A literatura erótica como emancipação feminina

Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.

No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.

Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.

Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.

Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.

Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

 

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.

As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.

Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.

A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.

Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

é condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Voltando ao Brasil do início do século 20, encontramos a explosão do Modernismo, principalmente, na década de 1920. A importância da participação feminina no movimento é amplamente reconhecida – especialmente, das pintoras Tarsila do Amaral e Anina Malfatti, além da patrocinadora Olívia Guedes Penteado –, mas a produção literária e as ideias mais disseminadas dessa corrente ainda são as de seus expoentes masculinos, como Mário e Oswald de Andrade.

 

A palavra é ousadia

Em meio à agitação do Modernismo, surge no Brasil uma escrita feminina ainda mais revolucionária: a poesia erótica de Gilka Machado (1893 – 1980). Diferente de poetisas como Francisca Júlia (1871 – 1934), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Henriqueta Lisboa (1901 – 1985), que não buscavam se colocar como mulheres em seus poemas, Gilka decide falar sobre o desejo sexual feminino e denuncia as desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres. Lançado em 1928, Meu glorioso pecado foi o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil.

Sua obra foi considerada extremamente ousada à época, não pela forma, como os modernistas, mas pela temática. O furor despertado pelas críticas moralistas que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional e afetou até sua vida pessoal. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do país em um concurso da revista O Malho. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

No desenvolvimento do Modernismo após a Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia Galvão (1910 – 1960), a Pagu, destacou-se na literatura com o romance Parque industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo. Já as poetisas que despontaram naquele momento e tornaram-se consagradas durante as décadas seguintes são as muito menos polêmicas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Apesar de sua qualidade literária, não questionavam as características do que era visto tradicionalmente como “escrita feminina”: pureza, beleza, doçura, passividade.

Com obras publicadas desde 1943, Clarice Lispector (1920 – 1977) torna-se outra referência de escrita feminina, desta vez, contrariando os estereótipos tradicionais e posicionando-se como mulher de maneira forte, contestadora e criativa. Ainda que no território da prosa, sua contribuição reverbera em todo meio literário nacional pela força da sua narrativa, uma mulher que se apropria verdadeiramente das estruturas da linguagem e da ficção, até desconstruí-las.

 

Erotismo e liberdade

A partir da década de 1950, no âmbito da poesia, destaca-se a paulista Hilda Hilst, consagrada como uma das principais autoras de língua portuguesa do século 20 nas décadas seguintes. Corajosa, questiona temas existências considerados tabus à época, como a morte, o sexo, a loucura e o divino. Sempre misturado ao sagrado, o erotismo é um dos elementos centrais de sua obra:

 

II

Demora-te sobre minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Em 1966, Hilda cria a Casa do Sol, perto de Campinas – SP, um espaço para inspiração e criação artística, onde viveu e recebeu diversos escritores e artistas para temporadas de produção e pesquisa. Uma de suas hóspedes foi a poeta paraense Olga Savary (1933 – ), que finalizou Magma, o segundo livro de poesia erótica publicado por uma mulher no brasil – 60 anos depois da publicação de Gilka Machado! – justamente durante sua temporada ali. Assim como Hilda, a poesia de Olga revela uma profunda intimidade com a natureza e a afirma a força feminina em igualdade com a masculina:

 

Nome

 

Diria que amor não posso

dar-te de nome, arredia

é o que chamas de posse

à obsessão que te mostra

ao vale das minhas coxas

e maior é o apetite

com que te morde as entranhas

este fruto que se abre

e ele sim é que te come,

que te como por inteiro

mesmo não sendo repasto

o fruto teu que degluto,

que de semente me serve

à poesia.

 

A estas duas poetas, soma-se a voz da mineira Adélia Prado (1935 – ), que explora os detalhes corriqueiros do cotidiano cheia de erotismo. Diferente das duas primeiras poetas, sua relação com o divino é fervorosamente católica, mas nem por isso deixa de questionar o pudor tradicionalmente associado ao sagrado, como mostra este poema do livro Terra de Santa Cruz de 1981:

 

Festa do corpo de Deus

 

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”.

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.

Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta arvore de execração

o que dizer é amor,

amor do corpo, amor.

 

Em 1984, Olga Savary organiza e lança Carne Viva – 1º [sic] Antologia Brasileira de Poemas Eróticos, com a participação de 30 autoras e 47 autores, entre consagrados e desconhecidos. Ainda na década de 1980, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), parte da Geração Mimeógrafo, atua como crítica literária, defendendo a literatura feminina e afronta as regras da literatura convencional com sua poética de erotismo livre e caótico:

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

A escolha do erotismo como tema por poetas que se impõem como mulheres na escrita como estas coincide com a retomada das reivindicações feministas no Brasil – que haviam enfraquecido após a conquista do voto feminino na década de 1930 e, em seguida, foram sobrepostas à luta contra a ditadura militar. O fortalecimento do feminismo nas décadas de 1970 e 80 no país foi impulsionado pelo Ano Internacional da Mulher promovido pela ONU em 1975 e com a propagação das ideias da Segunda Onda Feminista (iniciada nos EUA nos anos 1960 – 1970), que propunha o direito à libertação do corpo e ao prazer feminino.

Estas são apenas algumas das nossas escritoras até finais do século 20 – já passado! Ainda falta muito mais incentivo para que se estude e divulgue a literatura feminina brasileira, principalmente quando falamos de poesia. Daquela época até hoje, muitas outras poetas surgiram e nascem a todo momento – muitas vezes, sem que sequer nos demos conta nessa avalanche de conteúdo que nos assola. Mas mesmo que não faça barulho, cada poema feminino é um grito que liberta. Pra encerrar, dois poemas contemporâneos, um da reconhecida Angélica Freitas e outro do nosso desconhecido Circular de Poesia Livre:

 

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

 

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

 

Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho (2012)

 

 

a garota do hímen ½ rompido

 

lá vai a garota do hímen meio rompido

abalado, mas resistente

resquício de honra confuso

 

– você é virgem?

– mais ou menos.

– ?

 

lá vai ela, vontade errante

metade, rompeu com um

a outra, perdeu com outro

o restinho, foi-se com um terceiro

 

– quem tirou sua virgindade?

– ninguém.

– então ainda é donzela?

– ?

 

lá vai a garota, agora sem hímen

foi-se a película, nasceu a pele

de corpos em corpos, conhece seu próprio

amarras alheias já não lhe seguram

 

– afinal, você perdeu a virgindade?

– não, ganhei a liberdade.

– e foi com quem?

– comigo.

 

lá vai ela, mundo afora

nem tente acompanhá-la

hímen rompido

integridade intacta

 

Bruna Escaleira em entranhamento (2014)

 


 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.

Arte: desconhecido

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.