Como as mulheres estão construindo o futuro

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Se você pudesse escolher uma época da história para viver agora, qual época escolheria?

Essa é uma pergunta bastante comum, um exercício de imaginação que nos faz sonhar com as festas glamurosas dos anos 1920 ou em Woodstock nos anos 1970. Mas, como mulheres, não gostaríamos de viver em nenhuma dessas épocas. O progresso da igualdade de direitos não tem uma história linear, a luta por direitos das mulheres avançou com vários retrocessos e os avanços acumulados até agora não valem para a maioria das mulheres do mundo, como aquelas que moram em periferia, em sua maioria negras, as indígenas, as trans ou as com alguma deficiência. Mesmo assim, há muito mais pontos favoráveis do que desfavoráveis hoje, comparando com o passado. E se as mulheres continuarem tomando as rédeas da história, o futuro tem tudo para ser melhor.

De onde vem a ideia de que mulheres são inferiores?

A ideia de que mulheres são inferiores aos homens existe há muito tempo, desde a Grécia Antiga. Para o filósofo Aristóteles, a mulher não era mais do que “um homem impotente”, já que não possuía racionalidade, segundo ele. Muitos outros filósofos acreditavam na inferioridade das mulheres, mas um dos mais importantes para o período moderno foi Descartes. No século XVII, ele ajudou a criar uma nova concepção de conhecimento, como algo construído através de métodos. Descartes enfatizou o uso da razão em detrimento da emoção e criou a noção cartesiana de separação entre corpo e mente. Com essa separação, as mulheres foram relegadas a tudo ligado a emoções, como intuição e impulsividade, enquanto os homens eram considerados os detentores da razão, “naturalmente” menos emotivos e mais racionais. E exclusão da razão significou exclusão do poder. É uma história construída por homens, afinal de contas. A partir do século XVIII, com o romantismo, poderia se esperar que as qualidades consideradas femininas pudessem ser valorizadas e as mulheres então poderiam ganhar prestígio, mas não, já que o ocorrido foi a valorização do amor romântico, isto é, os homens continuam sendo os detentores da razão, mas em busca do seu “oposto” (a mulher, a emoção) para completar sua existência. A rejeição à razão do romantismo do século XIX fortaleceu ainda mais a dicotomia entre razão e emoção, o que torna muito difícil entender o que é racionalidade até hoje.

Pode parecer um papo muito filosófico, mas essas ideias tão antigas continuam fortes e afetam diretamente a vida das mulheres, que são vistas como mais frágeis ou mais emotivas que os homens por vários motivos, um dos principais deles a questão dos hormônios femininos, como se os homens não tivessem hormônios também ou não fossem abalados por eles de maneira alguma. O chamado “viés inconsciente”, isto é, as noções pré-concebidas que temos das pessoas nas nossas mentes e que nem percebemos, é considerado um dos grandes fatores para, por exemplo, o número tão baixo de mulheres em cargos de chefia em empresas. Apesar de o estudo da organização Catalyst ter provado que empresas com mais mulheres nos conselhos diretores têm uma performance melhor do que as que não tem e que o retorno de capital investido em empresas com forte representação feminina é 26% maior, no Brasil elas representam 6% dos executivos em conselhos diretores de empresas. Em algumas áreas a situação pode ser mais crítica, como na tecnologia, na qual o salário médio das mulheres no setor de Tecnologia da Informação é 34% menor do que o dos homens e, quando elas alcançam cargos de chefia, ganham 65% a menos que seus colegas. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres no mercado de trabalho são, em média, mais educadas, experientes e produtivas que seus colegas do sexo masculino, mas ainda ganham menos. Mesmo na Islândia, país número um em rankings internacionais de combate à desigualdade de gênero, há uma diferença 20% entre os salários de homens e mulheres e elas ainda ocupam menos cargos políticos que eles.

Sheryl Sandberg, COO do Facebook, diz no seu livro “Faça Acontecer” que um dos motivos para essa diferença são os estereótipos de gênero que são introduzidos na infância e reforçados nas nossas vidas, tornando-se “profecias que se cumprem sozinhas”. Por exemplo, um homem que dá ordens é visto como assertivo, enquanto uma mulher é vista como mandona. É muito comum ouvir comentários como “está de TPM?” quando uma mulher critica ou discorda de um homem. Esse tipo de comportamento mina a autoconfiança de uma mulher, e como autoconfiança é um fator decisivo na ascensão profissional, os efeitos são enunciados nos números das pesquisas citadas acima. Entre os problemas apontados por mulheres para falta de confiança no mercado de trabalho estão a falta de modelos de mulheres bem-sucedidas dentro de empresas, pequenos atos de discriminação no cotidiano, sentir-se julgada por decisões pessoais e ser avaliada por critérios diferentes do que os usados com os colegas do sexo masculino.

Ainda assim, há avanços. Por exemplo, uma pesquisa feita apela Conaje (Confederação Nacional de Jovens Empresários) mostra que o empreendedorismo feminino cresceu 21,4% na última década e, em 2013, 39% dos negócios brasileiros eram impulsionados ou geridos por mulheres. Nos últimos 10 anos, o salário das brasileiros aumentou em 13%, enquanto o dos homens aumentou em 4%. Elas ainda ganham menos que eles, mas a diferença é menor: o salário delas em 2000 equivalia a 67% do deles, e em 2010 esse valor subiu para 73%. Ou seja, a realidade enfrentada por mulheres avança a passos lentos.

Mulheres abraçam o futuro

Nós acreditamos que um fator importante para um futuro melhor para as mulheres é a representatividade. Durante boa parte da história, as mulheres realizaram grandes feitos, mas não foram reconhecidas. Ou, como diz a escritora Virginia Woolf, “durante a maior parte da história, anônimo foi uma mulher”. Quando falamos em tecnologia, química e física automaticamente pensamos em engenheiros, químicos e físicos, todos homens. Mas as mulheres sempre estiveram nessas áreas. Quem inventou o primeiro computador foi uma mulher (Ada Lovelace), quem desenvolveu a teoria da radioatividade foi uma mulher (Marie Curie), quem criou a fórmula correta da energia cinética “de Newton” foi uma mulher (Émilie du Châtelet) e quem descobriu a hélice dupla do DNA também foi uma, Rosalind Franklin. Está mais do que na hora de reconhecer os créditos das mulheres.

Por isso, em março, a equipe do Think Olga foi ao South by Southwest, um dos maiores festivais de tecnologia e tendência do mundo, registrar como mulheres inovando e abraçando um futuro melhor. Encontramos mulheres incríveis com projetos em diferentes áreas e vamos apresentar os trabalhos delas a vocês em uma série de vídeos no nosso canal no YouTube, TV Olga. A seguir, nosso teaser mostra o que aprontamos. E, ao longo das semanas, vamos divulgar um total de oito vídeos.

Conheça as entrevistadas:

Tracy Chou, engenheira de software do Pinterest, exigiu que as empresas de tecnologia liberassem os números sobre mulheres engenheiras em seus quadros de funcionárias e se tornou uma advogada da inclusão de mulheres na área.

Outra é Alana Nichols, uma atleta paralímpica americana que superou uma fratura na espinha com medalhas de ouro.

 

Shireen Mitchell é uma empreendedora, consultora de redes sociais e ativista da inclusão de mulheres negras na tecnologia e do combate à violência online contra mulheres, tendo criado a primeira empresa de gestão de multimídia online de mulheres negras e a organização Digital Sistas, a primeira a focar na capacitação digital de meninas negras.

 

Debi

Uma delas é Debi Jackson, mãe de uma menina trans de 8 anos e criadora de uma organização para auxiliar famílias e instituições a entender e apoiar crianças trans.

Lisen

Depois de uma carreira bem-sucedida de 20 anos em marketing e estratégia de negócios, Lisen Stromberg decidiu criar uma consultoria de estratégia para alavancar a carreira de outras mulheres e mudar os números das empresas sobre mulheres em cargos de liderança.

 

Lara

Lara-Ann de Wet é uma documentarista sul-africana que tenta ganhar um lugar ao sol na indústria de filmes em Nova York e  ficou conhecida com o premiado documentário “Alive and Kicking: The Soccer Grannies of South Africa”, sobre senhoras que usam o futebol para superar adversidades de suas vidas na África do Sul.

Fatima

Fatima Maan participa dos movimentos Black Lives Matter e Million March Texas, a respeito da brutalidade policial contra negros nos Estados Unidos, estuda direito e dá discursos motivacionais para meninas em serviços de proteção a crianças e adolescentes em risco.

 

Meredith

Meredith Walker recebeu vários prêmios como produtora e chegou a ser chefe do departamento de talentos do Saturday Night Life, até que decidiu largar tudo para fundar, junto com sua melhor amiga, a atriz e comediante Amy Poehler, a Amy Poehler’s Smart Girls, uma comunidade que encoraja meninas a serem elas mesmas através de workshops e treinamentos.

São apenas alguns exemplos de como as mulheres estão mudando o futuro, claro. Mas divulgar o trabalho delas é uma maneira de reconhecê-las e encorajar outras mulheres e meninas a tomar as rédeas da mudança. Vamos moldar o futuro juntas?

Um imenso obrigada a três mulheres transformadoras pelo apoio neste projeto: Nayara Ruiz, Danielle Pinheiro e Giovanna Cartapatti. Agradecemos também ao parceiro Bradesco por nos ajudar a impulsionar cada vez mais o protagonismo feminino. #ElasAbraçam

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.