Heartmob: um app para combater os trolls

 

Ser mulher na internet não é uma tarefa exatamente fácil. A rede é feita das mesmas pessoas que encontramos todos os dias pelas ruas – e se vivemos o machismo no mundo real, também podemos experimentá-lo em espaços virtuais. A Gabriela Loureiro escreveu uma matéria muito interessante sobre como esse comportamento se manifesta no mundo dos games para a Marie Claire, e a Ana Paula Freitas cobriu um tema similar para o Brasil Post, explicando por que mulheres não são bem vindas em fóruns e chans.

Não é surpresa que ambas tenham sido vítimas de ataques virtuais ao denunciar o assunto na internet, pois quando uma mulher usa a rede para expor a violência que sofre, ela recebe ainda mais violência virtual. O chamado cyberbullying envolve, mas não se limita a ameaças, mensagens de ódio contínuas, doxing (obtenção de informações sobre a pessoa na internet), DDoS (utilização de vários computadores para tirar de operação um computador conectado à internet), denúncias anônimas em nome da vítima para serviços de emergência, difamação, entre outros.

O objetivo, como sempre, é calar qualquer voz feminina dissonante. Psicologicamente abaladas, muitas das vítimas desistem de participar de atividades na rede, pois o desgaste trazido por esse tipo de situação pode ser suficiente para esgotar quem o vive. Assim, mulheres que um dia tiveram a coragem de falar contra o machismo sofrem bullying até que simplesmente desistem de fazê-lo. O que é compreensível, já que as consequências desse tipo de violência são diversas e podem deixar profundas cicatrizes, além de muitas vezes excederem o âmbito virtual.

Nem todas, porém, trilham este caminho. A Gabi e a Ana não se deixaram intimidar. Nos EUA, Anita Sarkeesian, blogueira do Feminist Frequency e uma das principais vozes contra o machismo no mundo dos games, já precisou se refugiar na casa de amigos e teve uma palestra cancelada por causa de uma ameaça de ataque recebida pela Universidade de Utah, onde o evento aconteceria – mas já deu o recado aos haters: não vai desistir da luta. O apoio de amigos e até desconhecidos é vital para dar às vítimas, em meio a um turbilhão de agressões, ofensas e ameaças, um norte para se firmar, suporte emocional e manter em mente que quem deve se calar são os agressores, e não elas.

É neste cenário triste e complexo que aparece uma esperança. E se usássemos a  própria tecnologia para vencer os bullies vituais? A criação de uma ferramenta de luta para proteger vítimas e mobilizar pessoas contra esse tipo de violência é a proposta do HeartMob, app idealizado pela Hollaback!, ONG americana e parceira do Think Olga na luta contra o assédio em locais públicos. “Após mais de 10 anos de trabalho na Hollaback!, fui assediada e atacada online repetidas vezes. Para piorar, vi líderes do nosso site, parceiros e amigos sofrendo a mesma coisa – bem como ativistas incríveis e mulheres muito bem articuladas abandonarem a internet, e o trabalho que faziam, como consequência disso,” explica Emily May, co-fundadora e diretora executiva da ONG. Vale lembrar que a Juliana de Faria, fundadora desse espaço, também recebeu milhares de mensagens ofensivas após o lançamento da camapanha Chega de Fiu Fiu.

O Heartmob começou a ser desenvolvido em 2013. Sua plataforma permite que indivíduos que estejam sofrendo ataques virtuais recebam apoio em tempo real e convquem testemunhas para agir.  Ele devolve às vítimas o controle sobre a sua própria história, que facilmente se perde em meio à enxurrada de difamações promovida pelos trolls. Quem sofre os ataques pode fazer denúncias de acordo com as leis locais contra esse tipo de crime, tornar sua situação pública e pedir auxílio a voluntários para denunciar, tomar uma providência ou intervir. Como espectador, você pode ajudar nos apelos públicos de diversas maneiras. A equipe do Heartmob lê todas as mensagens e relatos para garantir que o aplicativo se mantenha seguro e confortável para todos.

A ferramenta ainda não está disponível para download. Para se tornar realidade, foi lançada uma campanha no Kickstarter para angariar US$ 10.000,00 para o desenvolvimento completo da plataforma. Para divulgação do projeto, a Hollaback! lançou no Twitter a hashtag #MyTroll, com a qual as pessoas compartilharam suas histórias de violência virtual. Foram mais de 800 tweets com a hashtag. Apesar do bom número, curiosamente, algumas mulheres não se sentiram confortáveis contar seus casos justamente por temerem uma represália.

Jamia Wilson, diretora executiva do WAM!, uma organização parceira do Twitter na redução de ataques virtuais, é categórica: “O assédio virtual fere a liberdade de expressão e a segurança de mulheres e meninas em escala global. O foco desproporcional em cima delas na internet resulta na exclusão de suas vozes em espaços públicos, e ainda gera um tóxico fardo psicológico”.  “Sabemos que mulheres, pessoas de determinadas etnias e o público LGBTQ são muito mais impactados”, diz Emily. É para essas pessoas que o Heartmob vai criar um espaço no qual todos possam sentir que não estão sozinhos e que suas vozes são importantes, por mais que a internet por vezes tente lhes convencer do contrário.

 


Arte: Sofia Bonati

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