Flawed: uma feminista imperfeita

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Toda essa discussão sobre o feminismo ou não feminismo da Beyoncé (que precede a apresentação no VMA do último domingo, mas se intensificou depois) me deixa com muita preguiça — ideologia não se fiscaliza, não tem manual de regras rígidas. Tentar impor o que o feminismo deveria ou não deveria ser já contradiz a minha própria ideia de feminismo. 

 
Salvo alguns poucos debates respeitosos e construtivos, parece que a maioria dos argumentos contra Beyoncé é tão desavisado que, na melhor das hipóteses, soam bastante ingênuos.

 
Mas mais do que com preguiça, uma parte dessa discussão me deixa mesmo é furiosa: é por conta de equívocos semânticos/políticos/ideológicos como esses que eu mesma demorei tanto tempo para me assumir como feminista. Acreditava que a palavra era complexa e obscura demais — fazia parte de um vocabulário que não me pertencia. 
 
Não se tratava apenas do receio em vesti-la e parecer chata — colocar a cool girl em risco, essa personagem que todas nós, em algum momento, já desejamos ou tentamos ser. Mas, muito além, o que me distanciava mesmo do feminismo era o fato de que eu não me sentia merecedora de tal “título”: não participava de manifestações políticas sobre os direitos das mulheres, não liderava abaixo-assinados ou me engajava nas causas, não me identificava com boa parte do discurso (nem com o conteúdo, nem com o tom)… e por aí vai. 
 
Só quando se tornou urgente, sendo eu uma pessoa minimamente consciente do mundo do qual faço parte, ler e conhecer mais profundamente o que estava por trás do termo é que percebi, envergonhada, que o que me separava do feminismo, acima de tudo, era apenas a minha própria ignorância.
 
Voltando à Beyoncé e ao seu feminismo “imperfeito”: como a Juliana Cunha questionou em um post no seu perfil do Facebook, qual feminista não tem suas contradições? E por que isso invalidaria a luta dessas mulheres, apenas por que elas não se encaixam no padrão da feminista ideal (de novo um padrão)? 
 
Não faz sentido que uma ideia que defenda a liberdade, inclusive a liberdade de sermos imperfeitas, acabe por nos aprisionar em mais um de tantos estereótipos: “essa sim é feminista padrão A de qualidade. Aquela outra é um B ou C. Já aquela nem feminista é.”
 
A gente tende a hierarquizar e a classificar tudo. É muito difícil apenas aceitar as diferenças, inclusive de vivências e percepções desse conceito que não tem mesmo nada de absoluto. Mas aceitar esse desafio é um caminho que pode nos fazer pessoas melhores. 
 
O feminismo é um conceito em formação e transformação e estamos nos formando e transformando junto com ele.
 
Não sou a fã mais fervorosa da Beyoncé. Admiro e respeito seu talento como show woman e gosto especialmente do seu último álbum. Ainda que ela seja uma mulher linda, rica e bem-sucedida nos falando que Pretty Hurts, também é verdade que toda mulher — inclusive Beyoncé, Gisele Bündchen, _________ (insira aqui o nome da mulher que você acha a mais incrível e maravilhosa do mundo) — inclusive as mulheres que estão dentro dos padrões, todas também sabem o quanto dói a imposição de uma beleza idealizada: ninguém nunca se encaixa completamente, ou nunca se encaixa sem sacrifício.
 
Mas não estou aqui pra falar em defesa das mulheres mais privilegiadas. Estou pra falar em defesa de todas nós. Ou, ao menos, em defesa de mim mesma. Para contar por que é que eu me encantei pelos poucos minutos que Beyoncé dominou o palco do VMA — porque, entre outras coisas, ela conseguiu levar a milhões de garotas, especialmente adolescentes, a voz da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e um trecho de seu emocionante TED We should all be feminists, no qual Adichie diz (tradução livre): 
 
“Nós ensinamos as garotas a se encolher, a tentar ser menores do que são. Nós dizemos para as garotas: ‘Você pode ter ambições, mas não demais. Você pode ser bem-sucedida, mas não demais. Do contrário, vocês vão assustar os homens.’ Porque eu sou uma mulher, é esperado que eu sonhe em me casar. É esperado que eu faça escolhas em minha vida sempre tendo em mente que o casamento é o mais importante. O casamento pode até ser uma fonte de alegria e amor e apoio mútuo, mas por que nos ensinam a desejar o casamento e não ensinam aos garotos a mesma coisa? Nós educamos nossas garotas para competir umas com as outras — não para trabalhos ou conquistas profissionais, o que acho que poderia até ser uma coisa boa — mas competir pela atenção dos homens. Nós ensinamos as garotas que elas não podem ser seres sexuais da mesma maneira que os garotos são. Feminista — a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.” 
 
Se as críticas dizem que Beyoncé é privilegiada demais, certamente Chimamanda Ngozi Adichie não é. Negra, nascida em um país pobre como a Nigéria, a escritora precisou enfrentar um mundo machista, racista e com recursos limitados para se tornar a autora premiada e consagrada de hoje. 
 
Ainda assim, poucos a conhecem. Especialmente se compararmos a quem conhece e acompanha o trabalho de Beyoncé. Portanto, ter levado a voz de Adichie a pessoas e ambientes onde ela provavelmente jamais chegaria, para mim, já é algo para se aplaudir de pé.
 
Outra das críticas que li ao feminismo de Beyoncé é a de que ela se comportaria como um objeto sexual, contribuindo para a objetificação e hiper-sexualização da mulher. Mas, gente, me digam com honestidade: você que assistiu à apresentação do VMA, você que assistiu a qualquer show dela acha que é mesmo possível chamá-la de objeto sexual sem cometer injustiça? Por que tudo que eu vejo em cima do palco é um sujeito sexual. Não vejo nada de passividade. Vejo alguém que desperta desejo, sim. Mas que também canta e dança sobre o desejo, inclusive o seu próprio. Essa é a grande diferença — e é disso também que o trecho de Adichie fala: as mulheres são serem sexuais. E sendo donas do seu corpo, das suas escolhas e do seu desejo, não são objetos. São sujeitos. 
 
 
Estou em um momento pessoal vulnerável e isso também pode ter contribuído para que essa apresentação em especial me comovesse. Um momento que eu havia escolhido viver de maneira reservada, mas essa discussão me trouxe a esse texto e acabei escolhendo falar também de mim. Recentemente, descobri uma lesão relativamente grave no útero, que podia ou não ser maligna. Depois de fazer muitos exames e ficar como uma barata tonta entre laboratórios e clínicas, passei por um tratamento doloroso, com muitos efeitos colaterais. Agora, encontrei uma médica maravilhosa, humana e sensível (quem precisar de indicação de uma ginecologista incrível, fale comigo!), que me deu segurança e tranquilidade para enfrentar essa fase de uma outra forma. Se a hipótese de perder o útero era algo que me assombrava até poucos dias, agora provavelmente vou me recuperar sem ter de passar por uma cirurgia mais agressiva. 
 
No fim do ano passado, minha mãe teve câncer e precisou remover o útero, os ovários, as trompas e alguns linfonodos. Hoje ela está ótima — teve uma recuperação impressionante, em grande parte mérito dela mesma. Mas foi um período duro. E embora nossos quadros sejam um pouco diferentes, é difícil não comparar — vivi tudo de perto com ela. Sei que, mesmo depois de ter duas filhas adultas, e de estar entrando na menopausa, minha mãe sofreu ao abrir mão de uma parte de seu corpo que ela considerava parte também do que a fazia ser uma mulher. Foi incrível acompanhar a constatação dela de que isso não era verdade — agora, talvez, ela seja mais mulher do que nunca, especialmente depois de ter enfrentado essa batalha com tanta força e coragem. É inevitável citar aqui Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher. Torna-se mulher.”
 
Pois bem, no meu caso, passado o susto e caminhando para a fase final do meu tratamento, tive de lidar por algumas semanas com todos os tipos de fantasmas internos e externos. Sou recém-casada e constantemente cobrada por amigos que têm filhos e que parecem ansiosos em saber quando teremos os nossos.
 
Não sabíamos. Nem quando teríamos, nem se teríamos. Meu marido e eu concordamos que só o tempo vai nos trazer essa resposta. E, felizmente, não temos pressa alguma, nenhum dos dois, em encontrá-la. É difícil que um casal concorde sobre isso, mas até aqui, que sorte, nós concordamos.
 
Estamos vivendo a alegria do primeiro ano de casamento, do primeiro sobrinho, curtindo os filhos dos amigos que estão chegando e, por enquanto, estamos felizes assim. Não sentimos que falta algo, nem que não falta nada, mas não consideramos ser pais agora.
 
É difícil ter de responder sempre que sim, gostamos muito de crianças, e que sim, gostamos muito um do outro, mas que não sabemos se teremos filhos. Um dia, quem sabe, descobriremos. 
 
Mas não saber trazia consigo a possibilidade do sim que, mesmo que distante, era algo com que eu gostaria de contar. Uma escolha que eu não gostaria de perder. A hipótese de perder o útero tão cedo mudava tudo. A adoção continuaria sendo possível, e é uma opção maravilhosa que jamais descartei — mesmo antes de tudo isso. Mas pensar que poderia não ter a chance de ficar grávida e abrir mão de todo imaginário que cerca esse momento foi mais pesado para mim do que eu imaginei que seria — mesmo para alguém que não romantiza a gravidez.
 
Pelo andar da carruagem, parece que não, não perderei — nem o útero, nem com ele a liberdade de escolha. Vou fazer uma pequena cirurgia que não vai comprometer a minha capacidade potencial de ser mãe. E logo estarei bem e recuperada.
 
Mas a questão é que muitas mulheres têm um prognóstico diferente. E é delas que quero falar, porque estive entre elas — e ainda posso estar. Todas nós estamos ou estivemos vulneráveis de uma maneira ou de outra.
 
Durante esse período, pensei em todos os amigos que nos perguntavam, sem saber o que se passava, quando seria a nossa vez. Independente do meu quadro delicado de saúde, seria e foi constrangedor ter de responder. 
 
A pressão social que existe sobre um casal, especialmente sobre a mulher, para que ela se torne mãe, é um dos maiores pesos com os quais temos que conviver. Para a sociedade, uma mulher que não quer ou não pode ter filhos é uma mulher incompleta.
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Conto tudo isso pra voltar a Beyoncé: enquanto todos se lembram de que ela é cercada de privilégios —  a empresária bem-sucedida, a  cantora premiada, a mulher linda e a mãe afetuosa, essa figura quase mítica também teve um aborto espontâneo e, depois, passou por depressão pós-parto. Onde está a mãe infalível aqui, a mulher flawless? 
 
Beyoncé não nasceu rica, nem loira. Seu cabelo não é liso — nem sequer ondulado como estava no palco do VMA (olha só para essas fotos mais naturais postadas em seu perfil no Instagram: aqui, aqui e aqui) . Beyoncé é negra, ainda que tenha a pele clara, e nasceu em uma família de classe média, em Houston, no Texas, com todas — ou quase todas — dificuldades que esse contexto traz consigo (veja aqui uma foto dela em 1988 e outra em 1989, também postadas em seu Instagram). Se ela tem talento, inteligência e carisma que tornaram o caminho até aqui um pouco mais fácil, que sorte a dela. Mas se hoje é uma das mulheres mais influentes do mundo, a verdade é que nem sempre foi assim. Então podemos considerar que talvez Beyoncé tenha sim mais condições do que a gente imagina para falar sobre dor, depressão, opressão, ditadura de beleza e também, por que não, feminismo.
 
As minhas fotos no Instagram certamente não mostram os dias difíceis que tive com o tratamento, nem os momentos de angústia e dor física. Mostram sim pequenos momentos de alegria, conforto e alívio que esse mesmo período permitiu. É importante a gente se lembrar de que conhece apenas uma parte da vida das pessoas — pela internet, então, uma parte muito pequena. E que a vida pode ser boa também, para todos nós, mesmo nos dias ruins.
 
Meu marido tem sido super companheiro. Minha família tem me dado muito amor. E também tive sorte ao receber carinho e apoio no trabalho.
 
Se antes desse texto, escolhi viver essa fase de maneira discreta também foi por que tenho dificuldade em compartilhar a dor. É fácil pra mim aceitar que meus amigos se alegrem e se interessem pelas minhas pequenas conquistas e felicidades diárias. Pelas minhas gatas, viagens, leituras, descobertas e bons momentos. Mas também sinto que todos temos momentos difíceis e meus amigos têm os seus. A frase: “Seja gentil. Todo mundo que você conhece está enfrentando uma batalha” nunca fez tanto sentido para mim.
 
Citando um personagem de Robin Williams no drama One Hour Photo, que mencionei em outro texto recente: “ninguém fotografa o que gostaria de esquecer”.
 
No meu Instagram, estão os momentos que eu gostaria de lembrar. Mas a vida não é feita apenas deles. Uma vez, Beyoncé disse que quando assiste a si mesma no palco, também pensa: uau, essa é a mulher que eu gostaria de ser. A própria Bey admite: a cantora, dançarina, performance girl, é uma personagem. Produzida, maquiada, ensaiada, editada. Uma parte dela, sem dúvida, mas não tudo que ela é.
 
Portanto quando Beyoncé lhe parecer privilegiada demais, ainda que seja verdade, que tal a gente se lembrar disso também?
 
E vamos parar de pedir a carteirinha dela como feminista, por favor. Cobrar que as mulheres se “encaixem”, que se casem, que sejam mães é muito cruel. Mas também não faz sentido cobrar mulheres que fizeram essas escolhas, do casamento e da maternidade, como se não fossem feministas porque escolheram um caminho mais “conservador”.
 
Essas críticas transformaram o feminismo numa caricatura de si mesmo, que não o representa.
 
Ter liberdade para ser a mulher que você quiser ser — é disso que se trata. Trocar uma regra pela outra não significa progresso algum. 
 
Se o feminismo é a ideia radical de que mulheres também são gente — como me disse certa vez uma amiga querida — acho que todos que são mais ou menos razoáveis são feministas. A maioria ainda só não descobriu. 
 
Por isso a importância de ações como essa da Beyoncé — que simplificam/desmistificam o feminismo e nos deixam mais confortáveis em assumi-lo como parte natural das nossas vidas. Ou como a Clara Averbuck escreveu depois do VMA: já pode sair do armário, galera. Tá liberado. 🙂

 


Fabiane Secches é criadora e editora da Confeitaria, uma publicação independente sobre cultura, cinema, literatura, artes e comportamento. Saiu do armário há dois anos, quando finalmente entendeu que era feminista desde sempre. Uma feminista imperfeita e cheia de contradições, mas, ainda assim, uma feminista.
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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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