Um mergulho no mundo das domésticas

 

 

O Brasil é o país com o maior número de domésticas do mundo. Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial de Trabalho, são 6,7 milhões de mulheres na função, representando 17% das trabalhadoras do país. É para ouvir a voz dessas mulheres, que o coletivo Nós, Madalenas lança hoje o documentário Mucamas, com sessão gratuita na Casa de Lua. Com duração de quinze minutos, o filme joga luz sobre mulheres que dedicam suas vidas à vida de outras famílias. O que torna o projeto ainda mais especial é que as entrevistadas são mães de cinco integrantes do coletivo.

Ambientado na maior cidade do país, São Paulo serve de pano de fundo para relatos intimistas que revelam a necessidade de repensarmos o papel dessas profissionais no mundo em que vivemos. Conversamos com a Ione Gonçalves, estudante de Artes Visuais e editora do documentário, que nos contou mais o coletivo e o projeto do documentário.

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Como o coletivo Nós,Madalenas começou e qual é a proposta dele?

O coletivo começou com a ideia de desenvolver um longa-metragem para um primeiro edital, não foi esse que ganhamos, foi antes disso. Mas desde o começo com a mesma essência, de defender o “papel” da mulher na sociedade. E levamos esse propósito como objetivo principal pro filme “Mucamas” também, por meio dessa questão do trabalho doméstico.

 

O Nós,Madalenas é formado por mulheres e em formato de coletivo, ou seja, sem hierarquia, como foi produzir nesse ambiente criativo?

Para respeitar todas as opiniões da equipe e para que todas tivessem um peso igual na tomada de decisão, percebemos que o “coletivo” era o melhor caminho para estruturar nossa relação de trabalho, ou seja, uma relação sem hierarquia.

Chega a ser confuso explicar nosso processo de criação dentro dessa relação horizontal e intensa, mas foi a forma mais gostosa que o projeto pode se realizar. Tivemos a oportunidade de acolher o projeto de coração cheio, todas nós nos sentimos essenciais e carregamos o mesmo sentimento de realização e doação.

 

Como surgiu a ideia do documentário ‘Mucamas”?

O documentário surgiu da forma mais espontânea possível. Tínhamos um prazo para viabilizar nossa inscrição em um edital e precisávamos de uma ideia para desenvolver o filme. Estávamos todas aflitas, pois nosso primeiro roteiro não se encaixava nas premissas do edital que íamos nos inscrever. Foi a epifania da última hora mesmo. Acho que a gente trabalha bem sob pressão.

 

O que motivou o coletivo a fazer um filme sobre o trabalho doméstico? E o que te motivou a querer abordar o assunto?

A questão do trabalho doméstico surgiu naturalmente. Sempre soubemos que tínhamos muito em comum, mas a questão que surgiu nessa última hora foi uma surpresa! A profissão das nossas mães era a mesma. Carregamos o mesmo sentimento pela profissão e quando notamos — depois de uma pesquisa sobre produções de cinema com esse tema do trabalho doméstico — o quão precioso era contar essas histórias do nosso ponto de vista, fechamos a essência do filme e foi isso que mais motivou o coletivo a desenvolver o doc.

O que me motivou a fazer o filme foi ter a oportunidade de contar a história das nossas mães com um olhar mais humano. Isso faz parte da minha realidade e foi o que mais me deu vontade de fazer esse projeto acontecer.

 

Você já teve algum tipo de conflito com a profissão da sua mãe, quando ela era empregada doméstica?

Eu nunca tive nenhum tipo de conflito direto com a profissão da minha mãe. Se isso acontecesse, jamais seria pela profissão em si, mas sim como ela é considerada

 

Como foi a reação da sua mãe quando você a convidou para contar sua história e trajetória profissional para um filme?

Minha mãe ficou encabulada quando soube da realização do documentário. Me entregou a seguinte fala “Tanta coisa legal pra vocês falarem. Por que a minha história? Isso é tão normal…”. Ela ficou tímida

 

Ela já viu o assistiu ao filme? O que ela achou?

Ela ainda não assistiu o documentário completo, confesso estar guardando surpresa. Quando iniciei a montagem, decidi mostrar os 5 primeiros minutos pra ela. A história ‘tão normal’ dita por ela transparece tanta potência! Ela ficou bem emocionada.

 

Você acha que participar do filme teve algum impacto na vida nela? E na relação de vocês duas?

Essa minha participação de contar a história dela nos acrescentou acima de tudo o reconhecimento. Minha mãe nunca me deixou pensar na possibilidade de ser doméstica, até então eu não sabia dos detalhes sofridos que ela passou. Há uma relação mais humana e um olhar mais respeitoso depois dessa experiência.

 

O que você sentiu trabalhando nas filmagens onde sua mãe estava sendo entrevistada para o filme?

Durante as gravações eu sentia estar contando a história da mulher mais guerreira que conheci. Nossa principal ideia com o filme é humanizar o olhar das pessoas com a profissão, trazer esse debate à tona por meio de histórias de mulheres fortes. E me enche o coração ver que que até a minha mãe se permitiu esse olhar, esse ressiginificado. Achei incrível!

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Muitos filmes que tiveram o trabalho doméstico como tema foram produzidos por equipes de classes sociais diferentes das personagens. Você acha que o fato das filhas das entrevistadas estarem envolvidas no processo criativo e na equipe de filmagem influenciou no resultado do filme? de que forma?

Pra mim o que o documentário tem de mais precioso é o fato das filhas contarem a história das próprias mães. Acho que esse é o diferencial, nós sabemos como a profissão é encarada desde sempre, está na nossa história. O filme possui cinco histórias fortes e que carregam semelhanças entre si apesar dos caminhos de cada uma serem bem diferentes.

 

Você tem ou já teve uma empregada doméstica em casa? Caso não, você teria uma empregada?

Nunca tivemos empregada doméstica em casa e se um dia for necessário não vejo problemas. Mas se for necessário MESMO!

 

O documentário tem uma pergunta muito simples e também muito forte, que gerou respostas emocionantes e que, agora, gostaríamos de saber a sua resposta: pra você o que é ser mulher?

É viver várias vezes numa vida só. Ao mesmo tempo carregamos as maiores vitórias.

 


Natália Fava é publicitária e faz parte do coletivo feminino de audiovisual “Nós, Madalenas”, que produziu o documentário “Mucamas”.

Arte:

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.