O jogo precisa virar no futebol americano

Se você ainda não ouviu falar da NFL, se prepare: o esporte cresce no Brasil a passos largos e aumenta sua presença a cada temporada. A ESPN, detentora dos direitos de transmissão por aqui, calcula um aumento de 800% nos últimos três anos, e não espera nada menos que mais crescimento nas próximas temporadas.

O futebol americano ainda é novidade pra maioria dos brasileiros que cresceram entendendo muito do outro futebol. A ideia geral do negócio é atravessar o campo inteiro com uma bola, um pique-bandeira cheio de contato físico e regras nada simples.

A NFL surgiu em meados dos anos 20 e, desde sempre, foi considerada essencialmente masculina. Mulheres sempre foram representadas como aquelas que se incomodavam com o fanatismo de seus maridos ou como cheerleaders. De resto, homens, homens e mais homens. E se você acha que isso é verdade, um dado importante: em 2012 a liga estimava que cerca de 44% dos espectadores dos jogos eram… mulheres. Naquele ano, o público feminino que assistia aos jogos de domingo a noite – conhecidos como Sunday Night Football – era maior do que o de Glee, Grey’s Anatomy e Dancing with the stars.

E a tendência é só crescer. Existem pesquisas que afirmam que a NFL não tem mais pra onde expandir nos Estados Unidos entre os homens. Todo homem que poderia ser fã, já é fã. O próximo passo é conquistar o público feminino, mas isso nem de longe é uma tarefa fácil para um esporte que perpetua o machismo há mais de 90 anos.

Se você esteve na internet no ano passado, mesmo não ligando para futebol americano, deve ter ouvido falar de Ray Rice. O running back – jogador que corre principalmente com a bola – do Ravens foi acusado de ter agredido Janay Palmer, sua noiva na época e atual esposa, dentro de um elevador de um casino.

A princípio, o time deu apoio ao jogador e a NFL o suspendeu por apenas dois jogos. Isso até o TMZ divulgar o vídeo da câmera de segurança. Nele, o casal discute do lado de fora do elevador e depois, já dentro dele, Janay leva um soco e cai desacordada. Momentos depois é arrastada para fora, até recobrar a consciência e ser amparada por outras pessoas. O episódio desencadeou um grande debate que questionava a gravidade da situação, a punição leve e se a liga tinha recebido essas imagens antes delas vazarem ou não.

Mas esse é só o caso mais emblemático de 2014. Outros jogadores foram acusados de agressões e estupros e, a cada dia, a liga é mais cobrada por conta da condução e das medidas disciplinares adotadas para cada uma dessas denúncias.

O negócio é tão sério nesse sentido que um vídeo foi criado por um grupo de advogadas progressistas, chamado Ultraviolet, para cobrar explicações (e uma possível renúncia) de Roger Goodell, o presidente da liga há mais de oito anos, sobre os 55 casos de agressão denunciados durante o exercício dele na função.


Mas eu disse que o negócio era mais complicado. Pois é. Ao mesmo tempo, a NFL decidiu ceder 30 segundos do espaço comercial do Super Bowl, a final do campeonato que, eventualmente, tem sua magnitude comparada à de aberturas de Copa do Mundo e Olimpíadas. Nesse tempo será veiculado um anúncio da campanha nomore.org, que já luta contra violência doméstica e assédio sexual desde 2013. Isso significa que a liga abriu mão de nada mais, nada menos que US$4.5 milhões por esse meio minuto.

As tentativas têm sido realmente visíveis. Para quem acompanha o futebol americano há algum tempo, é possível notar até a presença de um novo tipo de publicidade durante os jogos. Se antes tudo girava em torno de carros, cervejas e assinaturas de lâmina de barbear, já é possível ver hoje anúncios de marcas de diamantes e pílulas para impotência, que vendem a ideia de “fazer sua mulher feliz”.

Mas estamos falando de um esporte que em sua primeira tentativa de atingir o público feminino, o fez do jeito mais clichê e bobo possível: lançou camisetas femininas cor-de-rosa. Existem trinta e dois times na liga, nenhum deles tem rosa em seus uniformes. Uma baita ideia inclusiva, né? Hoje já existem jérseis, como são chamadas as camisas, de tamanhos e modelagens que respeitam minimamente a anatomia feminina. Um empate entre o gosto das fãs e as pretensões do departamento comercial.

O desafio da liga é tirar o machismo das suas raízes mais profundas. Tão profundas que, em janeiro, uma matéria da GQ americana colocou aspas de um dos vice-presidentes da liga, Joe Browne, soltando uma pérola sobre a contratação da presidente da MTV, Sara Levinson, para um cargo na NFL: “A boa notícia é que contratamos alguém. A ruim? É uma mulher.” Ele nega, mas não poderia ser diferente.

Esse texto não quer uma liga feminina, nem que mulheres desistam de assistir futebol americano. É só pra lembrar que a gente entrou no jogo, mas ainda falta um campo inteiro pra chegar no touchdown.

 


Dre Reze é fotógrafa, jornalista formada pela UCB, quase especializada em Semiótica Psicanalítica pela PUC – SP e colaboradora da Olga. Trabalha como produtora de – qualquer tipo de – conteúdo digital em uma agência de publicidade, mas por aqui fala só sobre esportes e um pouquinho de ciência quando der.

Arte: Laura Laine

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.