#MandaPrints: Porque a Internet odeia as mulheres?

Neox Image Photography Studio
Nick Gentry

Uma jornalista escreve um artigo sobre a hostilidade sofrida por mulheres em fóruns da internet e encomendas de fezes e vermes chegam à porta de sua casa como retaliação. Uma cantora fala sobre as agressões machistas que recebe online – e elas se multiplicam. Uma vlogger posta um vídeo sobre games e os comentários são sobre seu corpo e os atos lascivos/violentos que homens querem fazer com ele. Atrizes negras são vítimas de ataques racistas orquestrados pela internet.

Fazer compras, assistir aulas, conhecer o amor da sua vida: tudo isso pode ser feito via internet. Ser ameaçada de estupro e morte, ter sua privacidade violada, sofrer ataques apenas por ser mulher: isso também acontece na rede. Com limites cada vez mais difusos entre vida online e offline, a internet se tornou apenas mais um espaço no qual nós, mulheres, vivemos à despeito do machismo e da misoginia que nos cerca.

A ONU estima que 95% de todos os comportamentos agressivos e difamadores da internet tenham as mulheres como alvo. Os machistas não nos querem aqui e usam de intimidação e ameaças para nos silenciar. Mas não vamos embora. Esse espaço também é nosso. Não vamos desistir da internet. Longe disso: vamos reagir. É por isso que iniciamos, aqui na Think Olga, a campanha Manda Prints, cujo objetivo é incentivar mulheres a denunciar aos órgãos responsáveis as agressões que sofrem via internet.

QUOTEGISELE

O lançamento oficial aconteceu no dia 3 de dezembro, por ocasião do 3º Fórum Fale Sem Medo, promovido pelo Instituto Avon. Convidamos a nossa consultora jurídica e advogada especialista em direito digital Dra. Gisele Truzzi; Silvia Nascimento, jornalista e editora do site Mundo Negro; e Carla Lemos, blogueira do site Modices que já foi vítima de diversas agressões online, para conversar sobre esse tema. Você confere o resultado completo desse debate no vídeo abaixo:

Em um de seus relatos durante o Hangout de lançamento da campanha, Sílvia diz: “No começo foi muito difícil, eu me senti acuada, com medo. Eu percebia uma questão de gênero muito presente porque a minha equipe tinha dois homens e os ataques eram feitos especificamente contra a minha pessoa. Era uma coisa direcionada a mim enquanto mulher.” Mas essas mentes retrógradas não vão nos tirar daqui e nem nos limitar a fazer o uso que elas acham certo para as mulheres na rede. Nas ruas ou nos blogs, no trabalho ou no YouTube, em festas ou jogando em rede exigimos o respeito que é nosso por direito.

Gostamos daqui, vamos ficar e só vamos parar de falar disso quando nenhuma de nós pensar duas vezes antes de assumir um username feminino por medo de assédio em jogos online ou precisar trancar os comentários do seu blog ou canal de vídeos pelo mesmo motivo. Só vamos parar quando depressão, ansiedade e suicídio não forem consequências de perseguição de mulheres na internet.

Precisamos nos unir cada vez mais para combater esse tipo de violência virtual. “A gente tem uma rede de mulheres hoje muito preocupada em se ajudar, você sabe com quem contar e a quem se dirigir”, afirma Sílvia. “Estamos conseguindo criar uma rede de amparo onde a gente se abraça. Existe um movimento de pessoas que se mobilizam para chegar, mas também conseguimos encontrar conforto. Somente quando a gente se une é que podemos combater, mostrar como isso está errado e começar a desconstruir”, completa Carla.

quotecarlalemos (1)

Mas, para além da desconstrução e apoios que são absolutamente necessários para lidar com essa violência e combatê-la, a Dra. Gisele Truzzi ressalta a importância das denúncias nesse tipo de incidente. “Não devemos nos calar. A tela do computador cria uma sensação de afastamento e infelizmente ainda muita gente pensa que a internet é uma terra sem lei, mas não é. A nossa legislação é perfeitamente aplicável a tudo o que acontece na internet. Os crimes são os mesmos, o que mudou foi a plataforma, o meio de agir”, afirma ela.

Ou seja: sendo crimes, esses ataques devem ser assim considerados sob a luz da lei. Gisele explica que “Nesses casos, é essencial que a pessoa tire prints do material, seja postado em redes sociais, em blogs criados para difamar, em fóruns ou até mensagens trocadas em chats de celular, ir até uma delegacia – e pode ser qualquer delegacia, não precisa ser uma delegacia especializada em crimes eletrônicos – para pedir o registro de um boletim de ocorrência pela prática de crime contra a honra – aí vai depender se for calúnia, injúria ou difamação.”

Ainda que retratem o que gostaríamos de esquecer, os prints são uma defesa e uma arma contra os agressores virtuais. “É essencial armazenar esse conteúdo, tirar prints é muito importante porque eles serão a única prova que você, que foi agredida na internet, terá disso”, explica a advogada. “E, então, procurar um profissional, um advogado ou defensor público, para verificar o que é possível fazer no caso.”

E ainda há agravantes: se essa ofensa estiver vinculada a alguém com que a mulher teve um vínculo afetivo, ela ainda pode levar o caso a uma delegacia da mulher – que vai atuar nesses casos, independente da duração desse vínculo. Pode ser um affair de semanas ou um relacionamento de 10, 20 anos: se a mulher tem certeza, ou quase certeza, que aquele agressor virtual é um ex ou atual parceiro, ela pode ir até a Delegacia da Mulher e pedir um enquadramento da Lei Maria da Penha.

“É essencial essa combinação: a lei Maria da Penha com o nosso código penal dão uma solução jurídica muito boa nesse tipo de caso em que a mulher que foi agredida também virtualmente por alguém com quem ela teve algum relacionamento, pois ela pode solicitar uma medida restritiva – que faz com que o indivíduo saia de casa, se afaste, seja proibido de manter contato com a mulher, de publicar nas redes sociais qualquer conteúdo relacionado a ela. Então a Lei Maria da Penha fornece uma grade de proteção muito maior para essa vítima da violência online praticada por algum parceiro ou ex-parceiro”, conclui Gisele.

12343418_1641432849448258_603743903_o
Sílvia, Maíra (mediadora – Think Olga), Carla e Gisele

Confira o nosso passo a passo de como agir caso você seja vítima de violência online no site da campanha #MandaPrints, onde você também  encontra os vídeos do depoimento da jornalista Juliana de Faria, fundadora do Think Olga, sobre a violência online que sofreu quando lançou a Chega de Fiu Fiu, da Dra. Gisele Truzzi falando mais sobre formas de denúncia e o nosso Manifesto de Resistência Feminina Contra  a Violência Online.

Compartilhar

Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.