A cultura da bonitice

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A atriz Kristen Stewart constantemente vira alvo de críticas por não ter o hábito de sorrir em fotos. Alguns dizem que é ruim para os negócios e que ela contribui para que a indústria e o público em geral a percebam como uma pessoa antipática. Sua aparência séria a faz parecer infeliz, dizem, ainda que mesmo sem mostrar os dentes ela seja considerada uma das mais belas atrizes de Hollywood. Em uma entrevista para a Vanity Fair, ela comentou o assunto:

“Eu tenho sido muito criticada por não estar com uma aparência perfeita em todas as fotos. Eu aguento muita merda por isso. Mas isso não me envergonha. Na verdade, tenho orgulho. Se eu saísse perfeita nas fotos o tempo inteiro, as pessoas que estivessem no mesmo ambiente que eu, ou no tapete vermelho, pensariam ‘Como é falsa!’. Esse pensamento me envergonha tanto que eu fico com cara de merda em metade das fotos, mas que se foda. O que importa pra mim é que as pessoas saiam dali e digam, ‘Ela era legal. Ela se divertiu. Ela foi sincera.'”

A honestidade da atriz diante das lentes inspirou um artigo do The Grindstone que defendeu seu direito de não sorrir o tempo todo. Afinal, o seu trabalho não é o de aparentar felicidade em entrevistas e tapetes vermelhos, mas interpretar personagens da melhor maneira possível. Contanto que seja ótima nos papéis que aceitar, pouco devia importar a forma como posa para fotógrafos e paparazzi.

Principalmente porque, da ala masculina, isso não é cobrado. O artigo cita James Franco, que quase não sorriu quando foi apresentador da cerimônia do Oscar em 2012. Além disso, é muito comum que atores não sorriam em pré-estreias, e nem por isso achamos que estão aborrecidos com alguma coisa. Eles estão isentos do que eu gosto de chamar de a cultura da bonitice: a constante obrigação feminina de estar sempre bela e à revelia de suas próprias emoções – que devem, de fato, resumir-se a uma só: a alegria, sempre expressa em um sorriso que, se não constante, deve ser fácil de obter.

Nem mesmo quem está no topo da sua carreira escapa da pressão da cultura da bonitice. Todo ano, um artista é convidado para o show do intervalo do Super Bowl, o maior evento midiático dos Estados Unidos. É a final do campeonato da National Football League e tornou-se um fenômeno tão imenso que o intervalo comercial das partidas é o mais caro do mundo, com marcas desembolsando US$ 4 milhões por 30 segundos no ar. Em 2013, foi a vez da Beyoncé se apresentar.

Ser escolhido para cantar no Super Bowl é um ponto alto na carreira de qualquer músico. Nomes como Diana Ross, os Rolling Stones, Madonna e Paul McCartney já se apresentaram para os milhões de espectadores do Halftime Show. O show da Beyoncé, para 108 milhões de pessoas, foi impecável. Não havia dúvidas de que ela arrasou. Mas nem mesmo tamanha honraria impediu a assessoria da cantora de entrar em contato com o Buzzfeed após o espetáculo, solicitando para que fossem retiradas desta matéria algumas fotos do show que não a favoreciam.

Ou seja: essa incessante busca pela perfeição chega ao cúmulo de que os registros de uma mulher (que após anos de exposição na mídia já nem precisa provar mais nada em relação à sua aparência) dançando, obviamente despreocupada com a maneira como vai aparecer nas fotos e, por isso, fazendo caretas e poses estranhas, sejam vistos como negativos para a sua imagem.

O contra-ataque

Por outro lado, algumas personalidades do show business estão se rebelando contra essa opressão. Em 2011, as atrizes britânicas Emma Thompson, Kate Winslet e Rachel Weisz formaram a  British Anti-Cosmetic Surgery League, ou seja, a Liga Britânica Anti-Cirurgia Plástica, se colocando abertamente contra o uso de botox e outras plásticas para mulheres acima dos 50 anos – intervenções cujo objetivo nada mais é do privar as mulheres de emoções faciais. Emma, a mais velha das três, na época afirmou: “Estamos nesse terrível mundo impulsionado pela jovialidade no qual todo mundo precisa aparentar ter 30 aos 60”.

Elas estão certas. O envelhecimento da mulher é indesejado, especialmente no cinema. Um estudo da Vulture com dez grandes atores de Hollywood  revelou que, nos seus principais filmes nos quais tinham um par romântico, conforme eles iam entrando nos 40, 50 ou 60 anos, suas parceiras em geral se mantiveram entre 20 e 30 e poucos anos.

Outras atrizes, como Jennifer Lawrence e Claire Danes, por exemplo, também já deixaram claro que não se importam com a polícia da beleza. A primeira se tornou um símbolo para muitas mulheres ao adotar uma postura de porta-voz da normalidade em Hollywood. Jennifer sempre fala sobre o seu amor por comida e não tem medo de usar seu rosto para se expressar. Seus trejeitos já lhe renderam um Tumblr dedicado às suas expressões faciais, o Faces of Jennifer Lawrence.

Já Claire Danes é mais reservada, porém fez questão se posicionar quanto às críticas e à chacota virtual em torno de sua cara de choro. Interpretando a oficial da CIA Carrie Mathison no seriado Homeland, ela constantemente faz cenas em que aparece às lágrimas. A entrega com que interpreta a personagem levam a atriz a ficar com uma aparência que, pela falta de hábito em ver mulheres verdadeiramente em prantos na televisão, causou estranhamento em muita gente.

Ao ser perguntada sobre a polêmica pela revista Glamour, Claire deu risada:

“Bem, é verdade, ela se emociona bastante. Mas eu acho que, na verdade, os sentimentos são difíceis para as pessoas. Acho que elas ficam desconfortáveis por demonstrações irrestritas de emoções. Mas, sabe como é, esse é o meu trabalho. Eu não tenho esses medos. Eu nunca realmente me preocupei em estar bonita na tela. Simplesmente não é o meu jeito. Estou preocupada é se estou interpretando um belo personagem.”

A modelo Cara Delevingne é mais uma que faz bom uso de sua popularidade para questionar os padrões estabelecidos. O movimento que ela está fazendo com suas selfies cheias de personalidade no Instagram e com a sua maneira despojada de lidar com as câmeras é comparável ao de Twiggy e Gisele Bundchen em suas épocas. Cara não tem medo de ficar vesga, torta e agir de maneira absolutamente divertida. Ela não teme perder contratos ou fãs ao se vestir como um cachorro quente ou fazer caretas. A sua audácia, na verdade, tem sido recompensada com mais empresas que desejam ter a personalidade da moça associada às suas marcas e projetos. “Eu tento ser real e manter a minha vida real. Não espero que ninguém ache que sou perfeita, porque eu não sou”, já declarou.

Esse cobrança, porém, não está restrita ao show business. Não importa se a mulher é recepcionista ou CEO de uma grande empresa: o mundo espera que ela sorria e ostente o tempo todo aquela aparência “natural” que somente uma miríade de recursos artificiais podem proporcionar. Até porque natural de verdade é ter rugas, olheiras, espinhas, dobrinhas, caretas, linhas de expressão, pés de galinha, bigode chinês, frizz no cabelo, sobrancelhas grossas (ou finas!), cílios pequenos e tantas outras coisas que as mulheres são ensinadas a esconder com técnicas que aprendem a aceitar como rotina desde a adolescência – e, em alguns casos, até da infância.

A revolução das caras-lavadas

O lado bom é que esse cenário está mudando. Nos últimos anos, além do surgimento de celebridades que se declaram abertamente contra os padrões de beleza,  a internet deu espaço para que a insatisfação feminina com a obrigação de estar sempre impecável tomasse forma de movimentos que ajudam as mulheres a despertar quanto a essas imposições sociais.

Recentemente, a Leandra Medine escreveu um post com os motivos pelos quais ela não usa maquiagem. Ela tem um blog, que já virou livro, chamado The Men Repeller, cuja proposta é vestir-se de maneira “ofensiva” que resultará em repelir os membros do sexo oposto. Ela defende a liberdade feminina de vestir o que quiser sem se preocupar se isso vai atrair os homens ou não. É a moda que não necessariamente valoriza o corpo da forma como estamos acostumadas a entender essa valorização, mas que representa e dá destaque à personalidade da mulher. Em seu texto, a Leandra declara: 

“A razão pela qual eu não uso maquiagem é porque sou preguiçosa. E não me leve a mal – eu sou sou tão otária pelo mais novo ‘creme anti-idade milagroso’ quanto qualquer um. Só porque eu não uso lá muita maquiagem não quer dizer que eu não acredito em uma pele bonita (…) Ainda mais importante que isso, eu estou confortável com a minha aparência. Eu não odeio o que vejo quando olho no espelho. Mesmo que legiões não concordem. Eu aceitei o reflexo que me é fielmente devolvido por seus bônus e suas falhas. Eu sei que há grossas olheiras sob meus olhos. Aprendi a apreciá-las. Eu notei que meu nariz vai ficando um pouco mais torto quase que mensalmente. Tudo bem. Eu sei que há rugas prontas para tomar seus lugares como residentes de longo prazo na minha testa a qualquer momento. Meu pai também tem dessas, e eu acho cativante.”

Abrir mão da maquiagem está se tornando uma forma de retomar a liberdade feminina de mostrar o seu rosto como ele é, limpo, e não sentir vergonha por isso. O blog Girls With Style lançou a campanha Terça Sem Make, em que as leitoras postam selfies sem maquiagem. A ideia é não usar maquiagem às terças-feiras e registrar o feito nas redes sociais usando a hashtag #terçasemmake.

Nuta Vasconcellos, jornalista de moda e uma das criadoras do GWS, contou que a repercussão da campanha tem sido positiva. “Descobrimos que tem muita mulher querendo quebrar esse ciclo. Muitas garotas postam suas fotos no Instagram só com a hasgtag, mas muitas dividem também as suas histórias. E ficamos super emocionadas ao nos darmos conta de quanto esses pequenos movimentos fazem grandes transformações.”

Entre as histórias compartilhadas, está a da moça cujo próprio namorado nunca a tinha visto sem maquiagem. “Ela acordava antes dele pra se maquiar”, revela Nuta. Outro caso marcante foi o de uma garota com muitos seguidores no Instagram que aderiu à campanha e assumiu que tem uma mancha no rosto que ninguém conhecia, pois sempre a escondia com base, corretivo e afins.

Para a blogueira, a maquiagem hoje é muito mais que um acessório de beleza. “Deixou de ser uma brincadeira gostosa e se tornou obrigação. Acreditamos que tudo o que uma mulher NÃO precisa é mais uma regra de como deve ser sou corpo, seu rosto, seu cabelo. Várias empresas tem como norma a funcionária mulher estar maquiada. Faz parte do uniforme. Parece besteira, mas a mensagem por de trás disso é muito forte. É como dizer que uma mulher não está apresentável sem maquiagem.”

Dessa forma, elas acabam entrando em um ciclo vicioso. Além do trabalho, nos fins de semana também querem estar bonitas (= se maquiar) para sair, ver os amigos e namorar, e assim a maquiagem se torna uma rotina diária. “A pele nunca descansa, nunca respira e o mais grave: você passa a cada dia se achar mais e mais feia sem make, afinal, você quase nunca está sem”, enfatiza Nuta.

Vale lembrar que o Girls With Style e a #terçasemmake não querem acabar com o uso desse recurso. “Não somos contra a make! Também usamos e amamos, o que somos contra é a escravidão. Essa obrigação de estar maquiada para estar ‘apresentável’ caso contrário vão te perguntar se você está doente ou dizer que você está pálida.”

Até porque a maquiagem pode, sim, ser uma grande aliada na busca da auto-estima. A marca de comésticos Dermablend lançou uma interessante campanha na qual convidou duas mulheres,  Cheri Lindsay e Cassandra Bankson, que sofrem de vitiligo e acne severa, respectivamente, para contar suas experiências com a maquiagem. Ambas falaram sobre como o uso dela as ajudou a conquistar uma aparência que as deu mais confiança. No vídeo, Cheri diz: “Escolhi buscar uma alternativa. Algo que pudesse colocar no meu rosto e ajudasse as pessoas a ver além do choque inicial de ‘oh, o rosto dela é branco, mas ela é uma garota negra!’, algo que as fizesse literalmente ver através disso e enxergar quem eu sou como pessoa. Isso me tornou uma pessoa mais acessível.”

Outro movimento da internet que está revertendo a lógica da bonitice são as uglies, selfies que retraram as mulheres fazendo uma cara bem feia – a pior que conseguir, se possível. O fato é que tirar uma boa foto de si mesma dá muito mais trabalho do que parece. São muitas tentativas e erros até que se encontre a iluminação, o ângulo e o look almejados. Foi com uma certa insatisfação com esse compromisso que nasceram as uglies. O Tumblr Pretty Girls Making Ugly Faces, por exemplo, reúne uma coleção de fotos de seguidoras que toparam o desafio de fazer uma selfie perfeitinha e uma bem feia. As duas são colocadas lado a lado, fazendo um antes-e-depois. Pode ser enviada só a foto com careta também, contanto que ela esteja bem caprichada.

Por trás dessas iniciativas, reside uma mensagem muito forte: a de que as mulheres estão cansadas, mas não se importam mais de parecer cansadas. Atrás de cada sorriso, de cada camada de base e de cada picadinha de toxina botulínica está escondido um desejo de agradar aos outros que custa às mulheres tempo, dinheiro, energia e um enorme desgaste emocional.

Mas a cada uglie, a cada #terçasemmake e cada vez que uma mulher busca a liberdade de ser quem ela é e encontra beleza nisso, estamos enfraquecendo a intensidade dessa tirania e ficando menos cegas para o fato de que a única verdadeira necessidade que temos é a de ser feliz. E para satisfazê-la talvez seja preciso perder menos tempo com maquiagens, sorrisos forçados e emoções escondidas para agradar os outros, e mais tempo tentando descobrir como agradar e ser fiel a si mesma.


 

Ilustração: Laura Callaghan

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Sobre Luíse Bello

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