Deixe o corpo em paz!

O blog Não Sou Exposição é um dos nossos favoritos aqui da OLGA. A nutricionista Paola Altheia escreve sobre corpo, saúde e autoestima de maneira didática e bem-humorada, desconstruindo os mitos do emagrecimento e padrões de beleza. Aqui, ela fala sobre o apogeu do culto ao corpo que vivemos atualmente, apontando os resultados nocivos que acarreta. A entrevista definitiva que vai te convencer a parar de torturar seu corpo com dietas malucas e #projetos insustentáveis.

 

Como você enxerga o momento atual relativo ao cuidado do corpo, alimentação e nutrição?  

Eu identifico como preocupante. Porque o discurso vigente sobre corpo, comer e comida é simplista e dicotômico. A pluralidade dos hábitos alimentares, a afetividade e a preferência dos indivíduos deixa de ser respeitada. Muito se fala em “bom ou ruim”, “saudável ou nocivo”, “certo ou errado” , “pode ou não pode” e esquecemos que a comida é manifestação social, cultural, identitária e por tudo isso, livre de qualquer tipo de julgamento moral. Evidentemente, todos sabemos que atualmente existe uma alta prevalência de consumo de alimentos industrializados com alta densidade energética combinada com sedentarismo, que nos levou a índices alarmantes de sobrepeso e obesidade. Mas da mesma maneira que o excesso de peso pode favorecer doenças crônicas que configuram um problema de saúde pública, vejo a preocupação com o emagrecimento e estilo de vida saudável (dentro de definições rígidas e muitas vezes errôneas) como um problema de saúde coletiva igualmente alarmante. “Comer certo” é uma emergência coletiva que está nos afogando. Está na TV, nas revistas, nos anúncios, nas redes sociais, nas rodas de conversa, na literatura, em todas as formas de discurso midiático. A comunidade médica e científica está tão desesperada e sem rumo para contornar as doenças decorrentes da má alimentação, que está, literalmente, praticando terrorismo para que as pessoas façam a manutenção da saúde de modo satisfatório. Esse terrorismo, como o próprio nome indica, resulta em terror. Terror de comer. Terror de engordar. Terror de alimentos. Terror de celebrações. Terror de sentir fome. Terror de faltar a academia. Terror de gordura corporal. Terror de ter um corpo.

 

Existe um culto excessivo ao corpo? As mulheres estão mais suscetíveis a esse culto?

Sim. Absolutamente. Existe, é prevalente e é uma prática de devoção típica do século XXI. Já mencionei em outras ocasiões que estamos vivendo o apogeu da era do culto ao corpo. É interessante notar que o enaltecimento de virtudes morais foi gradualmente dando lugar à manutenção de atributos físicos. Se gerações anteriores apresentavam preocupação com a salvação da alma, atualmente precisamos agir em favor da salvação do corpo (mais especificamente, salvação da gordura e da velhice). Jejum, orações e penitência dão lugar à dieta, exercícios e antioxidantes. Na Idade Média temos relatos de mulheres que aspiravam à santidade praticando jejum severo para se aproximarem de Deus e atualmente, para se ter o corpo ideal, valem todos os sacrifícios. As mulheres são mais suscetíveis ao discurso porque desde a mais tenra idade nos é ensinado que o valor pessoal de um indivíduo do sexo feminino reside na aparência. Ser feminina é ser delicada, esguia, “princesa”. A moeda de valor do homem na sociedade é poder, dinheiro, influência, intelectualidade. Mas uma mulher que não dispõe de beleza (beleza esta, que se encaixa em critérios exclusivistas e específicos)… não dispõe de ferramenta nenhuma para ter um lugar na sociedade. O discurso midiático nos ensina que ser mulher é fazer a manutenção da própria beleza e ainda competir com as demais pelo prêmio da atenção masculina.

Entre mulheres, é típico observar conversas triviais e postagens nas redes sociais sobre dietas, “projetos” para preparar o corpo para o verão/vestido de noiva/eventos (como se o corpo precisasse de preparação para isso). Também é bem prevalente a postura de se justificar por “gordices” que eventualmente tenham sido cometidas, ou seja, sair da dieta. Mulheres têm que fazer dieta. Porque nos foi ensinado que ser mulher é ser bonita, portanto, magra. Esse diet talk, que é uma conversa incessante sobre o tema, junto com mútuo policiamento, está na boca de muitas mulheres brasileiras e do mundo, e é um franco reflexo do machismo. O que muitas dessas garotas falham em perceber é que o controle do corpo da mulher tem uma importância comportamental, cultural, política. É crucial nos colocar rédeas. Não estamos aprisionadas por espartilhos ou confinadas dentro de casa para a missão de ter filhos & cuidar da família, porém somos reféns da nossa mente e do nosso próprio corpo. Por esta razão, eu classifico a autoaceitação, a autoestima e o rompimento de padrões como fator de empoderamento e revolução. Paremos para pensar por um momento: o asco sentido pelo próprio corpo é impedimento para quantas conquistas? Desde ir à praia, praticar esportes até o rendimento acadêmico e confiança nas próprias habilidades. Temos uma crença de que a mulher É a sua aparência, que é muito difícil de desmistificar.

Quando eu questiono toda a cultura das dietas, projetos, intervenções estéticas, muitos me chamam de “radical”. E talvez eu seja mesmo. Mas me recuso a acreditar que, enquanto mulher, eu nasci para ser uma boneca de porcelana. Eu posso mais e eu SOU mais.

No entanto, entre os homens também vêm crescendo  os transtornos de imagem corporal e de comportamento alimentar. O bodybuilding é uma modalidade que popularizou muito e apresentou um crescimento vertiginoso nos últimos anos e representa as qualidades centrais do culto ao corpo. Os homens recebem a pressão para que sejam fortes, destemidos, valentes, viris e fantasiam que tais qualidades podem se tornar visíveis através de um corpo opulento, volumoso (“monstro”, “grande” e nomenclaturas do estilo). Ser “monstro” é espantar todos os presentes no recinto. É impor respeito pelo medo e por ter uma aparência ameaçadora.  Esses valores se relacionam intimamente com a cultura machista, dentro da qual não somente as mulheres são vítimas. É cobrado dos homens um comportamento estereotipado e idealizado, que causa danos emocionais e de desenvolvimento psicoafetivo. A febre da musculação faz vítimas diariamente, pelo uso indiscriminado de substâncias perigosas como medicamentos e hormônios. Vale tudo pelo corpo perfeito.

 

“Dieta detox”, “acúçar é veneno”. Por que esse terrorismo nutricional existe e como ele reflete na nutrição das pessoas?

Pra começo de conversa, veneno é arsênico, cicuta, chumbinho. Açúcar é um carboidrato e é uma substância que o nosso corpo reconhece e metaboliza perfeitamente sem que ninguém morra em decorrência disso.

“Aaah mas e a obesidade e o diabetes?” Ok.

Apenas consideremos que uma dieta com alta ingestão de açúcar refinado, pobre em grãos e fibras pode, sim, favorecer o aparecimento de doenças crônicas. Mas é preciso entender que o problema não está no alimento propriamente dito, mas sim no uso que se faz dele. O que vai definir se o açúcar faz mal é a frequência e a quantidade do seu consumo.

Em relação às “dietas detox”, acho importante ressaltar que a metabolização de substâncias no nosso organismo é realizada por órgãos e sistemas complexos como fígado, intestinos, pulmões, rins. O corpo tem plena habilidade de eliminar as toxinas e produtos metabólicos, sem que haja a necessidade de consumir “superalimentos” ou sucos verdes que potencializem ou mesmo provoquem tal efeito. É muito positivo consumir mais frutas e hortaliças, porque aumenta a quantidade de fibras, minerais e vitaminas na alimentação. Sucos de vegetais e frutas? São ótimos! Mas não provocarão milagres antienvelhecimento nem nenhuma outra promessa mirabolante do estilo. Também é legal lembrar que nem todas as pessoas têm condições financeiras para adquirir produtos orgânicos (cultivados livres de agrotóxicos), por isso, o suco de hortaliças pode ter efeitos deletérios à saúde pelo consumo exacerbado, e aí sim, podemos começar a discutir sobre veneno.

O terrorismo nutricional é a classificação maniqueísta da alimentação: é bom ou ruim. Engorda ou emagrece. Está certo ou está errado. E se você escolher errado, todo o seu sistema de qualificação moral estará em jogo. Estamos, verdadeiramente, dividindo pessoas tomando como critério o seu padrão alimentar. Fast Food é pecado. Pão francês é escândalo. O sistema de policiamento, altamente representado, inclusive, por profissionais da saúde leva ao stress, à culpa, aos transtornos alimentares, ansiedade, medo de comer e ojeriza pelo próprio corpo. Nas palavras da nutricionista Sophie Deram, amiga e mentora que eu admiro muito, precisamos “escutar o nosso corpo”. O corpo tem coisas para dizer. Sobre volume e qualidade da alimentação que necessitamos e também sobre atividade física. Ter consciência corporal e estabelecer um diálogo com nosso próprio organismo é fundamental para termos entendimento dessas necessidades, para que assim possamos administrá-lo. Muito se fala que devemos “controlar” nossa alimentação de fora para dentro, mas nosso padrão alimentar é regulado por comandos genéticos, mentais e metabólicos que vêm de dentro. Sou adepta do chamado mindful eating, que rompe com as normas dietéticas e o foco nas calorias e propõe uma nova relação com o alimento: íntima e particular.

Não me restam dúvidas de que o terrorismo alimentar não funciona, pois abordagens negativas não funcionam para nada na vida. Ninguém terá qualidade de vida e saúde plena se as diretrizes para que isso seja feito forem ditadas por ameaças, escárnio e medo. É senso comum pensar que o indivíduo primeiro emagrece e depois fica bem. Mas o que ocorre, na realidade, é o contrário. Primeiro diversas questões de desequilíbrio mental e afetivos deverão ser resolvidas… e a pessoa emagrecerá por consequência. Pessoas que se amam, se compreendem, se perdoam, se acolhem e se cuidam tratam bem do seu organismo, evitando excessos e desgastes.

Eu diria que o terrorismo nutricional acontece por termos uma sociedade altamente voltada à técnica e ao cientificismo e uma necessidade de polarizar as coisas como “adequadas ou inadequadas” e “certas ou erradas”. A sociedade ocidental, de modo geral, tem muita pouca tolerância ao discurso da moderação, o chamado “caminho do meio”. Também não gostamos de considerar aspectos psicológicos e sentimentos. Já vi nutricionistas dizendo “me recuso a me desfazer da velha máxima ‘redução calórica + exercício físico’”. A “máxima” é realmente interessante e aparentemente eficaz.Só faltou lembrar que estamos lidando com pessoas e por questões de subjetividade e diferenças de personalidade, a mudança de hábitos não é algo assim tão simples de acontecer.

 

O que é comer bem? Existe tal coisa?

Existe. Só que depende. Acho que meu ponto pode ser ilustrado por um episódio que vivi na cozinha do hospital das clínicas, onde estou fazendo estágio. Eu fico na área de produção de refeições aguardando os pedidos de dietas para os pacientes que estão internados. Somos nós quem separamos as comidinhas para: diabetes, hipertensão, insuficiência renal etc. Estávamos montando marmitas quando nos deparamos com um bilhete que dizia “hipoglicêmica”. Então a nutricionista indagou:

– Ei. Mas é DIETA hipoglicêmica ou PACIENTE hipoglicêmica?

Se fosse “dieta”, tínhamos que mandar comida com pouco açúcar. Se fosse “paciente”, tinha que ser com muito açúcar. Então alimentação é um ato que se relaciona com diversos outros fatores: quem come? Por que come? O que come? Quanto come?

Comer bem é o que é bom… Para mim! Pode ser um prato de 1 quilo de macarrão para um maratonista, ou uma água de coco para quem descansa à beira da praia. É um prato de almoço, uma porção de carpaccio ou um brigadeiro na festa de criança. Comer bem é quando um paciente que ficou se alimentando por sonda durante dias consegue enfim mastigar a primeira refeição sólida. “Comer bem” é uma história, um sentimento, uma necessidade, uma conquista.

Não existe uma receita para definir o que é “o bom” ou “o certo”. Muitas variáveis precisam ser analisadas e este é o erro de massificar a nutrição como se a regra X fosse boa para todas as pessoas.

 

Muitas revistas femininas têm seções inteiras dedicadas à dietas. O que você acha desse tipo de conteúdo?

Acho macabro. As seções sobre dieta nas revistas femininas passam a seguinte mensagem: ser mulher é estar de dieta. É controlar a alimentação e a silhueta. Porque é isso que mulheres fazem. Porque é isso que mulheres devem fazer. Acho inadequado pois a alimentação deve ser avaliada e orientada por profissionais habilitados e de forma individual. Ou seja, aquela dieta da revista é absolutamente genérica e dificilmente se adequa às necessidades de cada leitora. Quantos tipos de pessoas lêem a revista? Altas, baixas, gordas, magras, grandes, pequenas, ativas, sedentárias? Em que parte do país moram? Cada uma dessas pessoas deve ter o seu plano alimentar individualizado!

Em relação ao “dever” de fazer dieta… mito. Essa é a maior mentira que nos foi contada e não passa de mais uma ferramenta de opressão. Para colocar a mulher no seu “devido lugar”, que é o de passividade, submissão. É muito oportuno para a indústria das revistas femininas que suas leitoras estejam entorpecidas de fome. Deste modo, muitas ideias podem ser sugeridas e muitos valores podem ser passados com muito mais facilidade. Você, mulher, não precisa fazer dieta. O corpo sabe o que faz. Temos comandos de fome e saciedade eficazes, o único problema é que perdemos a consciência corporal necessária para identificá-los. Um corpo estressado por dietas fica desarmônico e a restrição alimentar tem consequências como episódios de compulsão alimentar e ganho de peso.

 

O que, em nossa sociedade, estimula a gordofobia? E quais as consequências dessa prática na vida das pessoas? 

A sociedade contemporânea é muito voltada para o corpo. Temos a aparência dos corpos como valor central a ser conservado, cultivado. Porque relacionamos qualidades morais com aspecto físico. Somos coletivamente movidos pela crença de que a gordura corporal é sinal de falta de obstinação, oportunismo, fanfarronice. A lipofobia é o pavor da gordura nos alimentos, no próprio corpo e no corpo dos outros. A gordofobia é o repúdio às pessoas gordas. A gordofobia é estimulada: pelo ideal estético atlético, pelo crescimento dos conceitos errôneos da “geração saúde” (que de saúde não tem nada), pela glamourização da magreza, pelas indústrias do emagrecimento/beleza/entretenimento e pelos discursos da área da saúde.

As consequências são as mais nefastas imagináveis: baixa autoestima, depressão, transtornos alimentares, marginalização da pessoa gorda, injustiça social, desemprego, piora na qualidade de vida, sedentarismo, maus hábitos alimentares. As pessoas têm uma tendência a pensar que se “assustarmos” o gordo, aplicarmos a tal da “terapia de choque”, a pessoa de alguma maneira irá reagir e modificar os hábitos de vida. Por esta razão, vemos profissionais de saúde (e os amigos, os familiares e a vizinha…) ridicularizando, cobrando, depreciando e menosprezando as pessoas com excesso de peso.

É imaginar que se pisotearmos a pessoa o bastante, um dia ela irá erguer-se. É senso comum, mas trata-se de uma besteira. Ninguém vai melhorar seus hábitos e passar a se cuidar porque foi xingado, humilhado, maltratado.

Não é difícil de entender porque a pessoa gorda se sente desmotivada para praticar exercícios físicos, uma vez que foi dito para ela sem parar que o corpo dela é inadequado, indesejável e feio, que só as pessoas magras são capazes e bonitas e ela é uma perdedora. Quem entraria numa academia de ginástica para fazer exercício, sendo que este ambiente é um templo de adoração à massa magra e às pessoas atléticas e definidas?

 

Qual o limite da vaidade? Como descobrir que ela virou obsessão e o que fazer a respeito?

A vaidade não tem limites. E pode, inclusive, matar. Quando “perdemos a linha” com a nossa vaidade (que todos temos, é claro) nossa qualidade de vida pode ficar seriamente comprometida.

Gostaria de deixar claro que o NSE não se posiciona contra práticas de embelezamento. Todo mundo gosta de se enfeitar, se embonecar, se admirar e admirar os outros. A humanidade sempre celebrou as formas físicas e celebrou o corpo e isso é natural. Os Egípcios gostavam de pintar o rosto e essa prática data de A.C. O que é diferente hoje é o papel central que a beleza ocupa nas nossas vidas. Ser belo é tudo. É missão, meta, obsessão. Vivemos uma mitologia fundamentada na crença de que ser magra, jovem e bonita vai abrir as portas para um pleno estado de felicidade.

Como toda obsessão, a beleza também é perigosa. A preocupação com a alimentação e o peso corporal possivelmente se tornou um exagero quando a pessoa já não se sente capaz de ter uma vida social com os entes queridos e amigos sem se sentir desconfortável. A mãe chama para almoçar e a pessoa mente que já comeu. Os amigos vão à pizzaria e a pessoa leva um potinho de salada. É sentir que não é permitido sair da linha. Nem um pouquinho. É negar um pedaço de bolo numa festa de aniversário da empresa.

Também é importante notar a hipervigilância corporal. Se a pessoa passa longos períodos na frente do espelho buscando “defeitos” e descobrindo imperfeições “novas” que supostamente não estavam ali. Se pesa todos os dias. Se sente desconfortável nas roupas, prefere peças de roupa mais larguinhas que escondam sua “bunda grande”, suas “pernas grossas” ou seus “braços gordos”. Ou, ao contrário, abusa de roupas justas, coladas, que evidenciem os músculos que parecem nunca ser definidos ou grandes o suficiente.

Também quando dados objetivos (peso, IMC e composição corporal) comprovam que não há excesso de peso (na maioria dos casos, o peso corporal já se encontra abaixo de limites seguros) e mesmo assim a pessoa não acredita ou não consegue ficar satisfeita.

E, claro, quando o que você enxerga não é compatível com o que o mundo inteiro diz. Ou seja, se a pessoa afirma categoricamente que está gorda e todos ao redor negam.

É preciso estar atento para um problema de saúde sério que se chama transtorno dismórfico corporal. As pessoas com este problema apresentam fator de risco para complicações decorrentes de restrições alimentares, abuso de exercícios físicos e cirurgias plásticas de repetição. A pessoa se enxerga sempre feia, irremediavelmente feia. Olha no espelho e sente desespero. Chora, sofre. Não consegue assimilar a própria imagem e sente que sua presença “ofende” os olhos dos demais.

Se sinais assim forem percebidos, é importante buscar tratamento. Psicoterapia, e se for necessário, psiquiatra e medicação. No caso dos transtornos alimentares os nutricionistas também podem ajudar.

 

Se você pudesse fazer uma consultoria para algumas revistas femininas e blogueiras fitness sobre como falar de nutrição de forma saudável, que palavras você cortaria do vocabulário e por quê?

Eu creio que cortaria eufemismos estranhos para a palavra “emagrecer”: afine, enxugue, seque, esculpa, modele, detone… porque é besteirol não científico e são palavras que despersonificam. Esse tipo de nomenclatura faz o corpo humano parecer uma substância maleável, controlável e moldável de acordo com a nossa vontade, o que simplesmente não é verdadeiro. Existem fortes determinantes genéticos para termos o corpo que temos e tal fato não pode ser modificado pela “força de vontade” e nem uma “dieta TOP”. Em bom português, é enganação. As palavras são convidativas e desviam o foco do significado de “emagrecer”, que é uma tarefa árdua, difícil e que acontece a longo prazo.

Também eliminaria com muito prazer a palavra “Projeto” (projeto verão, projeto biquíni, projeto casamento etc.) porque é reducionista. Atrelar a sua rotina alimentar a um projeto não é uma forma de promover a alimentação saudável porque o objetivo é sempre uma coisa pontual e efêmera como ir à praia ou uma festa… A pessoa que se entrega a “projetos” não está verdadeiramente buscando uma vida saudável, está fazendo um “sacrifício” em nome de uma compensação. E ter uma vida saudável não deveria ser sinônimo de privação, luta, sacrifício. Sempre digo: ser saudável, é agradável.

O próximo da lista é “No Pain, No Gain” (“sem dor, sem ganhos), sem dúvidas. Eu fico absolutamente abismada ao observar como a área da saúde está contaminada com uma filosofia de flerte com a dor oriunda do fisiculturismo. Dor é mau sinal. Dor quer dizer que algo não está bem. Dor é um alerta do organismo saudável. Não é verdade que tudo o que a gente faz tem que doer, tem que sangrar, tem que ser uma tortura. Existem pessoas que não consideram uma atividade física realizada se não tiver passado por um calvário. Evidentemente, isso não é saudável. É importante fazer atividade física dentro dos limites de cada corpo. Não existe nada de proveitoso em treinar até morrer. É normal faltar academia de vez em quando e também é normal não conseguir ter pleno rendimento todas as vezes. Algumas vezes a gente aguenta mais, outras menos. Tem dias que preferimos ficar em casa dormindo. E isso é normal e também é uma forma de cultivar a saúde.

Também baniria: “MAGRA” como elogio e sinônimo de coisa boa. “Tá magra, amiga” ou “agora eu vou ficar magra”. Magreza é uma característica física. Não é a oitava maravilha do mundo e não necessariamente significa que a pessoa tem saúde. Uma pessoa pode emagrecer e melhorar muito seu estado geral ou isso pode acontecer por problemas emocionais, luto, desordens metabólicas e até câncer. Ser magra não é sinônimo de saúde. Nem de superioridade. E não é um elogio. Sempre importante lembrar: nem toda pessoa gorda é doente. Nem toda pessoa magra é saudável.

Último e mais importante: “Vergonha na cara”. Esse comentário é absurdo e terrível. Atualmente temos um aumento da prevalência de doenças crônicas como diabetes, cardiopatias e hipertensão e isso acontece por inúmeros fatores, só que um surto mundial de falta de vergonha na cara não é um deles. Dizer que uma pessoa tem problemas de saúde porque “quer” ou porque “não tem vergonha na cara” é uma demonstração de ignorância e preconceito. As pessoas têm dimensão emocional, afetiva, financeira, social, física e os determinantes da saúde humana são muito complexos. Ter boa saúde e ter bons hábitos envolve muito mais do que “uma escolha” e, sejamos francos, dizer que as pessoas não têm vergonha não motiva ninguém.

 

Como podemos criar uma relação de paz com a comida e aceitação com nosso próprio corpo? Você tem histórias para dividir sobre pacientes, leitores ou conhecidos que conseguiram atingir isso?

Confiando no organismo, deixando o corpo em paz, controlando a ansiedade e não tendo pressa. Como comentei anteriormente, é comum imaginarmos que primeiro a pessoa emagrece e depois começa a se sentir bem. Mas a na realidade acontece o contrário: primeiro a pessoa fica bem. Se aceita. Se acolhe. Se harmoniza. E o emagrecimento vem por consequência. Perceber os sinais de fome e saciedade nos leva ao respeito pelo nosso corpo e quando respeitamos o nosso corpo, não comemos sem necessidade. Há muitas histórias de pessoas que mudaram suas vidas quando decidiram trilhar o caminho da aceitação. É paradoxal, mas tudo muda quando desistimos de tentar mudar tudo. Há diversos depoimentos no meu Blog sobre transformações maravilhosas e recebo mensagens e e-mails quase que diários me falando sobre como o amor próprio transformou vidas. A Keila é um caso muito especial pois é uma amiga próxima. Também tem a Raquel Rocha, que por causa do NSE tem, hoje, o próprio Blog. A Aline Xavier também. A Lu Medeiros também veio com a gente e hoje tem uma Fanpage linda chamada Ei Mulher, Melhore. Acho muito especial a história da Karol, que foi a porta de entrada para outras pessoas também enviarem depoimentos. Pra ser sincera? Estamos criando uma revolução de amor que só tem crescido!! São inúmeras histórias, incontáveis vidas modificadas. Perdi as contas. Tem um mundo de gente do outro lado da telinha!

 

Suas mídias sociais têm um approach bem humorado ao falar sobre esses temas. Elas, inclusive, tiram sarro de propagandas enganosas, denunciando os abusos de maneira leve e cômica. Por que você decidiu por essa estratégia?

Porque os abusos são engraçados. Eu sempre acho engraçado. Dentro da velha máxima “seria cômico se não fosse trágico”, acredito que a melhor maneira de enfrentar uma realidade é rir dela. E eu rio. Rio alto. Sempre que vejo capas de revistas na fila do mercado e leio os apelos e sugestões eu dou gargalhadas, porque não é possível que estejam realmente querendo me dobrar com tanta bobagem. Isso é um relato que ouço de amigas também. Quando você está imersa no discurso, tudo aquilo parece ser muito importante, mas a partir do momento que a mística se desfaz e você começa a enxergar a coisa toda com outros olhos – olhos de quem tem senso crítico e não quer ser explorada – tudo acaba se tornando muito engraçado. Não sei. Tive uma intuição de que o humor era o caminho a tomar. Dizem que eu sou engraçada, então uso um mecanismo de linguagem que domino.

 

Sei que você sofre com muita violência online. Por que você acha que as pessoas têm esse comportamento ao falarmos de saúde?

A animosidade online é grande. Com todo grande empreendimento vêm os desafios e todo bônus tem seu ônus. Tenho fãs, parceiros e amigos. E também bullys, haters e inimigos. Pra ser honesta, tem alguns nutricionistas chateados comigo. Quando você enche a sua clínica promovendo o Projeto Verão e aparece uma sirigaitinha na internet dizendo que as pessoas não precisam emagrecer para ir à praia, é pra ficar muito p* mesmo! Hahaha…

Acho que as pessoas se alteram quando falamos de saúde porque existe muita crença em discursos simplistas e extremos. Além de muita gordofobia, há muito pouco questionamento e uma impressionante tendência em repetir a máxima (falida) da Dieta + atividade física + força de vontade. Ora, todo mundo conhece essa fórmula. Todo mundo sabe disso. Se a questão fosse assim tão simples, não teríamos um tremendo problema de crescimento da obesidade no mundo!

Me lembro também de uma ocasião em que discorri sobre fisiculturismo infantil e precisei trocar meu endereço de email no começo deste ano. A comunidade bodybuilder queria minha cabeça. Também pudera. Existem certos grupos que têm conduta sectária e o nicho da musculação certamente é um deles. Também dizem por aí que eu tenho “A Fanpage que ataca nutricionistas”… Porque eu denuncio as bobagens que certos nutricionistas andam falando por aí. Mas eu juro que eu sou boazinha e nunca avancei em nenhum nutricionista. Sou da paz.

Eu sei que estou sozinha num barco à remo tentando vencer a correnteza (e correnteza braba!). Quando alguém levanta a voz e desafia o status quo, essa pessoa precisa saber que não vai ficar por isso mesmo. Vai ter muuuuuuuuuito mimimi. Cada vez que eu me sinto derrotada, abatida, eu paro e me faço a seguinte pergunta: “- Você vai recuar por causa disso?”… Até agora a minha resposta tem sido NÃO.


 

Arte: Ashley Blanton

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.