Clube do Bordado: linha, agulha e reinvenção

 clube bordado 12jpg

Historicamente, o bordado é uma atividade fortemente associada ao universo feminino. Os motivos, cuidadosamente desenhados com linha, agulha e dedicação, costumam retratar cenas puramente ornamentais cuja função é apenas decorativa, como flores e animais. De modo geral, a prática já não é uma habilidade exigida das mulheres como outrora, tampouco conserva-se intacta a tradição de transmitir a técnica de mãe para filha. Um coletivo de bordadeiras paulistas, porém, resolveu resgatar o bordado de uma forma diferente, trazendo como tema imagens e conceitos que fazem parte do universo erótico das mulheres.

As amigas Vanessa Israel, Renata Dania, Lais de Souza, Amanda Zacarkim, Camila Lopes e Marina Dini, criadoras do coletivo Clube do Bordado, estão fazendo sucesso ao representar de maneira despudorada o corpo feminino, sexo oral, masturbação e palavrões em suas delicadas criações. “É muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica, que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher ‘pra casar’ deveria saber bordar, cozinhar, etc”, explica Vanessa. Um trabalho que subverte a noção de que bordar é uma atividade engessada e obsoleta, dando a ela uma nova roupagem e um verniz artístico. As criações podem ser conferidas no site do Clube e adquiridas sob encomenda.

O que é o Clube do Bordado e por que ele foi criado?

Marina: O clube foi criado a partir do desejo de aprender a bordar e ter uma atividade nova dentro das nossas rotinas. A Rê e Lalá, que moram juntas, pediram para a Camila algumas aulas em casa e acabaram convidando as outras meninas que ficaram interessadas. Semanalmente nos encontramos na casa das meninas para bordar, bater papo e trocar ideias. Hoje o clube está virando negócio já que vimos um interesse muito grande das pessoas em adquirir nossas criações.

Amanda: O Clube do Bordado é uma boa desculpa para se reunir. Digo isso porque, antes de começarmos os projetos temáticos, só a ideia de ter um Clube já servia para facilitar o encontro em meio ao caos da cidade, acompanhado de conversas, comidinhas e updates da vida. O Clube juntou amigas e amigas de amigas com a ideia de aprender algo feito à mão, e a facilidade de ter alguém ao seu lado que pudesse ensinar a melhor forma de executar tal ponto, dar pitaco sobre um desenho escolhido, essas coisas. Cada encontro foi se tornado um evento, porque as anfitriãs, Renata e Laís, são prendadas e adoram receber bem, então a soma de todos esses fatores fez com que os encontros semanais fossem tomando forma e ganhando ideias de coleções, temas, negócio… Até que todas nos tornássemos ‘donas’ desse filhote coletivo.

clube bordado 3

Por meio de uma ferramenta muito inocente, vocês exploram a sexualidade feminina de uma maneira muito elegante. Por que a temática?

Laís: A Vanessa fez um bordado softporn e a gente amou! E um amigo nosso falou que ia ter uma feira/festival de arte pornô e sugeriu da gente tentar se inscrever. A gente curtiu a ideia de “formalizar” o clube. E a gente notou que é muito legal falar de um tema tão íntimo abertamente. Por incrível que pareça, sexualidade feminina ainda é um tabu. Trazer ela a tona, para ser pensada, discutida, é muito importante. Descobrimos que, fazer isso se apropriando de uma técnica tão tradicional e tida como “atividade para mulheres”, foi um jeito de subverter todos os significados. Tanto do bordado quanto da sexualidade. Eu convidei alguns dos meus amigos (homens) para bordar, e as respostas eram sempre em tom de deboche, como se fosse algo muito engraçado um homem bordando. Seguindo por essa linha vem a sexualidade feminina e uma tonelada de tabus. E por que não aproveitar para expor tudo isso? Fazer as pessoas questionarem o que elas entendem por um grupo de 6 mulheres que se encontra semanalmente para bordar. A gente gosta de brincar com esses elementos tidos como contraditórios, mas que fazem muito sentido juntos: tecidos delicados e floridos, cores suaves, estampas de bolinhas, tudo bordado com palavrões, insinuações se sexo oral, masturbação, perversões, etc. Acredito que o mais legal é mostrar que tudo isso pode vir junto, ou separado. Além do que o sexo, e tudo que envolve o tema, sempre foi um dos assuntos recorrentes dos nossos encontros, então era natural colocá-lo na nossa produção.

Vanessa: Partindo de um olhar mais superficial, sou apaixonada pelo contraste da técnica delicada e até inocente com nossas temáticas nada discretas. Porém, além disso é muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher “pra casar” deveria saber bordar, cozinhar, etc. Desde que começamos a expor os trabalhos do clube, temos recebido alguns depoimentos de senhoras que odiavam ser obrigadas a aprender a bordar dizendo que se tivessem tido a ideia de bordar o que bordamos, com certeza a atividade teria sido bastante prazerosa. (umas fofas!)

Como é o processo de criação de vocês?

Marina: No começo do clube não trabalhávamos com temas. Quando surgiu o tema do Popporn, cada uma de nós pesquisou ou criou imagens a partir de ideias particulares. Eu pelo menos pensei em algo que eu gosto e a partir daí sair em busca de referências e imagens. Agora já temos uma lista de coleções que queremos produzir e a próxima é a Cinéfilos. Fizemos uma pesquisa no Facebook para saber quais filmes as pessoas gostariam de ver bordados. A partir dessa lista fizemos uma seleção e acrescentamos vários outros que nós gostaríamos de bordar. Cada uma ficou responsável por alguns deles e a partir daí temos toda a liberdade de criar. Estamos coletando nossas cenas, imagens e frases favoritas e vamos desenvolver os bordados com a identidade única dos filmes e de cada bordadeira.

É preciso coragem para expor um assunto visto como tabu, como a sexualidade da mulher, de forma tão clara. Como tem sido tratar dessa questão de forma tão pública e tão artística?

Renata: O feedback tem sido ótimo! Até hoje os comentários são muito positivos e sempre recebemos mensagens de apoio e incentivo. De uma forma delicada e singela, temos representado através do bordado ilustrações e ideias com as quais muitas pessoas tem se identificado. É muito legal ver que hoje o bordado despertou nossa curiosidade e escolhemos representar nossas ilustrações através dessa técnica.

clube bordado 4

Entrevistamos a Cris Bertoluci, para a Olga, no ano passado. Ela disse que o tricotar era uma forma de conquistar a liberdade. Vocês acreditam que o bordado também tem um quê de libertador? 

Marina: Acho que sim, bordar é libertador assim como todas as expressões artísticas. Um bom exemplo disso são os homens interessados em bordar com a gente. No passado isso dificilmente aconteceria, um homem jamais se diria interessado em uma atividade destinada unicamente à mulheres. A partir do momento que você tem um bastidor e uma agulha nas mãos o bordado pertence apenas à você e é muito libertador poder decidir o que quer fazer com aquilo.

Vanessa: Sim! Acredito que o bordado seja um ótimo caminho não só para a liberdade como as meninas já explicaram, mas também para o auto conhecimento, pois além de bordarmos juntas semanalmente, parte de cada projeto é executado de modo solitário, em que apesar de termos o foco e a atenção voltados para as mãos e a feitura da ilustração, a atividade permite a livre fruição do pensamento, possibilitando o exercício da paciência para desfazer e refazer cada ponto que foi para o caminho errado e também a compreensão do tempo das coisas, já que é um processo impossível de ser acelerado.

Vocês acreditam que o trabalho de vocês seja empoderador para mulheres?

Vanessa: Com certeza. Tentamos expor assuntos como masturbação feminina, tipos diferentes de corpos e diferentes sexualidades, com o intuito de fortalecer a auto estima das mulheres. O retorno tem sido tão positivo que já fizemos um encontro aberto para conhecer melhor as meninas que gostam do nosso trabalho e pretendemos fazer outros!

Laís: Muito! Impressionante o quanto. Quando eu comecei a bordar eu já senti a força que tinha colocar para fora algo que só existia na minha cabeça. Eu sinto esse empoderamento primeiro comigo. O bordado me deu força, para eu acreditar em mim mesma, na minha criatividade, na minha capacidade de me comunicar e impor e expor os meus pensamentos. E tudo isso fica refletido no bordado que eu faço. Teve uma amiga que veio me contar que amou a idéia, que ela queria aprender a bordar também e me contou até algumas intimidades da vida dela. Foi um diálogo que se abriu. E só com muito diálogo que a gente consegue mudar os nossos pensamentos. Nossa forma de ver o mundo e de se relacionar. Que o bordado seja uma forma de abrir muitos diálogos, questionamentos, reflexões. Para que, no futuro, a sexualidade deixe de ser um tabu.


Edição: Luíse Bello

  • 0

    Avaliação geral

  • Avaliação dos leitores:0 Avaliações

Compartilhar

Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

Você também pode gostar de