Câncer de mama: uma crítica à saúde pública

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O câncer de mama e o câncer de colo de útero são duas das principais causas de mortalidade das mulheres no Brasil. Esses temas deveriam ser considerados temas de extrema importância para a saúde pública, mas ainda são negligenciados. A Dra. Ana Luiza Antunes Faria escreveu sobre sua experiência como ginecologista e mastologista, abordando esses e outros temas relacionados à saúde da mulher:

Era para ser apenas mais uma tarde de consultas, mais uma rotina do trabalho, mas nem sempre é assim, a vida nos surpreende e me deparei com uma amiga querida, quase uma meia irmã, angustiada com um Papanicolau. Para mim, um exame de rastreamento de câncer de colo do útero tão simples, tão comum. Para ela, o exame que poderia mudar a vida. Ela veio cheia de angústias e medos inexplorados. Então escrevi esse texto na tentativa de tentar conversar um pouco sobre os medos e angústias que fazem parte da vida de muitas outras mulheres em relação à sua saúde.

Não vou começar falando sobre câncer. Vou começar falando sobre o Sistema Único de Saúde, o SUS.

Me apaixonei pelo SUS ainda na faculdade, pelas enormes possibilidades de aprendizado e tratamento que ele oferecia quando ainda era aluna de Medicina para mim e para a pequena população de Itajubá, Minas Gerais, que era atendida no hospital Escola do qual eu fazia parte — sim, em alguns lugares ele funciona. Ao prestar a prova de residência em São Paulo, somos obrigados a estudar o SUS e tive certeza de que é um sistema bem estruturado, talvez um dos sistemas de saúde mais bonitos no mundo.

O SUS é universal, gratuito e integrado. Poucos países no mundo possuem sistema de saúde com essas características. Ele é organizado de forma hierárquica, como uma pirâmide, para que todos tenham acesso a um médico de família, que conhece os problemas locais e a população, para ir se tornando cada vez mais complexo com hospitais terciários, conforme a necessidade de pessoas doentes, que deveriam ser minoria.

Tenho certeza de que aqui muitas pessoas estão virando a cara, quase tremendo na cadeira, pois estamos cansados de ver reportagens sobre pacientes em macas no corredor do hospital, sobre pacientes com câncer que não conseguem tratamento, e a pergunta naturalmente vem: por que o SUS não funciona na prática como deveria? E por que a saúde feminina é tão negligenciada?

A minha conclusão é simples: falta educação.

A população não sabe usar o SUS, não foram educados. Os médicos, que deveriam ser os educadores, muitas vezes também não sabem ou não respeitam o sistema. Os políticos desviam o dinheiro que deveria ir para a saúde pública e não investem no médico para fazer parte do SUS. Não há a educação e o investimento necessários em nenhuma etapa. E qual a consequência disso? Mal uso, desperdício do dinheiro, filas e pacientes mal assistidos.

O problema não é o SUS e sim o uso que fazemos dele. Vou explicar melhor: o rastreamento do câncer do colo do útero acontece através da colpocitologia oncótica (conhecido como exame Papanicolau). Ele é capaz de detectar células alteradas que podem sugerir câncer. Segundo o Ministério da Saúde no Brasil, as mulheres que possuem dois exames negativos (normais), deveriam fazer o seu exame a cada dois anos e não mais anualmente. Mas o que vemos é que as mesmas mulheres que aderem às campanhas são aquelas que retornam todo ano para coletar o “Papa”, mesmo que já tenham dois exames normais, enquanto há mulheres no Nordeste que nunca se submeteram ao exame. Ou seja, não estamos fazendo um rastreamento populacional e sim coletando exames no mesmo grupo de mulheres. Nesse caso, não reduziremos o câncer nem a mortalidade, não teremos condições para mudar a realidade. Diferentemente disso, na Holanda, as mulheres são convocadas pelo governo a coletar na data certa o seu exame de rotina. A data e período é estipulado pelo sistema e as mulheres aderem e aceitam, porque foram educadas, porque confiam no sistema de saúde.

Outro exemplo é o gasto que temos com ultrassonografias de mama e transvaginal. Diversos estudos demonstraram que ambos os exames não são os ideais para rastreamento de câncer ginecológico. Mas só no ano passado, foram gastos milhões de reais em ultrassonografias de mama, solicitadas pelo médico, por queixas como dor na mama e medo de câncer pela paciente. Esse pedido gerou mais consultas, mais exames e gastos, além de aumentar a fila para o exame para pacientes que realmente necessitam dele. Pacientes e sistema, todos saem perdendo.

Vejo que muitos exames são solicitados sem necessidade. As brasileiras que comparecem em consultas acreditam que o atendimento foi incompleto se não fizerem a ultrassonografia, e o médico, que está sobrecarregado com o número de atendimentos acaba por solicitar o exame, que passa a substituir o exame clínico, a conversa. E sobrecarrega ainda mais o sistema.

O dinheiro é mal gasto e no final a conta não fecha.

Além disso, a evolução da medicina diagnóstica, dos exames de laboratório, não pode nos fazer esquecer a relação médico/paciente. Exames são importantes, mas devem ser complementares. E não podemos nos tornar reféns deles.

Mamógrafos são mal distribuídos. A região sudeste concentra o maior número de aparelhos, mas eles estão quebrados e sem manutenção. E quando a paciente consegue realizar o exame, a dificuldade é conseguir um atendimento médico para mostrar o resultado — o que retarda o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama que está quase gritando naquela “chapa” da mamografia e o mais impressionante é que muitos desses tumores são palpáveis e poderiam ter sido diagnosticados durante o exame físico.

Em nosso país, na qual 30-40% dos cânceres de mama são diagnosticados em fase avançada, o exame clínico e o autoexame são tão importantes quanto a mamografia. Orientar a paciente a apalpar as mamas e mostrar para o seu médico nódulos que tenham notado pode sim mudar a realidade de várias mulheres no diagnóstico de câncer de mama no Brasil, onde nem todas conseguem realizar a mamografia.

Não há médicos nos postos de saúde de comunidade, não há médicos de família. E por quê? Pois os poucos que ainda se aventuram a fazer parte do SUS são esquecidos lá, sem plano de carreia, sem apoios para atualização profissional, sem metas dadas claras pelo governo. São médicos que, muitas vezes, não possuem ferramentas para realizar seu trabalho. Na Inglaterra, o governo distribuiu bônus quando o médico consegue diminuir a taxa de diabetes da população que assiste, o médico trabalha com plano de carreira estabelecido e, muitas vezes, perto de casa.

Diante dessa realidade, só me resta falar do políticos. Poucos deles usam o sistema de saúde, poucos o entendem e nós ficamos sem saber quais seriam as estratégias para melhorias. Mais médicos? Talvez, sim. Mais postos? Com certeza. Mas o mais importante: mais atendimento de qualidade, com menos desperdício — não importa se por cubanos ou brasileiros.

Estamos em ano de eleição e não cansamos de reclamar nos últimos dois anos sobre o sistema de saúde e a entrada de mais médicos estrangeiros. Vem aqui a minha pergunta: qual é o plano de saúde que seu candidato esta apresentando? O que ele vai fazer nos próximos anos, qual a meta, como acompanhar e cobrar? Você sabe? E aqui entra novamente a educação. Nós carecemos de educação política e é nessa hora que poderíamos lutar por mudanças, pois a ideia do SUS é linda. A gestão, não.

A negligência ao funcionamento ideal do SUS começa quando negligenciamos as eleições. O sistema público de saúde, que assegura a saúde da mulher, e a política andam de mãos dadas. Não nos esqueçamos disso. Não ignoremos isso. A responsabilidade é do governo, mas também de todas nós. Podemos começar a modificar isso com informação e com o nosso voto.

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Ana Luiza Antunes Faria é Ginecologista e Obstetra pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Mastologista da equipe do Hospital Perola Byington – Centro de Referência de Saúde da Mulher. Gostaria de entrevistá-la? Ana faz parte do banco de dados do projeto Entreviste Uma Mulher.  

Arte: Adara Sánchez Aguiano

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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