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As seguidoras de Ada Lovelace

 

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Diana Assennato é uma das fundadoras do Arco,  startup que inovou a experiência de e-commerce ao desenvolver um sistema de compras pelo Instagram. Jornalista e mestre em mídias digitais pela Goldsmiths University of London, ela conta que, durante a criação da empresa, viu na prática o preconceito de gênero que ainda existe nesta área. “Eu só fui acreditar que essa era uma verdade do mundo tech quando comecei a frequentar eventos e perceber que o universo é esmagadoramente masculino e muitas vezes misógino.”  Por isso, criou ao lado de Natasha Madov a Ada, um portal de tecnologia que incentivar a participação feminina na área (o nome é uma homenagem à Ada Lovelace, mãe da programação). “Ainda vai demorar muito para a proporção de mulheres e homens se equalizar na indústria da tecnologia, mas o que eu tenho feito é ser um pouco menos humilde e um pouco mais assertiva.” A seguir, nosso papo com Diana:

Como você acha que o Arco pode impactar no formato de compras na internet? 

Basta olhar um pouquinho só para frente (e para trás) para entender que o futuro do e-commerce DEVE contemplar o poder do mobile e a tração das redes. Não acho exagero afirmar que as redes sociais são um contexto e uma condição da internet e não uma tendência situacional. Nesse sentido, qualquer produto ou serviço que queira ser à prova de futuro deve olhar para esse contexto antes de qualquer coisa. Cada vez é mais difícil atrair tráfego para os nossos sites, mas ao mesmo tempo estamos cada vez mais inseridos em todo tipo de mídias sociais. Desde o inevitável Facebook até as que atendem nichos muito específicos; é lá onde passamos grande parte do nosso tempo, exatamente por elas condensarem vários estratos da nossa vida on e offline. O Arco nasceu e tem crescido com isso em mente, criar pontes mais transparentes para que ofertas e demandas conversem livremente sem a força opressora da publicidade. A nossa ideia não é transformar a sua timeline em um shopping, aliás, é justo o contrário: queremos que cada um escolha quando e como usar a nossa ferramenta na sua rede social preferida. Não sabemos se o Arco pode mudar o formato do e-commerce no Brasil, mas com certeza está apontando em uma direção para a qual muitas empresas deveriam estar olhando.

O projeto encontrou algum tipo de resistência? E o que tem sido feito para contorná-la?

Trabalhar com inovação já cria uma resistência extremamente desafiadora. Como prever o que desperta o desejo nas pessoas? Como provar que o seu negócio tem futuro se não tem ninguém fazendo o que você faz? O que deve ser considerado sucesso quando o seu modelo de negócio é único? Eu tenho certeza que me faço muito mais perguntas do que conseguirei responder nesta vida, mas esse é o meu grande motor. Ao mesmo tempo, a inovação abre espaços, cria caminhos muito inesperados e funciona como um pretexto incrível para testar, experimentar e também falhar sem medo e sem culpa.

Sobre a questão da desigualdade de gêneros, eu só fui acreditar que essa era uma verdade do mundo tech quando comecei a frequentar eventos e perceber que o universo é esmagadoramente masculino e muitas vezes misógino. Fiquei triste, queria que fosse diferente para poder contar para as pessoas que basta a gente dar as caras, mas não é bem assim. Quando você vai a um evento, workshop, palestra e diz que trabalha com internet, logo te perguntam qual é o seu blog. “É de moda?”, como se a nossa expertise se resumisse à curadoria de looks do dia ou tutoriais de maquiagem.

Posso dizer sem culpa que desde que criamos o Arco eu passei por duas experiências extremamente desagradáveis nesse sentido, por isso mesmo hoje eu estou escolada. Não adianta chorar ou espernear: ainda vai demorar muito para a proporção de mulheres e homens se equalizar no universo da tecnologia, mas o que eu tenho feito é ser um pouco menos humilde e um pouco mais assertiva. Eu tenho essa característica de “play it down”, mas quando se está lá no meio da selva a gente precisa ter, sim, um aperto de mão firme e olhar certeiro. O importante é convencer as pessoas de que você sabe exatamente do que está falando (por incrível que pareça às vezes esse benefício nos é tirado por sermos mulheres).

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Como você avalia a participação feminina nas compras online?

Massiva! Já representamos 50,2% das compras feitas online com um ticket médio bem elevado. É engraçado porque, semanticamente, a mulher não se sente partícipe do mundo da tecnologia ou da internet, mas é ela que escolhe o seu smartphone, ela é fiel às marcas e a empresas digitais e é responsável pela compra de 85% dos gadgets que entram em uma casa. Além disso, eu vejo que o perfil da internauta brasileira é surpreendentemente aberto a novas ideias, experimentos e tentativas. O aspecto social também influi muito para a geração de leads nas vendas: se uma mulher gosta do que você vende, ela não só vai recomendar o seu produto para uma amiga, mas também vai mandar o link já com cupom de desconto. A mulher é viral por natureza!

Quais são as principais mudanças necessárias no cenário tecnológico atual? E como você quer contribuir para elas?

Hoje eu defendo apenas uma grande mudança: precisamos incluir a reflexão humanizada sobre o uso da tecnologia no desenvolvimento da própria tecnologia. Chega de reflexão de mercado. E isso não pode acontecer de cima para baixo, mas ao contrário. É o nosso uso e a nossa experiência de uso que deve ajudar a criar os caminhos do futuro, e não o que grandes empresas querem nos fazer comprar como um item de sobrevivência básico. É claro que muitas vezes nós não temos acesso a tudo que está sendo desenvolvido, mas prestar atenção na direção desses avanços, tentar conectar alguns pontos, discutir entre amigos e ouvir opiniões é extremamente importante para que a tecnologia e a internet sejam uma esfera prazerosa nas nossas vidas, e não opressora. As mudanças e inovações continuarão acontecendo porque (ainda bem) esse universo é infinito, exponencial, lindo e poderosíssimo, mas se conseguirmos cobrir esse bolo com uma grossa camada de reflexão humanista podemos criar um novo fluxo de desenvolvimento tecnológico, menos mercadológico e mais antropológico e social.

Sabemos que mulheres e tecnologia têm tudo a ver, mas qual é o caminho para retomarmos esse espaço?

Ter pessoas falando conosco. Na minha opinião a retomada do espaço só vai acontecer quando nos sentirmos parte dele, e para isso precisamos de pessoas falando com a gente, na nossa linguagem. Grandes jornais reduzem a editoria de tecnologia a meio caderno uma vez por semana ou a manchetes de compras e vendas milionárias de empresas. Para as revistas femininas o assunto sequer entra na pauta. Só que alguém tem que avisar esse povo que hoje, em alguns países, a mulher já gasta mais por ano em artigos tecnológicos do que em maquiagem. A mídia especializada é técnica demais: siglas, abreviações e números que não fazem o menor sentido e acabam nos afastando… Além disso: exemplos! Queremos ver exemplos de mulheres que usam, fazem, curtem, quebram, jogam, pensam e vivem a tecnologia de forma natural. Onde estão essas pessoas? Ah, sim, aqui mesmo! Só não nas capas de revistas nem nos altos escalões de grandes empresas de tech.

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O que é o Ada e o que o projeto tem a oferecer?

O Ada nasceu para ser o principal site acessado por mulheres que querem tirar as suas dúvidas, entender melhor ou simplesmente aprofundar seus conhecimentos sobre tecnologia, internet, comportamento digital e vida online. De uma forma ou de outra (e independente da gente gostar ou não), esses assuntos permeiam todas as esferas da nossa vida, seja através dos nossos smartphones ou da nossa dificuldade velada em entender a real diferença entre o Google Drive e o Dropbox. O ritmo das mudanças tecnológicas é rápido demais pra gente presumir que todo mundo está atualizado com tudo, por isso queremos oferecer um lugar para conversar sobre tudo isso com calma, sem pressa e com espaço para reflexão.

Que conselho você daria para uma menina que deseja trabalhar com tecnologia?

1) Leia, leia, leia! Leia os velhos, leia os novos, leia o Gizmodo, leia as entrelinhas do seu feed. Tente entender o cenário maior, e não apenas a ferramenta. Lembre-se que fogo também é tecnologia.

2) Não tenha medo de cursos técnicos, mas, principalmente, faça com que matérias “de humanas” acompanhem o seu trajeto. Estude antropologia, história, psicologia. É inacreditável como as mulheres conseguem subjetivar assuntos mecânicos e abrir diálogos novos e surpreendentes.

3) Comece logo. O mercado está gritando por profissionais qualificados, paga bem e a possibilidade de crescimento é incomparável com outras áreas.

 


[IMAGENS]

1) McTurgeon

2) The Reconstructionists

3) Women Rock Science 

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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