Dó, ré, mi, fá, sol, lá: sim, música é coisa de mulher também

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Björk, uma das cantoras mais famosas do mundo, falou recentemente em uma entrevista sobre o machismo que enfrenta no mundo da música. Com 30 anos na indústria, milhões de álbuns vendidos e aclamada pela crítica, ainda assim ela revelou usar de artifícios para escapar da discriminação no meio musical. Um, em particular, é de partir o coração: para ter suas ideias ouvidas, ela dava um jeito de fazer com que parecesse que tivessem partido de um homem. “Finjo que sou boba e dispenso cinco vezes mais energia do que seria necessário para fazer qualquer coisa, e aí elas acontecem”, disse ela.

Esse triste relato assinala a importância vital das mulheres conquistarem mais respeito também no mundo da música. Certas iniciativas têm se esforçado nesse sentido, como o Sofar Sounds, comunidade global que promove mini shows secretos ao redor do mundo em ambientes intimidas. Em comemoração ao Dia da Mulher, no último dia 8 de março, o festival realizou uma edição simultânea em 35 cidades ao redor do mundo para mostrar a força e o poder das mulheres na música, com atrações exclusivamente femininas.

No Brasil, o evento foi realizado na Casa de Lua, ONG feminista que serve de espaço para diversas oficinas, debates e cursos voltados para as mulheres, tornando a edição brasileira ainda mais significativa. Marcamos presença com objetivo de não só prestigiar as atrações, como mostrar parte dos desafios de ser mulher e dar espaço para o trabalho dessas artistas incríveis aqui no Think Olga.

 

DOLORES 602

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Quarteto de BH, formado apenas por mulheres, a banda acabou de lançar seu primeiro EP com 5 músicas, produzido, gravado, por elas mesmas, que também são responsáveis por todos arranjos, direção musical e criações do grupo que, devido `as diversas influências musicais de cada integrante (que vão do rock alternativo `a viola caipira), tornam sua sonoridade rica e única, sendo difícil encontrar um gênero que se encaixe no tamanho da banda.

A formação exclusivamente feminina não foi uma escolha inicial da banda, e sim uma questão de afinidade musical. Mas com o passar do tempo, o peso e a influência que exercem apenas pelo fato de serem garotas tocando instrumentos começou a aparecer. Desde o clássico olhar curioso e por vezes desconfiado dos técnicos durante a passagem de som, até o crescente número de meninas e até crianças depois de assistirem uma apresentação procurando pelas integrantes para conversar e compartilharem a vontade de tocar guitarra, fazer aulas e ter um instrumento. Elas apontam como é gratificante ver a mudança acontecendo, mesmo que aos poucos, e poderem fazer parte dessa influência e representatividade para garotas que estão em processo de formação.

Por ainda estarem no começo da carreira, especialmente no meio autoral, numa cena muito fechada com poucas oportunidades no mercado, elas acreditam que tanto a questão diferença de cachês e correria seja igual a de uma banda formada por homens, uma vez que este é um cenário em que todos ralam muito e ganham quase nada.

Durante as apresentações, as integrantes acham difícil distinguir até onde um acontecimento (como um fã mais inflamado invadindo o palco para dar um beijo na vocalista) é uma “situação de show” em que qualquer artista está sujeito, ou quando chega a ser de fato um assédio.

Mas apesar do pouco tempo de estrada, as garotas já vivenciaram uma boa dose de machismos, desde os mais velados como serem taxadas de “Clube da Luluzinha” em um título de uma matéria sobre seu trabalho, como mais absurdos como da vez em que uma das integrantes ao tentar vender o EP a um homem, foi surpreendida (e nós também) pela pergunta “mas quem tocou no disco?”.

 

LOUISE WOOLEY

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Filha de um baixista de jazz da noite, Louise cresceu entre ensaios, instrumentos e discos, iniciando sua relação com a música em casa, desde muito cedo. Sempre contando com o apoio da família, começou a tocar com o pai, fez aulas desde pequena, e aos 18 começou a se apresentar na noite, entrando na profissão com espaço e aceitação tanto na família, como no círculo de amigos músicos.

Dona de suas composições, a pianista aponta que a cena da música instrumental no Brasil já é pequena por si só, e as poucas mulheres nela inseridas são, em geral, cantoras. Fato que contribui para que Louise tenha que passar pelos clichês clássicos do preconceito da música como, ao chegar no local da apresentação, presumirem que ela é a cantora partindo da premissa de que mulher não é capaz de tocar um instrumento profissionalmente nessa área, fazendo com que ela tenha que não só fazer o seu trabalho, como provar o seu valor a cada apresentação, pelo simples fato de ser mulher.

Outro machismo que já ouviu, é insinuarem que é mais fácil chamarem-na para tocar em festivais justamente por ser mulher, sugerindo que ela fosse um objeto ou algo engraçadinho e assim, novamente, diminuindo sua competência.

 

ZÁ COELHO

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Entrando na música quase por acaso (foi sua mãe que a colocou em aulas de canto por achar que a menina levava jeito para coisa), Zá Coelho só foi se dar conta que seu negócio era cantar depois de 3 anos encarando as aulas como um hobby.

Com um disco já lançado em 2011 disponível para download, hoje Zá lança suas próprias canções, mais autorais de um jeito mais leve, soltando esporadicamente na internet. Feminista assumida e admiradora da Valesca Popozuda, em suas músicas a cantora acaba sempre abordando temas ainda polêmicos como na faixa “Tanto Barulho”, em que fala abertamente sobre sexo.

Marcada por uma fofoca machista que sofreu na adolescência, desde então começou a questionar não só o papel da mulher, mas como ela é tratada na sociedade, aceitando (e muitas vezes aplaudindo) comportamentos misóginos, machistas e sexistas. O fruto desse constante e crescente questionamento é hoje seu engajamento no feminismo, que reflete diretamente tanto no palco como em suas atitudes no dia a dia.

Solta, e sem medo de se expressar enquanto interpreta suas canções, Zá tem ciência que a mulher que se posiciona de um jeito mais seguro, sem medo de se expor, principalmente no palco, não só assusta como geralmente são interpretadas de um jeito equivocado, como se estivessem `a disposição e “asking for it”.

Por ser a única garota do palco, o centro das atenções da banda, a cantora está acostumada a lidar com todo tipo de agressão, desde ofensas disfarçadas de elogios aos gritos durante os shows, até abordagens (em formato de cantadas, assédio) ao sair de cena. Nesses casos, Zá puxa para si a responsabilidade e se posiciona de uma forma firme e tranquila, cortando o comportamento pela raiz, desmonstrando que a pessoa está sendo desrespeitosa, chegando a enfrentar o agressor, questionando quem deu-lhe o direito de tomar tal tipo de atitude.

Mesmo com tal posicionamento, a cantora não esconde como esse tipo de agressão a atinge, entristece e magoa, especialmente quando era mais nova. Para lidar com a dor, Zá optou por fazer parte da transformação, lutando diariamente contra esse pensamento de que a mulher não tem direito de ocupar o lugar que deseja, em debates, conversas, e puxões de orelha em seu próprio cículo de amigos.

Além de lidar com o preconceito de ser cantora e não tocar nenhum instrumento, como se isso diminuísse o valor de seu trabalho e talento, Zá sente que, por ser uma cantora solo e possuir apenas uma banda de apoio, na hora de negociar e fechar um show não é levada a sério como um homem seria na mesma situação. Ao ter seu trabalho tratado como uma brincadeirinha mais uma vez sua arte é diminuir e desprestigiada antes mesmo de cantar a primeira nota.

 

NANÁ RIZZINI

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Filha de um percussionista de samba que lhe ensinou a tocar pandeiro, Naná Rizzini cresceu no meio da música, pulou para a bateria, fez cursos, faculdade, e começou a cantar para se aperfeiçoar na hora de compor.

No começo não contou com o apoio da família por não enxergarem possibilidades na carreira musical, preferindo que a filha optasse por uma profissão mais convencional. Foi quando viram que nada poderia parar os passos de Naná, que hoje já possui um EP e dois discos lançados, que o apoio veio por completo.

Durante a faculdade, Naná percebeu que no exterior não há diferença de tratamento entre alunos homens e mulheres porém, em seus estudos no Brasil, sentiu que o machismo é perpetuado nas atitudes de alguns professores.

A baterista relata ainda episódios de resistência da parte dos próprios músicos que ocasionalmente dividiu o palco, como casos em que é contratada para uma turnê de um artista e precisa tirar as músicas de um dia para o outro, e há aquela falta de suporte dos outros integrantes já familiarizados com o set que, ao invés de darem um apoio no palco que faria toda a diferença, preferem ignorar, chegando a causar um certo mal estar na banda. Porém é sempre algo inicial que depois passa naturalmente, garante Naná.

Naná confessa que no começo se chateava por dentro sim, e acredita que a partir do momento em que as pessoas estiverem abertas a darem chances uma `as outras, já será um passo para o processo de desconstrução, uma vez que o machismo não acabará do dia para noite.

Hoje, a artista já criou um escudo protetor para não se deixar desestabilizar com esse tipo de atitude, e a confiar no seu trabalho, sem ter que provar nada a ninguém. Ela aponta que na verdade o problema está em quem tem o preconceito, e cabe a ela seguir em frente ignorando tais atitudes.

Quanto ao assédio no palco, pela sua própria natureza mais rock and roll, Naná acaba resolvendo “na bica”. Porém, por ser mulher e tocar “na noite”, já sofreu preconceito moral em lugares mais conservadores e limitados, como no Jockey, onde as pessoas se aproximavam de uma forma mais estranha. Nesses casos a baterista acredita que para se evitar esse tipo de situação, é necessário ter uma atitude ainda mais profissional, como além de impor limites, não dar abertura para nenhum contato indesejado.


 

Débora Cassolatto é redatora, curadora musical e DJ há mais de 10 anos nas casas rockers do baixo Augusta. Criadora do tumblr parceiro da MTV Brasil Ouvindo Antes de Morrer onde ouve, posta e compartilha impressões sobre todas as músicas do livro “1001 songs you must hear before you die”, entre outros conteúdos sobre música. Também fundou o blog Música de Menina, espaço que subverte a questão de gênero e música.

Arte: Alessandro Gottardo

 

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.