Kaol Porfírio luta como uma garota!

Por muito tempo, fazer algo “como uma garota” foi considerado pejorativo. Infelizmente, para algumas pessoas, isso ainda é visto como sinônimo de fraqueza, vulnerabilidade ou falta de técnica. Nada disso tem qualquer fundamento na realidade e o uso dessa expressão de forma depreciativa está com os dias contados. Após uma linda campanha da Always que valoriza o que é feito como uma garota (#LikeAGirl), a ilustradora, desenvolvedora de jogos e gamer Kaol Porfírio, do Rio Grande do Sul, criou uma série de ilustrações chamada Fight Like a Girl, ou Lute Como Uma Garota. Nela, estão representadas guerreiras famosas da ficção, para provar que as mulheres também podem ser lutadoras impiedosas e inspiradoras.

Em sua página do Facebook, Kaol já desenhou Sarah Connor, Xena, Mulan e Beatrix Kiddo. Ela nos concedeu uma entrevista na qual fala sobre a série e sua experiência como mulher no mundo dos games, cuja famosa misoginia é desafiada diariamente por garotas no mundo inteiro que lutam por seu direito e sua voz em uma indústria que é em boa parte financiada por elas. A convite do Think Olga, Kaol fez uma edição especial do Fight Like a Girl só com feministas famosas. Confira abaixo as ilustras e a nossa conversa com a artista.

Pussy Riot

Como você avalia a participação feminina na indústria dos games na atualidade?

A participação feminina na industria de jogos é muito baixa. Normalmente em cursos de jogos ou de especializando na área as mulheres fazem parte de 5% dos alunos, e acredito que não deva passar dos 20% em empresas. A industria de jogos ainda é bastante nova, eu tenho esperança a presença de mulheres na industria de jogos aumente. Um movimento chamado #1ReasonWhy reuniu vários desabafos de desenvolvedoras de jogos e com eles dá para ter uma grande ideia quao hostil é a área e quanto amor você precisa ter para trabalhar na mesma.

 

Há muitas críticas sobre a forma sexualizada como as personagens de games são retratadas. Qual sua visão sobre essas críticas? São fundamentadas?

A sexualização excessiva e a objetificação de personagens femininas nos jogos não tem nada de diferente de qualquer industria de enterimento focada no publico masculino, muita vezes com a desculpa de ser apenas “fantasia” ou “liberdade do design”. Mas o que realmente acontece é a mulher sendo retratada como um objeto apenas para agradar o publico masculino, ignorando totalmente as jogadoras, que pelos últimos números do ESA, são 48% do publico. Sem falar que na maioria das vezes, as personagens não possuem nenhum valor pra trama, estão ali para “enfeite”. A mulher é, na maioria das vezes, mal representada nos jogos.

Rosa

O que as mulheres podem fazer para poder conquistar mais espaço na indústria dos games, que ainda é entendida como uma indústria masculina?

Vejo muitas mulheres se destacando na industria, isso dá força e encoraja. Na ultima Global Game Jam (evento onde desenvolvedores se reúnem para produzir jogos em 48 horas) o vídeo de abertura do evento contou com um trecho onde a desenvolvedora brasileira Amora Bettany, da Miniboss, trouxe um discuso de desconstrução bastante claro, e acredito que isso tenha atingido muitas pessoas, e quem sabe, feito elas saírem das suas “caixinhas”. Mulheres como ela, mostram que é possivel mudar o ambiente e conquistar seu espaço, sendo um exemplo para as próximas.

 

Você já sofreu algum tipo de preconceito no seu trabalho como game developer? Em caso positivo, por favor nos conte. Em caso negativo, já testemunhou alguma outra mulher sofrer preconceito?

Em um evento de jogos é comum de acontecer das pessoas me ignorarem, acreditando que estou ali apenas para “acompanhar meu namorado”. E essa reclamação não é só minha, veio de uma amiga, em um evento, que se sentiu ignorada em conversas. Eu tento sempre estar com pessoas que me conhecem e que confio, e como game developer, aqui no sul, temos uma associação de devs – adjogosrs -bastante unida, o que me deixa bastante tranquila na área. Já como gamer, a coisa muda. Somos tratadas extremamente mal em jogos online. Escondo sempre minha foto de perfil, minha voz e evito chat. Já fui chamada de muita coisas, simplesmente pelo fato de ser mulher.  Além claro, de cantadas e mais cantadas. É cansativo e humilhante.

 

Gloria Steinem e Dorothy Pitman Hughes

 

Por que você decidiu fazer a série FIGHT LIKE A GIRL? E por que você acha que ela fez tanto sucesso?

Iniciei a “Fight Like a Girl” com o proposito de desabafo, e acredito que muitas mulheres se identificaram com a série pelo mesmo motivo. Meu desejo é homenagear mulheres fortes que podemos nos orgulhar, que mesmo fictícias, inspiram a vida de muitas pessoas. Não havia nenhuma intensão de sucesso. Na verdade eu nunca imaginei que iria ter o feedback que estou tendo com a série. É gratificante e inesperado. Iniciei e publiquei. Em uma semana ganhei mil curtidas e muitos comentários, tanto de elogios quanto de pedidos. Foi então que notei o quanto mulheres se identificaram e precisavam lembram que sim, existem mulheres que lutam!

 

Quais são as próximas personagens a serem retratadas na série? Há pedidos das leitoras? Quem elas querem que apareça?

Existem muitos pedidos, muito emocionantes. Um dos mais pedidos foi da Korra, da série Avatar. Eu não imaginava que uma personagem de uma série pudesse ter ajudado tantas mulheres de tantas formas diferentes. Noto que a maioria são personagens já antigas, como por exemplo a protagonista de Kill Bill e a Xena. A lista ainda está grande e por isso não sei até quando a série vai.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.