas quanto no número de abortos realizados.

Vó, você sabia que o aborto é crime muito mais por uma questão moral, que pune somente mulheres, mais do que pelo respeito a vida. Eu sei que você acredita que a vida acontece desde a sua concepção, lá no embriãozinho. E você não precisa deixar de acreditar nisso. Mas a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico. Você não precisa ser a favor do aborto, precisa ser A FAVOR QUE CADA MULHER POSSA TER O DIREITO DE DECIDIR O QUE FAZER COM SEU CORPO.

Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida dessas mulheres que morrem todos os dias em clinicas clandestinas. Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida das mulheres que sobrevivem a essa experiência traumática cheia de sequelas no corpo e na alma. Se realmente somos a favor da vida temos que respeitar a escolha das mulheres, respeitar a autonomia que cada uma de nós devemos ter sobre nossos corpos e acolher- las.

Vó, pela vida e pelo amor eu acredito que todxs as mulheres devem ter o direito de decidir, se querem ou não, terem filhxs.


Thamyra Thâmara é jornalista, social mídia, fotógrafa, afrofuturista e a idealizadora do GatoMídia.

Arte:  Ana Núñez

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.