Mas você vai sozinha?!

Quando eu tinha 3 anos de idade, minha família foi convidada para a festinha de um ano da minha prima. Há uma divertida fita VHS do evento e, toda vez que assistíamos, minha mãe me contava sobre como eu dei trabalho naquele dia. É que a comemoração ocorreu no salão de festas do play do prédio onde meu tio morava, mas fora daquele ambiente tudo estava escuro e vazio. E eu, sempre que encontrava oportunidade, saía zanzando sozinha a explorar o play inóspito e algum adulto tinha que ir me pegar.

Eu acredito ter alguns flashes de memória dessa ocasião (inclusive de quando descobri o camarim improvisado dos palhaços), mas certeza eu tenho mesmo é de que desde essa época eu já manifestava o gosto por fazer coisas sozinha. Só mais tarde é que entendi que, para muita gente, por incrível que pareça, isso é alguma espécie de defeito em uma mulher.

Ou até de danação. Ficar sozinha depois de certa idade, “para titia”, ainda assombra muitas mulheres pela simples pressão social a que são submetidas por esse motivo. Não importa o quão bem sucedida, feliz ou até mesmo bonita dentro dos padrões vigentes (magra, branca, cabelos lisos, etc) ela seja: se não conseguiu manter um homem ao seu lado, tem alguma coisa de errada com ela. Se tem filhos, nem mãe ela é: é mãe solteira, pois é preciso salientar o fato de que ela está criando o filho sozinha – já o pai, em geral, “tem uma filha de outro relacionamento” quando falam dele, pois ser pai e solteiro não o definem como indivíduo.

Mas o fato de não estar em um relacionamento gera situações em que a única saída possível é fazer algo por si só, ainda que eu nunca tenha dependido particularmente disso para gostar de fazer programas tendo só a mim como companhia. Nem sempre os amigos estão disponíveis também e eu não deixo de fazer o que quero por causa disso. É nesses momentos em que percebo como, em pleno século XXI, o mundo ainda não está totalmente preparado para esse tipo de autonomia feminina.

No início do ano passado, eu decidi que não deixaria para última hora os planos da próxima virada de ano. Rotineiramente, dezembro chegava e eu não fazia ideia de onde ia passar o réveillon. Dessa vez, porém, eu resolvi me organizar e decidi realizar um sonho que nutria há muito tempo: virar o ano em Nova York. Por alguma razão, eu sempre desconfiei que essa seria uma cidade incrível para se estar nesse momento específico do calendário e resolvi tirar a prova (resposta: eu estava certa).

De início, convidei pessoas próximas para me acompanhar, mas ninguém topou. Alguns por falta de grana, outros por medo do frio etc. Apesar disso, eu não ia deixar de fazer a viagem que eu tanto queria só por falta de companhia. Consegui me organizar financeiramente para arcar com os custos sem ter com quem dividí-los e me tornei uma expert na cidade, escolhendo com muito cuidado como gastaria os meus 20 dias e suados dólares (a cada mês mais caros!) que levaria na bagagem.

Depois de ter me decidido, a reação mais comum das pessoas à notícia da minha viagem era, disparado: “Mas você vai sozinha?!”, como se eu estivesse planejando invadir a Rússia no inverno armada apenas com uma faca de passar manteiga. Ir à Nova York está longe de ser uma viagem ousada. Talvez fosse, sim, um grande passo para mim, que não fui o tipo de criança que conheceu a Disney e havia saído do país pela primeira vez no ano anterior. Mas, de toda forma, eu estava falando apenas uma das cidades mais turísticas do mundo, não de ir para a Síria.

Foi necessário certo sangue frio e alguma determinação da minha parte para levar o projeto adiante. Eu sentia como se devesse aos outros os motivos, as razões e os porquês de gastar o meu dinheiro com algo que eu queria fazer. É claro que deixei muita gente no vácuo, mas penso nas mulheres que se deixam levar pela ideia de que não poderiam dar o mesmo passo. Que olham para o mundo como uma peça de museu: você pode admirá-lo, mas jamais poderá colocar as mãos nele, pois não lhe pertence. Somente pessoas autorizadas podem tocar o mundo e mulheres sozinhas não fazem parte desse time.

Não estou falando aqui do aspecto financeiro da questão. Sei bem que, ainda que eu esteja muito longe de ser endinheirada, tive e tenho oportunidades e condições de dedicar boa parte dos meus modestos rendimentos a planos completamente meus. Um número muito grande de mulheres nem mesmo pode sonhar com isso, ainda que tenham o desejo de tomar o mundo com as mãos. Mas o fato é que existem também essas mulheres, e muitas eu conheci ao falar sobre os meus planos, que, ainda que tivessem condições de viajar, não o fariam sozinhas, de jeito nenhum. Por quê?

Pelo mesmo medo que nos faz evitar ruas e avenidas, trocar de roupa e viver sob um toque de recolher informal: o medo do assédio, do abuso, do estupro, da violência contra a mulher. De ataques que homens não sofrem rotineiramente e simplesmente não consideram antes de comprar a passagem. Dependendo do país para onde uma mulher vai, é primordial que ela saiba como é o machismo naquele lugar, que tipo de apuros ela, pelo simples fato de ser mulher, pode passar ao visitar a região. Mulher, estrangeira e sozinha? Presa fácil em quase qualquer lugar. E essa é uma realidade que acomete diversos países.

Ou seja, o nome do nosso carcereiro, mais uma vez, é O Patriarcado. Hoje, de volta ao Brasil após uma viagem muito enriquecedora, sei que a melhor forma de combatê-lo é resistindo aos seus grilhões. Fico pensando nas experiências maravilhosas que eu teria perdido simplesmente por ter medo de viajar sozinha. Se eu me tivesse deixado convencer de que sou dependente, sempre, de outra pessoa, nem que fosse uma outra mulher. Mas sair sozinha? Do país, então? Jamais!

Aprendemos desde muito cedo como devemos agir para nos manter em segurança. Ainda que esse aprendizado não seja justo – são os homens que deviam ser ensinados que o corpo de uma mulher é propriedade dela e somente com o seu consentimento ele tem a liberdade de tecer comentários sobre ele ou tocá-lo. O que quer que passe disso é considerado, para dizer o mínimo, uma inconveniência. E pouco nos importamos com as suas intenções (“Eu só queria elogiar!”).

Mas é nesses momentos que devemos colocar nosso conhecimento em prática. Sabemos muito bem tomar conta de nós mesmas, somos treinadas para isso há anos. E, se mesmo assim sabemos que não há garantia de que estaremos a salvo de sofrer uma violência, não é na hora de viajar que vamos ter medo. Se ser mulher é um risco em quase todo lugar, então vamos explorar o mundo e ao menos ver lugares diferentes. Este artigo da Forbes, escrito por uma mulher que viajou sozinha por Bali durante quatro meses, fala juntamente sobre esse assunto:

“Não estou dizendo para você arrumar a mochila e viajar o mundo como um inocente e ridícula viajante solitária. Aquela que saltita por aí gritando bem alto o número do seu quarto no albergue, que bebe horrores com estranhos nas partes mais perigosas da cidade e anda pelas ruas à noite com fones de ouvido bem alto em ruas escuras. Nada me deixa mais perturbada do que quando essas garotas são atacadas e legiões de pessoas surgem gritando que essas mulheres deveriam fazer, vestir e falar o que elas quisessem.

Em um mundo perfeito, as mulheres deveriam poder fazer tudo isso e muito mais.

Esse mundo perfeito ainda não existe.”

Não vamos aceitar ser tratadas como idiotas, é o que eu quero dizer. Viajar sozinha não é sinônimo de se tornar cega para medidas básicas de segurança – ainda que NADA justifique que sejamos vítimas de qualquer tipo de violência. Não é certo, porém, que a intimidação nos impeça de expandir nossos horizontes. É normal ter medo, sim, temos razão para tal: uma em cada três mulheres já sofreu violência sexual ou física, segundo a ONU. Mas ser mulher, por si só, é viver apesar desse medo. Então vamos viajar apesar dele também.

Eu, eu mesma e Nova York

Apesar de já ter feito muitas viagens de trabalho sozinha, eu não sabia o que me esperava nessa que seria a minha primeira viagem de férias do tipo. Como 2015 foi um ano generoso comigo, ainda tive a oportunidade de ir à cidade antes de dezembro, por quatro dias, para uma conferência. Foi quando comecei a fazer algumas observações sobre como era estar sem mais ninguém naquela cidade, já que, ainda que tivesse compromissos profissionais, estava por minha conta.

Após o primeiro dia de palestras, resolvi ir ao Comedy Cellar, um tradicional clube de stand up comedy novaiorquino, já que eu adoro comédia. Eu fiz reserva com certa antecedência e fiquei feliz de conseguir chegar a tempo. Com o passaporte em mãos para comprovar que tenho idade o suficiente para adentrar o recinto e confirmar meu nome na lista, o segurança da porta me pergunta, com certa condescendência: “É só você?” Sim, sou só eu, reserva para um, obrigada. Ele sorriu com um misto de pena e admiração, como se eu merecesse um prêmio por ter a coragem de fazer algo desacompanhada. Mai um pouco e ele descia as escadas para tirar uma foto minha sozinha na mesa para dois.

Eu me pergunto se ele teria a mesma reação se eu fosse um cara ou se as piadas seriam mais engraçadas se eu soubesse que alguém conhecido as estaria ouvindo comigo. Se uma garota sai para se divertir sozinha e ninguém está lá para fazer-lhe companhia, sua felicidade ainda tem valor?

Quando voltei para lá em dezembro tive bem mais oportunidades de explorar a cidade, é claro. E fazê-lo sozinha foi libertador, divertido e inesquecível, mas em alguns momentos foi impossível não me aborrecer com as limitações que ainda existem para mulheres nessa modalidade de viagem, ainda que eu estivesse lá, em parte, para encará-las de frente.

Certa noite, lá pelas 23h de um domingo, eu estava voltando de metrô para a casa onde fiquei hospedada cheia de fome. Decidi descer na Times Square para comer alguma coisa, pois lá está sempre muito iluminado, tem polícia e onde certamente havia restaurantes abertos. Dito e feito. Depois de comer o que eu queria, fui meio caminhando, meio passeando até a minha estação de metrô. Digam o que quiser, mas aquele lugar é um símbolo da cidade e lá estava eu, sem mais ninguém, com tempo de sobra para apreciar aquela loucura toda. Eu estava bem no meio da praça, olhando para um letreiro, quando um homem se aproximou de mim. Ele parecia ser um cara normal em circunstâncias normais e perguntou se eu era brasileira. Eu disse que sim e ele começou a conversar comigo ali mesmo, em pé no meio de uma Times Square quase deserta (para os padrões normais de lá).

Fui tentando me desvencilhar do assunto quando ele tentou segurar minha mão. Não deixei. Ele insistiu. Tentou me dar o braço, como se fosse meu namorado, e disse que estávamos em um encontro. Eu disse que não, que aquilo não era um encontro, e eu ia embora. Saí andando depressa para o metrô, já com medo de estar sendo seguida. Meu passeio acabou. Depois me dei conta de que ele provavelmente era um desses pick up artists (“artistas da cantada”, homens que possuem técnicas para abordar e conquistar mulheres na rua e em baladas – geralmente sozinhas) tentando a sorte com estrangeiras.

No AirBnb onde fiquei hospedada, descobri que as anfitriãs haviam alugado o quarto ao lado para um cara e simplesmente não avisaram que haveria outro hóspede. Um dia a polícia bateu na porta por causa de uma chamada falsa e eu descobri junto a dois policiais que havia um homem na casa. A partir de então, fiquei preocupada. Sei que há mulheres que não se importam e não têm medo, mas eu havia alugado essa casa justamente por ser de uma mãe e uma filha. Por sorte, eu nunca mais o vi no apartamento e ele foi embora de vez dois dias depois. Na avaliação da hospedagem, perderam uma estrelinha em comunicação.

No geral, eu me sentia muito segura circulando sozinha pela cidade. Mas isso também se deve à minha ignorância em relação à criminalidade por lá. Vira e mexe eu via nos jornais locais notícias de estupro de mulheres em determinados bairros da cidade que eu só frequentei à noite quando acompanhada de amigos que encontrei por lá e, em geral, evitei explorar sozinha, o que é triste.

E foi essa minha falta de conhecimento sobre as regras não ditas da cidade que me surpreendeu quando, numa noite, eu tentava voltar para casa às duas da manhã e só havia homens nas ruas. Acho que vi uma ou duas mulheres em um percurso de quase duas horas em diversas estações de metrô – mas havia muito mais homens, alguns sozinhos, outros em grupos. Senti que não devia estar ali, não naquele horário. Deus sabe como relaxei quando tranquei a porta do apartamento e estava sã e a salvo, ainda que nada demais tenha acontecido no trajeto.

Fora esses incômodos com as amarras do patriarcado, o resto da viagem foi muito bacana. Acho que toda mulher, tendo a oportunidade, deveria fazer uma viagem sozinha, nem que seja só para ver como é. É algo tão simples e tão poderoso. Quem já tem vontade, provavelmente vai amar essa conquista. Quem nunca pensou nisso, pode descobrir que é capaz de muito mais que imagina. E sozinha! Na volta ainda pode se reunir com as amigas para contar causos e comemorar, bem assim como estou fazendo aqui com vocês. 🙂


Arte: Cari Vander Yacht

 

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