A arte de vencer o preconceito

Quando tinha seis anos, uma “amiga” contou para um garoto da escola que eu era apaixonada por ele. Ele me deu um chute na canela e gritou “Sai, Cabeluda”, me humilhando na frente de todos por causa do meu cabelo crespo e volumoso. Aprendi cedo que as pessoas são especialmente cruéis com as mulheres que não se enquadram nos padrões de beleza promovidos em nossa sociedade. Somos apontadas na escola, na rua, nos espaços públicos e muitas vezes dentro da própria família, “Olha que horror aquele cabelo”, “olha aquela mulher gorda”, “Você tem uma beleza exótica”, “Vamos alisar esse cabelo hoje?”, “Seu cabelo precisa de uma hidratação urgente, está muito armado”. Também já ouvi pérolas como “Ainda bem que apesar desse cabelo você é branca” e “Com esse cabelo dá pra saber que você tem o pé na cozinha”. Essas declarações muitas vezes foram feitas no ambiente de trabalho, partiram de professores e de pessoas que tinham a minha confiança e apreço. Percebi que algumas pessoas acreditavam que estavam fazendo um elogio ou um favor me lembrando que precisava cuidar melhor aparência.

O assédio direcionado a mulheres que tem alguma característica física marcante, como as mulheres gordas, negras ou que tem cabelo crespo e volumoso, tem alguns agravantes. Ele é cometido por homens e mulheres, de todas as idades e tem a intenção de ferir, desqualificar e constranger a vítima, com base em alguma característica física que não é considerada “atraente”, segundo os padrões de beleza impostos desde muito cedo para todas as mulheres. “ Frases de deboche seguidas de gargalhadas são ditas em voz alta, na rua, no transporte público ou em qualquer situação social. É profundamente desrespeitoso apontar a aparência física de alguém, especialmente na presença daquela pessoa. Além disso, é comum que completos desconhecidos ou uma pessoa que acabamos de conhecer coloque a mão no nosso cabelo, sem pedir permissão “Eu sempre quis tocar num cabelo assim”, é o que alegam para invadir o nosso espaço pessoal e tocar nosso corpo, como se ele fosse público. Tanto o deboche, quanto o toque invasivo são atitudes egoístas e que incomodam a maioria das mulheres crespas. Mas por que isso acontece com tanta frequência?

A publicidade e as revistas ensinam que as mulheres desejáveis são magras, loiras, tem cabelo liso, comprido e bem tratado, assim como as unhas, que devem estar sempre feitas, esmaltadas e de preferência com alguma cor que não chame muita atenção. Todas as mulheres que não estiverem de acordo ou ao menos buscando se adequar a esse padrão, ou seja, a maioria, acabam pagando um preço alto, seja pela exigência social para que continuem melhorando sua aparência ou pela cobrança interna para atenderem às expectativas dos outros sobre seus corpos.

No caso das mulheres negras e crespas, há um forte componente racista na propaganda de produtos de beleza dirigida a este público. Ao invés de estampar nas embalagens, fotos de cabelos crespos reais,  as propagandas tem sempre uma modelo branca, com cabelo cacheado com babyliss e a promessa de “cachos perfeitos e domados, sem volume e sem frizz”. Tudo para tornar o cabelo crespo socialmente mais aceitável, mais distante de suas origens afro. Esse bombardeio publicitário e excludente foi silenciado e naturalizado por nós durante tempo demais. Quando apontamos o racismo na fala das pessoas dizem que estamos exagerando e tentam novamente nos silenciar.

O processo de cura e de construção da auto-estima das mulheres fora do padrão numa sociedade doente como a nossa pode ser longo. Antes de fazer as pazes com a minha auto-imagem passei anos  usando o cabelo preso e fui escrava da chapinha. Não me achava bonita o bastante, magra o suficiente e adoeci após fazer todo tipo de loucura e sacrifício para tentar ficar mais próxima dessas expectativas irreais de beleza. Durante meu processo de cura, entendi que pessoas insatisfeitas com a sua aparência consomem mais produtos e tratamentos de beleza, fazem mais plásticas e ainda assim permanecem insatisfeitas, mas com a ilusão momentânea de que o consumo e esses esforços trarão recompensas, aceitação ou alívio da culpa por serem ~inadequadas~. E uma vez que tinha experimentado essa sensação de liberdade, percebi que poderia me conectar a outras mulheres com experiências parecidas.  Assim surgiram minhas duas paixões: o Blog das Cabeludas, para inspirar mulheres a se libertarem da da obrigação de alisar o cabelo e a minha banda X So Pretty​, que também luta pelo empoderamento feminino e fala sobre a diversidade num meio tão machista quanto o Rock.

Obrigada a todas as mulheres que resistem diariamente aos ataques, ao assédio, a qualquer tipo de preconceito, em especial ao racismo. Obrigada àquelas que tem a ousadia de expor suas vozes, seus relatos e seus rostos na internet e na vida offline porque sabem que representatividade empodera muitas outras! Parabéns a todas as mulheres que assumem seus cabelos crespos e inspiram suas mães, filhas e filhos a fazerem o mesmo. Obrigada lindas cabeludas que se deixaram ser fotografadas por meu celular e que dividiram suas histórias comigo para que eu as espalhasse na internet. E principalmente: obrigada a todas as mulheres que vieram antes de mim, que lutaram e resistiram para que tenhamos direito a voz. Nossa luta é por um mundo mais livre em que a aparência de alguém não seja motivo de piada e em que possamos aprender com as diferenças para começa a celebrá-las.


Nanda Cury é criadora do Blog das Cabeludas, vocal da banda X So Pretty e especialista em marketing digital.

Arte: Erikah

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.